Transformações Urbanas e Capitalismo
Transformações Urbanas e Capitalismo
Mumford apresenta em seu texto diversas modificações implementadas nas cidades durante a
fase de transição para o sistema capitalista, no qual se visa unicamente o lucro, sem haver
importância com o bem estar da comunidade, da natureza, da beleza, da cultura ou da história
- para as empresas quanto mais poder acima de suas obrigações sociais, melhor. No novo
sistema as ruas são pensadas para o tráfego, os bairros para os negócios, a terra e o operário
se tornam mercadorias, sendo desenvolvidas diversas formas de chantagem e exploração. Tal
sistema, apesar de se intensificar durante o período da revolução industrial (século XIX),
surge na era medieval introduzindo mudanças nas cidades num processo lento e objetivando a
criação de diversos locais de mercado pela cidade responsáveis por gerar cada vez mais
dinheiro.
O autor expõe alguns simbolismos como a mudança da ideologia de segurança que havia no
medievo, com suas muralhas que com o tempo são suprimidas, para a economia capitalista
que apresenta riscos calculados; a passagem da crença das pessoas na religião para os
negócios, pois com o surgimento da Bolsa, do Banco Nacional e do Centro de Câmbio - que
o autor coloca como as catedrais da nova ordem -, as pessoas passam a adiar seus prazeres
(economizar) em busca de recompensas futuras maiores ( comprar algo caro que no futuro lhe
satisfará); o relógio, que é introduzido na vida das pessoas evidenciando o novo modo de vida
pautado no trabalho.
O capitalismo desmantela valores e tradições em prol do dinheiro e do lucro e por isso define
que as estruturas devem ser cada vez mais efêmeras. Nesse sentido, uma das estruturas
modificadas foi o loteamento, o qual o autor explica como o modelo hoje aplicado foi
desenvolvido. Com o passar do tempo, são criados os cortiços dentro das cidades que usam
do menor espaço possível para abrigar maiores quantidades de famílias possíveis, aplicando
altos custos e gerando diversos problemas de salubridade na sociedade. E, posteriormente, as
habitações foram movidas (muito por conta da superlotação e da insalubridade) para terras ao
redor das cidades comerciais - antes sendo propriedades feudais que perduraram longos
períodos nas mãos de seus proprietários -, que passam a ser exploradas e sofrer com a
especulação imobiliária. Com isso, o lote é criado como uma unidade monetária padrão de
compra e venda simplificada, num formato retangular com testada pequena e profundidade
avantajada. E, agora com tanto espaço livre, diversas etapas são facilitadas para tornar o mais
rápido possível a venda de terrenos e habitações. Contudo, não havia planejamento coerente
com a realidade local, sendo ausente medidas básicas de conforto como, ventilação e
iluminação natural, orientação solar, entre outras. Por fim, isso acarreta em cada vez mais
expansões desordenadas e sem limites que, por consequência, gerará o desenvolvimento dos
transportes.
Longas avenidas eram problemas para a vizinhança, durante o século XIX muitas pessoas
iam a pé para o trabalho gerando cada vez mais inconveniência, na medida em que as cidades
crescem, acarretando no desenvolvimento do transporte público como trens e bondes para
suprir a nova necessidade de grandes deslocamentos. Assim, aumentando o limite de
expansão para ainda mais longe. Outras pontuações são de que a rua agora é pensada
primordialmente para o veículo, e por vezes as calçadas são reduzidas, pois se deve priorizar
o automóvel e não o transeunte e seu lazer. Um exemplo recente se observa na cidade de
Brasília, capital do país, porém com diversas ruas que funcionam apenas para veículos, em
virtude do ideal Moderno sob o qual foi construída.
Outro grande problema da antiguidade era o congestionamento (Não havia espaço para tantas
pessoas que estavam chegando nas cidades), que passou a ocorrer na Europa desde o século
XVI, muito em função de não se mitigar a real causa da migração das pessoas para os centros
urbanos. O que termina prejudicando os mais empobrecidos. E com o tempo, adquirir uma
casa ficou cada vez mais difícil, o salário reduz e o custo aumenta. Ademais, na época em que
se podia mitigar tais problemas, não houve reclamação por parte da população, então,
surgiram os cortiços e a exploração da classe empobrecida, e com o tempo as classes mais
abastadas também passaram a ser exploradas e a gerar lucros maiores para o sistema. Como é
citado por Mumford: Patrick Geddes “cortiço, semi-cortiço e super-cortiço - a isso chegou a
evolução das grandes cidades”. Dessa forma, ao decorrer dos anos, as casas vão diminuindo
em função do mercado - dos mais pobres aos mais ricos -, e com a crescente ocupação da
terra também surge a deficiência de parques e outras áreas de lazer, que hoje ainda competem
espaço com os estacionamentos dos carros.
Um exemplo onde a existência do sistema capitalista foi efetivo para a comunidade se deu em
Amsterdã, em virtude da utilização de rios e canais para comunicação e transporte e para
escultura da paisagem. A limitação da água impedia o crescimento desordenado e a cidade
cresceu cheia de serviços coletivos e permitiu um mutualismo entre empresa pública e
privada.
2 - HALL, Peter. A Cidade da Noite Apavorante. In: HALL, P. Cidades do Amanhã. São
Paulo: Perspectiva, 1995. p. 17-53.
O texto de Peter Hall tratará das problemáticas da cidade de Londres na era vitoriana e de
outras cidades que sofriam com a superlotação. A respeito dos cortiços, comenta das
condições de higiene completamente inadequadas, da superlotação, do ausente conforto do
ambiente com janelas pequenas, encobertas ou que davam em áreas de ventilação
insuficientes - um local completamente repugnante e impróprio à habitação, sintomas de
extrema pobreza que provocaram mortes e suicídios nestes locais. Tal condição de pobreza
ocorre em razão dos baixos salários provenientes das indústrias da época, sem aplicação de
leis, sem sindicatos, sem efetiva proteção aos trabalhadores, esses que por sua vez, padeciam
para sustentar as classes superiores.
