“ALÉM DO OLHAR PETRIFICANTE”: CONSIDERAÇÕES SOBRE O MITO
DE MEDUSA NO ROMANCE CONTEMPORÂNEO DE NATHALIE HAYNES
Beyond the Petrifying Gaze: Considerations on the Myth of Medusa
in the Contemporary Novel by Nathalie Haynes
DOI: 10.14393/LL63-v40-2024-64
Ana Maria Soares Zukoski*
Natacha dos Santos Esteves*
Wilma dos Santos Coqueiro**
RESUMO: O presente estudo, partindo do romance O olhar petrificante: a história de Medusa (2023),
de Nathalie Haynes, apresenta uma revisitação ao mito da Antiguidade Clássica e uma perscrutação
sobre como foi criado o monstro Medusa. Tendo como corpus de análise uma obra contemporânea,
cuja premissa básica é humanizar e evidenciar como a personagem foi vítima de diversas violências,
o corrente estudo desnuda a influência do patriarcalismo na criação do arquétipo de monstro e,
assim, convida ao questionamento sobre quem são, de fato, os monstros.
PALAVRAS-CHAVE: Crítica Feminista. Mitologia Clássica. Medusa. Nathalie Haynes. Romance de
autoria feminina contemporâneo.
ABSTRACT: This study draws on the novel The Petrifying Look: The Story of Medusa (2023), by Nathalie
Haynes to revisit the myth of Classical Antiquity and examine how the monster Medusa was created.
In analyzing a contemporary work, whose basic premise is to humanize and highlight how the
character was a victim of various forms of violence, this study reveals the influence of patriarchalism
in the creation of the monster archetype and, thus, poses questions about who in fact is the monsters.
KEYWORDS: Feminist Criticism. Classical Mythology. Medusa. Nathalie Haynes. Contemporary
female-authored novel.
*
* Doutora em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). ORCID: 0000-0001-6231-701X. E-
mail: [Link].
*
** Mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). ORCID: 0000-0002-9834-5044. E-
mail: [Link].
**
*** Doutora em Estudos Literários. Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR). ORCID: 0000-0001-6271-4744.
E-mail: [Link].
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1 Considerações iniciais: o mito da Medusa
O estudo dos mitos gregos transcende as fronteiras do tempo, mantendo-se relevante
e influente na contemporaneidade. Essas narrativas antigas, repletas de deuses, heróis e
criaturas lendárias, desempenham um papel crucial na compreensão da cultura, da psicologia
e da própria natureza humana. Além de propiciarem um conhecimento sobre a cultura
humanista grega – base da civilização ocidental – os mitos continuam a ser uma fonte
inesgotável de inspiração para criação de obras literárias e representações diversas nas artes
visuais, cinema e música, entre outras formas artísticas. De acordo com Grimal (2009, n. p.), na
Grécia Clássica, o mito “desenvolve-se como epopeia e apoia ou explica as crenças e os ritos
da religião”.
O autor acrescenta ainda a relação intrínseca do mito com todas as criações artísticas,
sendo essa sua característica mais poderosa: “a constatação de que se integrou a todas as
atividades do espírito. Não existe um domínio do helenismo, tanto na plástica quanto na
literatura, que não tenha constantemente recorrido a ele. Para um grego, o mito não conhece
fronteiras. Ele se insinua por toda parte” (Grimal, 2009, n. p.). Com efeito, para o teórico, é
possível perceber como as representações mitológicas faziam parte do dia a dia dos gregos,
tornando-se familiares por meio da reprodução de cenas em vasos, tigelas e outros recipientes
utilizados em suas atividades cotidianas. Assim, o mito “desenha uma imagem, um símbolo de
uma realidade que, de outro modo, seria inefável” (Grimal, 2009, n. p.).
Os mitos, provenientes de uma tradição oral, mas também perpetuados pela escrita,
são passados de uma geração para outra, resistindo ao tempo e carregando consigo um
profundo significado simbólico. Não se limitam a meras obras literárias, mas constituem um
conjunto de estruturas narrativas fundamentais que sustentam uma variedade de crenças
transmitidas oralmente. Sua natureza é extraordinária, pois, ao mesmo tempo que explicam a
realidade, vão além dela, desafiando as normas básicas que regem a existência. Por vezes,
servem como justificativa para comportamentos sociais, mesmo os mais negativos, presentes
em uma comunidade. Por isso, Detienne ressalta que “o mito tem, para nós, a autoridade de
um fato natural” (Detienne, 1998, p. 10).
