DOI: 10.
55905/cuadv15n10-136
Recebimento dos originais: 22/09/2023
Aceitação para publicação: 25/10/2023
Neuropsicanálise
Neuropsychoanalysis
Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues
Pós-Doutor em Neurociências
Instituição: Logos University International
Endereço: 4300 Biscayne Blvd, Miami – FL, 33137, Estados Unidos
E-mail: [Link]@[Link]
RESUMO
Embora haja um longo histórico de tensões entre as abordagens biológicas e
psicodinâmicas no âmbito da psicologia e psiquiatria, avanços recentes podem
ser percebidos com a ampliação da Neuropsicanálise, que integra a
Neurociência e a Psicanálise com um viés empírico. Enquanto a Neurociência
consegue utilizar mapeamentos cerebrais para facilitar a compreensão de
alterações cognitivas e comportamentais, a abordagem psicodinâmica se mostra
relevante para acessar conteúdos reprimidos de representações psíquicas,
inacessíveis por outros métodos. O foco da Neuropsicanálise está nas lesões
cerebrais e suas consequências em diversas áreas da vida, embora também
seja capaz de traçar paralelos importantes a respeito da aprendizagem presente
em situações traumáticas, de transtornos mentais e doenças como a depressão.
Palavras-chave: neuropsicanálise, psicanálise, neurociência, comportamento.
ABSTRACT
Although there is a long history of tensions between biological and
psychodynamic approaches in the field of psychology and psychiatry, recent
advances can be seen with the expansion of Neuropsychoanalysis, which
integrates Neuroscience and Psychoanalysis with an empirical bias. While
Neuroscience can use brain mapping to facilitate the understanding of cognitive
and behavioral anomalies, the psychodynamic approach is relevant to access
repressed contents of psychic representations, inaccessible by other methods.
The focus of Neuropsychoanalysis is on brain injuries and their consequences in
different areas of life, although it is also able to draw important parallels regarding
the learning present in traumatic situations, mental disorders and diseases such
as depression.
Keywords: neuropsychoanalysis, psychoanalysis, neuroscience, behavior.
1 INTRODUÇÃO
Historicamente, o campo da psiquiatria e da psicologia foi marcado por
tensões entre o viés biológico e o psicossocial. É fácil encontrar diversas
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discussões que evidenciam uma dicotomia entre as duas abordagens e a
tentativa de fazer com que prevaleça uma sobre a outra. Da mesma forma, a
problemática da existência ou não da mente, colocada em questão por teorias
cognitivas-comportamentais com enfoque no processo estímulo-resposta como
ponto de partida para o comportamento humano, também é bastante presente
nessa área.
Rompendo com essa tradição, hoje já é possível encontrar autores que
utilizam termos próprios tanto das neurociências quanto da psicanálise em uma
mesma teoria – “repressão” e “anosognosia” lado a lado em um mesmo texto,
por exemplo. Entretanto, nem sempre isso foi possível, pois a área “psi” passou
por momentos históricos de prevalência de cada abordagem de forma
antagônica à outra – ora um foco psicodinâmico, ora biológico.
Nesse sentido, a temática se mostra de grande importância com o seu
caráter atual e, de certa forma, revolucionário ao unir teorias tão distintas e
historicamente colocadas em oposição. A neuropsicanálise ganha força ao
apostar em uma abordagem integrativa, que não subestima nem o papel
biológico e genético nem psicossocial e psicodinâmico na constituição humana,
reconhecendo a função essencial e, por vezes, indissociável de cada aspecto.
Dessa forma, a ciência transparece atualidade ao apostar na ideia de que seria
inadequado descartar teorias que possuem pressupostos epistemológicos
distintos, mas que podem contribuir significativamente com a produção de
conhecimento.
O objetivo do artigo é acompanhar as contribuições das neurociências
para o embasamento da teoria psicanalítica, de maneira que seja demonstrado
que os dois conhecimentos não são excludentes e se destaque, assim, a
característica atual e inovadora da neuropsicanálise. Para isso, é revisado o seu
conceito em toda a sua complexidade e histórico, trazendo os seus fundamentos
e aplicações práticas no âmbito da psicologia e psiquiatria, especialmente a
respeito dos transtornos mentais.
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2 O QUE É A NEUROPSICANÁLISE?
No contexto de tentativa de formação de uma visão que integre as teorias
psicodinâmicas e biológicas, surge a neuropsicanálise, apresentando uma
interlocução entre as neurociências e a psicanálise. Com a neuropsicanálise,
chegamos à possibilidade de pesquisa multidisciplinar em neurociência, unindo
a objetividade da neurobiologia aos pressupostos teóricos e técnicos da
psicanálise, minimizando os prejuízos clínicos trazidos pela oposição entre as
diferentes abordagens. A interlocução é baseada em evidências empíricas,
entendidas de maneira abrangente. Entre as origens conceituais, estão a escola
de neuropsicologia dinâmica e a teoria de Aleksandr Luria, Kurt Goldstein e
Jason Brown.
