Esse pensamento aparece na consideração de paralelos e opostos em pitagóricos como
Alcmeão[33] e Filolau, este último tendo descrito uma embriologia segundo a qual o
bebê recém-nascido contém apenas o elemento do calor, mas que, ao respirar, passa a
absorver o oposto, o do frio, harmonizando-se de forma análoga ao que ocorre em sua
cosmologia do Fogo Central, em que o nascimento do cosmos se dá quando o fogo
central limitado puxa o ar do Ilimitado ou que o Um absorve o tempo e vácuo como em
respiração.[34][35]
Os fragmentos de Empédocles indicam uma visão orgânica do cosmos em seus ciclos
sucessivos de Amor e Contenda, descritos pela analogia de "membros físicos"
manifestos no Deus Esfero, com sua correspondente emissão e retração, união e
separação: "Mas quando a Contenda se tornou grande em seus membros e assumiu suas
prerrogativas, uma vez que o tempo foi estabelecido para ambos, por sua vez, por um
amplo juramento" (fragmento 30) e "pois um por um, todos os seus membros o Deus
começou a tremer" (fragmento 31).[36] Isso foi também precedido de explicações de
microcosmo sobre os órgãos e membros do corpo: "Isso se manifesta na massa de
membros mortais. Em um momento nossos membros se unem para ser um no amor e obter
um corpo, no auge da vida florescente; em outro momento, novamente divididos por
contendas malignas, eles vagam uns separados dos outros ao longo do litoral da
vida" (fragmento 20).[37] Além do mais, Empédocles considerava esse sistema como em
harmonia e organizado pelos quatro elementos (por ele chamados de "raízes"),[37] e
que sensação e pensamento ocorriam devido à correspondência dos mesmos elementos,
do semelhante em semelhança com as coisas.[38]
Houve também consideração de paralelismo e isomorfismo das dimensões cósmicas em
Heráclito, na doutrina do Logos, que ele admitia como um só e o mesmo, tanto
macroscopicamente como razão e lei na realidade divina, quanto como paradigma para
a lei da pólis e na razão da realidade humana: Heráclito exortava a conduta reta
que incorporaria essa ordem da natureza.[39][40] Há indícios de que ele teria feito
uma metáfora musical e gramatical de parte e todo para explicar o universo como um
"livro da natureza", que possuía o "logos" (que em grego significava também
"texto"), formado por sílabas que teriam como componentes simples as "letras"
(grámmata ou stoicheia, esta última palavra foi adotada por Platão posteriormente
para se referir aos elementos clássicos).[39]
A ocorrência mais antiga da combinação gramatical "microcosmo" em si é vista em
Demócrito, porém utilizando-se duas palavras separadas em grego, na sua obra
perdida chamada Mikros Diakosmos,[41] conforme no fragmento 34 se lê: "no homem,
que é um pequeno cosmo (en tô anthrôpôi mikrôi cosmôi onti)".[42]
A doutrina antropocêntrica do homo mensura ou ánthropos métron, expressa na frase
de Protágoras "o homem é a medida de todas as coisas", não foi considerada pelo
público grego em seu teor cosmológico,[29] mas ela poderia admitir um significado
universal e foi abordada em caráter cívico por Platão.[43] Ela foi afirmada pelo
sofista como um desenvolvimento do logos de Heráclito, porém para Protágoras os
diversos discursos das pessoas eram condicionados às diversas aparências em fluxo
que elas experimentavam, e isso admitia opiniões contraditórias irresolvíveis, em
logoi opostos (antilogias), de modo que, entre as alternativas de opinião e
conhecimento, nenhum julgamento poderia ser falso e não se poderia alcançar uma
verdade unificada além da individual.[44][45] No diálogo Teeteto, Sócrates rejeitou
a interpretação sofística de que "cada homem" seria a medida do logos e repudiou o
consequente relativismo da verdade: "ainda não concordamos com Protágoras que todo
homem é a medida de todas as coisas, a menos que ele seja sábio".[45]
Posteriormente, referindo-se ao mesmo assunto de escala métrica, Platão afirma em
Leis 716 que "Só há uma maneira de agir, e somente um relato disso, a saber, o
antigo logos de que semelhante é amigo de semelhante, desde que se conforme à
medida; coisas que não se conformam à medida, por outro lado, não são amigas nem
para a si próprias nem àquelas que se conformam. Em nossa opinião, é Deus quem é
