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Cibercrime e Cibersegurança em Portugal

O documento discute a crescente importância da cibersegurança e cibercriminalidade na sociedade atual, enfatizando a necessidade de conscientização sobre privacidade e vigilância. Aborda a ação do governo e a percepção dos cidadãos em relação a esses temas, questionando se a privacidade ainda é valorizada em um mundo altamente monitorado. O trabalho é estruturado em capítulos que exploram o contexto conceitual, metodologia e análise da cibercriminalidade em Portugal.

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albertofullane
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Cibercrime e Cibersegurança em Portugal

O documento discute a crescente importância da cibersegurança e cibercriminalidade na sociedade atual, enfatizando a necessidade de conscientização sobre privacidade e vigilância. Aborda a ação do governo e a percepção dos cidadãos em relação a esses temas, questionando se a privacidade ainda é valorizada em um mundo altamente monitorado. O trabalho é estruturado em capítulos que exploram o contexto conceitual, metodologia e análise da cibercriminalidade em Portugal.

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Susana Isabel da Silva Santos

Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas

Professor Doutor Pedro Miguel Alves Ribeiro Correia

Licenciatura em Estatística e Gestão de Informação


Universidade Nova de Lisboa (2004-2006)

Doutoramento em Ciências Sociais (Especialidade em


Administração Pública)
Universidade Técnica de Lisboa (2009-2012)

ii
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Ao meu orientador Professor Doutor Pedro Correia, pela orientação constante, a


exigência e todos os conselhos e sugestões que me deu.

Ao Professor Doutor Jorge Rio Cardoso pelo contributo na divulgação deste


estudo e por todo o apoio.

Ao ISCSP e a todos os docentes, em especial aos coordenadores, que


proporcionam níveis de excelência no ensino da Administração Pública.

A todos aqueles que contribuíram para a minha formação académica e pessoal.

Em especial, aos meus pais e ao meu irmão, por serem as melhores pessoas
que conheço.

&

iii
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Hoje em dia a tecnologia está profundamente consolidada na rotina diária e


funcionamento de qualquer organização. Enquanto as revistas e os jornais se enchem
dos últimos inventos em dispositivos digitais, avaliações e rankings de dispositivos
resistentes à água e ao choque, muito poucos se ocupam de escrever sobre os vários
impactos deste fenômeno. Acontece que a lista de efeitos colaterais ou "usos menos
desejáveis" é muito grande (na verdade, é impossível de quantificar), tornando-se
cada vez mais complexa. Por isto, e de forma sequente, a segurança cibernética
estará na ordem do dia nos próximos anos, como os sistemas de informação e
sociedade da informação estiveram anteriormente.

Este trabalho abordará a cibercriminalidade e cibersegurança através de ação


do Governo e da perceção dos cidadãos, respondendo a uma série de perguntas
sobre o valor da vida privada; a possibilidade de estarmos viver numa sociedade
Orwelliana, (rigorosamente controlados); e a consciencialização das pessoas sobre o
potencial da informação.

Palavras chave: cibercrime, cibersegurança, privacidade, Estado, perceção

&

iv
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Nowadays, technology is ubiquitous in the daily routine and operational


processes of any organization. When magazines and newspapers are filled with the
latest gadgets, reviews and rankings of water and shock resistant devices, very few
write about the various impacts of this phenomenon. It turns out that the list of side
effects or "less desirable uses" is very large (actually impossible to quantify), and
getting exponentially even more complex. Consecutively, cyber security will be on the
agenda in the coming years as the information systems and the information society
were previously.

This work addresses cybercrime and cyber security through Government action
and perception of citizens, answering a series of questions about the value of privacy;
the possibility we are living in an Orwellian society (strictly monitored); and people's
awareness about the potential of information.

Keywords: cybercrime, cybersecurity, privacy, State, perception

v
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vii
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Atualmente a tecnologia está perfeitamente consolidada no dia-a-dia das


pessoas assim como no funcionamento de qualquer organização. É impossível ficar
alheio à massificação dos aparelhos tecnológicos, à informatização dos dados, e ao
funcionamento em rede. O mundo das tecnologias já deixou de ser uma realidade
exclusiva a certas classes sociais ou a certas regiões do país. Do GPS aos smart-
watches, da tecnologia Cloud à IoT (Internet of things), dos drones às impressoras
3D....vivemos em plena, e permanente revolução tecnológica.

Aquando as revistas e jornais se enchem com o último gadjet da moda, a última


invenção tecnológica, as avaliações e rankings de aparelhos que prometem ser
resistentes à água e ao choque, são poucos os que se ocupam de escrever sobre as
várias consequências e as adaptações necessárias a este fenómeno. Isto é: toda a
transformação e disseminação tecnológica tem, de senso comum, vantagens.
Contudo, a lista de efeitos colaterais ou “utilizações menos desejadas”, é igualmente
extensa, impossível de quantificar, e à semelhança das tecnologias, em crescimento
exponencial. Já se afiguram incontáveis o número de incidentes diários que, das mais
variadas formas, personalizam crimes cibernéticos. Sequencialmente, a
cibersegurança estará na ordem do dia dos próximos anos, da mesma forma que os
sistemas de informação e a sociedade da informação dominaram anteriormente.
Procuramos, com este projeto, responder a uma série de questões que se colocam
presentemente:

- Numa época em que se assiste a um exponencial incito à partilha de


informação e à divulgação da vida privada será que podemos afirmar que se deu uma
alteração no valor atribuído à privacidade?

-O uso colossal de dispositivos e instrumentos como telemóveis, registos de


movimentos, câmaras de vigilância, e outros captadores de informações que
posteriormente são reunidos e tratados como retrato exato poderão personificar o
sistema idealizado por George Orwell de uma sociedade que é rigorosamente vigiada?

- As entidades públicas e empresas privadas usam grandes bases de dados


para aceder a informação sobre os seus utentes/clientes, será que os indivíduos estão
consciencializados que essas informações podem ter utilizações para outros fins ou
mesmo de forma prejudicial?

1
A razão de escolha deste tema prende-se com várias fatores:

- O escasso estudo na área do cibercrime, em especial na área da


cibersegurança na sua ação por parte do Estado assim como na perceção que
é tida pelos cidadãos da segurança a nível nacional e supranacional nesta
matéria;
- O exponencial crescimento deste tipo de criminalidade, não só em termos de
ciber-espaço (in loco), mas também pelo recurso aos instrumentos digitais para
crimes tradicionais, no “mundo real”;

- Por fim, no sentido de averiguar a questão da privacidade, nomeadamente pelo


estudo dos efeitos e consciência dos indivíduos da intromissão “imperceptível”
do mundo tecnológico e seus gadjets na dimensão pessoal e privada assim
como pelo estímulo à partilha de informação que se observa atualmente.

O estudo da cibersegurança leva-nos forçosamente a abordar a atmosfera


envolvente do crime informático nomeadamente a privacidade, os dados pessoais e as
bases de dados.

Esperamos que este trabalho seja útil na forma como aborda a cibersegurança e
o cibercrime à luz da ação do Estado e daquilo que é a perceção pelos cidadãos.

Este documento está organizado nos seguintes capítulos: Enquadramento


Conceptual; Metodologia; Análise do Cibercrime em Portugal e Análise da Perceção
dos Cidadãos.

&

2
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De seguida, iremos contextualizar aquilo que é a ação do Estado,


nomeadamente pelo desenvolvimento e implementação de políticas públicas, assim
como as teorias que analisam e explicam esta atividade. Iremos também abordar o
conceito de privacidade, de dados pessoais, e bases de dados.

