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Butler 3

O artigo de Mariana Pimentel Fischer analisa as contribuições de Judith Butler para a filosofia política, destacando a complexidade de suas ideias sobre sujeito, identidade e performatividade. A autora busca esclarecer a relação de Butler com a tradição francesa e como suas obras desafiam normas sociais e identitárias, promovendo uma crítica que visa a reconfiguração do feminismo contemporâneo. A discussão enfatiza a importância da performatividade e da agência na constituição do sujeito, propondo uma reflexão sobre as normas que moldam as experiências de gênero.

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O artigo de Mariana Pimentel Fischer analisa as contribuições de Judith Butler para a filosofia política, destacando a complexidade de suas ideias sobre sujeito, identidade e performatividade. A autora busca esclarecer a relação de Butler com a tradição francesa e como suas obras desafiam normas sociais e identitárias, promovendo uma crítica que visa a reconfiguração do feminismo contemporâneo. A discussão enfatiza a importância da performatividade e da agência na constituição do sujeito, propondo uma reflexão sobre as normas que moldam as experiências de gênero.

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Ler Judith Butler:

sujeito, desidentificação, performatividade

Reading Judith Butler:


subject, desidentification, performativity

Mariana Pimentel Fischer


Docente do departamento de direito da UFPE

Resumo: As teses de Judith Butler são centrais para o debate atual


sobre filosofia política, mas nem sempre têm sido bem compreendidas
por militantes ou por acadêmicos. As dificuldades de entendimento
parecem estar conectadas ao estilo de escrita, assim como a diversida-
de de perspectivas que a filósofa mobiliza. Busco, neste artigo, tonar
mais clara a maneira pela qual Butler reconstrói ideias da tradição
francesa com o objetivo de elaborar conceitos centrais para seu pro-
jeto critico tais como sujeito, identidade, agência e performatividade.

Palavras-chave: sujeito, desidentificação, performatividade, gênero,


pós-estruturalismo.

Abstract: Judith Butler´s theses are crucial to the contemporary de-


bate on political philosophy. Her ideas, however, have not always
been well understood by activists or scholars. These difficulties are
related to her writing style as well her constant allusions to other
theorists drawn from a wide range of different theoretical traditions.
In this article, I will try to clarify how Butler reconstructs ideias from

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French Theory in order to elaborate central concepts for her perspec-


tive such as subject, identity, agency and performativity.

Keywords: subject, desidentification, performativity, gender,


post-structuralism

1. Um estilo de escrita pesado e obscuro?

O pensamento da filósofa norte-americana Judith Butler nem


sempre tem sido bem compreendido por militantes (cf.
MANZI & SCOFANO, 2015) ou por acadêmicos. Martha Nus-
sbaum (1999), por exemplo, faz fortes críticas a seu estilo de
escrita, que seria “pesado e obscuro (...) denso em menções a
outros teóricos, recrutados de um amplo espectro de tradições
distintas” (p. 38), diversos pensadores seriam mencionados em
“alusões casuais” (p. 38) e, assim, suas ideias “nunca são des-
critas com detalhes suficientes para incluir não iniciados” (p.
38). Butler (1999b), por seu turno, convoca Herbert Marcuse
para dar uma contundente resposta a Nussbaum: segundo ela,
filósofos comprometidos em realizar uma crítica radical não
falam como as outras pessoas, pois seu discurso pressupõe o
colapso do universo discursivo e comportamental para o qual
se pretende traduzi-lo (BUTLER, 1999b).
Mesmo se concordarmos que há bons motivos para isso,
não há como negar que os textos da norte-americana não são
de fácil compreensão. O meu propósito, nesse artigo, é justa-
mente desfazer mal-entendidos e ajudar aqueles que preten-
dem começar a ler os seus trabalhos. Para tanto, apresentarei
alguns aspectos relevantes de sua trajetória e tentarei mostrar
como ela mobiliza a tradição francesa com objetivo a elaborar
conceitos centrais para o seu projeto, tais como sujeito, identi-
dade, agência e performatividade.
Butler é uma pensadora heterodoxa. Não apenas em
razão das recorrentes associações inusitadas entre pensadores
de linhagens distintas, mas também por conta da maneira que
conecta teoria e prática. O seu percurso intelectual extrapola
os limites estritos da academia, envolve também uma intensa

