APRESENTAÇÃO
DIÁLOGO COM OS CLÁSSICOS: MULTIPLICANDO RECEPÇÕES
Dialogue with Classics: Multiplying Receptions
DOI: 10.14393/LL63-v40supl-2024-1
Júlia Batista Castilho de Avellar*
Matheus Trevizam**
Gilson Santos***
RESUMO: Este número suplementar propõe-se a (re)pensar os clássicos greco-latinos em redes múltiplas
de relações, que coloquem em diálogo tradição, transmissão, interpretação e recepção da Antiguidade
sob uma perspectiva interdisciplinar. Ele dá continuidade à seção temática proposta no volume 40, a
qual, por causa da grande quantidade de submissões, precisou ser desdobrada neste número
suplementar, que se caracteriza por evidenciar a multiplicidade de enfoques possíveis no âmbito da
recepção clássica. Nesta segunda Apresentação, com base nos trabalhos de Calvino (2007), Martindale
(1993, 2013) e Hardwick e Stray (2008), discutimos sobre diferentes formas de recepção clássica (nas
literaturas, nas artes visuais e no cinema, por exemplo), a fim de assinalar seu caráter interdisciplinar.
Também investigamos alguns dos novos desdobramentos e projeções para os Estudos Clássicos, levando
em conta as releituras das obras da Antiguidade sob perspectivas teóricas contemporâneas. Por fim,
trazemos algumas breves reflexões acerca das possíveis relações entre tradução e recepção dos
clássicos greco-latinos.
PALAVRAS-CHAVE: Recepção clássica. Literatura grega. Literatura latina. Interdisciplinaridade. Tradução.
ABSTRACT: This supplementary issue provides an approach of the Greek and Latin classics in a wide
network of connections, putting together tradition, transmission, interpretation, and reception of
Antiquity from an interdisciplinary perspective. It continues the thematic section proposed in v. 40,
which, due to the large number of submissions, had to be unfolded into a separate issue. This time, we
highlight the variety of possible approaches within the scope of classical reception. In this second
Presentation, based on the works of Calvino (2007), Martindale (1993, 2013), and Hardwick and Stray
(2008), we analyze different forms of classical reception (in literature, visual arts, and cinema, for
example), emphasizing their multidisciplinary nature. We also investigate some of the latest
developments and prospects for Classical Studies, taking into account reinterpretations of ancient works
from modern theoretical perspectives. Finally, we offer some brief reflections on the potential
connections between translation and reception of Greek and Latin classics.
KEYWORDS: Classical Reception. Greek Literature. Latin Literature. Interdisciplinarity. Translation.
*
Doutora em Letras: Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), na área de
Literaturas Clássicas e Medievais. Professora do Instituto de Letras e Linguística da Universidade Federal de
Uberlândia (UFU). ORCID: 0000-0003-3676-833X. E-mail: juliabcavellar(AT)[Link].
**
Doutor em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), na área de Estudos Clássicos.
Professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). ORCID: 0000-0002-1744-
3380. E-mail: matheustrevizam2000(AT)[Link].
***
Doutor em Letras: Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professor do
Instituto de Letras e Linguística da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). ORCID: 0000-0001-9799-2672. E-
mail: gilsonsantos2105(AT)[Link].
Júlia B. C. de Avellar, Matheus Trevizam & Gilson Santos | p. 1-15 | Apresentação: Diálogo com os clássicos...
Introdução
Com mais de 30 textos submetidos e aprovados, informamos com imensa alegria que
foi preciso desdobrar a seção temática “Diálogo com os clássicos”, prevista como parte do
volume 40 da revista Letras & Letras (2024). Em razão da grande quantidade de submissões,
foi criado este número suplementar com o objetivo de publicar, ainda no ano de 2024, todos
os artigos aceitos após a avaliação duplo-cega dos pareceristas anônimos convidados que
colaboraram conosco, aos quais muito agradecemos.1
O tema das submissões foi o critério utilizado para a organização e distribuição dos
textos na seção temática e no número suplementar. Desse modo, a seção temática
inicialmente proposta, a qual constitui parte do volume 40 da revista, reúne os textos que
abordam a recepção dos clássicos greco-latinos em produções da literatura brasileira. O
presente número (v. 40, número suplementar, 2024), por sua vez, dando continuidade à
mencionada seção temática, tem como enfoque a multiplicidade e variedade de formas de
recepção clássica, contendo artigos sobre a recepção clássica nas literaturas estrangeiras,
mas também em diferentes artes e mídias (artes plásticas, pintura, cinema), em outros
âmbitos do conhecimento (história, filosofia, feminismo) e na prática tradutória.