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O nascimento do Estado depende da concepção que lhe é atribuída: enquanto


os Liberais afirmam que o Estado existe porque existem pessoas, os Marxistas
consideram que o Estado existe para servir as pessoas. Existe quem defenda que o
surgimento do Estado Português se dá no período de reconquista da Península Ibérica
aos Mouros, numa incessante tentativa de reassegurar o território1.

No que diz respeito às partes constituintes do Estado, aceita-se uma certa


discricionariedade visto que podem variar em composição, quantidade e finalidade, no
decorrer do tempo e de acordo com o espaço (Moreira, 2005).

O início da organização político-administrativa que hoje conhecemos como


Administração Pública, remonta à necessidade de recolha de coletas de forma a
promover exatamente a segurança e as obras públicas. Contudo, Jorge Miranda
(1992) considera que existem sempre duas características comuns e caracterizantes
de qualquer função ou atividade do Estado:

“a) específica ou diferenciada, pelos seus elementos materiais - os resultados


que produz - formais - os trâmites e as formalidades que exige – e orgânicos - os
órgãos ou agentes por onde corre;

b) duradoura - prolonga-se indefinidamente, ainda que se desdobre em atos


localizados no tempo que envolvem pessoas e situações diversas”

Ora, a garantia da segurança é uma necessidade coletiva ancestral, elementar


quer para regular comportamentos desviantes inerentes à mera existência e

1
Entende-se que a definição de fronteiras terrestres vai de encontro às circunscrição de fronteiras
culturais e ideológicas das populações(Amante, 2007), são estas que distinguem a pertença dos

3
coexistência humana; quer no aspeto da coletividade, enquanto agregados de dada
circunscrição territorial face às demais. Posto isto importa diferenciar dois conceitos: o
de Defesa Nacional e o de Segurança Interna.

A Defesa Nacional são as ações e políticas que os Estados desenvolvem e


aplicam para prevenir ou combater ataques levados a cabo por outros países. Aqui se
compreende o assegurar da soberania, da independência e do funcionamento
democrático. Já a Segurança Interna, segundo a Lei n.o 53/2008 que regula esta
matéria, é a atividade desenvolvida pelo Estado para garantir a ordem, segurança e
tranquilidade públicas, protegendo bens e pessoas2.

A atividade de informações desenvolveu-se na Europa durante os séculos XVIII


e XIX. Inicialmente, assente nos conceitos de defesa militar e de segurança interna
como instrumento de guerra ou numa lógica repressiva de manutenção de regimes
políticos (Carvalho, 2009). Atualmente, a as TIC funcionam como catalisador de
informação, negócios, suporte tecnológico de serviços e infraestruturas quer no sector
público quer privado. Esta centralização inclui, por exemplo, os sistemas de
informação e comunicação dos Governos, das instâncias policiais e militares ou das
entidades da Administração Pública. Paralelamente, os ataques a estas estruturas
vitais, são relativamente fáceis de realizar e capazes de inviabilizar integralmente os
sistemas (Nunes, 2012). Reconhece-se pois aqui, para o Estado, a dupla necessidade
de ação dado “a existência de um nível nacional e supranacional de cibersegurança
(...) garantir não só a utilização segura do ciberespaço aos seus cidadãos mas
também a salvaguarda da sua própria soberania” (Nunes, 2012).

Ao “curso de ação por parte de um ou mais atores públicos ou governamentais”


(Anderson 1984, como citado em Bilhim 2008) chamamos políticas públicas. As
políticas públicas são diretrizes elaboradas para enfrentar um problema público (...)
[entende-se como problema] a diferença entre a situação atual e uma situação ideal”
(Secchi, 2011). Dye, em 1975, definia-as como “whatever goverments choose to do or
not do do” sendo que estas não são meras intenções, são sim resultantes de inputs
convertidos, através do processo de decisão, em programas e leis (Rocha, 2010).

2
A Lei n.º 59/2015, de 24 de junho foi a 1ª alteração à Lei da Segurança Interna modificando a
composição do Conselho Superior de Segurança Interna (nomeadamente pela inclusão do coordenador
do Centro Nacional de Cibersegurança);e a modificação da organização e do funcionamento da Unidade
de Coordenação Antiterrorismo.

4
[Link] (2005) afirma que existe uma transição entre Governo e Governação, ou
seja, de um estado Weberiano (clara separação entre Política e Administração), para
um Estado Pós-Moderno (como citado em Rocha, 2010). Isto é, num contexto de
descrença no Estado tradicional e pela tendência de descentralização, a ação do
Estado, é hoje percepcionada como a atividade desenrolada por inúmeras
organizações e inúmeros indivíduos, numa espécie de estrutura interligada, à
semelhança de uma rede.

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As políticas públicas assumem uma visão holística de um determinado tema,


numa abordagem multidisciplinar onde estão envolvidas áreas como a ciência política,
a gestão ou a econometria (Souza, 2006). Surgem, contundo, algumas divergências
na consideração das políticas públicas, Leonardo Secchi (2011) apresenta várias
acepções: serão as políticas públicas exclusivamente da elaboração do Estado?;
também se considera política a passividade/ausência de ação?; são apenas
contempladas as indicações estratégicas ou também as operacionais?. Como tal, as
políticas públicas são transversais às diversas áreas que hoje em dia estão cobertas
pela intervenção Estatal, desde a saúde à educação, o planeamento urbano ou a
cibersegurança. Acontece que, não existem políticas uniformes a todas às áreas de
intervenção, sendo que cada problema exige uma ponderação e resolução especifica.

As políticas públicas, citando Frederickson et al apresentam-se ainda de


complexa concepção por serem “indissociáveis do processo político assim como o seu
desenho, implementação e administração envolver múltiplos atores, objetivos e
agendas” (2012: 226, tradução própria).

Embora a formulação de políticas públicas vá depender necessariamente da


área, existem modelos e teorias que permitem analisar o trilho das políticas públicas,
desde a sua génese assim como permitem avaliar a deliberação política que lhe é
inerente. Embora existam inúmeros modelos e teorias explicativas do processo das
políticas públicas, existem algumas teses que todos compartilham: teoria do ciclo
público; da escolha pública; pluralista e dos networks; institucionalista (Rocha, 2010).

A teoria do ciclo das políticas públicas divide o processo político em diversas


fases subsequentes e interdependentes. Diferentes autores têm diversas visões sobre

5
o número de fases do ciclo, mas assume-se como principais e transversais a todos as
seguintes: identificação do problema, agendamento, planeamento, implementação, e
avaliação (Santos, 2014; Secchi, 2011; Souza, 2006).

Segundo Sjoblom (1984) a identificação do problema envolve a perceção; a sua


definição e delimitação; e a avaliação da hipótese de resolução (como citado em
Secchi, 2011). A formação da agenda por sua vez, prende-se com o processo
decisórios dos governos de incluírem/não incluírem certas problemáticas na agenda3.
O planeamento, em que são definidos os objetivos a alcançar, em que se verificam as
possíveis soluções e os seus impactos (Secchi, 2011). É nesta fase que são
formulados planos estratégicos, considerados os custos e eficácia das diversas
alternativas. Os mecanismos disponíveis pelos “policymakers” são, segundo Bobbio
(1987), assentes em três formas de poder: económico, político e ideológico. É destes
poderes que emergem os mecanismos de indução de comportamento: premiação,
coerção, consciencialização e soluções técnicas (Secchi, 2011).

A tomada de decisão e implementação é a fase posterior ao peso dos vários


objetivos e métodos e respetiva viabilidade e custos e antecede a fase da avaliação
das políticas.