A partir da percepção e divulgação desta realidade - por parte das classes de cima -, é
decidido que o Estado intervirá nas questões das moradias para os pobres (classe
trabalhadora). A realidade da época era de uma casa, repartida em apenas um cômodo para
famílias grandes (às vezes de 8 pessoas), cujo fornecimento de água e o banheiro eram
divididos entre todos os cômodos dessa casa. Todavia, aqueles que ocupavam o governo, sem
de fato se importar com a condição da classe empobrecida, dificilmente tomavam
providências para ajustar o problema, devido à incompetência e corrupção - preferiam se
ocupar em favorecer a si mesmos. Das providências tomadas, é citado a permissão, em lei,
para a demolição e realocação da parcela pobre para habitações adequadas, que fracassou em
virtude do governo não tomar atitudes sobre, e deixando o problema para a própria classe
trabalhadora solucionar. Contudo, também é sabido que o Estado isolado não é capaz de lidar
com toda essa problemática.
Nesse contexto, as terríveis condições de vida passam a gerar rejeição por parte da população,
isso causou um receio nas altas classes de surgirem revoluções - o que acabou ocorrendo em
1886, com saques e destruições em lojas, e posteriormente outra em 1887. Ademais, era um
problema na cidade as gangues - as quais provocavam diversos transtornos como,
assassinatos, tumultos, roubos …, aumentando a insegurança da cidade -, porém, esse era um
grupo que se mostrava decrescente. A população se mostrava inconformada, e é através do
caos que surge a possibilidade de alcançar as exigências de melhorias na qualidade de vida da
classe pobre da sociedade.
A situação na Europa não era diferente, muitas cidades sofriam com a superlotação, apesar de
Londres ser de longe a mais problemática. Em Paris, 14% da população estava alojada em
casas piores que a situação em Londres. Em Berlim, a população crescia extremamente
rápido, tendo dobrado de 1,9 milhão para 3,7 em 20 anos, também saturada, em 1903 a média
de pessoas por habitante chegava a 52,6. Na América, a situação não era diferente, Nova
York era a cidade que mais recebia imigrantes na época, os quais além de serem alocados em
prédios muita adensados eram tidos como pessoas derrotadas. Tais habitações, impróprias
para suprir a demanda, eram desenvolvidas de acordo com a capacidade de pagamento dos
moradores, o que dependia de seus salários. Com o tempo, se idealiza que a cidade estava
corrompendo as pessoas, destruindo suas vidas no processo de transitar do campo para a
cidade, instaurando a crença de que a cidade provocaria decomposição social causada pelo
suicidio, alcoolismo e doenças, em virtude da falta de estabilidade política.
É importante perceber que atualmente ainda tentamos aplicar esses métodos (numa escala
menor), porém sem obter resultados eficazes. Pois diferente da Europa, onde o tempo em que
se experiencia o capitalismo é bem maior do que de suas colônias; outro fator importante está
no modo como se deu a colonização, visto que nos EUA enquanto é usado uma política para
atrair mais imigrantes, aqui no Brasil, isto não ocorre. Além disso, atualmente o sistema
passou por outras fases, e o trabalhador já não é tão presente nas grandes indústrias, onde as
máquinas passam a realizar os processos; muitas pessoas têm se tornado autônomas. Dessa
forma, os métodos que a ser aplicados devem estar em acordo com a nova realidade do
sistema e da região em que será aplicado.
SEMANA 2: Continuação (enquanto isso, a urbanização colonizadora na Amazônia era
assim: …).
3 - BECKER, Bertha. A Urbe Amazônida. São Paulo: Garamond, 2013 (p. 17-49).
Becker, em seu texto, aborda sobre como se desenvolveram as cidades na região Amazônica,
elucidando o motivo das disparidades entre algumas colônias na América. Inicialmente é
destacado que as cidades que surgem na região começam a crescer a partir de surtos
econômicos - Segundo Furtado (apud BECKER, 2013), quando a economia passa a ser
relevante na competição local, regional, nacional ou global, gerando cada vez mais demanda,
contudo, se não for seguida de desenvolvimento, irá declinar -, porém como o
desenvolvimento regional não ocorreu, procura-se compreender o motivo.
Pautada nas teorias de Jane Jacobs, Becker se aprofunda a cerca de alguns conceitos como (1)
as cidades locais (aquelas com controle do território por meio do Estado) e as cidades
dinâmicas - as quais estão no centro da expansão econômica e possuem muito fluxo de
pessoas e mercadorias -; (2) o trabalho velho e o trabalho novo; onde o primeiro se trata da
produção sem si, com base em repetir técnicas já conhecidas, esse tipo de trabalho não gerará
crescimento econômico; enquanto que o segundo é a introdução de ideias novas na técnica,
provenientes das conexões entre indivíduos de cidades diferentes, que acarretará no
desenvolvimento e o crescimento da economia, também gera divisão no trabalho. Ademais,
sabe-se que o trabalho novo só pode surgir nas cidades e a partir do trabalho velho, e as
cidades que o possuem se tornam as cidades dinâmicas. (3) sobre as formas de crescimento,
duas são apontadas (a) por meio do aumento de exportações de mercadorias provenientes da
introdução de trabalho novo (b) e através do desenvolvimento de tecnologias para reduzir as
importações e poupar gastos. Dessa forma, surgem os surtos econômicos, os quais sempre
acabam, mas podem ser sucedidos por outros - quando uma cidade é pequena o motivo foi a
estagnação posterior ao surto, não havendo expansão econômica para alimentar o ciclo.
A respeito da formação das cidades, é introduzida a teoria de que nunca surgem sozinhas e
que sempre há uma conectividade entre elas, gerando cooperação e competição, assim,
também surgem hierarquias locais e redes não locais (fluxos). Becker, cita a teoria de Taylor
para auxiliar na compreensão da formação de espaços sociais, e uma das formas provém do
espaço dos lugares, que se baseia na relação entre as cidades e suas hinterlândias (rede de
localidades para cooperação e fornecimento de recursos), assim, se percebe uma ação de
mutualismo entre as cidades de uma rede, gerando dependência.
Destaca-se que a atuação dos povos indígenas funciona como o trabalho velho, auxiliando os
portugueses a melhor usufruir do que a floresta oferecia, o que sem eles não seria possível.
