Artgos
DIREITOS HUMANOS E DIREITOS FUNDAMENTAIS:
CONCEITO, OBETIVO E DIFERENA
Rúbia Zanotelli de Alvarenga
INTRODUÃO razão, inclusive, oi inserida, na Consuição
Federal de 1988, a proteção ao meio ambiente
Para ns de conceiuação dos (direitos humanos de terceira geração).
Direitos Humanos Fundamentais, entende- Após se traçarem o conceito e o
se, aqui, serem direitos inerentes à condição objevo dos Direios Humanos Fundamenais,
humana e anteriores ao reconhecimento é necessário esabelecer a disnção enre
do direio posivo. São direios oriundos de os “Direitos Humanos” e os “Direitos
consequências ou de reivindicações geradas Fundamentais”, por serem duas expressões
por siuações de injusça ou de agressão a comumente consideradas como sinônimas.
bens fundamentais do ser humano. Assim sendo, no momento em que
Nese sendo, compreendem direios os Direitos Humanos são incorporados pela
da pessoa humana, pela sua natureza, que Consuição de um país, eles ganham o status
transcendem os Direitos Fundamentais, em de Direitos Fundamentais, haja vista que o
decorrência de o seu conteúdo ser dotado de consuine originário é livre para eleger, em
uma ordem de princípios universais, válidos um elenco de direitos humanos, aqueles que
em todos os lugares e em todos os tempos, serão consucionalizados por um Esado ou
para todos os povos, independentemente de Nação. Somene a parr de enão, eles serão
mera posivação. dos como direios undamenais. Logo, os
Quano ao objevo dos Direios Direitos Fundamentais têm como antecedente
Humanos Fundamentais, está a proteção que o reconhecimento dos Direitos Humanos.
vai além do amparo individual das pessoas, Eis o que se vai elucidar no presente
abrangendo oda a colevidade. Por esa argo nas páginas que se seguem.
Rúbia Zanoelli de Alvarenga
Mestre e Doutora em Direito do Trabalho pela Puc Minas. Professora Titular do
Centro Universitário do Distrito Federal – UDF, Brasília. Advogada.
22
Direios Humanos Trabalhisas
Artgos
1 Conceito de direitos humanos de possibilidade para que um ser seja
fundamentais reconhecido como homem pelo direito.
por isso que integram a sua condição.
Segundo Fernando Gonzaga Jayme, Dessa maneira:
direitos humanos fundamentais são uma
via, um método a ser desenvolvido por toda Tais exigências não dependem do
espaço sico ou do empo, pois se
a humanidade em direção à realização da
tendem universais e se traduzem em
dignidade humana, m de odos os governos
predicados presentes em todos os seres
e povos. Por meio dos direitos humanos, com parimônio genéco compavel
assegura-se o respeito à pessoa humana, e, com o humano, independentemente
por conseguinte, sua existência digna, capaz de condição social, traços raciais,
religiosos, culturais ou de qualquer
de propiciar-lhe o desenvolvimento de sua
outra ordem. Assim, v.g., a vida, a
personalidade e de seus potenciais, para
liberdade, a possibilidade de aquisição
que possa alcançar o sendo da sua própria de propriedade são direitos que se
exisência. Isso signica conerir liberdade no vinculam ao fato de o indivíduo ser
desenvolvimento da própria personalidade.1 reconhecido enquanto homem e,
como tal, ser dotado de vontade, de
De acordo com Enoque Ribeiro
consciência, de percepção e de outras
Santos, o conceito da expressão “direitos
caraceríscas que o ornam pare do
humanos” pode ser atribuído aos valores ou gênero humano.3
direitos inatos e imanentes à pessoa humana,
pelo simples fato de ter ela nascido com Seguindo-se, então, a assaz apropriada
esa qualicação jurídica. São direios que visão de João Bapsa Herkenho:
pertencem à essência ou à natureza intrínseca
da pessoa humana e que não são acidentais ou Por direitos humanos ou direitos
susceveis de aparecerem e de desapareceram do homem são, modernamente,
entendidos aqueles direitos
em determinadas circunstâncias. São direitos
fundamentais que o homem possui
eernos, inalienáveis, imprescriveis que se
pelo fato de ser homem, por sua própria
agregam à natureza da pessoa humana pelo natureza humana, pela dignidade
simples ao de ela exisr no mundo do direio.2 que a ela é inerente. São direitos que
Sobre a emáca, ensina Cláudio não resultam de uma concessão da
sociedade políca. Pelo conrário, são
Brandão que o conteúdo dos direitos
direios que a sociedade políca em o
humanos vincula-se à condição humana,
dever de consagrar e de garanr.4
consuindo-se os direios humanos em
exigências cuja sasação é condição
3 BRANDÃO, Cláudio. Introdução ao estudo
dos direitos humanos. In: BRANDÃO, Cláudio (Coord.).