Uma concepção mais geral da neuropsicanálise pode ser encontrada na
obra de Jean Benjamin Stora, que a caracteriza como o encontro entre
psicanalistas e pesquisadores que estejam abertos à interseção entre a
metapsicologia freudiano e os estudos neurocientíficos. A neuropsicanálise está
associada mais diretamente à psicanálise clássica como teorizada por Freud,
remetendo ao referencial dinâmico e à neuropsicologia. Há, ainda, um foco no
estudo dos efeitos comportamentais das lesões cerebrais associados aos
procedimentos teórico-clínicos freudianos.
Nos objetivos da neuropsicanálise, está a investigação das relações entre
o cérebro e as funções psicológicas normais e patológicas, como a influência de
lesões cerebrais na modificação do funcionamento mental de sujeitos saudáveis.
Para isso, é empregada a noção de sistema funcional e o método de análise da
síndrome para obter um quadro psicológico individualizado que contemple todas
as estruturas envolvidas nas alterações estruturais, indo além da mera
identificação dos sintomas. O método em questão é capaz de investigar de que
forma as funções são perdidas, o que se deteriorou primeiro, o que foi
preservado e de que maneira essa dinâmica influencia as demais funções da
personalidade.
As motivações e os fatores inconscientes da personalidade são vistos
pelos neurocientistas como questões que podem dificultar a compreensão de
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transtornos neuropsiquiátricos e a recuperação dos pacientes. Dessa forma, a
psicanálise se torna uma alternativa teórica e metodológica para compreender
esses fenômenos de maneira aprofundada. Assim, são reunidos dados objetivos
da neurociência cognitiva, como aqueles obtidos com testes neuropsicológicos
e exames de neuroimagem funcional, e informações psicodinâmicas através dos
procedimentos psicanalíticos, como as sessões psicoterápicas e a discussão de
casos clínicos que utilizam conceitos clássicos da psicanálise – narcisismo, ego,
melancolia etc.
O entendimento de que a psicanálise proporciona ferramentas pertinentes
para o acesso a formações inconscientes vem do fato de que o controle da
narrativa é assumido pelo próprio paciente. Além disso, métodos como a
associação livre proporcionam a emergência de falas espontâneas que não
teriam tanto espaço em um ambiente controlado. Nesse sentido, não cabe à
psicanálise a utilização de verdades pré-estabelecidas e seus achados podem
ser úteis para esclarecer questões das quais abordagens mais objetivas podem
não dar conta, podendo embasar achados da neurociência – assim como a
neurociência pode trazer outro tipo de embasamento científico, mais tradicional,
à psicanálise.
3 HISTÓRICO DA NEUROPSICANÁLISE
Sigmund Freud, o pai da psicanálise, era médico neurologista e atuou em
laboratórios de fisiologia. Em 1895, foi lançada a obra “Projeto para uma
Psicologia Científica”, reconhecida, em uma visão ortodoxa, como o ponto de
partida para a neuropsicanálise. Independentemente da viabilidade dessa visão,
é inegável que Freud estava à frente de seu tempo ao antever que os conceitos
metapsicológicos poderiam ser clarificados com o estudo do cérebro. Seus
estudos com coloração de neurônios foram muito originais para a sua época e
publicados em revistas internacionais.
Da mesma forma, Freud também exercia clínica privada de neurologia,
em uma dinâmica similar ao que hoje é chamado de Investigação de Translação,
ou seja, a aplicação de conhecimentos obtidos em laboratório para a prática
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clínica. Assim, há uma associação entre o papel de investigador ao de clínico e
vice-versa.
Já Mortimor Ostow foi o primeiro psicanalista a utilizar, de maneira
complementar, o método psicanalítico em conjunto ao processo
psicofarmacológico, além de escrever, a partir de 1950, artigos relacionando o
funcionamento cerebral à psicanálise. Posteriormente, por volta de 1990, o
instituto de psicanálise de Nova York já organizava conferências
interdisciplinares sobre neurociências e psicanálise, gerando anos de debates
que colocavam as duas áreas em interlocução.
Em 1998, o psiquiatra ganhar do prêmio Nobel, Eric Kandel, escreveu o
artigo “Biology and the Future of Psychoanalysis” e recebeu duras críticas,
mostrando que uma abordagem integrativa entre as ciências vistas de maneira
tão dicotômica ainda não era amplamente aceita. Apesar das críticas, Kandel
voltou a publicar, no ano seguinte, um artigo com a mesma temática, intitulado
“A New Intellectual Framework for Psychiatry Revisited”, inspirando
pesquisadores com intenções similares que não tinham coragem de demonstrar
seus posicionamentos publicamente.
