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Estudo de Caso: Rafael e a Raiva na Terapia

Rafael, um homem cis e homossexual de 41 anos, busca terapia devido ao aumento de estresse e raiva, resultantes de uma infância difícil e preconceitos enfrentados na adolescência. Ele relata dificuldades em lidar com a raiva em diversas situações, incluindo no trabalho e em casa, afetando seu relacionamento com o marido e os filhos. Rafael espera que a terapia o ajude a gerenciar suas emoções e melhorar suas relações familiares e sociais.

Enviado por

Laís Gebara
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Estudo de Caso: Rafael e a Raiva na Terapia

Rafael, um homem cis e homossexual de 41 anos, busca terapia devido ao aumento de estresse e raiva, resultantes de uma infância difícil e preconceitos enfrentados na adolescência. Ele relata dificuldades em lidar com a raiva em diversas situações, incluindo no trabalho e em casa, afetando seu relacionamento com o marido e os filhos. Rafael espera que a terapia o ajude a gerenciar suas emoções e melhorar suas relações familiares e sociais.

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, CIÊNCIAS E LETRAS DE RIBEIRÃO PRETO


TEORIAS E PRÁTICAS EM PSICOLOGIA CLÍNICA: ABORDAGEM
COGNITIVO-COMPORTAMENTAL
Docente: Profa. Dra. Carmem Beatriz Neufeld
Docente colaboradora: Dra. Fabiana Maris Versutti
Monitoras: Dnda. Myrian Silveira, Dnda. Juliana Maltoni, Me. Isabela Rebessi, Me.
Beatriz Lobo, Me. Fernanda Esteves, Me. Isabella Wada, Mnda. Camila Amorim, Mnd
Alessandra Rezende, Psic. Eloha e Psic, Mariana Risso.