Atualmente o processo político relativo à formulação de politicas públicas é tido


como baseado na “racionalidade, nos termos da teoria da escolha pública” (Bilhim,
2008: 210). A pedra basilar da teoria da escolha pública (também como conhecida
como escolha racional), é a fundamentação na análise económica em prol de resolver
problemas da ordem pública (Santos, 2012). Esta teoria prevê dois pressupostos:

• em primeiro, assume que cada indivíduo procura obter a maximização da


utilidade, isto é: “o indivíduo sabe as suas preferências; consegue ordena-las; e
escolherá aquela que melhor preencher as suas necessidades pelo menor custo”
(Frederickson et al. 2012, tradução própria). Segundo Anthony Downs assume-se que
qualquer indivíduo embora racional é egoísta, teorema que ficou conhecido como
axioma do interesse pessoal (1967; 1967; como citado em Albano, 2012).

3
A definição da agenda política depende essencialmente de três factores: a consciencialização do
problema e dos seus efeitos nocivos; a construção colectiva da necessidade de o resolver (por exemplo,
através do processo eleitoral ou grupos de pressão); e por fim, a atitude dos participantes, quer os
evidentes - políticos, partidos, media – quer os mais subtis – (nomeadamente) os académicos(Souza,
2006)

6
• em segundo, considera que as ações e decisões coletivas são a soma das
ações e decisões individuais (Frederickson et al., 2012).

A teoria da escolha racional/escolha pública prevê que todas as pessoas


(inclusive os políticos, supostamente agentes altruístas que defendem o interesse
público) se movem por interesses pessoais. Segundo Albano (2012) constituem
motivações pessoais as remunerações económicas, a influência, o poder, ou no caso
dos políticos, a possibilidade de serem reeleitos ou de obter bons cargos aquando o
fim do mandato. Segundo Anthony Downs (como citado em Rowley e Schneider,
2004) “parties formulate policies in order to win elections, rather than win elections in
order to formulate policies”.

A teoria pluralista ou dos Networks, afirma que as instituições, estruturas sociais


e particularidades dos indivíduos e grupos resultam da interação dos indivíduos, dos
vínculos e dos relacionamentos que todos estabelecem entre si, numa espécie de rede
(Souza, 2006)

O institucionalismo por sua vez, aponta as instituições formais e informais como


influenciadoras na conduta pessoal e coletiva. Assim, é o constrangimento causado
pelas instituições, formais e informais, que molda a formulação de políticas públicas
(Cortes e Lima, 2012).

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O conceito de privacidade surgiu em 1890, por Samuel Warren e Louis Brandeis,


batizado como “o direito de estar só” sendo que só em 1976 é consagrado na
Constituição da República Portuguesa, sendo esta a primeira a proteger
expressamente os dados pessoais (Correia e Jesus, 2013). É no entanto uma
definição ambígua que se prende, por um lado, com o relativismo cultural, por outro,
pela dificuldade de delimitar o âmbito daquilo que é, ou não, privado. Para Gomes
Canotilho e Vital Moreira a privacidade decompõe-se “impedir o acesso de estranhos a
informações sobre a vida privada e o direito a que ninguém divulgue as informações
que tenha sobre a vida privada de outrem” (Correia e Jesus, 2013).

7
Não podíamos falar de privacidade sem referir as redes sociais. A mais populosa
– o Facebook – regista 1,44 mil milhões de utilizadores ativos mensalmente4, um
número que fala por si. Toda esta conjuntura que se verifica atualmente de estímulo à
partilha de informações pessoais na forma de fotos; vídeos; interesses pessoais e
preferências que se verifica nas redes sociais e apps da especialidade, associada à
“panóplia de instrumentos electrónicos especialmente intrusivos” (Correia e Jesus,
2013) leva-nos a refletir sobre a possibilidade de uma mudança na importância que é
atribuída à privacidade.

A criação de instrumentos como o Sistema de informação Schengen (SIS1+) em


1995, para registar pessoas e objetos em circulação no espaço Schengen (com a sua
modernização em 2013 no SISII); assim como o Eurodac em 2003 para comparação
das impressões digitais; e o Sistema de Informação sobre Vistos – VIS - constituem
meios de invasão da privacidade na forma de colossais bases de agregação de dados
pessoais. Encontram justificação em motivos superiores como o combate ao
terrorismo e à criminalidade e num uso que obedeça ao principio da proporcionalidade
(Correia e Jesus, 2014).

Ora, posto isto, importa seguramente abordar a privacidade de dois prismas: em


primeiro, de que forma a sociedade (da informação) em que vivemos constitui uma
sociedade tendencialmente Orwelliana, em que a internet personifica o monstruoso
sistema, “dono do corpo e da mente dos cidadãos” (Fernandes, 2012); em segundo,
perceber, num contexto de apologia às redes sociais e aos reality-shows, que valor as
pessoas atribuem à sua privacidade nos dias de hoje. Há ainda concepções
antagónicas de autores como John Parry Barlow ou Louis Rosseto que entendem a
web como um potencial espaço de liberdade numa “visão libertário-anárquica(...) à
margem da tirania dos Governos” (Fernandes, 2012).

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O cibercrime compreende os atos ilícitos cujo a realização envolve o uso dos


meios informáticos. Inclui ainda “aqueles em que, não sendo o computador o
instrumento principal da atividade ilícita, o meio de realização de prova assume a

4
Fonte: [Link]

8
forma digital” (Serviço de Resposta a Incidentes de Segurança Informática - [Link],
2013). Embora, seja comtemplado pela própria União Europeia, uma certa
discricionariedade na definição de cibercrime que se fica a dever à complexidade e
volatilidade sui generis do mundo tecnológico. Isto resulta que, ainda em 2013, na sua
Directiva 2013/40/UE, a União expresse a necessidade de adoptar definições e
abordagens comuns a todos os estados membros.

Ora, como anteriormente referido, a defesa distingue-se da segurança. Essa


distinção é por isso tida igualmente em matéria cibernética. Ora, a ciberdefesa refere-
se a um espaço-cibernético comum entre Portugal e os outros Estados. Isto é, à
proteção de ataques cibernéticos contra o próprio Estado - “ciberguerra” - e por isso, a
cargo das Forças Armadas. A ciberguerra consiste no “conflito entre Estados dentro e
através do ciberespaço, e todas as ramificações que isso possa ter” (Klimburg, 2012:
17, tradução própria). Já as restantes formas de cibercrime, pertencem ao domínio da
Cibersegurança: o cibercrime e o hacktivismo a cargo das forças de segurança; e a
ciberespionagem e o ciberterrorismo a cargo dos Serviços de Informação. Todas estas
formas de delitos estão desde 2014 a cargo do Centro Nacional de Cibersegurança
(CNCS), que a par com Gabinete de Segurança (GNS) garantem a segurança do
ciberespaço e da informação classificada do Estado.

Para abordar de forma mais técnica as infrações que constituem crimes


cibernéticos, vamos guiar-nos pela taxonomia do CNCS que agrupa os vários atos em
oito classes:

Classifica-se como “Código Malicioso” (vulgarmente conhecido por Malware), os


incidentes em que o agente, através do alojamento de uma codificação, ganha total
acesso aos sistemas ou softwares infetados, assim como ao hardware a estes
associado (Johnson, 2015). Da classe da “Disponibilidade” fazem parte delitos que,
condicionam ou impossibilitam o funcionamento de um programa, pelo esgotamento
dos recursos (rede, capacidade de processamento, sessões etc). São também atos
que, intencionalmente ou não, danificam a informação ou evitam a sua transmissão –
Vandalismo ou Disrupção Intencional (Serviço de Resposta a Incidentes de Segurança
Informática da Rede Ciência, Tecnologia e Sociedade - CERT RCTS, 2015). Agrupam-
se em “Recolha de Informação” os crimes de “Scan” e “Sniffing” – consistem na
sabotagem de uma rede com identificação e recolha de dados de navegação dos
sistemas ligados a essa mesma rede ; ou ainda – Phishing – como exemplifica
Johnson “[o utilizador] depois de clicar numa ligação (aparentemente inocente), é

9
levado a introduzir os seus dados pessoais numa página falsa que se parece muito
com um sítio legítimo” (2015: 294-295, tradução própria].