A partir daí, é possível citar dois marcos muito relevantes para o
desenvolvimento da neuropsicanálise:
- Início da publicação da revista Neuropsychoanalysis, em 1999;
- Fundação da Sociedade Internacional de Neuropsicanálise, em 2000,
levando ao primeiro Congresso da instituição em Londres, tratando das
emoções.
Com a visibilidade e alcance conquistados pelos marcos históricos, a
neuropsicanálise ganha destaque como uma abordagem estrategicamente bem
colocada em uma dinâmica epistemológica bastante complexa: a relação mente-
cérebro-corpo. A neuropsicanálise reproduz a cultura das sociedades
psicanalíticas, como os grupos de estudos, revistas de divulgação e os fóruns de
discussão de casos clínicos.
De forma geral, é possível afirmar que, nas últimas três décadas, o estudo
do cérebro tem sido feito de maneira essencialmente multidisciplinar. Foram
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realizados esforços que partem desde a década de 1990 para que as questões
subjetivas sejam incluídas no estudo da cognição humana, ao contrário do
século XX, no qual a emoção não tinha espaço por ser considerada subjetiva
demais.
Contrariando um tradicional modus operandi de priorizar temas
cognitivos, alguns estudos neurocientíficos empíricos abrem
precedentes para a inclusão de processos psicodinâmicos como medo,
ansiedade e outras emoções. A percepção e a memória são
atualmente estudadas sem perder de vista o papel do aprendizado
emocional no processamento da informação. Portanto, na passagem
para o século 21, o círculo de debates em torno da psicanálise tem sido
marcado por diferentes propostas de interlocução com
desenvolvimentos neurocientíficos do último quarto do século 20 e
anos 2000 (BOCCHI; MANZONI-DE-ALMEIDA, 2013, p. 58-59).
A psicanálise estende sua capacidade clínica ao integrar o tratamento de
pacientes com lesões neurológicas. Assim como a psicanálise, na época de
Freud, tinha um caráter marginalizada e era quase restrita aos judeus europeus,
grande parte dos cientistas da neuropsicanálise são originários de países
historicamente marginalizados, como a África do Sul, do cientista Mark Solms, e
a Índia, de V. S. Ramachandran.
4 FUNDAMENTOS DA NEUROPSICANÁLISE
Enquanto no início de sua teoria Freud fazia diversas associações entre
seus textos clínicos e seus achados enquanto médico neurologista –
naturalmente uma abordagem com grande influência biológica – posteriormente
suas publicações foram se transformando e adquirindo caráter mais psicológico.
Sua teoria evoluiu para considerar uma série de estudos antropológicos e
mitológicos, além de apresentar o inconsciente muito mais como uma ferramenta
conceitual de investigação clínica da constituição psíquica humana do que como
uma região do cérebro.
Já a neuropsicanálise, em sua constituição, apresenta a cooperação entre
modelos e teorias, ao invés de incorporação, sugerindo que o resultado da
junção não é simplesmente a soma dos pressupostos de cada área. É possível
citar alguns pressupostos-base dos quais parte a neuropsicanálise:
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- Monismo ontológico: mente e cérebro como uma entidade única (mente
e corpo não podem ser reduzidos epistemologicamente entre si), sendo
as funções mentais tão reais quanto as biológicas;
- Realismo indireto: só é possível acessar objetivamente as funções
mentais através da perspectiva de terceira pessoa;
- Para que se entenda e estude os objetos da neuropsicanálise de maneira
sistemática, é necessário que se desenhe inferências e crie modelos com
base em duas fontes irredutíveis:
1. Estudo da experiência subjetiva individual ou grupal, através da
psicologia e psicanálise;
2. Estudo dos estados e funções cerebrais em pessoas, animais e grupos,
utilizando, para isso, exames de neuroimagem, estudos experimentais
com animais e estudos neuropsicológicos experimentais, entre outros.
Ainda, é possível identificar duas abordagens metodológicas que
sustentam as práticas relativas à neuropsicanálise:
- Os estudos psicanalíticos e as investigações clínicas que têm como base
a psicanálise, todavia levam em conta dados de origem neurobiológica e
neurocientífica do cérebro humano ou modelos animas, em particular dos
mamíferos;
- A investigação neurobiológica e neurocientífica do cérebro cuja
influência da metateoria psicanalítica é notória.
Seja um paciente com ou sem lesão cerebral, para que se tenha acesso
à sua vida mental é preciso conhecê-lo de fato, através de uma relação confiável
e construída ao longo do tempo. Freud e Luria acreditavam que uma
representação cerebral só poderia ser relacionada com um processo psicológico
complexo quando a estrutura interna desse processo fosse bem entendida.
