V. 04, N.23 Set./Out.
2023
A LITERATURA SURDA E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA A CONSTRUÇÃO
DA IDENTIDADE CULTURAL DO SURDO
DEAF LITERATURE AND ITS CONTRIBUTION TO THE CONSTRUCTION OF
DEAF CULTURAL IDENTITY
1
LA LITERATURA SORDA Y SU CONTRIBUCIÓN A LA CONSTRUCCIÓN
DE LA IDENTIDAD CULTURAL SORDA
Rayla Antonia da Silva
Universidade Federal do Piauí
ORCID – [Link]
Edigar Gonçalves de Farias Júnior
Universidade Federal do Piauí
ORCID – [Link]
Resumo: Durante toda história humana tem-se evidenciado os inúmeros desafios
que familiares, professores, alunos e sociedade em geral enfrentam para
comunicar-se de forma eficiente com surdos, dificultando assim a interação dos
mesmos com os ouvintes. Dessa forma, o presente artigo tem como objetivo,
destacar a importância da literatura surda bem como sua contribuição para a
Construção da Identidade cultural dos surdos. O trabalho busca por meio dos
objetivos específicos apresentar os motivos pelos quais a literatura surda é essencial
na vida de um surdo; identificar aspectos educacionais na inclusão de pessoas
surdas no ensino regular; analisar a importância da Libras como ferramenta
inclusiva; mostrar características da cultura surda. A metodologia usada regrou-se
na pesquisa bibliográfica e de natureza explicativa qualitativa embasada em
autores renomados como: Perlin (2000), Strobel (2008), Busatto (2006), Morgado
(2011), Castells (2000) dentre outros considerados essenciais para elaboração do
trabalho científico, visto que abordam a questão da literatura surda como
ferramenta que contribui para o protagonismo do surdo intensificando sua
identidade cultural através de registros, narrações, desenhos que favorecem sua
conquista pela luta inclusiva alcançando seu espaço por meio das suas produções
que revelam sua herança cumulativa.
Palavras-chave: Literatura Surda. Cultura. Inclusão. Língua de sinais. Identidade.
Abstract: Throughout human history, there has been evidence of the countless
challenges faced by family members, teachers, students and society in general in
communicating efficiently with deaf people, thus making it difficult for them to
interact with listeners. This article therefore aims to highlight the importance of deaf
literature and its contribution to the construction of deaf people's cultural identity.
Through its specific objectives, the work seeks to present the reasons why deaf
literature is essential in the life of a deaf person; identify educational aspects in the
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
inclusion of deaf people in mainstream education; analyze the importance of Libras
as an inclusive tool; show characteristics of deaf culture. The methodology used was
bibliographical research of a qualitative explanatory nature based on renowned
authors such as: Perlin (2000), Strobel (2008), Busatto (2006), Morgado (2011), Castells
(2000) among others considered essential for the elaboration of scientific work, since
they address the issue of deaf literature as a tool that contributes to the protagonism
of the deaf intensifying their cultural identity through records, narrations, drawings
that favor their conquest by the inclusive struggle reaching their space through their
productions that reveal their cumulative heritage.
Keywords: Deaf literature. Culture. Inclusion. Sign language. Identity. 2
Resumen: A lo largo de la historia de la humanidad, han quedado patentes las
innumerables dificultades a las que se enfrentan familiares, profesores, alumnos y la
sociedad en general para comunicarse eficazmente con las personas sordas, lo que
dificulta su interacción con los oyentes. Por lo tanto, este artículo pretende destacar
la importancia de la literatura para sordos y su contribución a la construcción de la
identidad cultural de las personas sordas. A través de sus objetivos específicos, el
trabajo busca presentar las razones por las cuales la literatura para sordos es
esencial en la vida de una persona sorda; identificar aspectos educativos en la
inclusión de las personas sordas en la educación común; analizar la importancia de
las Libras como herramienta inclusiva; mostrar características de la cultura sorda. La
metodología utilizada fue la investigación bibliográfica de carácter cualitativo
explicativo basada en autores de renombre como: Perlin (2000), Strobel (2008),
Busatto (2006), Morgado (2011), Castells (2000) entre otros considerados esenciales
para la elaboración del trabajo científico, ya que abordan el tema de la literatura
sorda como herramienta que contribuye al protagonismo de los sordos
intensificando su identidad cultural a través de registros, narraciones, dibujos que
favorecen su conquista por la lucha inclusiva alcanzando su espacio a través de sus
producciones que revelan su patrimonio acumulativo.
Palabras clave: Literatura sorda. Cultura. Inclusión. Lengua de signos. Identidad.
INTRODUÇÃO
Muito tem se debatido no que se refere a construção da identidade
cultural do surdo. Cultura surda é o jeito de o sujeito surdo entender o mundo
e de modificá-lo a fim de se torná-lo acessível e habitável ajustando-os com
as suas percepções visuais, que contribuem para a definição das
identidades surdas e das “almas” das comunidades surdas. (STROBEL, 2008,
p.30)
O presente trabalho objetiva destacar a importância da literatura
surda bem como sua contribuição para a Construção da Identidade cultural
dos surdos. O trabalho busca, por meio dos objetivos específicos, apresentar
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
os motivos pelos quais a literatura surda é essencial na vida de um surdo;
identificar aspectos educacionais na inclusão de pessoas surdas no ensino
regular; analisar a importância das Libras como ferramenta inclusiva; mostrar
características da cultura surda.
As vivências particulares que os indivíduos com surdez elaboram e
internalizam alinham-se a outras experiências contribuindo para interação 3
nas relações sociais, bem como marcam relações familiares, escolares e
constituem o modo de ser e agir de cada indivíduo. No presente estudo,
buscou-se responder ao seguinte questionamento: de que forma a literatura
surda contribui para identidade cultural dos Surdos?
Ao destrinchar obras de autores renomados, que abordam sobre a
temática, pode-se concluir que, desfrutar do protagonismo é uma das
maiores necessidades do aluno com surdez. Os Surdos carecem interagir por
meio da literatura surda, e o uso de tecnologias modernas que permitam
registrar suas produções, colaborando para o desenvolvimento da
aprendizagem de crianças e jovens, para que possam interagir não apenas
com pessoas surdas, mas com a sociedade como um todo.
