Rentabilidade de Bancos e Cooperativas
Rentabilidade de Bancos e Cooperativas
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Resumo
O sistema financeiro desempenha papel crucial em qualquer economia. Fatores como forte regulamentação do
setor bancário, mensuração e avaliação em termos de desempenho e eficiência vêm sendo fundamentais para as
instituições financeiras. A sustentabilidade de longo prazo de cooperativas e bancos demanda a identificação e a
comparação das variáveis que influenciam sua rentabilidade. Este estudo realizou a análise de um painel de
instituições com características similares, compreendendo o período de 2009 a 2013. Os resultados indicaram que
o retorno sobre o ativo dessas instituições mostrou-se afetado por: empréstimos, eficiência (mensurada por meio
de análise envoltória de dados), despesas totais, depósitos totais, outras receitas e taxa Selic. Já o retorno sobre o
patrimônio líquido mostrou-se influenciado por: depósitos totais, empréstimos, taxa Selic, PIB, inflação, outras
receitas e despesas totais. Na amostra estudada, os resultados indicaram que não há diferença estatística se a
instituição financeira for classificada como banco múltiplo ou como cooperativa de crédito quando considerado o
ROE como medida de desempenho.
Abstract
The financial system plays a crucial role in any economy. Factors such as strong regulation of the banking sector,
measurement and evaluation in terms of performance and efficiency has been important for financial institutions.
The long-term sustainability of cooperatives and banks demand the identification and comparison of variables that
influence their profitability. The present study carried out an analysis of a panel of institutions between 2009 and
2013 with similar characteristics. The results indicate that the return on assets of these institutions was affected by
loans, efficiency (measured using data envelopment analysis), total expenses, total deposits, other income and the
Selic rate. However, return on equity was influenced by total deposits, loans, Selic rate, GDP, inflation, other
income and total expenses. In the sample studied, the results indicated that there is no statistical difference if the
financial institution is classified as a multiple bank or credit union, when considering ROE as a performance
measure.
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Introdução
As cooperativas de crédito são instituições financeiras que atuam em nicho semelhante aos dos
bancos múltiplos. Sua carteira de serviços contempla: prestação de serviços relacionados a operações de
pagamento e recebimento, concessão de cheques e cartões, captação de depósitos a prazo e à vista, e
concessão de crédito, além de outras operações e atribuições previstas na legislação. Por trabalharem
com a concessão de crédito, as cooperativas incorporam riscos semelhantes aos dos bancos (Pinheiro,
2008).
No caso dos bancos, é usual assumir que os acionistas buscam a maximização de lucros. As
cooperativas de crédito, entretanto, são um exemplo de organização em que a pressuposição de
maximização dos lucros não é necessariamente aplicável (Smith, 1986).
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(ROE) caiu de 21,41% em 2009 para 7,83% em 2015. Para as instituições bancárias, a redução foi de
8,84% para 7,94%, no mesmo período (BACEN, 2016).
O crescimento das cooperativas nos últimos anos, em termos de ativos totais, depósitos totais,
quantidade de clientes, postos de atendimentos e concessão de crédito, acirra a concorrência com os
bancos múltiplos em diversos nichos. Há indícios de que tanto os bancos quanto as cooperativas estejam
apresentando ineficiência. Nesse contexto, este estudo tem por objetivo identificar as variáveis que
influenciaram a rentabilidade das cooperativas de crédito e dos bancos múltiplos no período de 2009 a
2013.
Para a seleção da amostra dos bancos múltiplos e das cooperativas de crédito, adotou-se o método
de análise de Cluster, que permite agrupar as instituições com características similares no período
estudado, possibilitando uma abordagem analítica ainda não encontrada em estudos nacionais até o
momento. Para o cálculo dos scores de eficiência, utilizou-se a metodologia DEA. As demais inferências
foram obtidas por meio de modelos de regressão múltipla, com dados em painel. Os resultados indicaram
que o retorno sobre o ativo é afetado por: empréstimos, eficiência, despesas totais, outras receitas e pela
taxa Selic. Já o retorno sobre o patrimônio líquido é influenciado por: depósitos totais, taxa Selic, PIB,
inflação, eficiência, e outras receitas. Na amostra analisada, os resultados indicaram que não há diferença
estatística se a instituição financeira for classificada como banco múltiplo ou como cooperativa de
crédito quando considerado o ROE como medida de desempenho.
