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Bode Expiatório e a Sombra Coletiva

O documento discute o conceito de bode expiatório, que se refere a indivíduos que são responsabilizados por infortúnios para que os acusadores possam negar suas próprias sombras e culpas. A identificação com esse papel pode levar a uma dissociação da identidade e ao desenvolvimento de sentimentos de inadequação e solidão, tanto em contextos familiares quanto sociais. A cura desse complexo envolve desidentificação do papel, restauração da totalidade e estímulo à autoconsciência e criatividade.

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Bode Expiatório e a Sombra Coletiva

O documento discute o conceito de bode expiatório, que se refere a indivíduos que são responsabilizados por infortúnios para que os acusadores possam negar suas próprias sombras e culpas. A identificação com esse papel pode levar a uma dissociação da identidade e ao desenvolvimento de sentimentos de inadequação e solidão, tanto em contextos familiares quanto sociais. A cura desse complexo envolve desidentificação do papel, restauração da totalidade e estímulo à autoconsciência e criatividade.

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BODE EXPIATÓRIO: O DEMÔNIO SALVADOR


ELOISA PEDROSO FIORI

O termo bode expiatório é utilizado para designar indivíduos apontados como


causadores de infortúnio. São apontados como causadores do mal e expulsos do
círculo da família ou da sociedade para livrar os acusadores da culpa, e para
fortalecer-lhes o sentido de poder e integridade.
A escolha de um bode expiatório serve para que o acusador negue sua sombra,
projetando-a em outra pessoa. A sombra é tudo aquilo que não está de acordo com os
ideais do ego (atitudes, comportamentos, emoções), ou com uma suposta perfeição e
bondade de Deus. Os indivíduos identificados com o bode expiatório assumem
responsabilidade pessoal pelas qualidades da sombra que outros rejeitaram carregam
assim qualidades negativas que os outros querem negar.
O bode expiatório é um recurso de negação da sombra, daquilo que é percebido
como impróprio a conformar-se aos padrões coletivos de comportamento, destoante
daquilo que é interpretado como socialmente aceito. Estes indivíduos identificam-se
com as inaceitáveis qualidade da sombra do outro e sentem-se responsáveis por algo
além de sua parcela individual de sombra. Arcam além de sua própria sombra, com a
sombra alheia.
Enquanto portador do pecado, ele carrega os males confessados para longe da
consciência coletiva. Ele representa a libido relacionada àquilo que é natural e
necessário e ao mesmo tempo causador de culpa. O material reprimido e projetado
diz respeito às energias e necessidades instintivas que ameaçam o desenvolvimento
humanos aos olhos de Deus, a energia dos impulsos descontrolados, particularmente
a sexualidade, a rebeldia, a agressão e a cobiça.

Origem: A tentativa de negar a sombra por parte do acusador dissocia-os das


suas profundezas instintivas e da sua individualidade. As crianças e as pessoas mais
sensíveis conseguem detectar sua fragilidade e sua sombra renegada. Podem reagir com
um excesso de proteção ou atacando sua hipocrisia. Hora ou outra a criança acaba sendo
reprimida sem ao menos entender o porquê, pois sua atitudes estão à mercê da
interpretação do pais . Os pais acabam lendo as mensagens emocionais da criança de
forma moralista e errônea, contaminada pela sombra que querem negar e que
recriminam em si mesmos, mas principalmente nos outros. O pai ou mãe perseguidor
recebe a expressão dos impulsos da criança de maneira tão defensiva que esta percebe o
perigo que estes impulsos representam para o adulto e, portanto, para ela mesma
também, agindo de forma cada vez menos natural e já enraizando a culpa.
Esta criança é escolhida como vítima, mas vista como singularmente forte, pois
consegue carregar a tão temida sombra, o que incita a inveja dos pais. Por outro lado
a criança se vê incapaz de atingir os ideais estipulados pelos pais, sentindo-se indigna

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e culpada. A raiva e a carência permanecem dissociadas, a noção de bem e mal são


extremamente radicais não sendo possível achar um meio termo (polarizações).

