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Discurso de Frei Nicolau Dias sobre o Rosário

O documento analisa o discurso de Frei Nicolau Dias em promoção à devoção do Rosário da Virgem Maria, destacando sua obra 'Livro do Rosário de Nossa Senhora' de 1573. A pesquisa utiliza metodologias de análise discursiva e hagiográfica, considerando o contexto histórico da época e a construção narrativa do autor. O estudo revela como Dias utilizou figuras da Virgem Maria e do Demônio para defender a devoção do Rosário em um cenário de disputas religiosas.
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Discurso de Frei Nicolau Dias sobre o Rosário

O documento analisa o discurso de Frei Nicolau Dias em promoção à devoção do Rosário da Virgem Maria, destacando sua obra 'Livro do Rosário de Nossa Senhora' de 1573. A pesquisa utiliza metodologias de análise discursiva e hagiográfica, considerando o contexto histórico da época e a construção narrativa do autor. O estudo revela como Dias utilizou figuras da Virgem Maria e do Demônio para defender a devoção do Rosário em um cenário de disputas religiosas.
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ISBN 978-85-459-0773-2

O ROSÁRIO, A VIRGEM E O DEMÔNIO: FREI NICOLAU DIAS E O DISCURSO EM


PROMOÇÃO À DEVOÇÃO DO ROSÁRIO DA VIRGEM MARIA

André Rocha Cordeiro1


Doutorando em História (PPH-UEM) e Pesquisador do Laboratório de Estudos em Religiões e Religiosidades (LERR-UEM), Universidade Estadual de
Maringá - UEM, Maringá – Paraná.

RESUMO
O presente texto tem por objetivo apresentar uma das discussões realizadas durante a pesquisa de mestrado em história
referente ao discurso construído pelo frade dominicano Nicolau Dias em promoção à devoção do Rosário da Virgem
Maria. A discussão que aqui apresentaremos versará sobre a construção do discurso de Dias (1573) e as operações
sagradas realizadas por meio do Rosário contra os males demoníacos. Para tanto parte-se da obra Livro do Rosário de
Nossa Senhora, de autoria do referido frade dominicano, impressa na casa de Francisco Correa e publicada no ano de
1573, em Lisboa, Portugal. Metodologicamente pautamos nossa pesquisa nas discussões acerca da construção de
narrativas hagiográficas de Michel de Certeau (1982) e Gerardo Fabián Rodríguez (2012), bem como as reflexões sobre
análises discursas a partir de Eni Orlandi (2003). Compreendendo que todo documento é fruto de um período histórico e
que apresenta intenções de um autor que o produz, nossa pesquisa, analisou a construção discursiva do autor do Livro
do Rosário de Nossa Senhora (1573) em consonância com o contexto histórico que o mesmo viveu e dos “lugares
sociais” (CERTEAU, 1982) que ocupou e se fez representante. Após pesquisas e análises realizadas observou-se que
diante de um cenário de disputa por bens de salvação, Nicolau Dias (1573) construiu uma narrativa em defesa do
Rosário da Ordem dos Pregadores e para tanto se utilizou que alguns recursos narrativos de convencimento e promoção
da devoção mariana, dentre eles a utilização das figuras da Virgem Maria e do Demônio.

PALAVRAS-CHAVE: Demônio; Frei Nicolau Dias; Hagiografia; Rosário; Virgem Maria.

1 INTRODUÇÃO

O Rosário é um instrumento religioso católico que, segundo a tradição católica, teria sido
entregue pela Virgem Maria à São Domingos de Gusmão, durante o período em que este último
estava realizado suas pregações contra os Cátaros, na região do monte Albi, no sul da França.
Embora não seja algo consensual tal atribuição de gênese do Rosário, como apontam os estudos de
Anne Vail (1998), no discurso religioso oficial, até o presente, momento São Domingos é
considerado o “grande difusor do Rosário” católico (BENTO XVI, 2010). Instrumento que se faz
identidade e um dos vários símbolos católicos, o Rosário foi e permanece sendo temática de
diferentes discursos: exposições artísticas (como as exposições "Rosário uma devoção popular", do
Museu de Arte Sacra de Belo Horizonte, e “Desenhando com terços”, da artista plástica Márcia X),
canções (como a canção religiosa “O bendito Rosário”, do Missal Dominicano Popular) e
principalmente livros religiosos (O Rosário da Virgem Maria, dos sacerdotes João Henrique e
Antonello Cadeddu, publicado em 2010; Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem”,
escrito em 1712, por São Luís Maria Grignion de Montfort; entre outros).
Em nossa pesquisa vertemos nosso olhar para um desses diversos discursos que abordam o
Rosário como temática, mais especificadamente o discurso escrito. Dentre os vários documentos
escritos de cunho religioso que possuem tal temática elegemos, enquanto fonte de pesquisa, a obra
de Frei Nicolau Dias intitulada Livro do Rosário de Nossa Senhora, impressa na casa de Francisco
Correa, no ano de 1573, na cidade de Lisboa, Portugal.