Referencial Teórico
Rentabilidade em bancos
A crise bancária instaurada depois de 2008 contribuiu para a avaliação dos principais fatores que
afetam a rentabilidade. Visando à instauração de um sistema financeiro mais sólido, o Acordo de
Basileia III recomendou às instituições que retivessem maiores volumes de lucro e pagassem menos
dividendos, conservando, assim, maior quantidade de capital (Bolt, Haan, Hoeberichts, Oordt, & Swank,
2012; Lee & Hsieh, 2013).
A rentabilidade nas cooperativas de crédito vem sendo debatida (Barroso & Bialoskorski, 2010;
Bressan, Braga, & Lima, 2002). Aspectos como a dimensão dono/usuário influenciam
significativamente na administração, já que os investimentos, as estratégias e as táticas empresariais têm
como referência o associado. Portanto, as decisões de investimento e crescimento não são norteadas
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apenas pelo mercado, mas também pela necessidade de sobrevivência e de crescimento dos associados
(Bressan et al., 2002; Pana, Vitzthum, & Willis, 2015).
Outra proposta: comparar as taxas praticadas pela cooperativa com as das demais instituições
financeiras. Ou seja, comparar as taxas de captação e empréstimos e avaliar se existem diferenças e
possíveis benefícios aos cooperados (Smith et al., 1981). Porém, tal análise, por vezes, mostra-se
inviável, devido à disponibilidade das reais taxas e tarifas praticadas pelas instituições.
Alguns trabalhos usaram os índices ROE e ROA para avaliar a rentabilidade das cooperativas de
crédito (Barroso & Bialoskorski, 2010; Esho et al., 2005; Goddard, 2002, 2008; Pereira, Venturini,
Ceretta, & Dutra, 2009). Porém, a utilização desses indicadores preza pela maximização dos resultados
e, como observado, nem sempre é opção das cooperativas. Apesar disso, têm sido os mais utilizados na
literatura.
Metodologia
Modelo analítico
Para explicar a rentabilidade das cooperativas de crédito e dos bancos múltiplos, utilizaram-se
como proxies os indicadores ROE e ROA, tal como por Goddard, Mckillop e Wilson (2002); Laureto e
Oreiro (2010); e Pessanha, Calegário, Sáfadi e Azara (2012). Os dados foram coletados no site do Banco
Central do Brasil, a partir do Plano de Contas das Instituições do Sistema Financeiro Nacional (COSIF),
de modo a facilitar o acompanhamento, a análise e a avaliação das instituições integrantes da pesquisa.
Os indicadores de rentabilidade, ROE e ROA, foram calculados da seguinte forma para as cooperativas
e para os bancos múltiplos, utilizando as contas COSIF:
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Em que: a conta [Link].00-7 representa o ativo circulante e realizável a longo prazo. A conta
[Link].00-4 indica o ativo permanente. A conta [Link].00-2 é o patrimônio líquido. As contas
[Link].00-9 e [Link].00-6 indicam as contas de resultado credoras e as contas de resultado devedoras,
respectivamente. Os modelos de regressão com dados em painel foram estimados, partindo,
inicialmente, da construção das seguintes equações:
ROAit = β1+ β2OREit + β3DESTOt + β4EMit + β5DTOit+ β6PMit + β7SELt + β8INFt + β9PIBt +
β10EFIit + β11DUit + ci + εit (1)
ROEit = β1+ β2OREit + β3DESTOt + β4EMit + β5DTOit+ β6PMit + β7SELt + β8INFt + β9PIBt +
β10EFIit + β11DUit + ci + εit (2)
Em que: ci+εit são os termos de erro do modelo: ci indica o efeito individual específico não
observável, o qual difere entre as unidades e é invariante no tempo;. εit é o termo que varia com as
unidades e com o tempo, também chamado de termo de erro usual da regressão. As demais variáveis
explicativas da rentabilidade estão descritas a seguir.
A variável outras receitas (ORE) advém de aplicações não financeiras, compondo parte da
rentabilidade total. Possui ligação direta com as taxas de longo prazo e retornos em investimento no
mercado de capitais (Bolt et al., 2012).
As despesas totais (DESTO) representam o montante gasto para a geração do serviço, refletindo
o custo total. Essa conta representa a maior parte do passivo das instituições, impactando diretamente o
resultado do período (L. A. D. Araújo, Jorge, & Salazar, 2006).
No que tange à variável empréstimos (EM), espera-se que tenha sinal positivo, já que com seu
aumento as instituições tendem a gerar maiores retornos (Lee & Hsieh, 2013). Os depósitos totais (DTO)
indicam passivos de maior liquidez. E estes implicam retornos menores.