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militância política, principalmente em defesa de direitos das


mulheres, de gays e de lésbicas. Ela se esforça para pensar lado
a lado teoria e a ação de movimentos sociais: se as práticas
devem conduzir a uma reconfiguração de conceitos da teoria,
a teoria pode também ajudar militantes a realizar uma autocrí-
tica. Nessa toada, desconfia de certas vertentes do feminismo,
sobretudo as que insistem na centralidade de identidades; mas,
ainda assim, afirma que sua teoria faz parte da tradição femi-
nista (cf. BUTLER, 1999a).
Ora, tal desconfiança com relação ao papel de identida-
des não deve surpreender. Seu empreendimento crítico está afi-
nado ao projeto de filósofos como Michel Foucault e Theodor
Adorno, já que “O julgamento opera para ambos como forma
de subsumir um particular em uma categoria já constituída; a
crítica pergunta pela constituição desses campos de categorias”
(BUTLER, 2002, p. 218). Em lugar de prescrever algum tipo de
modelo de vida; Butler, tal como o frankfurtiano e o francês,
está mais interessada em desfazer (Undo) a lógica que determina
que vidas são possíveis ou impossíveis, vivíveis ou invivíveis, e,
assim, abrir espaço para alternativas radicalmente novas. O seu
propósito é, portanto, colocar em questão o quadro normativo
que organiza nosso modo de experimentar o mundo. Adorno in-
sistia que as questões referentes à eticidade podem apenas sur-
gir, na vida social, no momento em que as normas deixam de ser
auto-evidentes. Para a filósofa, trata-se reinscrever esse projeto
no contexto do debate atual sobre feminismo, ela enfatiza, por-
tanto, o papel de uma crítica imanente capaz de provocar um
reexame do vocabulário da tradição feminista e impulsionar a
sua reconstrução (cf. ADORNO, 2000; BUTLER, 2005).
Suas primeiras publicações, no inicio da década de
1980, demonstram uma preocupação constante com formas de
atualização da filosofia hegeliana na França. Autoras e autores
como Simone de Beauvoir, Merleau-Ponty e Jacques Lacan, aju-
dam-na a refletir sobre o problema da constituição do sujeito
e sua relação com a alteridade (cf. BUTLER, 1987). Esses mes-
mos temas são reformulados de maneira original em Problemas
de Gênero (1990), que se tornou um dos textos fundadores da
Teoria Queer norte-americana - um campo de estudos e práticas

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que ganhou força em meados da década de 1990 nos EUA e


que pretende desnaturalizar concepções socialmente arraiga-
das sobre gênero de modo a investigar formas de ação política
que não mais se apoiam em identidades. A partir de meados
da década de 2000, há uma mudança de ênfase em sua pers-
pectiva. Em vez de questões específicas sobre gênero, a tônica
passa a recair sobre um tema mais geral, a precarização (cf.
BUTLER, 2004b, 2005, 2009, 2013, 2015). O interesse em ela-
borar uma teoria do sujeito que carrega em si o outro (como
dizem autoras e autores de linhagem hegeliana), sua relação
com identidades, assim como o papel da performatividade e da
agência se mantem, contudo, constante em toda sua trajetória
intelectual. Para ela, é fundamental perguntar pela possibilida-
de de agência em um sujeito já desde sempre está emaranhado
a determinações da vida social.

2. Franceses nos EUA


Butler (1999a) escreve: “Problemas de Gênero é baseado
na ‘Teoria Francesa’, a qual é uma curiosa construção norte-a-
mericana” (p. x). De fato, pensadoras e pensadores que para os
franceses pouco tem em comum, no contexto norte-america-
no são frequentemente interpretados de maneira interligada,
como parte de uma mesma tradição. Não por acaso, portanto,
sua leitura sofre objeções daqueles que insistem que a teoria
da filósofa seria demasiadamente eclética e pouco fiel aos es-
critos de autores tão diversos como Foucault e Jacques Derrida.
Butler (1999a) responde que seu trabalho não deve ser com-
preendido como uma tentativa de reproduzir com fidelidade as
teses dos teóricos que utiliza, deve sim ser lido como um esfor-
ço de tradução cultural. Para ela, mudanças enriquecedoras na
teoria podem ocorrer por meio de novas apropriações. A defesa
de uma tradução cultural e de um inesgotável processo de re-
construção da teoria está na base do pensamento de Butler, que
insiste ainda que a tarefa da crítica não deve ser simplesmente
aplicar o pensamento francês ao feminismo, mas reformular
ideias em jogo naquele contexto tendo em conta problemas re-
ferentes a lutas sociais atuais.