A ficção contemporânea escrita por mulheres tem adotado uma perspectiva revisionista
em relação à história, à literatura canônica e à mitologia, iluminando trajetórias femininas cujas
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narrativas foram predominantemente moldadas por homens. Muitas obras contemporâneas
encontram inspiração em mitos que foram negligenciados ou vilanizados em sua origem,
especialmente os que retratam mulheres vilipendiadas ou oprimidas. Autoras como Madeleine
Miller, Jenifer Saint e Nathalie Haynes, entre outras, têm reimaginado histórias clássicas, como
as de Circe, Galateia, Electra, Atalanta, Ariadne, Jocasta e Medusa, dando voz às protagonistas
e oferecendo uma nova perspectiva por meio de narrativas em primeira pessoa. Esta
abordagem lança luz sobre os mitos que representam o feminino. A recepção e a produção
dessas obras na contemporaneidade não apenas refletem um contínuo fascínio pelo passado,
mas também destacam a capacidade dos mitos de ressoar com questões universais e
atemporais, proporcionando um rico campo para reflexão e interpretação.
É nesse sentido que o mito da Medusa, uma personagem da mitologia grega
reconhecida por seu olhar petrificante e serpentes em lugar dos cabelos, continua a gerar
debates e reflexões em nossa era, suscitando questões urgentes como a representação do
feminino, a violência de gênero e o papel subjugado das mulheres na sociedade ocidental, uma
vez que “a escrita sempre foi uma forma de poder” (Reis, 1992, p. 67) e também uma forma de
questionar o poder, como é o que ocorre com a releitura do mito.
Grimal (2005), em seu Dicionário da mitologia grega e romana, adverte que, assim
como outros mitos da época clássica, há diferentes versões acerca da história da Medusa. O
autor não dispõe de um verbete para descrever a narrativa da Medusa, inserindo-a no mesmo
verbete destinado às górgonas Eusteno, Euríale e Medusa, filhas de duas divindades marítimas,
Fórcis e Ceto. De acordo com o autor, a lenda da Medusa, a única mortal das três irmãs, sofreu
variações, desde as origens até a época helenística1:
Primitivamente, a górgona é um monstro, uma das divindades primordiais
pertencentes à geração pré-olímpica. Em seguida, é considerada vítima de
uma metamorfose e contava-se que Gorgo fora primeiramente uma bela
jovem, que ousara rivalizar sua beleza com a deusa Atena. Orgulhava-se
principalmente da beleza de sua cabeleira; para a punir, Atena transformou
os seus cabelos em serpentes. Uma outra versão contava que a cólera de
Atena se abatera sobre a jovem porque Poseidon a violara num templo
1
“O Período HelenísZco foi uma fase da história da Grécia AnZga que se iniciou no século IV a.C. e se estendeu até
o século II a.C. Também conhecido como Helenismo, foi um período caracterizado pela junção da cultura grega e
a de outros povos do Oriente, em especial, durante a expansão macedônica feita por Alexandre, o Grande, que
culminou na invasão grega e na difusão de sua cultura” (Higa, 2023, n.p.).
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consagrado à deusa. Medusa foi atingida com a punição desse sacrilégio.
(Grimal, 2005, p. 187)
Dessa forma, é impossível capturar todas as nuances do mito, seja na sociedade original
ou em suas variantes ao longo dos séculos, evidenciando a inexistência de uma versão definitiva.
Sobre isso, Burkert (1991, p. 29) esclarece que “a maior parte das ‘histórias’ antigas são de
qualquer forma ambivalentes, susceptíveis de interpretações diversas”.
Em várias obras e compilações sobre a mitologia grega 2 , o mito de Medusa
frequentemente aparece associado ao de Perseu, um herói de origem argiva e filho de Zeus.
Sua mais notável proeza foi a decapitação de Medusa, usando sua cabeça para petrificar seus
adversários3. Na Teogonia, obra clássica de Hesíodo, conhecida como a Genealogia dos Deuses
e escrita no século VIII-VII a.C. em versos hexâmetros, as górgonas eram ligadas a uma linhagem
de monstros. Medusa era filha dos monstros Fórcis e Ceto e irmã das monstruosas górgonas
imortais: Euríale e Esteno, como se observa na passagem de Teogonia 270-286:
De Forcis, Ceto gerou as Velhas de belas faces,
grisalhas de nascença, apelidam-nas Velhas
Deuses imortais e homens caminhantes da terra:
Penfredo de véu perfeito e Ênio de véu açafrão.
