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Expectativas de Idosos com Hipertensão na APS

O estudo investiga as expectativas de idosas com hipertensão em relação ao atendimento médico na Atenção Primária à Saúde. As participantes destacaram a importância da escuta atenta, exame físico e comunicação centrada nas necessidades do paciente. A pesquisa ressalta a necessidade de uma abordagem holística na medicina para atender adequadamente as expectativas dos pacientes.

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Eduardo F. Dutra
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Expectativas de Idosos com Hipertensão na APS

O estudo investiga as expectativas de idosas com hipertensão em relação ao atendimento médico na Atenção Primária à Saúde. As participantes destacaram a importância da escuta atenta, exame físico e comunicação centrada nas necessidades do paciente. A pesquisa ressalta a necessidade de uma abordagem holística na medicina para atender adequadamente as expectativas dos pacientes.

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br
Especial Residência Médica
ISSN 2179-7994

Ouvir, tocar, falar: expectativas do paciente em relação ao médico da


Atenção Primária
Listening, touching, speaking: patient expectations concerning Primary Care physicians
Escuchar, tocar, hablar: expectativas del paciente respecto al médico de Atención Primaria
Ana Beatriz Damiani Ferreira1 , Leonardo Campo Teixeira1 , Solena Ziemer Kusma Fidalski2

Faculdades Pequeno Príncipe – Curitiba (PR), Brasil.


1

Universidade Federal do Paraná – Curitiba (PR), Brasil.


2

Resumo
Introdução: As expectativas dos pacientes em relação ao atendimento médico são relevantes
não apenas para a melhoria dos serviços de saúde, mas também para a adequada adesão ao
tratamento. Isso se torna ainda mais importante quando falamos sobre doenças crônicas não
transmissíveis no contexto de uma população cada vez mais idosa. Nesse sentido, pode-se
potencializar o provimento de cuidado centrado no paciente. Objetivo: Identificar as expectativas
de idosos com hipertensão a respeito do atendimento médico na Atenção Primária à Saúde.
Métodos: Trata-se de um estudo qualitativo, no qual foram realizadas entrevistas abertas com
idosas diagnosticadas com hipertensão. A análise de dados seguiu o método proposto por Bardin,
com a delimitação de unidades categóricas que foram organizadas em temas-eixo norteadores,
o que permitiu a seleção dos temas de maior relevância para discussão. Resultados: Foram
entrevistadas 8 idosas, para quem a saúde tem centralidade na vida e é muitas vezes representada
pela ausência de problemas. O papel do médico em seu cuidado foi ressaltado como essencial. As
principais expectativas incluíam a escuta atenta, a realização de exame físico, e a comunicação
cuidadosa e centrada nas necessidades do paciente. Conclusões: Um dos principais desafios
da medicina do século XXI é a compreensão do paciente de forma holística. É essencial que
suas expectativas sejam conhecidas e que o médico lhe dê tempo para falar, com escuta atenta e
realização de exame físico.
Autor correspondente:
Palavras-chave: Assistência centrada no paciente; Relações médico-paciente; Atenção Primária à Ana Beatriz Damiani Ferreira
Saúde; Integralidade em saúde. E-mail: [Link]@[Link]
Fonte de financiamento:
não se aplica.
Parecer CEP:
CAAE: 71465123.2.0000.0097.
Assinado pelos participantes:
aprovado pelo Comitê de Ética em
Pesquisa Envolvendo Seres Humanos do
Hospital ­Pequeno Príncipe, apresentado,
lido e ­aceito por todos os participantes
­entrevistados para a pesquisa.
Procedência:
não encomendado.
Avaliação por pares:
externa.
Recebido em: 07/04/2024.
Aprovado em: 22/05/2024.
Editores convidados:
Como citar: Ferreira ABD, Teixeira LC, Fidalski SZK. Ouvir, tocar, falar: expectativas do paciente em relação ao médico Maria Inez Padula Anderson e Marcello
da Atenção Primária. Rev Bras Med Fam Comunidade. 2024;19(46):4226. [Link] Dala Bernardina Dalla.

Rev Bras Med Fam Comunidade. Rio de Janeiro, 2024 Jan-Dez; 19(46):4226 1
Ouvir, tocar, falar: expectativas do paciente em relação ao médico da Atenção Primária

Abstract
Introduction:Patient expectations regarding medical care are relevant not only for improving health services but also for proper adherence to
treatment. This becomes even more important in the context of chronic non-communicable diseases within an increasingly aged population. Through
this understanding, patient-centered care can be enhanced. Objective: To identify the expectations of aged people with hypertension regarding
medical care in Primary Health Care. Methods: This qualitative study involved open-ended interviews with aged women with hypertension. Data
analysis followed the method proposed by Bardin, delineating categorical units organized into guiding themes, which allowed for the selection of
the most relevant themes for discussion. Results: Eight aged women were interviewed, from whom health is central to life and often represented
by the absence of problems. The role of the physician in care was highlighted as essential. The main expectations were attentive listening, physical
examination, and careful patient-centered communication. Conclusions: One of the main challenges of 21st-century medicine is to understand
the patient holistically. It is essential that their expectations are known, and that the physician gives them time to speak, with attentive listening and
carrying out physical examinations.
Keywords: Patient-centered care; Physician-patient relations; Primary Health Care; Integrality in health.