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Lembremos, então, que expressões como pós-estrutura-


lismo ou tradição francesa são utilizadas para fazer referência,
de maneira bastante genérica, a pensadoras e pensadores que,
notadamente, a partir da década de 1950, na França, buscaram
dar um passo além do estruturalismo de Ferdinand Saussure
e de Claude Lévi-Strauss. Em 1916, Saussure afirmou haveria
uma estrutura (isto é, uma forma constante) que estabeleceria
as relações entre os elementos de toda e qualquer língua. Pos-
teriormente, o antropólogo Lévi-Strauss tentou identificar as
estruturas que determinariam a reprodução de significados em
atividades de diversos grupos humanos, como rituais religiosos,
jogos e hábitos alimentares. Uma importante provocação sobre
o papel da mulher na sociedade é feita por Lévi-Strauss. Para
ele, as sociedades se formam com base em uma Lei que proíbe
o incesto e que, concomitantemente, funda a exogamia (o ca-
samento entre membros de clãs diferentes) e estabelece para
as mulheres o papel de objeto de troca: “na sociedade humana
um homem deve obter uma mulher de outro homem, que lhe
dá uma filha ou irmã (...) os homens que trocam a mulheres, e
não o contrário” (LEVI-STRAUSS, 1982, p. 154). Lévi-Strauss
já indicava, assim, que existem normas que, sem que possamos
perceber, organizam nosso modo de vida e, especialmente, es-
tabelecem um peculiar papel para as mulheres.
O trabalho destes dois autores instigou a investigação
de Maurice Merleau-Ponty, Simone de Beauvoir, Michel Fou-
cault, Jacques Lacan e Jacques Derrida, que não cessaram de
indagar: existem, de fato, determinações linguísticas constantes
que organizam nossa língua e nosso modo de vida? Há estru-
turas que impulsionam não só nossas relações mais diretas de
parentesco, como também nossas relações de trabalho e com o
Estado? Falamos ou “somos falados” pela linguagem? Particu-
larmente aqueles que se interessaram por temas ligados à femi-
nilidade perguntaram pelo lugar da mulher em uma estrutura
simbólica que nos precede. Se Lévi-Strauss estiver certo (ou se
sua explicação for útil, ao menos, para explicar a formação de
sociedades patriarcais), como podemos transformar esse papel
de objeto de troca estabelecido para mulher? Nesse sentido, au-
tores de trajetória bastante distinta como Simone de Beauvoir e

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Jacques Lacan63, cada um a seu modo, mostram a importância


de manter a pergunta “o que é uma mulher?”.
Se a função da fêmea não basta para definir a mulher, se nos recu-
samos também explicá-la pelo “eterno feminino” e se, no entanto,
admitimos, ainda que provisoriamente, que há mulheres na terra,
teremos que formular a pergunta: que é uma mulher? (BEAUVOIR,
1970, p. 9).

Em especial a partir da década de 1960, as lutas femi-


nistas passaram a se organizar por meio de demandas identi-
tárias. Parecia ser preciso estabelecer especificidade do gênero
feminino assim como as peculiaridades de um feminismo negro
ou lésbico para organizar combates contra a opressão. Levar as
teses debatidas no contexto do pós-estruturalismo a sério sig-
nifica, todavia, conservar a pergunta “o que é uma mulher?”. E
se não pudermos definir o que é uma mulher, como poderemos
lutar contra a dominação? E se não nos apoiarmos em uma
identidade (ou em identidades), como, então, poderemos agir
politicamente? Eis os desafios de um feminismo que pretende
ultrapassar as fronteiras do próprio feminismo.