Dessa forma, surgem mais lugarejos e aldeamentos, e com o tempo formas urbanas cada vez
mais complexas, sua função era comercial e de serviços, a fim de escoar os recursos
valorizados. Contudo, não havia desenvolvimento dos produtos explorados, eram exportados
da mesma maneira que encontrados, e com o tempo se preocupa apenas em atender a
demanda externa para a exportação. Nesse sentido, o problema surge na passagem para o
capitalismo industrial, onde a demanda sobe muito e não se desenvolvem tecnologias para a
produção acompanhar a demanda (a divisão do trabalho na aldeia é diferente da divisão na
indústria, e não houve uma alteração da divisão suficiente para garantir uma multiplicidade
de novos surtos), além de que o ritmo da natureza não é o mesmo da indústria, a produção
local não conseguiu competir com as inovações exteriores. Então, o declínio da borracha, o
fim da exploração da juta e do pau-rosa, da extração mineral se tornam exemplos de
mercados que não atingiram o dinamismo urbano e terminaram em estagnação.
As cidades na Amazônia, por sua vez, tendem para cidades locais (não dinâmicas), e que após
seu surto econômico, não passam de cidades centrais (sem expansão do surto econômico).
Além disso, ocorrem diversos fluxos de matéria prima para exportação (sem haver
estruturação e integração dos produtos na cadeia produtiva para gerar mais empregos e renda)
e importação para o consumo (sem haver substituição). Na região também estão presentes,
além dos grandes centros urbanos, vilas ribeirinhas com baixa atividade econômica,
predominância de atividades caracterizadas como rurais. Essas cidades dependem de um
centro, ao qual são subordinadas.
Neste texto, se observará as discussões urbanísticas (por vezes questionáveis) para se corrigir
os problemas que afetam as cidades no período pós-revolução industrial - quanto à
ordenação, salubridade, segregação social, entre outros -, até tempos mais recentes. Choay,
apresenta um repertório de questionamentos, soluções, dúvidas e incertezas já ocorridas ao
longo da história do urbanismo numa tentativa de interpretação, a fim de auxiliar nas
propostas atuais.
1.1 Modelos: frente a esse caos, surgem propostas de ordenamentos urbanos (a partir de uma
visão utópica), (1) modelo progressista: sendo alguns de seus autores: Owen, Cabet,
Proudhon, Fourier e Richardson. Este modelo prioriza o homem e a razão na concepção das
cidades, e objetiva solucionar os problemas a partir do racionalismo, da ciência e da técnica.
Em algumas concepções, se aponta o verde como solução para o lazer, jardinagem, educação
e outros. O espaço urbano é definido de acordo com as funções humanas: lazer, trabalho e
cultura. Havia uma forte preocupação com as habitações, que em alguns modelos são
edificações coletivas (como os falanstérios) e em outros há a solução individual da casinha.
Contudo, são modelos rígidos que não permitem adaptações ou são limitadores e repressivos,
impondo ordem espacial e autoritarismo político. (2) modelo culturalista: seus autores são
Ruskin e Morris. Aqui mantém-se um foco no agrupamento humano, cada indivíduo é
considerado como insubstituível com originalidade e cultura própria. Há um resgate das
formas orgânicas da cidade do passado (medievo), demonstrando sua nostalgia. O modelo
considera limites para a cidade (baseado nas cidades medievais), mas, criando uma população
descentralizada e dispersa. Além disso, se previa um forte contato com a natureza e com a
beleza (que aqui terá um papel similar ao da higiene dos progressistas). Entretanto, ambos os
modelos tratam a cidade como um modelo reprodutível e sem conexão alguma à
temporalidade, sendo utópica - de lugar nenhum.
1.2. Sem Modelo: críticas empregadas por Engels e Marx às problemáticas da cidade
industrial. Eles não desenvolvem um modelo utópico, impondo uma ordem nova, mas
trabalham com a cidade que passa por um problema particular e que pode ser mitigado com a
ausência de classes. Tal transformação ocorre com a ação revolucionária de implantar o
socialismo e, posteriormente, o comunismo. Não se objetiva prever qualquer tipo de
planejamento futuro, pois pode se tornar irreal.
1.3. Antiurbanismo Americano: Seu contexto é bem diferente do que ocorria na Europa, pois
o continente ainda não passara pelas mudanças da revolução industrial, devido a presença da
natureza ainda “virgem” se aplicará uma corrente antiurbana. Seus autores buscam a
reestruturação do espaço rural através de algumas reservas naturais ao longo da malha urbana
- algo semelhante com o Bosque Rodrigues Alves, em Belém, uma solução que
provavelmente se inspirou neste ideal.
2. Urbanismo: Nesta nova fase difere-se (1) nos seus atores, que agora serão, em grande
parte, arquitetos (2) na sua relação política, pois agora é despolitizado (3), por fim, na
aplicação; visto que não será mais apenas utópico, apesar de não escapar completamente
desta problemática.
2.1. Progressista: Sua primeira expressão se dá com a cidade industrial de Garnier (um
projeto que separa a cidade em zonas de habitação, comércio e a indústria afastada, o projeto
se preocupa com direcionamento do sol, ventilação e a presença da natureza), se torna
referência para futuros modelos. No período pós primeira guerra mundial, os urbanistas
progressistas desenvolvem e passam a seguir a regulamentação da “carta de atenas”, um
documento guia para o novo urbanismo progressista, o qual está voltado à modernidade,
ainda rompendo com o passado, mas agora foca nas estruturas técnicas e estéticas (novos
materiais que estavam surgindo que permitem novas formas). Há uma preocupação com
higiene que os leva a priorizar a presença do sol e do verde nas habitações, tornando os
blocos autônomos. Seu objetivo era aproximar a cidade e o campo, como propunha Howard
para sua cidade jardim (culturalista), mas em Le Corbusier há a inclusão da verticalização.
Outro modelo muito conhecido é o plano voisin de Le Corbusier, o qual pretendia arrasar
grande parte do centro histórico de Paris para implantar seu projeto de habitações
verticalizadas, mas não fora executado. Seus projetos de habitação, nada mais eram que
falanstérios favorecidos pelos avanços da técnica, que substituíram a horizontalidade pela
verticalidade.