Resumen
Introducción: Las expectativas de los pacientes respecto a la atención médica son relevantes no solo para mejorar los servicios
sanitarios, sino también para garantizar una correcta adherencia al tratamiento. Esto adquiere aún más importancia cuando hablamos de
enfermedades crónicas no transmisibles en el contexto de una población cada vez más envejecida. Gracias a esta comprensión, se puede
mejorar la prestación de atención centrada en el paciente. Objetivo: Identificar las expectativas de las personas mayores con hipertensión
respecto a la atención médica en la Atención Primaria de Salud. Métodos: Se trata de un estudio cualitativo en el que se realizaron
entrevistas abiertas con mujeres mayores diagnosticadas con hipertensión. El análisis de los datos siguió el método propuesto por Bardin,
con delimitación de unidades categóricas que se organizaron en temas rectores, lo que permitió la selección de los temas más importantes
para su discusión. Resultados: Se entrevistaron 8 mujeres mayores, para quienes la salud ocupa un lugar central en la vida y suele estar
representada por la ausencia de problemas. El papel del médico en sus cuidados se destacó como esencial. Las principales expectativas
incluyeron una escucha atenta, la realización de un examen físico y una comunicación cuidadosa centrada en las necesidades del paciente.
Conclusiones: Uno de los principales retos de la medicina del siglo XXI es comprender al paciente de forma holística. Es esencial conocer sus
expectativas y permitir que el médico le conceda tiempo para hablar, escuchándole atentamente y realizando una exploración física.
Palavras-clave: Atención dirigida al paciente; Relaciones médico-paciente; Atención Primaria de Salud; Integralidad en salud.

INTRODUÇÃO
O olhar científico se volta às expectativas do paciente após a Segunda Guerra Mundial, quando
a medicina e as ciências sociais perceberam a necessidade de ultrapassar critérios biomédicos para
melhores atendimentos. Em parte, esse movimento pode ser explicado pelo aumento do consumo e pela
priorização dos direitos dos consumidores, com um novo entendimento do papel do paciente.1
Além desse obstáculo e dos avanços tecnológicos das últimas décadas, profissionais de saúde e
gestores enfrentam uma população cada vez mais idosa, com maior prevalência de doenças crônicas
não transmissíveis (DCNT),2-4 cujos tratamentos exigem longitudinalidade e adesão do paciente às
terapêuticas de longo prazo.2,5 Esse cenário complexo é visível em escala global: a Organização Mundial
da Saúde (OMS) estima que as DCNT foram responsáveis por 74% das mortes ocorridas no mundo em
2019,6 enquanto no Brasil, neste mesmo ano, foram responsáveis por 54,7% dos óbitos.7
Dentre as DCNT, destaca-se a hipertensão arterial sistêmica (HAS). Em 2023, por meio da
Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), o
Ministério da Saúde entrevistou mais de 21 mil residentes das capitais brasileiras e do Distrito Federal.
Estimou que 65,1% da população com 65 anos ou mais dessas localidades possuía diagnóstico de HAS.
Independentemente da faixa etária, a maior prevalência da doença se encontra entre aqueles com 0–8
anos de escolaridade, com 45,3% das pessoas já diagnosticadas, comparado a apenas 19% das pessoas
com 12 anos ou mais de estudo formal.7

2 Rev Bras Med Fam Comunidade. Rio de Janeiro, 2024 Jan-Dez; 19(46):4226
Ferreira ABD, Teixeira LC, Fidalski SZK

O tratamento da HAS requer acompanhamento profissional recorrente, com equipe multidisciplinar