A participação de mercado (PM) enfatiza a concorrência do setor. De acordo com Lee e Hsieh
(2013), maior participação de mercado implica maiores ativos e, consequentemente, reduz as despesas
com seguros sobre a dívida, estando menos exposto a riscos. Para os propósitos desta pesquisa, será
usada a participação de mercado dos bancos e cooperativas da amostra, com base na conta operações de
crédito. Essa variável representa a maior fonte geradora de receitas das instituições (L. A. D. Araújo et
al., 2006; Dantas, Medeiros, & Paulo, 2011; Ribeiro & Tonin, 2010).
Têm-se como variáveis macroeconômicas: a taxa Selic (SEL), a inflação (INF) e o Produto
Interno Bruto (PIB). Países que apresentam maiores instabilidades econômicas possuem inflação
elevada e constante variação na taxa referencial e os efeitos sobre a rentabilidade são incertos. E, por
ser balizadora das operações de crédito, a taxa Selic tem grande influência nas taxas cobradas pelos
bancos, e a sua volatilidade (elevada para padrões internacionais) tem grande influência no grau de
aversão ao risco (Oreiro, Paula, Silva, & Ono, 2006).
Para esta pesquisa, foram calculados escores de eficiência para os bancos múltiplos e para as
cooperativas de crédito, com base na metodologia Análise Envoltória de Dados (Data Envelopment
Analisys [DEA]), assumindo retornos variáveis de escala orientada a produto. Foram usados os
resultados dos modelos DEA como indicadores da eficiência das instituições (EFI). Por fim, adicionou-
se uma dummy (DU), que assumiu valor 1 para os bancos múltiplos e 0 (zero) para as cooperativas de
crédito.
A estratégia utilizada para selecionar a melhor especificação do modelo a ser analisado consistiu
em utilizar os seguintes procedimentos operacionais:
1. Aplicou-se o teste de correlação entre as variáveis explicativas do modelo. Após este resultado, foi
retirada a variável participação de mercado (PM), que se apresentou altamente correlacionada com a
variável dummy, já que, em uma análise minuciosa dos dados, foi identificado que os bancos
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pesquisados possuem maior participação de mercado que as cooperativas de crédito, o que indica a
mesma informação da variável dummy;
Tabela 1
LnROAa ROEb
Variável Coeficiente Variável Coeficiente Sinal esperado
Depósitos Totais/Ativo -1,794599 *** Depósitos -0,0637417*** Negativo
Total (0,1562399) Totais/Ativo Total (0,0102629)
Ln (Empréstimos/Ativo 0,559653 *** Empréstimos/Ativo 0,1366946*** Positivo
Total) (0,031106 ) Total (0,0139902)
Ln(SELIC) 1,52127 *** SELIC 0,0091545*** Incerto
(0,0735581 ) (0,0008653)
PIB 0,0073322*** Incerto
(0,0007622)
Inflação -0,0152247*** Incerto
(0,0018542)
Ln(Eficiência) -0,2672656 *** Eficiência 0,0010039 Positivo
(0,0699279 ) (0,0077219)
Despesas Totais/Ativo 4,43767 *** Despesas 0,8173198*** Negativo
Total (0,6876317 ) Totais/Ativo Total (0,0965727)
Ln(Outras Receitas) 0,0743319 *** Outras Receitas 0,9652854*** Positivo
(0,0233741) (0,1189849)
Dummy 1,400196 *** Dummy 0,0151702* Positivo
(0,3021943 ) (0,0091057)
Constante -7,488498 *** Constante 0,07897***
(0,2536174 ) (0,0151271)
Nº de observações 725 725
N° de grupos 145 145
N° mín. de obs. p/grupo 5 5
Média do resíduo -5,13e-10 1,80e-11
Continua
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Tabela 1 (continuação)
LnROAa ROEb
Variável Coeficiente Variável Coeficiente Sinal esperado
Resultados dos Testes
Teste F para modelos F (2 , 715) = 0,87 F (2 , 715) = 2,35
restritos
Teste de Hausman Chi2(05) = 2,70 Chi2(05) = 14,38*
Teste Breusch e Pagan Chibar2 (01) = Chibar2 (01) =
for Random Effects 124,70*** 266,08***
Teste de Wooldridge F(1, 144) = F(1, 144) = 2,499
para autocorrelação 0,0368**
Teste Breusch-Pagan Chi2 (1) = Chi2(1) = 22,21***
para heterocedasticidade 15,92***
Teste VIF para VIF médio = 1,69 VIF médio = 2,11
multicolinearidade
Teste Ramsey para F(3, 715) = 0,80 F(3, 714) = 1,19
especificação do modelo
Doornik-Hansen para 262,0897*** 7,7025***
normalidade
Nota. Fonte: Dados da pesquisa.