À “Tentativa de Intrusão” pertencem os delitos em que existe uma tentativa de


aceder ao sistema, rede, página pessoal ou e-mail. Sendo que, a efetivação se
enquadra na categoria de “Intrusão”. “Pequenas intrusões podem resultar em
desconfigurações” (Mehan, 2014: 241, tradução própria). Quanto à “Segurança da
Informação”, diz respeito aos crimes de acesso, modificação, ou eliminação de
determinadas informações (CERT RCTS 2012). Esta ameaça foi das primeiras a ser
ponderada, estando intimamente relacionada com o advento das grandes bases de
dados. Nigel Hawkes (1971) afirma que, ao reunir dados do cidadão o computador
reforça e torna mais eficiente a burocracia mas este, já no ano de 1971, previa a
necessidade imperativa de regular esta inovação de forma a evitar futuros abusos de
poder. A intrusão e acesso à informação podem ser usadas naquilo a que se
denomina por “Ciberespionagem” – situações em que, por exemplo, um Governo
acede a informações mais sensíveis de outro, ou uma empresa acede aos projetos de
uma empresa concorrente. Na categoria de “Fraude” são considerados os atos em que
há uma utilização dos recursos ou do nome de uma instituição, fazendo-se passar por
esta. Por fim, designados como “Conteúdo Abusivo” estão ações como o spam, a
partilha de conteúdos com direitos de autor, e ainda a disseminação de conteúdos
proibidos por lei (como pornografia infantil e conteúdos pro-violência/racismo). É ainda
contemplada uma classe de “outros incidentes” onde se incluem formas de ataque que
não se enquadram nas acima descritas

Importa neste enquadramento ressaltar dois outros conceitos, particularmente


interessantes quando se fala em cibercrime: Hacker e Deep Web. O Hacker é
percebido como o agente possuidor de know-how informático, e que explora as
fragilidades do sistema/rede/software, integrando-se nas configurações supra
mencionadas, o que resulta (sempre) na violação do espaço de liberdade dos
utilizadores. Contudo, apesar da conotação negativa que é atribuída ao conceito de
hacker, existem os chamados “hackers de chapéu branco” sendo que estes procuram
assegurar o bom funcionamento dos sistemas, retificando as ações criminosas dos
“chapéus pretos” (Martins, 2012). A Deep Web é a parcela da informação da internet
não acessível através dos browsers comuns (daí a conotação de web “profunda”),
muitas vezes ilustrada com analogia ao formato de um iceberg sendo esta a parte

10
imersa. A reunião de diversos factores5 resulta no anonimato e impossibilidade de
rastrear os movimentos dos utilizadores, favorecendo que aqui se reúna
particularmente o comércio ilegal: drogas, explosivos, órgãos humanos ou serviços
como homicídios (Goodman, 2015).

&

5
Segundo Marc Goodman, o que faz da Deep Web a “ciber-parcela” de eleição para o cibercrime são, por
exemplo, a possibilidade de pagar em bitcoins ou darkbit (moeda de troca aceite na deep web) e serviços
Bulletproof Web-hosting (prestadores de alojamento de páginas que consentem com o não-cumprimento
da lei que rege os conteúdos e termos de utilização da internet). Alguns casos relativos à deep web: a
Wikileaks, conhecida por lançar na web informações confidenciais dos Estados e empresas, aceita
atualmente donativos em bitcoins; na “Silk Road” (plataforma que ficou conhecida como a “amazon das
drogas”), estima-se que entre 2011 a 2013 tenham sido transacionados bens no valor de 195 milhões de
euros. Fonte: [Link]
web-server-1486376

11
C?&5)./+/*/9,$&

Este trabalho está estruturado da seguinte forma: enquadramento conceptual;


análise da cibersegurança em Portugal, análise da perceção dos cidadãos e
conclusão. Desta forma, começámos por fazer a introdução aos vários conceitos
abordados ao longo do trabalho, a descrição da realidade portuguesa no que diz
respeito à legislação e entidades e de seguida será apresentada a perspetiva dos
cidadãos na sua apreciação da privacidade e dos dados pessoais, assim como a sua
perceção da ação do Estado na persecução de um ciberespaço seguro.

No enquadramento conceptual começamos por analisar a ação do Estado e


aquilo que são os seus processos e instrumentos de modificação de comportamentos.
De seguida procurámos passar em revista os principais conceitos que se relacionam
com o paradigma da cibersegurança de forma a ter uma ideia global da atmosfera
desta temática, tendo em especial atenção a pertinência e a atualidade das fontes; a
análise das políticas públicas em matéria de cibersegurança divido em e-governance e
ciberdefesa; privacidade, dados pessoais e bases de dados, e a cibersegurança. Em
seguida, foram investigados os órgãos e legislação do caso Português, das quais
procuramos destacar os primeiros diplomas e primeiras entidades criadas na matéria
e, em segundo, às vigentes na atualidade.

Num segundo momento foi analisada a perceção dos cidadãos nas matérias
abordadas, através de um inquérito realizado em Portugal Continental e Ilhas, a
indivíduos entre os 18 e os 80 anos, sendo que foram realizados 1155 inquéritos,
sendo que 291 inquéritos foram feitos presencialmente e 864 via online. Recorreu-se à
plataforma do GoogleDocs, com divulgação através de correio electrónico e de redes
sociais (Facebook e Google+). O inquérito foi arquitectado da seguinte forma: em
primeiro procurava-se averiguar a familiaridade dos conceitos de cibercrime e
cibersegurança, seguidamente o parecer em matéria de privacidade, nos vários
quadrantes: dispositivos (salientando-se aqui o trabalho intelectual), a privacidade da
imagem (videovigilância), a importância do segredo na localização pessoal (GPS), o
sigilo nas atividades diárias (entradas/saídas de estabelecimentos) e os historiais
(fiscal, saúde, registo criminal, e outros); por fim, procurou saber-se o conhecimento
das instituições públicas (legislação e entidades) assim como a opinião global da
atuação do Estado nesta matéria. Os modelos de análise utilizados foram:

12
- “Two Step Cluster” - análise que recorre a um algoritmo que organiza os dados
em clusters. É utilizada para grandes bases de dados e permite a utilização de
variáveis continuas e categóricas. Cataloga os dados num número de divisões
pré ou automaticamente fixadas, em elementos de características
semelhantes;
- Teste de Mann-Whitney – é método não paramétrico que procura analisar se
os vários grupos pertencem todos à mesma população, isto é, se os 2
grupos/amostras têm a mesma distribuição face a população, quanto à variável
em análise.
- Teste de Krukall-Wallis - à semelhança do teste de Mann-Whitney aplica-se
para aferir se um conjunto de amostras provêm da mesma distribuição, sendo
que este permite a análise de mais de duas amostras/grupos para a mesma
variável.

Durante os testes optou-se por um nível de confiança de 95% ou seja, um nível de


significância de 0,05.

Seguidamente, retiraram-se ilações articulando a pesquisa concretizada


relativamente à legislação nacional, entidades, relatórios e diretrizes da União
Europeia, com a análise efetuada daquilo que é a perceção dos cidadãos portugueses.