3. Gênero, performatividade e agência


Butler recepciona a legado estruturalista ao afirmar que
existem imposições linguísticas que nos precedem e, ao menos
em parte, determinam nossas vidas. Essas imposições estabe-
lecem, sem que possamos nos dar conta, normas que formam
a maneira pela qual atuamos o gênero. Afirmações como “sou
um homem” ou “sou uma mulher”, que parecem ser descri-
ções daquilo que irrevogavelmente somos, sub-repticiamente
estabelecem prescrições. Elas dissimulam sua força normativa,
isto é, a maneira pela qual impõem como devemos agir para
que possamos nos enquadrar em uma das duas possibilidades
previamente definidas para o gênero, assim “as operações de
poder que governam o gênero são fugidias, elas se referem ao
que ‘deve ser o caso’ sob a rubrica ‘do que é o caso’” (BUTLER,
1999a, p. xxi).
63
Para Lacan não existe “a” mulher, podemos somente falar em singula-
ridades, isto é, em mulheres. Ver, principalmente, o Seminário. Livro 20 (1985).

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O grande obstáculo para pensarmos as normas de gê-


nero reside, portanto, na dificuldade que temos de percebê-las
como tal. Com o auxílio da psicanálise de Sigmund Freud e
Jacques Lacan, Butler mostra que não conseguimos enxergar
as normas, pois elas estão ao mesmo tempo fora e dentro: nós
as introjetamos e as naturalizamos (cf. BUTLER, 1993, 1999a,
2000). Aquilo que tomamos como um atributo que nos seria
interno é, entretanto, algo que nós antecipamos e produzimos
por meio de atos corporais. O gênero pode ser compreendido,
assim, como um “efeito alucinatório de gestos naturalizados”
(BUTLER, 1999a, p. xv).
Se, tal como os estruturalistas, Butler percebe que so-
mos governados por normas que nos precedem; ela vai além
do estruturalismo ao encontrar um modo muito particular de
mostrar que esta determinação não é completa. Para ela, há,
ainda assim, liberdade, ou, se quisermos usar uma expressão
frequente no debate norte-americano, agência (agency). O pon-
to nevrálgico aqui é: o potencial para liberdade está justamente
nas normas que governam a nossa ação. Não é possível sim-
plesmente deixarmos as normas para trás, pois elas nos cons-
tituem. Como diz Foucault, o sujeito é o efeito das normas.
Butler ressalta, todavia, que apesar de ter afirmado que há prá-
ticas de sujeição e, do mesmo modo, de liberdade; Foucault
não desenvolveu suficientemente suas formulações sobre os
modos específicos em que a autonomia pode ocorrer. A filósofa
explora esse caminho por meio de suas reflexões sobre perfor-
matividade: segundo ela, podemos repetir e, ao mesmo tempo,
transformar. Como disse, o conceito de performatividade é de
fundamental importância para sua teoria. Não é um exagero
afirmar que as diversas reconfigurações e novas associações fei-
tas em torno dessa noção ao longo de sua trajetória constituem
o aspecto mais original de seu trabalho
Alguns defendem que gênero é biológico e outros que é
construído culturalmente; Butler propõe um terceiro caminho:
gênero é, para ela, performativo. Para sustentarmos um lugar
que nos é atribuído por asserções como “és um homem” ou “és
uma mulher”, temos de realizar determinados gestos, temos

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que nos vestir de certa maneira, ou seja, temos de realizar uma


performance. Algo semelhante ao que ocorre no teatro. É como
se estivéssemos nos apresentando a um público. Diferentemen-
te do teatro, entretanto, aqueles cuja atuação não condiz com
as normas de gênero podem sofrer diversas formas de punição
social, tal como nos casos de violência contra homossexuais,
transgêneros, travestis e intersexuais. Gênero é performativo
no sentido de que a essência, identidade ou realidade natural
que atos e gestos que indicam o gênero parecem expressar são,
na verdade, fabricações, que se configuram por meio da repe-
tição e citação de atos realizados por outros no passado (cf.
BUTLER, 1993, 1999a, 2013).
As bases de seus argumentos residem, sobretudo, em te-
ses Derrida (cf. DERRIDA, 1988). Ela lembra leitura de “Diante
da Lei”, de Kafka, feita por Derrida:
Há aquele que espera pela lei, aguarda sentado diante das portas
da lei, atribui uma certa força a lei pela qual espera. Antecipação
de um desvelamento de sentido autoritário é a maneira pela qual a
autoridade é atribuída e instalada: a antecipação conjura o objeto
(1999a, p xiv).