Diante disso, como introdução a este número suplementar da revista e em
continuação às discussões desenvolvidas na Apresentação “Diálogo com os clássicos:
literatura greco-latina e suas recepções”, que introduziu a seção temática do outro volume,
propomos nesta segunda Apresentação reflexões acerca do caráter interdisciplinar e
intermidiático que muitas vezes se manifesta no fenômeno da recepção clássica. Além disso,
discutimos algumas das diferentes formas de se fazer recepção clássica, incluindo aí a prática
da tradução de obras greco-latinas. Este debate teórico inicial servirá de preâmbulo para os
variados textos que compõem o volume e como um convite à sua leitura.
Ao discutir sobre os clássicos no ensaio “Por que ler os clássicos”, originalmente
publicado em 1981, Italo Calvino, ainda que não se limite às produções da Antiguidade greco-
1
Gostaríamos de agradecer igualmente ao prof. Igor Antônio Lourenço da Silva, diretor da revista Letras &
Letras, por toda a atenção e ajuda enquanto desempenhamos o papel de editores de seção temática e deste
número. Também agradecemos por ter viabilizado a possibilidade de publicarmos um número suplementar
diante da grande quantidade de artigos recebidos.
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latina,2 traz definições importantes para se pensar o processo de recepção dessas obras. Ele
destaca justamente a multiplicidade de sentidos suscitados pelos clássicos, que, a cada
leitura, revelam um potencial para novas interpretações. Além disso, ainda assinala que essas
obras se distinguem por trazer, em seu interior, marcas de produções que as precederam e
de leituras anteriormente realizadas, o que confere ao texto diferentes camadas e
possibilidades interpretativas. Nas palavras do autor:
5. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.
6. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para
dizer.
7. Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as
marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que
deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente
na linguagem ou nos costumes). (Calvino, 2007, p. 11, trad. Nilson Moulin)
Ora, a poética intertextual característica das composições antigas greco-latinas, com a
evocação de modelos e a presença de alusões a obras anteriores, atribui a essas produções
uma natureza dialógica, a ponto de ser possível pensar numa recepção das obras clássicas já
na própria Antiguidade. A esse respeito, Lorna Hardwick (2003, p. 4, trad. Júlia Avellar), afirma
que “o drama grego, por exemplo, não cessou no século V a.C. Houve importantes atividades
no século IV e no período helenístico, e também os romanos selecionaram e adaptaram, a fim
de criar suas próprias tradições de comédia, de distintas tragédias, de Sêneca e outros, e de
pantomima”3. Adicionalmente, muitas das produções antigas acabaram por fundar tradições
na história literária, tornando-se paradigmas de determinados gêneros.
A título de exemplo, consideremos alguns aspectos da recepção da poesia épica
homérica na épica virgiliana. Informa-nos Alessandro Perutelli (2009, p. 11, trad. Gilson
Santos) que “a épica não é produto original da cultura latina. Desde suas origens, assume da
épica grega, tanto arcaica quanto helenística, características e motivos, e os (re)elabora em
2
Calvino considera a existência tanto de “clássicos antigos” quanto de “clássicos modernos” (2007, p. 11). Nessa
perspectiva, as obras da Antiguidade greco-latina estariam abarcadas no grupo de “clássicos antigos”.
3
“Reception within antiquity is an important mediating factor between classical and modern cultures. Greek
drama, for instance, did not cease in the fifth century BCE. There were important fourth-century and Hellenistic
activities and the Romans, too selected and adapted in order to create their own cultural traditions of comedy,
of distinctive tragedies by Seneca and others, and of pantomime”.
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novo contexto. Entre os gêneros poéticos latinos, logo tornar-se-ia o mais solene e
importante, apropriando-se de conteúdos que eram mais consonantes à ideologia de Roma”4.