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Fr.1 Nicolau Dias (152?-1596), foi um português, que se fez frade dominicano, mestre em
teologia e sacerdote pregador da Ordem do Pregadores. Sobre as informações acerca do seu
nascimento não existe um consenso, sendo que estipula-se duas datas possíveis: 1520 ou 1525
(MARGERIE, 1991; 1994; MARQUES, 2010). Com pouco mais de 20 anos Fr. Nicolau Dias teria
concluído sua formação em Estudos Gerais, no Convento de São Domingos de Lisboa, e realizado
sua profissão de votos religiosos em 02 de junho de 1541. Já no ano de 1571, ao torna-se padre-
mestre em teologia, Dias teria lecionado e formado jovens dominicanos portugueses (ROLO, 1982;
MARQUES, 2010).
Em 1571, ano no qual realizou-se o Capítulo Geral da Ordem dos Pregadores, na cidade de
Roma, Fr. Nicolau Dias participou enquanto delegado da Província Portuguesa dos Dominicanos.
Em tal evento histórico teve contato com o pontífice dominicano Pio V (1566-1572), chamado de o
“papa do rosário”, e, possivelmente, se inspirou para escrever o Livro do Rosário de Nossa Senhora,
no ano de 1573 (ROLO, 1982, p. 1). Em 1574, possivelmente, Dias realizou sua viagem para
Jerusalém, a “Terra Santa” para os católicos, que o iluminou para escrita posterior do Tratado sobre
a Jornada na Terra Santa (CORDEIRO, 2017).
No ano de dias difíceis e “de má memória para o patriotismo luso” (MARQUES, 2010, p. 208),
ou seja, 1580, Dias, que ocupava o cargo de prior 2 do Mosteiro Nossa Senhora da Misericórdia de
Aveiro, se fez defensor de D. António, prior do Crato e filho ilegítimo do Infante D. Luís de Avis -
duque de Beja (1506-1555), para a sucessão dinástica portuguesa (MARQUES, 2010). Tal
envolvimento com as questões dinásticas, por parte de Fr. Nicolau Dias, não foi bem aceito pelo
arcebispado de Lisboa que proibiu o mesmo dos ofícios da pregação e confissão 3.
Medida esta que não impedira o dominicano de pronunciar um sermão em que dissera tais
coisas, “tão feias e desordenadas”, como corria em público. Fora até por motivo desta denúncia
que o Cardeal-Rei D. Henrique mandou levantar-lhe um auto e o remeteu ao seu superior
religioso para que lhe impusesse a pena julgada merecida (MARQUES, 2010, p. 214).