Vale salientar que, a literatura surda é uma ferramenta indispensável
para formação social e cultural do indivíduo. Visto que por meio dela há
interação, comunicação, compreensão e troca de saberes. De acordo
com Briega (2019), o ensino de crianças surdas têm deixado a desejar, visto
que se notam problemas provocados pela artificialidade da linguagem na
escola que inverte a ordem correta de ensino para surdos, ensinando
primeiro a língua portuguesa e não a Libras. Por essa razão a escola bem
como ao educador cabe criar mecanismos eficazes que favoreçam o
desenvolvimento da identidade do surdo e sua adaptação o ambiente
escolar, fazendo uso das tecnologias para registros das produções
elaboradas na escola como forma de difundir as narrativas para a
comunicação surda objetivando novos conhecimentos e enriquecendo o
que já há.
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
A metodologia usada regrou-se na pesquisa bibliográfica e de
natureza explicativa qualitativa embasada em autores renomados como:
Perlin (2000), Strobel (2008), Busatto (2006), Morgado (2011), Castells (2000)
dentre outros considerados essenciais para elaboração do trabalho
científico.
A pesquisa em questão trata de um assunto extremamente relevante, 4
visto que algumas escolas como a Escola de Ensino Fundamental e Médio
(EEFM) Renato Braga, Instituto Cearense de Educação dos Surdos (Ices)
estão adotando o ensino de Libras, mas acabam falhando não incluindo a
literatura surda a sua grade curricular. Salienta-se que a literatura surda é de
suma importância, mas que é pouco examinada justamente por existir
pouco material teórico relacionado ao tema.
Com base em uma pesquisa prévia realizada no Google acadêmico e
CAPES notou-se que esse tema é pouco explorado, alguns dos poucos
trabalhos encontrados são recentes, o que mostra que o tema ainda é
desconhecido para muitos e continua em fase de amadurecimento para
outros.
Esta pesquisa pode trazer como benefício um conhecimento mais
embasado em teóricos que abordam a importância da literatura surda
como mecanismo de identidade cultural dos surdos bem como o
protagonismo diante da sociedade na qual estão inseridos. A língua de sinais
é tão valiosa para surdos quanto é para um indivíduo aprender um novo
idioma envolvendo a cultura desse novo idioma.
O trabalho está subdividido em tópicos, como forma de apresentar
uma estrutura que possibilite maior compreensão no que tange a temática
trabalhada. O primeiro tópico aborda a língua de sinais, bem como a
inclusão e a legislação aplicada às pessoas surdas. A língua de sinais faz
parte da cultura surda e por meio dela os surdos são incluídos em todos os
ambientes da sociedade possibilitando sua participação ativa como
verdadeiros cidadãos de direitos.
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
Quanto à inclusão e legislação aplicada às pessoas surdas, o aluno
com surdez necessita receber uma atenção mais dinâmica em seu processo
de aprendizagem envolvendo adaptações e suportes para que a
comunicação se efetive e para tanto, é essencial possibilitar o acesso à
comunicação por meio do apoio de um intérprete. A legislação
desempenha importante papel na inclusão quando descreve em seus 5
artigos e capítulos os direitos que o surdo possui em todos os campos de sua
vida. Sejam educacionais, sociais dentre infindáveis
O segundo tópico faz menção a identidade e cultura surda. Evidencia
o fato de que a cultura surda é a forma de compreender o mundo em que o
surdo está inserido considerando seus valores, tradições e cultura. No
entanto, a identidade é moldada segundo a receptividade cultural revelada
pelo sujeito.
O tópico seguinte elenca a contação de histórias. O ato de contar
histórias possibilita ao surdo vivenciar inúmeras experiências como narrar e
criar diversas histórias estimulando a criatividade e a vivência cultural,
compartilhando-a por meio da língua de sinais. As narrativas acontecem por
meio de representações visuais, ou seja, em língua de sinais estimulando a
identidade do surdo intensificando suas habilidades literárias.
O último tópico faz uma abordagem a partir da literatura surda. A
literatura proporciona expansão dos registros elaborados por meio de
gravações de vídeos, relatando contos, parlendas, poemas, jogos de
linguagem dentre uma variedade de gêneros. Vale salientar que a literatura
surda é um mecanismo de comunicação e expansão dos costumes, valores,
tradições bem como transmissão de sentimentos, emoções e compreensão
do contexto literário.
LÍNGUA DE SINAIS
Pesquisas referentes às línguas de sinais vêm evidenciando que estas
línguas são comparáveis em complexidade e expressividade a quaisquer
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
línguas orais. Estas línguas expressam opiniões simples, bem elaboradas e
generalizadas. Os surdos podem recorrer à língua e debater vários assuntos
dos quais se elenca: literatura, política, esporte e outros. Assim, é elencado:
A Libra é significativa visto que, por meio do uso das mãos,
profissionais ajudam os surdos a expressarem e ampliarem sua
comunicação, suas emoções, sentimentos de forma eficiente e com 6
agilidade. A língua de sinais faz parte da cultura surda, pois por meio
deste campo se estabelecem formas de ser e de se relacionar com
sujeitos e contexto social amplo. (LONG, 1910 apud SACKS, 2010).
A língua de sinais para Sacks (2010) é um meio de comunicação
eficiente que possibilita aos surdos manterem sua cultura, relacionando-se
com outros seres de forma satisfatória. Vale salientar que a língua de sinais
colabora para que os surdos acrescentem novas palavras aos seus sinais,
expandindo-o em consonância com as mudanças culturais e tecnológicas.
Segundo Gesser (2009) as línguas de sinais não são universais, mas cada país
evidencia a sua por meio da organização gramatical. Dessa forma,
entende-se que não é diferente dos ouvintes que falam várias línguas, cada
país tem uma estrutura gramatical diferente. Na cultura surda, os indivíduos
possuem sua própria língua, mas há inúmeros sinais diferentes usados em sua
comunicação conforme o país em que estão inseridos. Com isso:
Os surdos criaram, desenvolveram e transmitiram, de geração em
geração, uma língua, cuja modalidade de recepção e produção é
viso-gestual. Muitos supõem que essa modalidade linguística nasceu
porque a deficiência auditiva impede os surdos de acenderem a
oralidade. Assim, a língua de sinais deixa de ser vista como um
processo e como um produto construído historicamente e
socialmente pelas comunidades surdas (Scliar, 2005, p.23).
