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A Vida Misteriosa dos Matemáticos

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todas as leis e princípios naturais, exceto

o da causalidade. Para respeitar este,


obedece ao Postulado do Esquecimento,
cujos limites são matéria de indagação de
todos ali presentes. Alguns hóspedes do
Aleph aparentemente residem no hotel, a
maioria deles lhe faz visitas temporárias.
Um dos hóspedes permanentes, que re-
sponde pela interlocução entre os hóspe-
des, chama-se Georg, que mais tarde
Vladimir reconhece ser Georg Cantor, cria-
dor da teoria moderna dos conjuntos, a
A Vida Misteriosa dos se acossado por uma nevasca e encontra quem David Hilbert se refere como O Prín-
Matemáticos refúgio numa edificação de aspecto nor- cipe dos Infinitos. Os conjuntos infinitos,
Celso Costa mal, em cujo topo se vê a palavra ALEPH. que Cantor demonstrou ter cardinalidades
1ª ed., Editora Kazuá, São Paulo, 283 p. O edifício revela ser o Aleph de Borges e distintas e hierarquizadas de maneira or-
O livro, publicado no final de 2018 ainda muito mais. É infinito, fascinante e dinal, são um dos principais tópicos da
pela Editora Kazuá, é uma ficção fantás- misterioso. Suas entradas e saídas para o narrativa e das discussões. Outro habi-
tica de Celso Costa, ilustre matemático da mundo exterior, num simbolismo de rara tante do Aleph é o onipresente Krieger, que
Universidade Federal Fluminense, conhe- inspiração, são sinalizadas por uma ima- realiza todas as tarefas do hotel.
cido internacionalmente pela concepção da gem da fita de Möbius. Essa imagem e a Com o objetivo de esclarecer os limites
chamada Costa Surface, com a qual ele da letra Aleph adornam todo o livro de do Postulado do Esquecimento e ainda o
completou a compreensão de um pro- Celso Costa. O Aleph contém o hotel infi- Fluxo Caótico do Tempo, Hilbert convoca
blema tratado há 200 anos. Como qual- nito de David Hilbert, ampliado de forma todos os grandes matemáticos do univer-
quer obra, seja científica ou artística, o escandalosa. Aquele hotel tem infinitos so, do passado e do presente. A elucidação
livro tem uma história que o inspira e quartos enumeráveis, cuja cardinalidade dessas questões, pensava Hilbert, levaria
influencia. é Aleph zero. Já no Aleph onde Vladimir à inteira compreensão da matemática. O
Na genealogia da presente obra, so- se refugia, o hotel tem infinitas alas cujos número dos atendentes à Convenção dos
bressaem alguns trabalhos do escritor respectivos quartos formam conjuntos Tempos é infinito. Parte deles pertence ao
argentino Jorge Luis Borges, que talvez com as cardinalidades Aleph zero, Aleph conjunto enumerável dos números
tenha levado a narrativa fantástica a um um – a cardinalidade do conjunto dos nú- naturais, e a outra pertence ao conjunto
apogeu ainda não igualado. Dois mistérios meros reais – e assim por diante. Contém contínuo dos números reais. A ala dos
assombravam a mente de Borges, o fluir ainda um planetário flutuante no espaço, quartos enumeráveis – o Aleph zero – fica
do tempo e os alucinantes conjuntos no qual todos os astros
infinitos, nos quais “uma parte não é podem ser vistos, de
menor do que o todo”. A essa imperiosa qualquer ponto e talvez –
obsessão, Borges dedicou poemas, contos pois o autor deixa ao leitor
e ensaios. A Biblioteca de Babel tem infi- a incumbência de completar
nitos livros, o Livro de Areia tem infinitas lacunas intencionais de
páginas, alguns labirintos borgeanos são informação – também em
infinitos. Em mais de um ensaio, Borges qualquer época.
fala, com surpreendente propriedade, dos No Aleph, Vladimir
conjuntos infinitos de Georg Cantor e do encontra muitos dos
famoso paradoxo, posto a público por Ber- maiores matemáticos da
trand Russell, referente a conjuntos de história, desde Tales de
conjuntos. Mileto até o tempo pre-
Num conto medonho, Borges des- sente, e presencia disputas
creve o Aleph, um local ínfimo do porão entre eles que envolvem não
de uma casa de Buenos Aires, no qual es- só ideias, mas também egos
tão presentes todos os outros pontos, sem inflados. Toda a história é
se confundirem, e que podem ser vistos divertida e também instru-
de qualquer parte do universo. Parado- tiva. Com sua competência
xalmente, no ínfimo local os objetos de excelente matemático,
adquirem extensão. Há espelhos que nada Celso embute na narrativa
refletem e também espelhos paralelamente uma história resumida da
opostos que replicam objetos numa matemática, que inclui os
sucessão infinita. Aleph é a primeira letra números, a geometria e a
do alfabeto semítico, que deu origem a incompreensível eficácia da
todos os outros. É também o símbolo, na matemática na teorização
grafia do alfabeto hebraico, que designa a do mundo físico. Há tam-
cardinalidade – o tamanho – dos conjuntos bém matemáticos que Vla-
infinitos. dimir não sabe identificar,
Vladimir Niévski, um filósofo dedi- talvez oriundos do futuro.
cado aos fundamentos da matemática, vê- O Aleph desrespeita