Estudo de caso Rafael

Rafael tem 41 anos e mora com seu marido (Bruno) e seus dois filhos (Lucas e
Matheus) em uma cidade de médio porte no estado de São Paulo. Ele se identifica como
homem cis e homossexual. Procurou a terapia em meados de janeiro deste ano, pois estava
se percebendo mais estressado e com raiva com bastante frequência.
Em relação a história de vida, Rafael nasceu e cresceu na zona rural de uma
cidadezinha pequena no interior de São Paulo, contando com apenas 5 mil habitantes.
Seus pais foram lavradores de colheita de café e de corte de cana de açúcar e estudaram
até a 3ª série do ensino fundamental. Rafael é o filho caçula e tem dois irmãos mais velhos.
Relata que a infância foi muito difícil, seus pais eram muito rígidos, não deixavam os
filhos sair de casa e que primeiro era a obrigação e depois a diversão.
No entanto, Rafael conta que os pais não tinham muita paciência para ensinar as
tarefas da escola e que sempre acabava ficando de castigo quando não sabia resolver a
lição de casa: “Meus pais sempre prezaram muito pelos estudos, que os filhos venceriam
na vida por esse caminho, mas não conseguiam ajudar muito a gente, porque só
estudaram até a 3ª série, mas como eles eram muito rígidos, se caso eu não soubesse
fazer uma tarefa de casa, meus pais falavam que eu deveria saber fazer a tarefa, pois eu
tirava o tempo só para estudar, então, eu sempre pensei que eu tinha que saber de tudo
mesmo, caso não soubesse, eu seria um fracasso... aí eu parei de mostrar as notas para
os meus pais”.
Rafael conta de um episódio da época de escola: “Teve uma vez que eu cheguei
da escola todo feliz com a minha prova de matemática na mão, porque eu tinha tirado
um 9,5 na matéria e fui mostrar para os meus pais e eles disseram que eu não tinha feito
mais que a minha obrigação e que na verdade, eu tinha que ter tirado um 10. Eu fiquei
tão frustrado que eu até pensei em fugir de casa, porque naquela casa ninguém me
valorizava. Na adolescência foi quando eu comecei a entender que ali não era o meu
lugar. Por volta dos meus 15 para 16 anos, percebi que eu era diferente, porque embora
eu já desconfiasse e estivesse confuso, eu já estava tendo mais certeza que eu era
homossexual... Eu tentei esconder ao máximo dos meus pais, porque eu sabia que eu seria
muito julgado, mas como a cidade era pequena, não demorou muito para começarem a
falar de mim, do meu jeito e aí caiu nos ouvidos dos meus pais e eu fui bastante
humilhado. Falavam que eu era a vergonha da família, que eles não ralaram tanto na
vida para ter um filho desvirtuado. Por mais que eu tentava ser discreto, sempre
acabavam me chamando de nomes feios, nada que eu fazia amenizava a minha situação”.
Na escola e mais especificamente no ensino médio, também foi uma situação
complicada para Rafael: “Quando eu estava no ensino médio e todo mundo soube que eu
era homossexual foi bem complicado, porque eu não encontrava muito acolhimento ali,
pois como a cidade era pequena todo mundo julgava muito, não tinha muitos amigos
homens, porque aconselhavam os meninos a não serem meus amigos... eu tinha apenas
algumas amigas e eu sentia que eu era a chacota da cidade. Por um tempo, eu guardei
todo meu sentimento de frustração, de estranhamento, de injustiça, mas depois comecei
a sentir raiva e cada vez que alguém da minha família ou da escola me insultavam o
sangue subia, meu coração acelerava, minha visão ficava turva e eu ia ficando com
tontura e quando eu menos percebia, eu já estava tendo um crise de raiva, gritando com
todo mundo, apontando o dedo na cara... mas tinha vezes que eu só guardava para mim
e ficava ruminando a situação, pensando em mil cenários e cosias que eu poderia ter
feito e dito... Esses dias até perdi o sono revivendo situações, o que tem acontecido com
bastante frequência, pois fico pensando sobre o meu chefe me chamando de caipira,
sobre ficar duvidando da minha inteligência...”
Rafael conta que durante muito tempo pegava o ônibus para ir à escola na cidade
e que gostava muito de estudar. Foi devido aos estudos que encontrou resiliência para
enfrentar o preconceito dos pais, pois sonhava em sair de casa e fazer faculdade. Relata
que durante a graduação em Publicidade e Propaganda encontrou muitos amigos e
acolhimento, tudo que não tinha durante a adolescência.
No entanto, as coisas voltaram a ficar difíceis quando decidiu trabalhar no atual
emprego em que seu chefe emite comportamentos desrespeitosos com Rafael. Em uma