Consoante o levantado por Sciliar (2005) a língua de sinais surgiu com
o objetivo dos surdos se comunicarem e desenvolverem sua própria
identidade. Assim como outras línguas, ela possui expressões diferentes de
região para região (os regionalismos), o que a legitima ainda mais como
língua. Elas nascem das necessidades sociolinguísticas como as demais
línguas naturais
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
Nossa sociedade é composta por vários tipos de pessoas e apesar da
grande diversidade, há uma tendência do ser humano estabelecer um
padrão ideal e comum entre os indivíduos. Libras é concebida como a voz
dos surdos, as mãos desempenham importante papel durante a
comunicação. Elas envolvem movimentos que podem parecer sem sentido
para quem não conhece a língua de sinais, mas significa a possibilidade de 7
organizar as ideias, estruturar o pensamento e manifestar o significado da
vida para os surdos:
Pensar sobre a surdez requer penetrar no “mundo dos surdos” e
“ouvir” as mãos que, com alguns movimentos, nos dizem o que fazer
para tornar possível o contato entre os mundos envolvidos, requer
conhecer a “língua de sinais”. Permita-se “ouvir” essas mãos, pois
somente assim será possível mostrar aos surdos como eles podem
“ouvir” o silêncio da palavra escrita. (Ronice Müller de Quadros, S/D,
pág. 12).
Libras é a língua materna adotada pelos surdos que vivem nas cidades
do Brasil, onde tem em suas comunidades pessoas surdas. A língua de sinais
brasileira foi reconhecida como meio legal de comunicação e expressão
das comunidades surdas no Brasil pela lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002,
sendo regulamentado somente após três anos pelo Decreto nº 5.626, de 22
de dezembro de 2005. (Quadros e Karnopp, 2004).
Vale ressaltar também que essa conquista é fruto da organização
política das comunidades surdas brasileiras, haja vista que outras minorias
linguísticas, como as indígenas, por exemplo, lutam pelo reconhecimento
linguístico de suas línguas nativas, mas, infelizmente, ainda não obtiveram
êxito nessa luta.
Destaca-se ainda que a língua de sinais (Libras) é concebida como
língua usada como ferramenta comunicativa e, ligado aos sinais, há a
necessidade de determinados movimentos, bem como expressões faciais
que transmitem inúmeros sentimentos. Os surdos utilizam a língua de sinais
como dispositivo de comunicação, favorecendo a cidadania do surdo na
sociedade.
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
Um dos aspectos essenciais nas Libras são as unidades mínimas que
mantêm os sinais com base em movimentos sequenciais das mãos em
relação ao ponto do corpo ou espaço onde estes são executados. Um
diferencial existente entre as frases em língua portuguesa e as elaboradas
em Libras é que se deve observar com atenção as expressões faciais e
corporais para que se compreenda. 8
Fernandes (2003) afirma que propiciar ao surdo a aquisição da língua
de sinais como primeira língua é oferecer-lhe uma forma natural de
aquisição linguística, porque esta não depende da audição para ser
adquirida, pois sua modalidade é espaço visual. Todos os demais meios de
introdução de um mecanismo linguístico que se difere da modalidade
espaço visual serão não naturais, podendo prejudicar, de modo significativo,
o desenvolvimento natural da criança.
Embora concebamos a Libras como língua nova, no sentido do seu
reconhecimento verificamos a importância que ela tem na vida dos surdos,
visto que, ela desempenha a função como estruturantes do pensamento,
base para o desenvolvimento cognitivo do indivíduo surdo e para a
formação da sua identidade.
INCLUSÃO E LEGISLAÇÃO APLICADA ÀS PESSOAS SURDAS
Os surdos necessitam ser incluídos em nossa sociedade de ouvintes e
para tanto, a língua de sinais é de suma importância para que ocorra a
comunicação com os demais. Sejam ouvintes ou não, o papel do intérprete
se faz necessário para haver interação com os surdos e ouvintes.
O intérprete da Língua Brasileira de Sinais, bem como qualquer outro
intérprete, necessita dominar a língua de sinais e a outra língua usada em
seu país, em nosso caso o português. A nossa sociedade é feita de ouvintes e
para ouvintes, na qual os surdos são minoria, por isso, o intérprete é de
fundamental importância na conjuntura dos mundos ouvintes e surdos. O
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
papel do intérprete de Libras favorece a participação do surdo em
atividades sociais, educacionais, culturais e políticas do país.
Diante da crescente matrícula de surdos em escolas onde sua primeira
língua não é usada pelos professores durante a prática docente, políticas
inclusivas percebem a necessidade da mediação entre línguas de sinais na
escola para que os alunos surdos possam beneficiar-se de forma eficiente. 9
(PEREIRA, 2008).
O papel do intérprete educacional é realizar na escola interpretações,
consecutivas ou simultâneas, da língua oral para a língua de sinais ou vice-
versa. Todavia, pôde-se afirmar que o trabalho do intérprete educacional
não se limita, ou pelo menos não deveria se limitar, às atividades de
interpretação, uma vez que através desse profissional é desenvolvida uma
ferramenta riquíssima na integração e valorização das pessoas surdas.
Por isso, a formação em tradução e interpretação não vem apenas
de um curso de Libras, mas principalmente, de cursos específicos de
formação de tradutores/intérpretes de Libras e do contato diário com a
comunidade surda, para conhecer toda uma cultura que envolve o ser
surdo.
De acordo com o inciso do art.6º da Lei nº 12.319, que regulamenta
a profissão do intérprete ou tradutor de língua de sinais é atribuído:
interpretar, em Língua Brasileira de Sinais, Língua Portuguesa, as
atividades didático-pedagógicas e culturais desenvolvidas nas
instituições de ensino nos níveis fundamental, médio e superior, de
forma a viabilizar o acesso aos conteúdos curriculares (BRASIL, 2010,
p. 41).
As atividades didáticas pedagógicas, independentes de seus níveis de
ensino, possuem um caráter complexo e, muitas vezes, apresentam em seus
vocabulários, terminologias que não fazem parte da formação profissional
do intérprete educacional. Para que o intérprete educacional possa
desempenhar uma prática de tradução qualificada, é necessário que ele
esteja em consonância com a prática pedagógica do professor.
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
Diante do exposto, verifica-se que o intérprete atua nas diversas
situações em que a interação entre surdos e ouvintes, que não sinalizam, seja
exigida, sendo mediador entre as comunidades surdas e ouvintes. O
intérprete de Libras atua com maior frequência em eventos (palestras em
congressos, seminários, fóruns, encontros), instituições de ensino, área
médica e judiciária. 10
Muito se discute em palestras, escolas, redes sociais e outros acerca da
inclusão, porém a realidade é de uma grande exclusão, visto que muitas das
instituições ainda rejeitam o acesso do surdo ao conhecimento, uma vez que
negam a contratação de intérpretes, apesar das políticas atuais que
respaldam o direito dos surdos brasileiros de terem acesso às informações por
meio de sua primeira língua, a Libras. Segundo constatado em crítica em
audiência pública da comissão de defesa dos direitos das pessoas com
deficiência da câmara dos deputados em 29 de agosto de 2019, as
instituições de ensino federais não possuem intérpretes, como prevê a
legislação brasileira (Lei 10.436/02 e decreto 5.626/05).