Gerou Górgonas que habitam além do ínclito Oceano
os confins da noite (onde as Hespérides cantoras).
Esteno, Euríale e Medusa que sofreu o funesto,
era mortal, as outras imortais e sem velhice
ambas, mas com ela deitou-se o Crina-preta
no macio prado entre flores de primavera.
Dela, quando Perseu lhe decapitou o pescoço,
surgiram o grande Aurigládio e o cavalo Pégaso;
tem este nome porque ao pé das águas do Oceano
nasceu, o outro com o gládio de ouro nas mãos.
Voando ele abandonou a terra mãe de rebanhos
e foi aos imortais e habita o palácio de Zeus,
portador do trovão e relâmpago de Zeus sábio.
(Hesíodo, Teogonia 270-286, trad. Jaa Torrano, 2007, p. 117)
Indo além, o renomado pintor italiano Michelangelo Merisi, mais conhecido como
Caravaggio, foi um proeminente representante do Barroco no século XVI. Em sua obra A Cabeça
2
Entre essas diversas compilações e estudos, podemos citar “Perseu e a Cabeça da Medusa”, inserida em As 100
melhores histórias da mitologia: deuses, heróis, monstros e guerras da tradição greco-romana, organizada por A.
S. Franchinu e Carmen Deganfredo, e “Perseu e Medusa”, em Mitologia Grega, v. 3, de Junito de Souza Brandão.
3
Tendo em vista as várias representações de Medusa em diversas obras arlsZcas, citamos aqui apenas algumas
para evidenciar a objeZficação sofrida pelo mito ao longo do tempo.
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da Medusa, datada de 1598, ele retratou a cena do confronto entre Medusa e Perseu,
capturando a cabeça decepada no exato instante em que sua expressão de horror se petrificava
em seu rosto, conforme pode ser observado na representação da Figura 1:
Figura 1 – Head of Medusa, 1598-99
Fonte: óleo sobre tela em suporte de madeira, 58 cm
de diâmetro, na Galleria degli Uffizi, em Florença, Itália.
No século XX, a poetisa Judith Teixeira apresentou uma recontagem a respeito do mito
da Medusa. Escritora chave do modernismo de Portugal, Teixeira utilizou a imagem do monstro
em alguns de seus poemas, nos quais temos diferentes representações de uma mulher
amaldiçoada injustamente, assim como Medusa:
Sou amargura em recorte
numa sombra diluída...
Vivo tão perto da morte!
Ando tão longe da vida...
Quis vencer a minha sorte,
Mas fui eu que fui vencida!
Ando na vida sem norte,
Já nem sei da minha vida...
Eu sou a alma penada
de outra que foi desgraçada!
—A tara da desventura...
Sou o Castigo fatal
dum negro crime ancestral,
em convulsões de loucura!
(Teixeira, 1996, n/p.).
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A autora – Natalie Haynes – graduada em Filologia Clássica pela Universidade de
Cambridge, na Inglaterra, questiona a “história oficial” das narrativas gregas. Considerada uma
autoridade global em literatura clássica, Haynes explica4 que as violências que Medusa sofreu
não são questionadas porque “tendemos a ficar do lado de homens aventureiros, porque
tantas histórias em todas as culturas nos convidam a fazer isso” (2022, n/p.). Para ela, além de
questionar as histórias contadas por vozes masculinas, ela busca fazer as leitoras entenderem
que Medusa “[...] foi vítima de estupro. Ela foi primeiro estuprada por um deus masculino
(Poseidon) e depois punida por uma deusa feminina (Atena) por ter sido agredida sexualmente
em seu templo” (2022, n/p.).
Assim, considerando as múltiplas facetas que essa figura feminina assumiu ao longo do
tempo e a interpretação complexa – literária, psicanalítica, histórica e social – que o mito
suscita, especialmente devido ao fato de a personagem ter sido violada5 por um deus e, mesmo
sendo a vítima, ter sido punida por uma deusa na maioria das versões, este trabalho busca
analisar sua representação na atualidade por meio do romance Olhar petrificante: a história da
Medusa (2023), originalmente intitulado Stone Blind, publicado em 2022 pela escritora
britânica Natalie Haynes. Por meio de diversos pontos de vista, incluindo o da própria Medusa,
em uma narração não linear, o romance desconstrói a narrativa tradicional do mito e abre
caminho para estudos de gênero na literatura clássica, propondo uma nova versão – feminina
– de sua trajetória.