No caso específico da Eneida, de Virgílio, segundo Conte (2010, p. 239), gramáticos
antigos já observaram que o objetivo da obra era duplo: emular a poesia épica homérica e
louvar o imperador Augusto.5 A estrutura do poema virgiliano revela a primeira motivação: os
cantos I-VI da Eneida recontam a trabalhosa viagem de Eneias de Cartago ao Lácio e a
retrospectiva dos eventos que o levaram de Troia até Cartago; no canto VII, com os troianos
já na foz do rio Tibre, lugar determinado pelos deuses como ponto de chegada no Lácio,
inicia-se a segunda parte do poema, que se encerra com a morte de Turno, no canto final
(XII). Essa estrutura compositiva, organizada em duas grandes partes – uma metade odisseica
da Eneida (I-VI), e outra iliádica (VII-XII) –, foi planejada com base no modelo dos poemas
homéricos, mas não faltam elementos da Odisseia na parte iliádica, ou da Ilíada, na parte
odisseica.6
Ainda que tal organização formal admita ressalvas, as linhas do projeto virgiliano são
claras: a Ilíada narra vencedores gregos que levam a destruição a Troia; a Odisseia, por sua
vez, dá continuidade à história, e narra o retorno de Odisseu – um dos destruidores da cidade
– para casa. Essas duas “fábulas” se representam em Virgílio de maneira inversa e
ressignificada: primeiro a viagem de Eneias e seus companheiros, não como um retorno para
casa, mas como uma viagem rumo ao desconhecido, seguindo determinações divinas; e
depois a guerra, não para destruir, mas para edificar uma nova cidade, que dará origem a
uma civilização. Segundo Gian Biagio Conte (2010, p. 240, trad. Gilson Santos), essa
“complexa transformação dos modelos homéricos não tem precedentes na poesia antiga”.7
4
“L’epica naturalmente non è prodotto originale dela cultura latina. Fin dalle origini assume da quella greca,
arcaica così come ellenistica, caratteri e motivi, per elaborarli in una nuova situazione. Tra i generi poetici latini
diventerà ben presto quello più solene e importante, appropriandosi dei contenuti che erano più consoni
all’ideologia di Roma” (Perutelli, 2009, p. 11).
5
Convém destacar que alguns estudiosos modernos têm problematizado essa interpretação da Eneida como um
poema em louvor de Augusto, de modo a destacar a multiplicidade de vozes que perpassam a obra. A respeito
das relações entre o poema de Virgílio e o regime augustano, cf. Parry (1963), Hardie (1989, p. 1-119), Quint
(1989, p. 50-96) e D’Elia (1990, p. 23-53).
6
Paulo Sérgio de Vasconcellos (2001, p. 191-206) observa que essa clássica organização da Eneida é questionada
por alguns críticos – como Cairns (1989), que “propõe uma leitura da Eneida fundamentalmente como uma
Odisseia com momentos de Ilíada” –, mas deve ser acolhida, com algumas reservas, uma vez que Virgílio
“contamina” as duas fontes homéricas.
7
Até este ponto, o parágrafo retoma ideias de Gian Biagio Conte (2010, p. 239-244).
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Virgílio, inserindo-se na tradição clássica iniciada por Homero, retoma e reelabora uma série
de fontes literárias e históricas antigas para compor a Eneida – obra densa em significados
históricos e políticos, que materializa um “novo estilo épico”, que, por sua vez, constituiu-se
em modelo clássico.8
Por fim, cabe destacar que as obras da Antiguidade foram frequentemente retomadas
em atualizações e recriações posteriores e, em sentido inverso, também foram
reinterpretadas com base nessas produções, de modo a adquirir, com isso, novas
significações. Com efeito, Martindale (2013, p. 171) comenta que escritores posteriores
recriam e remodelam os textos clássicos, o que resulta em lançar nova luz a essas produções
da Antiguidade, tornando-as novamente legíveis. Sob esse aspecto, o estudioso compreende
a recepção como um processo dialógico de mão dupla: não só os clássicos interferem na
leitura e interpretação de obras posteriores, ao serem por elas retomados, mas eles próprios
se modificam e adquirem novos sentidos ao serem relidos à luz dessas produções posteriores.
De forma semelhante, Lorna Hardwick e Christopher Stray (2008, p. 4, trad. Júlia
Avellar) afirmam que “a maior parte dos envolvidos nos estudos de recepção vai aceitar [...]
que a relação entre antigo e moderno é recíproca, e alguns argumentam que as Clássicas são
inevitavelmente sobre recepção (Martindale, 2013)”9. Esse entendimento possibilita que se
estabeleçam redes de relações (não necessariamente cronológicas) entre as obras envolvidas,
por meio de um diálogo que se enriquece a cada nova leitura realizada.
Justamente esse potencial de renovação dos sentidos dos clássicos greco-latinos torna
essas obras, ainda hoje, um espaço frutífero para constantes releituras, novas interpretações
e investigações passíveis de as ressignificarem de acordo com os contextos e os
desenvolvimentos teóricos posteriores. Daí a importância de um campo de estudos como o
da recepção clássica para continuamente renovar e ressignificar as obras da Antiguidade. Sob
esse aspecto, o presente número suplementar é uma amostra do crescimento e da
significância dessa abordagem para a área de Estudos Clássicos.
8
Como indicação de vínculo ao modelo clássico da Eneida, de Virgílio, basta citar Os Lusíadas de Camões, cujo
verso inicial – “As armas e os barões assinalados” – ecoa, nitidamente, o épico virgiliano: “Arma uirumque cano”.
9
“Most people involved in reception would accept that [...] the relationship between ancient and modern is
reciprocal (although they may disagree about how best to assess this) and some argue that classics itself is
inevitably about reception (Martindale, 2013)”.
