Crítica Marxista da Inteligência Artificial
Crítica Marxista da Inteligência Artificial
Osasco
2024
FELIPE QUATORZE CORREA
Osasco
2024
Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio convencional ou
eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte.
CDD: 330
FELIPE QUATORZE CORREA
EXAMINADORES:
____________________________________________________
Prof. Dr. Daniel Augusto Feldmann
Universidade Federal de São Paulo
____________________________________________________
Prof. Dr. Pedro C. Chadarevian
Universidade Federal de São Paulo
RESUMO
Esta monografia examina o impacto da inteligência artificial (IA) na sociedade à luz da teoria
marxista, investigando como a implementação da IA por grandes corporações afeta as relações
sociais, econômicas e de trabalho. Através de uma análise crítica e uma síntese da literatura
existente, o estudo busca compreender as dinâmicas de exploração, desigualdade e alienação
introduzidas pela IA, utilizando conceitos marxistas como seu fundamento analítico. A pesquisa
teórica fornecerá insights valiosos sobre as transformações sociais induzidas pela IA, e espera
contribuir para o debate acadêmico, a adoção de políticas públicas e a discussão no interior dos
movimentos sociais nessa nova era digital.
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ABSTRACT
This dissertation examines the impact of artificial intelligence (AI) on society through the lens
of Marxist theory, investigating how the implementation of AI by large corporations affects
social, labor and economic relations. Through a critical analysis and synthesis of existing
literature, the study aims to comprehend the dynamics of exploitation, inequality, and alienation
introduced by AI, employing Marxist concepts as an analytical framework. The theoretical
research will provide valuable insights into the social transformations induced by AI,
contributing to academic discourse, public policies, and social movements in the digital age.
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SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO.............................................................................................................8
2. A IA NA ÓTICA MARXISTA...................................................................................13
2.1 Conceitos Marxistas......................................................................................................13
2.2 Discussão atual..............................................................................................................15
3. REFLEXÕES SOBRE O ESTADO ATUAL DO DEBATE: AVANÇOS,
CONTRADIÇÕES E LACUNAS..............................................................................22
3.1 Convergências no debate..............................................................................................23
3.2 Divergências no debate.................................................................................................24
3.3 Avanços e contribuições recentes................................................................................24
3.4 Lacunas e direções futuras...........................................................................................24
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS......................................................................................26
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..............................................................................27
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INTRODUÇÃO
Na era contemporânea, a aceleração tecnológica transformou radicalmente as dinâmicas
sociais, econômicas e culturais em todo o mundo. Entre todas as inovações, a inteligência
artificial (IA) emerge como uma das forças mais impactantes, revolucionando indústrias e
moldando o futuro do trabalho e da sociedade. “Inteligência artificial” é um termo generalista,
usado pela primeira vez por John McCarthy (1955)1, que implica o uso de um computador para
modelar comportamento inteligente com intervenção humana mínima. Ao longo das décadas,
a IA passou por várias fases de desenvolvimento e progresso. Michael Haenlein e Andreas
Kaplan (2019), por exemplo, comparam o passado da IA às quatro estações. A primeira é a
primavera, que refere-se ao período inicial de descoberta e entusiasmo em torno da IA,
caracterizado pela expectativa de grandes avanços e possibilidades ilimitadas. Durante esta
fase, na década de 1950, foram lançadas as bases teóricas e conceituais da tecnologia. O verão
representa o período de rápido crescimento e otimismo em torno da IA, onde houve avanços
significativos em algoritmos e tecnologias. Isso incluiu o desenvolvimento de sistemas
especialistas, redes neurais artificiais e algoritmos de aprendizado de máquina (machine
learnig). A próxima estação é o inverno, quebrando a sequência das estações do ano, que retrata
um período de desilusão e estagnação na IA, onde as expectativas exageradas não foram
totalmente cumpridas e houve um declínio no financiamento e interesse público na área. Isso
ocorreu principalmente durante os anos 1970 e 1980. Os autores finalizam com o outono,
referente ao período da década de 90 até a contemporaneidade, havendo renascimento e
revitalização da IA, caracterizado pelo surgimento de novas abordagens, como o ressurgimento
do Deep Learning.
