EDUCAÇÃO PATRIMONIAL
AULA 2
Prof.ª Tatiana Dantas Marchette
CONVERSA INICIAL
Considera-se como marco fundador da história da preservação do
patrimônio cultural brasileiro o “Anteprojeto para a criação do Serviço Histórico e
Artístico Nacional”, elaborado pelo escritor modernista Mário de Andrade, em
1936, a convite do Ministro da Educação e Saúde Gustavo Capanema.
Naquele momento histórico, destacou-se do texto desse autor a noção de
cultura popular, o que para ele passava, também, pela educação em relação ao
patrimônio.
Nesta aula, vamos explorar essa experiência inicial de EP sob a
perspectiva dos fazedores de política cultural e que se responsabilizaram em
construir o trato com o patrimônio histórico no Brasil, incluindo sua dimensão
educacional. O objetivo é o de compreender as transformações da noção de
patrimônio desde a década de 1930, com a instituição da política patrimonial
oficial, e o lugar da educação patrimonial nesse processo.
TEMA 1 – ANTEPROJETO DO SERVIÇO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL
(1936)
No “Anteprojeto do serviço histórico e artístico nacional”, Mário de
Andrade classificou o patrimônio nacional em oito categorias: arte arqueológica;
arte ameríndia; arte popular; arte histórica; arte erudita nacional; arte erudita
estrangeira; artes aplicadas nacionais; artes aplicadas estrangeiras. No entanto,
no Decreto n. 25, de 30 de novembro de 1937, que instituiu o Serviço do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan, atual Iphan), as artes
ameríndias e populares ficaram à margem. Por que ocorreu essa diferença entre
a proposta e a definida pela legislação?
1.1 Departamento de cultura
É que a Revolução de 1930 forçou o estado de São Paulo, e
consequentemente seu centro político e econômico, a cidade de São Paulo, em
posição defensiva e não protagonista, mediante a ascensão de um líder nacional
não paulista, com a tomada do poder central pelo gaúcho Getúlio Vargas.
Chamada de “política do café com leite”, a aliança entre os estados de São Paulo
e Minas Gerais caracterizou o período da Primeira República brasileira (1899-
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1930), garantindo que a presidência do país fosse exercida ou por um paulista
ou por um mineiro pertencentes ou ligados às respectivas oligarquias regionais,
no caso paulista, aos cafeicultores.
A revolta civil e militar de 1930 colocou no governo provisório o candidato
da Aliança Liberal derrotado nas eleições presidenciais ocorridas no dia primeiro
de março daquele ano. Vargas passou a representar um governo mais radical e
em sua agenda de governo estava “[...] a anistia aos tenentes, remodelamento
do Exército, criação dos ministérios do Trabalho, Indústria e Comércio, e da
Educação e Saúde Pública, reforma do ensino e da educação pública.”
(Schwarcz; Starling, 2015, p. 362).
Ao longo da primeira década de 1930, o poder estadual paulista estruturou
diversos órgãos públicos a fim de reforçar sua identidade regional, por meio da
modernização da cultura, da educação e da urbanização. Entre tais órgãos
encontrava-se o Departamento de Cultura, criado no ano de 1935 com o objetivo
de elaborar pesquisas para conhecer a realidade urbana da capital paulista e,
assim, torná-la racional e moderna conforme o que ela continha em termos de
história, cultura e artes. Para tanto, o poeta Mário de Andrade foi convidado a
dirigir aquele departamento, apostando-se que, por meio dessa experiência era
possível transformar o Brasil como um todo por intermédio da cultura, elevando,
mais uma vez, o “espírito” paulista identificado à nação.
No entanto, essas iniciativas localizadas acabaram reforçando o que será
traço marcante do período getulista, qual seja, o papel dos intelectuais na
montagem e no funcionamento do Estado. Assim, em nível federal, isso também
se dará pautando a organização nacional pela cultura por meio do protagonismo
da ação estatal. Um dos temas fundamentais desse contexto histórico foi,
justamente, o patrimônio, visto sua potencialidade em fazer aparecer o
“elemento nacional”.