2.2. Culturalista: Forma-se antes do progressista, ainda no fim do século XIX, de seus
autores, se destacam Camillo Sitte, Ebenezer Howard e Raymond Unwin. Ainda há
semelhanças com o pré urbanismo culturalista, como o foco para a aglomeração urbana e não
ao indivíduo; prioriza-se a cultura e o passado. Nas cidades jardins de Howard, são pensados
limites de crescimento que a cidade pode atingir, havendo bloqueio físico por cinturões
verdes; há uma hierarquia entre as cidades, formando uma espécie de constelação com
diversas conexões interligadas por trens (transporte de massa). Sitte analisará as cidades
internamente, tendo um foco no seu passado, ligando monumentos e vias de acordo com a
realidade local; as ruas são pensadas como local de passagem e encontro, porém, a ligação
com o passado se torna tamanha que chega a ignorar a evolução e as condições atuais de
trabalho e circulação. Assim, Unwin, muito inspirado nas ideias de Sitte, procura adapta seu
modelo às necessidades contemporâneas. Todavia, é um modelo nostálgico, que preza por um
passado morto, gerando problemas de adaptação ao presente, perdendo sua função real.
3.1. Tecnotopia: prioriza a aplicação das novas técnicas desenvolvidas pela humanidade antes
não possível na visão progressista. Nesse contexto, são obras que empregam estruturas
complexas e materiais como entrelaçamentos metálicos e placas de concreto. A ocupação
dessas cidades passa do solo para o mar, o subsolo ou para a atmosfera. As propostas para as
cidades futuristas em maquetes e teorias que encantam o observador, porém está num campo
mais próximo da ficção científica e ao se aproximarem desse campo, também se tornam
suscetíveis à tecnolatria (o objetivo não está na solução dos problemas, mas apenas no
emprego das novas técnicas).
7 - HALL, Peter. A cidade no jardim. In: HALL, Peter. Cidades do Amanhã. São Paulo:
Perspectiva, 1995. p. 103-258.
O texto de Peter Hall elucida o processo de transformação das cidades jardins para as cidades
satélites ao decorrer da história. A ideia de cidade jardim, criada por Ebenezer Howard,
inspira a ideia de subúrbio jardim, desenvolvido por Raymond Unwin, essa que foi muito
alterada devido a repetitiva cópia feita a cada cidade construída, em que se perdia algum
elemento original. Muitos acreditavam que Unwin desejava mover quantidades exorbitantes
de pessoas para locais distantes e isolados da cidade, mas Peter aponta a real intenção de
Unwin: alcançar uma cidade constituída por comunidades auto suficientes.
Howard, para desenvolver seu planejamento de cidade jardim, foi inspirado por sua
experiência ao morar alguns anos na América do Norte - tendo vivenciado a Lei de
Distribuição de Terras de 1862 e a reconstrução da cidade de Chicago, após o incêndio de
1871, onde deve ter visto o subúrbio construído por Frederick Law Olmstead. Também foi
auxiliado por uma série de outros autores - as ideias do cinturão verde, avenidas radiais,
indústrias periféricas, a existências de espaços cultiváveis, entre outras -, e conferências sobre
os problemas urbanos de Londres, das quais participou. Apesar de sua proposta não conter
ideias originais, a combinação delas acarretou numa proposta única - a união das qualidades
do campo com as da cidade, as cidades com crescimento limitado e ligadas por transporte de
massa, a cidade social centralizada fornecedora de oportunidades econômicas e sociais, entre
outras. Liberdade e Cooperação eram qualidade da união da cidade-campo, o sistema
socioeconômico de Howard diferia do capitalismo e do socialismo, seria pautado no
gerenciamento local e no autogoverno.
A primeira cidade a ser construída com base em seus princípios foi Letchworth, o local de
construção era favorável, mas após sua construção seu progresso ocorreu de forma lenta, e foi
difícil atrair indústrias para a região. Além disso, a população que passou a ocupar a cidade
não se interessava pelas ideias de cooperação, mas sim pelo sindicalismo ou pelo socialismo.
No fim, a cidade jardim existiu numa escala muito menor do que se pretendia inicialmente, e
somente em Unwin e Parker que a realização da cidade jardim alcançou sua realização mais
autêntica e memorável.
Unwin e Parker eram primos, nascidos na Inglaterra na década de 1960, muito influenciados
pelas ideias de William Morris - estavam inclinados ao ideal de um passado nostálgico, dele
provinha criatividade, organicidade, pequena comunidade, entre outras coisas. Também
influenciados pelas elaborações de Camillo Sitte, criando a relação com as cidades medievais.
Unwin e Parker, em seus projetos, prezavam pela beleza sem se esquecer dos usuários -
utilização de espaços livres para lazer; evitar segregação de classes, uma das experimentações
empregadas por Unwin foi a redução da ocupação das ruas, a fim de livrar espaço para
jardins e áreas livres, também afastando o tráfego de veículos. Assim, eles projetaram New
Earswick e Hampstead, não como uma cidade jardim, mas como subúrbio jardim (não
possuía indústria), e diversas outras após essas.
Assim, as cidades jardim, cada vez que são novamente reproduzidas, perdem sua essência e
se aproximam de uma cidade dormitório. Ao chegar na Europa, o movimento das cidades
jardins cria suas próprias formas, como a proposta das casas modernas enfileiradas; também
houve o processo de verticalização (de 4 a 6 pavimentos) dessas edificações. Já na América,
surge o conceito da unidade de vizinhança, onde os equipamentos públicos eram pensados
para uma área e uma densidade urbana determinada. De volta à Inglaterra, no período pós
segunda guerra, o Estado volta a construir as expansões habitacionais (de contra com a ideia
de autogestão de Howard).
SEMANA 5: Características da cidade brasileira, particularidades da cidades Amazônica.
9 - MARICATO, E. As ideias fora do lugar e o lugar fora das ideias. In: ARANTES, O. et al.
A cidade do Pensamento Único: Desmanchando consensos. Petrópolis: Vozes, 2000, p.
121-169.
