ESTUDOS EUROPEUS & RELAÇÕES INTERNACIONAIS
A FISCALIZAÇÃO DA UE -
EVOLUÇÃO, TRIBUTAÇÃO E AUXÍLIOS
Rafael Casaleiro Pires
A FISCALIZAÇÃO DA UE -
EVOLUÇÃO, TRIBUTAÇÃO E AUXÍLIOS
Trabalho apresentado na instituição Universidade Lusófona – Centro Universitário de Lisboa
referente à disciplina de Orçamento e Fiscalidade da União Europeia
Docente: Professora Doutora Maria Teresa Sarmento
Tóquio
2023
SUMÁRIO
Iniciado em 1957 e consolidado por via do Tratado de Maastricht, o processo de
fiscalização europeu visa aprofundar e harmonizar as políticas económicas entre os estados
europeus. De modo a catalisar o mesmo, a União recorre a ferramentas fiscais (tributações e
auxílios), coordenadas com as nações integrantes do projeto. De modo a quantificar o
impacto que estas medidas exercem na melhoria de qualidade de vida das populações
endógenas, é necessário, primeiro, familiarizarmo-nos com os diferentes conceitos e
compreender o estabelecimento e evolução do processo fiscalizador europeu.
ABSTRACT
Started in 1957 and consolidated through the Maastricht Treaty, the European fiscalization
process aims to deepen and harmonize the economic policies between the European states. To
promote this process, the Union utilizes fiscal tools (taxation and aids), coordinated with the
projects’ member nations. In order to quantify the impact that these measures exert on the
endogenous’ people quality of living, it is, firstly, necessary to familiarize ourselves with the
different concepts, and understand the establishment and evolution of the European
fiscalization process.
ÍNDICE
INTRODUÇÃO.........................................................................................................................1
A POLÍTICA FISCAL...............................................................................................................2
EVOLUÇÃO DA POLÍTICA FISCAL NA UE.............................................................................................3
DESAFIOS À POLÍTICA FISCAL DA UE..................................................................................................4
POLÍTICAS FISCAIS EUROPEIAS..........................................................................................................5
TRIBUTAÇÃO DIRETA E INDIRETA...................................................................................6
PROCESSO DE HARMONIZAÇÃO E SISTEMA DO IVA..........................................................................7
AUXÍLIOS DE ESTADO DE NATUREZA FISCAL......................................................................................8
AUXÍLIOS ECONÓMICOS EUROPEUS..................................................................................................9
CONCLUSÃO.........................................................................................................................10
BIBLIOGRAFIA......................................................................................................................11
INTRODUÇÃO
A União Europeia (UE) é uma organização política e económica multinível e
multinacional cujo principal objetivo se prende com a promoção da cooperação política e
económica entre os seus 27 estados-membros (EM). Um dos principais pilares do bloco
europeu em busca da harmonização das políticas monetárias nos seus estados integrantes, é
visível através da União Monetária e Económica (UEM) que engloba medidas tais como a
moeda única (Euro); o mercado comum, que promove a livre circulação de pessoas, bens,
serviços e capitais, abolindo simultaneamente as barreiras internas e disparidade de taxas,
com o intuito de fomentar o comércio e a competitividade.
O espaço comum europeu visa a criação de uma zona de prosperidade partilhada, onde as
nações estabelecem relações de simbiose entre si, traduzindo-se isso em benefícios mútuos e
no crescimento financeiro das partes envolvidas. A coesão económica promove assim o
desenvolvimento sustentável e equitativo das nações intraeuropeias, contribuindo para a
diminuição de disparidades entre regiões e, consequentemente, para a melhoria do nível de
vida em cada nação.
Este trabalho procura enfatizar o tema da fiscalidade na UE, debruçando-se, para tal
efeito, sobre a criação e evolução das políticas fiscais, a tributação a que os integrantes estão
sujeitos, e os auxílios atribuídos aos EM do projeto europeu, com o intuito de aproximar as
economias.
O ‘paper’ procura responder a estes pontos de partida, recorrendo, sempre que necessário
e possível, à legislação existente, de forma a solidificar o defendido.
1
A POLÍTICA FISCAL
As políticas fiscais são um conjunto de instrumentos à disposição dos governos, que
buscam influenciar positivamente as economias, através do investimento de verbas públicas e
da tributação (Mark Horton & Asmaa El-Ganainy, n.d.).
