DIREITO CIVIL PARA CARREIRAS JURÍDICAS – MÓDULO III
Tema 10 – Responsabilidade Civil e a Jurisprudência do STJ II
Viu algum erro neste material? Contate-nos em: degravacoes@[Link]
TEMA 10 – RESPONSABILIDADE CIVIL E A JURISPRUDÊNCIA DO STJ:
IMPORTANTES RECORTES PARA CONCURSOS PÚBLICOS II
Uma pessoa jurídica de direito público pode ser vítima de dano moral e ter direito à repa-
rabilidade?
O julgado abaixo remonta um caso ocorrido no Brasil há anos e que teve uma grande
repercussão.
6) Pessoa Jurídica de Direito Público tem direito à indenização por danos morais relacio-
nados à violação da honra ou da imagem, quando a credibilidade institucional for fortemente
agredida e o dano reflexo sobre os demais jurisdicionados em geral for evidente.
CIVIL E ADMINISTRATIVO. “CASO JORGINA DE FREITAS”. LESÕES EXTRAPATRI-
MONIAIS CAUSADAS POR AGENTES DO ESTADO AO INSS. PREJUÍZOS INSUSCETÍ-
VEIS DE APRECIAÇÃO ECONÔMICA E DE EXTENSÃO INCALCULÁVEL. DANOS EXTRA-
PATRIMONAIS. INDENIZAÇÃO. CABIMENTO.
HISTÓRICO DA DEMANDA
1. Trata-se, na origem, de demanda proposta pelo INSS com o fim de obter reparação por
danos decorrentes de fraude praticada contra a autarquia no contexto do denominado “caso
Jorgina de Freitas”, cuja totalidade dos prejuízos, segundo as instâncias ordinárias, superou
20 (vinte) milhões de dólares.
(...)
3. O Tribunal de origem manteve a condenação à reparação dos danos materiais, mas
afastou o “pagamento de uma compensação por danos morais, posto que inviável cogitar-se,
diante da própria natureza das atividades desempenhadas pelo INSS, de impacto negativo
correspondente a descrédito mercadológico” (fl. 2.392, e-STJ).
RECONHECIMENTO DE DANO MORAL: DISTINÇÃO PRESENTE NO CASO DOS AUTOS
4. Embora haja no STJ diversas decisões em que se reconheceu a impossibilidade da
pessoa jurídica de Direito Público ser vítima de dano moral, o exame dos julgados revela que
essa orientação não se aplica ao caso dos autos.
5. Por exemplo, no Recurso Especial 1.258.389/PB, da relatoria do Min. Luis Felipe Salo-
mão, o que estava sob julgamento era ação indenizatória ajuizada por município em razão
de programas radiofônicos e televisivos locais que faziam críticas ao Poder Executivo. No
ANOTAÇÕES
[Link] 1
DIREITO CIVIL PARA CARREIRAS JURÍDICAS – MÓDULO III
Tema 10 – Responsabilidade Civil e a Jurisprudência do STJ II
Viu algum erro neste material? Contate-nos em: degravacoes@[Link]
Recurso Especial 1.505.923/PR, Relator Min. Herman Benjamin, a pretensão indenizatória
se voltava contra afirmações de que autarquia federal teria produzido cartilha com informa-
ções inverídicas. No Recurso Especial 1.653.7883/SP, Relator Min. Mauro Cambpell, discu-
tiu-se o uso indevido de logotipo do Ibama.
6. Diversamente do que se verifica no caso dos autos, nesses precedentes estava em
jogo a livre manifestação do pensamento, a liberdade de crítica dos cidadãos ou o uso inde-
vido de bem imaterial do ente público.
7. Também não afasta a pretensão reparatória o argumento de que as pessoas que inte-
gram o Estado não sofrem “descrédito mercadológico”.
8. O direito das pessoas jurídicas à reparação por dano moral não exsurge apenas no
caso de prejuízos comerciais, mas também nas hipóteses, mais abrangentes, de ofensa à
honra objetiva. Nesse plano, até mesmo entidades sem fins lucrativos podem ser atingidas.
(...)
10. Não se pode afastar a possibilidade de resposta judicial à agressão perpetrada por
agentes do Estado contra a credibilidade institucional da autarquia.
(...)