2 “Triste, louca ou má”?: a construção do patriarcalismo no mito de Medusa
A autora do livro em análise, Natalie Haynes, cujas obras têm sido traduzidas no Brasil,
atua também como radialista na BBC Radio 4. Seu primeiro livro publicado – The Amber Fury –
foi amplamente recebido pela crítica literária. Tendo um trabalho voltado para a mitologia,
Haynes publicou os romances: The Children of Jocasta (2017); A Thousand Ships (2019) –
no qual reconta a história da Guerra de Troia e que foi indicado ao Women's Prize for Fiction,
4
Entrevista concedida pela autora em 2022, para a BBC News. VELASCO, Irene Hernández. Medusa não foi um
monstro, mas sim víZma de estupro, diz escritora sobre mito grego. BBC News, 2022. Disponível em:
hops://[Link]/portuguese/geral-62784089. Acesso em: 26 nov. 2024.
5
O uso do termo “violada”, ao invés de “estuprada”, deve-se ao fato de que na sociedade grega clássica não havia
essa designação referente à violência sexual. Contudo, na atualidade, a história de Medusa é lida como uma
história de estupro e violência de gênero.
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em 2020. Ainda no ano de 2020, ela publicou o romance Pandora's Jar: Women in the Greek
Myth, que atingiu o segundo lugar na lista do The New York Times Bestseller. Sua publicação
mais recente, Olhar petrificante: a história da Medusa (2023), tem alcançado um lugar sólido
na crítica feminista6.
Recontando o mito da Medusa por meio de pontos de vista intercalados, Haynes lança
uma provocação aos/às leitores/as: monstro ou vítima? Conhecida na cultura ocidental,
durante muitos séculos, como um monstro vingativo e cruel, a Medusa de Haynes é uma
revisitação ao mito original e suas implicações no feminino. Nesse romance contemporâneo, a
autora desconstrói o mito clássico e humaniza a personagem. Medusa, sendo a única mortal
em um ambiente familiar composto por deuses e por suas irmãs górgonas, consegue
envelhecer e sofre pelas mudanças da vida. Em um fatídico dia, Poseidon7 – deus do mar e dos
rios – abusa sexualmente da jovem no templo de Palas Atena, deusa da sabedoria e da justiça.
Nesse primeiro ponto, são cabíveis algumas considerações a respeito da criação de
Atena. A sua sabedoria, amplamente reconhecida ao longo dos séculos, é uma sabedoria
masculina, uma vez que a própria deusa declarou sua inclinação ao pensamento dos deuses:
Serei a última a pronunciar o voto
e o somarei aos favoráveis a Orestes.8
Nasci sem ter passado por ventre materno;
meu ânimo sempre foi a favor dos homens,
à exceção do casamento; apóio o pai.
Logo, não tenho preocupação maior
com uma esposa que matou o seu marido,
o guardião do lar; para que Orestes vença,
basta que os votos se dividam igualmente.
(Ésquilo, Eumênides 974-982, trad. Mário da Gama Kury, 2003).
6
Informações sobre a autora foram colhidas em sua própria página no domínio da internet:
hops://[Link]/about/. Acesso em: 11 jun. 2024.
7
Na atualidade, estudiosos de literatura clássica têm uZlizado o vocábulo “Posídon”. Todavia, como no romance o
deus do mar é chamado de Poseidon, viu-se a necessidade de manter a forma como consta na obra de
Haynes (2023).
8
Na tragédia As Eumênides de Ésquilo, a deusa Atena desempenha um papel crucial no julgamento de Orestes,
que é acusado de matar sua mãe, Clitemnestra. Este julgamento é um dos eventos centrais da trilogia Oréstia e
marca a transição de uma justiça vingativa e arcaica para um sistema de justiça mais civilizado e racional,
simbolizado pelo Tribunal do Areópago, instituído e presidido por Atena. Ao manifestar seu voto a favor de
Orestes, cuja votação termina em empate, Atena se justifica, validando o patriarcado.
