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O Trunfo da Bissetriz Externa

O documento discute propriedades das bissetrizes em triângulos, incluindo a relação entre bissetrizes internas e externas e a localização do ex-incentro. Vários problemas matemáticos são apresentados, demonstrando aplicações práticas dessas propriedades. Além disso, o texto introduz o 'truque da cotangente' como uma técnica útil em problemas de geometria.

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O Trunfo da Bissetriz Externa

O documento discute propriedades das bissetrizes em triângulos, incluindo a relação entre bissetrizes internas e externas e a localização do ex-incentro. Vários problemas matemáticos são apresentados, demonstrando aplicações práticas dessas propriedades. Além disso, o texto introduz o 'truque da cotangente' como uma técnica útil em problemas de geometria.

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Número 7 Maio/Junho 2007

F
• O TRUQUE DA BISSETRIZ EXTERNA • b
Ab
Samuel Barbosa Feitosa
bE

O que uma bissetriz tem de especial além de dividir algum b b


ângulo ao meio? Já sei (você deve ter pensado): todos os B H C
pontos de uma bissetriz estão a igual distância dos lados
do ângulo correspondente. Em termos mais formais, a bis-
setriz é o lugar geométrico dos pontos que eqüidistam dos
Problema 2 (Leningrado 1990). As bissetrizes internas
lados do ângulo. Sabendo disso, podemos tirar conclusões
AF , BG, e CH do triângulo ABC são desenhadas. Sabe-
bem interessantes; por exemplo, dado um triângulo ABC,
mos que ∠A = 120◦ . Prove que o ângulo ∠GF H é um
seja IA o ponto de encontro das bissetrizes dos ângulos
ângulo reto.
externos em B e em C.
Prova. Como ∠DAG = 60◦ = ∠F AG, temos que AG é
bissetriz externa do ângulo BAF do triângulo ABF . Como
B BG é a bissetriz interna do ângulo ∠ABF desse triângulo,
b
t temos que G é o ex-incentro relativo a B, de modo que F G
IA é a bissetriz externa do ângulo ∠AF C. Logo, ∠AF G =
s ∠GF C = x. Analogamente, ∠AF H = ∠HF B = y. Mas
2x + 2y = 180◦ , daı́ ∠HF G = x + y = 90◦ .
r

b b D
b
A C
Ab
G
Sendo r, s e t as distâncias de IA aos lados do triângulo H b
b
ABC (como na figura acima), segue de s = r e t = s que
t = r, ou seja, IA está sobre a bissetriz interna de ∠BAC.
b b b
Acabamos então de provar que as bissetrizes dos ângulos
B F C
externos (que chamaremos daqui em diante de bissetrizes
externas) em B e em C de um triângulo ABC e a interna
do ângulo A do mesmo concorrem em um ponto, o famoso
ex-incentro relativo a A. Vamos aos problemas! A recı́proca desse problema também é verdadeira! E já
apareceu na USAMO!
Problema 1 (Torneio das Cidades 1985). Num triângulo
acutângulo ABC, AH é uma altura (H está sobre BC) e Problema 3 (USAMO 1987). Os pés das bissetrizes do
BE é uma bissetriz (E está sobre AC). Sabemos que o ângulos do triângulo ABC formam um triângulo retângulo.
ângulo ∠BEA é igual a 45◦ . Prove que o ângulo ∠EHC Se o ângulo reto é em X, onde AX é a bissetriz interna rel-
é igual a 45◦ . ativa a A, encontre todos os possı́veis valores para o ângulo
∠A.
Prova. Seja α = ∠ABE = ∠EBH. Como ∠BAH =
Solução. Sejam BY e CZ as outras bissetrizes, ∠ZXA =
90◦ − 2α e ∠ABE = α, calculando a soma dos ângulos do
m e Y XC = n. Então ∠AXY = 90◦ − m e ∠BXZ =
triângulo ABE obtemos ∠HAE = 45◦ +α. Por outro lado,
90◦ − n. Pelo teorema da ceviana qualquer (veja o final do
pelo teorema do ângulo externo, temos ∠F AE = 45◦ + α.
próximo artigo), temos
Assim, no triângulo ABH, BE é uma bissetriz interna e
AE é uma bissetriz externa, logo HE é a bissetriz externa BZ BX · sen (90◦ − n) BX · cos n
do ângulo ∠AHE. Então ∠EHC = 45◦ . = =
ZA AX · sen m AX · sen m

[Link]/sigma 1 [Link]@[Link]
e Então, sem mais delongas vamos à mesma.
CY CX · sen n CX · sen n
= = .
YA AX · sen (90◦ − m) AX · cos m “Truque da cotangente”. Sendo α + β = γ + δ = S,
Dividindo membro a membro as duas relações acima, obte- com sen S 6= 0, e sen α/ sen β = sen γ/ sen δ, e α, β, γ, δ
mos pertencentes a um intervalo em que a cotangente é injetiva
BZ Y A BX cos n · cos m (por exemplo (0, π)), podemos concluir que
· = · .
ZA CY CX sen m · sen n
Por outro lado, sabemos pelo Teorema de Ceva que α = γ e β = δ.