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1 Interdisciplinaridade e variedade na recepção clássica
Em paralelo à constatação do crescimento dos estudos de recepção, Charles
Martindale, em seu artigo “Reception — A New Humanism? Receptivity, Pedagogy, the
Transhistorical” (2013), assinala que um dos desafios impostos pela recepção clássica
relaciona-se justamente com a sua amplitude de abordagens, visto que “o material a ser
estudado não mais pertence à Antiguidade clássica no habitual sentido cronológico” e que
“qualquer texto, de qualquer cultura ou período, em qualquer língua ou mídia, desde que
tenha alguma conexão com a Antiguidade, agora pode – ao menos em potência – ser
encontrado em um curso de graduação em Clássicas” (Martindale, 2013, p. 170, trad. Júlia
Avellar).10 Com isso, ampliam-se as fronteiras e campos de análise dos Estudos Clássicos, que
deixam de se restringir unicamente ao material da Antiguidade, para englobar também
objetos que estejam em diálogo com ela.
Uma proveitosa consequência disso diz respeito à adoção cada vez mais frequente de
perspectivas interdisciplinares, em que os Estudos Clássicos – por natureza já
interdisciplinares, visto que envolvem, por exemplo, os âmbitos da literatura, filosofia,
história e arqueologia antigas – puderam ser associados às literaturas posteriores, a novos
campos teóricos e a manifestações artísticas recentes. A isso ainda se soma a pluralidade de
mídias vinculadas a esses novos objetos: o texto verbal deixa de ser o único foco de análise,
para que sejam englobados outros tipos de textos, como a música, as artes plásticas e
o cinema.
A título de exemplo, convém assinalar o destaque do cinema e das séries de TV como
espaços privilegiados para se pensar a recepção clássica no contexto atual, sobretudo em
razão de sua popularidade na sociedade. De acordo com Joanna Paul (2008, p. 304), os filmes
possuem um apelo particular, pelo fato de o cinema ser um meio vívido, envolvente e
excitante (mais do que as imagens estáticas). Martin Winkler (2009, p. 20) também ressalta
que “o cinema, junto com a televisão e a produção de imagens digitais, é atualmente nosso
principal meio para narrar uma história e o mais importante herdeiro da narrativa textual; ele
10
“But reception posed a particular challenge, because the material to be studied no longer belonged to classical
antiquity in the usual chronological sense. The result is that any text from any culture or any period, in any
language or in any medium, which has some connection with antiquity, might now — at least potentially — find
itself in a Classics degree”.
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também tem maior alcance do que qualquer outro meio da cultura alta ou popular” (trad.
Júlia Avellar).11 Justamente por isso, o estudioso considera o cinema como uma forma de
iluminar os textos clássicos sob uma perspectiva contemporânea e defende como modo de
abordagem uma “filologia fílmica”.12 Nessa perspectiva, ao compreender o cinema como uma
forma moderna de poesia visual, Winkler propõe o emprego de procedimentos da filologia
clássica como possibilidade para interpretar filmes. Hoje é possível dizer o mesmo não só
sobre o cinema, mas também acerca das séries de TV e produções disponíveis em streaming.
Além disso, Joanna Paul, na discussão sobre o uso do cinema em contexto pedagógico
na área de Clássicas, alerta para o perigo das abordagens que fazem dele uma mera
ferramenta ilustrativa e defende, em contrapartida, que seja tido como “um objeto de estudo
com direito próprio, em um curso que solicita que os estudantes considerem as antiguidades
cinematográficas como recepções” (Paul, 2008, p. 304, trad. Júlia Avellar).13 Outro desafio
mencionado pela estudiosa consiste em problematizar a ideia de um abismo entre as
disciplinas de Clássicas, que foram tradicionalmente percebidas como disciplinas de elite, e a
cultura popular. Para isso, ela assinala precisamente a popularidade dos cursos que abordam
a recepção da Antiguidade no cinema (Paul, 2008, p. 305).
Ora, a área dos estudos de recepção tem contribuído cada vez mais para minimizar o
distanciamento entre os Estudos Clássicos e as manifestações da cultura popular ou da
cultura de massa. Conforme Lorna Hardwick e Christopher Stray ressaltaram, essa mudança
de perspectiva constitui uma espécie de “virada democrática” na área de Clássicas:
A “virada democrática” cobre uma série de questões, tanto históricas
quanto filosóficas. A primeira é que as asserções sobre a superioridade
inerente das obras antigas foram questionadas, e o status e valor
independente das novas obras foi aceito [...]. Em segundo lugar, a
investigação rastreou formas (parcialmente através da educação) em que
tanto as obras antigas quanto as mais novas se tornassem mais conhecidas
11
“Film, together with related media like television and the production of digital images, is now our chief means
of storytelling and the most important heir to textual narrative; it also has a greater reach than any other
medium of high and popular culture”.
