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Desempenho do Fundo Dynamo Cougar 2002

A carta da Dynamo Administração de Recursos discute a importância da arbitragem como um mecanismo histórico e eficiente para a resolução de conflitos, destacando sua relevância no contexto jurídico brasileiro. No primeiro semestre de 2002, o desempenho do fundo Dynamo Cougar foi positivo, com valorização de 12%, em contraste com a queda do mercado. A carta também aborda a complexidade das questões societárias no Brasil e a necessidade de boas práticas de governança corporativa para proteger os direitos dos acionistas.

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Desempenho do Fundo Dynamo Cougar 2002

A carta da Dynamo Administração de Recursos discute a importância da arbitragem como um mecanismo histórico e eficiente para a resolução de conflitos, destacando sua relevância no contexto jurídico brasileiro. No primeiro semestre de 2002, o desempenho do fundo Dynamo Cougar foi positivo, com valorização de 12%, em contraste com a queda do mercado. A carta também aborda a complexidade das questões societárias no Brasil e a necessidade de boas práticas de governança corporativa para proteger os direitos dos acionistas.

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Carta

Dynamo 34 UMA PUBLICAÇÃO DA DYNAMO ADMINISTRAÇÃO DE RECURSOS LTDA. – 1º SEMESTRE DE 2002

Do arbítrio à arbitragem
m uito antes que as idéias de justi-
ça, de leis ou de tribunais fossem
percebidas, já funcionavam os peculiares me-
canismos da arbitragem na solução de dispu-
que ela precisa para cumprir o seu objetivo,
mas atue em bases dogmáticas, a fim de que
se tenha, na Justiça convencional, a mesma
segurança proporcionada pela Justiça estatal.
do: representa ela uma particular parcela da
jurisdição pública, entregue pelo Estado a par-
ticulares (árbitros) para exercê-la em proveito
de particulares (partes interessadas)”.2 Este
tas.1 O pastor Paris, chamado pelas deusas A jurisdição arbitral pode ser considerada, sem excesso de tecnicalidades jurídicas em uma
Juno, Pallas Athenas e Vênus para escolher a qualquer temor, como uma particularização da Carta aos investidores se justifica, como mais
mais bela, é um privilegiado precursor mitoló- jurisdição estatal no seu mais amplo significa- claro ficará adiante, para que se dê à opera-
gico dos árbitros atuais. As narrativas da cara-
vana de Marco Pólo e os Conselhos de Anci-
ãos das passagens homéricas, são seus ante- Nosso Desempenho
cessores épicos. As práticas de arbitragem
comercial de Gregos e Fenícios e os juízes iti- Esta Carta cobre o primeiro semes- qualquer novo Presidente tenderá a mudar o
nerantes do tirano ateniense Peisistratus, são tre do ano 2002. Extraordinariamente, dei- foco da agenda econômica do assunto esta-
prógonos históricos. Os cincos juízes de Es- xamos de publicar a Carta relativa ao pri- bilidade para o assunto crescimento. E inde-
parta que determinaram a posse da ilha de meiro trimestre do ano mas pretendemos pendentemente da eficácia e mérito da nova
Salamis para Athenas e não para Megara, e continuar com a freqüência trimestral. A política, exportar será crucial em qualquer
Themístocles, quando o fez para Leucas na Carta relativa ao terceiro trimestre deverá caso (embora, talvez, não suficiente).