Vale destacar a existência de diferentes tipos de IA. De um lado, temos o Machine
Learning, subconjunto da inteligência artificial responsável por criar sistemas que aprendem ou
melhoram sua precisão com base no banco de dados de que se alimentam. O Machine Learning
e a IA são frequentemente discutidas juntos e acabam sendo usados de forma intercambiável,
mas são termos distintos. De outro lado, há um outro subconjunto da IA, o Deep Learning
previamente mencionado. Trata-se da aplicação de várias camadas de redes neurais, baseadas
levemente em como o cérebro humano funciona, com uma grande escala de dados e
processamento simultâneo para análise de informações (esse método também é um tipo de
Machine Learning). Retomando as classificações de Haenlein e Kaplan, o outono é um período
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marcado pelo renovado interesse e investimento em IA, levando a avanços significativos em
várias áreas.
São diversas as aplicações da IA que podem ser observadas na sociedade contemporânea,
dessas, vale destacar, por exemplo, a área da saúde, onde a inteligência artifical pode ser usada
para auxiliar o profissional a identificar e diagnosticar doenças, desenvolver tratamentos e
personalizar o cuidado para cada paciente, tudo isso com base no acesso a extensos bancos de
dados. Além disso, também é usada em finanças, conseguindo detectar fraudes, analisar riscos
e auxiliar em decisões de investimentos. A IA também aparece na área de manufatura,
automatizando tarefas como inspeção e montagem ou até mesmo melhorando a precisão do
controle de qualidade em uma determinada indústria. Poderíamos continuar listando setores do
conhecimento como desenvolvimento tecnológico, programação, ciência de dados, criação de
jogos, indústria musical, indústria bélica etc, e conseguiríamos achar alguma função realizada
por ou com base em IA em todos eles. Portanto, essas e muitas outras aplicações colocam sob
evidência o fato de que a inteligência artificial está cada vez mais presente em nossas vidas,
rotinas, trabalhos e, consequentemente, nos mecanismos econômicos, transformando o fazer
profissional de diversos setores.
Mais recentemente, aproximadamente no período da pandemia de coronavírus, a IA foi
popularizada pelos avanços no ChatGPT da empresa OpenAI. O Generative Pre-trained
Transformer Chat (ChatGPT) é um programa de inteligência artificial que estabelece um
diálogo com o usuário. Criado pela Open AI, essa ferramenta altamente capaz utiliza algoritmos
de aprendizado de máquina para processar e analisar grandes quantidades de dados a fim de
gerar respostas para as perguntas dos usuários. O programa de processamento de linguagem é
capaz de entender a linguagem humana conforme é falada e escrita, permitindo que compreenda
as informações fornecidas e o que deve devolver. Um estudante pode digitar uma pergunta, e o
ChatGPT devolve uma resposta facilmente compreensível — em uma variedade de formatos
com especificações precisas. Outra ferramenta da Open AI que se popularizou durante o período
de quarentena foi o DALL-E, uma extensão do ChatGPT capaz de gerar imagens realistas
usando apenas uma descrição escrita. No entanto, essa ferramenta gerou discussões
relacionadas ao impacto dela no trabalho de artistas, sendo que a ferramenta pode criar artes,
ilustrações e imagens de maneira muito mais rápida e barata do que um artista visual. Harry
Jiang et al., no artigo “AI Art and its Impact on Artists” (2023), cita diversas consequências
nocivas da IA ao mercado de artes visuais, como a perda de oportunidades de trabalho, a
falsificação de obras e o plágio.
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Portanto, fica evidente que o progresso da IA está imerso em desafios complexos,
especialmente quando visto através da lente crítica da teoria marxista. O marxismo, baseado
nas análises pioneiras de Karl Marx e Friedrich Engels sobre o capitalismo e suas contradições
internas, oferece uma estrutura essencial para entender as mudanças sociais profundas
induzidas pela IA. A análise marxista, fundamentada na compreensão das relações de classe,
exploração e alienação2 no contexto capitalista, oferece uma visão crítica sobre o impacto da
tecnologia na sociedade, dado que os mecanismos de produção capitalistas se entrelaçam com
a automação e a inteligência artificial. Logo, questões cruciais emergem: como a automação
afeta a relação entre capital e trabalho? Como a IA contribui para a concentração de riqueza e
poder nas mãos das elites, exacerbando a desigualdade social? Além disso, o marxismo permite
analisar as novas formas de alienação decorrentes da digitalização do trabalho, onde
trabalhadores são desumanizados e distanciados ainda mais do seu objeto de trabalho em prol
de algoritmos e processos automáticos.