A filósofa rastreia, ainda, a crítica de Derrida a John


Austin e mostra as dificuldades de pensar a performance a par-
tir de um ato ilocucionário que executa a ação apenas no mo-
mento de sua enunciação. Um discurso de ódio, por exemplo,
tem efeitos corporais imediatos; possui, todavia, igualmente,
efeitos que se prolongam no tempo, os quais são produzidos
pela reiteração: para que a ofensa se materialize, ela precisa
ser repetida. O fato de que os efeitos de uma enunciação são
diferidos no tempo e que exigem reiteração implica na impos-
sibilidade se sustentar indefinidamente sua condição original.
A reprodução produz necessariamente falhas ou excessos na
norma. Essas fraquezas da norma podem ser trabalhadas de
maneira a criar um excedente de significação. Reside aí a pos-
sibilidade de agência. Butler afirma: “isso é política então, essa
abertura (para repetir diferentemente). Não a possiblidade de
não repetir, mas possibilidades que se referem ao como e ao
onde” (BUTLER, 1999c, p. 160.) Importa olhar para o contexto

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e para a maneira pela qual a reiteração ocorre, pois cada vez


que é reencenada, uma enunciação pode ser transformada.
a verdadeira tarefa é descobrir como um sujeito que é constituído no
e pelo discurso, recita o mesmo discurso, mas, talvez para um outro
propósito. Para mim, a questão sempre foi sobre como encontrar
agência, o momento da nova citação ou do replay do discurso que
a condição da emergência de um sujeito (BUTLER, 1999c, p. 165).

A palavra queer nos EUA, por exemplo, na década de


1980, tinha um sentido pejorativo, era utilizada para insultar a
população LGBTT (de maneira semelhante a expressão “bicha”
no Brasil). Na década de 1990, contudo, especialmente na Cali-
fórnia, ativistas engajados à Teoria Queer insistiram em repetir a
palavra em outro contexto e a seu modo, forçando a constituição
de outro sentido. Por conta de tais práticas, o vocábulo queer
hoje, na maior parte dos EUA, perdeu sua conotação pejorati-
va, é utilizado para se referir a pessoas que não se enquadram
bem em qualquer referência conhecida para o gênero, frequen-
temente, a pessoas que parecem ser interessantes e que atiçam
a curiosidade. No Brasil, há, hoje, tentativas de reconfigurar tal
estratégia tendo em conta as particularidades do País; fala-se,
aqui, em Teoria Bicha (cf. TAKARA, 2017; COOLING, 2012).
A ideia central é a de que uma transformação social
pode ser impulsionada por ocorrências que mostram que aqui-
lo que parecia ser uma realidade natural e auto-evidente é, na
verdade, manufaturado: deformidades no gênero, falhas na
repetição ou repetições paródicas. A performatividade apon-
ta para processos que produzem aquilo que percebemos como
realidade. Mas não apenas isso. Abre também espaço para o
desfazimento da realidade tal como conhecemos (cf. BUTLER,
1993, 1997 1999a, 2013, 2015).
A agência, para a filósofa, está localizada justamente
nesse jogo performativo de reiterações repleto de paradoxos.
Trata-se, assim, de enfatizar práticas capazes de desfazer impo-
sições normativas que estabelecem limites à nossa imaginação
e que, uma vez e de novo, determinam um sentido bastante
restrito para aquilo que compreendemos como possibilidades
de mudança social. Butler (1999c) escreve: “penso que não se

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pode trabalhar com a teoria política sem um senso de impre-


visibilidade, sem antecipar uma ruptura com o regime atual a
qual não pode ser conhecida no presente. Estou sempre bus-
cando essas rupturas” (p. 162).
Como disse, a noção de performatividade foi, por ela,
algumas vezes reformulada. Mais recentemente, no livro Notes
towards a performative theory of assembly (2015), Butler per-
gunta como a performatividade pode ser pensada coletivamen-
te e ressalta a relevância de um direito à assembleia (right to
assembly) ou um direito à presença de corpos em ruas ou pra-
ças. Diferentemente do modelo comunicacional habermasiano,
a norte-americana interessa-se, portanto, pelo o fato de que a
presença de corpos que se reúnem em espaços públicos tem efei-
tos performativos, que sempre extravasam a intencionalidade.