12
Para mais detalhes acerca dessa perspectiva, cf. o capítulo “The Classical Sense of Cinema and the Cinema’s
Sense of Antiquity”, de Winkler (2017, p. 21-40), traduzido para o português com o título “O sentido clássico do
cinema e o sentido cinematográfico da Antiguidade” (2023, p. 177-213).
13
“Films may be used as objects of study in their own right, in a course which asks students to consider
cinematic antiquities as receptions”. (grifo do original)
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entre os grupos menos privilegiados, com as mais novas servindo de
introdução para as mais antigas. Em terceiro lugar, o conjunto de formas
artísticas e discursos que usavam ou reconfiguravam o material clássico foi
expandido para abarcar a cultura popular. (Hardwick; Stray, 2008, p. 3, trad.
Júlia Avellar)14
A principal consequência dessa mudança de paradigma é que obras mais recentes
deixaram de ser entendidas como inferiores ou subvalorizadas, de modo que mesmo
produções da cultura de massa obtêm autonomia para serem analisadas em seus diálogos
com as produções da Antiguidade, sem que isso implique juízos de valoração negativa. Com
efeito, em termos pedagógicos, a possibilidade de tratar de produções que fazem parte do
repertório das novas gerações de discentes já funciona como um fator de identificação e,
consequentemente, como um convite para conhecer e ler as obras da Antiguidade com as
quais essas produções mais novas podem estabelecer relações.
Assim, o diálogo das obras da Antiguidade com produções mais recentes e com
diferentes mídias é capaz de ampliar o escopo dos Estudos Clássicos, que se enriquecem com
as contribuições da recepção clássica. Nesse sentido, pode-se falar em uma multiplicidade de
tipos de recepção e, paralelamente, no estabelecimento de relações da área de Estudos
Clássicos com diversas outras áreas do conhecimento. Esse tipo de abordagem lança luz sobre
novos aspectos das obras antigas, tornando-as aptas a leituras e interpretações renovadas,
colocando-as em movimento constante e contribuindo para a divulgação da área de Clássicas.
Essa riqueza de concepções e de abordagens fica patente no presente número
suplementar, que se caracteriza justamente pela variedade de tipos de recepção e pelos
diálogos com áreas diversas do conhecimento. Há trabalhos que enfocam o âmbito literário e
abordam a recepção das obras da Antiguidade em diferentes literaturas estrangeiras, como a
poesia de Quevedo, a dramaturgia de Shakespeare, a prosa de James Joyce e os romances
best-sellers contemporâneos. Há artigos voltados para a recepção de conceitos, os quais
colocam as obras clássicas em diálogo com os campos da filosofia, da poética, da pintura, da
14
“The ‘democratic turn’ covers a number of issues, both historical and philosophical. The first is that
assumptions about the inherent superiority of ancient works were questioned and the independent status and
value of new works accepted [...]. Second, research has tracked ways in which (partly through education) both
the ancient and the newer works became better known among less privileged groups, with the newer
sometimes acting as an introduction to the ancient. Third, the range of art forms and discourses that used or
refigured classical material has been extended to include popular culture”.
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Júlia B. C. de Avellar, Matheus Trevizam & Gilson Santos | p. 1-15 | Apresentação: Diálogo com os clássicos...
história e da religião. No que concerne ao diálogo entre as artes e à recepção em diferentes
mídias, o número suplementar contempla textos sobre a recepção dos clássicos no cinema e
nas artes plásticas. A isso ainda se somam os trabalhos de tradução e os artigos analisando
perspectivas tradutórias específicas, como o feminismo, adotadas para verter os textos da
Antiguidade, bem como a resenha sobre a mais recente publicação de Maurizio Bettini, que
enfoca o diálogo com os clássicos e a questão da cultura de cancelamento.
2 Tradução e recriação dos clássicos greco-latinos
A tradução de obras greco-latinas está vinculada de forma estreita ao fenômeno da
recepção. O tradutor é, antes de tudo, um leitor do texto a ser traduzido. Assim, para além da
compreensão linguística e gramatical do texto de partida, para além de o contextualizar em
termos históricos e culturais, o tradutor também é responsável por imprimir nesse texto suas
próprias interpretações. Conforme destaca Martindale (1993, p. 13, trad. Júlia Avellar), “o
texto traduzido já é uma interpretação, uma vez que a tradução depende de práticas de
leitura anteriores”.15 Ou seja, qualquer tradução trará consigo também as marcas resultantes
dos conhecimentos e leituras prévias do tradutor, os quais acabam por interferir em sua
interpretação e, consequentemente, em suas opções tradutórias.