desavença entre Corintho e Corcyra, exempli- estar sendo publicada em breve. Por esta razão, desde o início do
ficam arbitragens internacionais bem antes dos Durante o primeiro semestre de ano, temos procurado aumentar as partici-
tempos da globalização. Natural, consuetudi- 2002, as cotas do Dynamo Cougar tiveram pações relativas do Fundo nas empresas que
nária, simples e eficiente lá está nos registros uma valorização de 12%, que se compara se beneficiam do que entendemos vir a ser o
da História a arbitragem como cláusula social a uma queda do Ibovespa de -18,5%, do provável novo cenário econômico. Acredita-
de solução de conflitos. FGV-100 de -1,2% e do IBX de -1,8%. Mais mos que a vantagem comparativa de ter cus-
São indevidas, portanto, as críticas dos uma vez, a forte concentração do Ibovespa tos em reais e receitas em dólares é não só
que entendem arbitragem como inovação te- em ações de empresas de telecomunicações significativa como também duradoura, em
merária pela privatização imprópria do mo- e energia contribuiu para um desempenho que pese um inevitável aumento da inflação
nopólio do Estado na produção e distribuição bem pior do que o do IBX e FGV-100, índi- interna que reduzirá parte desta vantagem
da justiça. Desde a antiguidade até hoje, arbi- ces onde o peso de Vale e Petrobrás são ao longo do tempo.
tragem é o processo pelo qual, Estados, insti- maiores. Em resumo, nossa carteira tem flu-
tuições ou pessoas constroem um acordo vo- É difícil elaborar qualquer comen- tuado ao longo do ano ao redor de 50-60%
luntário para submeterem suas divergências a tário sobre o desempenho do Dynamo Cou- em ações de empresas exportadoras (ou que
juízes de sua própria escolha, comprometen- gar no ano de 2002 sem falar da conjuntu- substituem importações), 20% em empresas
do-se as partes a respeitar as decisões destes ra política. Mesmo para investidores como cujo valor não é, em princípio, afetado pela
juízes como última instância. É uma forma de a Dynamo que, de fato, se preocupa com o desvalorização e 20% em empresas cujo va-
longo prazo, tem sido inevitável incorporar lor real se reduz com a desvalorização. Esta
se obter um bem coletivo (em alguns casos em nossas análises alguns fatores macro eco- combinação gerou ao longo de 2002 um
até mesmo um bem público) através de con- nômicos que em tempos normais não esta- desempenho excelente em termos relativos e
trato entre os envolvidos, sem interferência do riam presentes. Neste sentido, desde o final razoável em termos absolutos. O resultado
Estado. Sem interferência, mas, obviamente, do ano passado vem aumentando nossa do período não foi melhor por que as ações
não à sua revelia, posto que, no caso brasilei- convicção de que, qualquer que seja o Pre- de várias empresas exportadoras que ganham
ro como no da grande maioria dos paises, é a sidente eleito, a única solução possível para valor em dólares quando o Real se desvalo-
lei do Estado que regula o juízo arbitral. O as sucessivas crises de balanço de pagamen- riza, não subiram o suficiente em reais para
fundamental é que a arbitragem disponha, tos que o país vem passando desde 1995 compensar a desvalorização (ou seja, caíram
como afirma Carreira Alvim “da flexibilidade será um aumento significativo de nossas ex- de preço em dólar).
portações (só para relembrar as crises: Mé- Por último, um esclarecimento: nos-
(1) A história da arbitragem aqui apresentada, baseia-se no xico no início de 1995, Ásia ao final de 1997, sa ênfase em empresas exportadoras não sig-
livro de Frances Keller “American Arbitration”, Rússia / LTCM em Agosto de 1998, desva- nifica que tivemos qualquer premonição so-
BeardBooks, 2000.
(2) Carreira Alvim, J. E., “Tratado Geral da Arbitragem”,
lorização do Real no início de 1999, Argen- bre os atuais níveis de câmbio. Pelo contrá-
Editora Mandamentos, 2000, pg. 72. tina / apagão / 11 de setembro em 2001 e, rio, estamos bastante surpresos. Achávamos
finalmente, a crise corrente por conta da elei- apenas que se a vantagem competitiva dos
Esta carta é publicada somente com o propósito de divul- ção de 2002). exportadores não viesse via taxa de câmbio,
gação de informações e não deve ser considerada como Todos estes eventos tiveram efeitos viria via reforma fiscal e estímulos do gover-
uma oferta de venda do Fundo Dynamo Cougar. Todas as negativos em vários países, mas os países no ou, mais provavelmente, via todos estes
opiniões e estimativas aqui contidas constituem nosso jul-
gamento até esta data e podem mudar, sem aviso prévio, a
dependentes de capital estrangeiro para fe- fatores. E, neste cenário, as companhias vol-
qualquer momento. Performance passada não é necessaria- char suas contas externas, como o Brasil, tadas para o mercado externo seriam muito
mente garantia de performance futura. foram agudamente afetados. Além disso, beneficiadas.
