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Amor e Dor: A Luta de Vee e Lisa

O documento narra um intenso diálogo entre duas personagens, Vee e Lisa, que reavivam sentimentos complicados e dolorosos de um passado compartilhado. Vee luta contra sua dependência emocional de Lisa, reconhecendo que o amor que sentia por ela a machucava, enquanto Lisa tenta convencê-la de que ainda existe um laço forte entre elas. A história culmina em um momento de ruptura, onde Vee decide se afastar para se proteger, resultando em uma profunda dor emocional.

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Amor e Dor: A Luta de Vee e Lisa

O documento narra um intenso diálogo entre duas personagens, Vee e Lisa, que reavivam sentimentos complicados e dolorosos de um passado compartilhado. Vee luta contra sua dependência emocional de Lisa, reconhecendo que o amor que sentia por ela a machucava, enquanto Lisa tenta convencê-la de que ainda existe um laço forte entre elas. A história culmina em um momento de ruptura, onde Vee decide se afastar para se proteger, resultando em uma profunda dor emocional.

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LISA FICA PARADA E TUDO o que consigo pensar é: ela parecia mais velha.

Estava com
profundas olheiras em volta dos olhos. O que poderia ser tão importante a ponto de
fazê-la perder o sono por tanto tempo? Mesmo quando ficava trancada na solitária,
Lisa dormia. Ela era uma daquelas pessoas que poderia tirar um cochilo, mesmo que o
mundo estivesse caindo. Não fazia o menor sentido, a não ser que ela estava
arquitetando algo que tivesse a ver com Nova Iorque.
— Eu tinha um texto todo decorado — ela sorri e dá alguns passos na minha
direção. — Mas bastou colocar os olhos em você e ele evaporou.
— Não faz mal, não quero escutar nada.
Lisa me observa, ainda quando não mudo de posição ela deixa o sorriso morrer.
— Toda vez que nos vemos o sentimento floresce, mas você sempre tem que
interrompê-lo, não é?
Ela iria fazer aquilo. Iria contar histórias sobre nós no orfanato, dos
momentos difíceis. Do tempo em que nos aproximamos tanto que a amizade já não era
mais o suficiente.
— Eu nunca vou entender esse poder que você tem sobre mim — Lisa me ignora e
continua fingindo que as coisas estão tão bem quanto a última vez que nos vimos
antes de Will me tirar de lá. — O poder de fazer tudo ficar certo no meu mundo.
— Seu mundo tem partes boas, mas no geral é horrível e impiedoso. Seus
sentimentos por mim também são assim.
Lisa deixa a sua expressão vacilar, mas logo se recupera. Foi tão rápido que
pensei ter imaginado.
— Não adianta ficar conjugando verbos no passado — diz firmemente, querendo
convencer tanto a mim quanto a ela mesma. — O sentimento ainda está no presente.
Entenda Vee, palavras são só palavras quando alguém ainda significa tudo para você.
— Você é impossível — deixo uma risada nervosa escapar. — Será que você
poderia parar com esse cinismo por um segundo e focar numa conversa racional?
— Veja como as coisas tendem a serem engraçadas — desta vez, ela não está
sorrindo, seus olhos contrastam com o cansaço marcado em seus olhos. — Geralmente,
a pessoa que você mais ama, é também aquela que mais te magoa.
Eu não sabia o que dizer. Eu evitei pensar em Lisa daquele jeito porque eu
sabia que cairia num loop. Eu acreditaria numa Lisa que não existia, ela usaria
isso para me manter por perto, e com o tempo isso acabaria me matando. Quando
pensava nisso, no meu quarto, ou quando estava num momento de reflexão, era um
pensamento claro e simples, porém, parada ali em frente aquela garota que um dia