BZ Y A CX Prova. Fazendo α = S − β e γ = S − δ, temos


· · = 1,
ZA CY BX sen (S − β) sen (S − δ)
= .
de maneira que cos n · cos m = sen m · sen n, e daı́ sen β sen δ
cos (m + n) = 0. Como 0 < m + n < 270◦ , a única possi-
bilidade é m + n = 90◦ . Conseqüentemente, no triângulo Aplicando a fórmula de adição de arcos sen (A − B) =
AXB, Y X é bissetriz externa e BY é bissetriz interna. sen A · cos B − cos A · sen B a ambos os membros da igual-
Assim, AY é bissetriz externa do ângulo ∠BAX, donde dade acima, obtemos
segue que 3∠XAC = 180◦ , i.e., BAC = 120◦ .
sen S · ctg β − cos S = sen S · ctg γ − cos S,
Problema 4 (OBM 2005). A medida do ângulo B de um
triângulo ABC é 120◦ . Sejam M um ponto sobre o lado e daı́ sen S · ctg β = sen S · ctg γ. Mas como sen S 6=
AC e K um ponto sobre o prolongamento do lado AB, 0, segue que ctg β = ctg γ, e a injetividade da função
tais que BM é a bissetriz interna do ângulo ∠ABC e cotangente no intervalo sob consideração garante que β =
CK é a bissetriz externa correspondente ao ângulo ∠ACB. γ. Por fim, a hipótese α + β = γ + δ nos dá α = δ.
O segmento M K intersecta BC no ponto P . Prove que Vale ressaltar que, apesar do nome legal, esse lema
∠AP M = 30◦ . trigonométrico não é um pedaço de conhecimento clássico
Problema 5. No triângulo △ABC, ∠A = 27◦ e ∠B = como o teorema de Pitágoras, i.e., de uso já consagrado.
42◦ . Sobre o lado AB o ponto D é marcado de modo que Então, se você não quer depender da sorte de seu prob-
∠ACD = 69◦ e sobre o lado AC o ponto K é marcado de lema esbarrar em um corretor que tenha a boa vontade
modo que DK seja paralela a BC. Calcule as medidas do de aceitar que você sabe provar o lema (o que é uma es-
ângulos ∠CBK e ∠ABK. colha bem arriscada!), aconselho que você prove o resul-
tado quando for usá-lo.
Problema 6 (Bielo-Rússia 1996). No ângulo ∠AOB, um Ponhamos o truque da cotangente em prática:
ponto R é escolhido sobre o lado OB e os pontos P e R são
Problema 1 (Estônia 2000). Em um triangulo ABC, temos
marcados sobre o lado AO de modo que ∠ORP = ∠BRQ.
AC 6= BC. Tome um ponto X no interior de ABC e sejam
Seja T o ponto de interseção de OB e da bissetriz de RP A.
α = ∠A, β = ∠B, φ = ∠ACX e ψ = ∠BCX. Prove que
Prove que a reta QT é a bissetriz do ângulo ∠RQA.
sen α · sen β sen φ · sen ψ
=
Referências sen (α − β) sen (φ − ψ)

[1] P. Taylor. Tournament of the Towns 1984-1989. se e somente se X está na mediana de ABC traçada a
AMT, Canberra (1992). partir de C.

[2] D. Fomin e A. Kirichenko. Leningrad Mathemati- Prova. Seguindo a relação dada, provaremos que os
cal Olympiads 1987-1991. MathPro Press, Westford ângulos formados pela mediana partindo de C dividem o
(1994). ∠C nos mesmos ângulos em que CX divide o ângulo C.
Primeiro, melhoremos a relação dada, partindo da versão
equivalente
• O TRUQUE DA COTANGENTE • sen (α − β) sen (φ − ψ)
Régis Prado Barbosa = .
sen α · sen β sen φ · sen ψ
Aplicando a formula para o seno da diferença a ambos
os membros da relação acima, obtemos ctg β − ctg α =
Em alguns problemas de geometria resolvidos trigonome- ctg ψ − ctg φ, ou ainda
tricamente, quando se tenta provar que certos ângulos
são iguais vem a calhar a técnica que intitula esse artigo. ctg β + ctg φ = ctg α + ctg ψ.

