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Artilharia de Campanha: Lições da Ucrânia

O estudo analisa o emprego da artilharia de campanha no Conflito da Ucrânia e extrai lições para aprimorar a Doutrina Militar Terrestre do Brasil. A pesquisa, realizada através de análise bibliográfica e documental, destaca táticas modernas e inovações na artilharia utilizadas por russos e ucranianos, propondo comparações com as práticas do Exército Brasileiro. A relevância do trabalho reside na necessidade de modernização das forças terrestres brasileiras, alinhando-as às tendências observadas no conflito.

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Artilharia de Campanha: Lições da Ucrânia

O estudo analisa o emprego da artilharia de campanha no Conflito da Ucrânia e extrai lições para aprimorar a Doutrina Militar Terrestre do Brasil. A pesquisa, realizada através de análise bibliográfica e documental, destaca táticas modernas e inovações na artilharia utilizadas por russos e ucranianos, propondo comparações com as práticas do Exército Brasileiro. A relevância do trabalho reside na necessidade de modernização das forças terrestres brasileiras, alinhando-as às tendências observadas no conflito.

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ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO

ESCOLA MARECHAL CASTELLO BRANCO

Maj Art GERALDO GOMES DE MATTOS NETO

Estudo do emprego da Artilharia de Campanha


no Conflito da Ucrânia e as lições aprendidas
para a Doutrina Militar Terrestre do Brasil

Rio de Janeiro
2021
Maj Art GERALDO GOMES DE MATTOS NETO

Estudo do emprego da Artilharia de Campanha no


Conflito da Ucrânia e as lições aprendidas para a
Doutrina Militar Terrestre do Brasil

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


à Escola de Comando e Estado-Maior do
Exército, como requisito parcial para a
obtenção do título de Especialista em Ciências
Militares, com ênfase em Defesa.

Orientador: Maj Art Felipe Galvão Franco Honorato

Rio de Janeiro
2021
M444e Mattos Neto, Geraldo Gomes

Estudo do emprego da Artilharia de Campanha no Conflito da


Ucrânia e as lições aprendidas para a Doutrina Militar Terrestre do
Brasil. / Geraldo Gomes de Mattos Neto – 2021.
60 f. : il. ; 30 cm.

Orientação: Felipe Galvão Franco Honorato.


Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Ciências
Militares) – Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Rio de
Janeiro, 2021.
Bibliografia: f. 55-58.

1. ARTILHARIA DE CAMPANHA. 2. CONFLITO DA UCRÂNIA.


3. DOUTRINA MILITAR TERRESTRE. I. Título.

CDD 355.02
Maj Art GERALDO GOMES DE MATTOS NETO

Estudo do emprego da Artilharia de Campanha no


Conflito da Ucrânia e as lições aprendidas para a
Doutrina Militar Terrestre do Brasil

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


à Escola de Comando e Estado-Maior do
Exército, como requisito parcial para a
obtenção do título de Especialista em Ciências
Militares, com ênfase em Defesa.

Aprovado em 18 de outubro de 2021.

COMISSÃO AVALIADORA

________________________________________________________________
FELIPE GALVÃO FRANCO HONORATO – Maj Art QEMA - Presidente
Escola de Comando e Estado-Maior do Exército

_______________________________________________
ROBSON PINHEIRO DANTAS – Maj Art QEMA - Membro
Escola de Comando e Estado-Maior do Exército

_________________________________________________________
RENATO ROCHA DRUBSKY DE CAMPOS – Maj Art QEMA - Membro
Escola de Comando e Estado-Maior do Exército
À minha esposa, minha filha e meus pais,
fontes de inspiração e exemplo.
AGRADECIMENTOS

Ao meu pai, que sempre foi um exemplo de virtudes militares, servindo de


exemplo e inspiração para que eu sempre buscasse o meu aperfeiçoamento
profissional.

Ao meu orientador, Maj Felipe Honorato, pelas orientações e seguras,


contribuindo com seu conhecimento e experiência para o resultado final deste
trabalho.

À minha esposa, Cecília, e minha filha, Isabel, pela alegria de poder conviver
com vocês todos os dias, pelo carinho, compreensão e incentivo de sempre.
“A teoria terá cumprido sua principal tarefa
quando for usada para analisar os
elementos constitutivos da guerra, para
distinguir o que à primeira vista parece
confuso, [...]. A teoria então se torna um
guia para qualquer um que quiser aprender
a guerra a partir dos livros; iluminará seu
caminho, facilitará seu progresso, treinará
seu julgamento, e ajudará a evitar possíveis
erros” – Carl Von Clausewitz
RESUMO

O presente estudo teve como tema o emprego da artilharia de campanha no Conflito


da Ucrânia, valendo-se das lições aprendidas deste estudo de caso para propor
melhorias para a Doutrina Militar Terrestre do Brasil. A definição do objeto de estudo
levou em consideração que os combates ocorridos neste país do leste europeu nos
anos de 2014 e 2015 tiveram a participação de exércitos com doutrina e materiais
modernos, configurando uma grande oportunidade de levantar aspectos que
pudessem contribuir para o aprimoramento da artilharia de campanha brasileira.
Para tal, foram feitas pesquisa bibliográfica e documental para identificar diversos
tópicos sobre o emprego desta arma de apoio ao combate por parte de russos e
ucranianos, para então comparar com as tendências no Brasil com relação à
atualização de manuais doutrinários e aquisição de materiais. Neste sentido, foram
levantados valiosos ensinamentos no que tange à atuação da artilharia de
campanha, os materiais utilizados, a busca de alvos, os fogos de contrabateria e as
medidas de segurança adotadas no Conflito da Ucrânia. Esses mesmos aspectos
foram estudados no Exército Brasileiro, de forma comparativa e buscando trazer as
últimas transformações que estão ocorrendo na sua artilharia de campanha. A
relevância da pesquisa se deve à necessidade de ratificar ou retificar as diversas
ações que visam a modernizar a Força Terrestre, muitas delas baseadas no Plano
Estratégico do Exército.

Palavras-chave: Artilharia de Campanha; Conflito da Ucrânia; Doutrina Militar


Terrestre.
ABSTRACT

The following study had as subject the employment of the field artillery in the Conflict
of Ukraine, using the lessons learned of this case study to suggest improvements to
the Brazilian Army Military Doctrine. The definition of the object of study took in
consideration that the combats that occurred in this eastern European country in the
years of 2014 and 2015 had the participation of armies with modern doctrines and
materials, establishing a great opportunity to gather aspects that could contribute to
the improvement of the Brazilian Field Artillery. For this purpose, bibliographic and
documental researches were conducted to identify a range of topics about the
employment of this support combat branch by both Russians and Ukrainians, and
then a comparison was made with the trends in Brazil regarding the update of field
manuals and equipment purchases. Therefore, some valuable practices related to
field artillery tactics, materials utilized, target acquisition, counter-battery fires and
security procedures used in the Conflict of Ukraine. Those same aspects were
studied regarding the Brazilian Army, in a comparative manner e highlighting the
latest transformations that are occurring in its Field Artillery. The importance of this
research is due to the necessity to confirm or to rectify the numerous actions that aim
to modernize the land force, many based on the Army’s Strategic Plan.

Keywords: Field Artillery; Conflict of Ukraine; Army Military Doctrine.


LISTA DE ABREVIATURAS

AAAe Artilharia Antiaérea


AC Anticarro
ACEx Artilharia do Corpo de Exército
AD Artilharia Divisionária
Adj Adjunto
Adm Administrativo
ALCA Arma Leve Anticarro
AP Autopropulsado
AR Autorebocado
Armt Armamento
Art Artilharia
BA Busca de Alvos
BCT Brigade Combat Team
Bda Brigada
Bia Bateria
Bia BA Bateria de Busca de Alvos
Bia O Bateria de Obuses
Bld Blindada
C Cj Comando Conjunto
Cat Categoria
Cel Coronel
Cia Companhia
Cia Eng Cmb L Companhia de Engenharia de Combate Leve
Cmb Combate
Cmp Campanha
Cmt Comandante
Coor Coordenadas
DE Divisão de Exército
DICA Direito Internacional dos Conflitos Armados
DMT Doutrina Militar Terrestre
EB Exército Brasileiro
Elm Elementos
EMCFA Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas
EME Estado-Maior do Exército
Eqp Equipamento
EsACosAAe Escola de Artilharia de Costa e Antiaérea
Esqd Esquadrão
FT Força-Tarefa
G Ciber Guerra Cibernética
GAC Grupo de Artilharia de Campanha
GBA Grupo de Busca de Alvos
GE Guerra Eletrônica
Gen Div General de Divisão
GMF Grupo de Mísseis de Foguetes
GPS Global Positioning System
GU Grande Unidade
IMBEL Indústria de Material Bélico
Ini Inimigo
IRVA Inteligência, Reconhecimento e Vigilância de Alvos
km Quilômetros
LC Linha de Contato
LMF Lançador Múltiplo de Foguetes
Loc Elt Localização Eletrônica
Log Logística
MAE Medidas de Ataque Eletrônico
MAGE Medidas de Apoio de Guerra Eletrônica
MD Ministério da Defesa
Mec Mecanizada
MF Múltiplo de Foguetes
mm Milímetro
MPE Medidas de Proteção Eletrônica
MTC Míssil Tático de Cruzeiro
Mtz Motorizada
NGA Normas Gerais de Ação
OA Observador Avançado
OM Organização Militar
OTAN Organização do Tratado do Atlântico Norte
PEEx Plano Estratégico do Exército
PrgEE OCOP Programa Estratégico do Exército Obtenção da Capacidade
Operacional Plena
RTA Requisito Técnico Absoluto
SAC Subprograma Artilharia de Campanha
SARP Sistema Aéreo Não-Pilotado
SIDOMT Sistema de Doutrina Militar Terrestre
SMEM Sistemas e Materiais de Emprego Militar
SU Subunidade
TN Território Nacional
U Unidade
URSS União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
VBCOAP Viatura Blindada de Combate Obus Autopropulsada
Vol Volume
Vtr Viatura
LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Grupos étnicos existentes na Ucrânia...................................................... 18


Figura 2 – Os “Little Green Men”, apelido dos combatentes pró-russos não
identificados............................................................................................................. 20
Figura 3 – Estrutura do Grupo Tático de Batalhão do Exército Russo................... 22
Figura 4 – Obuseiro 2S19 Msta-S 152mm.............................................................. 25
Figura 5 – Organização de uma Brigada de Infantaria Motorizada......................... 33
Figura 6 – Exemplo de organização de uma Divisão de Exército........................... 34
Figura 7 – Constituição básica da Artilharia do Corpo de Exército......................... 35
Figura 8 – VBCOAP M109 A5+ BR realizando os primeiros tiros no Brasil............ 37
Figura 9 – Vtr LMF Astros II MK-6........................................................................... 38
Figura 10 – Categoria dos SARP para a F Ter....................................................... 41
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ........................................................................................ 14
2 METODOLOGIA ..................................................................................... 16
3 O CONFLITO DA UCRÂNIA .................................................................. 17
4 A ARTILHARIA DE CAMPANHA NO CONFLITO DA UCRÂNIA ........... 21
4.1 A ATUAÇÃO DA ARTILHARIA DE CAMPANHA NO CONFLITO DA
UCRÂNIA ................................................................................................ 22
4.2 OS MATERIAIS DA ARTILHARIA DE CAMPANHA USADOS NA
UCRÂNIA ................................................................................................ 24
4.3 A BUSCA DE ALVOS DA ARTILHARIA DE CAMPANHA NO
CONFLITO DA UCRÂNIA ....................................................................... 26
4.4 OS FOGOS DE CONTRABATERIA NO CONFLITO DA UCRÂNIA ........ 27
4.5 AS MEDIDAS DE SEGURANÇA ADOTADAS NO CONFLITO DA
UCRÂNIA ................................................................................................ 28
4.6 CONCLUSÕES PARCIAIS SOBRE AS LIÇÕES APRENDIDAS DA
ARTILHARIA DE CAMPANHA NO CONFLITO DA UCRÂNIA ................ 30
5 A ARTILHARIA DE CAMPANHA NO EXÉRCITO BRASILEIRO ........... 31
5.1 A ATUAÇÃO DA ARTILHARIA DE CAMPANHA CONFORME A
DOUTRINA MILITAR TERRESTRE ........................................................ 32
5.2 OS MATERIAIS DA ARTILHARIA DE CAMPANHA DO EXÉRCITO
BRASILEIRO ........................................................................................... 37
5.3 A BUSCA DE ALVOS DA ARTILHARIA DE CAMPANHA DO
EXÉRCITO BRASILEIRO ........................................................................ 39
5.4 OS FOGOS DE CONTRABATERIA NO EXÉRCITO BRASILEIRO ......... 42
5.5 AS MEDIDAS DE SEGURANÇA PREVISTAS NO EXÉRCITO
BRASILEIRO ........................................................................................... 43
5.6 CONCLUSÕES PARCIAIS SOBRE OS ASPECTOS LEVANTADOS
SOBRE A ARTILHARIA DE CAMPANHA NO EXÉRCITO BRASILEIRO 47
6 CONCLUSÃO ......................................................................................... 50
REFERÊNCIAS ....................................................................................... 55
ANEXO A – QUADRO RESUMO DE LIÇÕES APRENDIDAS ............... 59
14