reunião de trabalho, por exemplo, Rafael conta que sentiu seu sangue ferver, o coração
ficou acelerado e com vontade de gritar: “Eu queria simplesmente esganar o meu chefe,
porque eu estava apresentando um projeto sobre estratégias de captação de clientes para
toda a equipe e do nada ele começou a corrigir o modo como eu falava, por exemplo, que
eu estava puxando muito o “r” quando eu falava “porque”, e isso foi me deixando
irritado e depois falou que para um caipira até que eu apresentava bem. Eu quase morri
de vergonha, porque todo mundo começou a rir e o sangue foi subindo e minha vontade
era de voar no pescoço dele, mas como preciso ter o emprego, sai da sala e fiquei
remoendo toda aquela situação... meus colegas até me falaram que eu parecia mais
agitado e que eu estava vermelho. Maldito o dia que ele descobriu que eu era da roça!”.
Rafael ainda complementa dizendo sobre outra situação: “Esses dias, tive que
escrever um e-mail para ele a respeito de trabalho e ele retornou perguntando se era eu
mesmo que tinha escrito, pois estava muito bem escrito dando um sentido que quem vem
da roça não sabe escrever. Eu fiquei com tanta raiva, porque não era possível que ele
poderia estar escrevendo algo tão velado. Agora toda vez que vou escrever um e-mail
para o meu chefe começo a ficar agitado, ansioso e fico adiando mandar o e-mail, porque
eu sei que ele vai em insultar. Parece que esse tipo de perseguição só acontece comigo...
Além disso, teve outra situação que me deixou com raiva foi quando ele pediu para ficar
até mais tarde no trabalho, porque um colega faltou e que a demanda de trabalho estava
alta e que precisávamos estar em um ritmo mais acelerado... na hora eu pensei: ah
pronto, tinha que pedir somente para mim, isso só pode ser perseguição... e já fiquei
irritado e nem consegui mais me concentrar direito no trabalho, aí aquele dia acabou
pra mim, tive umas crises de raiva e até dei má resposta para um colega de trabalho”.
O psicólogo também questionou Rafael se ele estava se percebendo mais irritado
somente nas situações de trabalho ou se isso se estendia para outras situações da vida dele
e Rafael comenta: “Então, acho que tem me afetado de maneira geral, porque esses dias
meu carro quebrou do nada. Resolvi ligar para o meu mecânico de confiança e ele não
pôde me socorrer naquele momento, porque tinha uma outra emergência...” Rafael
suspirou e continuou: “Olha, naquele momento, pensei que ele não queria me socorrer
e aí já respondi de maneira meio grossa pra ele, dizendo que não precisava mais e que
eu iria procurar outro mecânico... que tinha perdido um cliente, que eu nunca podia
contar com ele mesmo...mas depois que passou eu fiquei com vergonha de mim... e agora
não sei nem mais como ligar pra ele caso eu precise... esses dias vi ele na rua e ele até
disfarçou... acho que ele deve estar com raiva de mim.”
Outra situação que Rafael traz sobre os momentos de raiva é em relação aos filhos:
“Uma coisa que eu percebi também é a dificuldade de lidar com meus filhos... Lá em
casa está uma briga por causa de celular... Eu dei um celular para o Matheus que tem
11 anos, mas o Lucas, de 4 anos, monopolizou o celular do Matheus... aí quando o
Matheus pega o celular para assistir algo ou para jogar, o Lucas não deixa, apronta uma
birra. Aí começa a briga e eu acabei pegando o celular da mão do Matheus e entrei para
o Lucas, porque eu não estava mais com paciência para essa situação. Meu marido, o
Bruno, até tentou interferir e mediar a situação, mas como eu já estava sem paciência só
falei: quem manda aqui sou eu, então, eu que vou decidir quem brinca e quem não brinca
com o celular. Depois que eu me acalmei, meu marido até tentou conversar comigo
dizendo que eu sempre tomo o partido do Lucas e que o Matheus fica chateado quando
isso acontece... eu fiquei estressado na hora e acabamos discutindo... foi chato a
situação”.
Aproveitando o gancho que o Rafael mencionou sobre o relacionamento com o
marido, o psicólogo perguntou com essas situações interferiam na relação do casal: “Ah,
bastante, porque já tivemos várias discussões devido a esse meu jeito... Teve uma vez que
eu dei de presente um carro pra ele, pois não queria que ele dependesse tanto de mim
para leva-lo nos lugares, mas aí teve um dia que ele me ligou dizendo que ia em um happy
hour com os amigos depois do trabalho... na hora subiu o sangue, coração disparou,
porque eu ia ter que cuidar das crianças sozinho... o que eu fiz? Vendi o carro dele... e