1 JAYME, Fernando Gonzaga. Direitos humanos Direios humanos e undamenais em perspecva. São
e sua eevação pela core ineramericana de direios Paulo: Atlas, 2014, p. 5.
humanos. Belo Horizone: Del Rey, 2005, p. 9.
4 HERKENHOFF, João Bapsa. Curso de direitos
2 SANTOS, Enoque Ribeiro. Direitos humanos e humanos: gênese dos direitos humanos. Rio de Janeiro:
negociação coleva. São Paulo: LTr, 2004, p. 38. Acadêmica, 1994, p. 30.
23
Direios Humanos Trabalhisas
Artgos
Já pela óca de Alexandre de Moraes, os humana”.7 Ainda conforme Alexandre de
direitos humanos fundamentais “se colocam Moraes:
como uma das previsões absolutamente
necessárias a odas as Consuições, no sendo O importante é realçar que os
direitos humanos fundamentais
de consagrar o respeito à dignidade humana,
relacionam-se diretamente com a
garanr a limiação de poder e visar ao pleno
garana de não ingerência do Esado
desenvolvimento da personalidade humana”.5 na esfera individual e a consagração
Assim sendo: da dignidade humana, tendo um
universal reconhecimento por parte
A previsão dos direitos humanos da maioria dos Estados, seja em nível
fundamentais direciona-se basicamente consucional, inraconsucional, seja
para a proteção à dignidade humana em nível de direito consuetudinário
em seu sendo mais amplo, de valor ou mesmo por tratados e convenções
espiritual e moral inerente à pessoa, internacionais.8
que se manifesta singularmente
na autodeterminação consciente e
responsável da própria vida e que traz 2 Objevo dos direios humanos
consigo a pretensão ao respeito por
fundamentais
pare das demais pessoas, consuindo-
se um mínimo invulnerável que todo
estatuto jurídico deve assegurar, de Vê-se, concorde Jackeline Guimarães
modo que, somente excepcionalmente, Almeida Franzoi, que o grande objevo dos
possam ser feitas limitações ao exercício direios humanos compreende a proeção ecaz
dos direitos fundamentais, mas sempre
da dignidade da pessoa humana, incluindo-se,
sem menosprezar a necessária esma
aí, valores como o direito à vida, à liberdade, à
que merecem todas as pessoas
enquanto seres humanos.6 segurança e à propriedade, dentre outros.9
Nessa eseira, pode-se armar que
Nesta linha de pensamento, os Direitos os direitos fundamentais “têm a função de
Humanos Fundamenais consuem “o conjuno promover o ser humano, dando-lhe condições
insucionalizado de direios e de garanas do de realizar-se plenamente e de emancipar-se
ser humano, que em por nalidade básica primeiro”.10
o respeito a sua dignidade, por meio de sua A respeito, assinala Silvio Beltramelli
proteção contra o arbítrio do poder estatal, e que qualquer denição do que sejam direios
o estabelecimento de condições mínimas de
vida e de desenvolvimento da personalidade 7 MORAES, op. cit., p. 20, nota 5.