Este estudo visa analisar criticamente a literatura já escrita sobre o desenvolvimento e a
implementação da inteligência artificial sob uma perspectiva marxista. Pretende-se explorar
como a automação e a IA, quando incorporadas ao tecido do capitalismo, transformam as
relações sociais, reconfiguram o mercado de trabalho e intensificam as disparidades
econômicas. Ao entender as dinâmicas da IA à luz do marxismo, este estudo se propõe a
sintetizar o debate atual existente sobre o tema, considerando as complexidades sociais
inerentes a essa tecnologia.
Além disso, a presente monografia propõe uma síntese do debate teórico, sob a
perspectiva da crítica marxista, a respeito da investigação aprofundada sobre o impacto da
inteligência artificial na sociedade contemporânea. Diante da rápida evolução tecnológica e da
disseminação generalizada da IA em diversas esferas da vida, torna-se imperativo analisar as
implicações sociais, econômicas e políticas desse fenômeno. A escolha da abordagem marxista
se justifica pela sua capacidade única de explorar as relações de poder, as dinâmicas de
exploração e as contradições inerentes ao sistema capitalista. O estudo também busca contribuir
para o debate, diante da pouca quantidade de material publicado sobre a perspectiva marxista
da análise dos impactos da IA, principalmente quando comparado à quantidade de pesquisas
sobre o desenvolvimento dela. O tema é de crucial importância pela sua relevância social e
econômica: a inteligência artificial está transformando radicalmente a maneira como
2 Termo usado na juventude de Marx e resgatado por alguns marxistas para se referirem principalmente ao
distanciamento do proletário ao objeto de trabalho.
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trabalhamos, interagimos e percebemos o mundo ao nosso redor. A automação, o aprendizado
de máquina e os algoritmos alteram profundamente as estruturas do mercado de trabalho, a
distribuição de renda e a dinâmica social. Compreender essas mudanças à luz da teoria marxista
é crucial para analisar as crescentes desigualdades, a alienação do trabalho e as novas formas
de exploração que surgem nesse contexto. Ao fazer isso, podemos contribuir para a literatura
acadêmica, oferecendo uma síntese do debate a respeito de um tema que é sempre discutido,
mas muitas vezes abordado de maneira fragmentada e superficial. Ao resgatar a visão marxista
para a discussão sobre IA, esta pesquisa pretende oferecer ferramentas que possibilitam uma
perspectiva complementar e assim enriquecer debates acadêmicos e políticos. Esta pesquisa não
apenas aborda um tema pouco explorado na literatura acadêmica, mas também pretende
elucidar a maneira como a crítica marxista compreende e responde aos desafios da inteligência
artificial.
Em resumo, esta monografia tem como foco principal a análise da discussão atual sobre
o desenvolvimento e uso da inteligência artificial na sociedade sob a ótica marxista. Visando
entender, partindo da revisão da literatura, do estado atual do debate, e considerando as
consequências de um impacto generalizado dessa tecnologia na taxa de emprego, nas relações
de trabalho, nas relações sociais e econômicas. Para isso iremos, primeiro, investigar como a
automação e a inteligência artificial reconfiguram o mercado de trabalho, analisando os efeitos
na distribuição de empregos, salários e segurança laboral à luz dos conceitos marxistas de
alienação e exploração. Ademais, investigar como a IA contribui para a concentração de poder
e riqueza, analisando a literatura já existente sobre os mecanismos que perpetuam as
desigualdades socioeconômicas e as implicações disso para a estrutura de classes, conforme
concebido por Marx.
A coleta de material para esta pesquisa será realizada por meio da revisão bibliográfica
de fontes secundárias e terciárias relevantes que abordem o tema da inteligência artificial e sua
relação com a teoria marxista, usando como matéria-prima livros, artigos científicos e outras
publicações relevantes. A análise dos materiais coletados será conduzida por meio de uma
abordagem teórica crítica. Isso envolverá a leitura e interpretação detalhada das fontes,
identificando conceitos-chave, argumentos e evidências que contribuem para a compreensão
das implicações da inteligência artificial sob a perspectiva marxista. A análise será orientada
pelos objetivos específicos da pesquisa, destacando como a teoria marxista é aplicada na análise
das questões de trabalho, alienação, desigualdade e controle dos processos de trabalho na era
da IA.
