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Viagem Filosófica de Alexandre Ferreira

A Viagem Filosófica, liderada por Alexandre Rodrigues Ferreira, foi a principal expedição científica portuguesa do século XVIII, coletando dados sobre a fauna, flora e culturas indígenas da América portuguesa entre 1783 e 1792. Apesar de sua importância, a documentação gerada permaneceu em grande parte inédita até o século XX, e a expedição foi marcada por desafios financeiros e limitações na formação do naturalista. A abordagem de Ferreira em classificar etnias amazônicas foi inovadora para a época, refletindo uma tentativa de entender a diversidade cultural e social das comunidades indígenas.
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Viagem Filosófica de Alexandre Ferreira

A Viagem Filosófica, liderada por Alexandre Rodrigues Ferreira, foi a principal expedição científica portuguesa do século XVIII, coletando dados sobre a fauna, flora e culturas indígenas da América portuguesa entre 1783 e 1792. Apesar de sua importância, a documentação gerada permaneceu em grande parte inédita até o século XX, e a expedição foi marcada por desafios financeiros e limitações na formação do naturalista. A abordagem de Ferreira em classificar etnias amazônicas foi inovadora para a época, refletindo uma tentativa de entender a diversidade cultural e social das comunidades indígenas.
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Alexandre Rodrigues Ferreira

Ronald Raminelli
Pós-Doutor em História (Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, França)
Professor Adjunto da Universidade Federal Fluminense

Comandada pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, a Viagem Filosófica foi a mais
importante expedição científica portuguesa do século XVIII. Ela percorreu o interior da
América portuguesa durante nove anos e produziu um rico acervo, composto de diários,
mapas populacionais e agrícolas, cerca de 900 pranchas e memórias (zoológicas,
botânicas e antropológicas). Os diários, a correspondência e umas poucas memórias
somente foram publicados a partir da segunda metade do século XIX, sobretudo na
Revista do Instituto Histórico. Na década de 1870, os três primeiros volumes dos Anais
da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro divulgaram uma enorme lista de manuscritos
oriundos da viagem. No entanto, somente na década de 1970, o Conselho Federal de
Cultura editou uma parte representativa das pranchas e memórias. Deve-se destacar,
porém, que ainda há documentação da maior importância que continua inédita em
arquivos portugueses e brasileiros. Na Fundação Biblioteca Nacional e no Arquivo
Histórico do Museu Bocage estão depositados os principais registros textuais e visuais
da expedição.

O naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira era morador da Bahia e filho de


comerciante, e estabeleceu-se em Coimbra ainda muito jovem, com 14 anos. Na
Universidade, matriculou-se, inicialmente, em Instituta (1770) e depois na Faculdade de
Leis (1773), sem comparecer no auto de encerramento. A partir de 1774, iniciaram-se
seus cursos na Faculdade de Filosofia Natural com duração de três anos. Consta ainda
matrícula na Faculdade de Matemática, em 4 de novembro de 1775. Acabou formando-
se em Filosofia Natural em 2 de julho de 1778 e obteve ainda o título de doutor em 10
de janeiro de 1779. Suas escolhas iniciais apontavam para carreira de magistrado,
forma mais segura e direta de inserção na burocracia metropolitana ou colonial. Ao
escolher filosofia natural, ele se arriscava a não encontrar cargo na burocracia, ou a
desempenhar funções sem o mesmo prestígio dos magistrados. A rápida passagem pela
Faculdade de Matemática, talvez, fosse uma estratégia para alcançar o título de
cavaleiro da Ordem de Cristo, pois os melhores alunos seriam agraciados com essa
mercê e teriam a preferência para ocupar qualquer cargo nos Amoxarifados, segundo o
Estatuto da Universidade de Coimbra de 1772. Seu excelente desempenho na Faculdade
de Filosofia permitiu-lhe, porém, exercer o primeiro cargo de naturalista na burocracia
estatal. Teria ele a tarefa de percorrer as possessões “com a laboriosa comissão de ele
ser o primeiro vassalo Português, que exercitasse o nunca visto em Portugal, nem antes
do feliz reinado de Sua Majestade, exercitado emprego de Naturalista”.
Contando com recursos precários, Ferreira comandou a Viagem Filosófica que percorreu
as capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá entre 1783 e 1792. O
grupo era composto de um naturalista, um jardineiro botânico, Agostinho do Cabo, e
dois riscadores (desenhistas), José Codina e José Joaquim Freire. A Viagem Filosófica foi
planejada pela Secretaria de Estado de Negócios e Domínios Ultramarinos e pelo
naturalista italiano Domenico Vandelli, radicado em Portugal desde o fim do período
pombalino. No mesmo ano da partida da Viagem Filosófica, duas outras expedições
foram lançadas aos domínios lusitanos. Empreendidas por bacharéis em Coimbra, as
viagens de Manuel Galvão da Silva e Joaquim José da Silva pretendiam investigar Goa,
Moçambique e Angola.