É apresentado que, em nossas cidades, ocorre uma importação de matrizes urbanísticas dos
países europeus e norte-americanos (principalmente). Todavia, essa importação normalmente
ocorre de forma excludente, favorecendo apenas os grandes centros das cidades, sem que a
maior parte da população (periferia) desfrute dos benefícios desse planejamento. A matriz de
planejamento aqui importada foi a modernista/funcionalista, que segue ideais positivistas,
com soluções universalizadas - como uma grande fábrica. No início, as discussões acerca do
urbanismo moderno eram voltadas para como alcançar habitações que oferecem o mínimo de
conforto para se viver com qualidade. A partir da década de 1940, nos países capitalistas - em
busca do direito à moradia -, são reivindicadas lutas sociais, a fim de empregar reformas
fundiárias, extensão de infra-estrutura e financiamento subsidiado.
No Brasil, nesse período, quem está à frente das reivindicações para urbanização adequada
normalmente é a elite, pois é ela que requisitava o embelezamento e melhoramento das
cidades nas regiões que impactam sua vivência. Após surgirem os questionamentos a respeito
dos problemas sociais, o direcionamento dado às obras e investimentos torna-se não explícito
- mas ainda favorável às elites. Nesse contexto, passam a surgir problemas nas cidades,
devido aos usos de estratégias exclusivas às elites brasileiras, como o congestionamento (não
houve planejamento eficiente para o transporte de massa) ou a piora no sistema de saúde
(poluição das grandes cidades, não atendimento da necessidade de saneamento básico e
moradia à toda população). Portanto, percebe-se que a cidade regida por interesses privados,
beneficia uma minoria enquanto a maioria tende a sofrer cada vez mais com as
transformações aplicadas (por exemplo, processos de expulsão da população residente para
novo uso da terra).
Embora a desigualdade gerada pelo sistema seja algo recorrente, isso não se dá pela falta de
planos ou legislação urbanística, visto que há uma ampla regulamentação para a produção do
espaço urbano. Contudo, tal regulamentação é ineficiente, já que favorece o exercício
arbitrário de poder (ex.: asfaltamento de vias que carecem de infraestrutura nas áreas de
ocupação irregular apenas durante os períodos de campanha eleitoral) e pequenos interesses
corporativos. Dessa forma, a ocupação informal e a “invasão” das terras urbanas (por falta de
alternativas oferecidas pelo governo, com objetivo de adquirir o direito de moradia) se torna
um processo intrínseco da urbanização - sendo que a porcentagem de habitantes do Brasil
habitando nessas áreas é crescente.
Dos motivos que auxiliam a compreensão do processo acima são citados pela autora (a)
Industrialização com baixos salários e mercado residencial restrito - não inclusão de uma
parcela dos salários do trabalhador destinada ao consumo da mercadoria “residência do
mercado formal”, além de não haverem políticas sociais para mitigar o problema; (b) Gestão
urbana possui uma tradição de investimento regressivo - as obras de infraestrutura aplicadas
pelo governo tendem a aumentar a especulação das terras e beneficiar o capital imobiliário,
ocorre uma valorização das terras ao entorno dessas obras, acarretando na possível expulsão
da população local para áreas distantes enquanto que o uso do solo passará para um caráter
privado; (c) Legislação ambígua ou aplicação arbitrária da lei - o não oferecimento de
políticas alternativas para a população que acaba ocupando as áreas informais, há a ideia de
que nas áreas que não favorecem o mercado não há o problema de transgredir a lei e produzir
a ocupação irregular, não ocorrer uma eficiente aplicação do imposto sobre a propriedade
territorial urbana (IPTU).
Das consequências geradas pelos motivos vistos no parágrafo anterior, Maricato aponta (a)
A predação ambiental promovida pela dinâmica de exclusão habitacional e assentamentos
espontâneos - zonas da cidade com ausência de infraestrutura pública, ocasionando baixa
cobertura de serviços, problemas de saúde, poluição dos recursos hídricos, alagamentos,
desmoronamentos e diversos outros problemas; (b) O aumento da violência, evidenciada pela
ocorrência de homicídios nessas áreas da cidade - a criminalidade nessas áreas não está
voltada para os crimes contra o patrimônio, como roubos, mas sim ao homicídio, dada a
frequência de mortes que ocorrem.
Nesse contexto, urge a construção de uma prática mais democrática e com diversas
alternativas para as soluções sociais, a fim de evitar a desigualdade, carências de
infraestrutura e serviços públicos, e agravos à insalubridade, violência e problemas de saúde.
Além de evitar a potencialização para ações do mercado privado e beneficiar apenas uma
população central de classes abastadas. Dessa forma, uma das maneiras de alcançar estes
objetivos, é através da disseminação de informações acerca da realidade urbana enfrentada
por grande parcela da população residente em zonas de ocupação informal, que muitas das
vezes não é divulgado nas grandes mídias.
SEMANA 6: A produção capitalista do espaço urbano, paralelos na produção da cidade
na periferia do capitalismo.
Goitia aborda, neste texto, a questão do desenvolvimento das cidades a partir da visão da
ecologia urbana. Inicialmente apresentando a cidade como fruto da transformação constante,
um “processo vivo” pautado na construção e destruição - a sua correta articulação possibilita
o desenvolvimento de cidades harmoniosas. Assim, a destruição deve ser mínima, e as
construções devem estar atreladas às novas exigências. Goitia afirma que o desenvolvimento
das cidades está atrelado à cultura daquele povo, e se o que há nas cidades é o caos , o
desprezo pelo passado, a novidade pela novidade, então há um vazio cultural.
O autor aponta que sem esse passado, a cidade é mais livre para aplicar suas transformações,
ele cita como exemplo os Estados Unidos, contudo não funcionou tão bem como o esperado.
Seu desenvolvimento era considerado o pior da época, visto que ocorria uma mobilidade
social muito elevada - os habitantes, principalmente de classes mais altas, costumam ocupar
áreas mais afastadas em busca de conforto; quando a expansão chega nessas áreas, essas
classes se mudam para regiões ainda mais distantes. Além disso, se contagiou para a América
Latina e para a Europa.