Bode na família: A identificação com o papel de bode expiatório na família


acarreta a inibição de determinados aspectos do desenvolvimento egóico na fase oral.
Desta forma as energias instintivas não são dominadas e nem integradas, permanecem
dissociadas, explosivas e amedrontadoras. A inabilidade de o indivíduo desenvolver sua
própria identidade vem do fato de ter sido prematuramente sobrecarregado com
elementos negativos pelos pais que, em primeira instância, representam o coletivo.
A saga da criança destoada, da ovelha negra da família ocorre por incorporar
este papel. A identificação com o papel de bode expiatório é enraizada fortemente pela
fato de a criança participar dessa dinâmica sem ter sua identidade bem formada e por
não ter defesas para combater as críticas. A rejeição é experimentada pelo indivíduo
como uma punição pela sua existência.
Essa rejeição se origina nos julgamentos morais da mãe ou do pai relacionados com
o modo como as coisas deveriam ser e não como elas são.
A criança acaba percebendo a sombra negada e sente-se responsável por ela. É
frequente que a criança expresse o vínculo com os pais verbalizando que estes
necessitavam e desejavam sua atenção, o que em parte pode ser projeção da carência
da criança, mas na maioria das vezes representa uma percepção objetiva das
carências frustradas dos pais. EXEMPLO

Acusador:
O acusador do bode expiatório tem uma moral elevada e rígida, opondo-se à
vida instintiva e natural. Interpreta as atitudes naturais e espontâneas da criança de
forma moralista e pecaminosa, recriminando-a.
É feita uma avaliação antes mesmo da própria observação real dos fatos. No
caso do acusador, há um constante e perturbador influxo do material sombrio causando
culpa e ansiedade (se deparando por vezes com a identificação reprimida), isso leva
então à projeção, por não conseguir tolerar o conteúdo deste material, nem lidar com ele
(já que fogem dos princípios de ordem e pureza).
A família do indivíduo identificado com o bode expiatório geralmente se
preocupa muito com aspectos externos da moral coletiva, a ponto de necessitar purgar-
se, como se seus membros tivessem de defender a tradição de “ser bom”, ou de parecer
bom. Esforçam-se ao máximo para passar uma imagem puritana, de seguidores da
moral e bons costumes, são extremamente rígidos contra qualquer comportamento
destoante deste ideal de perfeição e pureza.
Costumam ter modelos muito fortes de superego e normalmente tendem
desempenhar funções de pilares da sociedade (religiosos, médicos, professores,
políticos e psicólogos). Os pais ou outros que escolhem um bode expiatório passaram
invariavelmente por esta experiência, com diferentes níveis de identificação .

Aspectos do complexo:
Os indivíduos identificados com o bode expiatório são especialmente sensíveis
às tendências ocultas inconscientes e emocionais, e frequentemente envolvidos em uma
profissão prestativa. Há uma tendência à identificação automática, quase imediata, com
qualquer sofredor em qualquer situação, como projeção. Torna-se difícil que este
indivíduo permita a si mesmo aprender a suportar seu próprio desconforto e a avaliar a
intensidade com um mínimo de objetividade.

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A pessoa apontada como bode expiatório tem de reprimir necessidades agressivas,


sexuais ou de dependência que irrompem de forma impulsiva e compulsiva e são
vivenciadas com assombro e culpa, quando não são negadas (todos estes aspectos
foram recriminados no passado por seus pais). Sente-se inaceitável diante de si
mesmo por não ter sido aceito por seus pais.
Uma vez que esses impulsos não podem ser socialmente aceitos ou não fazem parte
do ego-ideal ditado pelos pais, permanecem presos ao indivíduo identificado como
um fardo pessoal seu. O ego-vítima oculto sente-se inadequado perante as exigências
da realidade, uma vez que não pode proclamar seu verdadeiro eu sem incorrer em
culpa.
Tendem a julgar os demais, compreendendo-os até o limite do sentimentalismo e
perdoam nos outros exatamente os mesmos pecados e imperfeições que consideram
desprezíveis em si próprios.
Vive com sentimentos de inadequação diante da vida. Por outro lado há o
desenvolvimento de um ego pessoal precoce e grandioso que se sente na obrigação
de carregar os impulsos não aceitos, sentindo-se desta forma poderoso. Isso
proporciona um certo sentido de identidade positiva e uma força de enormes
proporções compensando a fragilidade e o masoquismo inerentes ao complexo. Neste
sentido o indivíduo apontado como b.e. consegue delinear um papel importante
dentro do sistema, onde ele se torna integrante necessário, por mais que seja rejeitado
abertamente é estimulado a ficar por exercer papel fundamental na dinâmica que se
configurou. O sistema necessita dele e ele acaba aceitando este papel, que embora
seja negativo é muito importante.
Prefere protagonizar o papel de estorvo a ter de passar desapercebido, a não ter um
papel no sistema. Permanece no ciclo para preservar sua identidade (a única que
conhece até então), se tentar se afastar deste papel se perde como pessoa, sente-se
sem identidade. Necessitam avidamente de confirmação da sua existência, mesmo
que a este preço.