preeminentemente a medida de todas as coisas, muito mais do que qualquer homem,
como se costuma dizer".[40] Outro aspecto de macrocosmo-microcosmo foi apresentado
por Sócrates em relação aos elementos no Filebo 29b-e:[46]
"Vemos os elementos que pertencem à natureza de todos os seres vivos, fogo, água,
ar e terra—ou, como dizem os marinheiros sacudidos pela tempestade, terra à vista—
na constituição do universo. ... O fogo, por exemplo, existe em nós e também no
universo. ... Bem, o fogo do universo é alimentado, originado e regido pelo fogo
dentro de nós, ou, pelo contrário, o meu fogo e o seu e o de todos os seres vivos
derivam alimento e tudo o que vem do fogo universal? ... o mesmo da terra que está
em nós, criaturas vivas, e que está no universo, e com relação a todos os outros
elementos sobre os quais eu perguntei um momento atrás, sua resposta será a
mesma. ... Aplique a mesma linha de pensamento àquilo que chamamos de cosmos. Seria
da mesma forma um corpo, sendo composto dos mesmos elementos."[47]
No Timeu, Platão também considera a khôra cosmogônica como sendo replicada no corpo
humano e que, devido a isso, para se superar uma doença deve-se imitá-la, como a
"ama do universo" e protótipo, retornando ao seu estado inicial de ordem e
mesmidade em sintonia com o Demiurgo, tal como de início isso se refletia nos
movimentos da khôra na geração do cosmos.[48] Khôra é descrita em analogias
femininas e maternas, como de útero, e sua característica "vagante" ou de
"errância" (planōmēs) é também utilizada para a descrição posterior sobre o órgão
uterino no mesmo diálogo, em uma passagem que se tornou locus classicus da
histeria.[49][50]
O autor hipocrático da obra Da Dieta, que teria se inspirado em Anaxágoras,
Empédocles e Heráclito,[51][52] indica relação macrocosmo-microcosmo na fisiologia
corporal:[53]
"Tudo foi arranjado no corpo pelo fogo, de uma maneira adequada a si mesmo, em
imitação do todo, do pequeno ao grande e do grande ao pequeno (mikra pros megala
kai megala pros mikra). O ventre é o maior, reservatório de água seca e úmida,
dando a todos e tirando de todos, com a força do mar, as criaturas que lhe convêm,
matando as que não convêm. A água fria e úmida está arranjada em torno disso, uma
passagem para fôlego frio e fôlego quente, uma imitação da terra, que altera tudo o
que nela cai."
O ideal de homem perfeito na estética foi divulgado na arte grega por Policleto em
sua obra Cânon, que significa "norma" e refere-se à razão, justa medida, integrando
para a imagem do corpo o significado que a palavra presume da lei cósmica. A partir
disso, a quadratura era vista na escultura como proporção de molde. Isso
influenciou Simônides, citado também por Platão e Aristóteles, quando na Ode a
Escopas caracterizou o homem perfeitamente bom como "tetrágonos" (posteriormente em
latim, a noção do homo quadratus): "quadrado em mãos e pés e mente, construído sem
um defeito".[54][55]
Outra das primeiras ocorrências do termo "microcosmo" é vista em Aristóteles, na
passagem 252b de Física VIII, em que ele expande a capacidade de início de
movimento dos organismos biológicos ao cosmos como todo:[56]
“Se isso pode acontecer com uma coisa viva, o que impede que a mesma coisa aconteça
com o universo? Se isso pode acontecer no pequeno mundo (en mikrô kosmô), pode
acontecer no grande (en megalô)."[42]
No início da era helenística foi novamente o estoicismo, em sua física estoica, que
concebeu o universo como um único grande organismo (que inclusive chamaram de mega
zoon, "grande animal"[56]), regulado por conexões íntimas entre suas partes ou συν-
παθεία (syn-pathèia), ou seja, por um sentimento comum de compaixão que une o
esfera sobrenatural com a humana, e em virtude da qual qualquer evento, mesmo o
menor, repercute em todos os outros.[57] Nele o homem ocupa um lugar privilegiado,
como participante ativo do Logos, que anima o universo e é a presença imanente do
divino nos eventos do mundo, que é, portanto, um todo homogêneo, no qual não há
espaços vazios. Contra o Epicurismo, que explicava a realidade com base em meras
leis mecânicas, os estoicos afirmam a fluidez e a penetrabilidade dos corpos, que
se condicionam:
"[o Logos] atravessa todas as coisas mesclando-se com os grandes como com os
pequenos astros luminosos."