depois me arrependi, porque em um momento de impulso fiz a coisa errada, pois depois
que passa a raiva eu fico pensando que eu só faço a cosia errada sempre”.
O psicólogo percebeu que Rafael ficou mais agitado nesse momento, com os olhos
e a face avermelhada e respiração mais ofegante e pesada. O psicólogo pontuou essa
questão com Rafael e ele desabafou dizendo: “Lembrar de algumas coisas relacionado
ao meu marido me fez lembrar da minha sogra. Desde quando conheci o Bruno, eu sinto
que ela não gosta de mim”. O psicólogo: “O que te faz pensar que ela não gosta de você?”
Ah, o Bruno sempre foi mimado pela mãe e é como se eu tivesse roubando o reizinho da
casa. Ela só sabe me criticar, fala que minhas roupas não são estilosas iguais a do
Bruno... eu fico irritado quando ela fala isso, me sinto desvalorizado, como se eu ainda
fosse aquele menino da roça e quando me sinto assim, eu costumo evitar de ir à casa dela
ou fico quieto no meu canto pensando em mil coisas ao mesmo tempo, que eu devo mesmo
ser brega. Além disso, o Bruno não fala nada quando eu converso com ele para falar que
a não gosto que a mãe dele fica falando das minhas roupas, mas aí ele fala que é coisa
da minha cabeça... que a mãe dele fala brincando... eu fico com raiva e quando fico
assim, eu quero sumir, sair correndo. Tem vezes que desconto na bebida, fico bebendo
vinho só para não ter que ficar lembrado que as pessoas são críticas e maldosas. Eu fico
me sentindo inadequado em diversas reuniões de família... Parece que sou julgado o
tempo todo, sabe? Eu não consigo agradar as pessoas nunca...”
Rafael conta que sua vida amorosa não foi fácil: “Ah, antes de namorar e casar
com o Bruno, eu tive um outro relacionamento que me fez muito bem, mas também me
fez muito mal. Ele me largou um dia do nada, ele não falou o motivo... só disse que não
estava bem com ele mesmo. Ele deve ter me deixado porque na época eu estava
começando a ficar calvo e não estava me cuidando tanto na academia... acho que ele
quis encontrar alguém mais bonito do que eu... eu fiquei arrasado, corri atrás dele, mas
ele nem quis saber de mim... mas teve um dia que fiquei com muita raiva, com ego ferido
e resolvi ligar pra ele e xinguei tudo ele (risos), mas é que eu estava me sentindo
sufocado, precisava extravasar essa raiva... e depois de xingar ele no telefone, fui para
o bar beber, porque eu precisava me distrair e esquecer tudo isso. Aí depois de um tempo,
comecei ir em festa com os meus amigos para ver se eu me sentia mais desejado pelos
caras, mas toda vez que eu voltava da balada e não ficava com ninguém, eu me sentia
triste, com dor no peito pensando que ninguém mais ia me querer, que eu não ia mais
namorar ou que eu ia morrer sozinho... aí eu descontava minha solidão na bebida.
Demorei 6 anos para conhecer meu marido e quando me vejo com raiva e brigando com
ele, quando a raiva passa, eu fico com a minha cabeça fervilhando achando que ele vai
terminar comigo e quando isso acontece eu fico inseguro... acabo tentando agrada-lo,
mas quando eu vejo que ele não está dando muita atenção pra mim, eu fico irritado e
com raiva, aí eu fico emburrado e às vezes paro de falar com ele e acaba se tornando um
ciclo, sabe?
Para finalizar, o psicólogo fez uma última pergunta: “hoje nós falamos bastante
sobre as dificuldades que você vem enfrentando, mas gostaria que nós pudéssemos falar
um pouquinho suas qualidades e/ou as habilidades”. Rafael relata que: “Ah, eu sou uma
pessoa muito esforçada, sabe? Gosto de ser o melhor no que eu faço tanto no trabalho
quanto na minha vida pessoal. Também gosto de estar entre meus amigos e aproveitar
um tempo com meus filhos e marido... também gosto de praticar esportes, como jogar
vôlei com os meus amigos, mas atualmente não tenho saído muito com meus amigos,
porque eu não tenho tido paciência para ficar conversando... quando eu explico a minha
situação em relação ao meu chefe para os meus amigos, parece que eles não acreditam
em mim... ficam falando que eu levo as coisas muito a sério e que eu deveria ser mais
leve... eu acho que eles estão cansados de mim, aí nem procuro sair e acabo dando uma
desculpa... eu fico triste, mas não quero me sentir invalidado”.
Por fim, Rafael contou que esperava que a terapia o ajudasse a ficar menos irritado
e conseguir lidar com as situações desagradáveis com o chefe. Relatou também que
gostaria de ter mais tempo de qualidade com os filhos e com o marido e que pudesse sair
mais com os amigos.

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