“Posso sentir o papel tomando conta de mim. Sei que não sou eu; que é um simples
disfarce, mas é o que já estou habituado a ser porque esta é minha única forma de
existir – nunca tive outra identidade. Se não agisse como se tudo fosse
responsabilidade minha, ou culpa minha, eu seria alguém invisível. Eu precisava de
atenção. Agora, quando me sinto inseguro, é inevitável que eu torne a escorregar no
conforto de conhecer a mim mesmo da maneira como eles necessitavam de mim,
mesmo que agora eu também saiba que este é um papel falso.”
Os indivíduos que chegam à terapia já possuem um sentido de estar arcando
com um papel estranho à sua própria identidade individual.
As pessoas identificadas com o b.e. apegam-se a uma parte de seu corpo
enquanto causa e justificativa de seu sentido de alienação. A obesidade, a acne, canela
fina são sentidos como atributos que todo mundo percebe e despreza. Torna-se o bode
expiatório do bode expiatório a nível corporal. Isso torna-se motivo para manter-se
longe do contato, pelo medo de ser o foco de uma crítica negativa.
Têm a percepção de que o mundo deve recompensá-los por estar carregando
todos os males, por ser uma vítima sobrecarregada e sofredora. Essa identificação com a
vítima sacrificial leva a uma identificação com o Rei salvador renascido, ora polarizado
na onipotência, ora No sentimento de inadequação.

Máscaras: O ego portador da sombra, alienado e errante, anseia de tal modo


por ser aceito pelo coletivo que acaba adotando qualquer máscara (bancar o

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palhaço, tornar-se indispensavelmente competente, mediar, vender sua alma),


porém, habituado à rejeição teme igualmente a aceitação, pois isso significaria
abandonar o peso sobre o qual está assentada sua identidade.
Se vê como diferente dos outros, e obrigatoriamente afastado a uma distância
segura que permita uma convivência com as máscaras utilizadas, para que o
material da sombra que carrega seja escondido.
Tem dificuldade de expressar sua agressividade e esta quando emerge é em
forma de explosões. A agressão só pode ser manifesta de forma racionalizada,
com uma justificada indignação como contra a desigualdade social ou ao
fascismo, etc. Só pode se expressar se ele mesmo for o acusador e apontar um
outro bode expiatório.

Contato com o outro: Sua dinâmica é marcada por uma intensa sede de ligação
com o Outro, porém temem pelo fato de viverem com um sentimento de perigo
iminente por terem uma consciência da sombra que os demais não desejam enxergar.
Assume automaticamente a identidade do mau, do culpado e do responsável por
tudo arcando com uma parcela superior à real dentro dos relacionamentos. Gostam de
oferecer conforto e ajuda a quem quer que seja (zelo excessivo) pois isto dá a sensação
de serem queridos e podem projetar sua própria carência satisfazendo o instinto.

Couraça: Esse indivíduo (be) acaba acreditando que toda dor que sente é merecida
pelo fato de assimilar, incorporar a sombra nele projetada, desta forma, toda dor é
uma punição. É debilitada então a capacidade de sentir do indivíduo, pois isto
abriria caminho a uma parcela de dor ainda maior. Desta forma, não consegue
viver em profundidade suas experiências e seu contato com o Outro fica limitado.
Se utiliza de mecanismos de defesa como dissociação, negação ou impulsividade
para evitar entrar em contato consigo e com os outros.
O encouraçamento dificulta que o indivíduo sinta qualquer emoção, por operar a
nível do ego (máscaras) alienado.
A repressão da carência anestesia o corpo. O indivíduo identifica-se neste
momento com o acusador (internalizado) contra a satisfação da carência, dissociando-se
a fim de impedir que as mensagens do corpo atinjam a consciência. Fome, sede, dor,
assim como as necessidades de atenção são negados tão automaticamente que nem
sequer são percebidos.
Verifica-se a presença de uma couraça muscular com graus variados de rigidez.
Será imprescindível um trabalho corporal afim de restaurar o sentido físico do Self
integrado. Pelo fato de o complexo fragmentar a identidade consciente entre eus parciais
opostos polarizados (bem e mal), o indivíduo não consegue ter um sentido de totalidade,
a não ser recorrendo ao Self latente a nível físico da experiência corporal.