ção da arbitragem um enquadramento de nor- onde a Justiça estatal não tem respondido com documentos legais para que esta dinâmica se
malidade e de modernidade jurídica, e não eficiência, às angústias dos jurisdicionados. No estabeleça: é preciso que se tenha a certeza
de algum tipo de oportunismo ou casuísmo Brasil, existe um (1) juiz para cada 20 mil juris- de que aquilo que está contratado será cum-
que sugira arbítrio ou anarquia na provisão dicionados, quando em outros países há um prido (em inglês, compliance). O que, no caso
de justiça. De mais a mais, a associação do (1) juiz para, no máximo, três (3) mil jurisdicio- brasileiro, não é nada trivial. Sem a agilidade
setor privado com os poderes públicos na pro- nados”.5 e segurança proporcionada pela arbitragem,
dução do direito parece ser uma tendência Ao longo dos últimos quase dez anos, muitas vezes é mais seguro estar onde, por
contemporânea e fecunda que transcende o a Dynamo adquiriu uma razoável experiência exemplo, o estatuto é superficial, mas o refle-
tema que estamos tratando nesta Carta.3 no investimento em companhias brasileiras de xo do controlador (ou administrador) é sem-
O direito natural de auto-regulação capital aberto. Como investidores ativos, nos pre pela equidade societária do que onde o
do cumprimento de compromissos contratu- acostumamos a discutir, sugerir e acompanhar estatuto é quase perfeito mas o controlador
tais, deve ser especialmente valorizado em os efeitos práticos dos aperfeiçoamentos soci- (ou administrador) é bastante imperfeito no que
sociedades democráticas onde a vontade in- etários que vêm ocorrendo em algumas des- se refere a cumpri-lo. Até porque, é impossível
dividual é livre para contratar aquilo que a lei tas empresas. A valorização crescente do que prever no estatuto todas as contingências fu-
lhe permite fazer.4 Este é exatamente o senti- se passou a chamar de boas práticas de go- turas. Há sempre a possibilidade de haver di-
do do primeiro artigo da Lei 9.307 de 23 de vernança corporativa, é um bom indício de vergências de interpretação ou simplesmente
setembro de 1996 (Lei Brasileira da Arbitra- amadurecimento do nosso mercado de capi- a omissão do estatuto com relação a questões
gem) que estabelece: “As pessoas capazes de tais.. Pois hoje não temos dúvida que a solu- que venham a se mostrar relevantes.
contratar poderão valer-se da arbitragem para ção de conflitos através do juízo arbitral po- Se alguém compra ações, é porque
dirimir litígios relativos a direitos patrimoniais tencializa muito esta evolução. Mais: talvez sem tem em perspectiva um fluxo de resultados fu-
disponíveis”. A tese da auto-regulação é re- o recurso da arbitragem, muitos dos direitos turos e um certo ambiente legal de direitos do
forçada no artigo 13 da Lei, que determina: adquiridos pelos investidores não poderão ser acionista. Suponhamos que em um determi-
“Pode ser árbitro qualquer pessoa capaz e que reivindicados com eficácia quando mais ne- nado momento a companhia produza os re-
tenha a confiança das partes”. O caráter defi- cessários forem. Explicamos em seguida as sultados projetados pelos acionistas mas não
nitivo do juízo arbitral é consignado no artigo razões de tal afirmação. a distribuição esperada . Isto porque o acio-
31: “A sentença arbitral produz, entre as par- nista majoritário – aqui em nosso exemplo,
tes e seus sucessores, os mesmos agindo de boa fé e seguindo seu
efeitos da sentença proferida pelos Tabela I - Desempenho em R$ entendimento do que está escrito
órgãos do Poder Judiciário e, sen- - toma a decisão de não pagar
do condenatória, constitui título
até junho de 2002 dividendos segundo a regra que
executivo”. Período Dynamo Cougar FGV-100 Ibovespa médio os minoritários entendem ser a
As questões societárias e 60 meses 194.95% 112.90% -11.09% do estatuto que eles imaginam
corporativas no Brasil já apresen- ter contratado ao entrar para a
36 meses 118.50% 78.44% -1.69%