O procedimento de inclusão dos surdos no processo educacional
tende a promover a convivência social com a diversidade, a cultura, e as
capacidades de desenvolvimento de cada um, não sendo tolerado nenhum
tipo de discriminação.
O aluno com surdez necessita receber uma atenção mais dinâmica
em seu processo de aprendizagem envolvendo adaptações e suportes para
que a comunicação se efetive e para tanto, é essencial possibilitar o acesso
à comunicação por meio de uma boa ampliação da língua de sinais e com
apoio de intérprete.
É possível pensar em uma educação inclusiva embasada em
processos participativos, constituindo ciclos de aprendizagem mantidos por
um currículo multicultural de uma instituição, um sonho cuja intenção é de
solucionar o problema da evasão e do fracasso escolar, pois os problemas
administrativos escolares muitas vezes contribuem para evasão escolar.
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
A escola inclusiva refere-se a inúmeras reivindicações aos direitos
sociais:
A reivindicação ocorrida mundialmente em busca pela educação
inclusiva é concebida como uma ação política, cultural, social e
pedagógica, desencadeada em defesa do direito de todos os
alunos de estarem juntos, aprendendo e participando, sem nenhum
tipo de discriminação. Destaca-se ainda que, a educação inclusiva 11
é um modelo educacional embasado em direitos humanos que
prioriza o ser como um todo. (BRASIL 2007, p. 1).
Conforme descrito, o movimento realizado pela educação inclusiva é
uma conjuntura que busca defender o direito de todos pela educação de
qualidade e que seja partilhada onde todos possam aprender por meio da
participação.
Martins et al. (2008) corrobora com a ideia citada quando menciona
que o movimento procura rever a escola, para que ela deixe de ser escola
da homogeneidade e passe a ser a escola da heterogeneidade, para que
ela seja aberta a todos.
A instituição de ensino é um ambiente multicultural, variado, que
atende um público com objetivos, ideologias e necessidades diversificadas.
A instituição de ensino é o meio de transformação do indivíduo incluindo a
aprendizagem de qualidade e esta pode ser possível na sala regular onde
todos aprendem por meio das interações.
O processo de inclusão escolar deve ter como características as
condições de qualidade de atendimento aos alunos com deficiência,
oferecendo oportunidades de desenvolvimento a todos. O convívio
interativo estimula o aluno com surdez ao desenvolvimento de sua
capacidade e aprendizagem.
Tanto a Constituição Federal quanto a Resolução do CNE/CEB nº
02/2001 trazem em seu cerne a educação como direito de todos os
indivíduos sem distinção. Vale lembrar que todos possuem o direito de
estarem matriculados e assíduos no processo educacional recebendo o
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
atendimento adequado satisfazendo as necessidades dos que estão
inseridos na instituição de ensino regular
De acordo com esse processo de inclusão, a Declaração de
Salamanca (UNESCO, 1994, p.01) destaca:
Toda criança possui o direito à educação e deve possuir as mesmas
oportunidades de aprendizagem; toda criança possui suas
12
particularidades, capacidades e necessidades de aprendizagem.
Para tanto, os alunos necessitam ter acesso ao ensino de qualidade
e que suas necessidades sejam atendidas de forma coerente e
coesa. (UNESCO, 1994, p.01).
Conforme a citação, com o advento da Declaração de Salamanca,
entende-se a necessidade da inclusão escolar de todos os alunos sem
discriminação ou segregação. Todos os alunos possuem direitos iguais no
que tange à educação de qualidade e para tanto, necessitam fazer parte
do processo educacional, participando com os demais para que haja
interação e aprendizagem. A maioria dos debates ocorre devido
conhecerem inúmeras teorias e nenhuma ser posta em prática.
O pensamento de Glat e Blanco (2007) corrobora com a autora acima
citada quando mencionam que as instituições possuem o discurso de
aceitação à diversidade, mas continuam com práticas discriminatórias, não
alteram o currículo proporcionando o desenvolvimento de todas as crianças
com igualdade.
Amiralian (2005) faz o seguinte esclarecimento:
Que utilizar o termo inclusão escolar pode ser compreendido como
essencial no sentido de conceber o aluno como um todo e não
apenas os limites que possui devido a sua deficiência ou
necessidade. Salienta-se ainda que o aluno seja parte integrante da
escola e que para obter o sucesso almejado ele precisa ser inserido
para que possa interagir, aprender, trocar experiências com seus
pares. (AMIRALIAN, 2005, p. 32)
Como mencionado, a inclusão escolar ocorre quando o aluno é parte
integrante e ativa do processo educacional que aprende e ensina, ou seja,
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
que convive com os demais colegas para associar-se, interagir e vivenciar
experiências que contribuam para seu crescimento pessoal.
IDENTIDADE E CULTURA SURDA
Na concepção da antropologia social a surdez é vista como uma 13
diferença a ser respeitada e não uma deficiência a ser eliminada. Nessa
perspectiva, o indivíduo surdo pertence a uma comunidade minoritária, no
caso a comunidade surda, faz uso do direito linguístico da língua de sinais
para se comunicar e compartilhar da cultura surda com toda sua bagagem.
(STROBEL 2008).
Quando adotamos a concepção socioantropológica, estamos
defendendo que os surdos são organizados social e politicamente, adotam
um estilo de viver que é próprio, usam o mecanismo visual como meio
principal de obter conhecimento, possuem a necessidade de estar em
permanente contato com outros surdos, não porque os ouvintes não os
compreendem, mas pela força da identificação cultural.
Vale salientar que há inúmeras tipologias de identidade que podem
desenvolver-se conforme a experiência social e cultural experimentada
pelos surdos. Perlin (2000) faz uma diferenciação de alguns tipos de
identidades surdas e as classifica da seguinte forma: identidade flutuante,
inconformada, de transição, híbrida e surda.
Na identidade flutuante o surdo assume o papel de pessoa com
deficiência e comporta-se de modo a tentar superar sua perda auditiva,
enquanto na identidade inconformada o surdo sente-se inferior ao ouvinte.
Observa-se que, em ambas, impera uma concepção clínico-patológica
sobre a surdez e o ouvintismo( Concepção que abarca a comunidade
ouvinte) engendra essa percepção sobre si mesmo e seu espaço no mundo.
Já na identidade de transição, que ocorre quando o surdo tem
contato com a Comunidade Surda, mas esse contato ocorre de forma
tardia. Dessa forma, não se encontra plenamente em nenhum dos grupos.