Historicamente falando, a ideologia de política fiscal remonta à década 30 do século
passado, numa altura em que o ‘laissez faire’ (política de intervenção mínima por parte do
estado na economia) prevalecia. Após o ‘crash’ da bolsa de valores e da Grande Depressão,
os legisladores fizeram pressão para que o estado passasse a ter um papel mais ativo na vida
económica, de forma a evitar futuras recessões tão severas.
A nível macroeconómico, os governos possuem à sua disposição uma multitude de
medidas a que podem recorrer de forma a influenciar direta ou indiretamente a economia,
medidas essas que variam desde o ajuste das taxas de juro, da compra de moedas
estrangeiras, da venda de certificados de aforro, etc.
Além da promoção de serviços públicos, sejam esses ao nível das infraestruturas,
segurança comum, educação, ou saúde, o estado detém ainda o poder de tributação (art. 104º
CRP), podendo escolher subir ou descer os impostos de forma a combater problemas (como a
inflação) e a estimular o crescimento da economia (através da atribuição de benefícios fiscais
a investidores/empresas).
Apesar de todos os estados integrantes do projeto europeu possuírem as suas próprias
políticas fiscais internas, uma vez que a manutenção da soberania dos países comunitários é
um dos princípios chave da UE, a própria União detém certos poderes económicos, delegados
pelas nações por via dos tratados (art. 121º e 126º TFUE), significando isto, que possui
também a sua própria política fiscal a nível macro. Esta política fiscal comunitária, funciona
em articulação com aquelas que são as medidas específicas de cada nação (ECB, 2023) ,
sendo necessário um cuidado redobrado de forma a prevenir a existência de políticas
monetárias europeias e nacionais em contrariedade, o que prejudicaria o ritmo de
desenvolvimento económico das nações, e consequentemente desaceleraria a velocidade do
aprofundamento vertical europeu.
O subtópico infra, analisa mais detalhadamente as políticas fiscais europeias, desde a data
da sua criação, até à atualidade, com principal destaque para o processo de evolução de que
este sistema financeiro tem vindo a ser fruto, nas já longas décadas de existência do projeto
europeu.
2
EVOLUÇÃO DA POLÍTICA FISCAL NA UE
A nível interno, a política fiscal da União tem passado por uma evolução significativa
desde a sua criação até aos dias atuais. Nos primórdios da UE, as questões fiscais eram, na
sua esmagadora maioria, uma responsabilidade exclusiva dos EM, detendo o projeto comum,
poucos poderes na coordenação deste diploma. No entanto, à medida que os anos foram
passando e o projeto foi crescendo, houve uma clara tendência de mudança nesse âmbito,
com os EM a abandonarem, gradualmente, a relutância de atribuição de poderes às
instituições europeias nessa área sensível (European Commission, 2020b).
O Tratado de Roma, assinado em 1957 e que estabeleceu as bases para a Comunidade
Económica Europeia (CEE), marcou o primeiro passo supranacional na procura de uma
harmonização das políticas fiscais dos estados integrantes do projeto, ao delinear as bases
para a criação de um mercado comum, mercado esse que necessitava da existência de coesão
económica entre os diferentes estados, para funcionar corretamente. Embora este tenha sido
um passo na direção correta, os países, à data, mostraram-se relutantes em abdicar de parte da
sua soberania no panorama económico, não delegando grandes poderes à organização nessa
área.
Foi apenas com a assinatura do Tratado de Maastricht, que instituiu a UE, marcando a
transição de uma comunidade meramente económica, para um projeto com uma vasta gama
de intervenção em áreas políticas, sociais e financeiras, que se deram as primeiras cedências
significativas na área da política fiscal supranacional. Este tratado foi responsável pelo
estabelecimento dos critérios de convergência (art. 121º TFUE), que ditavam uma extensa
lista de regras financeiras, a cumprir por parte dos EM, de modo a adotar a moeda única que
entraria em circulação não muito tempo depois. Estes critérios, que ficaram conhecidos como
os Critérios de Maastricht, incluíam limites para o défice orçamental e valores limites na
dívida pública.
Por fim, e de modo a concluir a contextualização relativa ao surgimento da política fiscal
na UE, chegamos ao ano de 2007, ano em que se celebrou a ratificação do mais recente
tratado europeu: o Tratado de Lisboa (TL). Este acordo entre os EM estabeleceu a introdução
do Semestre Europeu (Eurodiaconia, 2020), de forma a monitorizar e coordenar as políticas
económicas e fiscais das nações integrantes, tendo, em simultâneo, reforçado o papel do
Parlamento Europeu (PE) no processo de tomada de decisões fiscais. De ressalvar ainda, que
a entrada em vigor deste tratado aconteceu no meio da crise financeira de 2008, o que veio
reforçar a necessidade de medidas assertivas no espectro financeiro, de forma a lidar com os
desequilíbrios económicos causados pela passagem da recessão.