Desta forma, para se descobrir a organização neurológica do aparato
mental humano, assim como na psicanálise, deve-se analisar a
estrutura psicológica interna das várias mudanças na personalidade,
na motivação, na emoção que ocorrem como decorrência de danos nas
diversas estruturas cerebrais. Posteriormente, os diversos fatores
latentes que produzem esses sintomas e síndromes podem ser
identificados e cada um relacionado com seu espaço anatômico.
Porém, devido às forças das resistências, estes fatores não podem ser
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demonstrados através de técnicas neuropsicológicas tradicionais. As
técnicas comportamentais e os testes psicométricos que os
neuropsicólogos utilizam para avaliar o estado mental dos pacientes
neurológico e que estão à beira do leito foram feitos para investigar os
transtornos de funções cognitivas que se encontram na “superfície”,
como a fala, a percepção visual, o cálculo etc.; que são os que atuam
de forma independente das resistências emocionais. A associação livre
foi desenvolvida para a exposição da estrutura interna de funções que
estão ofuscadas pelas resistências. Assim, para se estudar a estrutura
psicológica interligada aos transtornos de personalidade, que angustia
os pacientes neurológicos, entende-se que a associação livre deve ser
associada ao método neuropsicológico de Luria (LOBO, 2021, p. 34-
35).
Nesse sentido, é possível compreender que os diferentes fenômenos
investigados também diferem nos métodos utilizados para compreendê-los.
Entretanto, nem todos os atores envolvidos no contexto da neuropsicanálise
fazem essa distinção. Assim como ocorreu historicamente com as dicotomias
biológico x psicodinâmico, alguns grupos têm expectativas que se limitam à
busca por fundamentos biológicos que sustentem na comunidade científica suas
proposições psicanalíticas, enquanto outros à demonstração da recusa em
reconhecer a importância da dimensão biológica na vida psíquica.
O grupo mais aceito pela comunidade científica nos últimos anos busca
aprofundar as interlocuções entre as neurociências e a psicanálise e atua tendo
como base os seguintes pressupostos:
- Recusa da exclusividade da linguagem da Física em todas as ciências,
sejam elas sociais ou naturais, expressando o reconhecimento da
possibilidade de outras linguagens que se adequem às necessidades de
cada área do conhecimento;
- Adoção de uma posição não-reducionista, que recusa criticamente a
busca pela tradução de experiências subjetivas em termos biológicos e
vice-versa, garantindo o pressuposto de colaboração entre as áreas, em
detrimento da sobreposição ou incorporação;
- Pluralismo teórico e metodológico na produção de conhecimento sobre
o psiquismo humano: manter a especificidade das diferentes
epistemologias enriquece o conhecimento, ao invés de limitá-lo;
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- Função determinante do corpo na vida e constituição psíquica deve ser
reconhecida e explorada, não apenas em relação às representações
corporais conscientes e inconscientes, mas de forma geral;
- Postura interdisciplinar, sem hierarquização entre os campos de saber,
a fim de contemplar os mais diversos aspectos do psiquismo humano de
forma não-limitada.
Dessa forma, fica clara a existência de uma abordagem que preza pela
interlocução entre neurociências e psicanálise, enquanto outra, mais ortodoxa,
vai em direção à hibridização, supondo que a psicanálise não é tão boa em testar
hipóteses como é em formulá-las, necessitando de outra ciência para validá-la e
dar credibilidade. Assim, para o caminho da interlocução não há riscos para o
espaço ocupado pela psicanálise, pois é impossível um reducionismo do
psiquismo ao cerebral. Embora a abordagem da psicanálise e da
neuropsicologia sejam incomparáveis, as diferenças epistemológicas não devem
impedir o diálogo, mantendo as especificidades de cada campo.
Como exemplo das atividades de interlocução, podem-se citar a clínica
psicanalítica com pacientes neurológicos e os desdobramentos
teóricos daí resultantes, tais como o problema da cognição na
organização psíquica e nos processos psíquicos inconscientes e
conscientes. Os distúrbios cognitivos atingem o sujeito em suas
sensações de identidade e de existência sustentadas pela memória,
pela imagem do corpo, pelo esquema corporal, pela relação com o
espaço e a temporalidade, bem como pela continuidade da relação
com o outro e pelos processos de reconhecimento de si e do outro. Em
outras palavras, a cognição parece ter uma função de apoio interno
para o sujeito, permitindo-lhe integrar em seu espaço psíquico as
representações de si e do mundo. Tais questões fazem eco ao
pensamento de Donald Winnicott, cujas obras representam uma das
maiores contribuições à Psicanálise depois de Freud. Winnicott postula
que os distúrbios cognitivos põem o "self" em perigo, uma vez que o
sentimento de integridade se apoiaria no desenvolvimento de um "eu
integrado", abalado, por exemplo, por distúrbios neurológicos
envolvendo a memória ou a noção de tempo do sujeito (DAVIDOVICH;
WINOGRAD, 2010, p. 807).