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
Em relação à identidade híbrida, o indivíduo teve que aprender uma
segunda língua devido à perda auditiva e assim ressignificar suas relações
com outros indivíduos por meio da língua visual.
O desenvolvimento das experiências em Língua de Sinais dá vazão à
constituição da identidade surda. Vale salientar que os surdos são indivíduos
visuais e culturais, visto que possuem capacidade de se comunicar por meio 14
da língua de sinais, narram, produzem, criam e recriam literatura surda, que
favorece aprendizagem e troca de saberes com outros surdos ou ouvintes.
O surdo não se vê como alguém que necessite de auxílio para sentir-se
normal, mas sim como um indivíduo que precisa mecanismos que sejam
capazes de proporcionar sua identidade cultural por meio de ferramentas
diversificadas.
De acordo com Strobel (2008) quanto à sua perspectiva em relação à
cultura surda, que é a forma de se vivenciar, comunicar e de tornar o mundo
habitável por meio de interações sociais, a troca de experiências e saberes
favorece o fortalecimento da identidade do surdo. Dessa maneira, a cultura
surda é constituída nas interações sociais dentro da comunidade surda, que
compartilha semelhanças, valores e comportamentos, portanto, abrange a
língua, as ideias, as crenças e os costumes.
É necessário compreender que os surdos não vivem de forma alienada
e na condição de incomunicáveis, quando tratamos acerca da cultura
surda, até mesmo porque sabemos que a comunidade surda é constituída
de surdos e ouvintes. Quando falamos de cultura surda, estamos levando em
consideração algumas particularidades, que apresentamos como artefatos
culturais.
Strobel (2008), ao ilustrar alguns artefatos culturais, esclarece que eles
não se referem somente a materialismos culturais, porém, são produções do
indivíduo que tem seu modo de ser, ver, compreender e transformar. Dentre
os artefatos culturais elencam-se quatro essenciais como:
• Experiência visual: os surdos usam a percepção visual, como via de
comunicação em relação à língua de sinais (visual-espacial);
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
• Linguístico: a língua de sinais é uma das peculiaridades da cultura
surda;
• Literatura surda: multiplicidade dos diferentes gêneros: história de
surdos, piadas, literatura infantil, fábulas, romances, lendas e outras
manifestações culturais;
• Materiais: Tecnologia que auxilia nas acessibilidades da vida 15
cotidiana (tecnologia diferente (TDD), aparelho celular digital, MSN,
instrumentos luminosos sinalizados em escolas e residências, closed caption
dentre outros).
Vale destacar que, assim como cada comunidade surda é organizada
de forma diferenciada segundo os interesses entre eles, as pessoas surdas
compartilham formas culturais de maneiras diferentes.
A cultura é constituída nas relações sociais, não sendo determinada. O
fato de haver clara preferência dos surdos em estar em constante contato
com seus semelhantes surdos traz dois benefícios, fortalece sua identidade e
lhe traz segurança, pois é no contato com seus pares que acontece a
identificação por meio da troca de experiências e histórias positivas e
negativas semelhantes às suas. No encontro surdo com surdo é que se dá o
surgimento da comunidade surda, organizando-se em associações de
surdos, grupos religiosos, encontros e outros.
A ideia de que os surdos possuem uma cultura surda, mesmo sendo
constituintes de uma cultura brasileira, ou regionalista, pode parecer uma
ideia excludente para aqueles que têm a concepção do surdo como
especial ou deficiente. Por essa razão se faz tão necessária a propagação
da literatura surda através da contação de histórias.
A CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS
A contação de história teve o seu surgimento há muito tempo, sendo
bem antes mesmo que a escrita surgiu de fato, isso aconteceu devido aos
povos antepassados sentirem a necessidade de transmitir todos os seus
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
conhecimentos. Assim, eles utilizavam a narrativa para repassar
acontecimentos e fatos históricos importantes e que faziam parte do
passado de cada povo.
Com isso a cultura era perpetuada, repassando-a para os seus
descendentes. Os índios são exemplos dessa prática, eles se reuniam com os
mais novos e transmitiam fatos importantes dos seus antepassados 16
perpetuando assim acontecimentos que permanecerão por várias
gerações:
[...] o pajé, que tinha só ele, os segredos da arte de dizer, deixou de
ser um mero instrumento de diversão e encantamento popular, para
ser depositário das tradições da tribo, as quais ele deveria transmitir
às novas gerações para serem conservadas e veneradas através dos
tempos. (BUSATTO, 2006, p.17).
Para eles essa ação era apenas uma conversa informal ou formal, mas
mesmo sem eles perceberem, já estavam ensinando através da contação
de histórias, devido ao repasse de informações, vivências e costumes. Com o
passar do tempo, aquele que contava as histórias dos seus antepassados se
tornou muito importante em sua tribo, tornando assim sendo o mais sábio e
experiente e geralmente o mais consultado pelos outros em busca de
conselhos. O tempo foi passando e o desenvolvimento dessa prática foi
ganhando cada vez mais espaço nos mais diversos ambientes sendo eles,
tribos, reuniões, encontros familiares até chegar ao espaço escolar.
Por muito tempo a contação oral de histórias foi vista sob um olhar
inferior à escrita, apesar disso os povos sempre se reuniram ao redor da
fogueira e contavam lendas e contos, anunciando sua cultura e os seus
costumes. A reunião para ouvir histórias era uma atividade dos simplórios,
isto explica porque durante tanto tempo a sociedade não aceitou a prática.
Os momentos em que a contação de histórias era realizada, mesmo
sem saber que esse era o nome dado para essa ação, os antepassados
estabeleceram acesso ao conhecimento não apenas da sua cultura, mas
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
também da oralidade, onde os mais novos conheciam palavras novas e
despertavam os seus sentimentos conforme essa prática ia acontecendo.
Assim, é possível destacar que falar sobre o ato de contar histórias trará
sempre à memória este tempo em que o homem confiava na sua cultura,
seus costumes, e suas riquezas através da oralidade, “o ofício de contar
histórias é remoto (...) e por ele se perpetua a literatura oral, comunicando 17
de indivíduo a indivíduo e de povo a povo o que os homens, através das
idades, têm selecionado da sua experiência como mais indispensável à
vida.” (MEIRELES, 1979, p. 41).