8 Id., p. 21.
5 MORAES, Alexandre de. Direitos humanos 9 FRANZOI, Jackeline Guimarães Almeida. Dos
fundamentais. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2011, p. 2. direitos humanos: breve abordagem sobre seu conceito,
sua hisória, e sua proeção segundo a Consuição
6 Ibid., Direitos humanos fundamentais e as
brasileira de 1988 e a nível internacional. Paraná. Revista
consuições brasileiras. In: SILVA, Jane Granzoo Torres
urídica Cesumar, v. 3, n. 1, 2003, p. 381.
da. (Coord.).Consucionalismo social: estudos em
homenagem ao Ministro Marco Aurélio Mendes de Farias 10 ROTHENBURG, Walter Claudius. Direitos
Mello. São Paulo: LTr, 2003, p. 229. fundamentais. São Paulo: Método, 2014, p. 44.
24
Direitos Humanos Trabalhistas
Artgos
humanos não pode deixar de parr da noção mesma salvaguarda.14
de dignidade da pessoa humana, seja sob o
prisma eleológico, por possuir um objevo a No caso brasileiro, Silvio Beltramelli
ser angido; seja sob o prisma hermenêuco, Neto relata:
por ensejar a ulização de um criério ensejador
Esta realidade é facilmente aferível
de interpretação e de aplicação conforme as
na Consuição Federal de 1988, que,
normas incidentes; seja ainda sob o prisma em resposta aos “anos de chumbo” –
axiológico, que consiste no domínio dos valores que marcaram a ditadura militar que
que direcionam as normas enunciadas e a se impôs ao País a parr de 1964 – e
sua aplicação.11 Como ainda observa o autor proeminentemente fundamentada na
dignidade da pessoa humana (art. 1,
em tela, a dignidade da pessoa humana é o
III), agrupou, sob o seu Título II – “Dos
nore da posivação dos direios humanos, direios e garanas undamenais”,
tanto em tratados internacionais, quanto em disposições explicitamente
consuições nacionais, consisndo, assim, no reconhecidas como tutelares de
m maior do Direio.12 direitos fundamentais, sem prejuízo
de enunciações alocadas em outros
Também consoante o autor em
tópicos do documento ou, ainda, feitas
comento, a dignidade da pessoa humana de modo implícito, como autorizado, às
possui caráer muldimensional e individual. claras, pelo seu ar. 5°, § 2°.15
Muldimensional, porque congrega diversos
atributos intrínsecos do ser humano, como a Na percepção de Alexandre de Moraes,
liberdade, a igualdade, a inegridade sica e o princípio fundamental consagrado pela
psíquica. E Individual, porque, embora inerente a Consuição Federal da dignidade da pessoa
odo ser humano, é moldada com caraceríscas humana apresenta-se em sua dupla concepção.
próprias, delineadas pelo contexto histórico- Em primeiro lugar, prevê um direito individual
13
cultural que circunda o indivíduo. Não é por proevo, seja em relação ao próprio Esado,
menos que: seja em relação aos demais indivíduos. Em
segundo lugar, estabelece verdadeiro dever
A salvaguarda da dignidade da fundamental de tratamento igualitário dos
pessoa humana, a despeito de ser
próprios semelhantes.16 Este dever, de acordo
o viés mediato de toda a prescrição
normava de comporamenos, passou com o autor:
a inspirar e embasar, de modo direto,
explício e enáco, um conjuno de Congura-se pela exigência do (sic)
normas jurídicas que se enunciam
exclusivamente em função dessa 14 Id., p. 31.
15 BELTRAMELLI NETO, Silvio. Direitos humanos.
Salvador: Juspodivm, 2014, p. 31.
16 MORAES, Alexandre de. Direitos humanos
11 BELTRAMELLI NETO, Silvio. Direitos humanos. undamenais e as consuições brasileiras. In: SILVA,
Salvador: Juspodivm, 2014, p. 29. Jane Granzoto Torres da. (Coord.). Consucionalismo
social: estudos em homenagem ao Ministro Marco
12 Id., p. 30.
Aurélio Mendes de Farias Mello. São Paulo: LTr, 2003, p.