A colaboração entre a psicanálise e as neurociências apresenta diversos
motivos para ser corroborada. Embora a psicanálise seja uma abordagem
focada na relação transferencial e na causalidade psíquica inconsciente e a
neuropsicologia cognitiva se coloque em direção a uma causalidade científica
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com base no método experimental, quando colocadas em torno do mesmo objeto
de investigação – o papel da cognição na vida psíquica – e da intervenção
clínica, ambas se complementam.
Enquanto a neuropsicologia cognitiva objetiva descrever os mecanismos
cognitivos e suas ligações com as estruturas do cérebro em busca da
reabilitação das funções deficitárias, a psicanálise tem como objetivo investigar
os danos cognitivos na organização psíquica de forma geral, considerando:
- As lesões cerebrais e como se traduzem neuropsicologicamente;
- A história familiar consciente e inconsciente que se atualiza com o
adoecimento neurológico, causando impacto na estrutura familiar e nas
suas representações internas;
- A maneira com que os problemas cognitivos e perceptivos impactam na
vivência do paciente e em seu psiquismo;
- Os efeitos da violência da doença.
5 APLICAÇÕES DA NEUROPSICANÁLISE EM TRANSTORNOS
5.1 DEPRESSÃO
Déficits neuropsicológicos vêm sendo associados ao Episódio Depressivo
Maior, embora dependam de diferenças individuais e apareçam somente em
alguns indivíduos, envolvendo anormalidades em aspectos como:
- Sustentação da atenção;
- Funções executivas;
- Velocidade psicomotora;
- Raciocínio não-verbal;
- Novas aprendizagens.
Através de avaliação neuropsicológica de pacientes deprimidos, foram
encontradas alterações cognitivas comuns, afetando questões como;
- Evocação após um intervalo de tempo;
- Aquisição da memória;
- Atenção;
- Concentração;
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- Flexibilidade cognitiva;
- Abstração.
Os déficits de memória associados à depressão se assemelham aos de
pacientes com disfunção subcortical – é o caso da doença de Huntington, por
exemplo. Em idosos depressivos e especialmente naqueles com história crônica
e recorrente de depressão, as alterações desse tipo estão mais presentes.
A alteração da atenção em pacientes depressivos é um dos aspectos
cognitivos mais observados nesse contexto. Isso pode ter relação com a
facilidade com que as alterações atencionais podem ser visualizadas em exames
clínicos superficiais e o nível de motivação apresentado pelo paciente
depressivo, a qual interfere significativamente no funcionamento
comportamental e cognitivo.
A neuropsicologia e a psiquiatria apontam alterações no sono, incluindo
insônia, excesso de sono e inversão cronobiológica, como a diminuição da
latência para o primeiro ciclo do sono REM. As regiões cerebrais mais estudadas
e relacionadas à depressão são as frontais e suas conexões, bem como as áreas
temporais. Além disso, a região da amígdala, por estar relacionada ao
aprendizado emocional, vem sendo estudada em relação à sua associação com
a depressão.
Em indivíduos depressivos, exames de diagnóstico por imagem têm
demonstrado redução global do metabolismo cerebral anterior e aumento do
metabolismo da glicose em regiões límbicas, especialmente na amígdala. A
evidência é reforçada em pacientes com depressões graves e recorrentes e
históricos familiares de transtornos de humor. Ruminações intrusivas podem
estar associadas ao aumento do metabolismo da glicose, o qual atua como um
amplificador emocional que distorce sinais de estressores menores em pessoas
vulneráveis, o que pode ser minimizado com uma farmacoterapia executada de
forma eficaz.
Para a psicanálise, a experiência depressiva já foi descrita como uma
sensação de aniquilamento que beira o aspecto físico, sendo uma doença que
vai enfraquecendo aos poucos o paciente. Embora as metáforas para o
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depressivo sejam esvaziadas, devido à exaustão da linguagem, é comum que
sejam usadas para se referir à doença: desaparecimento da vida, frio, silêncio
gelado, entre outros – ou seja, diversas expressões que remetem à ausência e
ao esvaziamento, ao nada. Freud descreveu a depressão como uma inibição
generalizada, na qual as funções do eu são limitadas e ocorrem fugas por
precaução ou empobrecimento de energia.
Psicanalistas como Maria Rita Kehl ainda associam a depressão a uma
problemática com o tempo da forma como é vivenciado pelo sujeito
contemporâneo, colocando o transtorno como um sintoma social. O tempo, na
sociedade contemporânea, é vivenciado em termos de excesso: é preciso ter
tempo para tudo, resultando em não ter tempo para nada e para lidar com o
próprio desejo.
Não há espaço para a incompletude constitutiva de todo ser humano, que
se vê esvaziado diante do excesso de gozo, de informação, de exibicionismo, de
tarefas e de novidades. Quanto mais o sofrimento gerado pela depressão é
percebido como comportamento inadequado e desviante da norma e do
imperativo da felicidade, mais o indivíduo sofre. A contribuição dessa teoria é
fundamental para que se pense os transtornos mentais também como produtos
das relações sociais estabelecidas em determinado contexto histórico, embora
não se limitem a isso.