e consultas médicas minimamente anuais, para monitoramento do tratamento e das lesões de órgãos-
alvo.8 Por se tratar de uma doença muitas vezes silenciosa, o paciente deve compreender os objetivos e
a importância do tratamento indicado. Para esse fim, pode-se lançar mão do Método Clínico Centrado na
Pessoa (MCCP), que permite ao médico compreender a perspectiva de saúde-doença do paciente, com
maior adesão terapêutica e satisfação com o tratamento.9
Seguindo preceitos de autonomia e voz compartilhada, como propõe o MCCP,10 a Política Nacional
de Saúde da Pessoa Idosa5 reconhece a necessidade de um olhar que se estenda além das doenças:
institui, portanto, o Índice de Vulnerabilidade Clínico Funcional (IVCF-20)11 como marcador de saúde
para os idosos. Esse instrumento possibilita a verificação do risco de vulnerabilidade clínico-funcional e o
declínio funcional da pessoa idosa.
Um dos determinantes mais relevantes da qualidade e vinculação do paciente aos serviços de
saúde é a relação médico-paciente.10,12,13 No entanto, a hiperespecialização médica e seus avanços
tecnológicos geram conflitos e insatisfações para os usuários desses serviços.14,15 De fato, os
grandes avanços tecnológicos nos séculos XX e XXI subjugaram investimentos em práticas como a
comunicação, a observação e o trabalho em equipe.13,16 Notadamente, Michael Balint, nos anos 1950, já
havia se debruçado sobre essa que, segundo ele, “é a substância mais frequentemente prescrita pelos
profissionais da medicina”: o próprio médico. Segundo o psicanalista, a fala do médico, sua maneira de
abordar o paciente e a relação interpessoal estabelecida em si só podem, muitas vezes, sanar parcial ou
integralmente a demanda da consulta.17
Construindo sobre a base sedimentada por Balint, estudos mostram que, como qualquer relação
humana, a relação médico-paciente é intersubjetiva e não pode ser generalizada.18,19 No entanto, existem
recorrências. Como regra, as expectativas de cada uma das partes são díspares: enquanto o médico trabalha,
na maioria das vezes, analiticamente em prol de uma evolução mensurável, o paciente possui uma relação
de subjetividade com seu corpo.10,13,20-22 Tal dicotomia confere inúmeros desafios ao estudo dessas relações.
A maioria dos estudos voltados às expectativas dos pacientes foram conduzidos em ambiente
hospitalar23,24 de maneira quantitativa25 ou direcionadas a uma condição de saúde específica.26-29 É
de suma importância, porém, explorar e compreender as expectativas do usuário do sistema de saúde
na Atenção Primária à Saúde (APS) em relação ao atendimento médico para o provimento de cuidado
centrado no paciente, com objetivos voltados a suas reais necessidades e anseios.10,23 Em meio ao
envelhecimento da população e ao aumento da prevalência das DCNT, esse desbravamento é ainda
mais urgente. Trata-se, em última instância, de auxiliar na composição da tal “farmacopeia” do médico
enquanto medicamento, há muito requerida por Balint.17 Assim, o objetivo deste estudo é identificar as
expectativas de idosos com hipertensão a respeito do atendimento médico na Atenção Primária à Saúde.

MÉTODO
Por almejar investigar relações humanas complexas, este é um estudo qualitativo documental, cujos
objetos foram as transcrições de entrevistas realizadas individualmente,30 com perguntas norteadoras dirigidas
a idosas em uso de anti-hipertensivos, entre os meses de novembro e dezembro de 2023. As idosas foram
convidadas a participar do estudo durante um encontro de seu grupo de terceira idade, na cidade de Curitiba.
A pesquisadora principal realizou uma conversa inicial com 134 pessoas para identificar idosos em
uso de anti-hipertensivos. A estes, explicou o objetivo do trabalho e ofereceu a aplicação do IVCF-209 para
que soubessem mais a respeito de sua saúde. O IVCF-20 é um instrumento composto por 20 perguntas

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Ouvir, tocar, falar: expectativas do paciente em relação ao médico da Atenção Primária

objetivas relacionadas à saúde da pessoa idosa, com respostas de sim/não que geram um escore. Os
pacientes podem ser classificados como baixo (0–6 pontos), moderado (7–14 pontos) e alto risco (15
pontos ou mais) para a fragilidade.
Após essa introdução, os critérios de inclusão para o estudo específico foram pessoas de 60
anos ou mais, de ambos os sexos, sem critério de fragilidade (IVCF-20 menor do que 15), em uso de
anti-hipertensivos. Os critérios de exclusão foram pacientes que já tivessem sido consultados pelos
pesquisadores, para minimizar o viés de resposta e da interação entre entrevistador e participante;
pessoas que respondessem positivamente às questões 7, 8 e/ou 9 do IVCF-20, que auxiliam a identificar
alterações cognitivas em idosos, como esquecimento e confusão; e participantes que não quisessem
participar ou não permitissem a gravação e/ou uso do áudio da entrevista.
As entrevistas, conduzidas pela pesquisadora principal, residente em Medicina de Família e
Comunidade à época do estudo, ocorreram individualmente e nas dependências da igreja onde o grupo
de idosas se reúne ou por telefone, após aceite do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. As
entrevistas foram gravadas e então transcritas. As transcrições foram disponibilizadas para as respectivas
participantes para revisão e nenhum documento foi alterado. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de
Ética em Pesquisa das Faculdades Pequeno Príncipe (CAAE: 71465123.2.0097).
As perguntas norteadoras (Quadro 1), dirigidas verbalmente às participantes, objetivaram um diálogo
para aprofundamento do tema pelos entrevistados, com trocas de subjetividade entre entrevistador e
entrevistado para investigação minuciosa.30 Foram conduzidas entrevistas até a saturação dos dados.
Quadro 1. Perguntas norteadoras da entrevista.

Para você, o que é saúde?


Na sua opinião, qual é o papel do médico na sua saúde?
Quais são as características que não podem faltar em um bom atendimento médico?
Qual é o seu papel como paciente na consulta médica?

Fonte: os autores.

A análise de dados seguiu o método proposto por Bardin.31 Realizou-se a pré-análise com leitura
flutuante das transcrições completas das entrevistas. O corpus foi constituído de todas as entrevistas
coletadas, seguindo a regra da não-seletividade, com exclusão unicamente de excertos que citassem
nomes ou características que pudessem identificar indivíduos (ex.: o médico que trabalhava em uma
UBS específica em determinado momento). Durante as leituras, a autora principal criou recortes para
preparação de unidades categóricas que, em um segundo momento, foram organizadas em tabelas
contendo temas-eixo norteadores e suas unidades semânticas representativas, com contagem de citações
por número de participantes e na mesma entrevista. Assim, elencaram-se os temas mais relevantes
para exploração no estudo. A redação deste artigo seguiu os consolidated criteria for reporting qualitative
research (COREQ).32

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram entrevistadas 8 mulheres entre 63 e 86 anos, com média de 73,5 anos, sendo metade delas
usuárias exclusivamente do SUS (Tabela 1). Todas as participantes fazem uso de ao menos um anti-
hipertensivo diariamente e passam por consultas médicas uma vez ao ano ou mais.

