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Fisiologia do Envelhecimento Humano

O envelhecimento é um processo inevitável que afeta todos os seres vivos, caracterizado por alterações fisiológicas, psíquicas e sociais. A senescência, que envolve a degradação celular e a perda funcional, é distinta da velhice, que é definida por fatores cronológicos e sociais. O aumento da expectativa de vida, impulsionado por melhorias nas condições de saúde, destaca a importância de entender as mudanças que ocorrem no corpo humano ao longo do tempo.

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Fisiologia do Envelhecimento Humano

O envelhecimento é um processo inevitável que afeta todos os seres vivos, caracterizado por alterações fisiológicas, psíquicas e sociais. A senescência, que envolve a degradação celular e a perda funcional, é distinta da velhice, que é definida por fatores cronológicos e sociais. O aumento da expectativa de vida, impulsionado por melhorias nas condições de saúde, destaca a importância de entender as mudanças que ocorrem no corpo humano ao longo do tempo.

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Capítulo 3

Fisiologia do Envelhecimento

Edgar Nunes de Moraes


Raquel Souza Azevedo
Thiara Joanna Peçanha da Cruz
Rodrigo Ribeiro dos Santos
O conceito de envelhecimento é variável, dependendo do enfoque utilizado. É
um fenômeno que não está restrito aos seres vivos. É o ato ou efeito de envelhecer.
Tudo envelhece, objetos, animais, plantas, pessoas, países, fatos, etc. Envelhecer é
tornar-se velho. Por sua vez, velho é tudo que dura muito tempo, antigo, que data
de épocas remotas, idade avançada, que não é novo, que existe há muito tempo,
antigo ou que já tem muitos anos. E, por fim, velhice é a condição ou estado de
velho. Todos esses termos, envelhecimento, envelhecer, velho e velhice seguem a
mesma tendência de referir-se mais ao tempo e não às pessoas. Desta forma, po-
de-se conceituar envelhecimento como uma medida da passagem do tempo.
O envelhecimento humano é um processo inexorável, associado a diversas alte-
rações biológicas, psíquicas e sociais. As alterações fisiológicas que ocorrem com a
passagem do tempo são denominadas de senescência. Todos os órgãos ou sistemas
fisiológicos que compõem o indivíduo apresentam modificações ou remodelamento
que acontecem à medida que o tempo passa. O corpo humano é repleto de redun-
dâncias, como, por exemplo, dois pulmões e rins. Portanto, a capacidade de adap-
tação do organismo ao declínio de algumas funções fisiológicas é grande e difícil de
ser definida. Assim, o conceito de envelhecimento normal (senescência) e anormal
(senilidade) é praticamente impossível de ser estabelecido, pois a fronteira entre se-
nescência e senilidade é ainda desconhecida (Figura 3.1).
Percebe-se, portanto, que senescência e velhice não são sinônimos. O conceito
de velhice não é biológico, pois não há algum marcador biológico dessa fase do ciclo
da vida. Velhice é um fenótipo caracterizado pelo embranquecimento dos cabelos,
calvície, enrugamento da pele, mudança nos papéis sociais, netos, perda de amigos
e parentes, aposentadoria, entre outros. É, portanto, uma padronização cronológica
resultante do somatório de aspectos físicos e socioculturais. Nos países desenvolvi-
dos, considera-se velho todo indivíduo com 65 anos ou mais. Já nos países subdesen-
volvidos, adotou-se a idade de 60 anos para demarcar o início da velhice.
O ser humano atinge o máximo das suas funções orgânicas por volta dos 30
anos. A partir daí, há progressivo declínio funcional, com a perda funcional global
de 1% ao ano em praticamente todos os sistemas fisiológicos principais (siste-
ma circulatório, nervoso, respiratório, musculoesquelético, digestivo, reprodutivo,
urinário, endócrino, linfoide, pele e órgãos dos sentidos). Essa desregulação do
funcionamento integrado dos sistemas fisiológicos causa progressivo declínio da
capacidade homeostática do organismo. É extremamente variável entre os indiví-
duos e nos diferentes sistemas fisiológicos (Figura 3.2). Assim, o idoso não pode

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ser encarado apenas como uma continuação do adulto, mas sim como alguém que
tem um organismo mais vulnerável às agressões.

Figura 3.1 Fronteira entre senescência e senilidade

FRAGILIDADE

VITALIDADE

SENESCÊNCIA SENILIDADE
Envelhecimento Fisiológico Envelhecimento Patológico

FRONTEIRA
A fronteira entre senescência e senilidade ainda é desconhecida

O idoso não é um adulto com mais idade e com


mais cabelos brancos.

A senescência é um fenômeno progressivo, cumulativo, individual, multifato-


rial, sistêmico, deletério e relativamente recente, próprio do ser humano. Os de-
mais seres vivos não têm a oportunidade de sobreviver até idades mais avançadas.
O declínio associado à senescência limita a luta pela sobrevivência, encurtando o
ciclo da vida. O organismo humano nasce com um potencial de sobrevivência bem
superior ao necessário para completar a exigência filogenética do sucesso reprodu-
tivo, como garantia da preservação da espécie humana. A máxima expectativa de
vida permitida por essa “capacidade fisiológica redundante” ou “reserva fisiológi-
ca” situa-se por volta dos 120-130 anos e não se modificou nos últimos 100.000
anos. A melhoria das condições de vida das pessoas, a eliminação de algumas

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doenças infecciosas, as medidas higiênicas e de saúde coletiva, a imunização e o
desenvolvimento de novas tecnologias médicas de diagnóstico e tratamento estão
permitindo o alcance progressivo desse limite. Até o último século, a expectativa
de vida pouco variou ao longo do tempo, permanecendo por volta dos 25 a 30
anos. A partir daí, o ser humano está conquistando a longevidade rapidamente.
Em alguns países, como o Japão, a expectativa de vida média da população é de 80
anos, com tendência crescente. Nunca existiu tanta chance de envelhecer como na
atualidade. Já se tem relato de indivíduos que atingiram o limite máximo da vida,
como foi o caso da francesa Jeanne Lousiane Calment, que viveu até os 122 anos.