Neste período histórico, considerado delicado e tenso na História de Portugal, D. Filipe II, da
Espanha, ordenou que todos os frades dominicanos se professassem partidários de D. António
fosse perseguidos e exilados do reino (ROLO, 1982; MARGERIE, 1995; MARQUES, 2010). Fr.
Nicolau Dias, Fr. Luís de Sotomaior 4, Fr. Francisco Foreiro5, Fr. António de S. Domingos 6, Fr. Manuel
1 Abreviatura de frade ou frei. A abreviação, ordinariamente, precede os nomes dos indivíduos que são frades ou
cavaleiros de alguma ordem religiosa e militar. Disponível em: [Link] Acesso em:
20/09/2016. Utilizaremos doravante para nos referimos a frade e/ou frei.
2 Prior, substantivo masculino, correspondente à superior de uma ordem religiosa ou militar (HOUAISS; VILLAR, 2009,
p.1552), no caso: Superior Conventual da Ordem dos Pregadores. Ao prior são conferidos o poder ordinário e o governo
de um convento, possuindo o direito sobre questões internas e externas dos frades inscritos na região conventual. Cabe
aos priores conventuais promover uma vida apostólica e fraterna; suprir as necessidades da comunidade fraternal; e
inspecionar o cumprimento dos deveres por partes dos frades (LCO, OP, 2010, p. 115-117).
3 Importante ressaltar que em 1516 o Papa Leão X (1513-1521) coloca sob autoridade episcopal, de cada região
pastoral/diocese, todos os religiosos, até mesmo os mendicantes que deviam obediência ao mestre da Ordem (DANIEL-
ROPS, 1999, p. 22). Essa determinação papal se relacionava com toda atividade e exercício do ministério exterior, desse
modo, é nesse contexto que se insere a proibição do arcebispo de Lisboa a Nicolau Dias nos que diz respeito aos ofícios
da pregação e confissão.
4 Fr. Luis de Sotomaior foi confrade da Ordem dos Pregadores, catedrático de Sagrada Escritura e célebre biblista
conimbricense (MARQUES, 2010, p. 213-214).
5 Fr. Francisco Foreiro (1523-1581) foi fundador do Convento São Paulo, em Almada (Portugal), e célebre teólogo
tridentino (MARQUES, 2010, p. 214). O referido convento religioso foi fundado no ano de 1569. Disponível em:
[Link] Acesso: 20/09/2016.
6 Fr. António de S. Domingos (1531-1596) foi teólogo na Universidade de Coimbra, “brilhante comentador de São Tomás
de Aquino” (MARQUES, 2010, p. 214) e pregador das Exéquias da Rainha D. Catarina (1507-1578) e do Cardeal-Rei D.
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da Costa e Fr. Estevão de Sampaio foram alguns dos frades dominicanos que sofreram as sanções
de D. Filipe II. Dias foi enviado para o exílio no Mosteiro Santa Maria de Neiva, em Salamanca,
Espanha (ROLO, 1982; ROLO, 2000; MARQUES, 2010).
Posteriormente no perdão geral concedido por Filipe II 7, “apareceram excluídos os religiosos
dominicanos: Manoel Costa, Estevão Leitão, Luís Sotomaior, Nicolau Dias e António de Sena, todas
figuras de proa da província portuguesa” (MARQUES, 2010, p. 215). Dias sofreu alguns anos com o
exílio em território espanhol e retornou, já nos anos finais de sua vida, para o mosteiro de São
Domingos, em Lisboa, no qual faleceu em 06 de fevereiro de 1596.
No que concerne as discussões acerca das produções de Fr. Nicolau Dias, o mesmo é
reconhecido pela historiografia portuguesa e brasileira como produtor de obras religiosas,
especialmente de algumas consideradas clássicas da literatura lusitana (MARGERIE, 1991). Dentre
as obras religiosas de Dias destacamos: o Livro do Rosário de Nossa Senhora (1573) e o Tratado
da Paixão de Cristo Nosso Senhor Jesus (1580). Também lhe foi concedida a autoria de Vida da
Sereníssima Princesa Dona Joana (1585), de Tratado sobre o Juízo Final, as Excelências de S.
João Baptista e Peregrinação à Terra Santa (ROLO, 1982, p. 1).
Com relação ao Livro do Rosário de Nossa Senhora (1573), conforme já declarado, este fora
produzido após o encontro de Dias com o papa Pio V (1566-1572. Nesse período, século XVI, a
Igreja Católica empreendia a sua Reforma, cujo o principal objetivo era retomar a hegemonia que
havia perdido no campo religioso europeu, com o surgimento das diferentes denominações
protestantes (CORDEIRO, 2017).