Com o advento do Estado Novo, ocorreu a institucionalização das
concepções de Mário de Andrade em relação ao patrimônio histórico e artístico
nacional, não sem conflitos. Apesar das diferenças entre o texto do
“Anteprojeto...”, o qual entregou ao Ministério da Educação e Saúde Públicas, e
o Decreto n. 25/1937, já no Estado Novo, o “[...] legado de Mário de Andrade
está [na] construção de possíveis futuros. Naquele momento, porém, o governo
federal e sua doutrina [...] venceram e pelo Decreto-Lei n. 25, de 30 de novembro
de 1937 [...] foi organizada a proteção do patrimônio histórico e artístico nacional
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[...] tratando somente de bens móveis e imóveis [...]” (Marchette, 2015, p. 32),
ficando latente a “arte popular”, a qual somente com a Constituição de 1988 seria
alvo efetivo da política de proteção e preservação, com a criação de instrumentos
de valorização e reconhecimento do patrimônio imaterial ou intangível.
TEMA 2 – PAPEL DOS INVENTARIOS E REGISTROS
A “[...] tarefa de inventariar e registrar os elementos constituidores da
cultura brasileira” (Nogueira, 2007, p. 259) faz parte dos objetivos primordiais do
poeta Mário de Andrade. O desejo de consolidar uma cultura de expressão
nacional pode ser localizado nas experiências intelectuais do poeta desde antes
da escrita do “Anteprojeto...”; na verdade, na sua vivência no Modernismo ao
longo dos anos de 1920.
A importância desse poeta foi acentuada com a publicação, em 1928,
da sua principal obra literária, Macunaíma, o herói sem nenhum
caráter, no qual Mário de Andrade utilizou fartamente a linguagem
popular brasileira. Nessa narrativa, imprimiu um perfil nacional colado
aos hábitos indígenas e caipiras; o escritor expôs o que se pode
denominar, hoje, de “cultura imaterial”, descrevendo costumes, formas
de expressão e espaços sociais, que marcaram a identidade brasileira
e criaram uma representação do “nativo” a ser valorizada nas
produções artísticas nacionais. (Marchette, 2015, p. 29)
2.1 Viagens pelo Brasil profundo de um turista aprendiz
Não somente como escritor modernista, mas também como “explorador”
do Brasil profundo, em suas viagens pelo estado de Minas Gerais estabeleceu
contato com o passado colonial do Brasil, em seus aspectos arquitetônicos, e na
região amazônica e nordestina com a cultura dos habitantes primitivos e da
cultura popular. Um dos resultados dessas explorações de Mário de Andrade é
a publicação do diário de viagem Turista Aprendiz. Nele, o autor referencia os
saberes e os fazeres dessa cultura brasileira em sua diversidade, configurando
“[...] uma metodologia de registro do patrimônio cultural expresso, tanto em sua
forma material como imaterial. Pode-se até mesmo sugerir que aí se encontra
um repertório do que hoje se convencionou a chamar de patrimônio imaterial.”
(Nogueira, 2007, p. 261).
A noção de cultura popular se associa, desse modo, ao pensamento e à
ação de Mário de Andrade, ao reconhecimento e à preservação do patrimônio
cultural nacional, uma vez que o registro dos bens culturais que promovem
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representatividade aos seus portadores se realiza por meio desses repertórios,
hoje tecnicamente chamados de inventários.
Portanto, mesmo que o “Anteprojeto...” de Andrade para o Serviço
Histórico e Artístico Nacional não tenha sido contemplado no texto da lei
(Decreto-Lei n. 25/1937) – uma vez que priorizou os bens edificados no período
histórico do Brasil Colônia, deixando uma lacuna quanto à cultura dos imigrantes,
“ameríndia” e popular – a experiência mais ampla de Mário de Andrade em sua
trajetória de promotor da cultura popular está inscrita em nossa história de
preservação e proteção do patrimônio material e imaterial. Todo o acervo que
ele permitiu reunir, nesse sentido, em decorrência das atividades do
Departamento de Cultura na continuidade do registro dos saberes e fazeres
presentes no Norte e Nordeste é exemplo da “construção de um lugar de
memória” da cultura nacional.