3
DESAFIOS À POLÍTICA FISCAL DA UE
Apesar de robusta e com um grau de aprofundamento bastante elevado, para uma
organização multiestatal, a política fiscal da UE enfrenta ainda uma série de entraves que
comprometem a eficácia da aplicação das medidas, bem como o ritmo de aprofundamento
económico no espaço comum.
Destacam-se entre os desafios enfrentados pela política fiscal, as divergências no seio das
estruturas nacionais, nomeadamente em relação às abordagens tributárias, com principal
destaque para as distintas taxas de impostos sobre o rendimento e IVA, que dificultam a total
harmonização. Embora crescentes progressos tenham sido e continuem a ser efetuados ao
nível da supranacionalidade e da delegação de poderes nacionais a instituições europeias,
alguns estados apresentam resistência relativamente à ideia de uma cedência substancial de
controlo a nível das suas políticas económicas, por considerarem o tema sensível e vital ao
bom-funcionamento das nações. A evasão fiscal, assim como a concorrência desleal entre
estados, não são temas de um passado longínquo, continuando os mesmos a assolarem o
funcionamento correto das medidas europeias, o que se traduz em disparidades económicas e
perda de receitas fiscais (Jeromin Zettelmeyer et al., 2023).
Os ciclos económicos assimétricos entre os diferentes EM dificultam a implementação de
políticas fiscais coordenadas, uma vez que em tempos de crise, as abordagens necessárias a
implementar em cada nação, variam consoante o grau de desenvolvimento económico do país
em questão, com alguns estados a necessitarem de medidas expansionistas, e com outros a
requererem políticas mais restritivas.
Por último, mas não menos importante, é necessário ter em consideração que uma
legislação fiscal extensa e complexa se encontra dependente da capacidade de estabelecer um
consenso entre os diversos países integrantes do projeto europeu, o que devido ao número de
participantes na União, acaba sempre por ser um processo demorado, sendo isto sinónimo da
aplicação tardia de medidas, em problemas que poderão necessitar de uma rápida intervenção
de modo a serem contidos eficazmente. (Euractiv, 2020)
4
POLÍTICAS FISCAIS EUROPEIAS
É possível encontrar exemplos concretos de políticas fiscais levadas a cabo pela UE, ao
analisar melhor os tratados introdutórios das mesmas, nomeadamente o Tratado de
Funcionamento da União Europeia (TFUE). No seu ‘website’ oficial, o Banco Central
Europeu (BCE), revela que o principal intuito das políticas fiscais europeias se prende com a
composição dos gastos e receitas dos governos nacionais; défices orçamentais; e valor das
dívidas nacionais dos EM.
Entre os artigos 120º e 130º do TFUE é possível encontrar os arranjos institucionais
necessários ao bom funcionamento das medidas fomentadoras da economia, com principal
destaque para:
Proibição de financiamento monetário (art. 123º TFUE);
Proibição de acesso privilegiado às instituições financeiras (art. 124º TFUE);
‘No-bail-out clause’ (art. 125º TFUE);
Procedimentos fiscais de forma a evitar défices excessivos (art. 126º TFUE);
Pacto de Estabilidade e Crescimento (baseado nos art. 121º e 126º TFUE).
O Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) proporciona uma clarificação das regras
orçamentais do TFUE, ao definir as condições e aplicações do procedimento relativo aos
défices excessivos, contribuindo assim para a disciplina fiscal. Em termos práticos, o Pacto
estabelece dois critérios, sendo o primeiro referente ao défice dos países da zona euro (que
não deve exceder 3% o PIB); e o segundo referente à divida pública (que não pode
ultrapassar 60% do PIB) (European Commision, n.d.).
O PEC institui ainda procedimentos que visam monitorizar e corrigir desvios em relação
aos critérios anteriormente mencionados. Se determinado país não agir em conformidade com
as regras estabelecidas, este arrisca-se a ser alvo de sanções financeiras.