a
Estimação por FGLS para modelo com efeitos aleatórios, com correção para heterocedasticidade e autocorrelação no modelo
1 (ROA). b Estimação por FGLS com efeitos aleatórios, com correção para heterocedasticidade no modelo 2 (ROE).
O símbolo *** denota significante a 1%; ** denota significante a 5%; * denota significante a 10%; Erros-padrão robusto estão
entre parênteses.
3. Devido à presença da variável dummy nos modelos, relevante nesta pesquisa para avaliar a diferença
entre os bancos múltiplos e as cooperativas de créditos, os modelos de regressão com dados em painel
não devem ser operacionalizados por efeitos fixos. Essa limitação é apresentada por Wooldridge
(2002) ao mostrar que os modelos de efeitos fixos apresentam restrições quando se têm variáveis que
não oscilam no tempo. Assim, os resultados poderiam ser inconsistentes. Para confirmar essa
indicação, foram realizadas estimações dos modelos de regressão 1 e 2 em painel, assumindo efeitos
fixos e efeitos aleatórios. Após a aplicação do teste de Hausman para ambos os modelos, não se
rejeitou a hipótese nula de estimação dos modelos de dados em painel utilizando efeitos aleatórios
(Tabela 1).
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6. As variáveis ROA, EM, SELIC e EFI foram logaritmizadas no modelo 2 (ROE), para atender à
especificação da forma funcional pelo teste de Ramsey Reset. Já o modelo 1 (ROA), com as variáveis
em sua forma original, não rejeitou a hipótese nula do teste de Ramsey de especificação correta da
forma funcional (Tabela 1).
7. Embora o teste proposto por Doornik Hansen tenha rejeitado a hipótese nula de normalidade ao nível
de significância de 1%, por se tratar de dados em painel, optou-se por relaxar o pressuposto de
normalidade dos resíduos. No entanto, de acordo com Wooldridge (2010), se a hipótese de
normalidade dos resíduos for rejeitada, o teorema na normalidade assimptótica deve ser testado. Este
teorema exige que a hipótese de homocedasticidade seja atendida e que a média condicional do termo
de erro seja nula (ou seja, E(u|xi) = 0). Verificou-se que a média dos resíduos de ambas as equações
foi zero (Tabela 1) e que o modelo estimado por FGLS atende à hipótese de homocedasticidade, de
forma que todos os pressupostos foram validados para os modelos 1 e 2 estimados.
Seleção da amostra
Para a formação inicial dos clusters, foram selecionados os bancos múltiplos que atuam no Brasil.
Os resultados dos testes de Calinski e Harabazs e Duda-Hart (para avaliar o número de grupos indicado)
indicaram a formação de 12 clusters. Foi selecionado o agrupamento que possuía as instituições mais
similares possíveis com as cooperativas de crédito, sendo esse agrupamento composto por 19
instituições. Contudo, após esse resultado, foi realizada a análise das características de cada um dos 19
bancos, visando validar a amostra final delimitada pelo método. Nessa análise qualitativa, foram
retiradas quatro instituições da amostra (J. Safra, Rabobank Intl. Brasil, J. P. Morgan e BNP Paribas
Brasil), dada a incompatibilidade de segmentos de atuação delas com as demais selecionadas pela
técnica multivariada de análise de cluster. Restaram para a amostra final 15 instituições.
No âmbito das cooperativas, foram consideradas apenas aquelas que integram algum dos três
maiores sistemas do Brasil: Sicoob, Sicredi e Unicred. Visando manter homogeneidade entre as
cooperativas, foram excluídas da amostra as centrais que têm como principais características a
assistência e a centralização financeira, atuando como representantes do sistema (Pinheiro, 2008) e
ficando responsáveis por auxiliar a gestão das cooperativas singulares (Oliveira, Bressan, & Bressan,
2014), e as de crédito capital e empréstimo, que não realizam captação de recursos e depósitos de
associados de acordo com a Resolução n. 4.434 (2015) do Banco Central do Brasil.