2 MATERIAL E MÉTODOS

A obra Livro do Rosário de Nossa Senhora (1573), é um documento escrito de cunho religioso
e dedicado a devoção do Rosário da Virgem Maria, composto por quatro livros e tem enquanto
objetivo principal a pretensão de conduzir o leitor a adesão da devoção do rosário, conforme os
preceitos da Igreja Católica, especialmente àqueles difundidos pela Reforma Católica.
No Livro Primeiro o autor apresenta a narrativa de “fundação” da devoção do Rosário – a
partir da manifestação da Virgem Maria à São Domingos de Gusmão –, a configuração da confraria
mariana da devoção, as formas como ocorreram a expansão devocional, os nomes que recebeu e
as orações que compõem o Rosário: o Pai Nosso e a Ave Maria. Por sua vez, o Livro Segundo,
dedicado aos mistérios do rosário, é formado pelas reflexões dos mistérios ou estações do Rosária a
partir da base bíblica-teológica. Nele, a narrativa, expressa de forma didática, apresenta cada
mistério que compõe o Rosário divido em três momentos específicos: “síntese do mistério
evangélico, série de sugestões meditativas recheadas de referências à Sagrada Escritura e
aplicação conclusiva como fruto espiritual ou reflexão a tomar pelo devoto.” (ROLO, 1982, p. 4).
O Livro Terceiro das indulgencias, como o título já nomina, é dedicado às concessões papais
e episcopais, dadas aos que seguem a devoção do Rosário, especialmente os confrades. São
apresentadas as bulas papais dos Papas Sixto IV5(1471-1484), Inocêncio VIII 6(1484-1492),
Alexandre VI7 (1492-1503), Leão X8 (1513-1521), Clemente VII9 (1523-1534), Paulo III10 (1534-
1547), Júlio III11 (1550-1555), Pio IV12(1559-1565), Pio V13(1566-1572), Paulo III14(1534-1549) e
João XXII15(1316-1334). No quarto, e último livro, composto por hagiografias, são narrados milagres
operados por Deus a “todos os devotos” do Rosário. Fr. Nicolau Dias (1573), se alicerçou em três
obras dedicadas ao Rosário e produzidas anteriormente, sendo os livros devocionais de Fr. Alano da

Henrique (1512-1580) (MARQUES, 2010, p. 214).


7 O perdão geral de Filipe II foi fixado na “portaria do Convento de Cristo, em Tomar [em Portugal], a 18 de Abril de
1581” (MARQUES, 2010, p. 214-215).
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Rocha, Fr. Alberto do Castelo ou Alberto Castelano e Fr. Jerónimo de Taix. Para a presente
discussão abordaremos algumas hagiografias que compõem o Livro Quarto.
Metodologicamente partimos das reflexões de Michel de Certeau (1982) e Gerardo Fabián
Rodríguez (2012) sobre a tipologia narrativa da hagiografia. Segundo os autores a referida tipologia
textual privilegia os atores do sagrado, santos e santas, e tem por missão edificar ou dar exemplo,
exemplaridade (CERTEAU, 1982). A hagiografia está na extremidade da historiografia, nela os fatos
narrados são significantes a uma verdade posta que constrói uma organização “edificando” sua
manifestação. (CERTEAU, 1982, p. 266). As hagiografias permitem compreender práticas cotidianas
por meio de elementos, interações construídas e pelos personagens inseridos na narrativa sagradas.
(RODRÍGUEZ, 2012). Tais características textuais são marcadamente expressas no Livro do
Rosário de Nossa Senhora (1573), evidenciando que a pretensão de Nicolau Dias era apresentar o
quão exemplar era a devoção mariana do rosário e a importância da fé católica à Virgem Maria.
Além disso segundo Michel de Certeau (1982, p. 267), a narrativa hagiográfica, fundamenta-
se em um discurso que pretende edificar uma personagem, no caso o santo ou a santa. Nela o
indivíduo possui menor relevância diante da função e tipo de representação que assume na
sociedade. Uma imagem é construída por meio de elementos semânticos, na qual uma origem nobre
é dada com a finalidade de enaltecer o santo. Essa nobreza não está relacionada diretamente às
questões econômicas, mas antes nas virtudes. “Cada vida de santo deve ser antes considerada
como sistema que organiza uma manifestação graças à combinação topológica de “virtudes” e de
“milagres”.” (CERTEAU, 1982, p. 267).
A partir de tais referenciais teóricos e metodológicos analisamos quatro hagiográficas, das
quarenta e cinco “histórias sagradas” que compõem o Livro Quarto em que se contam alguns
milagres (DIAS, 1573, p. 289-383), sendo: Como por virtude do Rosário se reformaram os bons
costumes de um mosteiro (DIAS, 1573, p. 300-304), Como por virtude do Rosário sarou uma
endemoninhada (DIAS, 1573, p. 316-318), Como um homem atormentado do Demônio que sarou
por virtude do Rosário (DIAS, 1573, p. 319-320), e Como um homem que se tinha dado ao Demônio,
foi livre por virtude do Rosário (DIAS, 1573, p. 321-325). A escolha das mesmas se pautou nas
personagens sagradas que estas apresentam: a Virgem Maria e o Demônio. Além disso, a eleição
das mesmas se fez na perspectiva que refletir sobre o uso que Fr. Nicolau Dias fez da narrativa
hagiográfica, com a finalidade de formalizar a prática da devoção do Rosário ao construir uma trama
contrapondo as ações do Demônio com as ações da Virgem Maria por meio do seu Rosário.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Compreendendo que “[...] o relato hagiográfico obedece a regras precisas, estabelecidas e