&
&
&
&

13
F?&0%J*,#)&+$&8,()7#)9"7$%1$&)4&K/7."9$*&

Neste capítulo iremos abordar alguma legislação, nomeadamente os primeiros


diplomas das matérias e os atualmente vigentes, assim como as entidades
competentes. Para facilitar a abordagem organizámos este capítulo, dividindo-o no
assegurar da segurança em três grupos: “E-Governance e Ciberdefesa”, “Dados
Pessoais e E-commerce” e “Cibercrime”.

FB>?&3LM/-)7%$%:)&)&8,()7+)=)#$&

Os anos 90 foram anos marcados pela política de modernização do Governo na


qual se salientou a informatização de dados. Surge a necessidade da criação de uma
rede de comunicação entre-ministérios, de forma a simplificar todo o processo de
comunicação e decisão política agilizando todo o processo. Equitativamente, era
imperativo responder à regulação da aquisição de hardware e software, oferecer
formação e zelar pela correta utilização da informação. No fim da década de 80 abre-
se um concurso público para o estabelecimento de uma rede de dados interministerial.
Torna-se pois fundamental criar um serviço responsável pela sua gestão: é assim que
nasce, pelo Decreto Lei 429/89 o Centro de Gestão da Rede Informática do Governo
(CEGER), durante a presidência de Mário Soares. No ano seguinte, o SEGNAC4 vem
establecer as normas que regem a salvaguarda das matérias classificadas e dos
sistemas informáticos do sector público, ainda que com bastante flexibilidade,
deixando à Autoridade Nacional de Segurança (ANS) a apreciação e julgamento
individual dos casos.

Em 1997,o “Livro Verde para a Sociedade de Informação em Portugal” é a


primeira grande abordagem do paradigma da informação nos diversos quadrantes:
administração pública, ensino, sector empresarial e os impactos e implicações desta
nos níveis sociais e jurídicos.

Em 1998, o Decreto-Lei n.o 184/98, vem aumentar os poderes do CEGER,


abrangendo também as tecnologias de informação e comunicação e os sistemas de
informação que fazem o apoio aos gabinetes governamentais.

Atualmente a ciberdefesa está estatuída no Decreto-Lei nº 184/2014, que define


a orgânica e funções das várias divisões do Estado-Maior-General das Forças
14
Armadas, nomeadamente a prevenção e combate dos crimes informáticos que
possam afetar o Estado.

FBC?&N$+/#&A)##/$,#&)&3L:/44)7:)&

A Lei no 10/91 é pioneira na regulação da proteção de dados pessoais face à


informática. Nasce da inexistência, em primeiro lugar, da clarificação daquilo que são
os dados pessoais, as bases de dados ou o tratamento automatizado, e em segundo
daquilo que é a utilização correta destes. Esta promulgação, no início da década que
ficou marcada pela informatização dos dados dos cidadãos na Administração Pública,
vem defender a reserva da vida privada e familiar e pelos direitos, liberdades e
garantias fundamentais do cidadão.

Mais tarde, e transpondo para a ordem júridica interna a directiva 95/46/CE do


Parlamento Europeu e do Conselho, surge Lei 67/98, igualmente respeitante ao
tratamento de dados pessoais e à livre circulação destes dados. Nesta eram firmados
os princípios da utilização, nomeadamente a obediência a ação por boa-fé, a
transparência e a proporcionalidade, mantendo-se em vigor até aos dias de hoje.

Em 1999, o Decreto-Lei nº290-D/99 regula a validade, eficácia e valor probatório


dos documentos electrónicos e das assinaturas digitais. É ainda em 1999 que é criada
a "Iniciativa Nacional Para o Comércio Eletrónico na Resolução do Conselho de
Ministros nº 94/99. É nesta Resolução que se promove uma abordagem multi-
ministerial do comércio eletrónico, seja pela regulação, pelo incentivo às PME, as
campanhas de consciêncialização sobre potêncialidades e vantagens deste tipo de
comércio e pela promoção de indicadores estatisticos que constatem o volume de
negócio.

Em 2004, a Lei no 43/2004, vem estatuir a organização e o funcionamento da


Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD) – entidade administrativa com
poder de autoridade que funciona junto da Assembleia da República.

Em 2005, a Lei n.o 9/2012, sobre a utilização de câmaras de vídeo pelas forças e
serviços de segurança em locais públicos. Firma-se a utilização segundo o princípio da
proporcionalidade, quando seja concreto a vantagem do uso do vídeo para manter a

15
ordem e prevenir a criminalidade, sendo que deve ponderar-se nomeadamente o grau
de afetação de direitos pessoais face às efetivas vantagens no caso em partícular. !

FBF?&8,()7:7,4)&

Em 1991 a Lei da Criminalidade Informática (109/91) vem, em primeiro, definir os


conceitos associados à criminalidade informática (limitando-se porém a definir
conceitos como rede, sistemas e programas informáticos; produto semi-condutor ou
intercepção). Caracteriza apenas os atos de falsidade informática, dano, sabotagem e
acesso, reprodução ilegítimas. É o primeiro diploma nesta matéria. Este viria a ser
reformulado em 2001, no DL n.º 323/2001 de 17 de Dezembro.

Em 2002, a criação do “[Link]” vem preencher a lacuna que existia em


Portugal, os CERT’s são ”Computer emergency response teams” de âmbito nacional
constituídos por CSIRT’s – “Computer Security Incident Response Team” – que são
equipas de académicos ou profissionais da área6.

Em 2008 são atribuídas à Polícia Judiciaria funções na área da cibersegurança


(leis 37/2008 e 49/2008). Um ano mais tarde, em 2009, a lei que até à data regia o
cibercrime é revogada e passa à vigência a Lei do Cibercrime (109/2009) que perdura
até à atualidade.

Em 2011, é criado o Gabinete de Coordenação da Actividade do Ministério


Público na área da Cibercriminalidade - Gabinete Cibercrime – com sede na
Procuradoria-Geral da República. Nasce da necessidade de coordenação interna do
Ministério Público, criando canais de comunicação com fornecedores de serviço de
acesso às redes de comunicação, que facilitem a investigação criminal.

Em 2014, é implementado o Gabinete Nacional de Cibersegurança, pensado e


previsto desde 2012 (como pode ser visto na RCM 12/2012), através do Decreto-Lei
Nº 69/2014, perfazendo a seguinte organização:

Figura 1 - Organograma da Autoridade Nacional de Segurança

6
Atualmente existem equipas de recursos humanos (oficialmente capacitadas) aptas para resposta a
incidentes nas seguintes entidades: NOS, Cabovisão, Portugal Telecom, Universidade do Porto, Refer
telecom, Millennium BCP, EDP, Caixa Geral de Depósitos, etc. Fonte: [Link]
nacional-csirt/directorio

16
Fonte: Gabinete Nacional de Segurança, 2015.

H?&0%J*,#)&+$&A)7:)12/&+/#&:,+$+2/#&

Neste ponto procuramos avaliar a perceção dos cidadãos relativamente ao valor


da privacidade, aos crimes cibernéticos e à segurança online. Estruturámos um
inquérito com 10 questões passíveis de resposta numa escala de 1-10, sendo que o 1
representava o valor mais baixo/negativo e 10 o mais alto/positivo, contemplamos
também a hipótese de “Não Sei”/“Não Responde”. Quanto às questões de
caracterização, procurámos distinguir os cidadãos nos seguintes parâmetros: idade,
sexo, escolaridade e região de residência.