Toda esta multitude de ferramentas financeiras, com especial destaque para o PEC, tem
contribuído para a manutenção da disciplina fiscal na zona Euro, porém isto não desencoraja
os mais críticos de realçar a inflexibilidade destas medidas (The Left, 2023), o que já levou a
ajustes temporários destas regras, em situações económicas extraordinárias, tais como crises.
5
TRIBUTAÇÃO DIRETA E INDIRETA
A tributação direita e a indireta são dois tipos fundamentais de impostos a que os governos
recorrem de modo a financiar as suas atividades e programas (Rashi Maheshwari, 2023). A
tributação direta tem uma incidência sobre os rendimentos ou riqueza das pessoas/empresas.
Entre os impostos diretos mais comuns, destacam-se o imposto sobre o rendimento, que é
aplicado sobre os ganhos obtidos por indivíduos e entidades, e o imposto sobre o património,
que taxa a posse de bens e ativos.
Já a tributação indireta não recai de forma frontal sobre os rendimentos ou riqueza,
limitando-se aos bens e serviços. O Imposto de Valor Acrescentado (IVA) é o tipo de
tributação indireta mais comum, significando isto que este imposto em específico é aplicado
sobre o valor de um produto em cada estágio da sua cadeia de produção e distribuição. O
imposto sobre o tabaco e álcool, que têm vindo a receber sucessivos aumentos a nível
nacional nos recentes anos, são outro exemplo de tributação indireta.
Apesar de ambos os tipos de tributação representarem abordagens diferentes, o objetivo de
arrecadação de verbas para uso governamental mantém-se comum aos dois. De ressalvar
ainda a existência de um debate, aparentemente interminável, sobre qual é o tipo mais correto
de imposto, e subsequentemente qual deveria ser aumentado em maior percentagem. Os
impostos diretos são, na grande maioria dos casos, considerados mais progressivos, uma vez
que geralmente incidem sobre os indivíduos que possuem maiores capacidades financeiras,
significando isto que, à partida, não terão tantas dificuldades em pagar os mesmos. Já os
impostos indiretos, afetam mais uniformemente a população, uma vez que a percentagem de
receita estatal aplicada a determinado produto é fixa, não tendo em consideração a condição
social ou rendimentos dos consumidores.
O IVA é precisamente um dos mecanismos fiscais sobre o qual a UE detém poderes
decisórios partilhados com os EM (art. 113º TFUE), e embora os países possam
individualmente escolher a percentagem de carga fiscal atribuída ao imposto, consoante o
produto (que varia desde bens e serviços essenciais a bens e serviços não essenciais, nos
quais a carga tributária é mais elevada), a União estipula parâmetros a ser cumpridos pelos
estados. É precisamente este tópico que se encontra analisado mais detalhadamente no
próximo ponto.
6
PROCESSO DE HARMONIZAÇÃO E SISTEMA DO IVA
Apesar da UE não estipular parâmetros inflexíveis no que diz respeito à aplicação das
taxas de IVA nos países integrantes do projeto, esta, obriga as várias nações a adotarem
legislações que compreendem a existência do imposto de valor acrescentado
(Your Europe, 2022)
. Embora este imposto em específico não tenha alterado muito aquele que era o
horizonte fiscal dos estados, uma vez que aquando da sua criação, a grande maioria dos
participantes no projeto já possuíam legislações nacionais que previam este tipo de
tributação, a Espanha é uma das exceções à regra, tendo sido forçada a adotar o imposto, que
até à data não vigorava na nação (Wikipedia, n.d.).
O processo de harmonização do IVA em espaço comum, iniciado em 1967, representa
uma complexa e abrangente jornada, diretamente ligada à aspiração de estabelecer um
mercado interno em território europeu (EUR-lex, 2022) . Surgiu inicialmente como uma
resposta à necessidade de estabelecer princípios fundamentais para a tributação do consumo,
tendo sofrido, nas seguintes décadas, sucessivas mudanças resultantes da implementação de
recém-criadas diretrizes de modo a alargar e melhorar a funcionalidade do imposto em
questão.
É importante ainda ressalvar, que apesar desta ser uma diretiva proveniente dos centros de
tomada de decisão europeus, os fundos arrecadados com a cobrança do IVA seguem para os
cofres da nação que efetuou a taxação, e não para as instituições europeias, significando isto,
que a UE enquanto organização, em nada beneficia com a cobrança particular deste imposto
(European Commission, 2020a) , colhendo indiretamente os frutos, uma vez que maiores
fundos à disposição das nações europeias se traduz diretamente no aumento do investimento
por parte destes mesmos países, e no crescimento das economias locais, que por sua vez
impulsionam a economia europeia, enquanto um todo.