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Tabela 1. Características das participantes do estudo.


Participante Idade Serviço de saúde IVCF-20 Medicações anti-hipertensivas
P1 79 Plano 7 Atenolol, indapamida, losartana
P2 71 Plano 5 Hidroclorotiazida, losartana
P3 67 SUS 8 Enalapril, hidroclorotiazida
P4 73 Plano 4 Losartana
Anlodipino, atenolol, furosemida,
P5 80 SUS 9
hidroclorotiazida, losartana
P6 86 SUS 4 Captopril, losartana
P7 69 Plano 7 Bisoprolol
P8 63 SUS 7 Atenolol,hidroclorotiazida

Fonte: os autores.
IVCF-20: índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional-20.

Apesar da variabilidade de serviços de saúde utilizados, houve hegemonia entre usuárias do


SUS e dos planos de saúde tanto em citações quanto na recorrência dos temas-eixo e unidades de
contexto analisados.
Embora as entrevistas abertas usualmente sejam longas,30 as participantes deste estudo foram
reticentes, resultando em entrevistas de 10 a 15 minutos de duração.

Categoria 1: concepção de saúde


A Tabela 2 resume as informações obtidas a partir das entrevistas das participantes sobre suas
concepções individuais de saúde. Como pode ser observado, a maioria das participantes confere
centralidade à saúde em suas vidas:

“A saúde é tudo na vida. A saúde, eu acho que se você não tem saúde, você não tem nada. Se você
não tem saúde, você fica o dia inteiro indisposta, você toma remédio, você faz caminhada, você faz
o que for preciso, mas não fica bem.” (P3)
“[A saúde é] tudo. A saúde em primeiro lugar, né, tendo saúde a gente vai em frente”. (P6)

Apesar de observada a dificuldade em definir especificamente o termo, as participantes muitas


vezes identificaram a saúde como a ausência de dor. De fato, a literatura demonstra uma preponderante
correlação inversa entre ambos, uma perspectiva que condiz com o forte paralelismo cultural ocidental
entre a dor e o adoecimento.21

“Para mim, o importante é não sentir dor.” (P5)


“Estar saudável é você dormir bem, acordar bem, passar o dia bem. (...) Não tem dor para te
incomodar, você se alimenta bem, você descansa bem, você convive.” (P7)

A visão biomédica reducionista da saúde leva profissionais a, muitas vezes, elegerem algumas
queixas biológicas para serem abordadas na consulta,13,14,33 o que pode instigar a compreensão de saúde
como “ausência de problemas”. Não obstante, apesar da palavra “dor” enquanto unidade semântica ter
sido pouco utilizada, as falas deixam implícita a reprodução desta acepção:

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Ouvir, tocar, falar: expectativas do paciente em relação ao médico da Atenção Primária

Tabela 2. Temas-eixo detalhados em suas unidades semânticas representativas para informações sobre definição de
saúde, detalhados em número de falas e número de menções por fala.
Número de menções
Tema-eixo Unidades semânticas Falas
P1 P2 P3* P4 P5* P6* P7 P8*
Fazer atividades sem problemas, conseguir
fazer as coisas sem problemas, sem saúde
você fica o dia inteiro indisposta, sei que
Ausência de
estou saudável quando não sinto nada, 5 2 0 1 0 0 1 2 2
problemas
saúde é passar o dia bem, porque quem
está doente ou tem algum tipo de incômodo
não tem saúde, estar sem problemas
É tudo na vida, se você não tem saúde você
não tem nada, é tudo, muito importante,
Primordialidade saúde e paz do resto a gente corre atrás 4 0 0 2 1 2 0 1 0
saúde em primeiro lugar, é muito importante,
saúde é fundamental
Fazer as coisas, conseguir fazer as coisas, ter
uma vida materialmente ativa, tem ânimo para
Movimento enfrentar os percalços da vida, tendo saúde a 4 2 0 0 1 0 1 1 0
gente vai em frente, se você não tiver saúde
você não tem vontade de fazer nada

Alimentar bem, sei que estou saudável


Alimentação 3 0 1 0 0 0 1 1 0
quando tenho apetite, você se alimenta bem

Ter uma convivência com outras pessoas,


Socialização sei que estou saudável quando saio, você 3 0 1 0 0 0 1 2 0
convive, estar com os outros
Quando eu não tenho dor, quando eu tenho
Ausência de
dor aí fica difícil, o importante é não sentir 2 0 0 0 0 3 0 1 0
dor
dor, não ter dor para te incomodar
Exercícios Fazer exercícios, sem saúde você faz
2 0 1 1 0 0 0 0 0
físicos caminhadas e não fica bem,
Sair passear, sei que estou saudável quando
Passear 2 0 1 0 0 0 1 0 0
saio com minhas amigas
Sono Dormir bem, você descansa bem 2 0 1 0 0 0 0 2 0
Alegria Sei que estou saudável quando sou alegre 1 0 0 0 0 0 1 0 0
Sem saúde você toma remédios e não fica
Medicação 1 0 0 1 0 0 0 0 0
bem,
Médico te orienta, médico dá conselhos, ir
Medicina 1 0 0 2 0 0 0 0 0
periodicamente ao médico

Fonte: os autores.
P1-8: participantes do estudo; *usuárias exclusivas do SUS.