Figura 3.2 Fenótipos ou tipos de envelhecimento somático e seus principais determinantes

A senescência é um processo intracelular e é caracterizada pelo acúmulo de


danos nos diversos componentes celulares, como a membrana celular, as pro-
teínas e o DNA. Tais danos prejudicam a atividade das enzimas intracelulares,
a fluidez da membrana celular e a atividade das organelas, comprometendo a
função celular. Essa senescência celular e a apoptose (morte celular programada)
são mecanismos de proteção do organismo, evitando o aparecimento de células
anormais e/ou atípicas (células neoplásicas). Existem várias teorias que tentam
explicar a senescência. Todavia, ainda estamos distantes de conhecer todos os
mecanismos envolvidos na sua gênese.

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Esse aumento da vulnerabilidade ou da suscetibilidade do idoso é consequência
de algumas alterações que ocorrem no organismo, que não são suficientes para gerar
doenças e/ou incapacidades. Portanto, pode-se afirmar que:

Velhice não é doença nem incapacidade.

Composição Corporal
As mudanças no metabolismo hidroeletrolítico são responsáveis pela maior ten-
dência à desidratação, hipotensão ortostática, hipercalemia (aumento dos níveis sé-
ricos de potássio) e hiponatremia (redução dos níveis séricos de sódio). A água é o
principal componente da composição corporal na criança, correspondendo a 70% do
seu peso. Com o envelhecimento, há redução de 20 a 30% da água corporal total
e 8 a 10% do volume plasmático. A redução é maior no conteúdo intracelular. Essa
“desidratação crônica” é agravada pela pouca sensação de sede, tornando-o mais
vulnerável à desidratação aguda e aos efeitos colaterais de vários medicamentos. O
diagnóstico de desidratação também é mais difícil, pelas alterações do envelhecimen-
to cutâneo, como a enoftalmia (“olho fundo”), redução do turgor e elasticidade da
pele e ressecamento da mucosa oral.
Além da redução da água corporal, o envelhecimento provoca diminuição de 20 a
30% da massa muscular (sarcopenia) e massa óssea (osteopenia/osteoporose), cau-
sados, em parte, por alterações na produção de alguns hormônios, como hormônio
de crescimento, estrógeno, testosterona, entre outros. A sarcopenia contribui para as
seguintes alterações no idoso:
• mais tendência à redução do peso corporal da maioria dos órgãos;
• redução na força muscular, mobilidade, equilíbrio, tolerância ao exercício, pre-
dispondo a quedas e imobilidade;
• redução dos tecidos metabolicamente ativos, levando à diminuição do meta-
bolismo basal (100 Kcal/ década) que, por sua vez, causa anorexia e conse-
quente redução da ingestão alimentar, agravando mais ainda o quadro, po-
dendo causar subnutrição proteico-calórica e deficiência de micronutrientes,
como vitamina D, magnésio, cálcio e zinco;
• diminuição da sensibilidade à insulina: intolerância à glicose;
• comprometimento da resposta imunológica.

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Ocorre aumento de 20 a 30% na gordura corporal total (2 a 5%/década, após os 40
anos) e modificação da sua distribuição, tendendo à localização mais central, abdominal
e visceral. No sexo feminino, a gordura deposita-se mais na região nas nádegas e coxas
(aparência de “pera”) e nos homens localiza-se mais na região abdominal (aparência de
“maçã”). A principal complicação é o aumento da meia-vida das drogas lipossolúveis,
como os benzodiazepínicos (diazepam), aumentando o risco de toxicidade.

Peso e Índice de Massa Corporal (IMC)


O índice de massa corporal (índice de Quetelet = peso em quilogramas dividido
pela estatura em metros e elevado ao quadrado) tende a elevar-se com o envelhe-
cimento, provavelmente pelo aumento progressivo da massa de gordura corporal,
redução da atividade física, mudanças dos hábitos alimentares e alterações endócri-
nas. Nos idosos, os pontos de corte do IMC diferem daqueles sugeridos pela OMS
em 1995 para a população adulta, segundo os quais os limites da eutrofia situam-se
entre 18,5 kg/m2 e 25 kg/m2. Utilizam-se os pontos de corte (Quadro 3.1):

Quadro 3.1 Índice de massa corporal adotado em idosos

IMC

Diagnóstico IMC (kg/m2)

Eutrofia 22- 27

Subnutrição < 22

Obesidade > 27

Imunossenescência
O envelhecimento está associado a várias alterações na imunidade, que predis-
põem a alta incidência de doenças infecciosas, autoimunes e neoplásicas. Tais al-
terações são listadas no Quadro 3.2. Daí a importância da vacinação contra várias
doenças como influenza, pneumonia, entre outras.

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Quadro 3.2 Imunossenescência

Imunidade Celular
- Hipotrofia do timo, responsável pelo desenvolvimento, matu-
ração e seleção de linfócitos T circulantes, que reduzem entre
20 e 30%;
- Declínio da resposta celular;
- Redução da “memória imunológica”. Infecção

Não há redução quantitativa ou qualitativa na função dos Autoimunidade


leucócitos polimorfonucleares.
Neoplasia
Imunidade Humoral
- Não há mudanças no número de linfócitos B circulantes;
- Redução na produção e no funcionamento dos anticorpos;
- Aumento na produção de autoanticorpos (anticorpos contra
o corpo da própria pessoa).

Órgãos dos Sentidos

Visão/olhos
As alterações anatômicas mais comuns nos olhos são a enoftalmia (“olho fun-
do”), edema de pálpebra inferior, ptose (queda da pálpebra), lacrimejamento, halo
senil, pterigium e conjuntiva mais fina e friável (“sensação de areia nos olhos”). Do
ponto de vista funcional, observa-se a presbiopia (diminuição da acomodação para
objetos próximos), miose senil (redução da visão noturna e da acomodação aos cla-
rões), alto risco de descolamento de retina e redução da visão periférica e central,
comprometendo a visão espacial e aumentando o risco de quedas. O Quadro 3.3
mostra as principais alterações dos olhos e da visão com o envelhecimento.

Quadro 3.3 Alterações dos olhos e da visão com o envelhecimento

Alterações com o envelhecimento Consequências

Diminuição da produção de lágrima. Aumento de irritação nos olhos.

Detalhes podem passar despercebidos,


Diminuição da capacidade de enxergar
como degraus, objetos no chão, etc.
com nitidez, principalmente de perto
Há dificuldade com letras pequenas,
(presbiopia).
cortar unhas, cozinhar, etc.