Vale ainda destacar que o uso dessa ferramenta pelos antepassados
era de muita importância e inteligência, pois a memória era o único recurso
oferecido para armazenar e transmitir o conhecimento às futuras gerações:
A literatura está relacionada à prática de ouvir e contar histórias e
provém da nossa necessidade de comunicar aos outros,
experiências, sentimentos e emoções (...). Ao usar as palavras e
sobrepor a elas um toque especial de magia e encantamento, cada
contador cria suas várias formas de narrar uma história. Foi desta
ideia que surgiu o fascínio pelas formas de contar histórias, tarefa
(aparentemente) tão simples e de tão grande significação para
quem escuta. Além de prazerosa, a narração privilegia a transmissão
de conhecimentos e valores, tornando-se também responsável pela
formação e desenvolvimento cognitivo e psicológico humano.
(BERGMANN E SASSI, 2007, p. 201-202).
Não só antigamente, mas atualmente também, aqueles que praticam
o ato de contar histórias são considerados os principais mediadores desse
processo, tendo uma tarefa muito importante que é a de envolver a criança
na história, dando vida aos sonhos e à fantasia.
De acordo como exposto, assim como a contação de histórias é
importante para o ouvinte, torna-se fundamental para o surdo, visto que por
meio da contação de histórias os indivíduos viajam, conhecem e aprendem
sobre outros lugares, épocas, valores, hábitos, percepções dentre outras
infindáveis possibilidades. A identidade cultural do surdo é enraizada nas
vivências dos seus antepassados, por essa razão os surdos utilizam da
contação. Nas narrativas infantis, os personagens exercem várias funções,
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
principalmente o cuidado com o outro. A autora destaca que ao ouvir
histórias:
[...] se pode sentir (também) emoções importantes como a tristeza, a
raiva, a irritação, o bem estar, o medo, a alegria, o pavor, a
insegurança, a tranquilidade, e tantas outras mais e viver
profundamente tudo o que as narrativas provocam em quem as
ouve – com toda amplitude, significância e verdade que cada uma 18
delas fez (ou não) brotar... Pois é ouvir, sentir e enxergar com os olhos
do imaginário (ABRAMOVICH, 1997, p.17).
Abramovich (1997) destaca a importância de ouvir histórias, por meio
delas é possível sentir emoções e toda magia que envolve as histórias. Para o
surdo é de extrema importância, visto que os surdos também contam
histórias em Libras e essas devem ser registradas para possíveis divulgações e
leituras em escolas e em outros ambientes. O compartilhamento da literatura
surda favorece um amplo campo de possibilidades para o surdo.
Karnopp (2010) menciona que o material literário descreve a
experiência vivenciada pelas pessoas surdas, a relação existente entre
surdos e ouvintes conflituosas ou benevolentes, de aceitação ou não. Essa
relação é de suma relevância para ambos, visto que é através da vivência
com outras pessoas que o surdo tem a possibilidade de se sentir inserido na
sociedade e assim compartilhar da sua cultura e aprender sobre a
diversidade cultural.
A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE LEITORA DOS SURDOS
A língua de sinais foi conquistando seu espaço de forma significativa,
eclodindo com a literatura surda. Mesmo com toda a intensidade que a
Libras tem ganhado espaço durante as últimas décadas, isso não exclui a
importância de se trazer para a sala de aula a literatura surda, que se faz
essencial na educação e principalmente na cultura e identidade dos surdos.
Muitos questionamentos são elencados em relação ao que é literatura surda.
Morgado (2011) a caracteriza como:
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
Aquelas que são contadas em língua de sinais, sejam frutos de
tradução ou não, podendo ter um tema relacionado com surdos ou
não. Ela não precisa ser contada exclusivamente em língua de sinais,
ou seja, ela também pode ser escrita, porém, o tema deve ser
relacionado aos surdos. (MORGADO, 2011, p. 29)
Segundo o que foi ressaltado pela autora, verifica-se a importância da
19
literatura surda como mecanismo de possibilitar aprendizagem por meio de
apropriações visuais ou verbais além da Libras, pois ao usar as técnicas
mencionadas, favorece a interação dos surdos com os ouvintes.
Os gêneros literários explorados na literatura surda não interessam
somente aos surdos, mas também aos ouvintes que têm contato com sujeitos
surdos. No ambiente escolar, estes podem ser usados com o intuito de
permitir aos alunos ouvintes aprender a Libras, entender e respeitar a cultura
e a língua dos colegas surdos (Mourão, 2012).
Ao reconhecer o valor dos clássicos da literatura mundial, com o
objetivo de possibilitar um discurso que apresente representações sobre os
surdos e suas vivências, alguns autores empreendem uma adaptação para
cultura surda para que estes possam exibir suas produções para outros,
contribuindo para maior aprendizagem e interação. (Mourão, 2012).
As criações literárias surdas e as adaptações dos contos já conhecidos
buscam marcar e representar as dificuldades encontradas pelos sujeitos
surdos, num mundo onde a maioria é ouvinte, onde o uso da língua de sinais
tornou-se um meio de comunicação entre surdos e entre surdos e ouvintes.
Nestas histórias, os personagens alcançam seus sonhos, suas
liberdades, sua cidadania ao terem acesso ao uso da língua de sinais. A
literatura surda nos leva a perceber a importância de encontrar congêneres
que ouvem pelos olhos e falam com as mãos, de forma a instigar o
fortalecimento da identidade surda e divulgar aos leitores os valores e a
cultura do povo surdo.
A literatura surda é alicerçada a uma conquista grandiosa. Os surdos
enfrentam exclusão no convívio familiar, social, profissional e educacional.
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
Com o surgimento das Libras e em seguida da literatura surda, eles puderam
começar a sentir-se incluídos na cultura do país. O surgimento da literatura
sinalizada é considerado pela comunidade surda como uma das muitas
vitórias conquistadas por eles.
Segundo Rosa & Klein (2009) “os sinalizadores contam as histórias em
língua de sinais os quais produzem os classificadores, expressões corporais e 20
faciais que são recursos linguísticos altamente visuais”.
Na década de 79, o poeta Americano surdo e professor Robert
Panara, ministrava o ensino da poesia para crianças surdas por meio das
Libras. Ele enfatizou que ensinar poesia:
[...] ajuda a estimular criatividade e expressão pessoal, e encoraja o
desenvolvimento das faculdades intelectuais do estudante -
imaginação, pensamento e interpretação [...]. Assim como na
exposição às artes dramáticas ou à dança, faz o estudante reagir
emocionalmente e sensitivamente à arte de expressão [...]. Através
da linguagem da poesia os estudantes podem aprender a perceber
como o lugar comum é feito parecer incomum, como palavras
antigas podem ser expressas com frescor, originalidade e beleza
(PANARA, 1979, p. 825).
