A chuva fina caía sobre a cidade, cobrindo as ruas com um brilho
úmido sob as luzes dos postes. O vento carregava o cheiro da terra
molhada, misturado ao aroma de café vindo de uma padaria ainda
aberta. Algumas poucas pessoas caminhavam com passos
apressados, protegendo-se sob guarda-chuvas coloridos que, à
distância, pareciam pontos flutuantes em um mar de concreto.
Em uma praça quase deserta, um homem sentado em um banco
observava o movimento com um olhar perdido. Suas mãos estavam
enfiadas no bolso do casaco surrado, e uma pequena poça começava
a se formar ao redor dos seus pés. Não parecia incomodado pela
chuva. Pelo contrário, parecia fazer parte dela, como se estivesse
esperando que o céu lhe contasse algum segredo esquecido.
Um gato malhado se encolhia sob a marquise de uma livraria
fechada. Seus olhos amarelos refletiam os faróis dos poucos carros
que passavam, e sua cauda balançava preguiçosamente, como se
estivesse avaliando se valia a pena sair dali para explorar a noite
molhada. Talvez esperasse alguém. Ou talvez apenas gostasse do
calor da vitrine que, do outro lado do vidro, exibia livros envelhecidos
pelo tempo.
Perto dali, uma garota com um violino apoiado no ombro atravessava
a rua. Seus cabelos desgrenhados grudavam na testa, e seu casaco
parecia fino demais para o frio que tomava conta da cidade. Mas ela
não parecia se importar. Seus passos tinham uma leveza diferente,
como se seguisse uma melodia que ninguém mais podia ouvir.
A cidade respirava em seu próprio ritmo, indiferente aos que nela
vagavam. Cada pessoa, um universo; cada instante, um fragmento de
história perdido na imensidão do tempo. E, no meio da madrugada,
enquanto a chuva continuava sua dança silenciosa, o mundo seguia,
como sempre, em seu eterno e misterioso movimento.