Tendência a esbarrar em objetos,


Diminuição do campo visual.
como quinas de mesa e poltronas.
Continua...

47
... continuação

Quadro 3.3 Alterações dos olhos e da visão com o envelhecimento

Alterações com o envelhecimento Consequências

A visão leva mais tempo para se ajustar


Há dificuldade para ir ao banheiro
do escuro para a luz, e vice-versa.
durante a noite. Deve-se evitar acender a
Redução da acuidade visual em
luz rapidamente, para não piorar a visão.
situações com pouco contraste.

Diminuição da capacidade de focar os


Dificuldade para ler letras e números
objetos independentemente da distância
pequenos.
em que se encontram.

Dificuldade com pisos desenhados, dificul-


Diminuição da noção de profundidade e da
dade em distinguir o que está à frente ou ao
capacidade de prever objetos e obstáculos.
fundo, quando não há cores contrastantes.

Diminuição da discriminação de cores, Dificuldade em ambientes com monoto-


principalmente no espectro azul-verde. nia de cores.

Diminuição da capacidade de lidar com Dificuldade em dias com muito sol,


ofuscamento: quando a luz incide em refletindo em pisos, objetos e mesmo em
superfícies polidas e reflete. lâminas d'água.

Diante dessas alterações, recomendam-se os seguintes cuidados:

• todas as medidas devem ser individualizadas, respeitando-


se as particularidades, necessidades e preferências do idoso;
• estimular o uso regular de lágrima artificial para ajudar a
reduzir a irritação nos olhos, prescrita por oftalmologista;
• o ambiente deve ser sempre iluminado e bem sinalizado;
• à noite, manter sempre uma luz acesa, como por exemplo,
luz do corredor para diminuir a dificuldade do idoso de ir
até o banheiro, além de barras de apoio no box e ao redor
do vaso sanitário;
• incentivar o uso do urinol;
• não deve haver obstáculos nos locais onde o idoso circula, tais como:
excesso de móveis, objetos pelo chão, pisos escorregadios, ausência de
barras de apoio, etc;
• cuidado com os tapetes. Se não for possível retirá-los, mantenha-os presos
embaixo do móvel ou substitui-los por tapetes com antiderrapantes;
• os degraus do início e do final das escadas devem ser sinalizados com
fita antiderrapante e de cor contrastante e as escadas devem sempre ter
corrimão para aumentar o apoio e segurança do idoso;
• os objetos utilizados para lazer, como cartas, jogos, etc., devem ter os
números e letras de tamanho maior;

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• os calendário e relógios devem ser grandes;
• procurar manter os objetos sempre no mesmo lugar, evitando mudanças
desnecessárias;
• se fizer uso de óculos, deverá ser incentivado a usá-los sempre (para leitura,
à distância e para dirigir);
• o idoso deve fazer uma avaliação oftalmológica uma vez por ano.

Audição/orelhas

Com o envelhecimento ocorre crescimento relativo das orelhas e do nariz. Os pelos da


orelha tornam-se mais grossos, mais compridos e proeminentes. Os principais sintomas
auditivos associados ao envelhecimento são a disfunção auditiva, prurido e os zumbidos
nos ouvidos. A disfunção auditiva pode ser neurossensorial ou condutiva. A hipoacusia
neurossensorial caracteriza-se por perda bilateral lenta e progressiva da audição para tons
de alta frequência. Portanto, não se recomenda gritar com o paciente, para não agravar
mais ainda o discernimento das palavras. A otoscopia é fundamental para se afastar a
hipoacusia condutiva por impactação de cera. Prurido é queixa comum, secundário à
atrofia da pele e ressecamento. Zumbido no ouvido, uni ou bilateral, é sintoma comum e
multifatorial. A Quadro 3.4 apresenta as principais alterações da audição no idoso.

Quadro 3.4 Alterações da audição com o envelhecimento

Alterações com o envelhecimento Consequências

Diminuição da capacidade de escutar Dificuldade para ouvir, principalmente dificul-


sons agudos (presbiacusia). dade em perceber sons em alta intensidade
Aumento da impactação de cerúmen (fortes), necessitando aumentar o volume da
(cera no ouvido). televisão, rádio, etc.

Dificuldade na compreensão verbal de sons


como “s”, “t”, “f”, “g”, “ch”.
Dificuldade em entender uma conversação em
ambiente ruidoso.
Dificuldade em entender uma conversação
muito rápida.
Diminuição da discriminação de sons. Problemas de alerta e defesa, devido à difi-
Redução da percepção da fala. culdade de ouvir pessoas, veículos, alarmes e
anúncios de emergências.
Depressão, frustração, raiva, medo, isolamen-
to social causados pelas incapacidades de
comunicação.
Problemas de comunicação com médicos e
outros profissionais.

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Na presença de alterações na audição, recomendam-se as seguintes medidas:

• articular claramente as palavras, mas sem exageros;


• quando houver necessidade, repetir a mensagem;
• utilizar vocabulário simples e familiar;
• evitar frases longas;
• voz audível, não gritar, pois os idosos têm dificuldades com os sons muito
agudos, além de aumentar a tensão entre os falantes;
• falar devagar e sem omitir palavras, letras ou sílabas;
• conversar diante do idoso, deixando o rosto descoberto e iluminado;
• sempre que houver necessidade, altere a sentença, respeite as pausas e a
variação da entonação da fala;
• caso seja necessário, usar gestos;
• evitar conversar em ambientes muito barulhentos e sempre que possível
reduzir as fontes de ruído (rádio, TV, etc.). Quando existir mais de duas
pessoas falando, certamente haverá dificuldade na conversação;
• falar próximo e de frente para o idoso;
• incentivar o idoso a fazer lavagem de ouvido periodicamente, pois o acúmulo
de cerúmen (cera) pode ocasionar déficit auditivo;
• é proibido o uso de cotonetes para limpeza dentro do ouvido, pois o
cotonete empurra o cerúmen para dentro do ouvido e
facilita sua impactação;
• se houver necessidade do uso de aparelhos de
amplificação sonora individual, incentivar o seu uso
pelo idoso. Ter paciência, pois o período de adaptação
do aparelho pode ser trabalhoso.