Para a psicanálise, muitos autores não fazem uma distinção entre a dor
física e a emoção advinda da dor psíquica, colocando-as em patamares
similares. É tido como um papel do psicanalista o auxílio ao paciente para que
seja construída uma narrativa capaz de simbolizar a dor, que não tem significado
por si só.
Em si, a dor não tem nenhum valor nem significado. Ela está ali, feita
de carne ou de pedra [...]. para acalmar a dor, é necessário tomá-la
como expressão de outra coisa, destacá-la do real, transformando-a
em símbolo. Atribuir um valor simbólico a uma dor que é em si puro,
real, emoção brutal, hostil e estranha, é enfim o único gesto terapêutico
que a torna suportável (NASIO apud ANDRADE, 2017, p.11).
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Nesse sentido, mais uma vez uma abordagem integrativa que coloque em
interlocução intervenções biológicas/cognitivas e psíquicas se mostra relevante.
A depressão carrega diversas alterações cognitivas e possui caráter genético em
diversos casos, além de estar relacionada com eventos traumáticos, história
pessoal e familiar e contexto social, sendo um transtorno complexo multifatorial
que se beneficia de uma abordagem que contemple a sua amplitude.
5.2 TRAUMAS PSÍQUICOS
A memória de longo prazo é formada a partir de uma mudança epigenética
– quantidade de sensibilizações que aumentam fosforilação de proteínas que
são dependentes dos níveis de AMPc –, dependendo do aumento prolongado
de AMPc seguido de aplicações repetidas de serotonina. São aumentadas,
assim, as conexões sinápticas. A figura 1 representa as sinapses simples, na
memória de curto prazo, enquanto a figura 2 exemplifica as sinapses associadas,
atreladas à memória de longo prazo.
Figura 1 – Sinapses simples
Fonte: Ketzer (2019, p. 12)
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Figura 2 – Sensibilização de longa duração
Fonte: Ketzer (2019, p. 12)
A consolidação da memória ocorre após três etapas:
- Codificação da informação (encoding);
- Armazenamento da informação (storage);
- Recuperação da informação (retrieval).
É a partir do desenvolvimento afetivo que ocorre uma implicação com as
relações e com as respostas que se automatizam, aquelas que executamos sem
precisar pensar. Em pacientes narcisistas ou vítimas de abuso sexual, há uma
dificuldade de estabelecer relações próximas e com confiança.
A intimidade seria capaz de gerar confiança, atrelada à amígdala cerebral,
parte do sistema límbico, o qual é responsável pela memória, tomada de decisão
e regulação emocional. Essa capacidade do sistema límbico, no entanto, se
confronta com a disposição do córtex pré-frontal para assegurar confiança em
imagens que remetem a representações já conhecidas e facilmente acessadas
em contextos de medo ou ansiedade.
O sinal de angústia, como concebido por Freud, pode ser remetido a um
medo aprendido, em termos cognitivos. “A amígdala recebe informações diretas
sobre as respostas de medo inconsciente (estado emocional) e informações
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indiretas sobre o processamento cognitivo do medo (sentimentos) pelas
conexões com o córtex cingulado” (KANDEL et. al apud KETZER, 2019, p. 12).
Dessa forma, a amígdala tem a capacidade de distinguir sinais incondicionados,
percebidos como ameaçadores, ou condicionados, comuns. Em situações de
medo aprendido, as sinapses são homogeneizadas, contudo o aprendizado
envolve persistência: mudanças de hábito requerem mudanças no corpo
estriado e nas sinapses – região afetada pela doença de Alzheimer.
Nesse sentido, um cérebro sadio deve ser capaz de evitar o
entorpecimento causado pelo sentimento contínuo de segurança total, assim
como o excesso de estresse, possuindo um equilíbrio emocional. A não
exigência de esforço proporcionada pela manutenção da energia sempre no
mesmo nível pode ser prejudicial, sendo presente em pacientes muito frágeis
que possuem dificuldade para formar vínculos afetivos. Em pacientes com o
diagnóstico de transtorno borderline ou vítimas de abuso na infância há uma
associação com a liberação do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH),
responsável pela hiperatividade da amígdala, em situações com potencial
estressor.
Com eventos traumáticos, a violência sofrida causa uma dificuldade na
fala sobre si e a na construção de uma narrativa identitária. Nesse sentido, a
intervenção psicanalítica é pertinente para dar lugar a uma narrativa própria do
sujeito, criando espaços de escuta para aquilo que não pode ser falado. A
memória fica esvaziada quando não há emoção ou representações externas
com as quais possa ser relacionada. Assim, a memória ganha um status ativo,
indo além do mero retorno ao passado e se atualizando à medida que é
recuperada conscientemente, especialmente quando adquire um caráter positivo
ou negativo sentimental.