A diretiva europeia 2006/112/CE visou reformar o sistema do IVA, ao estabelecer os
princípios-chave relacionados à implementação e cobrança deste imposto em espaço comum,
estando contempladas no mesmo, certas isenções à regra (European Comission, n.d.).
A coordenação deste imposto a nível supranacional, embora possa parecer algo simples,
exige um nível de cedências e respeito pela legislação europeia por parte de todos os países
envolvidos. Este imposto, um dos principais geradores de receitas para as economias
nacionais, uma vez que são raros os bens ou serviços que deste se encontrem isentos, é uma
mera engrenagem num projeto muito mais vasto que procura harmonizar as políticas fiscais
estatais, contribuindo para a coesão das nações, e consequentemente do projeto. De notar
ainda que embora este imposto possa parecer estático, e o seu processo evolucional
terminado, encontra-se constantemente a sofrer pequenas alterações e retificações com a
entrada em vigor de novos decretos que visam corrigir eventuais falhas, e maximizar a
eficácia da tributação no espaço comum europeu.
7
AUXÍLIOS DE ESTADO DE NATUREZA FISCAL
Por último na agenda fiscalizadora europeia, mas com igual ou mais elevado grau de
importância, chegamos à temática dos auxílios de estado de natureza fiscal, área em que
apesar dos países possuírem poder autónomo de decisão e iniciativa, cabe à UE, mais
especificamente à Comissão o dizer final, e subsequente luz verde na aprovação de potenciais
intervenções estatais diretas, que influenciem a competitividade das economias nacionais (art.
107º e 109º TFUE).
Os auxílios de estado na UE desempenham um papel fulcral no contexto da política fiscal,
procurando as instituições europeias estabelecer condições equitativas, no que diz respeito à
atribuição destas benesses fiscais a nível nacional, de modo a preservar a integridade do
mercado único e garantir a manutenção da concorrência justa entre as nações europeias
(OECD, n.d.).
A transparência fiscal é um dos princípios fundamentais da política fiscal europeia, e os
auxílios estatais não são exceção à regra, uma vez que desempenham um papel central. Os
EM, encontram-se assim obrigados a notificar a Comissão, caso pretendam propor qualquer
plano de auxílio, que envolva a aplicação de fundos públicos (art. 108º TFUE). Por sua vez, a
Comissão, conduz uma minuciosa avaliação, de modo a assegurar o cumprimento de todas as
legislações que visam proteger a justa concorrência. Esta instituição desempenha um papel
central na supervisão e aplicação das normas, garantindo a existência e manutenção de um
‘level playing field’.
A UE refinou ao longo dos anos as políticas relativas aos auxílios estatais, de modo a
acompanhar as mudanças nas dinâmicas económicas e garantir uma abordagem adaptativa e
adequada às necessidades emergentes. Isto inclui considerações especiais para setores
considerados cruciais na vanguarda do desenvolvimento europeu, como é o caso da pesquisa
e desenvolvimento, que apresenta restrições menos inflexíveis no que diz respeito ao
investimento público por parte dos EM.
De modo preservar a eficácia das medidas de concorrência (art 102º e 108º TFUE), é
necessário que exista transparência por parte das nações aquando da implementação de
eventuais pacotes de reforço da indústria, significando isto que o diálogo e cooperação entre
todos os agentes envolvidos são a chave para o funcionamento a longo prazo não só desta
medida, mas das políticas fiscais europeias enquanto um todo.
8
AUXÍLIOS ECONÓMICOS EUROPEUS
De modo a promover o crescimento das economias nacionais, a UE possui à sua
disposição um alargado conjunto de ferramentas financeiras que atuam como um
intermediário essencial à convergência das economias europeias, visando os países com
economias menos robustas.
Os fundos estruturais e de desenvolvimento europeus, com principal destaque para o
Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) e para o Fundo Social Europeu
(FSE), proporcionam recursos financeiros substanciais aos EM para o investimento em
infraestruturas, educação, e na fomentação de emprego e inovação (art. 174º e 178º TFUE).
Estes auxílios são vitais para as regiões menos desenvolvidas do continente, dando às
mesmas a oportunidade de fortalecer as suas bases económicas, melhorando,
consequentemente, as condições de vida das populações endógenas (BMWK, 2023).
O princípio de atribuição destas sumas de dinheiro comunitárias encontra-se dependente
do cumprimento de certos critérios por parte das nações recetoras
(European Commission, n.d.)