Sistema vestibular/labirinto e equilíbrio


O sistema vestibular é composto pelo labirinto, que é responsável pela manuten-
ção do equilíbrio juntamente com a visão e a propriocepção. O Quadro 3.5 descreve
as principais alterações do equilíbrio.

Quadro 3.5 Alterações do equilíbrio com o envelhecimento

Alterações com o envelhecimento Consequências

Dificuldade em tarefas que exijam bom


Diminuição da habilidade de se sustentar.
controle do equilíbrio e da postura.

Dificuldade na resposta do ajuste postural. Risco de queda.


Continua...

50
... continuação

Quadro 3.5 Alterações do equilíbrio com o envelhecimento

Alterações com o envelhecimento Consequências

Lentidão na caminhada, particularmente


Diminuição da habilidade de lidar com
quando estiver andando e conversando
desequilíbrios inesperados.
simultaneamente.

Dificuldade em lidar com alterações


na superfície de suporte: pisos lisos,
Diminuição da capacidade de selecionar as irregulares, etc.
informações sensoriais adequadas quando Dificuldade de se adaptar aos movimen-
o ambiente oferece pistas conflitantes. tos bruscos como tropeção e escorregão.
Lentificação nas respostas motoras para
retomada da posição de equilíbrio.

Diante de tais alterações, recomendam-se as seguintes medidas:

• corrigir os problemas visuais, incentivar a realização de exercícios físicos e o


tratamento de doenças que afetam o equilíbrio;
• evitar mudanças bruscas de posição, como levantar rapidamente da cama,
principalmente pela manhã, quando o idoso passou muito tempo na posição
deitada;
• evitar uso de medicações para tonteira, devido ao risco de desenvolver
parkinsonismo (tremores);
• evitar uso de medicações para dormir, pois podem causar tonteiras;
• realizar avaliação médica se houver tonteira, desequilíbrio ou história de
quedas;
• deve-se evitar uso de sapatos altos, pois as alterações do envelhecimento
tornam o idoso mais sujeito a quedas;
• evitar pisos molhados e escorregadios e não encerar o chão;
• evitar uso de chinelo havaianas. Preferir uso de calçados
fechados e confortáveis.

Paladar
Por causa das doenças crônicas (HAS e DM), muitas vezes há tendência à redução
do sal e do doce e os alimentos tendem a ficar mais amargos ou azedos. Consequen-
temente, há modificações, por vezes expressivas, do padrão alimentar, aumentando
o consumo de sal e doces, redução da ingesta alimentar e alto risco de subnutrição

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proteico-calórica e deficiência de vitaminas e microelementos em geral. O Quadro 3.6
mostra as principais alterações do paladar.

Quadro 3.6 Alterações do paladar com o envelhecimento

Alterações com o envelhecimento Consequências

Perda do interesse pela comida.


Diminuição da capacidade Dificuldade em perceber alimentos estragados.
de sentir sabor. Redução do apetite.
Modificação do sabor dos alimentos.

Sensação de boca seca (xerostomia).


Problemas de higiene oral.
Redução da quantidade de saliva. Dificuldade de reter as próteses dentárias.
Alterações na composição da saliva. Dificuldade de formar o bolo alimentar, cau-
sando fadiga e, consequentemente, afetando o
processo de mastigação e deglutição.

Algumas medidas podem compensar as mudanças do paladar, como, por exemplo:

• oferecer variedade de alimentos e com aparência agradável, utilizando-se


pratos bonitos e coloridos;
• zelar pela qualidade dos alimentos. Armazenar em local seguro, longe de
agentes químicos (material de limpeza) e medicamentos;
• temperar bem os alimentos com cebola, alho e cheiro verde,
pimentão, orégano, etc.;
• evitar o excesso de sal e açúcar;
• observar a temperatura do alimento.

Olfato
O envelhecimento está associado a alterações variáveis das glândulas olfativas e
mudanças na percepção de cheiros. Essas alterações, aliadas à alteração do paladar,
podem levar à redução do apetite e da percepção dos odores corporais e do ambien-
te, como mofo, vazamento de gás, alimentos estragados, urina, entre outros.
Na presença de tais alterações, recomendam-se:

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• higiene e umidificação nasal com soro fisiológico;
• temperar bem os alimentos e retirar o sal da mesa;
• antes de iniciar a refeição, deixar o paciente sentir o cheiro do
alimento, para ajudar na estimulação salivar e aumento do apetite;
• estar atento aos odores desagradáveis, especialmente se
oferecem risco ao idoso (mofo, alimentos estragados, gás, etc.).

Tato
O tato também sofre mudanças com o envelhecimento, como a diminuição da
sensibilidade tátil, térmica e vibratória, aumentando o risco de acidentes no manu-
seio de objetos cortantes e temperatura elevada, além de dificuldade com teclas de
aparelhos eletrodomésticos, como controle remoto e outros. Pode ocorrer, também,
diminuição em perceber com rapidez estímulos nocivos que podem lesar a pele, au-
mentando o risco de lesões por pressão. Algumas medidas podem ajudar o idoso,
como se segue:

• cuidado com a temperatura da água para o banho;


• tratamento adequado das feridas;
• tratamento adequado das doenças que pioram a sensibilidade,
tal como diabetes e outras neuropatias;
• uso de dispositivos de auxílio para ajudar as mãos, como
suporte para cartas de baralho, etc.;
• cuidado com bolsa de água quente e compressas de gelo.

Pele e Anexos
“Não está claro por que alguém deveria se preocupar com o envelhecimento
cutâneo. Afinal, ninguém morre porque a pele envelhece! Existe insuficiência cardía-
ca, mas não insuficiência cutânea. Todos ficamos bem embrulhados até o fim. Todos
desejam uma vida longa, mas ninguém quer parecer velho”.
O envelhecimento cutâneo é bastante pronunciado. A hereditariedade e, principal-
mente, a exposição solar são responsáveis pelas alterações da epiderme (redução do
potencial proliferativo, melanócitos, células de Langerhans e da adesão dermoepidér-
mica), derme (redução da espessura, da celularidade e vascularização, degeneração do
colágeno), subcutâneo e anexos. O principal determinante das alterações da pele no
idoso não é “a idade”, mas sim a exposição solar excessiva.