CONCLUSÃO
13. Recurso Especial provido, com determinação de retorno dos autos, para que, tendo
como fixada a viabilidade jurídica da reparação por danos morais, o Tribunal de origem rea-
precie a questão como entender de direito.
(REsp 1722423/RJ, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em
24/11/2020, DJe 18/12/2020).
Obs.: De acordo com o STJ, de fato, há várias decisões que não admitiram a reparação
pelo dano moral à pessoa jurídica de direito público. Mas, excepcionalmente, pode
haver dano moral à pessoa jurídica de direito público. Tanto que, nesse caso, o STJ
acolhe o recurso, dá provimento ao REsp, mandando voltar ao tribunal para que se
aprecie a viabilidade jurídica da reparação por dano moral à pessoa jurídica de direito
público.
5m
ANOTAÇÕES
[Link] 2
DIREITO CIVIL PARA CARREIRAS JURÍDICAS – MÓDULO III
Tema 10 – Responsabilidade Civil e a Jurisprudência do STJ II
Viu algum erro neste material? Contate-nos em: degravacoes@[Link]
É possível haver reparabilidade pelo dano moral em caso de uso de imagem de torcedor
de futebol não autorizado?
O julgado a seguir dialoga com a responsabilidade civil e com direitos da personalidade.
7) O uso da imagem de torcedor inserido no contexto de uma torcida não induz a repara-
ção por danos morais quando não configurada a projeção, a identificação e a individualização
da pessoa nela representada.
(...)
3. Em regra, a autorização para uso de imagem deve ser expressa; no entanto, a depen-
der das circunstâncias, especialmente quando se trata de imagem de multidão, de pessoa
famosa ou ocupante de cargo público, há julgados do STJ em que se admite o consentimento
presumível, o qual deve ser analisado com extrema cautela e interpretado de forma restrita
e excepcional.
4. De um lado, o uso da imagem da torcida — em que aparecem vários dos seus inte-
grantes — associada à partida de futebol, é ato plenamente esperado pelos torcedores,
porque costumeiro nesse tipo de evento; de outro lado, quem comparece a um jogo espor-
tivo não tem a expectativa de que sua imagem seja explorada comercialmente, associada à
propaganda de um produto ou serviço, porque, nesse caso, o uso não decorre diretamente
da existência do espetáculo.
5. Se a imagem é, segundo a doutrina, a emanação de uma pessoa, através da qual ela
se projeta, se identifica e se individualiza no meio social, não há falar em ofensa a esse bem
personalíssimo se não configurada a projeção, identificação e individualização da pessoa
nela representada.
6. Hipótese em que, embora não seja possível presumir que o recorrente, enquanto tor-
cedor presente no estádio para assistir à partida de futebol, tenha, tacitamente, autorizado
a recorrida a usar sua imagem em campanha publicitária de automóvel, não há falar em
dano moral porque o cenário delineado nos autos revela que as filmagens não destacam
a sua imagem, senão inserida no contexto de uma torcida, juntamente com vários outros
torcedores.
7. Recurso especial conhecido e desprovido. (REsp 1772593/RS, Rel. Ministra Nancy
Andrighi, Terceira Turma, julgado em 16/06/2020, DJe 19/06/2020)
ANOTAÇÕES
[Link] 3
DIREITO CIVIL PARA CARREIRAS JURÍDICAS – MÓDULO III
Tema 10 – Responsabilidade Civil e a Jurisprudência do STJ II
Viu algum erro neste material? Contate-nos em: degravacoes@[Link]
Obs.: O STJ entendeu que quando alguém vai para uma torcida de futebol, essa pessoa não
espera que a sua imagem seja explorada comercialmente. Mas, a ministra ponderou
que a tomada foi coletiva da imagem. Não havendo uma individualização, uma espe-
cificação daquela pessoa, não há que se falar em reparabilidade pelo dano moral.
Imagine o seguinte caso: a mulher de um casal de namorados engravida e o homem
rompe a relação, negando-se a reconhecer a criança. Posteriormente, a criança, represen-
tada pela mãe, ajuíza uma ação de DNA. O exame de DNA conclui um falso negativo — de
acordo com esse exame, o homem não é o pai da criança, porém, logo depois, é feita a con-
traprova que demonstra que o primeiro exame estava errado.