O inquérito foi arquitectado da seguinte forma: em primeiro procurava-se


averiguar a familiaridade dos conceitos de cibercrime e cibersegurança, seguidamente
o parecer em matéria de privacidade, nos vários quadrantes: dispositivos (salientando-
se aqui o trabalho intelectual), a privacidade da imagem (videovigilância), a
importância do segredo na localização pessoal (GPS), o sigilo nas atividades diárias
(entradas/saídas de estabelecimentos) e os historiais (fiscal, saúde, registo criminal, e
outros); por fim, procurou saber-se o conhecimento das instituições públicas
(legislação e entidades) assim como a opinião global da atuação do Estado nesta
matéria.

17
Foram realizados 1155 inquéritos, sendo que 291 inquéritos foram feitos
presencialmente e 864 via online. Destes 1155 foram negligenciados 77, inválidos,
perfazendo 1078 inquéritos válidos.

HB>?&!"#$%&'($)*+,&'-&

A análise sumária da aplicação deste algoritmo demonstra que houve uma


organização os indivíduos em cinco grupos, de dimensão aproximada (ratio de 1,31),
sendo que o grupo mais pequeno tem 135 elementos, e o maior 177. Demonstra
também que os clusters revelam baixa qualidade representativa, sendo que o motivo
está essencialmente ligado à homogeneidade existente nas percepções dos
inquiridos.

Figura 2 - Dimensão dos clusters

Fonte: elaboração própria com base em dados do estudo.

18
Figura 3 - Predictor importance

Fonte: elaboração própria com base em dados do estudo.

No que diz respeito às variáveis mais importantes na fragmentação e


caracterização das cinco unidades, ou seja, as variáveis que melhor ajudam a
distinguir e a agrupar os elementos entre os vários clusters são: em primeiro lugar o
“Nível de Escolaridade” (1,00); em 2º a Frequência de uso da internet (0,76); e em 3º o
Sexo (0,38). As restantes variáveis apresentam valores de previsão inferiores a 0,08.

Embora possamos afirmar a partida que existe uma certa homogeneidade entre
a população, ou seja, não existe grande diferenciação na perceção dos cidadãos em
relação às questões da privacidade, cibercrime e cibersegurança, podemos salientar
algumas especificidades nomeadamente pela comparação entre os demais7:

- O cluster nº 1 é composto por pessoas que passam mais de três horas por dia
na internet, maioritariamente licenciados, com uma média de 31 anos, cuja a maior
parte (8/10) reside em Lisboa. São os que mais prezam a privacidade dos seus
dispositivos digitais, e a confidencialidade dos seus históricos fiscais, de saúde, ou de
registo criminal. São também aqueles que menos concordam o uso de sistemas de

7
Recomenda-se a consulta do Anexo nº 1, respeitante ao output da análise com
recurso ao teste “Two Step Cluster”.

19
localização geográfica em pessoas.

- O cluster nº 2 salienta-se por grande dos indivíduos residirem fora da zona de


Lisboa, mais de metade têm Mestrado, a maioria (57%) passam mais de três horas por
dia na internet e têm em média 31 anos. São o grupo que melhor classifica o seu
entendimento dos conceitos de Cibercrime e Cibersegurança. São também os que
menos concordam com a utilização de registos de entrada/saída e com o uso de
videovigilância em espaços públicos. São os indivíduos que pior classificam a atuação
do Estado em matéria de cibersegurança.

- O cluster nº 3 é constituído exclusivamente por mulheres, maioritariamente


(94%) têm o grau de licenciatura, sete em cada 10 residem em Lisboa, e têm uma
média de idades de 33 anos. São o cluster que pior qualifica o seu conhecimento da
legislação e entidades que se ocupam do cibercrime, e são também o grupo que
menos provável considera que os seus dados sejam usados por terceiros, de forma
pejorativa.

- O cluster nº 4 é constituído pela mais elevada média de idades (42 anos), de


residentes em Lisboa, grande parte mulheres (73%), metade tem formação secundária
e caracterizam-se pela maioria utilizar a internet numa frequência diária (porém não
superior a três horas/dia). São os que pior classificam o seu entendimento dos
conceitos de Cibercrime e Cibersegurança. Dão menos importância que os demais à
confidencialidade dos dados dos dispositivos e dos historiais pessoais. São aqueles
que mais concordam com o uso de sistemas de localização pessoal, videovigilância, e
registos de atividade, assim como os que melhor classificam a atuação do Estado.

- O cluster nº 5 é constituído (99%) por Homens, que acedem a internet


diariamente, têm na sua maioria o ensino secundário, e uma média de idades de 32
anos. Apenas um em cada 10 vive fora da zona de Lisboa. São aqueles que melhor
conhecem a legislação e entidades e os que mais consideram provável os seus dados
serem usados de forma prejudica-los, ou de forma a favorecer terceiros.

20
Podemos agrupar as características que os grupos partilham, nos seguintes
agregados:

Figura 4 - Características partilhadas por grupo

DQc_RP!Qa`Qa\ZYQa`R!\R!SRaSQZ`R!\Q!
CPQRSTUVWXR!SRY!V!UPZ[VSZ\V\Q!\R]! 1ZeQPSPZYQ!Q!1ZeQP]QfTPVaWV!
\Z]UR]Z^[R]!Q!_Z]`RPZVZ]! ! DQaRP!SRa_QSZYQa`R!\V!cQfZ]cVWXR!Q!
! 0Z]SRP\baSZV!SRY!R!PQfZ]`R!\Q! Qa^\V\Q]!
DQaR]!SRaSRP\baSZV!SRY!V!cRSVcZdVWXR! V^[Z\V\Q!Q!\Q![Z\QR[ZfZcbaSZV! 1Ra]Z\QPVP!YQaR]!UPR[g[Qc!R!SPZYQ!
UQ]]RVc! !
Dg!ScV]]ZhSVWXR!\V!V`TVWXR!\R!(]`V\R!

DQaR]!Qa`Qa\ZYQa`R!\R]!SRaSQZ`R]!\Q!
1ZeQPSPZYQ!Q!1ZeQP]QfTPVaWV!
!
DQaRP!ZYURP`baSZV!\V!SRah\iaSZVcZ\V\Q! DQc_RP!SRa_QSZYQa`R!\V!cQfZ]cVWXR!Q!
\R]!\Z]UR]Z^[R]!Q!_Z]`RPZVZ]! Qa^\V\Q]!
! !
DVZ]!SRaSRP\baSZV!SRY!fU]j!PQfZ]`R]!\Q! 1Ra]Z\QPVP!YVZ]!UPR[V[Qc!R!SPZYQ!
V^[Z\V\Q!Q![Z\QR[ZfZcbaSZV!
!
DQc_RP!ScV]]ZhSVWXR!\V!V`TVWXR!\R!(]`V\R!

!
Fonte: Elaboração própria com base nos resultados obtidos na análise “Two Step Cluster”

&

HBC?&0%J*,#)&5$%%LOP,.%)Q

Formulação das hipóteses:

H0: Os grupos de dados provém todos da mesma população

H1: Os grupos de dados não provém todos da mesma população

Nível de significância: α = 0,05

HBCB>?&!)R/&

Tomada de decisão:

Todos os testes que apresentem valores superiores ao valor do nível de


significância (0,05) são aceites como analises cujo os grupos apresentam a mesma

21
distribuição ou seja, provenientes da mesma população. Todos os testes cujo o p-valor
seja inferior, é rejeitada a hipótese nula (H0) e aceita-se a hipótese alternativa (H1)
como sendo grupos que não apresentam a mesma distribuição, ou seja, um dos dois
grupos poderá não pertencer à população.

Aceita-se que os grupos de dados provém todos da mesma população(H0) nas


seguintes variáveis analisadas:

i. Concorda com a vulgarização do uso da videovigilância em espaços públicos?