53
Nem as rugas podem ser ex-
plicadas somente pela idade.

A pele do idoso torna-se ressecada e descamativa (xerodermia), precipitando o


prurido (localizado ou generalizado), que por sua vez predispõe a fissuras, escoria-
ções e infecções cutâneas. O prurido senil deve ser diferenciado daquele resultante
de doenças sistêmicas, como escabiose (“sarna”), problemas hepáticos, gota, diabe-
tes, entre outros. Observa-se, ainda, pele fina, lisa, com pouca elasticidade e disten-
sibilidade. A fragilidade capilar favorece sangramentos cutâneos, principalmente nas
regiões mais expostas a traumas, como antebraços, mãos e pernas. Tais hemorragias
cutâneas são equimoses e a púrpura senil. Também merecem atenção as alterações
dos pelos, que se tornam mais finos, rarefeitos e quebradiços. As unhas se tornam
frágeis, opacas, de crescimento mais lento, espessas e encurvadas, principalmente
as unhas dos pés (onicogrifose). Deve ser diferenciada da onicomicose ou infecção
fúngica do leito ungueal, cujo tratamento específico é duvidoso no idoso. Micoses
interdigitais (“pé de atleta”) são mais frequentes e devem ser tratadas rotineiramen-
te, pois representam porta de entrada para infecções bacterianas mais graves.
São também frequentes “pequenas manchas claras e escuras” nas mãos e an-
tebraços, secundária às alterações dos melanócitos (células cutâneas responsáveis
pela coloração da pele), chamada de leucodermia puntiforme. Não está associada
a qualquer complicação, exceto desconforto estético, principalmente nas mulheres.
Em locais expostos à radiação solar podem ocorrer ceratose actínica (lesão pré-
-maligna) e câncer do tipo basocelular e espinocelular (lesões malignas). A ceratose
seborreica (descamação na região do couro cabeludo e face) também é frequente e
é considerada neoplasia benigna da epiderme.
Lesões em membros inferiores, devido à insuficiência vascular crônica (venosa e/
ou arterial), devem ser pesquisadas, assim como as lesões por pressão (escaras), mais
comuns nas regiões sacral, trocantérica e calcâneo e em pacientes acamados.

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Quadro 3.7 Alterações cutâneas associadas ao envelhecimento

Alterações com o envelhecimento Consequências

Fragilidade da pele e dos vasos


Pele extremamente sensível, suscetível
sanguíneos superficiais (pele mais fina).
a lesões, com facilidade em sofrer
Ressecamento da pele (xerodermia).
pequenas lesões na pele, hematomas e
Aumento de rugas.
sangramentos.
Aumento de manchas roxas (púrpura senil).
Pele ressecada, acompanhada, às vezes,
Aumento de pequenas manchas marrons
de coceira.
(lentigo senil).

Cabelos ressecados, quebradiços, com


Diminuição da quantidade e espessura
tendência à alopecia (redução parcial
do cabelo.
ou total de pelos ou cabelo).

Unha espessa e quebradiça.


Dificuldade em cortar as unhas.
Diminuição do crescimento da unha.

Alguns cuidados são essenciais com a pele no idoso, como as que se seguem:

• aumentar a ingestão de água: 1,5 a 2 litros de água por dia;


• usar cremes hidratantes diariamente após o banho;
• os banhos não devem ser muito quentes e demorados para
não ressecar ainda mais a pele;
• evitar esfregação ou bucha vigorosa durante o banho;
• incentivar uso de protetor solar na região facial;
• caso haja anormalidades na pele, procurar avaliação médica, pois uma
pequena ferida pode ser um câncer de pele;
• cuidado ao cortar unhas muito espessas (cortar preferencialmente após
o banho), pois pode haver trauma na pele ao redor da unha, lixar a unha
sempre que necessário. Evitar retirar cutícula. Encaminhar
ao podólogo, se necessário;
• enxugar entre os dedos para evitar fungos (micose);
• cuidados especiais com os pés, principalmente dos pacientes
diabéticos. Seguir orientações da equipe de saúde.

Sistema Muscular, Ossos e Articulações


A sarcopenia é a principal alteração do envelhecimento normal, chamada de mios-
senescência, que se inicia na quarta década de vida e é caracterizada pela redução da
massa e força muscular, mais fadiga muscular e menos capacidade aeróbica. Estima-
-se que haja redução de 30 a 50% da força muscular entre os 30 e 80 anos. Da mes-

55
ma forma, verifica-se redução da massa óssea, particularmente do osso trabecular,
nas mulheres pós-menopausa, cuja redução atinge 50%. Nos homens, a perda óssea
é mais tardia e atinge 30% do osso cortical e trabecular. Além das alterações muscu-
lares e ósseas, ocorre redução da densidade de condrócitos, que são as células que
lubrificam e mantêm o funcionamento das cartilagens. O disco intervertebral também
se torna mais rígido, com menos capacidade de amortecimento e distribuição da ten-
são, contribuindo para as alterações degenerativas da coluna vertebral (espondilose)
e mais riscos de hérnia de disco (Quadro 3.8).

Quadro 3.8 Alterações dos músculos, ossos e cartilagens com envelhecimento

Alterações com o
Consequências
envelhecimento

Diminuição da mas- Dificuldade em levantar de locais baixos, como sofás e vaso sanitário.
sa, da força e da Dificuldade de subir e descer escadas e rampas com muita inclinação.
potência muscular. Redução da tolerância ao esforço ou dispneia de esforço.

Diminuição da Dificuldade em movimentos amplos com o pescoço e tronco.


flexibilidade. Menor velocidade na execução de alguns movimentos.

Diminuição da Redução da estatura, entre 2 a 3 cm.


quantidade de Aumento da fragilidade do osso
cálcio nos ossos. e maior risco de fratura.

Algumas recomendações podem ser úteis para compensar as alterações muscula-


res, ósseas e cartilaginosas, como:

• aumentar a altura do vaso sanitário e a altura das pernas da cama;


• colocar tábua embaixo da almofada e travesseiro ou almofada para elevar a
altura do assento do sofá;
• as cadeiras devem ter braços para apoio ao levantar;
• incentivar a realização de exercícios físicos, conforme orientação médica,
sem esquecer o alongamento. Evitar o sedentarismo;
• tomar banho de sol regularmente;
• a alimentação deve ser rica em leite e derivados,
vegetais folhosos verdes, ovos, peixes e carnes;
• cuidar do ambiente para evitar quedas.