tam um grau razoável de comple- sociedade. Ora, aqui começa
xidade. Não dispomos de cortes es- 12 meses 13.66% 2.57% -22.86% uma via crucis para os acionis-
pecializadas no direito societário. 6 meses 12.04% -1.24% -18.50% tas minoritários que tem na lite-
A combinação dos vários instru- Valor da cota em 29/06/2002 = 28,777020775 ratura o nome de problema da
mentos constitutivos e de regulação ação coletiva. O controlador,
das empresas no mercado produz um conjun- Uma sociedade anônima está regula- por ter a custódia das decisões da companhia,
to de regras normativas que exigem uma for- da basicamente pelos seguintes dispositivos: simplesmente as toma. Interpreta o estatuto ao
mação multidisciplinar que não se encontra Lei das S.A., Estatuto Social, Acordo de Acio- seu modo e vai adiante, acabando por se apro-
facilmente em nosso judiciário. Quando se nistas, normas editadas pelo Conselho Mone- priar do que outros entendem que não lhe per-
recorre à ação judicial para resolver proble- tário Nacional, pelo Banco Central e pela Co- tence. Alea jacta est. O que resta aos minori-
mas desta ordem, proliferam os pesados do- missão de Valores Mobiliários, bem como pe- tários? Procurar reaver o que entendem ser seu.
cumentos processuais, que tentam descrever las demais normas aplicáveis ao funcionamen- Uma primeira tentativa é convencer o dono
operações financeiras intrincadas e desenhos to do mercado de capitais em geral (documen- da empresa que ele está errado. Depois, quem
societários sofisticados. A digestão destes to- tos gerais – DGs). Apenas estatutos e acordos sabe, buscar o apoio dos administradores. Fi-
mos de argumentos e contra-argumentos é de acionistas (documentos específicos – DEs) nalmente, se nada é suficiente, recorrer à Jus-
bem complicada. Sem falar no trânsito pelas variam de empresa para empresa. Em condi- tiça. Em todas estas iniciativas, temos, de um
mais variadas instâncias até a sentença final. ções ideais, os investidores deveriam contar lado, um personagem individual que tem po-
Tudo isso significa que as decisões são sem- com a proteção garantida nos DGs e avaliar der de decidir pela sociedade e implementar o
pre muito demoradas e não necessariamente os DEs de uma empresa antes de tomar a de- que decide. Do outro, um personagem coleti-
bem fundamentadas. Arbitrar é mais econô- cisão de investir. DEs que indicam maior equi- vo que precisa se mobilizar e agir em conjunto
mico do que litigar, excluído o caso – relevan- dade entre os acionistas de uma determinada para tentar recuperar o que julga ter-lhe sido
te, como se verá mais adiante - em que uma companhia implicariam em uma maior pro- subtraído. Ocorre que agir coletivamente en-
parte espera obter valor não na sentença fi- pensão à investir, maior preço da ação, me- volve um complexo e às vezes insuperável pro-
nal, mas em sua protelação. Como afirma nor custo de capital e, com isso, em vantagem blema de organização.
Carreira Alvim: “Se se pudesse apontar como competitiva absoluta. Este processo natural de Até meados da década de 60, a boa
única vantagem da arbitragem a possibilida- seleção levaria à evolução dos DEs no sentido teoria social supunha que indivíduos com ob-
de de julgamento de litígio exatamente no pra- demandado pela maioria dos investidores que jetivos comuns, caso racionais6 , cooperariam
zo estabelecido pelas partes, essa instituição oferecem seus recursos às companhias. Ocorre para sua consecução. A união faz a força e
já estaria plenamente justificada, num país que, infelizmente, não basta a qualidade dos quanto mais forte o grupo melhor para cada

(3) Sobre o assunto, sugerimos a leitura do primeiro capítulo da Dissertação de Mestrado, “Atuação do Estado e Produção do Direito: papel das agências reguladoras independentes”, Depto. de
Direito, PUC-RJ, de Mariane Sardenberg Sussekind, 2002. Ver também, André-Jean Arnaud, “O Direito entre Modernidade e Globalização”, Editora Renovar, 1999 pg. 20
(4) Ver texto de F. Keller, op. cit., pg.4.