1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho aborda o emprego da Artilharia de Campanha no Conflito


da Ucrânia. Nele diversas táticas modernas de guerra foram observadas e podem
contribuir para a Doutrina Militar Terrestre (DMT) do Brasil.
A Ucrânia é um país do leste europeu que fez parte da União das Repúblicas
Socialistas Soviéticas até 1991, ano de sua dissolução. A crise a ser abordada
iniciou-se em 2014 com uma série de combates na porção leste do país entre o
exército ucraniano e grupos separatistas, estes últimos contando com o apoio da
República da Rússia.
A região em questão é marcada por diversos conflitos em sua história, o que
pode ser corroborado pela grande quantidade de teorias geopolíticas que abordam a
importância da área. Neste contexto, Halford John Mackinder considerava esta
imensa massa de terra no centro da Eurásia como o Coração da Terra (Heartland),
em sua teoria sobre o Poder Terrestre (MAFRA, 2006).
No leste europeu, o nível de tensão entre os países é sempre grande, o que
justifica gastos elevados em Defesa. A presença da Federação Russa como grande
ator regional incentiva uma busca constante pela inovação e aprimoramento nas
técnicas militares por parte de seus vizinhos, de forma a possibilitar um certo
equilíbrio de forças.
Este fato atraiu o foco de estudos militares de diversos países,
particularmente os membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte - OTAN
(PINHO, 2016). Juntamente com outros embates ocorridos neste milênio, o conflito
na Ucrânia vem se tornando uma das referências não só de guerras híbridas, como
também do que pode se esperar em guerras futuras, onde exista a presença de uma
potência militar de vulto. Neste sentido, muitos membros desta importante aliança
militar utilizam esse caso para fazer projeções sobre uma disputa contra um
adversário com semelhança de forças ou near-peer adversary (LEINBERGER,
2017).
O emprego da artilharia de campanha mereceu destaque particular neste
conflito, uma vez que a Rússia continuou investindo neste setor mesmo enquanto
outros países no mundo tornavam suas forças mais leves e flexíveis (MCKINNEY,
2018). Na Ucrânia foi possível observar inovações e aprimoramentos no emprego da
artilharia de campanha que merecem ser estudadas pelo efeito devastador que
15

apresentaram (BARTLES, 2017). Esta realidade torna-se ainda mais relevante pelo
fato do mundo ter vivenciando um período de grande incidência de conflitos de baixa
intensidade, em que a importância da artilharia foi sendo questionada nas últimas
décadas.
O Exército Brasileiro (EB) busca constantemente aprimorar sua doutrina, e o
interesse na artilharia de campanha pode ser comprovado pelo Subprograma
Sistema de Artilharia de Campanha (SAC), integrante do Programa Estratégico do
Exército Obtenção da Capacidade Operacional Plena (PrgEE OCOP), publicado na
Portaria Nº 156-EME, de 4 de junho de 2019.
Nesse documento, ficou estabelecido o objetivo de “realizar a transformação
e modernização da Artilharia de Campanha do Exército Brasileiro, de tal forma que
ela obtenha a capacidade operacional compatível com as necessidades impostas
pela Força Terrestre” (BRASIL, 2019h, p. 24). Sendo assim, o SAC busca contribuir
em uma série de ações estratégicas elencadas no Plano Estratégico do Exército
2020-2023.
O conflito da Ucrânia torna-se então uma boa referência sobre os rumos da
artilharia para os próximos anos, mostrando para o Exército Brasileiro o que pode
ser melhorado neste sistema, ao mesmo tempo em que alerta seus militares para
possíveis cenários a serem enfrentados em guerras futuras.
O poder de fogo utilizado no leste europeu é uma lembrança de que nenhum
exército profissional pode relegar sua artilharia a segundo plano, mesmo no caso do
Brasil que passou anos atuando com considerado predomínio em missões de paz
ao redor do mundo e internamente em operações de garantia da lei e da ordem.
Faz-se necessário, portanto, uma constante atualização usando
ensinamentos de conflitos modernos, seguindo o exemplo de exércitos de grandes
potências militares que visualizaram no conflito da Ucrânia um grande estudo de
caso para conflitos com maior nível de intensidade em relação aos demais ocorridos
neste período em outras partes do mundo.
Desta forma, o presente trabalho de conclusão de curso foi desenvolvido em
torno do seguinte problema: de que maneira lições aprendidas referentes ao
emprego da artilharia da campanha no Conflito da Ucrânia podem contribuir para o
aprimoramento da Doutrina Militar Terrestre do Brasil?
16

O objetivo geral do estudo foi de propor melhorias para a Artilharia de


Campanha Brasileira, tendo como referência a forma com que este sistema foi
empregado no Conflito da Ucrânia.
A fim de viabilizar a consecução do objetivo geral de estudo, foram
formulados os objetivos específicos, abaixo relacionados, que permitiram o
encadeamento lógico do raciocínio descritivo apresentado neste estudo:
a. estudar os antecedentes e a forma como se desenvolveram as ações
militares no Conflito da Ucrânia.
b. levantar as principais lições aprendidas no emprego da artilharia de
campanha, seus efeitos nos combates e as ações tomadas para contrapor as
ameaças por ambos os lados do conflito.
c. revisar a atual situação da Artilharia de Campanha Brasileira, visando a
identificar possíveis pontos em que as lições aprendidas daquele conflito podem
contribuir para a melhoria da Doutrina Militar Terrestre do Brasil.
A relevância do assunto para o Exército Brasileiro foi a possibilidade de
melhoria da sua Artilharia de Campanha, valendo-se dos pontos fortes observados
em um conflito moderno como o ocorrido na Ucrânia.
A seguir, será apresentada a metodologia empregada para atingir os objetivos
propostos por este estudo.

2 METODOLOGIA

O presente estudo utilizou uma abordagem qualitativa, valendo-se do estudo


de caso do Conflito da Ucrânia para propor melhorias para a Artilharia de Campanha
do Exército Brasileiro por meio do método indutivo.
Dessa forma, buscou-se observar as práticas realizadas por esta arma de
apoio no referido conflito, e comparar com as tendências existentes na Doutrina
Militar Terrestre do Brasil, concluindo sobre quais destes ensinamentos colhidos
podem ser relevantes para a realidade brasileira.
O universo do presente estudo foi o emprego da artilharia de campanha por
ambos os lados do Conflito da Ucrânia, ou seja, ucranianos e russos, sejam eles
separatistas ou o exército convencional da Federação Russa.
A coleta de dados do presente trabalho de conclusão de curso deu-se por
meio de pesquisa bibliográfica e documental na literatura disponível, tais como
17

livros, manuais, revistas especializadas, jornais, artigos, internet, monografias, teses


e dissertações, sempre buscando os dados pertinentes ao assunto.
O método de tratamento de dados utilizado no presente estudo foi a análise
de conteúdo, no qual foram realizados estudos de textos e documentos com o
propósito de se obter a fundamentação teórica necessária para propor melhorias
para a Artilharia de Campanha Brasileira.
O presente estudo foi limitado aos conflitos armados ocorridos na região da
Ucrânia, do seu início em 2014 até o ano de 2015, pela intensidade e relevância dos
combates ocorridos neste intervalo de tempo. Outra consideração é que só foram
levados em consideração os ensinamentos colhidos que afetem diretamente a
artilharia de campanha.
Cabe ressaltar que uma premissa deste estudo é que a realidade do Exército
Brasileiro é diferente dos exércitos que participaram do conflito, tanto em
possibilidades de emprego quanto em material, e, portanto, nem tudo que foi
realizado na Ucrânia deve ser considerado válido para o EB.
A seguir, será estudado o emprego da Artilharia de Campanha no conflito da
Ucrânia, indicando os ensinamentos colhidos para a Doutrina Militar Terrestre
Brasileira.

3 O CONFLITO DA UCRÂNIA

A Ucrânia fez parte da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS)


durante boa parte do Século XX. Em 1991, o país tornou-se independente após a
dissolução do bloco, mantendo fortes laços com a Federação Russa. Além das
ligações política e econômica, os dois países têm importantes laços culturais, uma
vez que 22% da população ucraniana é de etnia russa. Esta comunidade concentra-
se particularmente no leste do país, onde são maioria em Donetsk, Luhansk e
Criméia (PAIVA, 2015).
18

FIGURA 1 – Grupos étnicos existentes na Ucrânia.


Fonte: [Link]

A década de 1990 marcou o país por recessões econômicas e instabilidade


política, fruto de casos de corrupção e disputas pelo poder (BARBOZA, 2018). A
recuperação ucraniana foi gradual, e o país foi alcançando certo crescimento na
transição para o século XXI.
A Ucrânia sofreu uma forte crise econômica em 2013, o que fez com que o
presidente Viktor Yuanukovych, um oligarca pró-russo, buscasse apoio externo. O
governo tendia a aceitar ajuda da Rússia com um empréstimo de cerca de US$ 15
bilhões, porém a etnia ucraniana liderava um movimento de aproximação com a
União Europeia (BARBOZA, 2018).
A situação havia criado expectativas de uma possível entrada da Ucrânia na
União Europeia, fato que foi descartado com a aproximação definitiva de
Yuanukovych ao presidente russo Vladimir Putin em novembro de 2013.
Manifestantes ucranianos de diferentes classes sociais passaram então a protestar
em Kiev, em um movimento que ficou conhecido como EuroMaidan, exigindo uma
revisão da postura do governo (KONRAD, 2018).
19

A repressão a este movimento criou uma polarização política sobre a estratégia


nacional a ser seguida e acirrou as tensões étnicas na Ucrânia. Neste clima de
instabilidade, o presidente Yuanukovych fugiu para a Rússia em fevereiro de 2014 e
deixou o cargo vago, sendo criado um governo provisório (KONRAD, 2018). Estes
fatos foram aproveitados por grupos separatistas pró-russos para realização de
diversas ações ao longo do mesmo ano, e que acabaram resultando em conflitos
armados.
Dentre os primeiros eventos, foram realizadas manifestações pró-russas em
Simferopol, capital da Crimeia, um território ao sul do território ucraniano. Esta região
tem uma forte ligação histórico-cultural com a Rússia, além de abrigar a Frota Russa
do Mar Negro, agregando um grande valor estratégico (KONRAD, 2018). A Rússia
aproveitou a situação e não reconheceu o governo provisório ucraniano, ao mesmo
tempo em que promoveu a anexação da Crimeia em março de 2014 (BARBOZA,
2018).
Esta ação gerou duras críticas da comunidade internacional, principalmente
pelo uso de tropas sem identificação apelidadas de “little green men”, que
supostamente seriam forças de autoproteção da Crimeia. Mesmo sob pressão, o
Presidente Putin estava disposto a afirmar sua posição no leste europeu e
demonstrar que não iria permitir a expansão do ocidente sobre o entorno estratégico
da Rússia (GOBLE, 2018).
Após a anexação da Crimeia, o governo russo prosseguiu apoiando
movimentos separatistas, desta vez nas regiões de Donetsk e Luhansk, na província
de Donbas. Localizadas na porção leste do território ucraniano, ambas contam com
uma população de russos étnicos acima de 50%, facilitando a construção de uma
narrativa de autodeterminação (PINHO, 2016).
20

FIGURA 2 – Os “Little Green Men”, apelido dos combatentes pró-russos não identificados.
Fonte: [Link]

De forma geral, a estratégia russa atuou insuflando os segmentos pró-russos


locais, dividindo a população em duas vertentes definidas e forçando a polarização.
Depois, empregou elementos infiltrados e mesclou ações de guerrilha, pressão
econômica, diplomacia e operações de informação para causar um colapso do
estado ucraniano. Por fim, os russos entravam na região com grande apoio,
geralmente sob a forma de forças de paz ou comboios humanitários, com o intuito
de solucionar o caos e substituir o governo local (PINHO, 2016).
As ações russas no Conflito da Ucrânia enquadraram-se na doutrina de Guerra
Híbrida, uma prática antiga que ganhou notoriedade recentemente pelo General
Gerasimov, Chefe do Estado-Maior Geral Russo. A partir de 2013, seus artigos
reforçavam a efetividade de ferramentas não militares para atingir objetivos políticos
e estratégicos (KOFMAN; ROJANSKY, 2015).
Esta tática previa então o uso de um conjunto de ações indiretas, mesclando
forças militares e outros meios. Desta forma, foi visto com bastante intensidade no
Conflito da Ucrânia o uso de diplomacia, propaganda e operações psicológicas em
uma ampla campanha de informação, com o objetivo de obter legitimidade a nível
internacional. Ao mesmo tempo, ações militares clandestinas aliadas a ataques
21

cibernéticos completavam a desorganização das forças ucranianas (THOMAS,


2017).
Entretanto, os combates convencionais também tiveram seu protagonismo na
Ucrânia. Ambos os lados do conflito possuíam forças regulares com grande
quantidade de meios militares, tanto do período soviético como também
equipamentos mais modernos de alta tecnologia. Alguns dos destaques foram os
Sistemas de Aeronave Remotamente Pilotada (SARP), fuzis de precisão, sistemas
de artilharia e blindagem de veículos (KARBER, 2015).
O Exército Russo foi gradualmente aumentando seu envolvimento direto e
convencional ao longo de 2014. De acordo com um relatório do Royal United Forces
Institute, o efetivo da tropa na região variou entre cerca de 5 mil militares russos em
agosto, chegando a um pico de pouco mais de 10 mil em dezembro de 2014. Até o
início de 2015, foi estimado que cerca de 117 unidades das Forças Armadas Russas
de combate e de suporte se envolveram no conflito, oriundas de diversas partes da
Rússia (SUTYAGIN, 2015).
Sendo assim, segue um estudo um pouco mais aprofundado sobre as ações
convencionais do Conflito da Ucrânia, focando particularmente no emprego da
artilharia de campanha de ambos os lados do conflito.