56
Sistema Cardiovascular
O coração sofre diversas alterações decorrentes do processo de envelhecimento
(Quadro 3.9). Tais alterações afetam as células musculares do coração (miócitos), o
sistema de condução dos impulsos elétricos e as válvulas cardíacas. O idoso tem mais
riscos de sofrer bloqueios cardíacos, como bloqueio de ramo direito, visto no eletrocar-
diograma. Essa alteração não traz qualquer complicação para o paciente. É frequente
também o sopro cardíaco por degeneração das válvulas cardíacas, principalmente a
válvula aórtica, que, também, não tem significado clínico, na maioria das vezes.
Apesar disso, o envelhecimento normal não produz alterações significativas na fun-
ção do coração, mesmo gerando redução das reservas funcionais desse órgão. Entre-
tanto, nas situações de sobrecarga poderão surgir sinais de insuficiência cardíaca, caso a
demanda do coração seja excessiva. Isso pode ser observado em idosos nos períodos de
intercorrências agudas, como infecções e traumas. Contudo, nas situações de repouso,
o coração tem funcionamento normal.

Quadro 3.9 Alterações do coração com o envelhecimento

Alterações com o envelhecimento Consequências

Aumento da pressão arterial máxima


Maior prevalência de hipertensão arterial
ou sistólica.

Diminuição da tolerância ao exercício, Redução das reservas funcionais em


principalmente quando o idoso faz pouca situações de sobrecarga como esforço
atividade física. físico e outros.

Menos capacidade de adaptação a


Sentir tontura ao mudar de posição, como
alterações de pressão sanguínea, quando
levantar-se rapidamente.
levanta-se rapidamente.

Algumas orientações podem ser úteis, como:

• hidratação adequada;
• evitar esforço físico intenso;
• controlar o excesso de peso;
• estimular o idoso a mudar de posição lentamente;
• incentivar realização de atividade física (30 minutos por
dia) para melhorar o condicionamento cardiovascular,
conforme orientação médica;
• controlar os fatores de risco para doenças
cardiovasculares, como hipertensão arterial e fumo;

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• controlar o colesterol alto, evitando o excesso de alimentos ricos em gordura
como mortadela, salame, linguiça, bacon, toucinho, carnes gordurosas,
maionese, entre outros, e usando medicação quando for indicado;
• evitar excesso de sal.

Sistema Respiratório
Os efeitos do envelhecimento na função pulmonar são variáveis e caracterizam-se
pela redução da capacidade do pulmão em realizar as trocas respiratórias e manter a
quantidade de oxigênio e gás carbônico normal no sangue. A expiração é a fase da
respiração mais comprometida com o envelhecimento, simulando um tipo de “enfi-
sema senil”.
Além da redução da força dos músculos respiratórios, há mais enrijecimento da
parede torácica (calcificações das cartilagens intercostais e articulações costoverte-
brais), dificultando mais ainda a respiração. Ocorre redução do transporte mucociliar,
do reflexo da tosse, da resposta aguda aos antígenos extrínsecos e da imunidade
celular. Todas as alterações do pulmão aumentam o risco de infecção respiratória,
como pneumonia (Quadro 3.10). Daí a importância da vacinação anti-influenza e
antipneumocócica em todo idoso, mesmo que não tenha doenças.

Quadro 3.10 Alterações do aparelho respiratório com o envelhecimento

Alterações com o envelhecimento Consequências

Dificuldade para expandir os pulmões.


Diminuição da força dos músculos Dificuldade para tossir.
respiratórios. Aumento do acúmulo de secreção, o que eleva o
risco de infecção pulmonar, como a pneumonia

Aumento do esforço para respirar.


Rigidez do pulmão e tórax.
Redução dos volumes expiratórios.

As principais orientações para a manutenção de uma boa função respiratória são:

• incentivar a retirada do cigarro;


• para o idoso acamado, posicioná-lo de modo a facilitar a respiração,
cabeceira inclinada e travesseiros bem-posicionados;
• incentivar a ingestão adequada de líquido, para ajudar na
fluidificação e expectoração do escarro;
• evitar contato com pessoas com infecção respiratória
(como gripe).

58
Sistema Geniturinário
O envelhecimento normal produz alterações estruturais e funcionais significativas
no geniturinário, mas não impede que o rim elimine a água, os catabólitos ou realize
sua função de regulação da composição e volume dos líquidos corporais. Ocorre
redução de 10% por década de vida, a partir dos 40 anos, no fluxo sanguíneo renal,
reduzindo sua capacidade de filtração glomerular e aumentando a vulnerabilidade
dos rins às agressões associadas ao uso de medicamentos nefrotóxicos, como os anti-
-inflamatórios. É importante salientar também que, como há redução paralela da pro-
dução de creatinina, devido à sarcopenia, a creatinina plasmática pode permanecer
estável. Assim sendo, níveis de creatinina no limite superior da normalidade podem
representar perda significativa da função renal.
O envelhecimento do sistema renal ocasiona, também, alterações significativas no
sistema renina-angiotensina-aldosterona. Ocorre redução da renina plasmática de 30
a 50%, mesmo após estímulos como restrição de sal, administração de diuréticos ou
ortostatismo. Como conseqüência, os idosos se tornam mais vulneráveis ao desen-
volvimento de alterações no equilíbrio hidroeletrolítico, principalmente a depleção de
volume e desidratação, pois a capacidade de concentrar a urina encontra-se prejudi-
cada. Além disso, aumenta o risco de hiperpotassemia.
A noctúria ou desejo de urinar duas ou mais vezes por noite é frequente nos
idosos, mesmo sem doenças específicas. Outras alterações são frequentes em
idosos (Quadro 3.11).

Quadro 3.11 Alterações geniturinárias com o envelhecimento

Alterações com o envelhecimento Consequências

Redução do ritmo de filtração Risco aumentado de insuficiência


Rim
glomerular. renal.

Redução da capacidade vesical. Aumento do risco de infecção do


Redução da habilidade de adiar trato urinário.
a miccção. Aumento do risco de incontinência
Bexiga
Redução da contratilidade. urinária.
Aumento do resíduo pós-miccional. Aumento da frequência urinária.
Aumento das contrações involuntárias. Aumento do risco de queda.

Aumento do risco de infecção do


Uretra Atrofia uretral. trato urinário.
Urgência miccional.
Continua...