10m
No julgado abaixo, o STJ enfrenta o caso da mãe que se sentiu desrespeitada pelo teste
de DNA com falso negativo. O caso dialoga com o direito das família e com a responsabili-
dade civil.
8) O laboratório responde objetivamente pelos danos morais causados à genitora por falso
resultado negativo de exame de DNA, realizado para fins de averiguação de paternidade.
DIREITO CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE COMPENSAÇÃO POR DANOS
MORAIS. EXAME DE DNA. INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE. FALSO NEGATIVO.
LABORATÓRIO. DEFEITO NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO. RESPONSABILIDADE OBJE-
TIVA. DANO MORAL. CARACTERIZAÇÃO. ANGÚSTIA E SOFRIMENTO ÍNTIMO. OFENSA
À HONRA DA MULHER.
1. Ação ajuizada em 23/09/2009. Recurso especial interposto em 15/02/2017 e concluso
ao gabinete em 25/10/2017.
2. O propósito recursal consiste em definir se o falso resultado negativo de exame de
DNA, realizado para fins de averiguação de paternidade, gerou dano moral à recorrente,
genitora do investigante.
(...)
4. À luz do art. 14, caput e parágrafo 1º, do CDC, o fornecedor responde de forma obje-
tiva, ou seja, independentemente de culpa, pelos danos causados por defeito na prestação
do serviço, que se considera defeituoso quando não fornece a segurança que o consumidor
dele pode esperar.
5. Em se tratando da realização de exames médicos laboratoriais, tem-se por legítima a
expectativa do consumidor quanto à exatidão das conclusões lançadas nos laudos respec-
tivos, de modo que eventual erro de diagnóstico de patologia ou equívoco no atestado de
ANOTAÇÕES
[Link] 4
DIREITO CIVIL PARA CARREIRAS JURÍDICAS – MÓDULO III
Tema 10 – Responsabilidade Civil e a Jurisprudência do STJ II
Viu algum erro neste material? Contate-nos em: degravacoes@[Link]
determinada condição biológica implica defeito na prestação do serviço, a atrair a responsa-
bilidade objetiva do laboratório.
(...)
7. Ante a “sacralização” do exame de DNA — corriqueiramente considerado pelo senso
comum como prova absoluta da (in)existência de vínculo biológico — a indicação de pater-
nidade que, em exame genético, se mostra inexistente sujeita a mãe a um estado de angús-
tia e sofrimento íntimo, pois lança dúvidas quanto ao seu julgamento sobre a realidade dos
fatos. O fato que tinha como certo é contrastado com a verdade científica, resultando em um
momento de incompreensão e aflição.
8. Ademais, o antagonismo entre a nomeação feita e a exclusão da paternidade, atestada
pelo exame, rebaixa a validade da palavra da mãe, inclusive perante o próprio filho, a depen-
der de seu desenvolvimento psicossocial.
9. O simples fato do resultado negativo do exame de DNA agride, ainda, de maneira
grave, a honra e reputação da mãe, ante os padrões culturais que, embora estereotipados,
predominam socialmente. Basta a ideia de que a mulher tenha tido envolvimento sexual com
mais de um homem, ou de que não saiba quem é o pai do seu filho, para que seja questio-
nada sua honestidade e moralidade.
10. Ante as circunstâncias concretas dos autos, tem-se por justa e adequada a quantia de
R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais) a título de compensação por danos morais.
11. Recurso especial conhecido e provido.
(REsp 1700827/PR, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 05/11/2019,
DJe 08/11/2019)
Obs.: Foi reconhecida a responsabilidade objetiva do laboratório pelo falso negativo.
15m
Pode-se antever a angústia de uma pessoa que recebe um laudo de laboratório errado
e o sofrimento que isso traz.
Há entendimento no STJ de que a responsabilidade do laboratório pelo erro desafia a
responsabilidade objetiva no caso concreto. Assim, há, sem dúvida, a reparabilidade pelo
dano causado à essa genitora.
Este material foi elaborado pela equipe pedagógica do Gran Cursos Online, de acordo com a aula
ANOTAÇÕES
preparada e ministrada pelo professor Pablo Stolze.
A presente degravação tem como objetivo auxiliar no acompanhamento e na revisão do conteúdo
ministrado na videoaula. Não recomendamos a substituição em vídeo pela leitura exclusiva deste
material.
[Link] 5