4 A ARTILHARIA DE CAMPANHA NO CONFLITO DA UCRÂNIA

O objetivo de apoiar os movimentos separatistas na região do Donbas


provocou uma crescente mobilização no exército russo. À medida que os conflitos
se intensificavam, relatórios apontam para uma grande concentração russa no verão
de 2014 na fronteira com a Ucrânia de carros de combate, veículos blindados de
transporte de tropa, obuseiros autopropulsados e lançadores de foguetes (FOX,
2019).
No que tange à artilharia de campanha, há indícios de que ela foi determinante
em diversas batalhas. O poder de fogo apresentado protagonizou algumas batalhas
como as travados pelos aeroportos de Donetsk e Luhansk e na região de
Zelenopillya, onde o equivalente a dois batalhões de infantaria mecanizados
ucranianos foram dizimados pela artilharia russa (KARBER, 2015). Este último
evento repercutiu muito na comunidade militar internacional, haja vista que a tropa
da Ucrânia foi surpreendida em sua zona de reunião, tendo sido localizados pela
22

guerra cibernética russa, identificados por SARP e atacados por uma combinação
de munições de fragmentação e termobáricas lançadas por lançadores múltiplos de
foguetes (LMF), em uma ação que durou menos de três minutos (MORGAN, 2018).
De acordo com o Dr Phillip A. Karber (2015), ele pôde observar momentos em
que unidades de artilharia de tubo executaram uma média de 300 a 400 tiros por
obuseiro em um dia, bem acima do volume de fogo normal dos dados médios de
planejamento de exércitos ocidentais. Estas particularidades fizeram com que
aproximadamente 85% das baixas de ambos os lados no Conflito da Ucrânia fossem
causadas pela artilharia oponente. Desta forma, é importante aprofundar em alguns
dos aspectos mais relevantes com relação à artilharia de campanha russa e
ucraniana no conflito em questão.

4.1 A ATUAÇÃO DA ARTILHARIA DE CAMPANHA NO CONFLITO DA UCRÂNIA

Uma das características que chamam mais a atenção sobre a artilharia de


campanha russa é a forma como ela foi empregada no nível tático. A estrutura mais
usada pelo Exército Russo foi Grupo Tático de Batalhão, adaptada para travar
guerras híbridas com objetivos limitados. Apesar disso, esta força-tarefa reúne
poderosas capacidades convencionais, sendo a proporção de apoio de fogo um das
mais evidentes. O Grupo Tático de Batalhão é composto por um esquadrão de
carros de combate, três companhias mecanizadas de infantaria, uma companhia
anticarro, duas a três baterias de artilharia, uma bateria LMF e duas baterias de
artilharia antiaérea (FOX; ROSSOW, 2017), como ilustrado abaixo:

FIGURA 3 – Estrutura do Grupo Tático de Batalhão do Exército Russo.


Fonte: FOX; ROSSOW (2017).
23

A título de comparação, esta formação tem maior poder de fogo que uma
Brigade Combat Team (BCT) do Exército Norte-Americano em praticamente todos
os requisitos, tanto em proporção como alcance, ainda mais considerando que é
costume da artilharia de tubo russa usar o método de tiro de fogo direto contra
blindados inimigos (FOX; ROSSOW, 2017). Percebe-se ainda que a quantidade de
subunidades de artilharia em apoio é cerca de três vezes maior em comparação
com a doutrina brasileira, uma vez que temos no Grupo Tático de Batalhão
praticamente a mesma quantidade de frações de manobra e artilharia de tubo e
foguetes, ilustrando a importância que foi dada à Função de Combate Fogos.
Na doutrina russa, este poder de fogo é mantido também em níveis mais
elevados da força. O atual modelo de uma brigada do Exército Russo é composto
por quatro batalhões de elementos de combate e quatro grupos de artilharia de
campanha, além de outras unidades de apoio. Estas quatro unidades de artilharia
são dois grupos de artilharia de obuseiros autopropulsado, somando 36 peças, um
Grupo LMF, com 18 lançadoras, e um Grupo de Artilharia Anticarros (GRAU;
BARTLES, 2016), este último diferindo um pouco da doutrina brasileira.
A escolha pelo emprego de Grupos Táticos de Batalhão é relacionada com o
fato que os russos acreditam que o poder de fogo esmagador que ele fornece é
capaz de desequilibrar um combate (FOX; ROSSOW, 2017). Nas forças armadas
ocidentais, da mesma forma como foi observado no Exército Ucraniano, é difícil
encontrar uma força-tarefa nível batalhão que tenha à sua disposição tamanha
capacidade de realizar fogos indiretos, podendo ultrapassar distâncias de 30 km
com os foguetes da Bateria LMF.
Cabe ressaltar a descentralização da artilharia praticada pelos russos.
Enquanto a tendência do ocidente é centralizar os fogos, a Rússia tem muitas vezes
reforçado os batalhões de manobra com um efetivo de artilharia que seria
normalmente usado no nível brigada. Esta ação foi defendida pelos russos pela
maior rapidez nos pedidos de tiro, bem como a possibilidade de adequar o aumento
da área de influência dos batalhões de manobra em conflitos mais assimétricos com
o grande alcance da artilharia de campanha. Ainda tinha um efeito importante no
aumento da dispersão das tropas ucranianas para aumentar a capacidade de
sobrevivência, porém diminuindo seu poder de combate (KARBER, 2015).
Outro aspecto que pode ser explorado é a tendência de ambos os lados do
conflito no uso do tiro direto de artilharia. O obuseiro autopropulsado 2S1 “Gvozdika”
24

de 122 mm foi bastante usado por ambos adversários neste sentido. Além de
realizar tiros indiretos como de praxe na artilharia de campanha, os russos o
utilizavam como canhão de assalto, suprimindo defesas anticarro em pontos fortes
ucranianos a distâncias de até 6 km com grande eficiência (KARBER, 2015).
Já os ucranianos usavam o mesmo material contra carros de combate, de
forma a compensar a falta de armamentos que pudessem perfurar a blindagem dos
russos. Apesar da munição 122 mm não ter efeito perfurante, o impacto era
suficiente para causar sérios danos ao alvo. O contraponto é que os “Gvozdika”
eram geralmente contra atacados, e sua armadura leve resultou em altos índices de
baixas neste material (KARBER, 2015).
Por fim, um relatório do “The Institute of Land Warfare” aponta que os
separatistas e seus aliados russos não demonstravam preocupação em causar
baixas civis. Pelo contrário, muitas vezes as mortes provocadas por fogos de
artilharia foram usadas como objeto da guerra de informação onde o governo
ucraniano seria incapaz de proteger a sua população (FOX; ROSSOW, 2017). Isto
era realizado também atraindo fogo de contrabateria ucraniano para dentro de
bairros residenciais, aumentando ainda mais a tensão entre o povo e o governo de
Kiev (FOX, 2019).
Assim, as operações de cerco executadas pelos russos contavam com o apoio
de artilharia causando bombardeios em áreas civis, causando a quebra da vontade
de lutar por parte dos ucranianos. A Batalha de Debal’tseve, ocorrida no início de
2015, foi um exemplo onde esta tática foi empregada, com cerca de 6 mil civis
mortos e mais 8 mil deslocados, em uma cidade de aproximadamente 25 mil
habitantes (FOX; ROSSOW, 2017).

4.2 OS MATERIAIS DA ARTILHARIA DE CAMPANHA USADOS NA UCRÂNIA

Os russos utilizaram como base de seus grupos de artilharia de campanha o


2S19 Msta-S 152mm, um obuseiro autopropulsado introduzido no exército em 1989.
Possui sistema de controle de tiro e carregamento de tiro automatizados, sistema
passivo de visão noturna e gerador de fumaça. Sua cadência de tiro é de 6 a 8 tiros
por minuto (GRAU; BARTLES, 2016).
Pode atirar diversos tipos de munições além das tradicionais explosivas,
fumígenas e iluminativas, podendo ser destacadas as com capacidade
25

antiblindagem, químicas, nucleares e guiadas a laser (“Krasnopol”). Seu alcance


chega a 29 km usando munições base-bleed1 e 36 km com munições assistidas
(GRAU; BARTLES, 2016).

FIGURA 4 – Obuseiro 2S19 Msta-S 152 mm.


Fonte: [Link]

Outra tendência observada no referido conflito foi o amplo uso de sistemas


lançadores múltiplos de foguetes por parte dos russos. O armamento mais comum é
o BM-21 “Grad”, que vem sofrendo modificações desde sua estreia em 1963. É
capaz de carregar 40 foguetes de 122mm que alcançam até 20 km, podendo chegar
até 45 km nos modelos mais novos. São capazes de lançar munições alto-
explosivas, fumígenas, espargidora de minas, de interferência eletrônica e de
fragmentação (GRAU; BARTLES, 2016).
Outros sistemas LMF que foram empregados pelos russos na Ucrânia foram:
BM-27 “Uragan”, que transporta 16 foguetes de 220mm com alcance de 35 km e o
BM-30 “Smerch”, com 12 foguetes de 300mm e alcance de até 90 km. Cabe
ressaltar que estes dois têm a capacidade de lançar munições termobáricas, com
alto poder de destruição (KARBER, 2015).

1
Munição que possui um dispositivo que diminui a resistência da base da granada para aumentar sua
aerodinâmica (BRASIL, 2001).
26

Na década de 1980, tanto os russos quanto os ucranianos utilizavam LMF na


proporção de uma unidade de foguetes para cada quatro unidades de artilharia de
tubo. Entretanto, houve uma atualização na doutrina russa, e nos combates em
Donbas o que foi observado foram três unidades LMF para quatro unidades de
artilharia de tubo. Isso mostra que o foco em saturação de área por parte dos russos
aumentou nos últimos anos, de maneira relativamente contrária a tendência do
ocidente de buscar fogos cada vez mais precisos e cirúrgicos (KARBER, 2015).