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Com base na análise crítica da literatura, o desenvolvimento do tema ocorrerá de forma
progressiva, explorando as questões identificadas nos objetivos específicos. O estudo se
concentrará em sintetizar os argumentos de orientação marxista, que visem uma compreensão
crítica e profunda das implicações da IA na sociedade. A conclusão teórica da pesquisa será
elaborada com base nos resultados da análise e no desenvolvimento do tema. Nesta fase, os
principais insights e conclusões serão sintetizados para oferecer uma visão abrangente da atual
discussão acerca da IA sob a ótica marxista, evidenciando as principais convergências e
divergências do debate.
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2. A IA NA ÓTICA MARXISTA
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Outra questão importante que precisamos analisar está em como, no contexto
tecnológico atual, o trabalho morto (capital) "ganha vida" através das máquinas automatizadas,
funcionando como uma força autônoma que subjuga o trabalho vivo (mão de obra) e leva à sua
substituição progressiva. No entanto, isso não significa a completa eliminação do trabalho vivo
no processo de produção global como um todo. Afinal, por um lado, o trabalho vivo é essencial
para a produção de máquinas, e, por outro, o desenvolvimento tecnológico, ao mesmo tempo
que reduz a quantidade de trabalho vivo, também cria novos empregos com o surgimento de
novas especializações na divisão do trabalho. Apesar disso, no balanço geral, em termos de
produção global, o trabalho vivo sofre uma redução progressiva, já que o surgimento dessas
novas especializações não é suficiente para compensar a diminuição do trabalho vivo. Vamos
ver como Marx analisa essa questão inicialmente.
Inicialmente, enquanto trabalho morto — que Marx chama de trabalho passado, termo
originalmente ricardiano na passagem acima — a máquina vira o principal meio de reduzir o
trabalho vivo no processo global de produção devido ao avanço tecnológico. Marx, para
elucidar a complexidade dessa contradição, nos oferece uma chave de leitura baseada no fato
de que, com o desenvolvimento tecnológico (ou da maquinaria, como ele chama), a hostilidade
entre capital e trabalho avança como uma contradição que se manifesta através de um
movimento simultâneo de atração e repulsão.
A oposição entre capital e trabalho assalariado desenvolve-se, assim, até sua plena
contradição. É no interior desta que o capital aparece como meio não somente de
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depreciação da capacidade viva de trabalho, mas também como meio de torná-la
supérflua. Em determinados processos isso ocorre por completo; em outros, esta
redução se efetua até que se alcance o menor número possível no interior do conjunto
da produção (Marx, 1994, p. 106).
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ganhos econômicos significativos. No entanto, esses ganhos são desproporcionalmente
apropriados pelos detentores dos meios de produção, exacerbando a desigualdade de riqueza.
A classe capitalista, que controla e investe na IA, acumula lucros exponenciais, enquanto os
trabalhadores enfrentam salários estagnados e condições de trabalho deterioradas. Logo, esta
discrepância pode ser interpretada na ótica da essência da exploração marxista, onde o valor
gerado pelo trabalho é apropriado pelos capitalistas, ampliando assim a divisão entre as classes.
Os autores também abordam, além das disparidades econômicas, o modo que a IA é utilizada
como uma ferramenta de controle social. Sistemas de vigilância, algoritmos de crédito e
monitoramento comportamental são amplamente empregados para manter a ordem social e
reprimir potenciais movimentos dissidentes. Nesse contexto, a tecnologia não apenas explora
economicamente os trabalhadores, mas também os submete a uma vigilância constante,
restringindo suas liberdades e autonomia. A crescente desigualdade gerada pela IA alimenta
conflitos sociais. A luta de classes, um conceito central no marxismo, se manifesta em diversas
formas, desde protestos e revoluções até movimentos por direitos trabalhistas e distribuição
equitativa dos ganhos econômicos. Esse conflito intrínseco pode catalisar transformações
sociais, redefinindo as estruturas econômicas e políticas. Sob a perspectiva marxista, o conflito
social é inerente ao capitalismo, mas a IA, como uma nova forma de tecnologia, introduz
nuances únicas nesse conflito, oferecendo tanto desafios quanto oportunidades para a
emancipação da classe trabalhadora.