4. Politica e desidentificação
Parece que agora é possível perceber com mais clare-
za a estratégia que utiliza para ultrapassar o estruturalismo:
“dizem-nos que a regra que proíbe o incesto é universal, mas
Lévi-Strauss reconhece que ela não ‘funciona’ sempre. Ele não
investiga, contudo, quais são as suas formas de não funciona-
mento” (BUTLER, 2000, p. 17). Butler ressalta que as normas
produzem funcionalidade e conformidade na vida social, mas,
ao mesmo tempo, geram necessariamente práticas disfuncio-
nais, formações sociais que as excedem e expõem suas falhas.
Mudanças profundas podem ocorrer por meio da mobilização
destes pontos excessos ou deficiência.
A heterossexualidade oferece posições sexuais normativas que são
intrinsecamente impossíveis de incorporar e a falha persistente em
identificar-se plenamente e sem incoerência com essas posições re-
vela que a heterossexualidade ela mesma é não só uma lei obriga-
tória como também uma comédia inevitável. De fato, este insight
sobre heterossexualidade (como sistema obrigatório e comédia in-
trínseca, uma paródia constante de si mesma) estabelece uma pers-
pectiva gay/lésbica alternativa (BUTLER, 1999a, p. 155).

Por esta razão, Butler se interessa, por exemplo, pela


atuação de drag queens. Na performance das drags a identifica-

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ção de gênero acontece como uma paródia: a drag mostra que


o gênero é uma imitação, ou melhor, uma imitação da imitação.
A filósofa anota: “a paródia do gênero revela que a identidade
original a partir da qual o gênero se estiliza é uma imitação sem
origem” (1999a, p. 175).
Ao realizar performances que imitam mulheres idealizadas
em nossa cultura, tal como as divas de Hollywood, a drag revela a
falha que as divas tentam a qualquer custo esconder: nem mesmo a
mulher que encarna a diva é capaz de alcançar o modelo ideal que
a sua imagem tenta sustentar. Há, ainda, algo de melancólico na
performance da drag, algo que nos mostra que houve uma perda
(desse lugar idealizado) que não foi bem elaborada.
Poderemos compreender melhor a importância dessas
reflexões se lembrarmos como a busca por um enquadramento
identitário ou por alcançar uma imagem idealizada determina
visceralmente, hoje, o nossa maneira de atuar o gênero. Parece
que esse ideal que as divas de Hollywood tentam encarnar é
um dos fatores que impulsionam tantas mulheres, em nossa
cultura, a se submeter a uma quantidade exagerada de cirur-
gias estéticas, as quais podem até mesmo colocar suas vidas em
risco. Lembremos também que tem se tornado cada vez mais
frequente a realização de procedimentos cirúrgicos de mudan-
ça de sexo. Butler fornece especial atenção a esta última ques-
tão. Se, de um lado, ela percebe que, para alguns, a realização
destas cirurgias é a única forma de tornar suas “vidas vivíveis”;
de outro lado, ela também tem em conta os riscos e os casos
de arrependimento. Não podemos esquecer que há um preço a
pagar pela procura por um enquadramento sem ambivalências
em uma das duas possibilidades para o gênero (cf. BUTLER,
1993, 1999a, 2004).
Imagens e identidades, as quais parecem ser, cada vez
mais, fortalecidas em nosso modo de vida, podem esmagar o
sujeito, que não cessa de tentar alcançar um lugar que é, por
definição, inalcançável e, dessa maneira, encontra-se impedi-
do de descobrir uma forma singular de viver. Talvez a crítica
seja capaz de suavizar o peso de tais identidades e idealida-
des. Talvez, se este peso for diminuído, os sujeitos se sintam