(5) José Eduardo Carreira Alvim, “Tratado Geral da Arbitragem”, citado por Mariane S. Sussekind, op. cit., pg. 24.
(6) Se irracionais, não fazem formalmente parte do mercado.
um de seus membros. Mostrar que a lógica da Esta grande complicação para o fun- (membros do conselho de administração, con-
ação coletiva era outra demandou apenas ob- cionamento do mercado de capitais que tanto selho fiscal e diretoria). A adesão dos demais
servação empírica: na obtenção de um bem nos afeta, tem solução e o seu nome é arbi- acionistas é voluntária, mas, obviamente, só
coletivo, o indivíduo racional prefere a força tragem. Como conseqüência da criação dos aqueles que o fizerem poderão recorrer à CAM.
da união ao seu esforço isolado, mas prefere níveis 2 e Novo Mercado pela BOVESPA, foi Os demais deverão permanecer na órbita da
ainda mais o empenho de todos sem a sua instituída uma Câmara Arbitragem do Merca- justiça comum. Ao aderir à CAM, os partici-
participação, pois com isso pode obter benefí- do (CAM) que já se encontra em pleno funcio- pantes obrigam-se a solucionar por meio dela
cios (o bem é coletivo) sem custos para si mes- namento8 . Inicialmente a CAM tem a finalida- todos os conflitos que possam surgir decor-
mo. Como agravante, quanto mais numeroso de precípua de atuar na solução de conflitos rentes da aplicação das disposições contidas
o grupo, mais irrelevante é a contribuição indi- que possam surgir nestes segmentos especiais na Lei de Sociedades Anônimas, estatuto soci-
vidual para o esforço agregado da produção de listagem. No futuro não muito distante, es- al da companhia, normas editadas pelo Con-
do bem coletivo embora muito significativa para peramos, a atuação da CAM deverá se esten- selho Monetário Nacional, pelo Banco Cen-
a economia privada.7 Ou seja, no que se re- der a todos os segmentos do BOVESPA e com tral do Brasil e pela Comissão de Valores Mo-
fere à ações coletivas, o indivíduo racional é isso uma transformação das mais profundas e biliários, bem como demais normas aplicáveis
antes de tudo um free rider, alguém que tenta promissoras poderá estar acontecendo no ao funcionamento do mercado de capitais em
pegar “carona” no bem produzido por outros. mercado brasileiro. Somos entusiasticamente geral. No presente momento, também estão
Acontece que, se todos pensam desta forma, a a favor de uma rápida migração dos conflitos submetidos à CAM os conflitos decorrentes de
ação coletiva simplesmente não se realiza. societários das empresas brasileiras da justiça normas constantes do Regulamento de Lista-
Organizar acionistas minoritários na comum para a arbitragem negociada. gem do Novo Mercado, do regulamento de
defesa de seus interesses esbarra na lógica per- A CAM foi instalada pela BOVESPA em práticas diferenciados de governança corpo-
versa da inação coletiva. Eles estão no extre- julho de 2001, no âmbito da Lei nº 9307/06. rativa e dos contratos firmados pelas compa-
mo oposto ao do acionista majoritário que tem Esta Lei estipula a assinatura de cláusula com- nhias listadas nos segmentos especiais de lis-
a agilidade da ação individual e a custódia promissória, por meio da qual as partes de uma tagem da BOVESPA (o que, evidentemente,
das decisões, podendo tomá-las deixando para relação jurídica (neste caso de uma sociedade inclui os acordos de acionistas).