Ensinar o aluno surdo a fazer uso da língua de sinais ao aprender um
gênero literário auxilia na criatividade, bem como na expressividade e
imaginação favorecendo uma nova forma de aprender com criatividade e
dinamicidade. As histórias contadas de forma verbal nunca perderam seu
encanto. Porém, sabe-se que a comunidade surda foi por muito tempo
carente de uma literatura específica para eles.
Para que a literatura surda chegue a todos os surdos e possa se
expandir conquistando assim seu espaço e reconhecimento é necessário
que a mesma seja estendida aos livros, uma vez que, de acordo com Rosa &
Klein (2009, pág.2-3), a divulgação da literatura surda tem como meio mais
utilizado de divulgação o YouTube.
É importante falar também sobre a importância de se trabalhar a
literatura surda no âmbito escolar. Pois é através dela que se desenvolve a
identidade individual de cada aluno e também de forma coletiva. É uma
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
obrigação da escola buscar se adaptar ao aluno e as suas dificuldades e
condições. Pela perspectiva de Pissinatti et al. (2020, pág. 15), sobre a
importância da literatura surda em sala de aula:
O contato com a literatura surda em sala de aula, permite ao aluno
surdo, empoderar-se; levando em consideração os valores
linguísticos culturais do seu povo, desenvolvendo sua identidade por 21
meio de um movimento de identificação com as representações da
obra, porém, não basta somente ter contato, o professor precisa
intervir de forma mediadora nesse processo. O aluno não realiza o
processo descolonizador de valores ouvintistas de maneira solitária. O
professor, nesse sentido, é fundamental criando estratégias de
intervenção e problematização para que o surdo consiga significar e
ressignificar, encontrando-se a si mesmo e às diferenças por meio das
produções literárias de sua comunidade. Intervir com a literatura
surda na sala de aula, por meio de estratégias diversas faz dessa
ação uma pedagogia descolonizadora confrontando o aluno, tanto
surdo como também ouvinte, com seus valores e diferenças.
(PISSINATTI ET ALL. 2020, p. 15).
De acordo com o que foi mencionado por Pissinatti et al. (2020), o
surdo deve manter o contato com a literatura como mecanismo para
desenvolver sua identidade de forma prazerosa e dinâmica, tendo como
principal contribuinte o professor por meio de suas intervenções e estratégias
que favoreceram valores linguísticos culturais.
No Brasil, a literatura surda ainda é considerada um acontecimento
atual. Pode-se dizer que Lodenir Becker Karnopp foi a pioneira nas pesquisas
sobre literatura surda no país. No ano de 2006, a pesquisadora publicou
artigos que relatam sobre o estudo da literatura surda, a partir daí o assunto
ganhou impulso e começou a circular por todo o país.
É importante ressaltar que apesar de o Brasil ser um país em que a
literatura é considerada originária do seu povo, gerada através da sua
cultura, a literatura surda não pode ser considerada original no país, pois
muitas das obras que se encontra são adaptações, cópias de obras já
existentes. É certo que, a literatura surda é uma arte construída através da
comunidade surda. Se é uma arte específica de um povo, ela deveria ser
original, assim como os detalhes da comunidade surda.
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
Segundo Karnopp (2006), a literatura surda manifesta as experiências e
vivências do povo surdo e permite novas formas de representação do povo
surdo. Para comprovar a originalidade da literatura surda temos também a
afirmação de Strobel (2013), a literatura surda é um artefato cultural do povo
surdo, parte de seus materiais culturais são constituídos na comunidade
surda. Ela não é exclusiva dessa comunidade, mas obviamente os tem 22
como alvo principal. A literatura surda pode sim ser acessada por qualquer
pessoa que se interesse por ela, o problema é o pouco interesse pelo
aprimoramento da mesma.
Obras adaptadas como “O patinho surdo”, “Cinderela” e outras são
encantadoras, porém, não são originais, e dessa forma gerou uma das
exigências principais da comunidade surda em relação à literatura surda,
que é a criação de mais obras originais como TIBI E JOCA (Bisol, 2001) é um o
relato e criação de uma história contada por um surdo, uma realidade na
comunidade surda. Outra obra que orgulha a comunidade surda é CASAL
FELIZ (Couto, 2010) é criação de uma história contada por um surdo, autor
Cleber Couto, é um livro sobre encontros entre a mão vermelha e mão azul,
em que os desenhos foram feitos pelo mesmo autor, que abordem suas
vivências e experiências cotidianas, seus desafios, obras específicas para
surdos, mas que envolvam ouvintes.
Outra forma deveras rica de compartilhar a literatura surda sua cultura
é através de piadas contadas em Libras. Que além de enriquecer em
conhecimento, irão acrescentar humor e alegria aos surdos.
Na visão de Castells (2000, p.49) o uso das tecnologias da informação
é essencial para disseminar a literatura surda contribuindo para novas
criações, bem como enriquecer as existentes. Castells (2000, p. 49) completa:
“entre as tecnologias da informação, incluo, como todos os conjuntos
convergentes de tecnologias em microeletrônica, computação (software e
hardware), telecomunicações/radiodifusão, e optoeletrônica”.
Os softwares e hardwares favorecem novas formas de manter contato
com a literatura surda de forma tecnológica, possibilitando novas
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
aprendizagens, comunicação em tempo real em qualquer espaço
geográfico e a qualquer momento.
As novas (e velhas) tecnologias podem servir tanto para inovar como
para reforçar comportamentos e modelos comunicativos de ensino. A
simples utilização de um ou outro equipamento não pressupõe um trabalho
educativo, ou pedagógico (AREDE, 2006, p. 44). 23
O termo inclusão digital ainda provoca controvérsias sobre sua
conceituação. Para Arede (2006), está relacionado à questão da difusão do
conhecimento, ou seja, a tecnologia seria a ligação entre o homem e a
informação na condição de potencial transformador na sociedade.
Em outra abordagem, de Silva & Jambeiro (2007), o conceito de
inclusão digital está intimamente relacionado à identidade cultural, no
aspecto educacional, e ao nível de renda dos sujeitos envolvidos no
processo de utilização da tecnologia da informação. As tecnologias são
ferramentas indispensáveis para a construção da identidade dos surdos por
meio da literatura surda, visto que, potencializa as criações literárias surdas
com registros com a finalidade de disseminar a linguística dos surdos
viabilizando a interação entre sujeitos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Verificou-se com a execução do referido trabalho a importância da
literatura surda como mecanismo de construção da identidade surda, pois a
mesma possibilita ao surdo ampliar sua comunicação com outros indivíduos
por meio de suas vivências.
A literatura surda é narrada em língua de sinais sendo composta por,
histórias relatadas por contos, piadas, lendas, fábulas dentre outros
infindáveis gêneros que permitem adaptações ampliando a visão de mundo
dos surdos.