13 Id., p. 30. 229.
25
Direios Humanos Trabalhisas
Artgos
indivíduo respeitar a dignidade de seu bens necessários à vida”.21
semelhane al qual a Consuição
Federal exige que lhe respeitem a
Ingo Wolgang Sarle, relavamene ao
própria. A concepção dessa noção de
dever fundamental resume-se a três tema, esclarece:
princípios do direito romano: honestere
vivere (viver honestamente), alerum Em que pese sejam ambos os termos
non laedere (não prejudique ninguém) (“direitos humanos” e “direitos
e suum cuique ribuere (dê a cada um o undamenais”) comumene ulizados
que lhe é devido).17 como sinônimos, a explicação
corriqueira e, diga-se de passagem,
procedene para a disnção é de que
3 Direitos humanos e direitos
o termo “direitos fundamentais” se
fundamentais: diferença aplica para aqueles direitos do ser
humano reconhecidos e posivados
Os direitos humanos são aqueles na esera do direio consucional
previstos em tratados internacionais e posivo de deerminado Esado,
ao passo que a expressão “direitos
considerados “indispensáveis para uma
humanos” guardaria relação com os
existência humana digna, como, por exemplo, documentos de direito internacional,
a saúde, a liberdade, a igualdade, a moradia, a por referir-se àquelas posições jurídicas
educação, a inmidade”.18 que se reconhecem ao ser humano
Neste enleio, Samuel Sales Fonteles como tal, independentemente de
sua vinculação com determinada
conceitua os Direitos Fundamentais como sendo
ordem consucional, e que, porano,
os “direios relavos a uma exisência humana aspiram à validade universal para
digna, reconhecidos por uma Consuição, que todos os povos e tempos, de tal sorte
impõem deveres ao Estado, salvaguardando o que revelam um inequívoco caráter
indivíduo ou a colevidade”.19 Por implicarem, supranacional (internacional).22
portanto, “deveres jurídicos ao Estado, os
direios undamenais são classicados como Os Direitos Fundamentais, assim, são os
elemenos limiavos das Consuições”.20 direios humanos incorporados, posivados, em
Quanto aos Direitos Humanos, assevera regra, na ordem consucional de um Esado.
Flores, ciado por Chrisana D’arc Damasceno Em al emáca, convém desacar, adiane, o
Oliveira: “Mais que direitos propriamente ditos pensamento de Silvio Beltramelli Neto:
são processos, ou seja, o resultado, sempre
Em sendo a nalidade dos direios
provisório, das lutas que os seres humanos
humanos a salvaguarda jurídica do valor
põem em práca para poder er acesso aos maior da dignidade da pessoa humana
17 Id., p. 230. 21 OLIVEIRA, Chrisana D’arc Damasceno. (O)
direito do trabalho contemporâneo. São Paulo: LTr, 2010,
18 FONTELLES,[Link]
p. 65.
para concursos. Salvador: Juspodivm, 2014, p. 14.
22 SARLET, Ingo Wolfgang. A ecácia dos direios
19 Id., p. 15.
fundamentais. 6. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado,
20 Id., p. 15. 2006, p. 36.
26
Direitos Humanos Trabalhistas
Artgos
e dos demais valores que condicionam Razão pela qual Yara Maria Pereira Gurgel
a sua preservação (liberdade, igualdade arma que “os direios humanos são essenciais
ec.), sua enunciação normava
à existência do homem em sociedade. o piso
dá-se, prioritariamente, na forma
de princípios que são consagrados mínimo de direitos que a Ordem Internacional
pelas consuições democrácas desna a odos os seres vivos, que deve ser
contemporâneas sob a alcunha de respeitado pelo Estado e oferecido a seus
direitos fundamentais.23 jurisdicionados”.26
A respeito do tema, assinala Marcelo
Vale ressaltar, nesta seara, em Freire Sampaio Cosa que a disnção mais
consonância com Silvio Beltramelli Neto, que, relevante entre as opções de nomenclaura de
para sustentar a proteção e a promoção dos “direitos humanos” e “direitos fundamentais”
direitos fundamentais, é preciso observar cinge-se à questão da “concreção posiva”. Os
três instrumentos básicos de qualquer ordem direios undamenais possuem sendo preciso,
jurídica consucional democráca, a saber: a) restrito, despido da ideia de atemporalidade
o Esado Democráco de Direio, que vincula e e vigência para todos os povos, pois estão
limita o poder estatal (histórica aspiração dos juridicamene insucionalizados na esera
direios humanos); b) a rigidez consucional, do direio posivo de deerminado Esado,
que consiste no escudo contra o retrocesso portanto, também limitados ao lapso temporal
jurídico em relação aos direitos já enunciados; de vigência da Carta de direitos desse ente.
c) o conrole de consucionalidade, que Os direitos humanos, por sua vez, assumem
represena o mecanismo de desconsuição de contorno bem mais amplo, porque estão
atos de afronta.24 voltadosàprevisãoemdeclaraçõeseconvenções
Ainda no ocane à disnção enre internacionais com a pretensão de perenidade.