—Cleantes, Hino a Zeus[58]
As diferentes concepções da filosofia antiga foram finalmente retomadas e
retrabalhadas por Plotino, que recuperou, por exemplo, do estoicismo a consciência
da interdependência entre todas as partes do universo:
"De tudo o que foi dito, parece que cada ser no universo, de acordo com sua
natureza e constituição, contribui para a formação do universo com sua agência e
passividade, da mesma forma que cada parte do animal individual, em razão de sua
constituição natural, coopera com o organismo em seu inteiro, prestando aquele
serviço que pertence ao seu papel e função. Além disso, cada parte dá de si e
recebe das outras, na medida em que sua natureza receptiva o permita."
—Plotino, Enéadas IV, 4, 45
Plotino também retomou a noção de Alma do Mundo do Timeu platônico, afirmando que
"este universo é um único animal que contém em si todos os animais, tendo apenas
uma Alma em todas as suas partes".[59] Plotino passa a ser portador de uma visão
circular, com base na qual a Alma universal, nascida da emanação das hipóstases
anteriores (Um e Intelecto), emana a alma humana individual que tem a possibilidade
de retornar. É um ciclo que vai da processão à contemplação; da necessidade à
liberdade: são dois polos complementares, os dois aspectos de uma mesma realidade.
[60]
Os muitos são o reflexo do Um, "pois que cada um deles contém tudo em si e ao mesmo
tempo vê tudo no outro, de modo que em todo lugar está tudo e cada coisa é tudo".
[61] Para Plotino, a correspondência entre macrocosmo e microcosmo se dá pelo fato
de que o mundo foi criado como um espelhamento intrínseco à natureza divina, que
"necessariamente existe e não deriva de um ato de reflexão, mas de um ser superior
que gera por natureza um ser semelhante a si mesmo".[62] O Um, portanto, por um
lado é imanente no mundo, mas por outro lado é transcendente.[63] Na verdade, só o
homem tem a possibilidade do êxtase, como o único ser livre capaz de redescobrir
dentro de si a mesma estrutura hierárquica da qual se tece a realidade metafísica.
O hermetismo também propõe o princípio da analogia ou equivalência, como encontrado
nestes termos atribuídos ao lendário Hermes Trimegisto em um texto atribuído a ele,
"A Tábua de Esmeralda":[64]
Macrocosmo e microcosmo no sistema valentiniano de Achamoth, representado por
Robert Fludd como um conjunto de círculos concêntricos um dentro do outro,
diferentes em tamanho, mas iguais em aparência
Quod est inferius, est sicut quod est superius,
et quod est superius, est sicut quod est inferius:
ad perpetranda miracula rei unius.
Et sicut omnes res fuerunt ab uno, mediatione unius;
sic omnes res natae fuerunt ab hac una re, adaptatione.
O que está abaixo é como o que está acima,
e o que está acima é como o que está abaixo,
para operar os milagres da realidade Una.
E uma vez que todas as realidades são e vêm de Um, através da mediação de Um,
então todas as realidades nascem desta realidade única por adaptação.
No gnosticismo, com paralelos helenísticos como no judaísmo e hermetismo,
encontram-se passagens com a analogia tal como no Evangelho de Tomé (logia 22):[65]
"Quando fizerdes um de dois, quando fizerdes a parte interna como a parte externa,
a parte externa como a parte interna e a parte superior como a parte inferior,
quando do masculino e feminino fizerdes um único ser para que haja não mais homem
nem mulher [...] então entrareis no Reino"