O advento da inteligência artificial e da automação, conforme discutido por Acemoglu
e Restrepo (2018), representa uma possível transformação nas estruturas tradicionais de
trabalho. Na visão deles, a automação tende a reduzir a demanda por trabalho, salários e
emprego devido ao efeito deslocador, mas isso pode ser contrabalançado por forças econômicas
como a redução dos custos de produção, aumento da produtividade, acúmulo de capital e
aprofundamento da automação. Ainda segundo os autores, o futuro do trabalho depende do
equilíbrio entre automação e a criação de novas tarefas nas quais o trabalho humano tem
vantagem comparativa. No entanto, a realocação de trabalhadores é complexa e demorada,
agravada por imperfeições no mercado de trabalho, podendo causar estagnação salarial e
aumento da desigualdade durante a transição. Há também o risco de automação excessiva, que
pode reduzir a produtividade e desviar os avanços tecnológicos de atividades que criam novas
tarefas. Os autores também dissertam sobre como a criação de novas tarefas exige novas
habilidades, uma vez que há um descompasso entre as habilidades fornecidas pelo sistema
educacional e aquelas exigidas pelas novas tecnologias, o que pode dificultar os ganhos de
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produtividade e aumentar a desigualdade. Sob a ótica do marxismo, a pesquisa evidencia como
a automação pode intensificar a exploração dos trabalhadores ao reduzir a demanda por
trabalho, salários e emprego, aumentando assim o exército industrial de reserva e pressionando
os trabalhadores. Ademais, a dependência da criação de novas tarefas para manter o equilíbrio
do mercado de trabalho reflete a necessidade contínua do capitalismo de expandir e inovar para
sobreviver, criando novas formas de trabalho para absorver a mão-de-obra deslocada.
É possível notar uma coerência importante na discussão apresentada pelos autores até
então. Mesmo não tendo uma visão marxista, eles abordam as consequências da IA no
desemprego e na desigualdade de maneira pessimista. As problemáticas de desigualdade social,
trabalho e desemprego, distribuição de renda e controle social ficam ainda mais evidentes
quando começamos a analisar os seguintes autores, que já apresentam mais claramente as
tendências marxistas em suas teses.
No artigo "Novas tecnologias, uma revolução em curso, os efeitos sobre o emprego e os
salários" (2017), Pierre Salama explora os impactos da revolução digital no emprego e nos
salários. Ele argumenta que esta transformação tecnológica altera profundamente o
comportamento das empresas, os modos de consumo e a estrutura do mercado de trabalho.
Embora a automação e a robotização possam eliminar certos empregos, especialmente aqueles
medianamente qualificados, elas também criam novas oportunidades, embora muitas vezes em
setores diferentes. Salama destaca a crescente bipolarização do mercado de trabalho, onde há
um aumento simultâneo de empregos altamente qualificados e pouco qualificados, enquanto os
empregos medianamente qualificados diminuem. Nos países emergentes, que são mais usuários
do que produtores dessas tecnologias, os efeitos negativos tendem a ser mais pronunciados,
resultando em maior desemprego e informalidade. O autor enfatiza a necessidade de políticas
de formação profissional contínua para mitigar os efeitos negativos e promover a inclusão dos
trabalhadores nas novas dinâmicas do mercado. A revolução digital, segundo Salama, também
exacerba as desigualdades de renda, beneficiando desproporcionalmente os segmentos mais
ricos da população.
Já na obra de Araujo (2022), destaca-se a digitalização do trabalho na era da Indústria 4.0,
oferecendo uma visão penetrante sobre as transformações sociais e econômicas que emergem
desse fenômeno. Essa perspectiva traz à pauta a substituição do trabalho vivo pelo trabalho
morto: a digitalização do trabalho, ao automatizar tarefas e introduzir sistemas de
monitoramento, contribui para a precarização da força de trabalho. Segundo o autor, os
trabalhadores tornam-se peças facilmente substituíveis em uma engrenagem digital, perdendo
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não apenas a segurança no emprego, mas também a conexão com o produto de seu trabalho,
resultando em uma desumanização progressiva. Ademais, a digitalização do trabalho muitas
vezes é apresentada como uma extensão da autonomia individual, permitindo flexibilidade e
mobilidade. No entanto, essa autonomia é frequentemente uma ilusão, o autor discorre. Os
algoritmos que monitoram o desempenho dos trabalhadores podem impor padrões rigorosos e
inatingíveis, criando uma forma sutil de controle. A aparência de autonomia oculta é, na
verdade, uma nova forma de controle, onde os trabalhadores são guiados pelas demandas
algorítmicas, restringindo suas escolhas e liberdades. Além disso, a digitalização, ao favorecer
a eficiência algorítmica sobre a habilidade humana, desvaloriza a experiência e a expertise dos
trabalhadores. Tarefas complexas tornam-se automatizadas, levando a uma depreciação da
habilidade e do conhecimento humano. Isso não apenas reduz a valorização dos trabalhadores
no mercado, mas também cria um fosso entre aqueles que possuem habilidades compatíveis
com a tecnologia e aqueles que não têm. A digitalização, portanto, não apenas desvaloriza o
trabalho, como também perpetua desigualdades sociais existentes (Araujo, 2022).