4.3 A BUSCA DE ALVOS DA ARTILHARIA DE CAMPANHA NO CONFLITO DA


UCRÂNIA

A busca de alvos por parte dos russos tem sido fruto de diversas análises
internacionais. Ela consiste em um sistema que conjuga reconhecimento e fogos, ou
“Reconnaissance-Strike Model”, causando impressionantes efeitos táticos e
operacionais no Conflito da Ucrânia. Para isso, são utilizados diversos elementos
altamente integrados entre si, aliando Sistemas de Aeronaves Remotamente
Pilotadas (SARP), reconhecimento de tropas especiais, capacidades cibernéticas e
de geolocalização, permitindo conjugar potência de fogo, materiais com grandes
alcances e agilidade nas missões de tiro (FOX; ROSSOW, 2017).
O Exército Russo vem demonstrando estar na vanguarda quanto ao uso de
SARP. Eles são empregados em uma companhia independente dentro das
brigadas, apoiando em uma gama diversa de missões de Inteligência,
Reconhecimento, Vigilância e Aquisição de Alvos (IRVA) com drones de curto e
médio alcance (GRAU; BARTLES, 2016).
O relatório do Dr Phillip A. Karber para a “Potomac Foundation” identificou o
uso de pelo menos cinco categorias de drones por parte dos russos na Ucrânia,
operando de forma a complementar as capacidades e limitações uns dos outros.
Estes equipamentos são capazes de cumprir diversas missões, porém as que mais
chamam a atenção são aquelas onde identificam alvos e passam as informações em
tempo real para baterias LMF, permitindo a saturação da área por meio de foguetes
(KARBER, 2015).
No Conflito da Ucrânia, outro aspecto que causou preocupação em países
membros da OTAN foi a capacidade russa de conjugar guerra cibernética e guerra
eletrônica para localizar tropas ucranianas. Em diversas situações, foram relatados
27

casos em que batalhões inimigos eram identificados pela emissão de ondas de rádio
ou mesmo por sinais de celular, possibilitando realizar concentrações de artilharia
sobre estas posições após a confirmação visual por parte de SARP (LEINBERGER,
2017).
Saindo da área tecnológica, há ainda relatos sobre o uso mais convencional de
observadores de artilharia em edifícios residenciais por parte dos separatistas. Este
fato foi registrado na 2ª Batalha pelo Aeroporto de Donetsk, ocorrida no final de
2014, valendo-se de prédios altos nos bairros vizinhos para condução de fogos de
artilharia sobre as posições defensivas das forças ucranianas e avaliação de danos
(FOX, 2019).
Todos os processos citados demonstram a capacidade russa de aquisição de
alvos no conflito. Essas possibilidades permitiram o emprego eficiente da artilharia
de campanha, eliminando os alvos com precisão e oportunidade, garantindo aos
separatistas russos grande vantagem tática.

4.4 OS FOGOS DE CONTRABATERIA NO CONFLITO DA UCRÂNIA

Em Donetsk, há indícios que os separatistas e os russos buscavam


regularmente realizar fogos indiretos não apenas com o objetivo de inquietar os
defensores no aeroporto, como também para atrair fogo de contrabateria ucraniano
com o objetivo de coletar informações (FOX, 2019).
Isto ocorria com as forças pró-russas valendo-se de fogos de morteiro para
provocar uma resposta ucraniana. Estes acabavam revelando suas posições ao
abrir fogo de contrabateria, uma vez que os sistemas russos de detecção já ficavam
a postos para identificar alguma ação inimiga. Assim, este procedimento também
era eficaz em inibir as forças ucranianas de conseguir concentrar os fogos, pois os
forçavam a estar constantemente em movimento para evitar a eficiente busca de
alvos russa (LEINBERGER, 2017).
Um ponto crítico para obtenção da capacidade de realizar fogos de
contrabateria são os radares que identificam a origem de fogos indiretos. Para suprir
a ausência de material de fabricação nacional, os ucranianos solicitaram
equipamentos para os Estados Unidos da América, recebendo o AN/TPQ-35 em
2015. Contudo, este radar de contrabateria é voltado para morteiros e possui um
28

alcance de apenas 5 km, o que se mostrou insuficiente para o conflito (KARBER,


2015).
Outro problema encontrado pelos ucranianos foi a capacidade russa de
localizar estes sistemas de radar contrabateria, uma vez que o AN/TPQ-35 funciona
com emissão ativa de sinais (LEINBERGER, 2017). Aliado ao fato do sistema ser
autorrebocado e seu sistema de computador demorar cerca de 30 minutos para
desligar, estes fatores dificultavam sobremaneira o uso deste equipamento, pois
constantemente tornava-se alvo da artilharia inimiga (KARBER, 2015).
Em contrapartida, os russos utilizaram alguns dos seus melhores sistemas de
radares de contrabateria no conflito, entre eles o Zoopark-1M, Leopard-T e Lynx-1
(KARBER, 2015). São sistemas de maneira geral passivos, com alcances de até 40
km, o que permitiram grande precisão para seus fogos de longo alcance.
Fruto destas observações, verifica-se a dificuldade que a artilharia de
campanha ucraniana experimentou no referido conflito, uma vez que sua
capacidade de contrabateria era bastante inferior a do oponente. Dessa maneira, a
artilharia russa ganhou uma liberdade de ação considerável, que a permitiu apoiar
adequadamente os separatistas nas diversas fases do conflito.

4.5 AS MEDIDAS DE SEGURANÇA ADOTADAS NO CONFLITO DA UCRÂNIA

Com relação às posições de tiro, foi identificado que a artilharia de foguetes


russa utilizava normalmente bases de fogos em território russo, nas cidades de
Kuybyshevo e Pavlovka, aproveitando a proteção de tropas russas em processo de
mobilização em bases recuadas. Estas posições inibiram os ucranianos em um
primeiro momento, que não queriam revidar com fogos em território russo com
receio de escalar ainda mais a crise (FOX, 2019). Além disso, permaneciam a cerca
de 80 km da maioria das áreas em conflito, dificultando o engajamento por parte da
artilharia da Ucrânia.
Por toda a capacidade de contrabateria demonstrada pelos russos no Conflito
da Ucrânia, desde a busca de alvos até o desencadeamento de fogos, a artilharia
ucraniana teve que adaptar-se a uma realidade onde era necessário estar em
constante movimento (LEINBERGER, 2017).
Isto foi posto em prática por meio da otimização das mudanças de posição.
Conforme relatado pelo Cel Elson (2018), foi explorado na Conferência “Future
29

Artillery London 2018” que os ucranianos utilizaram um processo para manter a


cadência de tiro e proteger-se da contrabateria em que, em um determinado
momento, duas baterias estariam se deslocando, três baterias recarregando e uma
bateria atirando.
Para evitar o uso de SARP para aquisição de alvos por parte dos ucranianos,
os russos desenvolveram diversas medidas de proteção para desabilitar que os
drones chegassem até suas posições de artilharia. Estas ferramentas constituíam
desde armamentos antiaéreos até equipamentos de guerra eletrônica para
interferência no controle remoto dos SARP (LEINBERGER, 2017).
Por parte dos ucranianos, a forma encontrada para mitigar a eficiência dos
drones russos foi com incremento da camuflagem de suas tropas e materiais. Isto foi
feito por meio da mudança da padronagem de sua camuflagem, conjugando com
outras técnicas para evitar a observação inimiga, como reduzir a exposição visual ao
máximo, bem como promover a dispersão das instalações e a constante troca para
posições alternativas (LEINBERGER, 2017).
Uma das maiores dificuldades para os ucranianos foi ter que lidar com um
ambiente onde comunicações eram constantemente degradadas, muitas vezes
impedindo as comunicações via rádio tão importantes para a transmissão de dados
de tiro. Para os pedidos de missão de tiro do observador, não foi possível uma
solução adequada além de aumentar os cuidados quanto à exploração rádio. Para o
trâmite de mensagens entre central de tiro, linha de fogo e demais órgãos uma
alternativa foram as comunicações fio (LEINBERGER, 2017).
Até mesmo os dados meteorológicos, normalmente obtidos por meio de
sondas, foram afetados pela guerra eletrônica, impedindo a artilharia de utilizar
estas informações para o cálculo do tiro (LEINBERGER, 2017). Esta perda foi
sentida particularmente pela artilharia de foguetes, por conta do seu maior alcance e
influência meteorológica na sua precisão.
A capacidade russa de bloquear o sinal de GPS ou até mesmo transmitir
coordenadas falsas foi outro obstáculo enfrentado pelo Exército Ucraniano. Por
conta dos recursos cibernéticos evidenciados pelo inimigo, sua artilharia teve que
abrir mão de alguns sistemas informatizados e valer-se de métodos convencionais
de cálculo de tiro e levantamento topográfico (LEINBERGER, 2017).
30

Todas as ações adotadas foram fruto da adaptação imposta para combater um


inimigo que possuía muitos meios, sendo necessária esta busca pela redução das
perdas humanas e de materiais.

4.6 CONCLUSÕES PARCIAIS SOBRE AS LIÇÕES APRENDIDAS DA ARTILHARIA


DE CAMPANHA NO CONFLITO DA UCRÂNIA

O estudo mais aprofundado do emprego da artilharia de campanha no conflito


da Ucrânia confirmou a grande quantidade de ensinamentos colhidos sobre o
emprego desta arma de apoio ao combate. A artilharia de ambos os lados foi
protagonista em diversas ações, e demonstrou capacidade operacional e
adaptabilidade para apoiar a manobra pelo fogo.
A artilharia russa que apoiava os separatistas evidenciou uma grande
vantagem por conta da quantidade e qualidade de seus meios. Este fato justifica-se,
em grande parte, pela prioridade que os russos davam para o apoio de fogo em
operações.
Na atuação da artilharia russa, ressalta-se a elevada proporção de elementos
de apoio de fogo nas forças tarefas montadas para o combate, utilizando uma média
de uma fração de artilharia para cada fração de elemento de combate. Observou-se
também uma grande tendência de descentralização da artilharia em proveito dos
elementos do primeiro escalão, com a justificativa de agilizar o desencadeamento de
missões de tiro.
O emprego de lançadoras múltiplas de foguetes no exército russo foi outro
aspecto evidenciado, uma vez que baterias LMF chegavam a apoiar frações nível
Unidade. Além disso, a proporção entre os diferentes tipos de artilharia de
campanha mostrou uma média de uma Bia LMF para cada duas Bia de obuseiros.
Ainda sobre a atuação da artilharia, verificou-se o uso freqüente de obuseiros
realizando tiro direto em apoio à manobra, fato observado por ambos os lados do
conflito. Por fim, foram encontrados relatos sobre a pouca preocupação com danos
colaterais e baixas civis, onde russos muitas vezes usavam estes incidentes eram
explorados a seu favor na guerra de informação.
No aspecto de materiais empregados, foi levantado que o principal obuseiro
russo utilizado no conflito foi o autopropulsado 2S19 Msta-S 152 mm, material com
diversos recursos modernos, capacidade de atirar com várias munições especiais e
31

alcance máximo de 29 km. Com relação aos lançadores múltiplos de foguetes, a


Rússia demonstrou possuir diversos modelos, com alcance máximo de 90 km. A
particularidade foi o emprego de munição termobárica, com alto grau de letalidade.
A busca de alvos no conflito estudado foi um subsistema que demonstrou
elevada capacidade, com o uso de sistemas tecnológicos como SARP, guerra
eletrônica e guerra cibernética. Conjugado com outros processos convencionais
como observadores que usavam prédios em localidades, a artilharia de campanha
foi capaz de levantar alvos em profundidade e batê-los de forma precisa e oportuna.
Particularmente sobre os fogos de contrabateria, foi pontuado que houve
também um emprego por ambos os lados de radares que identificam a trajetória de
obuses e foguetes. Por parte dos ucranianos, foi relatada toda a dificuldade de
operação destes sistemas quando os mesmos possuem especificações aquém do
necessário. Por parte dos russos, o uso destes radares de contrabateria foi
fundamental para que a artilharia que apoiava os separatistas tivesse superioridade
no conflito, usufruindo de uma adequada liberdade de ação para atuar.
Foram levantas medidas de segurança adotadas por russos e,
principalmente, ucranianos para preservar o poder de combate de suas artilharias de
campanha. Neste contexto, foram elencadas algumas medidas quanto ao uso de
sistemas anti SARP, camuflagem das peças e instalações, além de mudanças
freqüentes de posição para evitar fogos de contrabateria.
Por fim, dentro das particularidades do conflito moderno, foram observados
alguns desafios nas comunicações rádio por parte dos ucranianos por conta da
guerra eletrônica inimiga. Aspectos semelhantes ocorreram com sistemas
informatizados da artilharia da Ucrânia que foram alvos de guerra cibernética,
provocando a busca por alternativas para a continuidade dos trabalhos como o
retorno aos métodos convencionais de cálculo de tiro.

5. A ARTILHARIA DE CAMPANHA NO EXÉRCITO BRASILEIRO

Conforme a portaria de implantação do SAC, a Artilharia de Campanha no


Exército Brasileiro passa por um momento de transformação e modernização
(BRASIL, 2019h). Neste contexto, diversos estudos têm sido feitos nos últimos anos
no intuito de levantar deficiências e definir estratégias para alcançar as capacidades
desejadas por este sistema.
32

No Plano Estratégico do Exército (PEEx 2020-2023), as principais atividades


relacionadas a este tema estão enquadradas na ação estratégica de rearticular e
reestruturar a Artilharia de Campanha (BRASIL, 2019d). Deste documento, percebe-
se que a vertente principal neste nível de planejamento é relacionada com a
adequação dos Sistemas e Materiais de Emprego Militar (SMEM).
A atualização doutrinária da Artilharia de Campanha, assim como dos demais
sistemas do EB, fica a cargo do Sistema de Doutrina Militar Terrestre (SIDOMT),
que tem como um de seus objetivos “proporcionar, por intermédio do emprego
intensivo de técnicas de investigação e estudos prospectivos, a contínua atualização
da DMT” (BRASIL, 2017, p. 9).
Usando isto como base, segue uma revisão da atual situação da Artilharia de
Campanha no Exército Brasileiro, focando nos aspectos que foram levantados como
lições aprendidas no conflito ocorrido na Ucrânia.