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Não é de se admirar que Palas, sendo feita à imagem da sabedoria de Zeus, escolha o
lado masculino na hora de praticar sua justiça. Assim, mesmo sabendo que Medusa foi violada
por Poseidon, a deusa, na impossibilidade de punir um deus poderoso como ele, escolhe
castigar a jovem pelo fato de que o ato ocorreu em um de seus templos. A punição imposta a
Medusa consiste em torná-la monstruosa, ter os cabelos transformados em serpentes e um
olhar mortal capaz de transformar qualquer criatura viva em pedra. Para além disso, a jovem
também foi condenada, consequentemente, a uma vida solitária e reclusa. Todavia, sua paz é
abalada quando Perseu – o semideus filho de Zeus – decide embarcar em uma missão cujo
objetivo é decapitá-la.
A obra de Haynes é relevante na medida em que ilumina a influência patriarcal na
opressão e construção da figura da Medusa como um monstro. O patriarcalismo, a partir do
viés dos estudos de gênero da crítica feminista, pode ser compreendido como um vazio –
porém, universal – agrupamento de instituições que certificam e preservam a violência e o
poder masculino, correspondendo à dominação e à repressão da mulher pelos homens e sendo
a mais importante forma histórica de opressão e divisão social, conforme explica Figueiredo
(2020, p. 18), “como a força da ordem masculina é naturalizada, dispensa justificação: a visão
androcêntrica impõe-se como neutra e universal e não tem necessidade de ser enunciada em
discursos para legitimá-la”. Ademais, o patriarcalismo valida a diferença como um agente de
exclusão, uma vez que a barreira biológica é ultrapassada e a construção social e cultural
desempenha um papel mais importante, atribuindo aos detentores do falo a posição
privilegiada.
A respeito da construção discursiva e mitológica criada em derredor da figura da
Medusa, já é questionada logo de partida por meio da representação de heróis e monstros:
Eu só os vejo por um instante. Então eles desaparecem. Mas é o suficiente.
Suficiente para saber que o herói não é o gentil, corajoso ou leal. Às vezes –
nem sempre, mas às vezes –, ele é monstruoso. E o monstro? Quem é ela? Ela
é o que acontece quando alguém não pode ser salvo. Esse monstro em
particular é agredido, abusado e caluniado. E mesmo assim, como a história é
sempre contada, é ela que você deveria temer. Ela é o monstro.
(Haynes, 2023, p. 11, trad. Marcelo Barbão)9
9
Todas as traduções citadas do romance de Haynes são de Marcelo Barbão.
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Ao apresentar o lado menos conhecido sobre ambas as representações, herói e
monstro, a escritora britânica desvela a influência patriarcal que acompanha e constitui a
construção dessas figuras. Nota-se que ocorre um esforço para demonstrar os aspectos
negativos concernentes ao herói, exclusivamente do sexo masculino. Ao longo da narrativa de
Haynes, percebemos que Perseu não é corajoso nem gentil. Contrariamente, sente prazer em
utilizar a cabeça da Medusa para matar desenfreadamente e sem propósito, e só consegue
realizar sua missão com a ajuda e interferência divina, mais especificamente de Atena e Hermes.
O Perseu de Haynes deflagra a fragilidade do herói masculino ao mesmo tempo em que
evidencia os privilégios que lhe são concedidos, unicamente por ocupar essa posição. Já no que
tange à representação de Medusa, é nítido que a escritora questiona o status de monstro, ao
evidenciar os sofrimentos que foram impingidos a ela e o processo de culpabilização da vítima.
A narrativa mostra que a construção enquanto herói ou monstro está relacionada aos
interesses sociais, e não aos atos cometidos ou sofridos pelos personagens, dado que Perseu,
apesar de cometer atos monstruosos, é visto – pela sociedade – como herói, e a mulher atacada,
que é vítima, é transformada em vilã.
O ideário patriarcal que estrutura hierarquicamente a relação entre homens e mulheres
(Bourdieu, 2015) se faz presente ao longo da trajetória de Medusa e, em especial, no seu
fatídico encontro com o deus Poseidon: “– Você vai querer – ele deu de ombros. – Por que não
iria querer? Sou um dos deuses do Olimpo. Você deveria se sentir honrada por ter sido
escolhida. É um privilégio que não fez nada por merecer. Eu a vi e decidi favorecê-la. Nem pense
em não querer. Pense em agradecer, suponho” (Haynes, 2023, p. 58). O excerto, considerando
o contexto grego da origem do mito, evidencia quão deturpada é a ótica direcionada pelos
princípios patriarcais, visto que o abuso, a partir da perspectiva do estuprador, não é
considerado como uma violência. Ao contrário, é tido como um privilégio. Na
contemporaneidade, essa manipulação discursiva configura-se como uma violência simbólica,
nos termos de Bourdieu (2015), dado que cerceia o direito de escolha de Medusa,
descaracterizando a violência física e a construindo discursivamente como algo positivo,
reduzindo as chances de confronto ou denúncia da mulher.