[Link]/sigma 2 [Link]@[Link]
Escrevendo agora ctg = cos / sen e efetuando a soma de Problema 2 (Canada 2000). Seja ABCD um quadrilátero
frações em cada um dos membros dessa relação, segue que tal que ∠CBD = 2∠ADB, ∠ABD = 2∠CDB e AB =
a relação do enunciado é equivalente a CB. Prove que AD = CD.
sen (β + φ) sen (α + ψ) Problema 3 (APMO 2000). No triangulo ABC, AM é me-
= .
sen β · sen φ sen α · sen ψ diana e AN é bissetriz. Trace a perpendicular a AN por
Mas como α + β + ψ + φ = 180◦ (a soma dos ângulos N , cortando as retas AM e AB em Q e P , respectiva-
do triângulo ABC), temos que os senos dos numeradores mente. Seja O o ponto de encontro da perpendicular a AB
das frações acima são iguais. Portanto, após cancelá-los por P com AN . Prove que QO é perpendicular a BC.
concluı́mos que a relação do enunciado equivale a Problema 4 (Taiwan 2000). No triângulo acutângulo
sen α sen φ ABC, AC > BC e M é o ponto médio de AB. As al-
= . (1)
sen β sen ψ turas AP e BQ se intersectam em H e as retas AB e P Q
em R. Prove que RM e CM são perpendiculares.
Mostremos agora que, sendo M o ponto médio de AB e
φ′ = ∠ACM , ψ ′ = ∠BCM , temos Problema 5 (Seleção da Romênia para IMO 2006). O
sen α sen φ ′ cı́rculo de centro I é inscrito no quadrilátero convexo
= . (2) ABCD. M e N são pontos sobre os segmentos AI e CI,
sen β sen ψ ′
respectivamente, tais que ∠M BN = 21 ∠ABC. Prove que
Pelo teorema da Ceviana qualquer, segue que ∠M DN = 12 ∠ADC.
AM AC · sen φ′
= ; Problema 6 (IMO 2007). Sejam A, B, C, D e E pontos no
BM BC · sen ψ ′
plano, tais que ABCD é um paralelogramo e BCED é um
BC sen φ′ quadrilátero cı́clico. Seja l uma reta passando por A, e
como AM = BM , obtemos então = . Mas pela
AC sen ψ ′ suponha que l intersecta o interior do segmento DC em F
BC sen α e a reta BC em G. Se EF = EG = EC, prove que l é a
lei dos senos, = , e nada mais há a fazer.
AC sen β bissetriz do ângulo ∠DAB.
Assim, se X pertence à mediana, então φ = φ′ e ψ = ψ ′ ,
donde (2) garante a validade de (1). Reciprocamente, se
vale a igualdade do enunciado, i.e., se vale (1), então segue
de (2) que
sen φ sen φ′ • DICAS DE LIVROS •
= .
sen ψ sen ψ ′
Mas como φ + ψ = φ′ + ψ ′ = ∠C, o truque da cotangente
garante que φ = φ′ , donde X está sobre a mediana relativa The Math Problems Notebook, de Valentin Boju e Louis
a C. Funar.
A fim de deixar a exposição mais autocontida, e aprovei-
tando para falar de mais coisas legais, usamos na prova O livro contém problemas de diversos jornais e
acima o terema da Ceviana qualquer, resultado que em si olimpı́adas ao redor do mundo. A qualidade dos pro-
é muito útil. Assim, vou enunciá-lo mais claramente: blemas propostos é impressionante.
Teorema 1. Dado um triângulo ABC, se uma ceviana Treinamento Cone Sul 2007, de Bruno Holanda, Carlos
qualquer traçada por C intersecta o lado AB em D, então Augusto Ribeiro, Samuel Barbosa e Yuri Lima.
AD AC · sen (∠ACD)
= .
BD BC · sen (∠BCD) O livro contém o material usado no treinamento da
equipe do Brasil para a olimpı́ada do Cone Sul de
A prova é bem simples e um bom exercı́cio para
2007. Os problemas de todas as listas aparecem re-
o leitor adquirir prática e agilidade com manipulacões
solvidos e com indicações de problemas relacionados.
trigonométricas.
Por outro lado, uma aplicação imediata desse teorema
é a dedução da forma trigonométrica do teorema de Ceva,
i.e., uma relação trigonométrica que expressa a condição
de concorrência de três cevianas, traçadas uma a partir de • FÓRUM DE PROBLEMAΣ •
cada vértice, apenas em função dos ângulos formados pelas
mesmas com os lados do triângulo; esse também é um bom
exercı́cio.
Vamos Trabalhar... Soluções