[Saúde] é a gente estar bem no corpo, sem problema né.” (P8)


“Eu acho que saúde é a pessoa ter atividade sem problemas. Fazer as coisas, conseguir fazer as
coisas, sem problemas.” (P1)

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Ferreira ABD, Teixeira LC, Fidalski SZK

É interessante notar que, apesar da disseminação do chamado “healthism”, ou a “procura obsessiva


por um estado de saúde perfeita”, como define Caprara,13 as participantes deste estudo tendem a definir
saúde de maneira menos idealista, com foco em suas capacidades e não em suas limitações. Como
McCartney pontua: um estado estrutural, funcional e emocional que é compatível com uma vida efetiva
enquanto indivíduo e membro de uma sociedade.28

“Saúde para mim é você se alimentar bem, dormir bem e ter uma vida materialmente ativa, é, tanto
exercícios, como sair passear, ter uma convivência, espiritualmente, com outras pessoas, né?” (P2)

O conceito de saúde é tema de discussão recorrente. As inúmeras tentativas de defini-lo, inclusive


pela Organização Mundial da Saúde, geram longos debates.22,34,35 Por ser um tema de importância central
para os indivíduos, cabe a sua individualização, especialmente pelo médico. Diante dessas variações,
advoga-se por uma medicina de caráter complexo, que envolve a ética, a antropologia e a epistemologia,
e é baseada em comunicação bidirecional e compreensão da visão de mundo do paciente.22,33

Categoria 2: função do médico na saúde


Por séculos, o paradigma da medicina foi de que os pacientes não sabem o que precisam, e sim o
médico, considerado “detentor do saber”.1,13 Embora esse dogma esteja sendo questionado pela literatura
das últimas décadas, estudos indicam a persistência da centralidade do médico na saúde.36 Foi isso que
observamos nas falas das participantes desta pesquisa ao abordarem a função do médico no cuidado em
saúde, como ilustrado na Tabela 3:

“O papel do médico é ver tudo o que eu preciso, os exames que eu tenho que fazer, o que posso e o
que eu não posso tomar. (...) Eu acho que o médico é fundamental, porque sem orientação médica,
nós não somos nada, sabe?” (P3)

Em uma sociedade cada vez mais individualista, que leva à perda de raízes e conexões,
especialmente das relações íntimas familiares, as pessoas muitas vezes “não têm a quem recorrer em
busca de conselho, consolo, ou talvez simplesmente de uma oportunidade para desabafar”. Assim, o
médico torna-se uma válvula de escape para o “ato de queixar”, conforme colocado por Balint.17

“Se eu soubesse o que eu to sentindo eu não ia procurar o médico, né?” (P2)

O adoecimento é percebido pelo paciente como uma alteração em seu funcionamento social normal
e, frequentemente, cabe ao médico reconhecer, traduzir e validar essas mudanças subjetivas, conferindo-
lhes legitimidade.21 De fato, em diferentes discursos, observa-se que esse profissional assume o papel de
um detetive, capaz de interpretar e zelar pela saúde de seus pacientes:

“[O papel do médico] é descobrir os problemas que a gente tem de saúde, né.” (P1)
“Eu acho que o papel é de uma importância que não tem tamanho.” (P4)
“[O papel do médico é] fundamental, porque é ele que é capaz de orientar e tentar resolver as
questões que a gente tem de saúde.” (P7)

Rev Bras Med Fam Comunidade. Rio de Janeiro, 2024 Jan-Dez; 19(46):4226 7
Ouvir, tocar, falar: expectativas do paciente em relação ao médico da Atenção Primária

Tabela 3. Temas-eixo detalhados em suas unidades semânticas representativas para informações sobre a função do
médico, detalhados em número de falas e número de menções por fala.
Número de menções
Tema-eixo Unidades semânticas Falas
P1 P2 P3* P4 P5* P6* P7 P8*
descobrir os problemas que a gente
tem de saúde, alguns problemas que
os médicos estão tentando resolver,
me orientar sobre meus problemas,
ver tudo o que eu preciso, você chega
Resolução de
diante do médico porque não está 5 2 1 1 1 0 0 1 0
problemas
bem, tentar resolver as questões que
a gente tem de saúde, você chega
com expectativa de resolver o que
tá incomodando, resolver aquela
situação
o médico é fundamental porque sem
orientação médica não somos nada,
Centralidade no
importância que não tem tamanho, 4 0 0 1 1 2 0 1 0
cuidado
cuidar da saúde das pessoas, papel
fundamental
ver o que eu posso e o que eu não
posso tomar, receitando remédio,
Indicação de
sem o médico como eu ia ter as 4 1 0 1 0 0 2 0 2
medicamentos
medicações, eles receitam, me deu 2
meses de tratamento
me orientar sobre minha saúde, me
orientar sobre meus problemas, é ele
quem é capaz de orientar, depender
Orientação das orientações que o médico dá, 3 0 2 2 0 0 0 2 0
chama atenção da gente pra saber
que tem que cuidar do nosso corpo,
passar conhecimento
tenho feito vários exames, ver os
Exames exames que eu tenho que fazer, fiz uns 3 2 0 1 0 0 0 0 1
exames
que eles identifiquem o que a gente
tem, se eu soubesse o que eu to
Fazer diagnósticos 2 0 0 1 0 0 0 0 2
sentindo eu não ia procurar um
médico, ele vai diagnosticar certo