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menos compelidos a realizar tantas intervenções cirúrgicas ou


de diversas maneiras se manter em uma busca obstinada por
alcançar ideais ou se enquadrar em modelos pré-estabelecidos
para o gênero.
A crítica à identidade ganha um sentido mais específi-
co na medida em que a filósofa conecta a lutas sociais. Movi-
mentos sociais, como o movimento feminista ou o movimento
negro, utilizam frequentemente identidades para articularem
suas demandas. Eles creem precisar dizer o que significa ser
mulher ou ser negro para falar sobre a especificidade da opres-
são que sofrem e, assim, reivindicar mudanças. Esta questão
tem especial relevância para perspectivas feministas atuais, que
ressaltam a importância de pensar as diversas características e
diferentes demandas de mulheres negras e mulheres trans, por
exemplo. Em vez de uma identidade feminina, fala-se, neste
contexto, em múltiplas identidades.
Butler desconfia de ações políticas fundada em identi-
dades (fixas ou fluidas), pois, para ela, ao reforçarmos social-
mente identidades corremos o riscos de reforçarmos também
modos de exclusão (ou, como ela prefere, abjeção). Por exem-
plo, se definirmos a identidade feminina a partir de caracterís-
ticas biológicas e dissermos que, mulheres são diferentes dos
homens, pois podem gerar vida, excluiremos mulheres esté-
reis e mulheres que decidiram não ter filhos. Se, em vez disto,
utilizarmos o DNA como critério, excluiremos mulheres trans,
travestis, intersexuais e aquelas que não se encaixam em qual-
quer categoria de gênero. Devemos estar atentos ao fato de que
sempre que nos apoiamos em identidades criamos irreconheci-
bilidade ou, ainda, ininteligibilidade.
Butler (1999a) escreve:
A mobilização de categorias identitárias com o propósito de politiza-
ção sempre permanece ameaçada pela possibilidade da identidade
se tornar um instrumento de poder ao qual se opõe. Esta não é uma
razão para não usar identidades e ser usado por elas. Não há posi-
ção política purificada do poder, e talvez esta impureza seja o que
produz “agência”, isto é, o potencial de interrupção e reversão de
regimes regulatórios (p. xxvi).

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Ela não defende que a referência a identidades desle-


gitima por completo a ação política. Particularmente, em seus
escritos mais recentes, concede que, por vezes, pode ser impor-
tante fazer um uso estratégico de identidades. Afirma, contu-
do, que há perigos ligados a esse modo de atuar. Movimentos
sociais ou outros grupos políticos que reforçam identidades
correm o risco de reproduzir a opressão que criticam. Por isso,
a filósofa ressalta a importância da ampliação de coalizões po-
líticas que não mais se sustentam em identidades.
Embora os discursos políticos que mobilizam categorias identitárias
tendam a cultivar identificações em defesa de um objetivo políti-
co, pode ser que a persistência de desidentificações seja igualmente
crucial para a rearticulação de contestações democráticas (BUTLER,
1993 p. 4.).

Adversários de Butler argumentam que seu projeto crí-


tico negligencia o papel das lutas sociais como acontecem con-
cretamente no tempo atual: se, hoje, grande parte dos grupos
políticos se organizam por meio de identidades, a proposta de
desidentificação poderia, no final das contas, provocar a des-
mobilização destes grupos.
Atenta a essas questões, Butler contra-argumenta e afir-
ma que podemos observar atualmente alianças que se consti-
tuem mais em razão da resistência ao poder do que em razão de
identidades e que, por isso, são capazes de dar lugar a indivíduos
e grupos que guardam pouca ou nenhuma semelhança. Este tipo
de coalizão pode tornar dessemelhanças produtivas: indivídu-
os ou grupos não precisam estar ligados por identidades para
que possam trabalhar juntos. São alguns exemplos de alianças
que desafiam padrões identitários: nos EUA, há grupos religio-
sos de gays e lésbicas que se opõem as restrições ao casamento
homoafetivo; nos EUA e Europa, queers e imigrantes atuam con-
juntamente contra limitações a cidadania e a direitos civis; há,
em todo o mundo, coalizões que incluem grande diversidade de
participantes, as quais defendem direito à saúde e à migração de
pessoas com HIV positivo (BUTLER, 2009); no Brasil, podemos
mencionar Ocupe Estelita em Recife, do qual podem participar

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todos os que se opõem a um modelo de desenvolvimento urbano


assentado em uma concepção individualista.
Nesses casos e em muitos outros o que une sujeitos ou
grupos é a força de resistência a operações de poder. Butler im-
pulsiona, assim, uma investigação sobre normas que, sem que
possamos perceber, fazem-nos reconhecer apenas os semelhantes
e sobre uma ordem política que regula tais notas de semelhança.

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