Direitos Humanos e Direitos Fundamentais, Ese auor desaca exisrem consuições que
Chrisana D’arc Damasceno Oliveira argumena não reconhecem, em seus textos, a totalidade
que os direitos humanos reportam a categorias de direitos humanos consagrados em textos
normavas desnadas a assegurar a dignidade inernacionais e a CF/88 er posivado como
da pessoa humana, com reconhecimento em direitos fundamentais alguns ainda nem
âmbito internacional – independentemente constantes em Cartas internacionais.27
de vinculação a uma ordem jurídica interna No mesmo sendo, susena Luño,
especíca – e que os direios undamenais se citado por Jane Reis Gonçalves Pereira:
reerem a caegorias normavas, omando em O termo direitos humanos tem um
conta os direitos humanos acolhidos, expressa
direito do trabalho contemporâneo. São Paulo: LTr,
ou implicitamente, na ordem jurídica de 2010, p. 65.
determinado Estado.25 26 GURGEL, Yara Maria Pereira. Direitos humanos,
princípio da igualdade e não discriminação. São Paulo:
LTr, 2010, p. 67.
23 BELTRAMELLI NETO, Silvio. Direitos humanos.
Salvador: Juspodivm, 2014, p. 42. 27 COSTA, Marcelo Freire Sampaio. Ecácia dos
direios undamenais enre parculares: juízo de
24 Id., p. 42
ponderação no processo do trabalho. São Paulo: LTr,
25 OLIVEIRA, Chrisana D’arc Damasceno. (O) 2010, p. 32.
27
Direios Humanos Trabalhisas
Artgos
alcance mais amplo, sendo empregado, especialmene nas suas Consuições. O
de um modo geral, para fazer referência autor, todavia, destaca que nem todo direito
aos direitos do homem reconhecidos
fundamental pode ser considerado um direito
na esfera internacional, sendo também
enendidos como exigências écas humano, assim como nem todo direito humano
que demandam posivação, ou seja, pode ser considerado um direito fundamental.
como um conjunto de faculdades e o caso, por exemplo, do direito à vida que,
insuições que, em cada momeno nos termos do art. 5º, caput, da Consuição
hisórico, concrezam as exigências da
brasileira de 1988, é um direito fundamental no
dignidade, da liberdade e da igualdade,
as quais devem ser reconhecidas Brasil, mas, em alguns ordenamentos jurídicos,
posivamene pelos ordenamenos existe a pena de morte, demonstrando que,
jurídicos em nível nacional e em alguns países, o direito à vida não é
internacional.28 fundamental, embora seja reconhecido como
um direito humano no plano internacional.30
Desse modo, arma com assaz exadão A Consuição Federal de 1988, em
Fábio Konder Comparato: seu Tíulo II, posivou pracamene odos os
direitos humanos, especialmente pela redação
A vigência dos direitos humanos
dos §§ 2° e 3° do argo 5º, razão pela qual,
independe de sua declaração
em consuições, leis e raados Carlos Henrique Bezerra Leie enaza não
internacionais, exatamente porque se haver movo para esabelecer a disnção, do
está diante de exigências de respeito ponto de vista do direito interno, entre direitos
à dignidade humana exercidas contra fundamentais e direitos humanos.31
odos os poderes esabelecidos, ociais
Samuel Sales Fonteles estatui não haver
ou não.29
qualquer diferença ontológica entre direitos
humanos e direitos fundamentais, possuindo,
Carlos Henrique Bezerra Leite também
ambos, na essência, o mesmo conteúdo. Como
esabelece a disnção enre “direios humanos”
observa, “não há o que diferenciar, a não ser
e “direitos fundamentais”. Os direitos humanos,
quanto ao âmbito de previsão de cada qual:
por serem universais, estão reconhecidos
enquanto os direitos humanos estão previstos
tanto na Declaração Universal de 1948 quanto
em tratados internacionais, os direitos
nos costumes, nos princípios jurídicos e
undamenais esão posivados em uma
nos tratados internacionais; ao passo que
Consuição”.32
os direios undamenais esão posivados
Concorde Cláudio Brandão, há
nos ordenamentos internos de cada Estado,
conexão entre os direitos humanos e os
direitos fundamentais, pois eles têm a mesma
28 PEREIRA, Jane Reis Gonçalves. Interpretação
consucional e direios undamenais: uma contribuição
ao estudo das restrições aos direitos fundamentais na
30 LEITE, Carlos Henrique Bezerra. Direitos
perspecva da eoria dos princípios. Rio de Janeiro:
humanos. 2. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2011, p. 34.