Haynes, ao longo da narrativa, concede o direito de Medusa expressar seus sentimentos
de forma humanizada diante da situação de abuso que sofreu: “Quando Medusa voltou para a
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caverna à noite, estava quieta e assustada [...]. Ela não queria ver a luz, disse. Não quis
conversar, comer peixe ou nadar. Queria se sentar no escuro o mais longe do mar que pudesse
[...] Não perguntou mais nada; sabia de quem ela estava falando e o que havia sofrido” (Haynes,
2023, p. 65-67). A solidariedade expressa pelas irmãs, que sabiam que Medusa estava com
medo de Poseidon e que ele a havia estuprado, nos faz refletir sobre duas questões: a primeira
diz respeito ao fato de as irmãs identificarem o abusador instantaneamente, o que demonstra
que o abuso sexual era uma prática corriqueira do deus dos mares e oceanos, que não era
punido ou hostilizado pelo seu comportamento; a segunda relaciona-se à forma como a
personagem sofre com o estupro, isto é, de forma tão humanizada que não é possível
identificar a monstruosidade que lhe atribuem. O comportamento da personagem diverge da
representação que lhe foi imposta, revelando-a como vítima.
A postura da deusa Atena diante do acontecido reforça a presença dos esteios
patriarcais: “Ele podia estuprar ou seduzir quem quisesse ali, Atena não iria interferir. Mas
profanar o templo dela, e nem considerar que o insulto merecia um pedido de desculpas? [...]
Haveria uma oportunidade de humilhá-lo mais tarde, ela tinha certeza. Mas, enquanto isso, [...]
A garota serviria” (Haynes, 2023, p. 115). É visível que a deusa da justiça e da guerra não
demonstra a mesma solidariedade que as górgonas, irmãs de Medusa e consideradas monstros,
manifestaram.
Nessa medida, já observamos que a narrativa questiona o conceito de monstro não
apenas em relação ao herói, mas às próprias divindades. Ademais, a indiferença de Atena em
relação às práticas de violência contra as mulheres recorrentemente praticada por Poseidon
reflete, ainda que indiretamente, uma concordância com as atitudes do deus dos mares. Isso é
corroborado com a decisão de castigar a vítima e delegar a impunidade ao agressor. O fato de
a deusa direcionar a sua preocupação para seu templo, além de tomar isso como uma ofensa
pessoal, transformando-se na vítima que “merecia um pedido de desculpas”, desumaniza
Medusa, ao colocar o templo, que é inanimado, acima da figura feminina.
Ademais, é perceptível que a postura de Atena diante de Medusa não é singular:
“–Sabemos quem foi – disse Euríale. – Vingativa e cruel, sempre culpando as mulheres pelo
que os homens fazem com elas. Ela sempre foi assim. Você sabe quem foi” (Haynes, 2023,
p. 132). De forma semelhante ao reconhecimento de Poseidon como estuprador, o fato de as
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górgonas identificarem Atena como a responsável pela punição a que Medusa foi submetida
reflete que se trata de atitudes corriqueiras. A perspectiva crítica de Euríale revela o processo
de culpabilização dá vítima pela divindade, punindo pela segunda vez a mulher que já foi vítima
da violência sexual praticada pelo deus do mar. Medusa é, portanto, duplamente objetificada,
primeiramente transformada em objeto sexual e posteriormente em objeto de repreensão. A
atitude da deusa, que, como ela própria afirma em As Eumênides, nasceu sem “ter passado por
ventre materno”, aponta para um traço marcante das sociedades de base patriarcal: a
rivalidade e a falta de sororidade entre mulheres. Esse termo, segundo Rochel (2020), remete
ao ideal de união e apoio mútuo entre mulheres e é fundamental para se combater a
desigualdade de gênero, o que não é, obviamente, praticado pela deusa da justiça.