A prática de contar histórias é sim uma atividade pedagógica de
grande importância e que pode ser utilizada na construção de
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
conhecimentos e valores fundamentais na aprendizagem dos alunos,
principalmente os com surdez.
As tecnologias são mecanismos que promovem interação,
informação, aprendizagem, novas possibilidades de performances e
estímulos visuais, criando novos espaços e novas formas de vivenciá-los,
alterando seus usos e significados. Desta maneira, ao fazer uso das mídias 24
digitais, se traz uma nova forma de conexão entre os usuários. A vida escolar
passa a ser modificada pelo uso das tecnologias digitais, com enfoque no
uso da internet para produções da literatura surda.
Os equipamentos, quando disponíveis nas escolas, são auxiliares aos
professores na implementação de práticas pedagógicas direcionadas para
um ensino rico e pleno de significado. A educação deve ser encarada
como um processo de construção do conhecimento que ocorre como uma
complementação, cujos lados constituem-se de professor e aluno e o
conhecimento construído previamente.
A partir da observação desses alunos, entende-se que a função de um
educador é claramente incluir o aluno no ambiente educacional e envolver
a criança surda em atividades com as demais crianças ouvintes,
normalmente através dos métodos adequados.
De acordo com a pesquisa, torna-se necessário que o educador utilize
uma didática diferenciada com os alunos surdos, como um método de
melhoria no desenvolvimento educacional dessa criança.
REFERÊNCIAS
ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil: gostosura e bobices. [Link]. São Paulo:
Scipione, 1997.
AMIRALIAN, M. L. T.M. Psicologia do excepcional. São Paulo: EPU, 2005.
BISOL, Claudia. Tibi e Joca: uma história de dois mundos. Mercado aberto,
2001.
BRASIL, Ministério da Educação. Política Nacional de Educação Especial na
Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília: SEESP/MEC, 2010.
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
BRIEGA, Diléia Aparecida Martins. Você disse Libras. O acesso do surdo à
educação pelas mãos do intérprete de Libras. Araraquara: Letraria, p. 169,
2019.
BERGMANN, L. M.; SASSI, R. G. O humor na literatura infantil. Educação
Unisinos, v. 11, n. 3, p. 200-205, set./dez. 2007
BUSATTO, Cléo. A Arte de Contar Histórias no século XXI. Petrópolis, RJ: 2006. 25
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
CHARTIER, Roger. In: ZAHAR, Cristina. Os livros resistirão às tecnologias digitais.
Revista Nova escola, Ano XXII, nº 204, agosto de 2007. São Paulo: Fundação
Victor Civita.
COUTO, Cléber. Casal feliz. Ilustrações de Cleber Couto. Belém, 2010.
FERNANDES, Ana Malfada de Almeida. Da fábula ao imaginário infantil:
recepção interpretativa pelas crianças de uma história tradicional. UdeMIEP.
2003.
Glat, R.; Blanco, L. M. V. (2007). Educação Especial no Contexto de uma
Educação Inclusiva. In: Glat, R. (org.). Educação Inclusiva: cultura e cotidiano
escolar. Rio de Janeiro, 7 Letras, pp. 15-35.
KARNOPP, Lodenir Becker. Literatura Surda. EDT. Educação Digital, v. 7, n. 2, p.
98109,jun/2006. Disponível em:
[Link]/ssoar/bitstream/handle/document/10162/ssoaretd-2006-2-
karnopp-literatura_surda.pdf?sequence=1. Acesso em: 27/08/2022.
KARNOPP, Lodenir Becker; ROSA, Fabiano. Patinho Surdo. Canoas: ULBRA,
2011, 28 p.
KARNOPP, L. B. – Produções culturais de surdos: Análise da Literatura Surda.
Cadernos de Educação | FaE/PPGE/UFPel | Pelotas [36]: 155 - 174,
maio/agosto 2010.
MARTINS, L. A. R.; et al. Inclusão: compartilhando saberes. 3. ed. Petrópolis/RJ:
Vozes, 2008.
MOURÃO, Claudio Henrique Nunes. Adaptação e tradução em literatura
surda: a produção cultural surda em língua de sinais. IX ANPED Sul. Seminário
de Pesquisa em Educação da Região Sul, 2012. Disponível em:
[Link]
al/Trabalho/08_31_ 14_3009-[Link]. Acesso em: 27 jul. 2022.
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855
MORGADO, Marta. Literatura das Línguas Gestuais. Lisboa: Universidade
Católica Editora, 2011.
PERLIN, Gládis. Identidade surda e currículo. Surdez: processos educativos e
subjetividade São Paulo: Lovise, p. 23-28, 2000.
Pissinatti, L. G., Mori, N. N. R. (2020). Literatura surda na região amazônica: o
ambiente educacional como espaço da construção da identidade a partir 26
da
experiência estética. Série-Estudos - Periódico do Programa de Pós-
Graduação em Educação da Ucdb, 25(54), 117-132.
QUADROS, Ronice Müller de. Língua de sinais brasileira: estudos linguísticos.
Porto Alegre: Artmed, 2004.
QUADROS. Ronice Muller de; KARNOPP,LB. Língua de sinais brasileira: Estudos
linguísticos.1 Porto Alegre: Artmed, 2004.
ROSA, F. S.; KLEIN M. – Literatura Surda: Marcas Surdas Compartilhadas. Anais
do XVIII Congresso de Iniciação Científica (CIC) e XI ENPOS, I Mostra
Científica, 2009.
SACKS, Oliver. Vendo vozes: uma viagem ao mundo dos surdos. São Paulo.
Companhia das Letras, 2010.
SKLIAR, Carlos. A surdez: um olhar sobre as diferenças. 3ª ed. Porto Alegre:
Mediação, 2005.
STROBEL, Karin. As imagens do outro sobre a cultura surda. 3ª edição.
Florianópolis: Editora da UFSC, 2013, 146 p.
STROBEL, [Link]. As imagens do outro sobre a cultura surda. 1. ed. Florianópolis:
UFS, 2008.v.1.118p.
UNESCO (1994). Declaração de Salamanca e Enquadramento da Acção na
Área das Necessidades Educativas Especiais. Lisboa: Instituto de Inovação
Educacional.
VIEIRA, Maria Inês. Surdez ou deficiência auditiva. Porto Alegre: Vez da Voz,
2007. Disponível em: [Link]/artigos_
[Link]. Acesso em 25 de jul. 2022.
Revista Latino-Americana de Estudos Cientifico - RELAEC
Disponível em: [Link]
ISSN: 2675-3855