Renovar, 2006, p. 76.
31 Id.p. 34.
29 COMPARATO, Fábio Konder. A armação
histórica dos direitos humanos. São Paulo: Saraiva, 2003, 32 FONTELES, Samuel Sales. Direitos fundamentais
p. 224. para concursos. Salvador: Juspodivm, 2014, p. 15.
28
Direitos Humanos Trabalhistas
Artgos
substância. A diferença entre ambos é de inerente à condição do homem em sua aventura
forma e não de conteúdo, haja vista que os universal”.37 Assim, os direitos humanos são
direios humanos são insuos jurídicos do concebidos na dimensão mais abrangente
direito internacional; ao passo que os direitos possível do seu signicado: o caminho a seguir
undamenais são insuos jurídicos do direio na busca da felicidade – direito de todos os
inerno, inegranes do sisema consucional seres humanos.
de norma fundante do ordenamento jurídico Logo, seguindo-se o pensamento
33
interno. E, no caso brasileiro, “a concrezação mui asservo de Fábio Konder Comparao, “a
da Consuição Federal de 1988 subordina-se, vigência dos direitos humanos independe de
inescapavelmene, à eevidade dos direios sua declaração em consuições, leis e raados
fundamentais”.34 internacionais, exatamente porque se está
Há de se destacar, portanto, e, diante de exigências de respeito à dignidade
nalmene, consoane Norbero Bobbio, que humana exercidas contra todos os poderes
“os direitos humanos são coisas desejáveis, isto esabelecidos, ociais ou não”.38
é, ns que merecem ser perseguidos, e que, Contudo, importa destacar, concorde
apesar de sua desejabilidade, não foram ainda Norberto Bobbio, que o que se tem diante não
todos eles (por toda a parte e em igual medida) é losóco, porém jurídico; e, em sendo mais
35
reconhecidos”. amplo, políco. Não se raa de saber quais e
Neste viés, os Direitos Humanos, quantos são esses direitos (humanos), qual é
segundo José Luiz Quadros de Magalhães sua natureza e seu fundamento, se são direitos
signicam uma proposa de repensar o Direio naurais ou hisóricos, absoluos ou relavos,
e a Ciência em razão do ser humano, tendo em mas, sim, qual é o modo mais seguro para
visa que a única lógica cienca se enconra na garan-los, a m de se impedir que, apesar das
36
sua preservação e na sua dignidade. solenes declarações, eles sejam connuamene
Tais direitos visam ao direito de todos violados.39
a uma vida digna e ao bem-estar social, pois,
conforme estatui Cármen Lúcia Antunes CONCLUSÃO
Rocha, “[...] não basa o viver-exisr. Há que se
assegurar que a vida seja experimentada em Observa-se, por derradeiro, que o
sua dimensão digna, entendida como qualidade respeito aos Direitos Humanos representa um
princípio comum a todos os povos civilizados.
33 BRANDÃO, Cláudio. Introdução ao estudo
dos direitos humanos. In: BRANDÃO, Cláudio (Coord.).
Direios humanos e undamenais em perspecva. São
37 ROCHA, Cármen Lúcia Antunes. Vida e direito:
Paulo: Atlas, 2014, p. 5.
o direito à vida. Belo Horizonte. Cadernos da pró-reitoria
34 BELTRAMELLI NETO, Silvio. Direitos humanos. de extensão da PUC Minas, v. 8, n. 27, dezembro, 2008,
Salvador: Juspodivm, p. 99. p. 11.