59
... continuação

Quadro 3.11 Alterações geniturinárias com o envelhecimento

Alterações com o envelhecimento Consequências

Aumento do risco de infecção do


trato urinário.
Próstata Hiperplasia prostática benigna.
Retenção urinária.
Incontinência urinária.

Dor na relação sexual.


Vagina Atrofia epitelial. Uretrite atrófica, com urgência e
ardência durante a micção.

Assoalho Tendência à perda involuntária


Fraqueza muscular.
Pélvico de urina (incontinência urinária).

As principais orientações para a manutenção de uma boa função genituriná-


rias são:

• incentivar ingestão adequada de líquidos


até as 18h. Evitar excessos de líquidos à
noite, para reduzir a noctúria;
• criar o hábito de ir ao banheiro de 2/2
horas para evitar a perda involuntária de urina por não
conseguir chegar a tempo ao banheiro;
• se o idoso está com incontinência urinária, deverá procurar
avaliação médica, pois isso “não é normal” da idade.

A sexualidade é uma forma de expressar carinho e afeto, sentimentos que não


têm idade. Envolve desejos, práticas relacionadas à satisfação, à afetividade, ao pra-
zer, aos sentimentos e ao exercício da liberdade. É muito mais do que sexo e relação
sexual. Faz parte da nossa vida desde o nascimento e vai se transformando com o
tempo. Os desejos podem se modificar, mas não se apagam. Cada idade favorece
formas diferentes de satisfação que podem ser exprimidas por meio do ato sexual
em si, do carinho, do afeto, das palavras. A pessoa idosa não fica “assexuada”. Não
existem limites de idade para se conservar uma atividade sexual, ainda que ocorram
mudanças fisiológicas. Nos homens, a disfunção erétil não é consequência inevitável
do envelhecimento normal. Ocorre em 15 a 25% dos idosos maiores de 65 anos e em
50% dos homens maiores de 80 anos. Causas emocionais, endócrinas, vasculares,
neurológicas e drogas devem ser investigadas.

60
A vida sexual transforma-se constantemente ao
longo da vida, porém só desaparece com a morte.

Dicas de sexualidade para pessoa idosa:

• o uso de álcool e tabaco pode reduzir a função sexual em homens e mulheres;


• se necessário, orientar o uso de lubrificantes. Eles facilitam a penetração e a
tornam mais prazerosa;
• cuidado com o uso de medicamentos, pois alguns deles afetam o desejo e
a potência sexual;
• muitas vezes o desempenho sexual pode estar relacionado a algum problema
de saúde;
• o uso de camisinha, masculina e feminina, é recomendado em todo indivíduo
com múltiplos parceiros;
• não abrir mão do beijo e do carinho. Eles são importantíssimos no momento
do sexo;
• não se prender aos estigmas da sociedade, o sexo não é
proibido para a terceira idade;
• experimentar posições em que ambos se sintam confortáveis.

Sistema Gastrintestinal
O funcionamento do aparelho gastrintestinal é pouco afetado pela senescência,
devido à sua grande reserva funcional. Entretanto, deve-se estar atento para alguns
problemas frequentes em idosos frágeis. A dificuldade para deglutir ou disfagia não
“é normal” no idoso e deve ser investigada em todo idoso. O presbiesôfago reflete
as alterações da motilidade esofageana, como ondas peristálticas terciárias, espasmo
esofageano, que podem simular a angina. A perda de dentes, a atrofia dos músculos
da língua e alteração da capacidade funcional da musculatura oral levam a problemas
de mastigação e da deglutição. O refluxo gastroesofágico parece ser mais frequente
em idosos, mesmo nos assintomáticos.
A prevalência de colelitíase (pedra na vesícula) aumenta com o envelhecimento,
provavelmente pelas alterações do conteúdo (composição da bile) e da parede da
vesícula biliar (lentificação do esvaziamento vesicular). Varia de 15 a 50%, depen-
dendo da faixa etária, sexo e biotipo do paciente. A cólica biliar define a colelitíase

61
em sintomática ou assintomática (silenciosa). Nos pacientes assintomáticos, o risco
de complicações é baixo, não se justificando tratamento cirúrgico em todos os casos.
A constipação intestinal é comum em idosos e tem natureza multifatorial. Entre-
tanto, deve ser sempre excluída a possibilidade de causas secundárias, principalmente
o adenocarcinoma, causa importante de morbimortalidade nos idosos. A impactação
fecal e a incontinência fecal são complicações relativamente frequentes. A dieta laxa-
tiva, ingestão de líquidos e atividade física são as melhores intervenções capazes de
melhorar o hábito intestinal.
Em mais da metade dos idosos, o envelhecimento pode levar ao enfraqueci-
mento da parede intestinal e ao aparecimento de “dilatações” ou divertículos. O
termo diverticulose é utilizado para descrever o intestino que tem vários divertí-
culos. Tais divertículos podem obstruir, inflamar e causar diverticulite, que, even-
tualmente, necessita de tratamento cirúrgico. Dieta laxativa, ingestão de líquidos
e atividade física regular são as principais intervenções indicadas na diverticulose.

Sistema Nervoso
O envelhecimento do cérebro é caracterizado pela redução de 10 a 20% no seu
peso e fluxo sanguíneo. Todo idoso tem hipotrofia ou atrofia cerebral discreta nas neu-
roimagens. Essa alteração é responsável pela lentificação da cognição do idoso, que
usualmente apresenta diminuição na velocidade do raciocínio. Da mesma forma, há
rebaixamento dos reflexos posturais e mais dificuldade de manutenção do equilíbrio,
quando o idoso é empurrado ou quando tropeça, aumentando o risco de quedas. Tais
alterações não causam declínio funcional, tampouco são causas de “demência senil”
ou “caduquice”. O envelhecimento cerebral normal não impede que o idoso continue
realizando tudo aquilo que sempre fez. Algumas orientações podem ser úteis, como:

• evitar a falta de atividades;


• incentivar ouvir músicas, leituras, jogos, palavras cruzadas,
artesanatos e outras atividades que exercitem a memória e
sejam prazeroso para o idoso;
• não apressar o idoso enquanto realiza suas atividades;
• incentivar para que o idoso realize o maior número de
atividades sozinho.