Acypreste e Mollo (2023), também participam da discussão. A pesquisa, entitulada “O
debate recorrente sobre o fim do trabalho com o desemprego tecnológico”, aborda a
incompreensão generalizada sobre o papel do valor-trabalho no capitalismo, especialmente em
um contexto altamente informatizado e digitalizado, onde existe uma percepção de que a IA vai
acabar com o trabalho. Contrapondo a visão de que a informatização elimina ou diminui a
centralidade do trabalho, o estudo argumenta que o trabalho imaterial, como o intelectual e o
criativo, continua a gerar mais-valia, que é essencial para a acumulação de capital. Além disso,
de acordo com os autores, a crescente mercantilização de várias esferas da vida, incluindo o
trabalho, demonstra que a capacidade de trabalho ainda é uma mercadoria que precisa ser
vendida para garantir a sobrevivência no sistema capitalista. As inovações tecnológicas são
apresentadas não como ferramentas que eliminam a necessidade do trabalho, mas sim como
meios de aumentar a produtividade do trabalho humano, resultando em maiores benefícios para
o capital. Isso reforça a ideia marxista de que o trabalho é a fonte de valor e a força motriz por
trás da valorização do capital. Segundo os autores, os processos de trabalho evoluem para
maximizar o lucro, utilizando diferentes formas de controle e exploração, desde o cronômetro
na fábrica até o trabalho em casa por meios digitais. A precarização do trabalho é uma
consequência notável, com trabalhadores enfrentando subemprego, terceirização, queda de
salários e a necessidade de tornarem-se "empreendedores de si mesmos" (Acypreste e Mollo,
2023). Portanto, o estudo conclui que, mesmo em um ambiente digital, o trabalho continua
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sendo central no capitalismo, contrariando a ideia de que a informatização leva ao "fim do
trabalho" ou à perda de sua relevância.
Similarmente aos autores supracitados, Becker e Pinto (s.d) também confrontam o
entendimento de que a IA pode acabar com o trabalho humano ou existir independente dele.
Segundo os autores, a discussão sobre a inteligência artificial na sociedade é frequentemente
fetichizada, obscurecendo seu papel como um fenômeno socioeconômico que não existe sem o
trabalho humano e que está voltado para a valorização do capital. Os autores utilizam categorias
marxistas para entender a IA como uma prática econômica e social dinâmica, surgida de um
período histórico específico e com suas próprias contradições. As técnicas de IA,
particularmente o aprendizado de máquina, exigem três elementos principais: poder de
processamento, métodos matemáticos/estatísticos e grandes quantidades de dados, que são
analisados como meios de produção marxianos, os relacionando ao instrumento do trabalho,
objeto do trabalho e o trabalho em si, respectivamente. A perspectiva materialista adotada
revela que a IA existe apenas através do trabalho humano e que a lógica do fluxo de capital nas
sociedades capitalistas orienta o desenvolvimento de novas técnicas. Ao contrário da maioria
das pesquisas apontadas em nossa análise, esse trabalho não foca em analisar as possíveis
consequências da IA e serve apenas como uma confrontação à hipótese de a IA existir sem
trabalho humano.