legadas pelos Pais da Igreja, que instituíram a história do povo cristão na sua marcha para a
salvação” (PEREIRA, 2007, p. 168), nosso maior objetivo foi compreender o uso das narrativas
hagiográficas enquanto recurso pedagógico de transmissão de valores e de comportamentos feitas
pelo frade dominicano Nicolau Dias, na obra Livro do Rosário de Nossa Senhora (1573),
especialmente no contraponto estabelecido entre as ações operadas pela Virgem Maria e pelo
Demônio. Cabe mensurar que ambas personagens – Virgem Maria e Demônio – perfazem a história
do cristianismo, especialmente a partir do período medieval, a ponto de ser permitido ser pensar em
um “complexo monoteísmo”, conforme defende Jérome Baschet (2006, p. 325).
A oposição entre a Virgem Maria e o Demônio, não é uma exclusividade narrativa do Livro do
Rosário de Nossa Senhora (1573). Podemos mencionar, por exemplo, as hagiografias consignadas

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em Los Milagros de Nuestra Señora, de Gonzalo de Berceo (1198-1264) 8, sendo que nestas o
Demônio foi retratado como um ser possuído de poliformia.
Fr. Nicolau Dias ao representar o Demônio em suas narrativas, o apresenta sem forma
definida e com algumas características dos seres humanos, como os riso. Compreendemos, a partir
disso, que Dias (1573), de certa maneira, configura-se enquanto um herdeiro das representações
demoníacas enquanto “consciência individual”, já existentes na Idade Média Central. Segundo
Jerôme Baschet (2006, p. 328), no referido período histórico, a crença no Demônio se expressava
mais nas culpabilidades, atormentações e divisões provocadas pelas “consciências individuais”, do
que propriamente sob uma forma física única. Reconhecendo em si o mal, que era preciso repelir, a
consciência cristã atribui aos desejos negados dos desígnios tentadores do demônio. Tal concepção
possibilitava ao demônio assumir e se apoderar de formas humanas e de expressar ou ser
expressão de sentimentos humanos.
Na construção narrativa de Fr. Nicolau Dias o Demônio foi expresso enquanto um “espírito”
perturbador da psique humana que se apoderava de corpos humanos, do que um ser de forma física
definida. (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1986, p. 215). Embora a quantidade de hagiografias que
abordem as ações demoníacas, contrapostas as da Virgem Maria e seu Rosário, seja pequena -
aproximadamente 8,9 % das narrativas – estas nos auxiliaram na compreensão dos recursos de
legitimação e de validação utilizados por Fr. Nicolau Dias para a promoção do Rosário. Ademais,
asseveramos ser significativas as narrativas construídas contrapondo o “arqui-inimigo” de Deus, ou a
divindade negativa do cristianismo, pois a danação e o medo do Demônio eram uma realidade do
homem quinhentista. (DELUMEAU, 1967).
Diante desse contexto de medo da figura do Demônio, Fr. Nicolau Dias constrói um discurso
no qual este ser sagrado, mesmo sendo detentor de um poder excepcional, não conseguia
atormentar e atingir os fiéis que recitavam o Rosário da Virgem.