Outra exclusão que ocorreu na amostra se deu em função da aplicação da metodologia DEA, a
qual possui formulações que aceitam variáveis negativas. Contudo, não há consenso na literatura quanto
à eficácia dessas formulações, pois elas podem produzir metas distantes da fronteira de produção para
as unidades ineficientes e, até, não fornecer scores para estas unidades (Cheng, Zervopoulos, & Qian,
2013). Acrescenta-se que o tratamento dos dados para incorporar variáveis negativas à metodologia
DEA pode aumentar a dimensão da fronteira, excluindo o grupo de possibilidades de produção original,
podendo não determinar as combinações Pareto eficientes (Emrouznejad, Anouze, & Thanassoulis,
2010). Optou-se também por excluir as cooperativas que apresentaram algumas das variáveis com
valores inferiores a zero para a estimação dos escores de eficiência. Com isso, a amostra foi constituída
por 130 cooperativas de crédito e 15 bancos múltiplos.
Os dados foram coletados no site do BACEN, nos relatórios de estabilidade financeira e nos
relatórios das 50 maiores instituições. Os balanços contábeis analisados foram de 31 de dezembro de
cada ano entre 2009 e 2013, correspondendo a cinco balanços analisados. Nesse sítio eletrônico, é
possível encontrar também informações sobre PIB, taxa Selic e inflação do país, configurando-se uma
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base consistente e utilizada em diversas pesquisas (C. A. G. Araújo, Goldner, Brandão, & Oliveira,
2007; Dantas et al., 2011; Laureto & Oreiro, 2010; Lima & Carvalho, 2009).
A variável empréstimos/ativo total apresentou sinal positivo e foi relevante para explicar tanto o
ROA quanto o ROE. O aumento de 1% no índice empréstimo/ativo total provoca, em média, o aumento
de 0,56% no retorno sobre o ativo, e esse mesmo aumento no índice EM gerará, em média, o aumento
de 0,0013 no índice ROE (Tabela 1). A taxa de juros cobrada para esse recurso é a principal fonte de
receitas das instituições. Esses resultados são condizentes com a literatura, uma vez que foi apontado
que empréstimos é a maior fonte geradora de receita das instituições (Dantas et al., 2011; L. A. D.
Araújo et al., 2006; Ribeiro & Tonin, 2010) e seu crescimento implicaria aumento de ativos mais
rentáveis. Porém, Esho, Kofman e Sharpe (2005) advertem que retornos advindos de empréstimos
podem ser mais rentáveis, mas oferecem maiores riscos para a instituição. Com isso, sugerem que as
instituições devem buscar maneiras de diversificar suas fontes geradoras de receitas.
A dummy tem por objetivo avaliar se existem diferenças na rentabilidade por ser um banco
múltiplo ou uma cooperativa de crédito, assumido 1 para os bancos múltiplos e 0 caso contrário. O sinal
dessa variável foi positivo, como esperado, indicando que, por ser banco múltiplo, o ROA é superior ao
das cooperativas, em média de 1,40% (Tabela 1). Analisando isoladamente o indicador ROA dos bancos
múltiplos e das cooperativas da amostra, apurou-se que essa diferença é maior, chegando ao patamar de
98,02%.
Para o modelo com a variável dependente ROE, a variável dummy não foi estatisticamente
significativa a 5%, indicando que os retornos sobre o patrimônio líquido dos bancos e cooperativas
foram estatisticamente similares na amostra pesquisada (Tabela 1). Em análise detalhada dos dados,
identificou-se que, em alguns períodos, as cooperativas tiveram o indicador ROE superior aos bancos
múltiplos. Os resultados indicam que, apesar de não visarem à maximização das sobras, as cooperativas
estão promovendo retornos sobre o patrimônio líquido similar aos dos bancos múltiplos no âmbito dessa
amostra. Nesse sentido, a opção pela maximização das sobras como uma política das cooperativas
poderia ser uma estratégia para manter uma posição de mercado, ampliar os serviços prestados ou
diversificar os produtos. Outras opções para essas sobras por parte das cooperativas seriam: aumentar o
capital de giro, aumentar os ativos não circulantes ou distribuir aos cooperados como resultado.