5.1 A ATUAÇÃO DA ARTILHARIA DE CAMPANHA CONFORME A DOUTRINA


MILITAR TERRESTRE

Um dos aspectos mais relevantes que foram levantados sobre o conflito da


Ucrânia foi sobre a organização para o combate da artilharia russa em apoio aos
grupos separatistas. No Brasil, a proporção nos escalões da Força Terrestre segue
uma média de 01 (uma) unidade de artilharia para cada 03 (três) unidades de
elementos de combate.
Este dado pode ser comprovado no manual C7-30 Brigadas de Infantaria
(1984), em que existe 01 (um) Grupo de Artilharia de Campanha (GAC) para cada
Grande Unidade, composta por 03 (três) Batalhões de Infantaria e 01 (um)
Esquadrão de Cavalaria Mecanizado. Estes números podem variar um pouco
dependendo do tipo de brigada, porém a capacidade de fogo da artilharia de
campanha orgânica mantém esta proporção.
33

FIGURA 5 - Organização de uma Brigada de Infantaria Motorizada


Fonte: C7-30 Brigadas de Infantaria (1984)

O mesmo raciocínio serve para as demais Brigadas de Infantaria e Cavalaria


do Exército Brasileiro, já que elas são o menor escalão da Força Terrestre onde se
enquadram a artilharia de campanha (2019e). O que ocorre, então, é que a grande
maioria das brigadas leves, médias e pesadas possuem um Grupo de Artilharia de
Campanha orgânico, buscando a proporção de uma Bateria de Obuses para cada
Elemento de Combate valor Unidade da GU.
No nível Divisão de Exército (DE), o escalão de artilharia de campanha que o
integra é a Artilharia Divisionária (AD). Esta estrutura possui uma organização
variável, composta por pelo menos 02 (dois) GAC. A DE é um grande comando
operativo que integra diversas brigadas, cada uma com sua artilharia orgânica.
Porém também pode receber unidades de combate, como Regimentos de Cavalaria
diretamente subordinados ao Comando da DE, que vão valer-se do apoio extra
fornecido pelos GAC da AD (BRASIL, 2020b).
34

FIGURA 6 - Exemplo de organização de uma Divisão de Exército


Fonte: EB70-MC-10.243 Divisão de Exército (2020b)

Deve-se considerar ainda que a finalidade principal dos GAC da AD não é de


apoio cerrado aos elementos em 1º escalão. A missão tática padrão destes grupos é
normalmente de Ação de Conjunto, que visa proporcionar apoio de fogo à força
como um todo, constituindo uma “reserva de fogos imediatamente disponível para o
comandante intervir no combate” (BRASIL, 2019b, p. 5-4). Apesar de poder reforçar
os fogos dos grupos orgânicos das brigadas, a AD tem como missão precípua
aprofundar o combate e realizar missões de contrabateria sobre alvos que ameaçam
à divisão em seu conjunto (BRASIL, 1994).
No estudo do conflito na Ucrânia, outra questão que foi levantada diz respeito
aos fundamentos para organização para o combate da artilharia de campanha. No
Brasil, um dos fatores que são mais levados em consideração é do controle
centralizado, caracterizado ao se atribuir as missões táticas de Apoio Geral aos
GAC orgânicos de brigada e Ação de Conjunto para os orgânicos de AD (BRASIL,
2019b). O manual EB70-MC-10.224, Artilharia de Campanha nas Operações
(2019b, p. 5-1), justifica esta postura afirmando que “a busca pela centralização
deve ser uma preocupação constante de qualquer comandante de Artilharia”.
O manual EB70-MC-10.360, Grupo de Artilharia de Campanha (2020d, p. 3-2),
orienta que a descentralização de Baterias de Obuses, caracterizada pela missão
tática de Apoio Direto ou pela situação de Reforço, só deve ser realizada quando “as
peças de manobra do escalão apoiado desenvolvem operações independentes e
distanciadas umas das outras”. Percebe-se então que a organização para o
combate da artilharia de campanha tem uma tendência de permanecer a mais
centralizada possível, descentralizando apenas quando há necessidade.
35

O mais alto escalão do componente terrestre no Teatro de Operações é o


Corpo de Exército, onde está presente a Artilharia do Corpo de Exército (ACEx). A
constituição da ACEx é variável, e o manual EB70-MC-10.244, Corpo de Exército
(2020c), traz como destaque para a artilharia neste escalão a presença dos Grupos
de Mísseis e Foguetes (GMF) e meios de busca de alvos.

FIGURA 7 - Constituição básica da Artilharia do Corpo de Exército


Fonte: EB70-MC-10.244 Corpo de Exército (2020c)

Atualmente, o EB tem mobiliado com pessoal e material dois Grupos de


Mísseis e Foguetes, sendo eles o 6º GMF e o 16º GMF, ambos localizados em
Formosa-GO. De acordo com o manual EB70-MC-10.224 (2019b, p. 2-8), este tipo
de artilharia é capaz de “engajar alvos estratégicos, nas primeiras fases do conflito;
e alvos operacionais e táticos no desenrolar da manobra”. Com isso, já é possível
perceber a grande responsabilidade que é atribuída a estas unidades.
O mesmo manual estabelece como limitação a dificuldade de manutenção de
apoio de fogo cerrado e contínuo, prejudicando sua capacidade de cumprir missões
táticas de Apoio Geral e Apoio Direto. A descentralização do comando também não
é recomendada, em virtude da necessidade de apoio logístico especializado quanto
ao suprimento de munições e manutenção a partir do 3º escalão (BRASIL, 2019b).
Desta forma, fica claro que a DMT prega pelo uso dos GMF de forma centralizada,
na missão de Ação de Conjunto nos níveis Artilharia do Corpo de Exército
(preferencialmente) ou Artilharia Divisionária.
No que tange à proporção entre os tipos de artilharia de campanha, o EB
possui hoje 28 (vinte e oito) Grupos de Artilharia de Campanha com material de
tubo, em contraste com apenas 2 (dois) Grupos de Artilharia de mísseis e foguetes,
36

resultando em uma proporção de aproximadamente uma bateria LMF para quatorze


Bia O.
Outra lição aprendida do conflito ocorrido na Ucrânia foi sobre o uso por peças
de artilharia do tiro direto em apoio à manobra. No Brasil, o que consta no manual
EB70-MC-10.224 (2019b, p. 2-3) é que uma das tarefas comuns da artilharia de
campanha é “executar tanto o tiro direto como o indireto”. O manual C6-40, Técnica
de Tiro de Artilharia de Campanha (2001), oferece esta técnica como sugestão para
bater abrigos subterrâneos, carros de combate e fortificações, quando houver
condições técnicas para tal e o efeito desejado seja a sua destruição.
Já o manual C6-140, Baterias do Grupo de Artilharia de Campanha (1995),
elenca o tiro direto como uma das possibilidades dentro da defesa da posição da
bateria, particularmente no caso carros de combate inimigos. Além da autodefesa, o
manual do GAC aborda que a técnica de tiro direto pode ser mais empregada na
artilharia de montanha, uma vez que o alvo pode estar em visada direta das peças
em virtude da topografia particular deste ambiente operacional (BRASIL, 2020d).
No entanto, pela forma que o Exército Russo emprega o Grupo de Artilharia
Anticarros, pode-se fazer uma referência às subunidades AC prevista nas Grandes
Unidades do EB. O manual EB70-MC-10.309, Brigada de Cavalaria Mecanizada
(2019c), esclarece que essas frações AC são empregadas como elementos de
apoio de fogo e não como peças de manobra, ligando-os claramente na Função de
Combate Fogos.
Apesar de não existirem atualmente, diversos aspectos doutrinários das SU AC
das Brigadas de Infantaria Mecanizada e Cavalaria Mecanizada foram debatidos no
Simpósio de Subunidades Anticarros conduzido pelo Comando Militar do Sul, tendo
ocorrido em 2020. Entre eles, pode ser citada a proposta destas SU serem dotadas
de Vtr Bld com canhões 105 ou 120 mm e mísseis AC. Outro aspecto é que o
Comandante da Cia AC ou Esqd AC seria um adjunto do Coordenador de Apoio de
Fogo de sua Brigada. Sendo assim, cabe um estudo particular sobre como o
emprego destas frações anticarros pelos russos podem contribuir no
desenvolvimento da doutrina destas OM no Brasil.
Por fim, a Ucrânia experimentou um grande número de baixas civis em
decorrência dos conflitos na sua porção leste em 2014 e 2015. Sobre este aspecto,
o Brasil é signatário de diversos tratados internacionais que tratam sobre Direitos
Humanos e Direito Internacional dos Conflitos Armados (DICA). Nesta vertente, o
37

Ministério da Defesa publicou o MD34-M-03, Manual de Emprego do DICA nas


Forças Armadas (2011), com a finalidade de ser um instrumento normativo de
difusão, estudo e consulta sobre o tema para os militares.
Por este motivo, diversos manuais do Exército Brasileiro abordam sobre a
necessidade de respeitar o DICA em todas as situações. Isto pode ser justificado
tanto em respeito aos compromissos internacionais assumidos pelo País, como pela
importância das considerações civis no planejamento do comandante. Partindo
desta premissa, o manual EB70-MC-10.360 (2020d) reforça a importância dos
comandantes planejarem e conduzirem as operações buscando reduzir ao máximo
as perdas e danos à população civil.

5.2 OS MATERIAIS DA ARTILHARIA DE CAMPANHA DO EXÉRCITO BRASILEIRO

Neste item são apresentados alguns materiais de artilharia de campanha em


uso no EB a título de comparação com os que foram identificados no conflito da
Ucrânia. O enfoque é para os SMEM mais modernos que a Força Terrestre possui.
Com relação aos obuseiros, o que há de mais moderno no Exercito Brasileiro é
a Viatura Blindada de Combate Obus Autopropulsada (VBCOAP) M 109 A5+ BR,
adquirida da empresa norte-americana BAE Systems em 2016.

FIGURA 8 – VBCOAP M109 A5+ BR realizando os primeiros tiros no Brasil.


Fonte: [Link]
38

Este material veio para mobiliar o 3º e o 5º GAC AP, orgânicos das brigadas
blindadas, e está inserido no Subprograma SAC. Possui diversos recursos
modernos como radar de medição de velocidade inicial, bloqueadores remoto de
tubo, navegação inercial, sistema digital de direção de tiro e rádios digitais (ALVES
et al, 2018).
O alcance máximo da VBCOAP M109 A5+ BR é de 22 km, podendo chegar a
30 km com munição assistida e até 40 km com a M982 Excalibur2. Cabe ressaltar
que o EB não possui atualmente nem a munição assistida e nem a Excalibur,
havendo apenas a previsão de alguns tipos de munições que permitem incrementar
o alcance convencional dos obuseiros em manuais como no C6-40 Vol II (2001).
No que tange aos lançadores de mísseis e foguetes, o Brasil destaca-se pela
fabricação do Sistema Astros pela empresa nacional Avibras. Trata-se de um
material moderno e versátil, que utiliza diversos tipos de foguetes de características
complementares, podendo bater alvos até 85 km.

FIGURA 9 – Vtr LMF Astros II MK-6.


Fonte: [Link]

2
A M982 Excalibur é uma munição 155mm fabricada pelas empresas Raytheon e pela BAE System,
com guiamento feito por GPS.
39

Também já estão em fase final de desenvolvimento dois projetos inseridos no


Programa Estratégico ASTROS 2020, gerenciado pelo Escritório de Projetos do
Exército. Um deles é o míssil de cruzeiro MTC, com capacidade para ser lançado do
mesmo sistema Astros. Ele tem previsão de ser guiado por GPS e bater com
precisão alvos a 300 km de distância. O segundo é o foguete SS-40 Guiado, que
busca uma letalidade seletiva por meio de uma maior precisão (BRASIL, 2014).
Outro aspecto observado foi o uso de munições termobáricas. O
funcionamento destas munições faz com que elas tenham um poder de destruição
muito maior do que outras de mesmas dimensões, tendo em vista utilizarem em sua
composição uma proporção maior de combustível. Isto ocasiona uma grande
capacidade de gerar calor e pressão, sendo particularmente eficiente contra
fortificações e túneis (WILDEGGER-GAISSMAIER, 2003).
Apesar do crescimento no uso desse tipo de munição ao redor do mundo,
particularmente para artilharia de campanha e aviação, o Brasil ainda não possui
este material. A única referência que foi encontrada sobre o material foi que a Arma
Leve Anticarro (ALCA) que está sendo produzida no país tem como requisito
operacional desejável “permitir a utilização de munição termobárica”, indicando o
interesse do Ministério da Defesa nesta tecnologia (BRASIL, 2012).