Médico como sai de lá renovada, sem o médico


1 0 0 0 2 0 0 0 0
tratamento como eu ia ter o tratamento

Fonte: os autores.
P1-8: participantes do estudo; *usuárias exclusivas do SUS.

Essa perspectiva centrada no médico pode ser parcialmente explicada pela tendência de alguns
participantes em entender o papel do serviço de saúde e desse profissional de maneira limitada:

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“Ah, eu acho que [o papel do médico é] cuidar da saúde das pessoas.” (P5)
“[O papel do médico é] receitando remédio para a minha saúde.” (P6)

A literatura demonstra, por exemplo, que os usuários brasileiros frequentemente não reconhecem a
importância da multidisciplinaridade no cuidado em saúde.37 Isso também pôde ser observado pela falta
de abordagem do tema e pela constante consideração do médico como a pedra angular da saúde nas
entrevistas realizadas.
O cuidado em rede facilita a ampliação do olhar para o contexto do paciente, o que é essencial
para promover sua adesão ao tratamento de doenças.14,38,39 Na figura do médico, essa habilidade é
essencial para que o processo terapêutico comece já na consulta. Por exemplo, a palavra do médico
e sua capacidade de lidar com eventos estressantes relacionados ao adoecimento têm o potencial de
tranquilizar e atenuar os sintomas dos pacientes.21
A relação médico-paciente é frequentemente vista como a “essência da efetividade dos cuidados
de saúde”.33 Sob essa perspectiva, a avaliação da qualidade da assistência torna-se desafiadora, pois
depende intrinsecamente da comunicação entre os dois sujeitos. É essencial que haja tempo suficiente
durante a consulta para uma troca terapêutica completa, permitindo que o médico compreenda não
apenas a queixa trazida pelo paciente, mas também seu contexto psicossocial.40

“Eu espero poder conversar, trocar, contar o que preciso, ver se ele pode me ajudar de alguma
forma e tal, eu chego mesmo com expectativa.” (P7)

Há uma correlação entre a compreensão e as expectativas do papel do médico e os limites impostos


pelo próprio sistema de saúde.13,23,33 El-Haddad e colaboradores identificaram como um dos domínios
priorizados pelos pacientes o próprio sistema, algo que não foi observado neste estudo. Acredita-se que
essa diferença se deve ao fato de as entrevistas terem sido realizadas fora de ambientes de saúde e de
maneira desconexa de serviços específicos.23
Muitas vezes, o profissional médico é responsabilizado pela incapacidade de reconhecer
o paciente como sujeito ativo no processo terapêutico, o que impede o desenvolvimento de sua
autonomia.13 Observa-se, porém, que a maioria das idosas entrevistadas mantém o ideal do
paternalismo médico:

“O que o médico pede é porque ele acha que tem que ser aquilo.” (P1)
“Eu sigo tudo o que ele orienta. (...) Você tem que sempre, sempre, depender do que o médico fala
pra você, as orientações que ele dá, tudo.” (P3)
“Sento na cadeira e fico escutando o que ele fala, daí ele vê minha pressão, vê meu coração, minha
pulsação, vê se tá tudo bem. Daí ‘a senhora faça o favor, sente’, ele me dá a receita e eu vou embora.” (P6)

É incerto se a reprodução desta relação hierarquizada, outrora (e por vezes ainda) mantida pelos
próprios profissionais, decorre da dificuldade de quebra de uma ordenação histórica na relação médico-
paciente.21 Há uma clara dicotomia: apesar de reconhecerem o papel do indivíduo no próprio cuidado em
saúde, especialmente com condições e hábitos de vida, os pacientes muitas vezes colocam o médico
como figura central na obtenção de saúde.36

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Ouvir, tocar, falar: expectativas do paciente em relação ao médico da Atenção Primária