A variável depósitos totais/ativo total foi significativa para explicar o ROE e o ROA, com o sinal
negativo, como esperado (Tabela 1). Essa variável representa a maior parte do passivo das instituições,
refletindo diretamente no resultado da empresa. Como boa parte dos depósitos é remunerada, esses
resultados indicam que, ao aumentarem o volume de depósitos totais/ativo total, as instituições
pesquisadas tendem a aumentar o volume de recursos pagos sobre esses depósitos totais, diminuindo
sua margem e, consequentemente, o resultado dos indicadores de rentabilidade. Lee e Hsieh (2013)
mostram que a variável depósitos totais tem sua origem onerosa para as entidades, com efeitos
significativos sobre a rentabilidade, diminuindo os retornos, pelo menos em pequena escala.
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O PIB reflete o crescimento do país e possui efeitos positivos sobre a rentabilidade mensurada
pelos indicadores ROE. O retrocesso no crescimento do país pode aumentar o desemprego, restringido
o crédito e, no caso de empréstimos, aumentar as provisões para clientes duvidosos (Bolt et al., 2012).
Maior ritmo da atividade econômica tende a aumentar o volume de operações crédito. No mais, PIB
abaixo de 0,5% provocaria queda da rentabilidade sobre os ativos (Lee & Hsieh, 2013; Maudos, Pastor,
Pérez, & Quesada, 2002).
A taxa Selic representa o custo de oportunidade das instituições. Ela possui efeitos positivos sobre
o ROA e o ROE (Tabela 1). Quando elevada, afeta diretamente as taxas de juros cobradas, sendo essas
a principal fonte de receita das instituições. Com isso, seu aumento elevaria a aversão ao risco das
instituições, fazendo com que as taxas internas aumentassem (Oreiro et al., 2006). É importante salientar
que, dependendo do risco assumido pelas cooperativas, o aumento das taxas de juros promoveria a maior
restrição de crédito, o que poderia aumentar o volume de recursos empregados em outros investimentos.
Cabe destacar a possibilidade de investimentos indexados à taxa Selic, mantendo-se o volume mínimo
de recursos para o funcionamento. Consequentemente, esse tipo de aplicação, com o aumento da taxa
Selic, promoveria maiores retornos aos investidores, elevando o ROE.
Nesta subseção, traça-se um paralelo entre a rentabilidade das cooperativas de crédito e a dos
bancos múltiplos.
As cooperativas apresentaram, em média, um índice ROA inferior aos bancos. Como pode ser
observado na Figura 1, tiveram um indicador ROA inferior ao dos bancos: 96,08% em 2009, percentual
que aumentou para 103,92% em 2010, e melhoraram esse indicador. Com isso, houve redução da
diferença para 2011, chegando a 44,44%. Contudo, para o período seguinte, os bancos melhoraram sua
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rentabilidade, ao passo que as cooperativas apresentaram piora, aumentando a diferença para 136,96%,
e pioraram o indicador ROA em 2013. O mesmo ocorrendo com as cooperativas, fazendo com que a
diferença aumentasse para 139,02%.
1,20%
1,00%
0,80%
0,60%
0,40%
0,20%
0,00%
2009 2010 2011 2012 2013
20,00%
15,00%
10,00%
5,00%
0,00%
2009 2010 2011 2012 2013
As cooperativas tiveram o indicador ROE superior aos dos bancos em 4,02% em 2009. Houve
declínio nesse indicador por parte das cooperativas e melhora por parte dos bancos, revertendo a posição.
Os bancos passaram a ter superioridade de 3,99% em 2010. Para o período de 2011, esses dois grupos
de instituições tiveram resultados próximos, com uma diferença de 0,14% a favor dos bancos. Para 2012,
os dois grupos apresentaram queda neste indicador, chegando a diferença a 32,97%, novamente
favorável aos bancos, percentual que se ampliou para 46,28% em 2013.
As cooperativas tiveram um indicador ROA médio de 0,52%, valor inferior ao dos bancos, 1,03%.
Para o indicador ROE, a média das cooperativas foi de 12,49%, contra 14,10% dos bancos, que pode
ser decorrente dos menores scores de eficiência das cooperativas, já que esse é um dos fatores
determinantes para o aumento/diminuição da rentabilidade. O foco das cooperativas de crédito não está
na maximização dos resultados, mas sim em atender às demandas dos cooperados, ao contrário dos
bancos múltiplos, que visam à maximização do lucro.
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na eficiência. Os resultados estão nas Tabelas 2 e 3. A Tabela 2 mostra a estatística descritiva das
cooperativas de crédito segregadas com base na eficiência. E a Tabela 3 mostra as estatísticas descritivas
utilizadas para avaliar se os bancos múltiplos da amostra que apresentaram maior eficiência são os mais
rentáveis.