, que normalmente estão associados ao nível de riqueza dos estados, medido através da
comparação do PIB e PIB per capita local, àquela que é a média da UE. Uma vez cumpridos
todos os requisitos necessários à injeção de capital proveniente dos cofres europeus, as verbas
variam de país para país, conforme as necessidades específicas de investimento, e do
tamanho populacional do estado em questão. É, no entanto, importante frisar que embora o
montante de capital comunitário atribuído a cada nação seja importante, a aplicação eficaz
destas verbas é igualmente, se não mais ainda, importante. Os países devem utilizar os fundos
de forma eficiente e transparente, garantindo que estes atinjam os setores mais necessitados.
A eficácia destes fundos pode ser comprovada através da análise da qualidade de vida em
cada um dos países integrantes da UE, antes e depois do investimento europeu
(Anita Freimann et al., 2021)
. Vários estados, como é o caso da Irlanda, são atestados do sucesso
destes fundos, uma vez que a aplicação de verbas europeias, em momentos de fragilidade
económica, permitiu à nação do norte da europa transitar de um estado maioritariamente
recetor de ajudas e incentivos comunitários, para um estado maioritariamente contribuidor.
Outro aspeto crucial dos auxílios económicos europeus surge através da promoção da
competitividade, motivo pelo qual a fiscalização de incentivos estatais não autorizados é tão
importante, uma vez que poderia colocar em causa este alicerce europeu. Estas benesses
revelam-se através da premiação monetária de programas inovadores, e de pesquisa e
desenvolvimento, encorajando assim os países integrantes do projeto europeu a manterem-se
na vanguarda da tecnologia e ciência a nível mundial.
De notar ainda, que estes investimentos por parte da UE, geram retornos previsíveis, uma
vez que uma das filosofias do projeto comunitário se prende com o facto de que o
enriquecimento de qualquer Estado-Membro e a subjacente melhoria das condições de vida
da população trarão riqueza, não só para o EM em questão, mas para toda a União Europeia.
9
Isto é sinónimo de melhores condições de vida para todos os cidadãos da UE,
independentemente do local onde residam.
CONCLUSÃO
Em suma, a política fiscal europeia é um processo em constante mutação e expansão.
Pode, à primeira vista, ser percetível o rigor e a inflexibilidade de algumas medidas
atualmente em prática, dando aso ao surgimento de argumentos céticos relativamente ao
funcionamento das instituições europeias a nível económico, e à crescente delegação de
poderes para essas mesmas instituições, por parte dos governos nacionais.
Porém, e apesar de tudo isto não ser necessariamente uma falácia, é importante ter em
consideração o ténue equilíbrio desencadeado por todas estas medidas, e o papel crucial que a
coesão económica exerce no atingimento dos objetivos considerados chave por parte da UE.
Não significam estas medidas que em tempos excecionais, como se verificou durante o curso
da crise financeira de 2008, e mais recentemente, durante a pandemia, não possam ser abertas
exceções à regra, permitindo às nações aliviar um pouco a carga fiscal e proporcionar os
auxílios corretos às populações necessitadas, mas estas medidas excecionais são reservadas
exatamente para tempos excecionais, pois qualquer fuga à regra durante qualquer outro
período de tempo, seria suscetível de originar um efeito dominó capaz de minar os
fundamentos europeus e colocar em causa a manutenção da UEM, que indiscutivelmente em
tanto contribui para a melhoria das condições de vida no estados integrantes do projeto
europeu.
Posto isto, é visível a complexa relação de simbiose e interdependência que se estabelece a
nível individual, intergovernamental e supranacional entre todas as partes envolvidas neste
ambicioso e megalómano empreendimento, denominado União Europeia. Isto só é possível
graças aos poderes de fiscalização e sanção de que as instituições europeias usufruem, bem
como ao grau de independência que estas detêm relativamente a forças externas que
procurem potencialmente inclinar as decisões a seu favor.
Concluindo numa nota positiva, todas as nações integrantes da UE, independentemente do
seu grau de desenvolvimento económico e social, têm a algo a beneficiar com o
aprofundamento vertical e a harmonização económica, sendo essa a principal premissa que
une tantos estados diferentes, com distintos modelos políticos, na busca dos mesmos
objetivos. Para tal, é fulcral a contribuição de todos, e acima de tudo, o respeito dos
intervenientes pelas regras que posteriormente se comprometeram a cumprir.
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