os prejudicados o ônus da prova. Dados os anônima) comprometem-se previamente a sub- Estão previstos três procedimentos ar-
custos envolvidos em uma ação judicial, mui- meter à arbitragem todos os conflitos que sur- bitrais distintos. A arbitragem ordinária é desti-
tas vezes ela só é possível quando os minoritá- jam entre elas. É o que acontecerá em todas nada a questões mais complexas e prevê a par-
rios juntam suas ações em um bloco que ticipação de três árbitros, um indicado por
torna econômica a disputa com o con- cada parte e um terceiro indicado de co-
trolador (que muitas vezes consegue fi- O fato de se poder ter decisões mum acordo ou pelo presidente da CAM
nanciar sua defesa com os recursos da rápidas e qualificadas para se não houver consenso. As decisões do
própria companhia). Nossa experiência Tribunal Arbitral serão tomadas por maio-
mostra que esta tarefa nem sempre é pos- problemas societários muda ria absoluta. A arbitragem sumária é um
sível e a ação coletiva muitas vezes não radicalmente o ambiente de procedimento simplificado e é recomen-
acontece. Quando, por um golpe de sor- dada para questões de natureza mais sim-
te, os acionistas minoritários conseguem convivência societária. ples já que o litígio é resolvido por um úni-
formar um grupo significativo e organi- co árbitro, indicado por sorteio. Finalmente
zado, o que há pela frente? Uma batalha judi- as companhias que aderirem ao nível 2 ou novo na arbitragem ad hoc, é permitido às partes pro-
cial que no Brasil, pelo excesso de processos e mercado do BOVESPA que terão, automatica- por um desenho alternativo ou informal para
falta de especialização do judiciário pode sig- mente, que aderir também à CAM. Uma vez solução de uma determinada disputa.
nificar anos de custos com advogados, uma estabelecida a opção pela arbitragem, as par- Toda arbitragem é antecedida de uma
quantidade absurda de tempo e dedicação dos tes não poderão recorrer ao poder judiciário tentativa de conciliação que tem por objetivo
interessados e, por fim, uma sentença incerta. para tratar das eventuais controvérsias nem, um acordo entre as partes. Se este acordo é
Qualquer parte experiente neste tipo de situa- muito menos, para alterar ou rever uma sen- obtido, sua oficialização pelo presidente da
ção, sabe que um acordo, ainda que por va- tença arbitral proferida. A mesma Lei determi- Câmara de Arbitragem terá o mesmo efeito
lor inferior ao que seria justo, é melhor do que na que as sentenças devem ser definidas pelos de uma sentença arbitral, obrigando as partes
a aventura da disputa judicial. Como comen- tribunais arbitrais em, no máximo, 180 dias. a cumprir o que tiver sido acordado. Portanto,
tário lateral, vale lembrar que acordos são so- A CAM dispõe de pelo menos trinta e isto é muito importante, ao contrário do que
luções ótimas para os envolvidos, mas, do pon- árbitros, com mandato de dois anos, permiti- acontece na justiça comum, acordos que re-
to de vista geral, é um sub-ótimo pois esta prá- da uma ou mais reconduções. Os árbitros são sultam de conciliação prévia têm efeito de sen-
tica atrofia a produção de jurisprudência para escolhidos entre pessoas de ilibada reputação, tença judicial e não de acordo extra-judicial.