Tabela 2
ROA ROE
Eficiência Quantidade Média Mediana Desvio padrão Média Mediana Desvio padrão
100% 198 0,61% 0,51% 0,48% 13,01% 11,74% 6,48%
Entre 0,9 e 0,99 61 0,54% 0,43% 0,40% 12,46% 11,76% 7,31%
Entre 0,8 e 0,89 102 0,50% 0,45% 0,33% 12,96% 12,14% 5,44%
Entre 0,7 e 0,79 134 0,44% 0,39% 0,26% 11,97% 12,40% 4,89%
Inferior a 0,7 155 0,45% 0,39% 0,29% 11,23% 10,84% 4,83%
Tabela 3
Estatística Descritiva para Análise de Eficiência e Rentabilidade dos Bancos Múltiplos no Período
de 2009 a 2013
ROA ROE
Eficiência Quantidade Média Mediana Desvio padrão Média Mediana Desvio padrão
100% 46 4,22% 1,15% 7,40% 14,56% 10,92 11,33%
Entre 0,9 e 0,99 5 0,61% 0,355 0,71% 7,36% 4,84% 7,75%
Entre 0,8 e 0,89 7 6,07% 4,00% 6,34% 10,78% 10,75% 6,38%
Entre 0,7 e 0,79 6 0,34% 0,26% 0,26% 6,00% 4,27% 5,40%
Inferior a 0,7 11 2,34% 0,23% 4,18% 4,03% 1,73% 4,56%
Como mostra a Tabela 3, os bancos múltiplos com eficiência de 100% apresentaram, em média,
um indicador ROA de 4,22%. Esse resultado foi 44,54% superior ao grupo de bancos com escore inferior
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a 70%, que teve a média do ROA de 2,34%. Contudo, no âmbito da amostra de bancos analisada, as
instituições com eficiência entre 80% e 89% foram aquelas que apresentaram maior rentabilidade,
medida pelo indicador ROA (6,07%). Os bancos com eficiência entre 90% e 99% apresentaram a
segunda pior média de rentabilidade, com ROA de 0,61%. Analisando-se o índice de rentabilidade ROE,
a maior média foi para o grupo de instituições com escore de eficiência de 100%, com indicador de
14,56%. Já a pior média de rentabilidade medida pelo indicador ROE foi para o grupo de instituições
com eficiência inferior a 70%, com o indicador médio de 4,03%.
Em análise mais detalhada dos bancos estudados, identificou-se que as instituições com eficiência
inferior a 70% apresentaram menor volume médio em empréstimos totais/ativo total (6,24%),
comparado ao grupo com eficiência de 100% (13,09%). Outros dados mostraram, ainda, que esse grupo
de instituições possui maior volume médio em despesas totais/ativos, comparado com os demais grupos.
Foi possível identificar ainda que o grupo de bancos com eficiência entre 90% e 99% teve o menor
volume em depósitos totais/ativos totais e despesas totais/ativos totais em relação aos demais.
Com base nesses resultados, é possível inferir que, para o grupo de cooperativas pesquisadas, as
instituições com eficiência de 100% apresentaram as maiores médias de rentabilidade mensuradas pelos
indicadores ROA e ROE. Esses resultados são condizentes com as colocações de Thanassoulis (1999),
Portela e Thanassoulis (2007) de que a maximização da eficiência promoveria o aumento da
rentabilidade. Já para os bancos, os estudos divergem quanto a essas colocações.
Este estudo buscou analisar os fatores que influenciam a rentabilidade das cooperativas de crédito
e dos bancos múltiplos que atuaram no Brasil no período de 2009 a 2013. Para o cálculo e a análise da
eficiência, adotou-se a metodologia DEA, com o modelo orientado a produto. Já para a análise dos
fatores que influenciam a rentabilidade, utilizou-se a análise de regressão com dados em painel. Para a
comparabilidade entre os bancos múltiplos e as cooperativas, selecionou-se, com apoio no método de
cluster, seguido de uma avaliação qualitativa, os bancos múltiplos que possuíam características as mais
próximas possíveis das cooperativas de crédito brasileiras.
A literatura revela que tanto para as cooperativas de crédito quanto para os bancos utilizam-se os
indicadores ROA e ROE para mensurar a rentabilidade, mesmo reconhecendo que a cooperativa de
crédito possui função-objetivo distinta. Ou seja, os bancos visam ao lucro dos acionistas e as
cooperativas, ao atendimento das necessidades de crédito/investimento dos cooperados. Os resultados
mostraram que a rentabilidade sobre o ativo é influenciada pelas variáveis: depósitos totais/ ativo total,
empréstimos/ativo total, outras receitas/ativo total, despesas totais/ativos total, eficiência e taxa Selic.