78 Na prateleira Física na Escola, v. 17, n. 1, 2019


toda ocupada, quando chega uma cara- O estilo do livro é despojado e agra- “What if you slept
vana infinita de novos hóspedes enume- dável. Creio ter nele notado elementos lusi- And what if
rados. Hilbert resolve o vastíssimo tanos de linguagem, que no princípio me In your sleep
overbooking com uma operação trivial. intrigaram. Após acostumar-me, prosse- You dreamed
Instrui que os ocupantes de todos os quar- gui com muito gosto a leitura. Numa And what if
tos com números naturais n se transfiram segunda leitura parcial do livro, apreciei In your dream
para os quartos números 2n-1, e assim ainda mais o estilo. Vale aqui a máxima: You went to heaven
libera os infinitos números pares para os bons livros não são para ser apenas lidos, And there plucked a strange and
hóspedes recém-chegados. Alguém ques- mas também relidos. Os personagens são beautiful flower
tiona que a transferência do hóspede de caracterizados com humor. Kurt Gödel, o And what if
qualquer quarto n para o quarto 2n seria grande gênio da lógica matemática, When you awoke
mais natural, pois liberaria todos os quar- também com carinhosa piedade. Idoso e You had that flower in your hand
tos de número ímpar e daria o mesmo já tomado pela paranoia de que querem Ah, what then?”
tratamento a todos os hóspedes, enquanto matá-lo pelo seu pecado imperdoável: Isso não é plágio, é comum no mundo
pela instrução de Hilbert o ocupante do demonstrar que a infinita matemática não literário. Belas ideias, assim como belas
quarto 1 ficava poupado do incômodo. pode ser enquadrada na lógica humana, metáforas, ensinou Borges, existem para
Hilbert explicou que esse hóspede era inerentemente limitada. Também Paul serem revividas em novos contextos.
Georg Cantor, que por ser o príncipe dos Cohen e Georg Cantor, advertia Gödel, Há no texto uma distração referente
infinitos merecia o privilégio. poderiam ser assassinados na Convenção à narrativa de Tales sobre sua medida da
Eis que uma nova caravana de hós- dos Tempos. Principalmente este, por ter altura da pirâmide de Queóps. Segundo
pedes, identificados por números reais, incorrido no delito de pôr a nu a existência Tales, para a medida ele se posicionou à
começa a chegar, desfilando em blocos de de infinitos de infinitos tamanhos.. Alan tarde a oeste da pirâmide. Na página 38,
densidade assombrosa, e pede acomodação Turing e Charles Babbage, enquanto consi- há uma figura em que tanto a sombra de
no Aleph zero já ocupado, em cuja recep- deram se atendem à Convenção dos Tem- Tales quanto a da pirâmide projetam-para
ção encontram-se vários personagens. pos, trancam-se num porão – para cuja ao oeste. Ocorre que à tarde a sombra dos
Hilbert retrucou que isso seria impossível entrada tinham criado uma senha crip- objetos projeta-se rumo ao leste.
mesmo que o hotel estivesse inteiramente tografada –, onde funcionam as máquinas Encerrando, aconselho a leitura do
vazio. Confiante na competência do com as quais Turing decifrara o código de belo livro de Celso Costa, com os propósi-
novato Vladimir, incumbe-o de demons- comunicação entre os nazistas durante a tos de diversão e de aprendizagem. Nas
trar a impossibilidade, o que este faz com Grande Guerra. Babbage delicia-se ao ver escolas, tanto alunos quanto professores
argumentação, pelo que me parece, origi- o resultado de sua obra pioneira em se beneficiariam da leitura.
nal. Após elogiar o desempenho de Vla- cálculo por máquinas.
dimir, Hilbert ordena que os recém- A última sentença do livro remete a Alaor Chaves
chegados se dirijam à ala Aleph 1, onde uma bela imagem, talvez primeiro Universidade Federal de Minas Gerais
caberiam todos. expressa pelo poeta Samuel Coleridge: (alaor@[Link])
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Física na Escola, v. 17, n. 1, 2019 Na prateleira 79

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