* Sexo (p-valor: 0,206)
ii. Concorda com o uso de sistemas de localização geográfica (vulgo GPS) a fim
de localizar pessoas? * Sexo (p-valor: 0,065)
iii. Concorda com a utilização de registos de identificação/horário de
entrada/saída?* Sexo (p-valor 0,613)
iv. As entidades públicas, consoante a sua atribuição, detêm dados dos cidadãos.
Qual a importância destas informações permanecerem confidenciais? * Sexo (p-valor:
0,336)
v. Como classifica a eficácia da atuação do Estado em matéria de segurança
informática? * Sexo (p-valor: 0,136)

Rejeita-se que os grupos de dados provenham todos da mesma população (H0)


e aceita-se a hipótese alternativa de que os grupos de dados não apresentam todos a
mesma distribuição sendo que um dos grupos é proveniente de uma população
diferente (H1), nas seguintes variáveis analisadas:

i. Como classifica o seu entendimento do conceito de “Cibercrime”? * Sexo (p-


valor 0,000)
ii. Sente-se familiarizado com a noção de “Cibersegurança”? * Sexo (p-valor:
0,000)
iii. Que importância atribui à segurança dos dados dos seus dispositivos digitais? *
Sexo (p-valor: 0,012)
iv. Considera provável que os seus dados venham a ser usados de forma a
prejudica-lo ou para favorecer terceiros (por exemplo economicamente)? * Sexo (p-
valor 0,010)
v. Como avalia o seu conhecimento da legislação e dos organismos que, em
Portugal, se ocupam da criminalidade informática? * Sexo (p-valor: 0,000)
22
Posto isto, conclui-se que o género do individuo tem influência no seu
conhecimento dos conceitos cibernéticos, na importância atribuída aos dispositivos
digitais, na consideração da possibilidade de ser alvo de crimes informáticos, e no
conhecimento quer da legislação como das entidades competentes.

HBF?&S7"#T$**LO$**,#&

Tomada de decisão:

Todos as analises que se apresentem com valores superiores ao valor do nível


de significância (0,05) assume-se apresentam a mesma distribuição e por isso, são
provenientes da mesma população. Todos os testes cujo o p-valor seja inferior a 0,05
rejeita-se a hipótese nula (H0 - todos os grupos pertencem à mesma população) e
aceita-se a hipótese alternativa (H1) ou seja, um ou mais grupos poderá não pertencer
à população.

H0: Os grupos de dados provém todos da mesma população

H1: Os grupos de dados não provém todos da mesma população

Nível de significância: α=5%

HBFB>?&UD-)*&+)&)#:/*$7,+$+)&

Nesta categoria só é aceite H0 (os grupos de dados provém todos da mesma


população) na seguinte variável:

i. “Considera provável que os seus dados venham a ser usados de forma a


prejudica-lo ou para favorecer terceiros (por exemplo economicamente” * “Nível de
escolaridade” (p-valor 0,367)

Em todas as outras variáveis conclui-se que um ou mais grupos apresentam


amostras que não pertencem à população. Esta elevada rejeição de H0 vai de
encontro à ilação retirada no teste dos Clusters que apresenta a característica “Nível

23
de Escolaridade” como mais influente na caracterização e distinção dos grupos.
Excepto na consideração de um possível ataque, o nível de escolaridade afeta
fortemente as restantes variáveis.

HBFBC?&V7)@"W%:,$&+)&"#/&+$&'%.)7%).&

Aceita-se H0:

i. Concorda com a vulgarização do uso da videovigilância em espaços públicos?


* Com que frequência usa a internet? (p-valor: 0,080)
ii. Considera provável que os seus dados venham a ser usados de forma a
prejudica-lo ou para favorecer terceiros (por exemplo economicamente)? * Com que
frequência usa a internet?. (p-valor: 0,151)
iii. Como avalia o seu conhecimento da legislação e dos organismos que, em
Portugal, se ocupam da criminalidade informática? * Com que frequência usa a
internet?. (p-valor: 0,099)
iv. Como classifica a eficácia da atuação do Estado em matéria de segurança
informática? * Com que frequência usa a internet? (p-valor: 0,476)

Rejeita-se H0, aceita-se H1:

i. Como classifica o seu entendimento do conceito de “Cibercrime”? *Com que


frequência usa a internet? (p-valor 0,000)
ii. Sente-se familiarizado com a noção de “Cibersegurança”? * Com que
frequência usa a internet? (p-valor 0,004)
iii. Que importância atribui à segurança dos dados dos seus dispositivos digitais? *
Com que frequência usa a internet? (p-valor: 0,000)
iv. Concorda com o uso de sistemas de localização geográfica (vulgo GPS) a fim
de localizar pessoas? * Com que frequência usa a internet? (p-valor: 0,002)
v. Concorda com a utilização de registos de identificação/horário de
entrada/saída? * Com que frequência usa a internet? (p-valor: 0,001)
vi. As entidades públicas, consoante a sua atribuição, detêm dados dos cidadãos.
Qual a importância destas informações permanecerem confidenciais? * Com que
frequência usa a internet? (p-valor: 0,006)

24
Conclui-se que a periodicidade do uso da internet faz variar inúmeras
apreciações: o nível de conhecimento dos conceitos de cibercrime e cibersegurança, o
valor atribuído à privacidade dos dispositivos digitais, a confidencialidade da
localização pessoal, a preocupação com o registo da identificação e horários de
entrada e saída, assim como os historiais.

HBFBF?&'+$+)&

Para analisar a distribuição das variáveis consoante a idade foram agrupados os


elementos nas seguintes categorias:

Tabela 1 - Categorias de idade


Categorias Intervalo de Idades (anos)
1 18-20
2 21-30
3 31-40
4 41-50
5 51-60
6 61-70
7 71-80
Fonte: elaboração própria

Aceita-se H0:

i. Sente-se familiarizado com a noção de “Cibersegurança”? * Idade (p-valor:


0,157)
ii. Concorda com a vulgarização do uso da videovigilância em espaços públicos?
* Idade (p-valor: 0,142)
iii. Concorda com a utilização de registos de identificação/horário de
entrada/saída? * Idade (p-valor: 0,640)
iv. As entidades públicas, consoante a sua atribuição, detêm dados dos cidadãos.
Qual a importância destas informações permanecerem confidenciais? * Idade (p-valor:
0,640)
v. Considera provável que os seus dados venham a ser usados de forma a
prejudica-lo ou para favorecer terceiros (por exemplo economicamente)? * Idade
([Link]: 0,447)
vi. Como classifica a eficácia da atuação do Estado em matéria de segurança
informática? * Idade (p-valor: 0,933)

25
Rejeita-se H0, aceita-se H1:

i. Como classifica o seu entendimento do conceito de “Cibercrime”? * Idade (p-


valor: 0,010)
ii. Que importância atribui à segurança dos dados dos seus dispositivos digitais? *
Idade (p-valor: 0,035)
iii. Concorda com o uso de sistemas de localização geográfica (vulgo GPS) a fim
de localizar pessoas? * Idade (p-valor: 0,019)
iv. Como avalia o seu conhecimento da legislação e dos organismos que, em
Portugal, se ocupam da criminalidade informática? * Idade (p-valor: 0,00)

As variáveis cuja a distribuição em um ou mais grupos não se mantém são o


entendimento do conceito “cibercrime”, a segurança dos dispositivos digitais, a
localização geografia e o conhecimento da legislação e entidades. Podemos afirmar
com algum grau de certeza (95%) que a idade da pessoa poderá fazer variar quer o
seu conhecimento quer o seu sentimento em relação à privacidade dos dispositivos
digitais e da localização geográfica (relativamente à media populacional).