Tal mobilidade influencia estudos sociológicos na América, que está dentro do ramo da
Ecologia Urbana. Conceito que abrange a relação dos usuários da cidade, com seu ambiente -
algo associado à biologia e conceitos naturalistas que surgiam na época. No entanto, a cidade
é um espaço amostral pequeno, no quesito de inexistirem diferenças geográficas que
proporcionem uma divisão biológica entre os indivíduos, assim o agrupamento será estudado
a partir das suas condições econômicas, sociais e culturais.
A teoria das zonas concêntricas foi proposta por Ernest Burgess, consiste num modelo
generalizado para as cidades americanas, baseado na experiência da cidade de Chicago, onde
foram consideradas 5 zonas concêntricas - o centro comercial e de negócios, a zona de
transição, a zona das habitações de operários, a zona residencial das classes média e elevada,
e a zona dos Commuter, pessoas que estão nos arredores da cidade. Essa última zona, é
composta de uma classe de pessoas que cresceu bastante, são pessoas que diariamente
perdem longos períodos no transporte do local de habitação para o trabalho - frequentemente
observado nas grandes metrópoles. A zona de transição é ocupada por imigrantes e pessoas
sem posses, são áreas com ocorrencia de prostituição, delinquência, vícios e outros
problemas que casusam o abandono das residências e sua transição para casas alugadas.
Apesar de não se aplicar a diversos outros casos (por conta de acidentes geográficos,
localização das fábricas, caminhos de ferro, cidades com vários centros e outros), aqueles
com características semelhantes ao desenvolvimento de Chicago podem se enquadrar nesta
teoria. Ademais, tal teoria influencia a criação da teoria dos gradientes, que, também de
forma concêntrica, analisa a variação social (grau de pobreza, mortalidade, desorganização
social) em relação ao centro dominante.
Em seguida, Homer Hoyt, desenvolve a teoria setorial, a fim de resolver problemas da teoria
de Burgess. Para Homer, a cidade também cresce de maneira circular, partindo de um centro
comercial e de negócios, mas seu crescimento (ao invés de anéis) se dá por setores
categorizados sob o ponto de vista social. Seu fundamento consiste em: após estabelecidos os
setores, estes estão limitados lateralmente, então apenas podem crescer para as extremidades.
Porém, há ausência de explicações sociais que explicam a movimentação das cidades.
Nas teorias anteriores o problema ecológico é tratado como determinista, num estudo que não
aponta as forças naturais que influenciam a divisão do espaço na cidade e que destoa da
realidade consideravelmente, perdendo sua validade teórica - algo que as teorias racionalistas
atentaram-se em explicar, e apontam motivos econômicos como essa força.
Nesse contexto, os racionalistas se dividem em dois grupos (1) estritos, aqueles que não
acreditam que existem outros fatores além dos econômicos que realmente importam para o
desenvolvimento das cidades, quanto à ocupação do espaço. Eles culpam a falta de
concorrência para má ocupação nas cidades. (2) modernos, consideram fatores consequentes
da ignorância, do erro, da inércia e da realidade social (tendências culturais, tabus,
disposições políticas …). Porém, são fatores incluídos numa análise separada ou secundária e
que não interferem tanto como o fator econômico.
Para Farret, a estruturação do espaço residencial intra urbano tem sido pensado a partir de
três perspectivas: a ecológica, a econômica neoclássica e a da economia política ( como base
teórica); aliado a dois paradigmas: o do equilíbrio e o do conflito (para estudo, investigação e
legitimação). No paradigma do equilíbrio, a cidade se forma por meio das decisões
individuais dos diversos grupos inseridos no mercado imobiliário livre, neutro e perfeito,
além de haver uma equidistância do Estado para todos os grupos - onde há equilíbrio,
liberdade individual e harmonia social -, uma visão de eficiência e competência individual. Já
no paradigma do conflito, com um foco particular para a ocupação habitacional - apesar de
também analisar a estruturação do espaço urbano -, por este viés se verifica “o desequilíbrio,
o funcionamento imperfeito do mercado, os interesses e conflitos sociais, questionando até
mesmo a suposta equidistância do Estado”, uma visão de poder.
O primeiro enfoque é baseado nas competições entre os grupos no que tange a ocupação da
cidade, onde prevalecem os grupos dominantes. Nesse sentido, quem não consegue ocupar os
espaços mais desejados, necessita se deslocar para áreas menos favorecidas. Contudo, como
já anteriormente visto, são propostas mais voltadas à ocupação das cidades estadunidenses,
pois no exterior, normalmente a ocupação da parcela empobrecida ocorre pela periferia da
cidade, enquanto que nas norte-americanas, ela se dá mais próxima aos centros, enquanto que
a parcela mais rica ocupa os subúrbios. Também não são analisados os fatores culturais que
induzem certos grupos a ocuparem áreas que em comparação às outras opções viáveis não
são a melhor. No contexto latino-americano, Farret cita duas teorias para a ocupação de
migrantes, na primeira, eles ocupam as áreas localizadas próximas ao centro e aos seus
empregos, com baixo custo; enquanto que na segunda, aponta que os migrantes ocupam as
áreas mais baratas, a periferia.
Quanto ao enfoque neoclássico, surge a procura em identificar os processos de estruturação
do espaço urbano. Há uma preocupação em verificar o comportamento dos indivíduos,
firmas, e instituições públicas, pois as pensam como unidades decisórias. Os modelos
neoclássicos econômicos raciocinam a ocupação baseada no espaço relacionado a sua
acessibilidade (tempo e custo de locomoção), pesando seus benefícios com o orçamento
disponível. Para Alonso (teórico), a ocupação é compreendida nesse aspecto, como “um
gradiente de densidades e valores imobiliários negativamente relacionados com a distância ao
centro da cidade" - assim, em virtude dos custos de deslocamento (casa-trabalho), os ricos
acabam se localizando em função do preço, e os pobres em função da localização. No
entanto, existe um questionamento ao fato da população pobre ter tanto poder ao escolher a
localização, devido a natureza da oferta de habitações. Já os modelos neoclássicos
não-econômicos, não relevam tanto o comportamento econômico dos indivíduos, e o tomam
apenas como gerador de demanda. Um dos teóricos do modelo, Chapin, desenvolve a análise
decisória, na qual se verifica o comportamento dos vários agentes do espaço urbano, e como
eles tomam suas decisões, assim podendo prever resultados futuros. Ou seja, ao invés de
analisar a renda dos usuários, se analisa as necessidades e desejos e as transformações
efetuadas na cidade. Nessa teoria (neoclássica) ainda há uma dificuldade em compreender
que a ocupação não é apenas questão de competência dos indivíduos, no caso, voltada à
otimização econômica - Dowall, coloca como visão ingênua ao real comportamento dos
indivíduos e instituições.