Conta o mesmo Padre fei [sic] Jeronimo no dito livro, que na Província de Aragão, da ordem de
São Domingos, havia um Padre chamado frei João Amat, tão devoto do Rosário de nossa
Senhora, que senão contentava com o rezar todo cada dia, e trazê-lo sempre ao pescoço, mas
nas confissões e pregações, e práticas familiares, admoestava e induzia a todos que se
fizessem confrades de nossa Senhora, e fossem muitos devotos do seu Rosário [...] Pregando
este Padre numa Quaresma, em um lugar do Reino de Catalunha, que se chama as Borias
brancas, três léguas da cidade de Lérida, entrou o demônio em uma moça e atormentava-a
muito. Os clérigos esconjuravam-no que saísse dela, mas o demônio zombava disso. E
estando-o esconjurando, chegou o dito Padre [frei João Amat], e começou também a
esconjurar, especialmente por virtude do Santo Rosário, pondo-lhe ao pescoço. O demônio
dava grandes gritos, queixando-se que aqueles grãos o atormentava muito. A noite seguinte
estando o dito Padre recolhido, os demônios que atormentavam a moça vieram a ele, e
começaram a mal tratar, trabalhando muito por lhe tirar o Rosário que o tinha. Ele como depois
de nosso Senhor toda sua confiança tinha na Virgem gloriosa, e na devoção do Rosário,
apertava-o fortemente, e não dizia outra coisa senão Virgem Maria do Rosário ajuda-me. E isto
disse tantas vezes, até que os demônios o deixaram. Pela manhã indo o dito Padre para à
igreja, encontrou com a moça, e o demônio começou a dizer. Esta noite medo tiveste de nós
outros, e senão foram esses grãos que trazes ao pescoço, tu verias o que te fazíamos. Então
disse o Padre. Pois por virtude destes grãos, com o nome de meu Senhor Jesus Cristo, e de

8 Los Milagros de Nuestra Señora, é uma obra de conteúdo hagiográfico, composta por uma introdução em louvor a
Virgem Maria e mais vinte e cinco poemas, cada um com uma narrativa completa de um milagre. A redação foi iniciada,
provavelmente, em 1246 e especula-se que somente depois de 1252 foi acrescentado na hagiografia o milagre XXIV –
La Iglesia Robada. Sendo assim, a data mais provável de conclusão de Los Milagros de Nuestra Señora, é nas
proximidades do ano 1253. Eles foram redigidos no dialeto riojano (ou castelhano) e no território de La Rioja, então reino
de Castela. Los Milagros de Nuestra Señora, também, foram compostos em um duplo ambiente social: o mosteiro
beneditino de San Millán de la Cogolla e a Paróquia de Berceo.
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sua gloriosa mãe, vós saireis do corpo desta moça, e pôs o Rosário no pescoço da
endemoniada. Finalmente o demônio desta maneira saiu desta moça, e a deixou de
atormentar. E por razão deste milagre, os daquele lugar ficaram todos muito devotos do
Rosário de nossa S. e edificaram uma Capela a honra de nossa S. do Rosário, como ainda
hoje está. (DIAS, 1573, p. 316-318; grifos nossos).

Denominando o Rosário como o colar de contas, ou “grãos”, que afasta o Demônio e sua
legião de anjos Nicolau Dias busca apresentar e convencer o seu leitor das benesses da devoção
frente aos desígnios malignos. Fr. Nicolau Dias deixa na entrelinhas, por meio da narrativa expressa,
que o objeto Rosário, ou colar de contas, possuía a eficácia diante dos desígnios demoníacos se
fosse rezado adequadamente, desse modo, constatamos que a prática do orar que possuía sua
importância no discurso de Dias e não o objeto. Este objeto era apenas um instrumento para os
benefícios maiores que poderia ser conseguidos pelos devotos. Cabe destacar que outras narrativas
deram tal ênfase acerca do objeto Rosário e do seu uso adequado na devoção, como instrumento
no combate ao Demônio.
Na narrativa De um homem atormentado do Demônio que sarou em virtude do Rosário, por
exemplo, Fr. Nicolau Dias relata que um homem estava sendo atormentado pelo Demônio e ganhou
dos pais um Rosário abençoado. Além disso, o referido homem foi inscrito em uma Confraria do
Rosário. Levando consigo o objeto de devoção e recitando a oração do Rosário, o homem teria
compreendido que tais atitudes conduziram a sua libertação do Demônio, uma vez que este não o
atormentava mais. Em outras palavras, o Demônio teria observado a perseverança do então “neo-
devoto do Rosário” (DIAS, 1573, p. 319-320) e que as novas atitudes o impediam de atormentar o
homem.
Ambas as narrativas demonstram a intencionalidade de Fr. Nicolau Dias ao propor que a
obstinação na devoção do Rosário afastava o inimigo de Deus e sua legião de anjos, entretanto era
necessário realizar as litanias de forma adequada, pois só o objeto não tinha o “poder” de combate,
propondo discursivamente a partir do não-dito (CERTEAU, 1982; ORLANDI, 2003) que obra ou
objeto sem fé, nada seria9.
Constatou-se, também, que os embates entre as forças sagradas positivas e negativas, nas
narrativas de Fr. Nicolau Dias, se faziam em períodos de vida dos indivíduos, pois em todas as
hagiografias o Demônio atormenta pessoas vivas, não almas de defuntos condenados à danação.
Sendo assim, depreendemos que o dominicanos tinha por objetivo conduzir seus leitores, por meio
dos exemplos, à prática do Rosário pela própria alma e em vida. Além de libertar os vivos das
possessões e atormentações demoníacas, a prática do Rosário, é no discurso de Dias, se recitado
adequadamente, era instrumento de libertação de “pactos” com o demônio.