Tabela 4. Temas-eixo detalhados em suas unidades semânticas representativas para informações sobre as características
desejáveis no médico, detalhados em número de falas e número de menções por fala.
Número de menções
Tema-eixo Unidades semânticas
Falas 1 2 3* 4 5* 6* 7 8*
dão atenção pra gente, sempre foi
muito atenciosa, te dar atenção, mais
atencioso, escutar o que o paciente
tem pra falar para ele, muito atencioso,
ele fica olhando para você e prestando
atenção no que você está falando,
o médico tem que ouvir tudo o que
o paciente tem pra falar, ver nele
interesse, ouvido disposto a escutar
Escuta atenta 7 2 2 4 5 3 0 3 3
com atenção, a atenção é o principal,
tem que parar o que está fazendo e
olhar nos olhos e se interessar, ele
tem que olhar, é importante que o
médico dê atenção pro paciente, a
gente tá falando e ele tá escutando e
não distraído com outras coisas, todo
mundo quando chega no consultório
quer uma atenção
a gente cria um amor e paixão pelo
médico, a gente vai pegando uma estima
na pessoa, a relação entre o médico e o
Amabilidade paciente tem que ser ótima, muito querido, 5 2 0 2 1 0 1 1 0
ver no médico até um colinho, simpatia e
gentileza, tem que ter sensibilidade de ver
como vai dizer as coisas,
conversar, perguntar o que você tá
sentindo, ele tem que perguntar, ele
Anamnese pergunta tudo o que você tem e quer 5 1 2 1 1 1 0 0 0
saber, o médico pergunta,
ele te faz perguntas
tiram a pressão da gente, examinar e
escutar o coração, ver onde você está
Exame físico com o problema, escutar o seu pulmão, 3 0 3 0 0 1 1 0 3
ver sua pressão, ele tem que medir a
pressão, pelo menos medir a pressão
o que o médico faz é o que ele acha que
tem que fazer, o que o médico pede é
porque ele acha que tem que ser aquilo,
como eles me tratam é o certo, a gente
aceita tudo o que ela faz e acha que é o
Paternalismo 3 4 0 2 0 0 2 0 0
certo, você tem que sempre depender do
que o médico fala pra você, eu sigo tudo o
que ele orienta, eu só sento na cadeira e
fico escutando o que ele fala, ele me dá a
receita e eu vou embora

continua...

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Ferreira ABD, Teixeira LC, Fidalski SZK

Tabela 4. Continuação.
ter educação, falar bom dia e obrigada
Respeito e pedir por favor, 3 0 1 0 0 0 2 1 0
se você não for bem tratada,
ter preparo e conhecimento, explicar
Conhecimento 2 0 0 0 0 0 0 2 1
pra gente o que a gente tem
Definir plano dando um prazo, fala o
2 1 0 1 0 0 0 0 0
terapêutico que você tá precisando,
às vezes até desabafam, tipo um amigo
Vulnerabilidade e da gente, praticamente da família, o
2 4 0 3 0 0 0 0 0
amizade médico tem que apresentar compreensão
e carinho, dá palavras de apoio
ele tem que ser calmo,
Calma 1 0 0 2 0 0 0 0 0
tem que ser muito calmo
Dedicação ver no médico dedicação, 1 0 0 0 1 0 0 0 0
daí não adianta porque o paciente não vai
entender nada, falar tudo o que ele pensa,
Explicações chama atenção para a gente saber que 1 0 0 2 0 0 0 1 0
tem que cuidar do nosso corpo, o médico
tem que saber passar o conhecimento
se ele disser a verdade é a melhor
Honestidade 1 0 0 0 0 0 0 1 0
coisa que tem
Medicar ele me dá a receita 1 0 0 0 0 0 1 0 0
Organização um médico muito organizado, 1 0 0 1 0 0 0 0 0
quando você sai confiando que o que
Passar confiança ele tá passando vai ser bom pra você, 1 0 0 0 0 0 0 1 0
adquirir a confiança do paciente
agora fiz uns exames,
Solicitar exames 1 2 0 0 0 0 0 0 0
sempre tem que fazer exame

Fonte: os autores.
P1-8 participantes do estudo; *usuárias exclusivas do SUS

Categoria 3: características importantes no médico


A medicina passou por uma mudança de paradigma ao perceber que as expectativas e desejos
dos pacientes não são apenas caprichos, mas necessidades.1,14,21 Eles têm, pelo menos no contexto
hospitalar, relações profundas com os profissionais e ideias bem estruturadas de como estes devem
agir.23 As falas das participantes deste estudo sobre as características que julgam importantes no médico
(Tabela 4) refletem esse fenômeno no ambiente ambulatorial:

“A atenção é o principal [no médico].” (P4)


“As características mais importantes do médico são a simpatia, a educação e a gentileza.” (P6)
“[O médico] tem que ter preparo, conhecimento e também (...) atenção, ouvir.” (P7)

Nota-se, a partir desses excertos, que as características mais valorizadas no profissional médico
estão essencialmente ligadas ao seu comportamento. As menções sobre técnica e conhecimento teórico
foram superficiais. Um atendimento eficaz vai além da capacidade do profissional de realizar a anamnese,
dependendo da construção de relações, negociação e sinergia com o paciente.33,39-43

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Ouvir, tocar, falar: expectativas do paciente em relação ao médico da Atenção Primária

“Tem que parar o que está fazendo. Olha nos olhos e escuta, sabe? Pergunta, se interessa, é
isso que a gente quer. (...) Interesse, atenção, compreensão, carinho, né. Até com palavras que
apoiam.” (P4)

Observa-se que as expectativas em relação ao médico possuem uma natureza heterogênea e


complexa, relacionando-se à percepção do paciente sobre sua vulnerabilidade à doença, suas experiências
anteriores e sua compreensão individual do processo saúde-doença.25,44 Estudos conduzidos no Brasil e
na América Latina demonstram que o paciente anseia por poder explicar seu estado de saúde no início
da consulta.40,42 Esse também foi um tema preponderante nas falas das participantes:

“O médico tem que ouvir tudo o que o paciente tem pra falar pra ele para ele poder orientar o
paciente.” (P3)
“Eu acho que isso é importante, que o médico dê atenção para o paciente.” (P5)

A literatura destaca a capacidade de ouvir com atenção como o aspecto mais valorizado no
médico.1,33,45 Embora seja uma característica subjetiva do comportamento, os pacientes frequentemente
se sentem frustrados por não identificá-la nas consultas.33,46 Segundo González Fiallo,40 espera-se que o
médico seja, acima de tudo, ‘uma fonte inesgotável de carinho, atenção e amabilidade’, o que condiz com
a ‘função apostólica do médico’ descrita por Balint.17

“Geralmente você chega diante de um médico porque você não tá bem, então quando você vê nele
interesse, dedicação, até um colinho, você sai de lá renovada.” (P4)
“Se você não for bem tratada, você não vai nem ter a confiança no conhecimento do médico.” (P7)

A compreensão da pessoa como um todo é essencial para que o paciente se sinta devidamente
acolhido. 10,39 Para isso, o manejo, especialmente de pacientes idosos e complexos, envolve o
reconhecimento do ambiente e estilo de vida em que vivem. 2,5 Dado que a conjuntura do paciente
influencia de maneira crucial sua compreensão sobre a saúde, 18,36 a contextualização de suas
experiências deve ser estimulada e explorada na consulta médica, conforme explicitado pelo
MCCP. 9,10
Muitas vezes, associado à escuta, as participantes destacaram a importância crucial do exame
físico durante a consulta médica:

“Ele tem que perguntar por que você foi na unidade de saúde né. Mas daí ele que venha examinar,
escutar teu coração, teu pulmão, ver tua pressão”. (P2)
“Atenção, né, que examine também, porque às vezes tem médicos que nem examinam, só olham
pra gente.” (P8)

Uma das principais expectativas do atendimento médico é a realização do exame físico,


especificamente representado pela medida da pressão arterial e de temperatura.40 No entanto, devido a
considerações de tempo ou até mesmo por considerarem essa parte do contato como supérflua, muitos
médicos têm deixado de tocar no paciente, um distanciamento que se intensificou com o avanço da
telemedicina, especialmente após a pandemia do coronavírus.47

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O exame físico não apenas tem o potencial de tranquilizar o paciente e suas famílias, mas também
pode complementar a história trazida por eles e servir como um mediador quando há diferentes visões
entre médico e paciente.47,48 É, em última análise, uma parte essencial do ritual médico, valorizada tanto
pelo paciente quanto pelo profissional.16,47
Além das características físicas, as expectativas dos pacientes também se estendem à comunicação
do médico, que deve ser explicativa e, ao mesmo tempo, transmitir confiança.

“Se ele disser a verdade é a melhor coisa que tem, mas ele tem que ter a sensibilidade de ver como
dizer as coisas.” (P7)

Notadamente, o discurso médico mantém-se, desde tempos remotos, como instrumento de


transformação social21,49 e é uma parte integrante das expectativas dos pacientes.45 Trata-se de uma
ferramenta que orienta todo o processo terapêutico e, portanto, deve receber um olhar cuidadoso por
parte dos profissionais.17,40,50
Este estudo apresenta algumas limitações, como a baixa adesão dos participantes para a
entrevista, o tempo curto de fala das entrevistadas e o fato de as entrevistas terem sido conduzidas por
uma profissional médica. Para estudos futuros, sugere-se a realização de grupos focais conduzidos por
profissionais não médicos.30

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Um dos principais desafios da medicina do século XXI é estabelecer uma abordagem que vá além das
características biológicas e considere igualmente as dimensões física, psicológica e social do ser humano.
Apesar de os profissionais de saúde nem sempre serem informados sobre as expectativas e desejos dos
usuários do sistema, o simples encontro entre médico e paciente tem o potencial de ser terapêutico por si só.
Observa-se que, mesmo com os esforços para promover uma relação mais horizontal entre médico e
paciente, a centralidade do médico na saúde às vezes limita o papel do paciente. É fundamental lembrar que
muitos pacientes ainda mantêm comportamentos históricos e precisam ser encorajados à autonomia. Nesse
sentido, tanto o sistema de saúde quanto o médico têm uma grande responsabilidade.
Dessa forma, o MCCP assume um valor inestimável ao promover a horizontalização da relação médico-
paciente, conceder voz ao paciente, reconhecer suas perspectivas subjetivas sobre o adoecimento e adotar
uma abordagem sistêmica para atender às suas necessidades.10 Em última análise, a medicina é vista pelo
próprio paciente como uma arte da comunicação, onde o diálogo e a compreensão mútua desempenham
papéis fundamentais.

CONFLITO DE INTERESSES
Nada a declarar.

CONTRIBUIÇÕES DOS AUTORES


ABDF: Conceituação, Investigação, Metodologia, Escrita – Primeira Redação, Escrita – Revisão e
Edição. LCT: Metodologia, Escrita – Revisão e Edição. SZKF: Metodologia, Escrita – Revisão e Edição.

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Ouvir, tocar, falar: expectativas do paciente em relação ao médico da Atenção Primária

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