A neuroplasticidade possui grande relevância para a psicanálise,
remetendo ao conceito da física referente à capacidade de um corpo de mudar
sua forma após sofrer pressão. Quando o processo terapêutico é capaz de criar
possibilidades e conexões que ampliam o repertório do paciente, temos uma
plasticidade positiva. Já quando o sujeito não consegue sair de elementos
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traumáticos e adoecedores que resistem em uma única significação ou persiste
em danos cerebrais, há um grande potencial negativo para a saúde mental do
paciente.
5.3 PERTURBAÇÕES DA AUTOIMAGEM
Dependendo da intensidade do distúrbio e da extensão da lesão, as
lesões no hemisfério direito podem causar sinais e sintomas de alteração
cerebral, tais como:
- Alterações cognitivas;
- Déficits de memória visuo-espacial;
- Déficits emocionais;
- Déficits na comunicação entre os dois hemisférios.
O lobo parietal direito aparece como principal destaque na literatura
acerca dos correlatos neurais mais mencionados nesse contexto. Entre os
distúrbios na percepção da imagem corporal, há casos famosos na literatura
científica:
- Anosognosia: não-reconhecimento da perda da funcionalidade de um
membro, mesmo com a apresentação de evidências. Alguns pacientes
com essa condição não são capazes de perceber estímulos táteis,
auditivos e/ou visuais, advindos do hemicorpo contralateral à lesão –
negligência sensorial ou espacial.
- Perturbações cognitivo-espaciais: julgamento visuo-espacial, por
exemplo, com prejuízo na organização de objetos e orientação espacial
para um dos lados.
- Quando forçados a lidarem com sua paralisia, insistem que o braço não
pertence a eles. Há uma extrema dificuldade em aceitar que o membro
em questão não lhes pertence, sendo mais fácil acreditar que, por
exemplo, um examinador possua três braços do que reconhecer o
pertencimento.
Enquanto alguns autores sugerem que esses sintomas são distúrbios de
atenção, outros apontam para a possibilidades de serem déficits no
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processamento perceptivo. As explicações mais frequentes têm a ver com uma
especialização lateral das funções hemisféricas – como ocorre na teoria da
dominância do hemisfério direito para as emoções negativas, na qual pacientes
com a síndrome em questão teriam adquirido uma inabilidade de perceber os
aspectos negativos de sua nova condição corporal.
Teorias como essa se restringem aos aspectos observáveis das
alterações cerebrais, não sendo capazes de explorar de forma aprofundada a
complexidade das perturbações psíquicas envolvidas. Para alguns autores, a
recusa no reconhecimento das alterações físicas ou funcionais está ligada ao
sofrimento insuportável gerado por essas condições.
Experimentos já chegaram a apresentar evidências que sugerem que há
um mecanismo semelhante à repressão psíquica em atuação na síndrome: o
conhecimento dos déficits está registrado na memória, porém, por algum motivo,
o acesso a essas representações está barrado. No entanto, Solms coloca a
questão do porquê as representações da autoimagem também não são barradas
quando a lesão se dá em uma região correspondente do hemisfério esquerdo.
Esse exemplo demonstra mais um caso no qual apenas a integração da
abordagem psicodinâmica com a neuropsicológica pode ser capaz de
compreender o funcionamento de uma condição clínica importante. Há exemplos
na literatura científica de sintomas de negação que desaparecem
provisoriamente com uma intervenção psicanalítica, em forma de interpretação,
que aponta as contradições existentes no discurso negacionista do paciente:
[...] a investigação clínica nos moldes psicanalíticos identificou um
padrão nos sintomas: um fracasso no processo de luto pela perda de
funções corporais. Antes do adoecimento, esses indivíduos
provavelmente mantinham uma relação narcísica com a realidade e
uma idealização de controle narcísico do corpo (e não puderam aceitar
a perda da vitalidade, nem que ela fosse apenas parcial). A percepção
da perda é particularmente mais intolerável aos indivíduos com a SHD,
como uma ferida narcísica, o que dificulta ou impede o processo do
luto pelas modificações corporais, que ocorreria normalmente se não
fosse a inclinação melancólica destes pacientes (BOCCHI, MANZONI-
DE-ALMEIDA, 2013, p.63).
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Em um caso descrito na literatura, embora não conseguisse aceitar a
perda da capacidade de andar, uma senhora era capaz de reconhecer perdas
menores, como dos óculos e dos cigarros, por exemplo, que eram
desproporcionais aos sentimentos depressivos. As perdas menores são
avaliadas como representantes deslocadas de uma perda maior inconsciente. O
processo de luto sadio era impossibilitado pela questão de a perda maior ser
reprimida.