Ainda nessa perspectiva, Martindale assinala que “a diferença entre tradução e
interpretação foi dissolvida, e a tradução é vista não como reproduzindo, mas (re)construindo
o ‘original’ (cujo status completamente originário é negado), determinando os modos pelos
quais é lido” (Martindale, 1993, p. 89, trad. Júlia Avellar).16 Sob esse aspecto, pode-se dizer
que a tradução, enquanto recriação do texto de partida, constitui uma interpretação
deliberadamente realizada pela pessoa que traduz. Justamente por isso, por ser uma
interpretação e estar fundada em escolhas, a tradução delineia uma determinada
possibilidade de leitura do texto.
Certo ensaio de Paulo Rónai (2012, p. 141ss.), tendo como foco comentários sobre
várias traduções de um mesmo trecho da Eneida, de Públio Virgílio Marão (70-19 a.C.),
15
“The translated text is already an interpretation, since translation depends on prior reading practices”.
16
“The difference between translation and interpretation is dissolved, and translation is seen not as reproducing
but as (re)constructing the 'original' (whose fully originary status is thereby denied), determining the ways in
which it is read”.
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Júlia B. C. de Avellar, Matheus Trevizam & Gilson Santos | p. 1-15 | Apresentação: Diálogo com os clássicos...
permite compreender melhor em que sentido, pela óptica da recepção dos Clássicos, dedicar-
se ao ofício tradutório não significa apenas reproduzir o óbvio. Primeiramente, o crítico
húngaro-brasileiro observa que, apesar do razoável conhecimento da língua latina entre o
público culto dos séculos XVIII-XIX, as traduções europeias da epopeia virgiliana não cessaram
de suceder-se no período, talvez como resposta ao desafio de recriar (até poeticamente) essa
obra, talvez para atender a “um reduzido público feminino” (Rónai, 2012, p. 141).
Um aspecto com que muitos tradutores setecentistas e oitocentistas (ou de tempos
diferentes) tiveram de haver-se nessa tarefa diz respeito à escolha e execução de (novas)
formas métricas em seus respectivos idiomas. Geralmente impossibilitados, assim, de servir-
se de verdadeiros hexâmetros datílicos greco-romanos17 nas obras que compuseram, alguns
tentaram a substituição desse metro por outros mais familiares em suas línguas; outros
tentaram, ou tentam, compensar as alterações métricas por meio do uso de rimas; outros
adotaram os versos brancos; outros renunciaram a qualquer ensaio de versificação e
recorreram à prosa poética (Rónai, 2012, p. 142).
Abrimos parênteses para citar, em ambiente lusófono, o caso especialmente
ilustrativo da Eneida portuguesa de João Franco Barreto (1600 – 1674?). Já pelo título,
depreende-se que o tradutor luso tinha consciência de elaborar uma obra, embora calcada no
original latino de Virgílio, que muito devia à cultura de sua pátria e de sua época. Vale a pena,
aqui, lembrar que a glorificação da fase áurea das explorações marítimas lusas se dera,
sobretudo, através da épica camoniana referente a Os Lusíadas (1572), de Luís Vaz de
Camões. Naquela epopeia, evidentemente baseada em traços das obras de mesmo gênero
compostas durante a Antiguidade,18 Camões já procedera, entretanto, a certo
aggiornamento.
Referimo-nos, do ponto de vista formal, não só à troca dos hexâmetros greco-latinos
pelos decassílabos lusos, mas ainda à adoção da chamada “oitava rima” na escrita da obra
camoniana. Tal esquema de estruturação de estâncias consiste, agrupando oito decassílabos,
17
Esse metro, de natureza quantitativa, é caracterizado basicamente por conter cinco pés dáctilos no começo e
um espondeu, ou troqueu, em última posição; os quatro primeiros dáctilos, ainda, podem eventualmente ser
mudados para espondeus. Em idiomas sem diferenciação entre vogais e sílabas longas e breves, a “reprodução”
exata de tais pés não é possível.
18
Para a verificação dos traços que caracterizam a epopeia Clássica como gênero – proposição, invocação, uso
de descrições etc. –, desde os poemas homéricos, cf. Vasconcellos (2014, p. 11ss.).
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em fazer com que sempre haja rimas segundo uma sequência ABABABCC; tais rimas, ainda,
podem na prática variar de uma estância a outra. Acrescentamos que Camões não “criou” a
oitava rima (Trevizam, 2007, p. 127-128), pois se trata de uma forma expressiva oriunda da
literatura italiana dos séculos XIV-XVI, tendo sido utilizada por Giovanni Boccaccio (1313-
1375), Matteo Boiardo (1441-1494), Angelo Poliziano (1554-1494) e Torquato Tasso, na épica
cristã chamada Gerusalemme liberata (1585).