5.3 A BUSCA DE ALVOS DA ARTILHARIA DE CAMPANHA DO EXÉRCITO


BRASILEIRO

A busca de alvos é um importante processo para o sistema da artilharia de


campanha. É definida pelo C6-121 como:

É a parte das informações de combate que tem por fim a pronta detecção,
identificação e localização precisa, em três dimensões, de um alvo, com
pormenores suficientes para que seja eficazmente batido pelas armas.
(BRASIL, 1978, p. 1-1).

O manual EB70-MC-10.224, Artilharia de Campanha nas Operações (2019b, p.


3-2) elenca diversos meios para cumprir esta tarefa, dentre eles, “análise de
crateras, localização pelo som, análise de imagens de satélites, informes, radares,
SARP, observadores aéreos, observadores avançados e postos de observação”.
No Brasil, está prevista a existência de uma Bateria de Busca de Alvos (Bia
BA) na Artilharia Divisionária (BRASIL, 1994) e um Grupo de Busca de Alvos (GBA)
40

na Artilharia do Corpo de Exército (BRASIL, 2020c). Entretanto, ainda não existe


uma organização militar no EB para esta finalidade.
Existe, todavia, projetos para que uma OM de Busca de Alvos seja criada. O
Plano Estratégico do Exército 2020-2023 prevê implantar a Bia BA do Comando de
Artilharia do Exército em Formosa-GO e a Bia BA da Artilharia Divisionária/3 em
Cruz Alta-RS (BRASIL, 2019d).
Dentro do Subprograma SAC, existe também a previsão de dotar o subsistema
Busca de Alvos com meios adequados. Isto é perceptível ao incluir no Plano de
Obtenção de Capacidades Materiais os SARP e os radares para equipar a Bia BA
(BRASIL, 2019h), dois equipamentos fundamentais para o desenvolvimento desta
capacidade.
Neste sentido, observa-se que o Exército tem avançado na área com a
aprovação dos Requisitos Técnicos, Logísticos e Industriais do Radar de
Contrabateria do Sistema de Artilharia de Campanha pela Portaria Nº 007-EME, de
11 de Janeiro de 2019. Dentre diversas outras características, este documento
estabelece como Requisito Técnico Absoluto (RTA)3 que o radar contrabateria tenha
a capacidade de detecção maior ou igual a 80% (oitenta por cento) nas seguintes
condições (BRASIL, 2019f):
- Para granadas de morteiro de menor calibre, à distância de até 10 km.
- Para granadas de morteiro de maior calibre, à distância de até 18 km.
- Para obuses de menor calibre, à distância de até 25 km.
- Para obuses de maior calibre, à distância de até 40 km.
- Para foguetes de menor calibre, à distância de até 45 km.
- Para foguetes de maior calibre, à distância de até 50 km.
Outros avanços são perceptíveis quanto aos SARP, um dos sistemas mais
importantes na Busca de Alvos atualmente. De acordo com o manual EB70-MC-
10.214, Vetores Aéreos da Força Terrestre (2020a, p. 4-8), o emprego dos SARP
pode contribuir para “realizar reconhecimentos” e “localizar e ajudar a determinar a
composição, a disposição e atividade da força inimiga”. O documento ainda
descreve o papel preponderante dos SARP dos elementos de busca de alvos da
Artilharia para a Aquisição de Alvos em profundidade e que tenham sido
estabelecidos como prioritários pelo comandante da força (BRASIL, 2020a).

3
Requisitos Técnicos Absolutos são “requisitos indispensáveis e incontestáveis que, se não forem todos
alcançados, tornam o material inaceitável pelo Exército” (BRASIL, 2019f, p. 10).
41

No Brasil, os SARP são divididos de acordo com parâmetros de desempenho,


sendo cada categoria associado a diferentes elementos de emprego, conforme
abaixo:

FIGURA 10 – Categoria dos SARP para a F Ter.


Fonte: BRASIL, 2020a, p. 4-5

Ainda pelo manual EB70-MC-10.214, alguns empregos típicos dos SARP, que
são afetos à Artilharia de Campanha, foram relacionados como possíveis para todas
as categorias existentes, sendo elas (BRASIL, 2020a, p. 4-9):
- “Localização de Alvos (determina as coordenadas dos alvos)”;
- “Observação aérea”; e
- “Apoio de fogo, realizando a observação e a condução do tiro”.
Cabe ressaltar que o PEEx 2020-2023 já vem contemplando a obtenção de
SARP até a categoria 2, sendo o de categoria 1 previsto para ser desenvolvido pelo
Departamento de Ciência e Tecnologia (BRASIL, 2019d).
Para o SARP Cat 2, os RTA elencados pelo EB20-RTLI-04.053 (2019g)
estabelecem que ele deve ter autonomia para sobrevoar uma área de interesse
durante o mínimo de 24h e distante até 50 km do ponto de lançamento.
Dessa forma, pode-se presumir que o EB terá em um futuro próximo grande
evolução neste subsistema, tão logo seja concretizada a implementação das Bia BA
e aquisição dos radares de contrabateria e SARP.
Quanto à possibilidade de alvos serem levantados pela Guerra Cibernética ou
Guerra Eletrônica (GE), este é um tema que deve ser mais bem explorado em
trabalhos futuros. O presente estudo limitou-se a verificar que é uma capacidade
42

existente para a GE, enquadrada dentro da ação de Localização Eletrônica (Loc Elt),
sendo uma Medida de Apoio de Guerra Eletrônica (BRASIL, 2019a). Entretanto, o
próprio manual de Guerra Eletrônica na Força Terrestre (2019a) explana que o grau
de exatidão depende de uma série de fatores, e não foram encontrados dados e
nem relatos concretos que possíveis alvos levantados pela GE brasileira possuem a
precisão necessária para a realização de fogos indiretos.
Por fim, uma peculiaridade que foi encontrada sobre condução de fogos em
ambiente urbano na Ucrânia foi o emprego de observadores de artilharia em
andares mais elevados de prédios. Tal procedimento é sugerido em manuais
brasileiros como o EB70-MC-10.303, Operação em Área Edificada, onde sugere-se
que “telhados e andares superiores de edifícios, estádios, torres ou outras estruturas
podem ser usados para observação” (BRASIL, 2018, p. 6-5).

5.4 OS FOGOS DE CONTRABATERIA NO EXÉRCITO BRASILEIRO

Os fogos de contrabateria são uma das atividades doutrinárias da Artilharia de


Campanha (BRASIL, 2019b). Estão enquadrados pela classificação de fogos
segundo o emprego, e são desencadeados com a finalidade de “neutralizar os
meios de apoio de fogo indireto do inimigo, compreendendo os morteiros e a
artilharia de tubo, de mísseis e de foguetes” (BRASIL, 2017, p. 2-4).
Apesar de ser uma missão de todos os escalões de artilharia, o planejamento
da contrabateria é geralmente executado no nível AD, por englobar meios de busca
de alvos e unidades de tiro com capacidade de aprofundar o combate e aumentar o
apoio de fogo orgânico das Grandes Unidades (BRASIL, 1994).
Um fator que favorece a atividade de contrabateria consiste nas características
dos obuseiros disponíveis para isso. Neste contexto, um alcance superior às armas
do inimigo, um amplo setor de tiro e a capacidade de cumprir missões com rapidez é
um diferencial para buscar uma vantagem sobre o inimigo.
Quando bem planejada, a contrabateria pode contribuir para que a Força
obtenha a superioridade sobre a artilharia inimiga. Para tal, o Oficial de Inteligência
(E2) e o Oficial de Contrabateria (Adj E2) da AD, juntamente com o Oficial de
Operações (E3) que coordena o emprego dos meios existentes, executam diversas
atividades visando “a localizar, a identificar e a atacar” as armas de apoio de fogo do
inimigo (BRASIL, 1994, p. 5-10).
43

Após o Exame de Situação do Cmt de Artilharia, serão emitidas diretrizes


quanto aos fogos de contrabateria. Dois importantes aspectos são a norma de fogos
e o critério a ser adotado. O primeiro refere-se ao “grau de liberdade para
desencadear fogos, concedido pelo comandante da Artilharia aos seus grupos”
(BRASIL, 1978, p. B-2).
Já o critério é uma orientação do Cmt para o Oficial de Contrabateria de
quando uma localização das armas inimigas deva ser considerada como suspeita ou
confirmada. Tanto a norma de fogos quanto o critério irão constar nas Ordens de
Operações, sendo a escolha de cada um deles dependente da análise dos fatores
da decisão. Dentre eles, deve ser avaliada a missão da tropa apoiada, os meios
disponíveis para contrabateria, bem como a matriz doutrinária do inimigo e suas
possibilidades (BRASIL, 1978).
Cabe ressaltar que a atividade de busca e análise de alvos é fundamental para
a execução de contrabateria. No caso estudado no capítulo anterior, foi visto que
esta foi uma das deficiências da artilharia ucraniana, uma vez que eles
apresentaram limitações em seus radares de contrabateria. Este fato contribuiu para
que a artilharia russa tivesse superioridade no conflito, limitando o apoio de fogo das
tropas ucranianas.
No Exército Brasileiro, percebe-se que a falta de uma OM de busca de alvos e
de meios apropriados, somado à dificuldade de realizar exercícios de dupla ação
com artilharia de campanha, ocasiona a falta de prática da atividade de
contrabateria no ano de instrução. Tendo em vista a importância desta atividade nas
operações de guerra, cabe um estudo mais aprofundado sobre formas de se mitigar
o problema.

5.5 AS MEDIDAS DE SEGURANÇA PREVISTAS NO EXÉRCITO BRASILEIRO

A artilharia de campanha elenca a segurança como um dos seus princípios de


emprego (BRASIL, 2019b). O manual EB20-MF-10.102 traz a definição deste
princípio de guerra conforme abaixo:

SEGURANÇA - consiste nas medidas essenciais à liberdade de ação e à


preservação do poder de combate necessário ao emprego eficiente da F
Ter, tendo por finalidades: negar ao inimigo o uso da surpresa e do
monitoramento; impedir que ele interfira de modo decisivo em nossas
44

operações; e restringir-lhe a liberdade de ação nos ataques a pontos


sensíveis do nosso território ou de nossas forças. (BRASIL, 2019e, p. 5-3).

Como foi visto no caso estudado, a artilharia ucraniana teve que adotar uma
série de medidas de segurança visando a proteger o seu poder de combate. Neste
contexto, a DMT brasileira prevê que a distância da linha de contato (LC) é um dos
fatores de escolha de Regiões de Desdobramento para os GAC (BRASIL, 2020d).
Naturalmente, um dos aspectos a ser considerado é o alcance da artilharia inimiga e
suas possibilidades, que vão influenciar diretamente na capacidade do oponente de
realizar contrabateria nas nossas tropas.
Para os conflitos na porção leste da Ucrânia, a utilização de bases de fogos em
território russo só foi possível por conta da situação particular que se apresentou na
ocasião. Entretanto, o alcance dos obuseiros e dos LMF da artilharia russa teve
papel fundamental nesta decisão, corroborando com a busca constante por
materiais de artilharia que atinjam alvos cada vez mais distantes, materializado no
Brasil pela aquisição recente da VBCOAP M109 A5+ BR e pelo desenvolvimento do
MTC. Além de inúmeras outras vantagens, estes equipamentos dão maior liberdade
para os Cmt de artilharia escolherem suas posições de forma a atender não apenas
a continuidade do apoio de fogo, mas também o princípio da segurança,
particularmente na situação em que os nossos materiais de artilharia tenham maior
alcance que os do inimigo.
A preocupação com fogos inimigos reflete também na escolha do processo de
mudança de posição. O EB70-MC-10.360 elenca os processos 1-1-1, 1-1-1-1 e por
unidade como sendo os mais adequados quando se visa à segurança (2020d). O
mesmo manual descreve os processos por escalões de subunidade 1-1-1 e 1-1-1-1
(no caso de GAC quaternário) como sendo aqueles em que é deslocada apenas
uma Bateria de Obuses (Bia O) por vez, permitindo também um maior apoio de fogo
durante todo o processo de mudança de posição.
A formação de mais de dois escalões de subunidade para as mudanças de
posição lembram o processo adotado pela artilharia ucraniana para proteger-se dos
fogos de contrabateria russos. Entretanto, cabe a ressalva que naquele conflito foi
dada uma atenção especial para a atividade de remuniciamento, onde em uma
situação apresentada havia apenas uma bateria atirando, enquanto duas estavam
se deslocando e três recarregando.
45