Conforme a narrativa coloca luz nas questões que vimos discutindo, o ideário de
monstro – relacionado a Medusa, após sua trágica e dolorosa transformação – vai sendo
desconstruído:
Quero saber se você ainda pensa nela como um monstro. Imagino que
depende do que acha dessa palavra. Monstros são, o quê? Feios?
Aterrorizantes? Górgonas são essas duas coisas, com certeza, embora
Medusa nem sempre tenha sido assim. Um monstro pode ser lindo e, mesmo
assim aterrorizante? Talvez dependa de como você sente o medo e julga a
beleza.
E um monstro é sempre ruim? Existem os monstros bons? O que acontece
quando uma boa pessoa vira um monstro? Sinto-me confiante para dizer que
Medusa era uma boa mortal: será que tudo isso desapareceu agora? Caiu
junto com o cabelo dela? Pois acho que você já sabe por que as cobras
estavam tão ansiosas para que ela cobrisse os olhos quando ouviram a irmã
se aproximando [...] Elas sabiam antes de Medusa que o olhar dela agora era
letal. (Haynes, 2023, p. 190)
Apesar de apresentar um leque de narradores que se alternam entre os capítulos, o
foco narrativo contribui de forma premente para romper com o estereótipo de que Medusa é
um monstro, questionando diretamente o/a leitor/a. O excerto mostra a construção da
imagem monstruosa, associando características tidas como negativas como a feiura a uma
conduta malevolente. Além disso, os conceitos de bondade e maldade também são postos sob
dúvida, pois Medusa era uma boa mortal e, ainda assim, foi considerada um monstro,
diferentemente de Poseidon e Atena, que praticaram atitudes condenáveis e ainda sim foram
exaltados como divindades.
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Assim, o romance, ainda que represente a história da personagem de maneira
semelhante à maioria das versões que conhecemos – violação, punição e decapitação –, toca
em questões relativas a esse mito tão emblemático da cultura ocidental, de modo a ressoar no
mundo contemporâneo. A questão da identidade feminina – tão em pauta na atualidade, é
uma temática que percorre todo o romance. Simone de Beauvoir (apud Touraine, 2011, p. 16)
explica que durante séculos a mulher havia sido construída para “ser para o homem e
performar comportamentos pressupostos para ela dentro da lógica patriarcal e isso pode ser
observado no mito de Medusa, uma vez que na ‘história oficial’ ela é apenas o monstro e quem
questiona isso cai no que é chamado de ‘escola do ressentimento’” (Bloom, 2001, p. 36).
Haynes, com a sua interpretação contemporânea, rompe com esse constructo identitário
machista por meio do conceito de Gorgonião10.
Desde o nascimento de Medusa – a única mortal em uma família de imortais –, que é
abandonada pelos pais junto às irmãs górgonas, sem nenhuma explicação, já suscita questões
prementes acerca de seu pertencimento àquele mundo. É nesse sentido que a autoria feminina
de Haynes e o foco narrativo que recai em muitos momentos em Gorgonião – que somente
quase ao final se revela como a cabeça decapitada da Medusa – são fundamentais para
compreendermos, por um olhar totalmente diverso do que foi descrita por autores masculinos
a clássica personagem, a agência e o protagonismo de Medusa e sua busca por pertencimento
e identidade: “Sou a cabeça da Górgona, a cabeça da Medusa nascida (ou talvez melhor dizer,
criada) no momento em que ela morreu” (Haynes, 2023, p. 269).
Com efeito, desde criança, Medusa busca se adaptar ao mundo das irmãs imortais e,
por meio do amor recíproco entre elas, encontrar uma espécie de lugar no mundo: “Porém,
Medusa era diferente. [...] Adorava ver crianças, assim como adorava quando suas ovelhas
produziam cordeiros. E quanto mais velha, maior o seu amor pelos mortais” (Haynes, 2023,
p. 53). Após os trágicos acontecimentos que marcam irreversivelmente sua história, Gorgonião
ainda busca contar o que aconteceu e questionar a opressão masculina, validada na mitologia
que transforma Perseu em um herói, e exercida ao longo dos séculos contra as mulheres:
“Então, para homens mortais, somos monstros. Por causa de nossos dentes, nossas asas, nossa
10
Apesar de no senso comum o termo ser traduzido do inglês com “Gorgoneion”, na tradução da obra de Haynes
ele vem como “Gorgonião”. Diante disso, por ser a tradução oficial, optamos por manter o vocábulo “Gorgonião”.