Contudo, João Franco Barreto parece ter “herdado” o emprego do mesmo tipo de
estrofação não desses precursores, mas indiretamente, através do próprio autor de Os
Lusíadas. Ele, ainda, em mais de um momento traduz Virgílio com Camões em mente,
resultando, para sua Eneida portuguesa, em notória remodelagem do original latino: isso
agrega a tal Eneida, inclusive, a camada significativa de ser uma espécie de imitação de Os
Lusíadas. Veja-se, por exemplo, nas estâncias 1 e 2 do Canto I, a manutenção de léxico e
rimas fortemente evocativos daqueles de Camões, transcrito primeiro:
As armas e os barões assinalados
Que da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca dantes navegados,
As armas e o varão canto, piedoso,
Que primeiro de Troia desterrado
À Itália trouxe o fado poderoso
E às praias de Lavino veio armado;
Apesar da eliminação do ‘s’ de travamento silábico final em v. 1 e v. 3 de Camões,
esses versos pares transcritos da primeira estância de João Franco Barreto não deixam de
ecoar aqueles. Na segunda estância barretiana, é a vez de v. 1 e v. 3, com sua rima em ‘-osa’
(em “gloriosa” e “trabalhosa”) fazerem eco aos versos de mesmo número na segunda
estância do Canto I d’Os Lusíadas (havendo, ali, “gloriosas” e “viciosas”). As semelhanças
continuam quando, por exemplo, comparando a estância 5 da Eneida portuguesa com a de
número 30 em Camões – sempre no canto inicial de uma e outra obra –, percebemos
aproximações temáticas e formais.
Assim, em um e outro caso encontramo-nos diante de pontos nos quais os motivos
das divindades contrárias aos heróis – Juno na Eneida, Baco em Os Lusíadas – começam a ser
expostos. Para essa rainha dos deuses, sua inimizade ao povo de Troia se relaciona, inclusive,
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a ter-se espalhado a previsão, um dia, de os romanos – descendentes míticos daqueles –
haverem de liquidar sua amada Cartago.19 Para Baco, seu ódio aos exploradores portugueses
diz respeito ao receio de perder a fama que adquirira depois, conforme a lenda, de ter-se
tornado conquistador do Oriente, em especial da Índia.20
Formalmente, de novo trazendo “rememorações” das rimas e sonoridades
camonianas, João Franco Barreto se serve da rima em ‘-ia’ em v. 2, v. 4 e v. 6 de sua tradução
(vejam-se os termos finais desses versos na estância 5 do Canto I, para o tradutor em
questão: “permitia”, “Monarquia” e “manaria”). Ora, na estância camoniana de número 30,
da qual parece “provir” essa rima específica da Eneida portuguesa, encontravam-se “dizia”
(v. 1), “diferia” (v. 3) e “consentia” (v. 5). São detalhes, enfim, que não nos deixam esquecer,
sendo leitores de Camões e Virgílio, de que o trabalho intelectual de Barreto, tantas vezes,
imita o primeiro através do gesto de traduzir o segundo.
Tornando aos tradutores elencados por Rónai (2012, p. 143ss.) no ensaio supracitado
– doze ao todo, de diferentes épocas e “correntes” tradutórias –, apenas tomamos para
exemplificação um inglês, um francês e um brasileiro. São eles John Dryden (1631-1700),
Jacques Delille (1738-1813) e Manuel Odorico Mendes (1799-1864). Os versos virgilianos
escolhidos aleatoriamente por Rónai para suas comparações correspondem a v. 90-92 do
Canto IV da Eneida:
Quam simul ac tali persensit peste teneri
cara Iouis coniunx, nec famam obstare furori,
talibus adgreditur Venerem Saturnia dictis.21
Neles, como traços peculiares ao “estilo latino”, o crítico húngaro assinala a “dispersão
de palavras ligadas pelo sentido” (como vemos em cara... coniunx e em talibus... dictis), efeito
nem sempre possível nos idiomas modernos, muitos deles a carecerem do arcabouço
19
Como decorrência de ter sido abandonada por Eneias, Dido amaldiçoa o herói e seus descendentes com a
perspectiva da inimizade visceral entre os troianos e seu povo (Virgílio, Eneida IV, 622-627). Saindo do plano
mítico e indo ao histórico, essa “profecia” se concretiza no episódio das Guerras Púnicas (séc. III-II a.C.), no qual
as duas potências de fato se enfrentaram violentamente, até a derrota e destruição dos cartagineses.
20
Acompanhado de um exército, Baco ter-se-ia dirigido ao território hindu, que foi por ele submetido
militarmente; depois desse episódio, o deus passou a apresentar-se sobre um carro puxado por panteras, com
adorno de pâmpanos e heras, além de acompanhado pelos Silenos, Bacantes e Sátiros (Grimal, 1963, p. 127).