[...] um homem muito agastado por se ver pobre não ter com que se sustentar, nem a sua
mulher e filhos [...] lhe apareceu o demônio [...] e disse-lhe que se ele quisesse arrenegar de
Deus, e do Batismo, e fazer-se seu vassalo, prometendo de ser seu perpetuamente, e de disso
lhe desse um assinado feito com seu sangue, que ele lhe prometia de remediar sua pobreza e
fazê-lo rico [...] Feito, disse-lhe o demônio que fosse para casa e que casasse em certa parte, e
acharia grande quantidade de dinheiro, e assim foi. [...] Um dia este homem foi em companhia
ao mosteiro de São Domingos, e esteve a pregação, na qual o pregador repreendeu muito aos
que andavam apartados de Deus, e obstinado em pecado, dizendo os grandes perigos em que
andavam. Tratou também muito da misericórdia de Deus, e encomendou a devoção do
Rosário, por cuja virtude nosso Senhor obrava muitas maravilhas. Todas estas coisas
penetraram o coração daquele homem, e logo se fez escrever por confrade de nossa Senhora,

9 Referência a Tiago 2, 26, passagem bíblica, no qual o referido apóstolo declara em sua epistola que fé e obras
precisavam estar juntas para que ocorresse a salvação entre os cristãos. Tecendo referências ao corpo humano,
enfatiza que “tal como o corpo está morto se não há espírito nele, assim também a fé sem obras está morta.” (Ti 2, 26).
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e começou a rezar o Rosário. E ainda que o demônio zombava dele, dizendo que lhe não
aproveitava tudo aquilo nada, ele perseverava em sua devoção. Finalmente um dia com grande
contrição veio a igreja de São Domingos, e posto de joelhos diante do altar de nossa Senhora
do Rosário, começou a orar com muitas lágrimas, e pedir socorro a Virgem gloriosa nossa
Senhora, afirmando que se não havia de tirar diante do seu altar, até não entender que nosso
Senhor por sua intercessão lhe tinha perdoado seus pecados, e isto entendia se lhe tornasse a
mão o escrito que tinha dado [ao demônio]. Coisa maravilhosa, perseverando este homem em
sua oração com tanta humildade, viu cair da mão da imagem da Senhora seu escrito [...].
(DIAS, 1573, p. 321-324).

Verificamos, de forma reincidente no discurso de Fr. Nicolau Dias, o destaque dado à


perseverança na recitação do Rosário. Para o referido dominicano a persistência e permanência do
fiel na devoção do Rosário conduzia-o a libertação e afastamento do Demônio, pois tais atitudes
realizariam a aproximação do fiel com a Virgem Marina.

4 CONCLUSÃO

Em suma, podemos observar na análise de algumas hagiografias constantes no Livro do


Rosário de Nossa Senhora (1573), de Fr. Nicolau Dias, que a maior intencionalidade do autor era de
conduzir e promover a recitação do Rosário. Na perspectiva de conseguir um maior número de
adeptos e fazê-los compreender a importância da devoção do Rosário para a Igreja Católica, o
referido frade fez uso da figura do Demônio, um “arqui-inimigo” histórico da instituição cristã. Tal uso
ia ao encontro de duas perspectivas: promover a devoção e oferecer um bem de salvação possível
para livrar os homens religiosos do século XVI da danação. Em um contexto histórico de fortes
contendas e disputas por espaços religiosos, Fr. Nicolau Dias se expressou defensor um uma
devoção católica e, principalmente, dominicana.

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