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força. Eles têm medo de nós, por isso nos chamam monstros” (Haynes, 2023, p. 252).
Novamente, a narrativa demonstra a construção da representação monstruosa, dado que as
górgonas apresentam características que destoam desse padrão, como o afeto e amor entre
as irmãs.
Além disso, o medo dos homens é colocado como uma questão central, visto que é ele
que gera e sustenta o ideário discursivo e cultural. A história do mito – e seu extremo infortúnio
– continua a ser contada para além da sua decapitação, pois Perseu a usa para destruir todos
os seus inimigos, inclusive a própria mãe de Medusa, Ceto, para salvar Andrômeda do terrível
monstro marinho, no exato momento que Medusa a olha pela primeira vez: “Mas não perdi
minha mãe: eu a matei” (Haynes, 2023, p. 304).
Em uma obra em que temos acesso à narrativa de diversas personagens mortais e
imortais, sobretudo femininas, que contam a história por pontos de vista diferentes, sobressai-
se, sem dúvida, a voz de Medusa, que acompanhamos como uma bebê abandonada, uma
criança amada e protegida pelas irmãs, uma jovem bonita e sonhadora e, por fim, mesmo que
transformada em uma aparência monstruosa, conserva dentro de si o amor pelos seus e a
responsabilidade com os demais seres. Isso se comprova na forma como Medusa venda os
olhos para não petrificar nem mesmo um animal e como evita contemplar o mar que tanto
ama. Ao final, em um último esforço de expressão e agência, ela revela: “A Gorgonião está
perdida entre as ondas, e ninguém pode alcançá-la, nem mesmo as criaturas do mar. Fechou
os olhos, pela última vez” (Haynes, 2023, p. 339). A natureza de sua decisão remete a empatia
e cuidado para com os outros, destoando, uma vez mais, do ideário de monstro, que teria
prazer em castigar. A escolha por fechar os olhos pode ser vista como resistência às violências,
traçando um caminho de agência, manifestando sua recusa à objetificação.
3 Considerações finais
O romance de Nathalie Haynes apresenta uma releitura plural e heterogênica para uma
história que, durante séculos, foi compreendida de forma linear, na qual Medusa era um
monstro frio e sanguinário, e Perseu era o herói majestoso. Além de questionar a “história única”
do mito e humanizar a personagem górgona, Haynes problematiza a ordem patriarcal que
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responsabiliza as vítimas por terem sido vitimadas ao trazer não apenas Poseidon como
antagonista, mas também a deusa Palas Atena.
No processo de humanizar Medusa, a autora proporciona uma imersão na mente de
uma mulher vítima de violência sexual que, mesmo após ter sido dilacerada e humilhada por
divindades de ambos os sexos, ainda é perseguida por Perseu e usada como um objeto cujo
objetivo é afirmar a virilidade do herói: “[...] ele vai tentar dizer que houve uma luta. Mas não
a luta possível entre um homem armado e uma garota dormindo” (Haynes, 2023, p. 259).
Assim, longe de ser uma narrativa simplista, o romance de Haynes desnuda a
hierarquização das relações de poder ao mostrar as diversas e sequenciais violências que
Medusa sofre e, também, ao indicar que o único apoio que a personagem recebe parte de suas
irmãs, mulheres que também são socialmente invisibilizadas e vitimadas por discursos
misóginos. Apesar de, na Antiguidade Clássica, não ter tido a conceptualização do vocábulo
estupro, a noção de misoginia era comum. Não é à toa que uma porcentagem dos grandes
monstros – os mais violentos e cruéis – são femininos.
Os defensores do cânone clássico são relutantes em revisitar o passado e questionar os
discursos estruturantes da arte, como o crítico mais expoente dessa vertente afirma, “o cânone
ocidental, seja lá o que ele for, não é um programa de salvação nacional” (Bloom, 2001, p. 36).
Todavia, se no século XXI, no ano de 2024, tem-se o Projeto de Lei nº 1.904/2024 que equipara
o aborto realizado acima de 22 dias ao homicídio e, segundo Candido, a literatura “é o sonho
acordado das civilizações” (2011, p. 175), há de se revisitar o passado para entender quem são
os verdadeiros monstros e como eles são criados.
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Recebido em: 18.06.2024 Aprovado em: 11.12.2024
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