21
“Logo que percebeu estar ela tomada por tal peste/ a cara cônjuge de Júpiter, e a fama não obstar ao furor,/
com tais palavras a Satúrnia se dirige a Vênus” (trad. Matheus Trevizam).
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clarificador dos casos gramaticais. Além disso, há a designação de uma mesma personagem,
Juno, por duas denominações: cara... coniunx e Saturnia, em conformidade com a abundância
de expressões apelativas da épica. Outro elemento caracterizador da poeticidade do trecho é
a presença das palavras pestis e furor para indicar, energicamente, o amor.
Dryden,22 primeiramente, eliminou tais palavras em favor do emprego de “chains of
love” (“grilhões do amor”) no inglês, sendo a consequência, para Rónai (2012, p. 144), o
enfraquecimento do trecho e a atribuição a ele de certo “tom galante” ausente do original;
ainda, o uso do adjetivo “soothing (words)” (“brandas [palavras]”) também contribui para
quebrar a energia expressiva da passagem. A versão de Delille23 é considerada “adocicada”
pelo analista, pois nela “se notam termos do vocabulário metafórico do amor – ‘transports’,
‘ardeur’, ‘embraser’, ‘gloire’ –, tão popular nos salões da época” (Rónai, 2012, p. 144); passar-
se-ia aqui, ainda, a impressão de algo “anêmico e rebuscado”.
Por fim, referindo-se à versão odoricana24 e chamando “erudito” a esse tradutor,
Rónai (2012, p. 146) destaca a ousadia de seu uso dos decassílabos em português (metro
menor que o “longo” hexâmetro clássico, sabemos) e dos neologismos. No trecho traduzido
sob exame, tem-se, nesse sentido, o inusitado surgimento de “(Satúrnia) persentiu” (Rónai,
2012, p. 145-146). Ademais, mesmo tendo recorrido aos concisos decassílabos, Odorico
empregou em português os termos “peste” e “furor”, cognatos dos vocábulos latinos usados,
bem como conseguiu não eliminar nenhum dos apelativos aplicados a Juno. Uma única
ressalva de Rónai (2012, p. 146) às opções tradutórias feitas, desta vez, se encontra diante do
uso de “deste jeito”, talvez coloquial em excesso.
Tantos exemplos de “colorações” completamente distintas que se podem dar a um
mesmo texto traduzido, no caso a conhecidíssima Eneida de Virgílio, comprovam o aspecto
interpretativo que é indissociável do gesto de traduzir. Além disso, também se nota,
comparando João Franco Barreto, Dryden, Delille e Odorico Mendes, que os modos de ler a
22
A tradução de Dryden (apud Rónai, 2012, p. 144) para os versos latinos citados é a seguinte: “But when
imperial Juno from above/ Saw Dido fetter’d in the chains of love,/ Hot with the venom which her veins
inflam’d,/ And by no sens of shame to be reclaimed,/ With soothing words to Venus she begun”.
23
A tradução de Delille (apud Rónai, 2012, p. 144), por sua vez, é esta: “Dès que Junon a vu de ses transports
naissants/ L’ardeur contagieuse embraser tous les sens/ Et de ce qu’elle doit à son peuple, à sa gloire,/ Sa folle
passion étouffer la mémoire,/ Elle aborde Vénus et lui parle en ces mots”.
24
A tradução de Odorico Mendes (apud Rónai, 2012, p. 146) para os mesmos versos citados é: “Tanto que a
persentiu da peste iscada,/ sem a fama ao furor obstar, Satúrnia,/ Cara esposa de Jove, deste jeito/ Comete a
Vênus”.
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epopeia romana de cada um deles (como texto “atravessado” por Camões, como obra
“galante”, como poesia de salão do Antigo Regime, como desafio à própria habilidade poética
etc.) resultaram em produtos traduzidos inegavelmente únicos.
Considerando justamente a premissa de que qualquer tradução é uma interpretação
e, consequentemente, também uma forma de recepção, o presente volume reúne, além dos
artigos temáticos, também traduções inéditas, seja de textos até então ainda não vertidos
para o português, seja retraduções sob novas perspectivas e posicionamentos teóricos. Com
isso, ao lado dos artigos sobre a recepção de obras da Antiguidade em diferentes mídias e da
resenha sobre publicação recente na área, este número suplementar também oferece
recriações em língua portuguesa de textos da literatura em grego e em latim. Essa
multiplicidade de abordagens é evidência da abertura dos clássicos greco-latinos ao diálogo e
de sua vivacidade ainda hoje para serem pensados e discutidos em relação com as mais
variadas perspectivas.
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Recebido em: 05.11.2024 Aprovado em: 14.12.2024
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