Casos como esse podem ser relacionados ao que Freud escreveu a
respeito da melancolia e sua base narcísica. Houve uma depressão relativa à
perda inconsciente da condição saudável, da integridade corporal e da
independência. Embora o melancólico consiga reconhecer o que perdeu, ele não
é capaz de dizer o que exatamente perdeu no objeto em questão. Assim, uma
pessoa pode, por exemplo, identificar uma perda e se queixar por ser
dependente de cuidados externos, mas ignorar que a sua deficiência seja a
responsável pela perda da autonomia.
Para Freud, há uma base narcísica na relação da melancolia com os
objetos amorosos, a qual é marcada pela fixação em um objeto intensamente
investido. Entretanto, o objeto em questão possui um vínculo frágil com o sujeito,
sendo suscetível ao rompimento de situações de crise e adversidade.
Ao contrário de um luto normal, o melancólico não consegue desinvestir
do objeto perdido e recomeçar. Dessa forma, a substituição do investimento no
objeto se torna a identificação narcísica com ele. Esse processo incorpora
grande ambivalência de amor e ódio, fazendo com que haja uma reconstrução
do objeto perdido no mundo interno do sujeito, cindindo o próprio ego. A
hostilidade que seria dirigida ao objeto passa, então, a ser direcionada ao ego,
levando aos impulsos suicidas.
As tentativas de elucidação quanto à expressividade dos casos da
Síndrome do Hemisfério Direito em comparação com a do esquerdo levaram à
conclusão de que lesões no hemisfério direito produzem uma desestabilização
dos mecanismos neuropsíquicos que envolvem a representação dos objetos e o
eixo espacial – a concepção objetal e espacial se torna desestruturada. Além
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disso, agora do ponto de vista psicodinâmico, as lesões nesse hemisfério
provocam uma organização narcísica, funcionamento psíquico
consideravelmente mais primitivo. Ocorre, portanto, uma regressão do amor
objetal para o narcísico.
Embora diagnósticos difíceis sejam naturalmente de aceitação mais
complicada, nos casos relacionados a lesões do hemisfério direito à identificação
com o objeto perdido – o corpo – transforma os aspectos ambivalentes das
representações corporais em objetos externos separados, sobre os quais não se
exerce mais controle. Assim, é específico da Síndrome do Hemisfério Direito o
ódio ou a indiferença atrelada à percepção corporal dissociada. Portanto, é
possível fazer uma diferenciação mais clara, colocando em interlocução a
psicanálise e a neurociência, das lesões do hemisfério esquerdo, nas quais, ao
invés de os objetos serem representados de maneira concreta, são visualizados
simbolicamente, como significantes, ao invés de como coisas.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os artigos analisados na revisão bibliográfica apontam para uma maior
eficácia de uma abordagem que priorize a interlocução entre a psicanálise e a
neurociência, em detrimento da sobreposição de um viés sobre o outro ou de
tentativas limitadas às expectativas de levar credibilidade a uma teoria. Nesse
sentido, preservando as especificidades de cada campo e os elementos
incomparáveis na epistemologia de cada um, é possível perceber que há, sim,
diversas contribuições que podem ser feitas à produção de conhecimento
científico através da neuropsicanálise, desde que feitas de maneira cuidadosa.
Casos como os relatados na temática das perturbações da autoimagem
elucidam de maneira bastante satisfatória as contribuições da neuropsicanálise,
evidenciando a insuficiência das duas teorias, caso isoladas, para compreender
profundamente os fenômenos das síndromes de percepção. Mais do que buscar
explicações causais, é relevante a contribuição no sentido de pensar
intervenções possíveis para o tratamento das condições clínicas, possível
somente através de um viés integrativo.
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Considerando os grandes desafios presentes no caminho da relação entre
a neurociência e a psicanálise, como as dicotomias mente-corpo e as duras
críticas enfrentadas pelos pioneiros da neuropsicanálise, é surpreendente as
conquistas que foram alcançadas nos últimos anos e o prestígio científico que
foi alcançado em uma área outrora marginalizada. A psicanálise, que já foi
julgada por não atender aos requisitos das ciências naturais e seus métodos
experimentais, alcança uma posição privilegiada nessa abordagem ao mesmo
tempo em que não corre riscos relacionados à perda de seu espaço. Da mesma
forma, as neurociências conseguem responder às críticas relacionadas à
desconsideração de aspectos psicodinâmicos e psicossociais na constituição
humana.
Dessa forma, considerando os grandes avanços observados até aqui e
seu caráter recente, a neuropsicanálise aponta para a possibilidade bastante
provável de maiores descobertas e investimentos na área nos próximos anos.
Como opção, é possível que sejam investigadas condições clínicas e transtornos
que não se limitem às lesões cerebrais, campo mais aprofundado até então, e
novos horizontes sejam vislumbrados.
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