Outro traço da sobrevivência das ideias de Mário de Andrade está
presente na Constituição de 1988, a qual apresenta, justamente, um conceito
ampliado de patrimônio cultural, “[...] abrigando categorias que até aquele
momento haviam ficado apenas na memória; eram resquícios do legado de
Mário de Andrade, que redigiu, em 1936, o anteprojeto para a política
preservacionista do patrimônio histórico e artístico nacional.” (Marchette, 2015,
p. 104).
2.2 Inventário
Hoje, o inventário é um instrumento legal da preservação do nosso
patrimônio cultural, bem como é imprescindível para o próprio entendimento do
que seja patrimônio. A metodologia desenvolvida pelo Iphan para a aplicação do
inventário data do final dos anos de 1990, e tem em sua base as referências
culturais estabelecidas por meio dos valores a elas atribuídos pelos grupos
sociais em suas diferentes escalas: “[...] podem corresponder a uma vila, a um
bairro, a uma zona ou mancha urbana, a uma região geográfica culturalmente
diferenciada ou a um conjunto de segmentos territoriais.” (Iphan, 2016).
Articulado ao legado particular de alguém, ou de uma família, mas
também ao de uma empresa, o inventário tem o objeto prático de “[...] relacionar,
contabilizar, descrever, enumerar minuciosamente, proceder a levantamentos
individuados e completos, achar, descobrir, sendo modos pelos quais se torna
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possível valorar os itens que compõem um determinado patrimônio.” (Motta;
Resende, 2016).
Na área do patrimônio cultural, inventariar entende-se por detalhar os
bens culturais, de natureza material e imaterial, que portam referências sobre
determinado grupo social, que contam parte das suas respectivas narrativas
históricas. Essas escolhas sempre apresentam juízos de valor e, portanto, a
preservação patrimonial é um ato político. Os resultados do reconhecimento e
da valorização de certos bens culturais são: o tombamento (bem material); ou
registro (bem imaterial), decorrendo daí sua proteção e preservação.
Importante observar que, no dinâmica do inventário, há uma relação
obrigatória entre a noção de patrimônio histórico como referência cultural de
grupos sociais e o protagonismo desses grupos na condição de produtores e
usuários dos bens culturais. Essa concepção faz parte de um processo histórico
nas políticas públicas de preservação no Brasil, o qual passa, em um dos seus
momentos de inflexão, à fusão do Iphan, em 1979, com o Centro Nacional de
Referência Cultural (CNRC).
TEMA 3 – CENTRO NACIONAL DE REFERÊNCIA CULTURAL
Entre as viagens exploratórias de Mário de Andrade, a criação do Sphan,
em 1937, e a implementação do inventário como instrumento legal na
preservação patrimonial na atualidade, houve algumas iniciativas, a partir dos
anos 1960, no sentido de novas concepções de patrimônio, e que resultaram no
entendimento contemporâneo. É o que veremos a seguir.
3.1 Economia e patrimônio
“Até o final da década dos anos setenta, tais repartições públicas,
municipais, estaduais ou federais, tratavam de preservar, principalmente, bens
arquitetônicos, quase todos de exceção.” (Lemos, 1985, p. 64).
Por exceção, entende-se aqueles bens culturais, notadamente edificados,
em risco de desaparecimento e dotados de características únicas, excepcionais
pelos aspectos artísticos da sua arquitetura. Essa era a preocupação central das
políticas públicas de preservação do patrimônio cultural ao longo do século XX,
no Brasil, o famoso patrimônio de “pedra e cal”, significando a escolha recair
sobre o tombamento dos bens imóveis em detrimento dos de outras naturezas,
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como a imaterial. Entretanto, desde a segunda metade do século passado houve
uma crescente vertente dedicada à transformação dessa prática engessada de
preservação patrimonial, sendo uma delas levada adiante pelo Centro Nacional
de Referência Cultural.