Nigel Walton e Bhabani Shankar Nayak (2021) também tentam relacionar os meios de
produção marxistas com a sociedade contemporânea mas, contrariamente a Becker e Pinto
(2021), chegam à conclusão que dados e informação não são aplicáveis à teoria marxista
tradicional. O artigo critica as limitações das concepções marxistas tradicionais de trabalho,
valor, propriedade e relações de produção, propondo uma reinterpretação desses conceitos no
contexto da sociedade baseada em dados. A IA cria uma nova divisão digital e promove um
mercado neoliberal controlado por grandes corporações, essas que agora são as detentoras dos
meios de conexão ao invés dos meios de produção. Para os autores, o advento da IA muda as
relações de poder, tirando ele da mão das grandes indústrias e o transferindo para grandes
empresas de tecnologia (Amazon, Google, Meta etc). A pesquisa também indica que a IA
melhora as condições de trabalho:
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Até agora, esse é o trabalho mais contraditório da exposição, uma vez que chega a
conclusões opostas à tendência dos outros autores marxistas sobre consequências do trabalho e
insinua que o referencial teórico marxista é insuficiente pra descrever as atuais transformações.
Mais recentemente, Iuri Tonelo (2024) aborda não só a reestruturação produtiva que a
digitalização contemporânea está desencadeando mas também a atual luta de classes e como
essa dinâmica tem sido controlada pelas classes dominantes. A pesquisa foca em dois aspectos
principais: as mudanças nas formas de produção de valor e a reprodução ampliada do capital.
Tonelo argumenta que a IA promove um movimento de "produtivização" do trabalho,
transformando atividades tradicionalmente consideradas improdutivas — na visão de Marx —
em produtivas. Entre essas atividades, destacam-se os serviços de logística, transporte e
comércio. A "uberização" e a "amazonificação" são exemplos claros desse fenômeno, onde
trabalhos como entregas de mercadorias e transporte de pessoas (realizados por plataformas
como Uber e Amazon) são incorporados na esfera de produção de valor (Tonelo, 2024). Para
contextualizar essas mudanças, o autor revisita o debate marxista sobre trabalho produtivo e
improdutivo, buscando conectar essas bases teóricas aos novos fenômenos laborais. O estudo
destaca que, apesar do avanço tecnológico, a força de trabalho global continua a expandir,
resultando em um proletariado robusto, mas fragmentado. Tonelo enfatiza a necessidade de
desmistificar os novos fetichismos da IA e entender as tendências da reestruturação produtiva
pós-2008, marcada pela crise financeira. Ele argumenta que a atual reestruturação é
caracterizada pela combinação de tecnologias de controle do trabalho com a indústria 4.0 e a
implementação dessas tecnologias no setor de serviços, resultando em novas formas de
precarização laboral. Portanto, a pesquisa conclui que, embora a classe trabalhadora global
tenha se expandido quantitativamente, a fragmentação interna dessa classe representa um
desafio significativo, exigindo novas estratégias para superar a precarização e fortalecer a
consciência de classe. Essa fragmentação, segundo o autor, é vista tanto objetivamente, com a
desarticulação das formas tradicionais de organização laboral, quanto subjetivamente, através
de forças ideológicas e materiais que atuam para dividir a classe trabalhadora. Tonelo também
menciona que a burocracia sindical e política desempenha um papel significativo na
perpetuação dessa fragmentação.
Saindo do escopo das pesquisas oficialmente publicadas, também encontramos o debate
envolvendo a IA em discussões correntes na internet. O autor Michael Roberts publicou, em
2023, uma entrada em seu blog discorrendo sobre as potenciais mudanças da inteligência
artificial, dado a popularidade do Chat-GPT. Nela, ele levanta três principais pontos, o primeiro
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envolve a possível perda de empregos causada pelo avanço da IA, o autor acredita que isso não
é novidade, considerando as décadas de rápidas inovações tecnológicas já estabelecidas.
Finalmente, ele conclui o texto abordando a questão da inteligência, onde demonstra receio em
acreditar que as máquinas vão desenvolver inteligência de fato, argumentando que elas apenas
podem pensar de maneiras qualitativas e apenas os seres humanos conseguem pensar de forma
social e transmutável.
As máquinas não podem pensar em mudanças potenciais e qualitativas. O novo
conhecimento surge dessas transformações (humanas), não da extensão do
conhecimento existente (máquinas). Somente a inteligência humana é social e pode
ver o potencial para a mudança, em particular a mudança social, que leva a uma vida
melhor para a humanidade e a natureza. (Roberts, 2023, tradução própria)
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3. REFLEXÕES SOBRE O ESTADO ATUAL DO DEBATE: AVANÇOS,
CONTRADIÇÕES E LACUNAS
Tabela 1— Síntese da visão dos autores destacados na análise crítica da inteligência artificial e seus
impactos econômicos
Autor e data Principal foco da pesquisa Observação/destaque
KORINEK, Destacam a polarização do trabalho,
Impacto da IA na economia e no
A.; STIGLITZ, aumento da desigualdade e uso da IA
mercado de trabalho.