[Link]/sigma 3 [Link]@[Link]
A31. O conjunto dos inteiros positivos é particionado em Problemas Avançados
k progressões aritméticas infinitas e não-constantes.
Prove que a soma dos inversos das razões dessas A34. (OCM 2007). Seja β ≥ 2 um número inteiro e 0 ≤
progressões é sempre igual a 1. x ≤ 1. Prove que
β
Solução. (Antonio Caminha). Sejam a1 , . . . , am re- (1 + x)β + (1 − x)β ≤ 2(1 + x β−1 )β−1 .
spectivamente os termos iniciais das progressões de
razões d1 , d2 , . . . , dm e, para 0 < x < 1, A35. (OCM 2007). São dados uma reta r, um ponto P
fora da reta e uma circunferência contida no plano de
f (x) = x + x2 + x3 + x4 + · · · . P e r. Construa, usando apenas régua sem marcas,
a reta por P paralela a r (descreva os passos da con-
Pela hipótese do problema temos que strução).
f (x) = f1 (x) + · · · + fm (x), A36. (OCM 2007). Seja A = {a1 = 0, a2 , a3 , . . .} um
conjunto de inteiros não negativos tal que todo in-
onde fj (x) = xaj + xaj +dj + xaj +2dj + · · · . Segue daı́ teiro é soma de h elementos de A, não necessaria-
que mente distintos. Prove que existe uma constante pos-
x Xm
xaj
= , itiva α satisfazendo a seguinte condição: se A(n) é
1 − x j=1 1 − xdj o número de elementos de A menores ou iguais a n,
1
então A(n) ≥ αn h .
ou ainda, para 0 < x < 1,
A37. Prove que existe um natural n tal que a repre-
X
m
xaj
x= . sentação decimal de n2 começa ( da esquerda para
j=1
1 + x + · · · + xdj −1 a direita ) com o número 200720072007...2007 ( 2007
vezes).
Como ambos os membros dessa igualdade são funções
contı́nuas em [0, 1], segue que a igualdade acima ainda A38. (Rússia). São dados 100 pontos no plano. Mostre
é verdadeira para x = 1. Fazendo x = 1 obtemos que podemos cobrir esses pontos com alguns cı́rculos
disjuntos, de tal maneira que a soma dos diâmetros
1 1 1 dos mesmos seja menor que 100 e a distância entre
1= + + ··· + .
d1 d2 dm quaisquer dois deles seja maior que 1.

A39. (URSS 1988). A sequência de inteiros an é dada


por a0 = 0, an = P (an−1 ), onde p(x) é um polinômio
Problemas Iniciantes cujos coeficientes são inteiros positivos. Mostre que,
para quaisquer inteiros positivos m e k com máximo
I26. (Rússia 2007). Se a, b, c são números reais, mostre divisor comum d, o máximo divsor comum de am e ak
pelo menos uma das equações x2 +(a−b)x+(b−c) = 0, é ad .
x2 + (b − c)x + (c − a) = 0, x2 + (c − a)x + (a − b) = 0
tem uma solução real.
I27. (Rússia 2007). Para um inteiro positivo n > 3, de- Editores Resposáveis:
note por n? o produto de todos os números primos Antonio Caminha Muniz Neto
menores que n. Resolva a equação n? = 2n + 16. Francisco Bruno L. Holanda
Samuel Barbosa Feitosa
I28. (Bielo-Rússia 2007). Dado o quadrilátero ABCD
com ∠CAD = 45◦ , ∠BAC = ∠BCA = 15◦ , encon- As soluções para os problemas dos arti-
tre o valor de ∠DBC. gos e do fórum podem ser enviadas para o
I29 (Bielo-Rússia 2007). Cada ponto de um cı́rculo é pin- e-mail [Link]@[Link] ou direta-
tado de preto ou branco. mente pelo o correio para:
Bruno Holanda
a) Prove que existe um triângulo isósceles inscrito Rua Neudélia Monte 440
neste cı́rculo de modo que todos os seus vértices 60833-420 Fortaleza-CE
estão pintados da mesma cor.
b) Existe um triângulo equilátero inscrito no cı́rculo
de modo que todos os seus vértices estejam pin-
tados da mesma cor?

[Link]/sigma 4 [Link]@[Link]

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