Relativamente à questão que colocamos acima, quanto à possibilidade de uma


alteração na importância dada à privacidade, sendo que não detemos comparação
com um estudo noutra altura temporal, decidimos agrupar os quatro segmentos de
indivíduos de idades mais novas - 18-50 anos – e de idades mais avançadas – 50 a 80
anos – para tentar perceber se entre estas gerações conseguimos afirmar com algum
grau de certeza que se deu uma transformação no valor atribuído à privacidade. Para
isto, calculámos média aritmética das médias ponderadas (mean rank) dos quatro
segmentos criados no intervalo 18-50 anos; e dos três segmentos entre 50-80 anos.

Tabela 2 - Apreciação da privacidade face à idade

Variável / Intervalo de idades 18-50 anos 50-80 anos


Importância da privacidade dos dados
502,53 463,50
dispositivos digitais
Concordância com videovigilância 511,35 591,43
Concordância com GPS pessoal 502,65 626,42
Concordância com Registos de entrada/saída 500,07 511,69
Fonte: elaboração própria.

26
A partir da tabela conseguimos concluir duas questões relativamente à
privacidade: enquanto os mais jovens dão mais importância à intimidade dos dados
dos dispositivos digitais, os mais velhos têm maior concordância com os dispositivos
de segurança. Podemos ordenar os gaps de concordância de forma descendente,
sendo que, os mais velhos têm maior concordância com: videovigilância, GPS, e por
fim registo de entrada/saída. Não se pode tirar uma conclusão clara do valor que cada
faixa etária atribui à privacidade (se ceteris paribus) todavia, podemos concluir que,
em atenção ao princípio da proporcionalidade que são os mais velhos que mais
facilmente abdicam dos seus direitos de privacidade pela manutenção da segurança e
prevenção da criminalidade.

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Aceita-se H0 em todas as variáveis. A hipótese nula é aceite, a distribuição


mantém-se em todos os sete grupos referentes à divisão Portuguesa da NUTS II. Ou
seja, independentemente da região de residência os elementos apresentam, em todas
as variáveis analisadas, homogeneidade de resultados. Podemos afirmar que todos os
grupos de dados pertencem à mesma população.

Isto leva-nos a concluir que a região de residência da pessoa não se apresenta


como condicionante da sua perceção em matéria de cibercrime.

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A organização político-administrativa nasce da necessidade de promover, a par
das obras públicas da necessidade de promover a segurança. Ora, a segurança é
entendida desde os primórdios da humanidade como uma necessidade essencial, de
cariz especifico e duradouro que consubstancia uma função do Estado. A segurança
cibernética, por sua vez, é uma área da segurança emergente da informatização que
se fez sentir nas últimas décadas, constituindo uma preocupação exponencialmente
premente dos Estados, quer a nível nacional, quer a nível supranacional. Estas
circunscrições configuram aquilo a que se chama “Cibersegurança” – nível nacional,
com a garantia da ordem, segurança e tranquilidade pública; e “Ciberdefesa” – nível
supranacional, na garantia da soberania, independência e liberdade dos Estados que
possa ser inviabilizada através/com recurso à ataques informáticos.

À ação do Estado, em dada matéria, denomina-mos “políticas públicas”. As


políticas públicas são planos de ação elaborados e implementados para enfrentar
aquilo que é identificado como um problema público. Esta distinção vai depender da
subjetividade de “problema”, sendo que é comummente aceite a existência de um
problema numa situação que não corresponde à ideal/desejada. A insegurança online
sentida pelos utilizadores na sua utilização pessoal quer por sistemáticas falhas e
ataques aos sistemas públicos de armazenamento de dados constitui assim um
problema com inúmeros riscos, no sector público, capaz mesmo de enfraquecer a
confiança nas instituições, inviabilizar a eficácia e eficiência da administração pública e
causar a desordem.

Aceita-se que as políticas públicas possam ser analisadas/explicadas segundo


algumas teorias usualmente aceites: a teoria do ciclo das políticas públicas, da
escolha pública, pluralista/dos networks e institucionalismo. Ou seja, aceita-se que a
definição de políticas, em primeiro lugar, é feita com base em etapas subsequentes e
interdependentes; que são fundamentadas no custo de oportunidade; que a sua
concepção resulta da interação entre indivíduos, e vínculos entre estes; e que, as
instituições formais e não formais são influenciadoras das políticas públicas. Os
policymakers dispõem de vários instrumentos de alteração de comportamentos como
a premiação, a coerção, a consciencialização ou as soluções técnicas. É através

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destes instrumentos que o Estado procura conduzir a utilização segura e consciente
da informática.

A privacidade por sua vez, sendo uma definição que se prende com questões
culturais e temporais, é percebida atualmente com alguma discricionariedade e
associada à contemplação de infindas prerrogativas que justificam a sua violação.
Destas, salientam-se as grandes bases como o SISII – base de dados do espaço
Shengan, ou o Eurodac para identificações a partir de impressões digitais. Toda a
panóplia de instrumentos e técnicas, abordados ao longo deste trabalho, de fácil
acesso e utilização (inclusive para fins menos corretos), leva-nos a assumir que,
tendemos brevemente a igualar a sociedade imaginada por George Orwell.

No que diz respeito à legislação e entidades do caso Português no que diz


respeito à legislação e as entidades competentes, pudemos constatar, igualmente com
base nos relatórios da União Europeia que, em grande parte dos diplomas associados
à privacidade ou ao cibercrime, não se faz uma distinção e delimitação concisa e
suficientemente abrangente dos conceitos associados.

No que diz respeito à perceção dos cidadãos nestas matérias conseguimos


concluir, através do inquérito realizado, que existe uma grande homogeneidade na
perceção dos cidadãos. No entanto, os atributos que mais fazem variar as respostas
dos indivíduos são, por ordem: o seu nível de escolaridade; a frequência com que
usam a internet e o género.

A análise de clusters diferenciou cinco grupos, dos quais podemos salientar as


seguintes particularidades:

- São os que menos entendimento têm do cibercrime e da cibersegurança que


menos importância dão à confidencialidade dos dados dos seus dispositivos e
historiais, assim como são aqueles que mais concordam com os registos de
entrada/saída e com a videovigilância;

- Os indivíduos consideram mais provável a ocorrência de crimes quanto mais


conhecem a legislação e entidades da matéria;
- Quanto maior é o entendimento sobre os conceitos de cibercrime e
cibersegurança pior é a classificação atribuída à atuação do Estado.

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Quanto à influência das características pessoais na perceção desta matéria,
podemos constatar que, a única que não faz variar as respostas verificadas nos
grupos, ou seja, que não demonstra afetar o conhecimento ou a perceção nesta
matéria é a região de residência do indivíduo. A idade do individuo por sua vez, é a
seguinte variável que menos influencia as respostas fazendo apenas variar quatro das
10 variáveis avaliadas. Quanto a uma possível alteração do valor adjudicado à
privacidade, sem estudo idêntico para comparação, conseguimos apenas constatar
que são os indivíduos mais velhos que mais facilmente prescindem da privacidade e
da confidencialidade dos seus dados em prol de dispositivos que aumentem a
segurança, sendo que o nível de concordância segue a seguinte ordem:
videovigilância, GPS, e por fim registo de identificação e horários de entrada/saída.

Concluímos assim que o estudo em causa respondeu às questões colocadas


inicialmente, fazendo caracterização sucinta do caso Português quer no que diz
respeito às entidades e legislação vigente quer na aferição daquilo que é a perceção
da população portuguesa nesta matéria.

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X,(*,/97$=,$&

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