62
A arquitetura do sono e a capacidade para dormir bem são bastante alteradas
com o envelhecimento normal. O sono é um componente distinto e essencial do
comportamento humano. Praticamente um terço de nossa vida é gasto dormindo. O
sono é um estado reversível de desligamento da percepção do ambiente, com mo-
dificação do nível de consciência e de resposta aos estímulos internos e externos. O
sono não é um estado único. Ele se divide em sono REM (do inglês rapid eyes move-
ment: movimento rápido dos olhos) e sono não REM. Esses dois estados alternam-se
durante a noite. O sono REM é caracterizado por uma atonia muscular e movimento
rápido dos olhos. O sono é distribuído de forma distinta na porção escura do ciclo
luz-escuridão. Durante o processo de envelhecimento, ocorrem alterações típicas no
padrão de sono. A quantidade de tempo gasto nos estágios mais profundos do sono
diminui. Há aumento associado de acordares durante o sono e na quantidade de
tempo total acordado durante a noite. Os três principais tipos de queixas de sono são
sonolência excessiva (hiperssonia), dificuldade em iniciar ou manter o sono (insônia)
e comportamentos estranhos ou não usuais durante o sono (parassonias). A história
de roncos, pausas ou esforços respiratórios, movimentos periódicos durante o sono
e comportamentos automáticos são mais bem descritos pelo parceiro de cama ou
outros observadores. Medicamentos prescritos, como as drogas sedativas, álcool e
automedicação podem ter efeito importante na arquitetura do sono e podem inca-
pacitar os mecanismos cardiopulmonares durante o sono.
O sono tem importante papel no desempenho físico e mental do idoso, é im-
portante para o equilíbrio de todo o organismo. Quem dorme menos que o neces-
sário tem menos vigor físico, envelhece mais precocemente, está mais propenso a
infecções, à obesidade, à hipertensão e ao diabetes. A insônia é muito comum nos
idosos, é uma falta anormal de sono, por dificuldade em iniciá-lo ou mantê-lo ou por
despertar precoce, gerando insatisfação. É preciso avaliação criteriosa de suas causas,
evitando-se a automedicação. As causas de insônia são inúmeras e devem ser pes-
quisadas. As principais causas são a falta da higiene do sono, depressão, ansiedade,
dores noturnas (neuropatia diabética), noctúria, uso de álcool ou cafeína e a dispneia
noturna (asma, insuficiência cardíaca). A higiene do sono deve ser sempre indicada
para o idoso com insônia (Quadro 3.12).

63
Quadro 3.12 Higiene do sono

Manter o idoso ativo durante o dia para evitar cochilos.

Incentivar atividades físicas e intelectuais.

Incentivar a participação em grupos de convivência e trabalhos prazerosos.

Muito cuidado com as medicações para dormir, pois elas são grandes causadores de quedas.

Evitar café, chá-mate, refrigerante, bebidas alcoólicas, no período da noite.

Tentar manter sempre o mesmo horário para conduzir o idoso para a cama. É impor-
tante respeitar esses horários, inclusive nos finais de semana, pois favorece o funciona-
mento do relógio biológico. Mudanças de hábito podem atrapalhar o sono.

Informar que está chegando a hora de dormir.

Manter ambiente confortável e silencioso.

Só levar o idoso para a cama quando estiver cansado e com sono.

Calor e frio excessivos alteram bastante o sono e podem causar irritabilidade, portanto,
tentar manter o quarto com temperatura agradável.

Quando houver muita luz, escurecer o ambiente; quando houver muito barulho, elimi-
nar ou reduzir o barulho.

Procurar fazer refeições mais leves antes de deitar e não deitar logo após alimentar-se.
O ideal é aguardar pelo menos uma hora.

Eliminar qualquer coisa que o idoso possa perceber como uma ameaça, como: retirar
objetos, falar que “o bicho” foi embora, etc.

Manter sempre uma luz acessa para evitar quedas à noite (luz de vigília).

Manter sempre comadre ou marreco próximo do leito.

Às vezes a companhia de alguém no quarto é importante.

Usar técnicas de relaxamento: massagem nos pés, pernas, mãos, braços, pescoço,
ombros, técnicas de meditação.

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Atividade Integradora
Não existem medicamentos capazes de prevenir o processo de en-
velhecimento normal (senescência). Não há necessidade do uso de
vitaminas ou qualquer medicamento para “velhice”, na ausência de
deficiências bem estabelecidas. Os medicamentos só devem ser utili-
zados quando prescritos por médicos. A automedicação pode causar
prejuízos irreparáveis à saúde do idoso e deve ser evitada (página 17).
Com o envelhecimento há uma perda da estatura de cerca de 1 a 1,5
cm por década de vida após os 50 anos. Redução da estatura de 4cm
ou mais é sugestiva de perda excessiva da massa óssea e deve ser
investigada. Consequentemente, os valores de referência do Índice
de Massa Corporal (IMC) modificam-se e são considerados normais
quando estão entre 22 a 27 kg/m2. Verificar o peso e a estatura do
idoso e calcular o IMC (página 10).
Idosos com IVCF-20 ≥15 pontos apresentam alterações compatíveis
com envelhecimento patológico (senilidade) e devem ser avaliados
por equipe geriátrico-gerontológica especializada (página 4).
O idoso apresenta maior dificuldade para dormir bem, sendo facil-
mente despertado por qualquer estímulo ambiental. Avaliar a qua-
lidade do sono (página 23) e, na presença de insônia, orientar as
medidas de higiene do sono. O uso de tranquilizantes para dormir
apresenta vários riscos e devem ser evitados.

Referências
1. WOLD, Gloria Hoffman. Enfermagem gerontologica. Trad. De Ana Helena Pereira
Correa. et al. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.
2. Eliopoulos C. Enfermagem Gerontológica, 7 ª edição, Porto Alegre. Editora Art-
med, 2011.
3. Nunes MI, Ferreti REL, SANTOS M. Enfermagem em Geriatria e Gerontologia. Rio
de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012.
4. MORAES, E. N. Avaliação multidimensional do idoso: instrumentos de rastreio
(Guia de Bolso). Belo Horizonte: Editora Folium, 2008. 64 p.
5. MORAES, E. N. Princípios básicos de geriatria e gerontologia. Belo Horizonte:
Editora Coopmed, 2009.

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