De qualquer forma, uma premissa que atende qualquer situação é que caso o
inimigo disponha de meios de detecção para busca de alvos, bem como capacidade
de realizar contrabateria com eficácia, as mudanças de posição devem ser mais
freqüentes para atender o fundamento da segurança (BRASIL, 2019b).
Outra adaptação necessária foi nas medidas de proteção contra SARP. No
Brasil, a autodefesa antiaérea da Bia O prevê o uso de vigias de ar e metralhadoras
(BRASIL, 1995). Neste sentido, é importante que as “Normas Gerais de Ação (NGA)
para emprego de armas não especificamente antiaéreas” (BRASIL, 1995, p. 4-10)
contemplem as regras de engajamento e particularidades dos SARP, tendo em vista
que este sistema tem sido cada vez mais empregado nos combates modernos.
Há que se considerar ainda que o GAC e suas Bia O podem estar sendo
defendidas por uma fração de Artilharia Antiaérea, dentro das prioridades
estabelecidas pelo Cmt do escalão enquadrante. Nesta situação, cabe à AAAe
utilizar seus meios para neutralizar esta ameaça aérea. Diversas estudos estão
sendo feito nesse sentido, e o tema está sendo discutido em eventos como o II
Simpósio de Defesa Anti SARP 4, realizado entre 29 JUN 21 e 1º JUL 21, na Escola
de Artilharia de Costa e Antiaérea (EsACosAAe). Portanto, não há duvidas que a
dinâmica dos combates atuais exige uma proteção efetiva contra o emprego de
SARP, particularmente quando empregado para o levantamento de posições de
artilharia.
Uma medida passiva que provou ser relevante no cenário ucraniano foi a
camuflagem. No EB, a artilharia de campanha considera este aspecto como
fundamental para a segurança na escolha de qualquer instalação do GAC, incluindo
o Posto de Comando, Área de Trens e posições de Bia O. Fruto disso, a
camuflagem é um dos fatores no processo de comparação das linhas de ação
dentro do exame de situação do GAC (BRASIL, 2020d).
O EB como um todo tem se atentado para este aspecto de segurança, tendo
feito estudos para adquirir redes de camuflagem multiespectral ULCAS. Este
material está sendo testado pela 12ª Cia E Cmb L em caráter experimental5 desde
2019 e tem como vantagens proteger das vistas, bem como de radares terrestres,
visão termal e demais equipamentos de visão noturna.
4
Informações disponíveis em: [Link]
simposio-de-defesa-anti-sarp.
5
Informações disponíveis em: [Link]
engenharia-de-combate-leve-realizado-o-emprego-das-redes-de-camiuflagem-multiespectral-ulcas.
46

A Guerra Eletrônica é outra preocupação constante nos combates modernos. A


utilização crescente de equipamentos eletrônicos no campo de batalha deixou a
tropa cada vez mais vulnerável às Medidas de Ataque Eletrônico (MAE) e Medidas
de Apoio de Guerra Eletrônica (MAGE) (BRASIL, 2019a).
No GAC, o Oficial de Comunicações é o principal assessor do Cmt para
instalação, exploração e manutenção das comunicações necessárias ao
cumprimento da missão. O manual EB70-MC-10.360 (2020d, p. 14-13) prevê que o
Centro de Comunicações do GAC deverá ser capaz de “transmitir dados, com
segurança e confiabilidade, mesmo em um ambiente de Guerra Eletrônica.” Levanta
ainda a possibilidade de emprego do fio somente em um ambiente que a GE esteja
impossibilitando o uso do meio rádio.
Dessa forma, entende-se que o Comando e Controle é um aspecto
fundamental nas operações, devendo ser mantido a todo custo. Em um contexto em
que as técnicas e equipamentos de GE estão em constante evolução, é lícito
concluir que os militares do GAC devem estar em permanente capacitação e com
meios modernos para se protegerem de um inimigo com capacidade de GE.
Neste mesmo contexto, um último aspecto que foi levantado no conflito da
Ucrânia foi a freqüente degradação de sistemas informatizados utilizados na
artilharia por conta não só da guerra eletrônica, mas também da guerra cibernética
dos russos. Em uma situação em que as capacidades do inimigo nestas áreas
excedem as que o Brasil tem de proteção, pode ser que uma das únicas alternativas
seja o uso de métodos não-eletrônicos, também chamados de convencionais, para
continuar cumprindo as missões da artilharia de campanha.
O Brasil tem buscado a necessária modernização da sua artilharia por meio do
desenvolvimento de sistemas informatizados que permitem a digitalização dos
processos, com ganho relevante de precisão e rapidez nas missões de tiro (ALVES
et al, 2018). Ressalta-se a importância do Sistema Gênesis, desenvolvido pela
Indústria de Material Bélico do Brasil (IMBEL), e da recente aquisição de obuseiros
M109A5 e M109A5+BR, que criaram as condições para reunir esforços na
integração dos subsistemas de artilharia de campanha de forma eletrônica,
permitindo a execução do 1º tiro digital realizado pelo EB em julho de 20216.

6
Informações disponíveis em: [Link]
brasileiro/.
47

Essas importantes iniciativas estão em andamento por meio de projetos como


o de Modernização das Viaturas Blindadas de Combate Obuseiro Autopropulsado
M109A5, publicado pela Portaria – EME/C Ex Nº 425, de 29 de junho de 2021.
Entretanto, a lição aprendida no caso estudado mostra que o conhecimento dos
métodos convencionais, além de diversas outras aplicações, pode ser muito
importante em combates futuros quando houver degradação do espectro
eletromagnético.
Neste sentido, a formação do oficial de artilharia na Academia Militar das
Agulhas Negras continua com a preocupação de ensinar os métodos convencionais
para cálculos na Central de Tiro e Topografia, ao mesmo tempo em que também
contempla o uso de equipamentos digitais (BRASIL, 2021). Dessa maneira,
percebe-se que o crescente uso de meios informatizados na artilharia de campanha
ainda não extinguiu o interesse em dominar o conhecimento de como realizar o
cálculo utilizando materiais convencionais, o que pode se constituir como uma
vantagem em conflitos futuros.

5.6 CONCLUSÕES PARCIAIS SOBRE OS ASPECTOS LEVANTADOS SOBRE A


ARTILHARIA DE CAMPANHA NO EXÉRCITO BRASILEIRO

Dentro dos objetivos propostos por este trabalho, verificou-se a necessidade


de levantar aspectos sobre a Artilharia de Campanha do Exército Brasileiro, de
forma a verificar a atual situação e suas perspectivas para os próximos anos. Neste
sentido, buscou-se usar como critério os mesmos tópicos observados como
oportunidades de melhoria no Conflito da Ucrânia, de forma a servir como
comparação.
Sobre a atuação da artilharia de campanha conforme a DMT, foi levantada a
proporção média de 1 (um) GAC para cada 3 (três) unidades de Elm Cmb nas GU
do Exército Brasileiro, podendo contar ainda com mais alguns GAC pertencentes às
AD para complementar o apoio de fogo em operações. Outra consideração é que
existe uma tendência de estabelecer missões de Ap G e Ap Cj para os GAC,
seguindo dois fundamentos da organização para o combate da artilharia de
campanha, o controle centralizado e apoio de fogo disponível para intervir no
combate (BRASIL, 2019b).
48

Quanto ao emprego de mísseis de foguetes, encontrou-se que a proporção


média é que existem no Brasil 1 (uma) Bia LMF para cada 14 (quatorze) Bia O. Além
disso, considera-se que a subordinação mínima desses meios LMF seria para uma
Divisão de Exército.
Na pesquisa feita sobre tiro direto, percebeu-se que esta técnica é utilizada
de forma bastante pontual, e serve basicamente para missões de autodefesa e de
destruição. Entretanto, foram também levantados aspectos interessantes sobre o
emprego das SU AC nas brigadas de infantaria e cavalaria, identificando diversos
pontos ligando estas subunidades à função de combate Fogos.
Por fim, foi identificado também a grande preocupação da artilharia brasileira
quanto ao respeito do DICA, sendo uma condicionante de elevada importância para
o planejamento de fogos no EB.
No que tange aos materiais da Artilharia de Campanha do Exército Brasileiro,
nota-se que existem diversos projetos que buscam modernizar a Força Terrestre em
seus meios de apoio de fogo. O SAC vem possibilitando a aquisição de obuseiros
M109 A5+ BR, um armamento de última geração que coloca o Brasil em excelentes
condições contra possíveis ameaças, particularmente pelo aumento em alcance,
possibilidade de utilização de munições especiais, navegação inercial e sistema
digital de direção de tiro.
Já o projeto ASTROS 2020 possibilitou a modernização da frota de
lançadores múltiplos de foguetes, bem como possibilitou a criação de um Comando
da Artilharia do Exército com dois GMF e diversas outras unidades de apoio. Está
também em fase final de desenvolvimento o SS-40 Guiado e o MTC, que irão inserir
o Brasil em um seleto grupo de países que possuem estas capacidades.
Com relação a munições, observou-se que a termobárica possui um poder de
destruição potencializado pela quantidade de combustível presente em sua
composição. Apesar do crescente uso desta tecnologia no mundo pela artilharia e
aviação, o Brasil ainda não possui esse armamento.
O estudo do subsistema busca de alvos apontou uma série de aspectos que
demandam atenção. Inicialmente, foi levantada a diretriz para a criação de duas Bia
BA no PEEx 2020-2023, bem como a aquisição de SARP e de radares de
contrabateria para a obtenção desta capacidade.
Os requisitos previstos para estes materiais são coerentes com os
armamentos que o EB possui, sendo o radar de contrabateria capaz de detectar
49

alvos à distância de até 40 km para obuses de maior calibre, e até 50 km para


foguetes de maior calibre, e o SARP Cat 2 de sobrevoar áreas de interesse por 24 h
à distância de 50 km do seu ponto de lançamento.
Sobre o levantamento de alvos por GE ou G Ciber, as informações
encontradas é que estas não são, no momento, opções existente no EB. As
informações sobre a precisão das coordenadas levantadas pelas ações de Loc Elt
da GE são escassas e não foi possível identificar se os dados com os meios de
material e pessoal existentes seriam úteis para a Art Cmp. O mesmo vale para a G
Ciber, onde as fontes são ainda mais difíceis de encontrar quanto a capacidade dele
enquadrar-se como um meio de auxiliar na busca de alvos, apesar das
possibilidades deste meio serem muito amplas.
Abordou-se ainda sobre observadores em ambiente urbano, verificando que
no Brasil esse procedimento já existe nos manuais, sendo descrita a possibilidade
de ocupação de postos de observação no alto de prédios, por conta das restrições
de visibilidade em virtude das construções em áreas edificadas.
No tocante aos fogos de contrabateria, o que se percebe é que a teoria existe
nos manuais, porém nem sempre é aplicada em exercícios no terreno. A falta de
materiais para busca de alvos e a dificuldade de planejar adestramentos de dupla
ação prejudicam o desenvolvimento de doutrina e a prática dessas técnicas. É
importante estar atento a esta possível deficiência, uma vez que a capacidade de
realizar fogos de contrabateria com oportunidade e precisão é fundamental para
obtenção de superioridade de fogos sobre o adversário.
No item sobre medidas de segurança adotadas pela artilharia de campanha,
ressalta-se a busca constante por materiais com alcances cada vez maiores, de
forma a conseguir posicionar suas peças para apoiar os elementos de combate em
contato, ao mesmo tempo em que atende as distâncias de segurança para a
artilharia inimiga.
Em situações em que o inimigo conta com fogos eficientes de contrabateria,
cresce de importância a escolha de um processo de mudança de posição que
permita manter a continuidade do apoio de fogo, bem como diminuir o tempo de
exposição das baterias ao fogo do inimigo. Para isso, os manuais brasileiros
contemplam processos de mudança de posição mais freqüentes para atender o
fundamento da segurança.
50

A evolução tecnológica trouxe meios para aumentar a capacidade de busca


de alvos, sendo o SARP um dos mais relevantes atualmente. A existência deste
vetor vem alertando o EB para buscar formas de neutralizar esta ameaça, com
estudos sendo feitos por militares da especialidade de artilharia antiaérea.
Paralelamente, medidas passivas para furtar-se dessa observação estão sendo
adotadas, inclusive com o uso de redes de camuflagem multiespectral.
Finalmente, a Artilharia de Campanha do EB tem se atentado para as
ameaças tecnológicas da Guerra Eletrônica e da Guerra Cibernética, sabendo que
seus adversários podem criar um ambiente de degradação do espectro
eletromagnético. Para isso, demonstra preocupação em possuir equipamentos de
Comando e Controle modernos e com recursos de MPE para proteger seus
sistemas informatizados. Ao mesmo tempo, continua contemplando o uso de
técnicas convencionais para os cálculos de tiro, de forma a manter a capacidade de
cumprir missão com o mínimo de meios eletrônicos.