O CNR surgiu em plena ditadura civil-militar (1964-1985), no ano de 1975,
e, para muitos estudiosos da área, como a socióloga Maria Cecília Londres
Fonseca, representou a passagem da fase heroica para a moderna, no que
tange ao trato da preservação dos bens culturais, sendo a primeira fase
representada pelo período entre 1937 até o final da década de 1960. Tal órgão
tinha sede em Brasília e funcionou nas dependências da Universidade de
Brasília sob a coordenação do designer pernambucano Aloísio Magalhães. O
contexto autoritário do Brasil na época estava sendo abalado, cada vez mais,
pelo mau desempenho da economia e aumento das desigualdades sociais
mediante a alta crescente da inflação e também dos índices do desemprego. O
governo buscou soluções, sempre sob o signo do controle dos movimentos
sociais e da imprensa, e descobriu como vetor interessante para fazer
movimentar a economia nacional o turismo por meio do uso das riquezas
culturais do Brasil.
Com o objetivo principal de criar produtos genuinamente nacionais
advindos da produção cultural brasileira, o CNRC buscou a
dinamização das economias regionais assentadas sobre fazeres e
saberes tradicionais. [...] Esses saberes e fazeres escondiam-se da
grande cadeia da economia nacional de exportação e, por outro lado,
representavam um patrimônio cultural vivo, com grande potencial
econômico. (Marchette, 2015, p. 55-56)
De vida curta, o Centro Nacional de Referência Cultural teve decidida sua
fusão com o Iphan, dando origem à Fundação Nacional Pró-Memória, em 1979.
Os objetivos do CNRC, no entanto, foram incorporados à nova entidade,
“[...] com vistas à valorização do artesanato e à preservação das chamadas
tecnologias patrimoniais ou endógenas, além de promover levantamentos de
processos de transformação sociocultural com o fim de estudar modelos
alternativos de desenvolvimento [...]” (Iphan, 2020)
A cultura popular voltava, assim, ao cenário da política patrimonial,
estabelecendo conceitualmente patrimônio como referência cultural dos grupos
sociais produtores de bens na interação com seus respectivos contextos sociais,
históricos e ambientais, pois muitos dos saberes populares utilizam matéria-
prima do local da sua vivência cotidiana.
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No passado heroico dos tempos de Mário de Andrade, muitas vezes ele
usou o termo “folclore” para abarcar esses saberes e fazeres populares, e que
hoje são identificados com o conceito moderno de cultura, conforme resumido
no processo a seguir transcrito:
Do início da criação do Iphan, nos anos 1930, até os dias atuais o
campo do patrimônio se expandiu e novas vozes, de resistência
inclusive, passaram a reivindicar a legitimação de suas referências
culturais como importantes para a memória e identidade da nação.
Ancorado, sobretudo, no conceito antropológico de cultura, que
compreende todo o complexo de conhecimentos, crenças, arte, moral,
leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo
homem como membro de uma sociedade, a concepção de patrimônio
cultural, pelo Estado brasileiro, passou a considerar o conjunto de
saberes, fazeres, expressões, práticas e produtos dos diferentes
grupos e segmentos sociais formadores da sociedade brasileira.
(Tolentino, 2019, p. 138)
TEMA 4 – FOLCLORE E CULTURA POPULAR
Uma vez que esse processo de transformação das noções de cultura e de
patrimônio faz parte da história da política pública brasileira, as mudanças
trouxeram efeitos significativos para a educação patrimonial. E isso porque por
longo tempo as referências culturais dos grupos sociais não hegemônicos não
eram representados na preservação patrimonial e, ainda, a seleção dos bens
estava concentrada nas mãos do Estado. Portanto, a compreensão de
patrimônio como referências culturais pertencentes a diversos produtores
atualiza o que era entendido como folclore, na fase heroica do Sphan/Iphan, e
coloca na ação novos olhares e inéditos objetos e lugares de memória.