Inicialmente planejada para ser composta por quatro naturalistas, a Viagem Filosófica à
América ficou resumida a um apenas, sem contar com os drásticos cortes financeiros e
materiais. Nessas condições, ficaram sobre os ombros de Alexandre R. Ferreira e uns
poucos auxiliares as tarefas de coletar espécies, classificar e prepará-las para o
embarque rumo a Lisboa. Estudavam ainda o desempenho das lavouras, os percursos
de rios e produziam mapas populacionais e agrícolas. Cabia-lhes também verificar as
condições materiais das vilas e fortalezas destinadas a suportar as possíveis invasões
estrangeiras. Esses aspectos constituem o corpo dos diários e memórias produzidos ao
longo da Viagem Filosófica.

Há mais de um século a historiografia se divide em relação ao caráter científico dessa


viagem. A farta bibliografia dedicada a Ferreira prima por exaltar seus feitos, tornando-
se, por vezes, obras apologéticas, estudos de exaltação ao naturalista esquecido e
abandonado pela sorte. Em 1895, Emílio A. Goeldi, no entanto, apontou a insuficiência
das memórias sobre botânica e zoologia. Faltou ao naturalista, ressaltou Goeldi,
educação profissional. Em resposta às provocações, Carlos França escreveu, em 1922,
um artigo em defesa do naturalista, apontando a qualidade científica das memórias e
culpava Vandelli, considerado “estrangeiro traidor”, por inviabilizar o aproveitamento
posterior do material coletado por Ferreira. O americano William J. Simon destacou a
importância de Alexandre R. Ferreira para o progresso do conhecimento na História
Natural. Rómulo de Carvalho descreveu a enorme coleção deixada por Ferreira. Ao longo
da jornada, ele compôs dezenas de memórias e centenas de desenhos, recolheu
artefatos da cultura indígena e espécies dos três reinos. Recentemente, P. E. Vanzolini
considerou que a expedição almejava, sobretudo, metas de caráter administrativo e
estratégico, assegurando aos portugueses a posse e exploração de fronteiras ainda
indefinidas e disputadas por metrópoles européias.
Para além da polêmica, deve-se destacar que, nem sempre, a Viagem Filosófica pautou-
se nas normas setecentistas para a coleta e descrição do material. As memórias sobre
plantas e animais destacaram, sobretudo, o caráter econômico e utilitarista, em
detrimento dos avanços científicos. O farto material permaneceu, por quase um século,
desconhecido e não foi devidamente estudado pelos sábios portugueses, nem mesmo
por Ferreira. Ao retornar a Lisboa, o naturalista dedicou o resto de sua vida à
administração metropolitana, sendo nomeado vice-diretor do Real Gabinete de História
Natural e do Jardim Botânico e administrador das Reais Quintas da Bemposta, Caxias e
Queluz. Jamais retornaria os trabalhos com as espécies e amostras recolhidas na
viagem; as memórias não foram aperfeiçoadas, aprimoradas e publicadas. Boa parte
desses fragmentos da natureza amazônica seria, mais tarde, conduzida a Paris como
botim de guerra. Em poucas ocasiões, Alexandre Rodrigues Ferreira observou a natureza
e as comunidades indígenas como um naturalista setecentista, mas antes como um leal
funcionário da coroa lusitana. A Viagem Filosófica, portanto, era parte de um
empreendimento colonial destinado a empreender reformas de caráter ilustrado em um
território desconhecido e disputado pelas metrópoles européias. Desgostoso, entrevado
e alcoólatra, Ferreira morreu em 1815.

Apesar dos percalços, nas pranchas e memórias dedicadas aos tapuias, Ferreira esboçou
uma classificação muito original para identificar as diferentes etnias da Amazônia. Nesse
sentido, ele recorreu aos corpos, às deformidades físicas e aos artefatos para identificar
os grupos e entender a sua capacidade de controlar a natureza. As roupas, armas e
moradias eram indícios do grau de organização social das comunidades. A forma de
controlar a natureza era, enfim, indício da evolução técnica dos povos. Embora pouco
explorada, essa abordagem era, à época, extremamente inovadora, o que demonstra a
inserção do naturalista nos debates dedicados a explicar a diversidade de raças e
costumes.

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