J. (2017) como ferramenta de controle social.
Argumentam que, dependendo da forma
ACEMOGLU,
de dispersão tecnológica e políticas
D.; Automação, IA e o futuro do
adotas, a IA pode substituir empregos,
RESTREPO, emprego.
criar ou acabar com a demanda por
P. (2018)
trabalho e aumentar a desigualdade.
Discute a potencial bipolarização do
Efeitos das novas tecnologias,
SALAMA, P. trabalho, assim como desigualdade e
incluindo IA, sobre emprego e
(2017) perda de condições de trabalho –
salários.
principalmente em países emergentes.
Discute a substituição do trabalho vivo
ARAUJO, W. Digitalização do trabalho na era
pelo trabalho morto, precarização e
P. (2022) da Indústria 4.0.
controle sutil via algoritmos.
Argumentam que a informatização não
ACYPRESTE, elimina a centralidade do trabalho e que
Debate sobre o fim do trabalho
R.; MOLLO, o trabalho imaterial continua a gerar
com o desemprego tecnológico.
M. L. R. (2023) mais-valia. Porém, há uma precarização
intrínseca a esse processo.
22
Analisam a IA sobre a ótica dos meios de
BECKER, A.;
Crítica marxista à fetichização produção da teoria Marxista e como a
PINTO, J. P.
da IA. digitalização não existe sem trabalho
G. (s.d.)
humano.
Reinterpreta as relações de meios de
produção de Marx e as adapta ao cenário
WALTON, N.; Perspectivas sobre big data, IA de digitalização; A concentração de
NAYAK, B. S. e desenvolvimento econômico poder é tirada das mãos da indústria
(2021) capitalista. (meios de produção) e colocada nas
mãos das grandes empresas de
tecnologia (meios de conexão).
Argumenta que a IA promove a
"produtivização" de atividades e destaca
TONELO, I. Reestruturação produtiva e luta a necessidade de novas estratégias para
(2024) de classes na era da IA. superar a precarização laboral. Também
aborda a fragmentação da classe
trabalhadora.
Explora a perda de empregos, o falso
ROBERTS, M. Impactos econômicos e sociais aumento da produtividade e as
(2023) da IA. contradições do capitalismo com o
avanço da IA.
Fonte: Elaboração própria.
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Outra convergência é a preocupação com a bipolarização do mercado de trabalho. A IA
tende a criar uma divisão entre uma minoria de trabalhadores altamente qualificados e bem
remunerados, que desenvolvem e mantêm as tecnologias, e uma maioria de trabalhadores em
empregos precários e mal remunerados. Essa divisão reflete a tendência do capitalismo de
perpetuar e intensificar a exploração da classe trabalhadora, um ponto central na teoria marxista.
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Apesar dos avanços, há lacunas significativas na literatura que precisam ser abordadas.
Uma dessas lacunas é a necessidade de estudos empíricos mais robustos que explorem as
experiências dos trabalhadores na era da IA, proporcionando uma visão mais detalhada das
dinâmicas de exploração e possíveis oportunidades/perdas de trabalho nos setores afetados.
Além disso, há uma necessidade de integrar perspectivas interseccionais que considerem como
raça, gênero e outras identidades influenciam a experiência dos trabalhadores com a
automação.3
Outra área em desenvolvimento é a análise das políticas públicas e das estratégias de
resistência que podem ser adotadas para mitigar os impactos negativos da IA. Estudos futuros
devem explorar como movimentos sociais, sindicatos e outras organizações podem mobilizar-
se para promover uma distribuição mais equitativa dos benefícios da automação e proteger os
direitos dos trabalhadores. Com o tempo, também será possível a elaboração de estudos
empíricos comparando as políticas de diferentes países e/ou regiões quanto à implementação
de AI e suas consequências.
3 Vale notar que esse ponto é brevemente discutido em Acemoglu (2024), mas precisa de mais estudos
específicos.
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4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
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