4.1 Sociedade de etnografia e folclore
Uma das ações que Mário de Andrade realizou no Departamento de
Cultura de São Paulo foi a criação do Curso de Etnologia. Ministrado pela
antropóloga francesa Dina Lévi-Strauss, teve a missão principal de oferecer
treinamento técnico para leigos para que fossem capazes de fazer trabalho de
campo. O grupo formado daria suporte e sustentabilidade para o funcionamento
da Sociedade de Etnografia e Folclore, do mesmo modo criada no Departamento
de Cultura. Em uma das aulas, a professora Dina conceituou o termo folclore da
seguinte maneira:
[...] o folclore se caracteriza: por pertencer mais ao domínio espiritual,
levando em conta o fator psicológico, enquanto a etnografia se limita
quase exclusivamente aos elementos materiais; por se ocupar
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principalmente das manifestações culturais dos povos chamados
civilizados, enquanto a etnografia se consagra especialmente aos
povos primitivos. Geralmente o etnógrafo especializado não se ocupa
do folclore. Neste curso, entretanto [...] o folclore será um dos pontos
do programa. (Valentini, 2010, citada por Santos, 2018, p. 24-25)
Para Mário de Andrade, a ideia de folclore a ser aplicada em uma
sociedade como a brasileira, com passado colonial e apenas um século na
condição de país independente, seria construída por meio de pesquisas
científicas da cultura popular de identidade nacional, com o uso de registros das
manifestações artísticas por intermédio de filmes, fotografias, anotações,
desenhos etc. O urgente, para o poeta, era o registro, o contato com essa arte
enraizada na diversidade brasileira. Havia, ainda, a proposta herdada do
Movimento Modernista, a da antropofagia, pela qual o folclore seria utilizado
como suporte para a arte erudita. Entretanto, o registro promovido pelo Curso de
Etnografia e armazenado e processado pela Sociedade de Etnografia e Folclore
seria divulgado de forma pedagógica para a sociedade em geral; também, essas
ações possuíam um perfil de proteção, pois o registro garantiria o conhecimento
e a valorização desses bens culturais populares.
Desse modo, essa política de cultura promovida e levada adiante via
Departamento de Cultura se mescla com as ideias apresentadas no
“Anteprojeto...”, tendo o ano de 1936 como marco cronológico dessa tendência
em relação ao trato com o patrimônio cultural.
4.2 Patrimônio e nacionalidade
Com surgimento do Sphan (atual Iphan), em 1937, e as linhas gerais do
Decreto-Lei n. 25/1937, de certa maneira simplificando a proposta original de
Mário de Andrade, o que se destacou naquele contexto histórico de viés
autoritário – Estado Novo – foi a ideia do tombamento de bens imóveis,
patrimonializando construções do passado nacional ainda repleto da herança
colonial. Havia, ainda, para reforçar essa tendência da ação de tombamento
sobre outras formas de acautelamento, o cenário internacional atingido por duas
guerras mundiais, quando deu-se ênfase ao patrimônio como forma de
construção da identidade de nação, inclusive com as medidas de restauro dos
bens danificados no conflito bélico.
As manifestações populares artísticas não ficaram totalmente ausentes
da política de preservação no Brasil naquele período heroico do Iphan (1937 e
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final dos anos de 1960). Muitas delas porque estavam acopladas no cenário
histórico dos imóveis tombados. Um desses exemplos são as obras do artista
popular Aleijadinho, nas cidades históricas de Minas Gerais, como Ouro Preto,
um dos primeiros conjuntos urbanos tombados. Nos processos de tombamento,
restauro e estudos da história da arquitetura, os dirigentes do órgão federal do
patrimônio promoveram inventários dessas manifestações da arte popular em
contato com os conjuntos urbanos. Isso foi legitimado pelo Decreto-Lei n. 25, o
qual estabeleceu quatro livros do tombo:
arqueológico, etnográfico e paisagístico;
histórico;
Belas Artes;
artes aplicadas.
Hoje,
Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material
e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de
referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos
formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I – as formas
de expressão; II – os modos de criar, fazer e viver; III – as criações
científicas, artísticas e tecnológicas; IV – as obras, objetos,
documentos, edificações e demais espaços destinados às
manifestações artístico-culturais; V – os conjuntos urbanos e sítios de
valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico,
ecológico e científico. (Brasil, 1988)
TEMA 5 – EDUCAÇÃO E PATRIMÔNIO CULTURAL
De patrimônio histórico e artístico de perfil excepcional a patrimônio
cultural diversificado, qual o lugar das ações educativas mediadas pelos bens
culturais?