6. CONCLUSÃO

Este trabalho abordou o emprego da artilharia de campanha no Conflito da


Ucrânia, buscando ressaltar aspectos que poderiam contribuir para o
desenvolvimento da Doutrina Militar Terrestre do Brasil. O estudo de caso realizado
por meio de pesquisa bibliográfica e documental revelou que a delimitação do tema
foi oportuna, tendo em vista a quantidade de ensinamentos colhidos que foram
levantados sobre esta arma de apoio ao combate.
O objetivo geral estabelecido para este estudo foi de propor melhorias para a
Artilharia de Campanha Brasileira, tendo como referência o conflito em questão. Isto
foi atingido na medida em que eram respondidos os objetivos específicos, que
permitiram seguir uma sequência lógica de raciocínio.
Inicialmente, foram estudados os antecedentes e a forma como se
desenvolveram as ações militares no Conflito da Ucrânia. Este item foi importante
para afirmar a relevância dos atores envolvidos e do papel que a artilharia exerceu
nas ações militares, tendo em vista os meios e as táticas modernas empregadas
particularmente pela Rússia.
Posteriormente, foram levantadas as principais lições aprendidas no emprego
da artilharia de campanha no conflito estudado, etapa fundamental para identificar
51

pontos fortes, dificuldades e inovações observadas por ambos oponentes. Estes


ensinamentos foram divididos entre a atuação da artilharia de campanha, os
materiais de artilharia utilizados, a busca de alvos, os fogos de contrabateria e as
diversas medidas de segurança adotadas para reduzir as ameaças existentes.
Finalmente, foi realizada uma breve revisão da atual situação da Artilharia de
Campanha Brasileira, focando nos aspectos relacionados com os ensinamentos
levantados no item anterior, de forma a confrontar as tendências de
desenvolvimento da DMT com as práticas observadas na Ucrânia. Deste estudo
comparativo foi possível confeccionar o ANEXO A – Quadro resumo de lições
aprendidas – com algumas idéias relevantes já categorizadas pelos aspectos
abordados.
Em que pese que os países envolvidos no Conflito da Ucrânia terem
características muito distintas comparadas com as do Brasil, foi visto que o emprego
da artilharia nesse confronto vem sendo utilizada como uma referência por muitos
exércitos, inclusive diversos pertencentes à OTAN, como uma projeção para
conflitos futuros. Neste sentido, algumas propostas para a melhoria da DMT foram
elencadas, respeitando as características brasileiras e as tendências que já estão
em curso por meio de programas estratégicos do EB.
No geral, conclui-se que boa parte das modernizações recentes na Artilharia
de Campanha Brasileira em termos de material, muitas delas incentivadas pelo
Subprograma Artilharia de Campanha (SAC), estão alinhadas com ensinamentos
colhidos na Ucrânia. A recente aquisição do Obuseiro M109A5+BR e a prioridade
dada ao projeto ASTROS 2020 demonstram que o Brasil vem buscando alcançar o
estado da arte nesse aspecto, com materiais dotados de grande alcance e
tecnologia agregada, permitindo fogos mais rápidos e precisos.
Nota-se também uma preocupação em obter o quanto antes a capacidade de
realizar busca de alvos, fator extremamente relevante no Conflito da Ucrânia. Isso
fica evidente com o PEEx 2020-2023 prevendo a implantação de duas Bia BA e
aquisição de radares de Contrabateria e SARP, ambos com especificações
adequadas para o combate moderno e para a realidade brasileira, permitindo
levantar alvos com precisão a dezenas de quilômetros de distância.
Pode-se dizer ainda que muitas medidas de segurança adotadas na Ucrânia já
estão previstas na doutrina brasileira, como a possibilidade de realizar mudanças de
posição com agilidade, a camuflagem das peças e dos órgãos, a utilização de
52

equipamentos rádio com recursos de proteção eletrônica (MPE) e a capacidade de


executar técnicas convencionais para cálculos de tiro em caso de interferência
inimiga em sistemas eletrônicos. Ao mesmo tempo, o Brasil já demonstra
preocupação em desenvolver soluções para impedir o uso de SARP pelo inimigo,
um perigoso vetor capaz de identificar e conduzir fogos sobre as posições de
artilharia.
Por outro lado, verifica-se que muitas oportunidades de melhoria para DMT
estão no aspecto da atuação da artilharia de campanha conforme observado na
Ucrânia. A organização para o combate em que elementos de artilharia chegam a
apoiar os elementos de combate na proporção de um para um, bem como a maior
descentralização dos meios de artilharia visando à agilidade no cumprimento das
missões em proveito da manobra, são aspectos que podem ser mais explorados em
manuais doutrinários e temas escolares no Brasil. Naturalmente, isso não significa
que os fundamentos de emprego da artilharia conforme os manuais brasileiros
devem ser relegados. Pelo contrário, deve apenas considerar uma maior
flexibilidade no planejamento, sempre respeitando os fatores da decisão, no sentido
de buscar uma melhor solução para os problemas militares apresentados.
Este estudo aponta que o mesmo pensamento serve também para o emprego
de LMF, onde os ensinamentos colhidos na Ucrânia indicam que há espaço para um
incremento no uso deste tipo de material. O amplo emprego de foguetes no conflito
estudado mostrou o ganho em poder de fogo para os diversos escalões, sendo
muitas vezes o fator de desequilíbrio em favor dos russos. Neste sentido, cabe
ressaltar a importância do programa ASTROS 2020, bem como a vantagem deste
material ser moderno, flexível e de fabricação nacional.
Ainda no campo da atuação da artilharia, foi observado um aspecto
interessante quanto ao uso do tiro direto. Esta missão foi bastante empregada por
ambos os lados do conflito, valendo-se de materiais de artilharia para atuar como
armas anticarro, com um visível enquadramento na Função de Combate Fogos.
Esta tarefa remete a lacuna das subunidades AC na doutrina brasileira, que ainda
não possui OM deste tipo. Dentro dos esforços do EB em operacionalizar estas
frações, a experiência de países que já as empregam pode contribuir para chegar a
uma melhor configuração em termos de material, pessoal e doutrina.
Em termos de material, cabe o estudo dos ganhos em desenvolvimento de
munições termobáricas, uma tecnologia em crescimento e que permite aumentar a
53

letalidade de foguetes e granadas convencionais. Naturalmente, aspectos do Direito


Internacional dos Conflitos Armados devem ser levados em consideração.
Entretanto, é uma possibilidade que tem potencial para aumentar o poder de fogo da
artilharia de campanha, assim como foi visto nos conflitos da Ucrânia.
Talvez os ensinamentos mais relevantes sejam em termos de equipamentos e
técnicas para a busca de alvos. Como já foi abordado, unidades com esta finalidade
já estão em projeto de implementação. Entretanto, é fundamental que esta
capacidade seja desenvolvida o quanto antes e que a Artilharia de Campanha
Brasileira adquira condições de identificar alvos e conduzir fogos de artilharia
utilizando SARP e radares de contrabateria, por exemplo. Além disso, investir
também na integração dos dados com a guerra eletrônica e guerra cibernética, de
forma a viabilizar que o subsistema busca de alvos possa utilizar-se de informações
provenientes de meios cada vez mais tecnológicos. Estas capacidades iriam, sem
dúvidas, elevar o poder de combate da Artilharia de Campanha Brasileira frente às
ameaças que surgirem.
Aliado a isso, é de grande importância que se pratique em exercícios os fogos
de contrabateria, de forma a adestrar os envolvidos nos procedimentos que
envolvem este tipo de atividade. Tanto a simulação virtual quanto a viva pode
contribuir neste sentido, permitindo que este subsistema da artilharia de campanha
esteja preparado para cumprir esta missão de tamanha relevância para obtenção da
superioridade de fogos sobre o adversário.
Desta forma, guardadas as ressalvas em virtude da diferente realidade do
Exército Brasileiro em relação aos empregados no Conflito da Ucrânia, acredita-se
que o presente estudo apresentou diversas melhorias para a Artilharia de
Campanha Brasileira, bem como reforçou algumas tendências que já estão em
andamento por meio de seus projetos estratégicos.
Sugere-se ainda um estudo mais aprofundado sobre alguns temas levantados,
como o desenvolvimento de munições termobáricas, da relação das SU anticarros
com a Função de Combate Fogos, bem como a integração de todas as capacidades
disponíveis para busca de alvos e fogos de contrabateria.
Por fim, os aspectos levantados neste estudo servem para reforçar a
necessidade dos militares estarem sempre atentos às evoluções em termos de
materiais e doutrinas nos conflitos mundiais. Essa premissa básica deve nortear
qualquer força armada que busque cumprir a sua missão de defesa perante
54

ameaças externas, devendo modernizar-se constantemente para garantir a


superioridade sobre seus oponentes.
55

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of-thermobaric-weaponry. Acesso em: 22 ago 2020.
59

ANEXO A – Quadro resumo de lições aprendidas

EXÉRCITO
CONFLITO UCRÂNIA
ASPECTO ENSINAMENTO BRASILEIRO
(2014-2015)
(2021)
Rússia utilizando
Organização para Proporção Média 1:3 entre
proporção de cerca de 1:1
o combate Elm Cmb e Artilharia.
entre Elm Cmb e Artilharia.
Maior grau de
Grande tendência a
Missões Táticas centralização sempre que
descentralização.
possível.
Bia LMF apoiando FT nível Subordinação mínima a
Emprego LMF
Unidade. uma Divisão de Exército.
Atuação Art
Proporção LMF e Média 01 Bia LMF para Média 01 Bia LMF para
Art Tubo cada 02 Bia O. cada 14 Bia O.
Eventual, prioritariamente
Frequente, em apoio à
Uso do tiro direto para autodefesa e missões
manobra.
de destruição.
Ações muito pautadas pelo
Baixas civis Podem ocorrer. DICA, evitando ao máximo
baixas civis.
Material de
Obuseiro 2S19 Msta-S Obuseiro M109A5+BR
dotação mais
152mm AP 155mm AP
moderno
Alcance máximo
29 km. 22 km.
Materiais dos obuseiros
Lançadores de Diversos tipos, com Sistema ASTROS, com
Foguetes alcance máximo de 90 km. alcance máximo de 85 km.
Munição
Rússia emprega. Brasil não possui.
termobárica
Uso SARP para Ainda em processo de
Amplo emprego para
busca de alvos de desenvolvimento da
Busca de Alvos.
Art doutrina.
6 (seis) categorias em
Cerca de 5 categorias,
manual, estando prevista a
Categorias SARP com SARP de curto e
aquisição pelo EB de
médio alcance.
SARP até a Cat 2.
As Coor levantadas pela
Loc Elt podem não ser
Busca de Uso da GE para suficientemente precisas
Guerra Eletrônica
Alvos levantamento de alvos. para Art Cmp. Cabem
estudos mais detalhados
sobre o tema.
Ainda em processo de
Guerra Uso da G Ciber para
desenvolvimento da
Cibernética levantamento de alvos.
doutrina.
Já existe a previsão de
Técnicas de
Utilização de prédios pelos ocupação de prédios em
observação em
OA. manuais específicos do
localidades
EB.
60

Russos chegavam a incitar


resposta ucraniana com Procedimento baseado na
Técnicas
morteiros para criar norma de fogos e nos
empregadas
Fogos de oportunidade de localizar critérios estabelecidos.
Contrabateria suas posições.
Amplamente empregados,
Uso de radares
principalmente por parte Em processo de obtenção.
contrabateria
dos russos.
Proteção das
RPP em relação Vai depender dos fatores
Uso de RPP no TN.
às fronteiras da decisão do Cmt.
nacionais
Russos desenvolveram Falta desenvolver doutrina
Sistemas anti
Armt AAAe específico e e adquirir material
SARP
Eqp GE. adequado.
Ucranianos implemen-
Interesse na compra de
Camuflagem das taram melhorias na
redes de camuflagem com
posições camuflagem e dispersão
Medidas de tratamento térmico.
das instalações.
Segurança
Procedimentos previstos
Adotadas Ucranianos desenvol-
Comunicações em manuais doutrinários e
veram alternativas em
via rádio rádios modernos com
caso de GE do Ini.
recursos de MPE.
Necessidade do uso de Formação dos oficiais de
Sistemas métodos convencionais no artilharia contempla o
informatizados caso de ações de G Ciber ensino das técnicas
do Ini. convencionais.
Técnicas que exigem
Mudanças de Muito frequentes e com
agilidade já estão previstas
posição extrema agilidade.
em manuais.

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