Já a rentabilidade sobre o patrimônio líquido é influenciada por: depósitos totais/ativo total,
empréstimos/ ativo total, taxa Selic, PIB, inflação, despesas totais/ativo total e outras receitas.
Foi identificado ainda, como esperado, que existe diferença de rentabilidade entre os bancos
múltiplos e as cooperativas de crédito pesquisadas, quando mensurada pelo ROA. Os resultados
apontaram uma diferença média de 1,39% a favor dos bancos. Então, traçando-se um paralelo entre os
dois grupos de instituições, constatou-se que as cooperativas apresentaram uma média de 0,52% para
este indicador, contra 1,03% dos bancos.
Os resultados apontaram ainda que a variável dummy, que busca captar diferenças entre bancos
múltiplos e cooperativas, não foi estatisticamente significativa, indicando que o retorno sobre o
patrimônio líquido é similar para essas instituições na amostra e no período pesquisado. Porém, ao
considerar o indicador ROA, constatou-se que existe uma diferença positiva e estatisticamente
significante favorável aos bancos.
O nível da taxa Selic afeta diretamente as taxas de juros cobradas, sendo estas a principal fonte
de receita das instituições. O sinal positivo reflete a influência de aplicações de recursos indexados a
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essa taxa, mantendo-se o volume mínimo de recursos para o funcionamento e reduzindo-se o volume de
investimentos em ativos fixos. Consequentemente, aumentos da taxa Selic tendem a gerar maiores
retornos aos investidores, elevando o ROE e o ROA na amostra analisada.
Não obstante esta pesquisa ter realizado um paralelo da rentabilidade de forma limitada,
considerando uma amostra de cooperativas de crédito e de instituições bancárias no período de 2009 a
2013, é importante salientar alguns pontos referentes a suas diferenças.
Segundo, a diversidade dentro do segmento de bancos múltiplos, seja quanto ao porte (grande,
médio, pequeno e micro), ao tipo de controle (estrangeiro, nacional ou misto) ou à diversificação de
clientela. Tendo em vista tal diversidade, o estudo utilizou uma amostra de instituições que atuassem de
forma o mais próxima da realidade das cooperativas. As grandes instituições, mais comuns no mercado,
possuem um vasto leque de produtos e serviços, além de atuarem em todos estados do país e em outros
países. Esse grupo de instituições possui realidades bem diferentes das cooperativas, principalmente em
tamanho (volume de ativos) e abrangência. Existem também os bancos filiados às montadoras, que têm
foco específico no mercado, não atendendo à população em geral.
As sugestões para realização de pesquisas futuras aqui formuladas são derivadas dos resultados
do estudo. Primeiro, trabalhar a segmentação das instituições financeiras que atuam no Brasil,
permitindo realizar um comparativo entre os diferentes grupos que atuam no Sistema Financeiro
Nacional.
Segundo, usar métricas de retorno alternativas ao ROE e ROA, tais como, medidas de valor
adicionado (por exemplo, EVA®), que tomem por base o conceito de lucro econômico, ou seja, que
considerem a inclusão do custo de oportunidade do capital próprio de bancos e cooperativas na avaliação
do desempenho. O desafio da utilização de tais medidas reside no fato de que elas precisam de critérios,
ou proxies, para determinar a proporção do capital alocado para operações de crédito, investimento e
outras decisões operacionais (tais como, fundos de reserva legal e de assistência técnica, educacional e
social, previstos na Lei n. 5.764 (1971) para o caso das cooperativas), além da correlação entre as
contribuições de cada uma das unidades de negócio dessas instituições. A esse respeito, Kimball (1998)
destaca alguns procedimentos que podem ser utilizados, os quais permitem ajustar métricas de valor
adicionado às características operacionais e ao perfil da gestão de recursos de bancos e cooperativas, de
tal modo que seja possível identificar como cada uma das atividades gera valor para os acionistas e
cooperados, ao isolar o resultado econômico e o custo associado a cada atividade. No entanto, o autor
destaca que essa tarefa é complexa, uma vez que é necessário considerar as interseções no processo de
alocação de capital, fazendo com que o conceito de lucro econômico/valor adicionado tenha de ser
captado por mais de uma métrica.
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