questões societárias e corporativas no Brasil. profundo conhecimento sobre o mercado de Quem tem alguma experiência em conflitos
A combinação das dificuldades da capitais e com no mínimo 30 anos completos. societários no Brasil, sabe da enorme impor-
ação coletiva dos minoritários com a lentidão Há entre eles, uma grande concentração de tância prática que este tipo de protocolo pode
do judiciário é uma condenável tentação para advogados familiarizados com os problemas ter. O julgamento e a sentença arbitral não
o arbítrio do majoritário. Como conseqüên- práticos do direito societários. Não cansamos serão públicos, sendo do conhecimento ape-
cia, todos os documentos legais da vida soci- de repetir que solução rápida tomada por es- nas das partes envolvidas. A CAM deverá di-
etária têm sua credibilidade ameaçada e cabe pecialistas para problemas societários em com- vulgar, periodicamente, as sentenças arbitrais
ao minoritário ao fazer seus investimentos não panhias brasileiras desata um nó górdio e grave proferidas, suprimindo os nomes das partes e
só projetar resultados e estudar o estatuto de do mercado de capitais brasileiro. qualquer elemento que possibilite a sua iden-
uma companhia, mas também avaliar a quali- A adesão à CAM, mediante a assina- tificação, bem como os nomes dos respecti-
dade ética e de fairness do dono da empresa. tura de um termo de anuência, implica, para vos advogados, se houver. Essa divulgação visa
Ora, caráter não publica balanço e, portanto, uma empresa, na participação obrigatória, a orientar os árbitros em suas futuras decisões,
a avaliação é, na prática, imprecisa ou peri- além da própria BOVESPA, da companhia, dos estabelecendo um certo grau de jurisprudên-
gosamente subjetiva. seus controladores e de seus administradores cia, preservada sempre, no entanto, a inde-
(7) Para os curiosos sobre o tema, sugerimos o livro de Mancur Olson, The Logic of Collective Action, Cambridge University Press, 1971.
(8) Sugerimos a leitura do documento Câmara de Arbitragem do Mercado publicado pela BOVESPA.
pendência dos árbitros no seu julgamento. A Convenção de Nova York através do Decreto poderão escolher as empresas em que inves-
intervenção do poder judiciário só é prevista Legislativo nº52, datado de 25 de abril de tem levando em consideração seu contrato so-
para o caso de descumprimento de alguma 2002, que trata do “Reconhecimento e da Exe- cietário (seu estatuto social) sabendo que o
regra ou decisão arbitral. cução das Sentenças Arbitrais Estrangeiras” dá que lá se estabelece será respeitado ou as dú-
A criação da CAM pela BOVESPA é um caráter ainda mais cosmopolita a este pro- vidas surgidas serão dirimidas com eficiência
um episódio nobre e admirável no progresso cesso. Note-se que embora seja conhecido por e competência. Com isso, ao invés de se bus-
da governança corporativa de empresas bra- sua sofisticada gestão econômica e financei- car melhorar a governança corporativa com
sileiras. Não por outra razão, temos nos dedi- ra, o Brasil foi um dos últimos países a aderir cada vez mais regulamentação (muitas das
cado bastante a estudar minuciosamente seu a esta Convenção, que garante a validade das quais são editadas para corrigir interpretações
funcionamento, bem como a prática da arbi- decisões arbitrais brasileiras no exterior, do criativas de regulamentações já existentes), tal
tragem em outros países. Em reuniões com a mesmo modo que a das sentenças arbitrais resultado poderá ser alcançado natural e di-
equipe da BOVESPA, pudemos tirar várias dú- estrangeiras no Brasil.9 retamente no mercado: caberá aos estatutos
vidas com relação ao funcionamento da CAM O uso da arbitragem deve ser uma sociais das companhias – dada a qualidade
e nos certificar da eficiência deste instrumen- das prioridades mais imediatas dos grandes de seu negócio, premissa óbvia - consignar o
to. É impossível em apenas uma carta resumir investidores – institucionais ou não – na sele- que os investidores desejam obter para terem
todos os detalhes técnicos envolvidos e temos ção das companhias investidas. Não há ne- segurança de investir, pois compliance fica por
certeza de que a breve descrição aqui apre- nhuma razão plausível para que uma compa- conta do tribunal arbitral.
sentada suscitará inúmeras indagações sobre nhia não adira ao procedimento arbitral tão Esperamos que a CAM comece a fun-
os procedimentos que organizam a solução logo a BOVESPA estenda os serviços da CAM cionar tão breve quanto possível e que seu
arbitral. Razão pela qual recomendamos for- para todas as companhias negociadas naquela sucesso estimule a BOVESPA a estender seu
temente a leitura (indispensável) do Regulamen- bolsa de valores. Aquelas que se recusarem a alcance às demais empresas do mercado. Da
to da Câmara de Arbitragem do Mercado edi- fazê-lo, estarão emitindo um dúbio sinal com mesma forma, seria interessante que surjam
tado pela BOVESPA. relação a seu projeto de governança corpora- outros tribunais arbitrais, consolidando a mo-
O fato de se poder ter decisões rápi- tiva. Evolucionariamente, o próprio desenvol- dernidade no campo da resolução de confli-
das e qualificadas para problemas societários vimento de tribunais arbitrais no país, a exem- tos societários no nosso mercado de capitais.