Voltando agora ao paradigma do conflito, este admitirá alguns valores como: a dominação do
mercado por grupos e classes sociais e que o Estado não é neutro ou passivo. Assim como no
anterior, existem duas vertentes, a institucionalista (analisa o papel das instituições para
determinar padrões) e a segunda com foco em outros grupos que não as instituições.
Ambas as vertentes concordam que não há livre disputa pela terra de forma impessoal,
acredita-se que existem organização e organização com interesses claros para a ocupação
deste solo. Um dos primeiros teóricos desta vertente, Form, aponta que os principais grupos
dominantes são: a indústria imobiliária (foco no lucro), as grandes empresas (foco na
localização), os proprietários e inquilinos individuais (foco na qualidade de vida e
investimentos) e o setor público (poder de legislar sobre o uso do solo, além de poder aplicar
investimentos, infraestrutura e serviços) - todos eles têm poder de influenciar as
transformações urbanas, e esse processo é permeado de alianças e barganhas. Pela
perspectiva da outra vertente, em que o papel dos teóricos se volta para compreender a
precificação do solo, se identifica que o preço da terra depende de quão escassa ela é e de
quanto a sua localização satisfaz. De acordo com as ideias de Marx, a terra não deveria ter
valor, pois ela não incorpora trabalho, então a precificação vem tanto do que Marx chama de
mais valia (investimentos no entorno, como saneamento, arruamento, melhorias urbanas…)
como da propriedade instalada nesta terra. Marx assume alguns elementos que permeiam a
cidade contemporânea: rendas absolutas e de monopólio - Farret procura identificar apenas
seu papel econômico de forma geral.
Dessa maneira, Farret discorre sobre a renda absoluta como aquela que o proprietário tem
poder sobre definir sua utilização, e pode disponibilizá-lo através de uma renda. Já o
monopólio, é algo que surge por características específicas de uma localização, onde a
precificação se dá pelas interações que acontecem apenas em determinada área. Para Marx, a
produção da cidade está diretamente ligada com a geração de capital, e por conta disso
existem muitos interesses na estruturação e expansão de seus espaços, a fim de aumentar a
produtividade dos operários, por exemplo.
Conclui-se que ambos são contra o paradigma do equilíbrio, sendo o enfoque institucionalista
voltado aos grupos que manipulam as transformações e estruturação urbana - de acordo com
suas motivações particulares -; enquanto que os de enfoque marxistas se preocupam em
entender a relação entre os grupos dominantes como algo voltado ao capital, para obtenção de
lucro.
SEMANA 8: A produção capitalista do espaço urbano, paralelos na produção da cidade
na periferia do capitalismo
13 - VILLAÇA, F. Espaço intra-urbano no Brasil. São Paulo: Editora Studio Nobel, 2001.
O texto em análise aborda sobre o processo de segregação dos espaços urbanos, em favor das
classes mais ricas da população, no qual ocorrem transformações e estruturação de espaços
considerados mais favoráveis para essas classes. Neste sentido, acarreta num
desenvolvimento prioritário da cidade para estas regiões, que não prioriza grande parcela da
população - visto que o processo de melhoramento influência no aumento do preço da terra e
termina por afastar aqueles que não podem pagar pela nova estrutura criada, eles por sua vez,
passam a habitar as periferias -, enquanto que a estruturação urbana dos espaços periféricos
não ocorre, e se ocorre não é da mesma maneira. Outrossim, o autor expõe que as classes
mais altas se mantêm no poder e controlam a produção do espaço urbano a partir de 3
mecanismos: (1) mercado imobiliário - com a produção da segregação e a estruturação das
terras urbanas (2) política e Estado - o desenvolvimento da infraestrutura, os serviços e a
legislação urbanística acompanham e favorece as regiões dominadas pelas classes abastadas,
enquanto há carência nas regiões pobres (3) e com a ideologia.
Villaça (autor) compreende que a razão deste processo provém das lutas de classe e da
dominação de uma delas, como já foi visto em textos anteriores, cada grupo possui seus
interesses e buscará as regiões mais favoráveis para alcançá-los dentro do espaço urbano. A
ocupação próxima aos centros urbanos traz o benefício da maior acessibilidade, juntamente
com toda a infraestrutura que a acompanha, assim, a luta de classes se dá devido às condições
de consumo do espaço e não de produção. O autor diferencia estes termos como as condições
de produção sendo a cidade, a rede urbana e o espaço territorial; enquanto que os interesses
de consumo estão para o espaço intra-urbano - onde os trabalhadores/consumidores se
deslocam para comprar, estudar, trabalhar e etc. (acessibilidade).
Mais especificamente esse processo de segregação dos espaços urbanos ocorre de duas
formas (apontadas por Villaça), ou a segregação ocorre de forma concentrada na metrópole
ou de forma espalhada (hipotética, não ocorre na prática). Apenas a primeira situação pode
ocorrer, devido à necessidade de um denso sistema viário para interligar todos os centros da
alta classe, dificuldade que não existe com apenas um centro. Dessa forma, atender às altas
classes com acessibilidade ao comércio, educação, lazer … se torna facilitado quando tudo
está próximo entre si.