35 BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. 9. ed. São 38 COMPARATO, Fábio Konder. A armação
Paulo: Campos, 2014, p. 16. história dos direitos humanos. São Paulo: Saraiva, 2003,
p. 224.
36 MAGALHÃES, José Luiz Quadros de. Direito
consucional. Tomo I. Belo Horizonte: Mandamentos, 39 BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. 9. ed. São
2002, p. 86. Paulo: Campos, 2014, p. 25.
29
Direios Humanos Trabalhisas
Artgos
Assim, os Direitos Fundamentais se relacionam BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. 9. ed.
com os primeiros reconhecidos e posivados São Paulo: Campos, 2014.
na esera do direio consucional posivo de
determinado Estado. BRANDÃO, Cláudio. Introdução ao estudo
Vê-se que a diferença entre Direitos dos direitos humanos. In: BRANDÃO, Cláudio
Humanos e Direitos Fundamentais não está (Coord.). Direitos humanos e fundamentais em
no conceito, pois ambos possuem a mesma perspecva. São Paulo: Atlas, 2014.
essência e nalidade, que é de assegurar um
conjunto de direitos inerentes à dignidade da COMPARATO, Fábio Konder. A armação
pessoa humana. A diferença substancial, então, história dos direitos humanos. São Paulo:
entre direitos humanos e direitos fundamentais Saraiva, 2003.
reside na localização da norma que dispôs sobre
os mesmos. COSTA, Marcelo Freire Sampaio. Ecácia dos
Por esta razão, no Brasil, os direios undamenais enre parculares: juízo
Direitos Fundamentais, destacadamente de ponderação no processo do trabalho. São
consucionalizados e capianeados pela Paulo: LTr, 2010.
dignidade da pessoa humana, como se vê na
Consuição Federal de 1988, passam ao status FONTELLES, Samuel Sales. Direitos
de normas centrais do ordenamento jurídico, fundamentais para concursos. Salvador:
revelando a tábua de valores da sociedade a ser Juspodivm, 2014.
protegida e promovida, incondicionalmente,
por odos aqueles submedos à ordem FRANZOI, Jackeline Guimarães Almeida. Dos
consucional, inclusive no momeno da direitos humanos: breve abordagem sobre
aplicação das demais normas desse sistema. seu conceito, sua história, e sua proteção
Ademais, o art. 4º, inciso II, da CF/88, segundo a consuição brasileira de 1988 e a
estabelece que, nas relações internacionais, nível internacional. Paraná. Revista urídica
o Brasil adotará o princípio da prevalência Cesumar, v. 3, n. 1, 2003.
dos Direitos Humanos. De tal modo, não seria
razoável admir que, na ordem inernacional, GURGEL, Yara Maria Pereira. Direitos humanos,
o Brasil adotasse o princípio da prevalência dos princípio da igualdade e não discriminação.
Direitos Humanos e, em contrário, no plano São Paulo: LTr, 2010.
interno, deixe de observá-los ou como somenos
aos Direitos Fundamentais. HERKENHOFF, João Bapsa. Curso de direitos
humanos: gênese dos direitos humanos. Rio de
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30
Direitos Humanos Trabalhistas
Artgos
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LEITE, Carlos Henrique Bezerra. Direitos SARLET, Ingo Wolfgang. A ecácia dos direios
humanos. 2. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, fundamentais. 6. ed. Porto Alegre: Livraria do
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MAGALHÃES, José Luiz Quadros de. Direito
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MORAES, Alexandre de. Direitos humanos
fundamentais. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2011.
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OLIVEIRA, Chrisana D’arc Damasceno. (O)
direito do trabalho contemporâneo. São Paulo:
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PEREIRA, Jane Reis Gonçalves. Interpretação
consucional e direios undamenais: uma
contribuição ao estudo das restrições aos
direios undamenais na perspecva da eoria
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ROCHA, Cármen Lúcia Antunes. Vida e direito: o
direito à vida. Belo Horizonte. Cadernos da pró-
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ROTHENBURG, Walter Claudius. Direitos
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31
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