muda radicalmente o ambiente de convivên- plo do que já acontece em países mais adian-
cia societária. A ratificação, pelo Brasil, da tados, é muito importante.10 Os investidores Rio de Janeiro, 10.09.2002.

(9) Sobre a importância deste fato, sugerimos artigo de Arnold Wald, “A Convenção de Nova York”, Jornal Valor, 24/05/2002, página B2.
(10) Para uma exposição mais conceitual e sofisticada sobre a importância da arbitragem na solução de conflitos, sugerimos o excelente paper “Choosing Umpires: An Analytic History of Arbitration
Mechanisms”, Konrad Siewierski, Departamento de Ciências Políticas, Universidade de Stanford, 1998.

Dynamo Cougar x Ibovespa x FGV-100


(Percentual de Rentabilidade em US$ comercial)
DYNAMO COUGAR* FGV-100** IBOVESPA***
No No Desde No No Desde No No Desde
Período Trimestre Ano 01/09/93 Trimestre Ano 01/09/93 Trimestre Ano 01/09/93
1993 - 38,78 38,78 - 9,07 9,07 - 11,12 11,12
1994 - 245,55 379,54 - 165,25 189,30 - 58,59 76,22
1995 - -3,62 362,20 - -35,06 87,87 - -13,48 52,47
1996 - 53,56 609,75 - 6,62 100,30 - 53,19 133,57
1997 - -6,20 565,50 - -4,10 92,00 - 34,40 213,80
1998 - -19,14 438,13 - -31,49 31,54 - -38,4 93,27
1º Trim/99 6,81 6,81 474,80 11,91 11,91 47,20 12,47 12,47 117,36
2º Trim/99 24,28 32,75 614,36 24,60 39,44 83,41 2,02 14,74 121,76
3º Trim/99 3,17 36,96 637,01 -4,71 32,87 74,77 -7,41 6,24 105,34
4º Trim/99 49,42 104,64 1001,24 62,92 116,46 184,73 59,53 69,49 227,58
1º Trim/00 6,15 6,15 1068,96 11,53 11,53 217,56 7,08 7,08 250,77
2º Trim/00 -2,43 3,57 1040,57 -6,26 4,55 197,67 -9,03 -2,59 219,10
3º Trim/00 4,68 8,42 1093,99 0,88 5,47 200,31 -6,10 -8,53 199,63
4º Trim/00 -4,98 3,02 1034,53 -7,69 -2,63 177,23 -10,45 -18,08 168,33
1º Trim/01 -0,98 -0,98 1023,40 -10,06 -10,06 149,33 -16,00 -16,00 125,39
2º Trim/01 -6,15 -7,07 954,28 -1,76 -11,64 144,95 -3,73 -19,14 116,97
3º Trim/01 -27,25 -32,40 666,97 -33,81 -41,52 62,12 -36,93 -49,00 36,84
4º Trim/01 38,52 -6,36 962,40 55,88 -8,84 152,71 49,07 -23,98 103,99
1º Trim/02 13,05 13,05 1101,05 3,89 3,89 162,55 -2,76 -2,76 98,35
2º Trim/02 -22,40 -8,60 871,04 -22,45 -19,43 103,60 -31,62 -33,51 35,63

(*) O Fundo Dynamo Cougar é auditado pela KPMG Auditores Independentes e sua rentabilidade é apresentada líquida das taxas de performance e administração, ficando sujeita apenas a ajuste de
taxa de performance, se houver. (**) Índice que inclui 100 companhias, mas nenhuma instituição financeira ou empresa estatal (***) Ibovespa Médio (não o fechamento).

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