5.1 Lugares de memória
Se educação patrimonial é “[...] um processo de aprendizagem que se
realiza mediante a utilização dos bens culturais, de natureza material e imaterial,
como recursos educacionais [...]” (Marchette, 2015, p. 89), tais bens precisam
estar presentes em determinada comunidade em três aspectos: material, afetivo
e funcional.
Portanto, para que essas ações educativas promovam efeito e ganhem
sustentabilidade, o patrimônio cultural deve representar simbolicamente a
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comunidade, por meio dos “lugares de memória”. Mas o que significam lugares
de memória? De acordo com o historiador francês Pierre Nora,
São lugares, com efeito nos três sentidos da palavra, material,
simbólico e funcional, simultaneamente, somente em graus diversos.
Mesmo um lugar de aparência puramente material, como um depósito
de arquivos, só é um local de memória se a imaginação o investe de
uma aura simbólica. Mesmo um lugar puramente funcional, como um
manual de aula, um testamento, uma associação de antigos
combatentes, só entra na categoria se for objeto de um ritual [...]. Os
três aspectos coexistem sempre. (Nora, 1993, p. 21-22)
A ritualização dos bens culturais, dessa maneira, não diz respeito apenas
ao ato oficial de tombamento (instrumento jurídico de Estado para a proteção de
um bem cultural por meio do reconhecimento), mas a qualquer “lugar” articulado
a um valor simbólico. São lugares topográficos (arquivos, bibliotecas e museus);
lugares monumentais (cemitérios e outras arquiteturas); lugares simbólicos
(comemorações, peregrinações, aniversários, emblemas); lugares funcionais
(manuais, autobiografias, associações).
A experiência de cada indivíduo, e que se assemelha aos demais
membros da comunidade a qual pertence, se conecta a redes e organizações
sociais, as quais se concretizam nesses lugares de memória materiais,
simbólicos e funcionais. Ao lado dessas experiências acumuladas, desse capital
humano (termo utilizado pelo filósofo Michel Foucault), há a diversidade cultural
dessas redes e organizações. A diversidade das expressões culturais decorre
desses dois eixos que movimentam as manifestações e as linguagens artísticas,
ou seja, tanto produtos quanto processos culturais.
NA PRÁTICA
Tomando o conceito de lugares de memória aqui observado, selecione
um bem cultural da comunidade a qual você pertence (bairro, cidade ou escola
etc.), e o descreva em seus aspetos material, simbólico e funcional, utilizando-
se, para tanto, de artigos de periódicos, conversas informais com a comunidade
e, quando possível, documentos oficiais, arquivo ou biblioteca.
FINALIZANDO
A mutação de patrimônio histórico em patrimônio cultural abrange as
dimensões da diversidade, uma vez que extrapola a mera excepcionalidade de
bens culturais pelo valor estético e passa a incluir, como desejava Mário de
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Andrade, as manifestações populares. Contudo, não basta, como estabeleceu o
“Guia Básico de Educação Patrimonial”, editado pelo Iphan em 1999, “conhecer
para preservar”, pois é necessário, também, dar espaço para a criação dos bens
patrimoniais que representem uma determinada comunidade formada por
experiências e redes sociais próprias.
Mesmo não fazendo parte do texto do Decreto-Lei n. 25, as questões
do Anteprojeto de Mário de Andrade vão permanecer latentes na
reflexão do corpo técnico e na condução dos trabalhos do Sphan,
principalmente durante os seus primeiros 30 anos de funcionamento,
até encontrar no ambiente globalizado contemporâneo o equilíbrio (ou
desequilíbrio...) necessário para serem reconhecidas e oficializadas
[...]. (Santos, 2018, p. 28)
As reflexões presentes no “Anteprojeto...” encontraram um campo fértil,
finalmente, na promulgação da Constituição de 1988, quando o termo
“patrimônio histórico e artístico” foi substituído por “patrimônio cultural”, no art.
216, abarcando, portanto, a noção não somente de bem patrimonial/tombado,
mas o de bem cultural.
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