Solidão: o portador do estigma de b.e. tem uma sensação de solidão imensa, pois
carrega sozinho os males do mundo, da família ou do sistema. Desta forma não
consegue suportar o isolamento necessário ao trabalho criativo e original, porque o
isolamento é visto como apavorante e desolador. Por nunca se exporem criativamente
ficam a salvo dos ataques já esperados, roubando elementos de terceiros, a fim de
oferecer à platéia aquilo que já é aprovado.
O indivíduo deve somente carregar os impulsos da sombra, não exprimir. A
manifestação só pode ser secreta e projetada ou então inconsciente e impulsiva. O
perfeccionismo do acusador interno do bode expiatório bloqueia o improviso e o
espontâneo, necessário à descoberta da essência própria do indivíduo. A auto-expressão

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sendo a manifestação da individualidade depende da autoconsciência e da


autopercepção, que representam os mais íntimos aspectos da existência individual. Sem
se perceber e se sentir, não há como se expressar. Se seus sentimentos estão reprimidos,
seu comportamento será o reflexo de idéias que nela foram projetadas e não a expressão
do seu verdadeiro ser. Como consequência do complexo o desejo se mantém dissociado
da consciência, ocultando-se no anseio de aceitação.

Bode expiatório na sociedade:


As cerimônias de expiação representam uma tentativa de expulsar os males que
afligem a humanidade, sejam estes a morte, a enfermidade, a violência, o sofrimento
psíquico ou o sentimento de culpa e pecado que acompanha a consciência de
transgressão ao código moral. No mundo ocidental, esse papel de bode expiatório
freqüentemente foi atribuído aos judeus e outras minorias. O fenômeno do bode
expiatório representa uma expressão particular do problema genérico da projeção da
sombra. Enquanto a sociedade tiver um pensamento radicalmente polarizado entre bem
e mal, e com a noção de que o mal está sempre fora e precisa ser sacrificado existirão
sempre bodes expiatórios, justamente para livrar esta sociedade da responsabilidade da
posição em que se encontra, e principalmente para livrar do enfrentamento dos reais
problemas que tenta evitar e então projeta. É necessário o sacrifício do ideal de
perfeição em nome de um ideal de totalidade, e uma relativização do bem e do mal,
chegando-se a uma consciência do nível de realidade que existe por trás dos opostos.
A cura do complexo parece ser algo muito simplista já que esta dinâmica
envolve tantos aspectos da vida emocional do indivíduo. Há que se trabalhar cada um
deles a seu tempo sem deixar de lado todos os outros, por isso é um trabalho minucioso
porém bonito, pois é capaz de libertar a pessoa permitindo-a re-nascer para o mundo.
Dentre os aspectos a serem trabalhados em terapia pode-se então destacar alguns mais
importantes como norteadores do trabalho.
São eles:
- Desidentificação com os aspectos do papel e com o complexo em si.
- Restituir um sentido de totalidade trazendo à consciência os opostos
polarizados.
- Cada uma das partes dissociadas requer uma transformação.
- Permitir a autoconsciência
- Estimular a criatividade e a espontaneidade e a auto-expressão.
- O toque, a consciência sensorial e o trabalho com o corpo poderão mitigar a
falta da experiência de ser acolhido nos braços de outra pessoa ou por seu
próprio receptáculo corporal.
- O poder do toque em mobilizar todo o self corporal pretende processar as
partes dissociadas.
- A existência de um ambiente seguro para as experiências dolorosas permite
que a rejeição e a expiação parentais sejam encaradas como autêntico abuso
e uma posterior aceitação e compreensão da dinâmica.
- Uma das principais funções da terapia é a de confirmar o paciente, sua
existência, capacidades e dificuldades e estimular a auto-afirmação como
algo aceitável e necessário;
- O ego individual tem de conseguir perceber suas reais limitações e riquezas
além de receber permissão para descobrir e criar seu estilo pessoal e poder
assim escolher a maneira de se expressar sua vivência individual no mundo.
- Aprender a ver e a ser visto com objetividade, sem contaminação das
expectativas até então obedecidas.

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- Aceitar o desejo e a dor, assumir e experimentar antes de julgar.


- Encontrar e incorporar valores baseados numa nova consciência.
- Perceber os aspectos de valor existentes nos elementos rejeitados.
- Conciliar o êxtase e a disciplina, a improvisação alegre e o trabalho sério,
sabedoria e criatividade.
- Suportar e equilibrar a energia instintiva com suas inibições pessoais.
- Conhecimento e incorporação da verdadeira essência do indivíduo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LOWEN, Alexander. Prazer, uma abordagem criativa da vida.

LOWEN, Alexander. Sexo, amor e seu coração.

PERERA, Sylvia Brinton. O complexo de bode expiatório: rumo a uma mitologia da


sombra e da culpa. São Paulo: Cultrix.

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