Nesse sentido, os espaços que são estruturados para as classes mais abastadas normalmente
são de maior acessibilidade (proporcionam menor deslocamento), no entanto, acaba por
piorar o deslocamento para as classes inferiores, que tendem a crescer para regiões cada vez
mais distantes. No caso de Belém e sua região metropolitana, percebe-se que as classes
abastada e o centro da cidades se encontram próximo da região de orla, existe uma periferia
ao entorno, e cidades que surgiram como cidades-dormitório mais distantes; destaca-se que o
deslocamento dessas cidades afastadas para Belém é muito maior do que para aqueles que já
se encontram em Belém - tal dificuldade ainda é inflada pelos problemas de transporte
público e planejamento viário. Ademais, existem projetos que culminam no afastamento das
pessoas periféricas próximas ao centro de Belém para as cidades periféricas como
Ananindeua e Marituba; assim, lhes removendo os benefícios que possuem por morar
próximo ao centro, apesar dos problemas de saneamento e falta de estruturação urbana.
Quanto ao controle por meio da ideologia, é colocado como se tais transformações, voltadas
apenas às classes dominantes, fossem justas - colocando como interesse e de benefício para
toda a sociedade. Nesse contexto, existem os conceitos de "deterioração do centro”
(abandono das edificações históricas do centro histórico e a migração para novos centros,
assim, os antigos se tornam deteriorados permitindo que as altas classes criem um discurso
em prol da renovação desses antigos centros) e a universalização de interesses particulares
(tratar a cidade como aquela parcela restrita às classes dominantes).
Após o estudo dos textos anteriores sobre a estruturação da cidade capitalista, volta-se
novamente à perspectiva regional da Amazônia. Nesse sentido, analisa-se o texto de Cardoso
e Silva, onde se comenta sobre o contexto Amazônico, onde a dinâmica de uso e expansão
são diferente daquela produzida no exterior, tendo diversas civilizações ocupando o território
(os quais possuem uma enorme carga de conhecimento regional); sua relação periférica com
relação ao sudeste do país (centro); a maneira inadequada como a indústria opera, entre
outros assuntos.
No primeiro tópico do artigo é feito um apanhado histórico que abrange toda a bibliografia
que acompanhamos na matéria, elucidando como se deu o processo de estruturação das
cidades desde a revolução industrial até o contemporâneo, passando pelos principais teóricos
(Patrick Geddes, Ebenezer Howard) e projetos (como os planejamentos urbanos para Paris,
de Haussmann, Barcelona, de Cerdá, e Radburn, de Wright e Stein). Deste tópico, é
importante destacar que, no contemporâneo, surge o ideal da preservação, pois a cidade e o
meio ambiente passam por “conflitos” - devido à devastação ao natural que ocorre há séculos
diversos desastres ambientais têm ocorrido ao redor do globo, criando uma necessidade para
pensar como deverá ser o planejamento urbano daqui para frente, são criadas propostas para
ligar as pessoas ao natural novamente.
Em suma, destaca-se que enquanto nos países de centro há um incentivo para práticas
associadas ao meio ambiente; na região Amazônica, há a perda de conhecimentos construídos
e praticados durante séculos em prol da alimentação de um sistema que prejudicará o
ecossistema e toda a população que dele necessita, direta ou indiretamente.
SEMANA 9: Concepções da cidade da segunda metade do século XX
O autor discorre em seu texto sobre o planejamento estratégico (1) discutindo sua
estruturação em três analogias construtivas, a cidade mercadoria, a cidade empresa e a cidade
pátria (2) verificar a eficiência dessas analogias para o projeto de uma cidade e evidenciar
como isso impacta na relação com interesses das empresas globalizadas. Por fim, procura-se
compreender se este tipo de planejamento é capaz de fazer frente às competições globais, sem
perder a essência local; ou se apenas se tornará um novo modelo para disputar de mercado.
Nesse sentido, o autor aborda o conceito da cidade como mercadoria, onde existe a questão
do “vender a cidade para outras cidades”, em que deve-se compreender para qual dos
diversos mercados será elaborado um marketing de vendas, a partir do tipo de consumidor.
Contudo, para Borja, Castells e Forn, essa venda deve ser de insumos valorizados pelo capital
transnacional, como espaços de convenções e feiras, parques industriais e tecnológicos, o
desenvolvimento de um centro urbano com gestão de serviços avançados, além de criar uma
boa imagem da cidade. Nesse sentido, as cidades sempre recebem as mesmas soluções e
tendem a se parecer uma com as outras, servindo a compradores virtuais com as mesmas
necessidades, a cidade é pensada para o exterior (visitantes e investidores) e não para o
regional/local (usuário constante); ademais, a cidade passa também a ser pensada como
objeto de luxo apenas para uma pequena parcela da população, a elite, os potenciais
compradores de toda esse novo planejamento.
No segundo momento, é analisado o conceito da cidade como empresa, aquela que a todo
instante tenta se manter e desenvolver inovação e difusão para continuar atraindo o mercado,
inovações e tecnologia. A produção da cidade passa, desde o modernismo, a seguir os
princípios de funcionamento de uma empresa, com previsões e programas precedendo o
acaso e o improviso, priorizando o racional e o funcional, mas atualmente, o que se prioriza é
a produtividade, a competitividade e a subordinação ao mercado. Outrossim, há uma
discussão na separação entre setor público e privado - em que o último é o interesse privado
capitalista -, assim, o setor privado acaba por participar das decisões do planejamento urbano,
sem gerar efetivas auxílio ao setor público. Dessa forma, a cidade deixa de receber suporte de
identidade política abrangente (para toda urbe, já que passa a se relacionar com os desejos
privados, os quais não necessariamente são benéficos à cidade), perdendo o exercício da
democracia local.
Por fim, o autor aponta suas conclusões, definindo a competição entre as cidades como o
fator que rege toda essa relação de venda de cidades, marketing urbano e a ideia de
patriotismo cívico. Essa competição se dá pela procura de localidades mais vantajosas, ou
pode depender da disputa entre os setores industriais pela demanda num território.
SEMANA 10: Concepções da cidade do final do século XX e início do século XXI e
paralelos na Amazônia Oriental
Por fim, é discutido pelo autor o ponto do desenvolvimento e do urbano, pautando-se nos
conceitos de Furtado. Assim, é feita uma diferenciação entre progresso e desenvolvimento;
onde desenvolvimento implica, a partir de uma visão estruturalista, transformações estruturais
na economia e na sociedade, no Brasil, isso ocorre através da industrialização e da
modernização. Para Furtado, um ponto essencial do desenvolvimento é a capacidade de dar
soluções originais aos problemas sociais.