foi tão essencial na minha vida, era difícil pensar da mesma forma.
— Uma vez, quando eu estava presa na solitária, lembra disso? — Lisa encontra
meus olhos esperando uma resposta que não sairia da minha boca. É claro que eu
sabia de qual, dos vários momentos, ela iria falar. — É claro que você se lembra.
Enfim, eu contei como minha mãe foi uma vadia deixando Anne e a mim para trás com
aquele… sádico. Você me ouviu a noite toda, e quando eu terminei você me disse que
não me abandonaria porque sabia como era destruidor ser abandonada. Pois veja bem o
que você acabou fazendo.
— Foi uma questão de sobrevivência, eu parti antes que você partisse — as
palavras quase não deixam minha boca. Eu estava sufocando. Lisa me conhecia, sabia
exatamente que memória me deixaria exposta e indefesa. Eu precisa sair dali, fugir
do seu alcance. Ela solta uma risada fraca e amarga, dá um passo e eu consigo me
afastar dois passos cambaleantes.
— Eu fiquei com você quando você era uma pessoa obscura — ela está com dentes
de cima grudados aos de baixo, o som da sua voz lutando para sair. — Estive lá com
você quando estava desmoronando, eu fiquei quando mais ninguém fez isso. Quando
você só via escuridão eu te dei luz e te ajudei a se levantar. Lembre-se disso,
quando você mais precisou de apoio, eu fui o seu pilar. E fiz tudo isso porque te
amo mais do que tudo. Eu te amo acima de tudo e acima de todos.
E lá estava a dor da qual eu estava fugindo todo esse tempo. Saber que Lisa
dependia de mim e ainda sim deixá-la naquele lugar uma segunda vez, de joelhos e
sem forças. Eu estava lutando por todos a quem eu amava. Mas, droga, eu ainda amava
aquela garota. Eu não queria, eu sabia que não podia, mas era um sentimento que
nunca desaparecia. Fiquei sete meses longe dela, enganando a mim mesma, dizendo que
aquilo tinha acabado e que não havia mais nada dela em mim.
Eu menti, e ali estava a verdade. A vontade de pegar sua mão e fugir do mundo
era tão grande que eu queria gritar. Que minhas palavras arranhassem minha garganta
e as deixassem banhadas em sangue, eu não podia mais me enganar.
— Meu amor por você era como um vício — digo, sem conseguir olha-la nos olhos.
— Me acalmava, relaxava, fazia o mundo ir devagar. Mas, no fundo, eu sempre soube
que te amar me matava um pouco a cada dia.
— Não faça isso — ela pede, a raiva queimando dentro dela. — Não diga que não
me ama mais, nós duas sabemos que não é verdade.
Eu queria poder não amá-la mais, simplesmente, poder arrancar esse sentimento
do meu peito. Era algo impossível, mas não significava que eu não podia lutar
contra isso. Eu podia, não havia nada nesse mundo que me manteria ao lado de uma
pessoa que me fazia mal. E Lisa me fazia sentir tudo, menos bem.
— Tudo bem você lutar contra a verdade — eu tento falsamente tranquilizá-la.
— Às vezes o coração precisa de um tempo para aceitar o que mente já sabe.
— Você me ama — ela continua insistindo. — Eu sei que me ama, nós sabemos.
— Eu amei uma Lisa que não existe mais — fecho os olhos memorizando a Lisa
que lutava por todos nós, e não apenas por seus desejos egoístas. Aquela era a Lisa
que eu queria amar, uma Lisa que morreu quando deu lugar a essa casca vazia a minha
frente. — Eu tive que ir embora. Eu estava cansada de deixar que você me fizesse
sentir qualquer coisa menos inteira.
— Aquela Lisa era fraca! — Ela grita, e alguns pássaros levantam vôo perto de
nós. Lisa sequer olha, ela está com os olhos colados aos meus. — Eu tive que lutar
como o inferno. E lutando como o inferno me fez ser quem eu sou. E eu sou forte,
Vee.
— Estou desistindo de você — continuo firme, sem deixar com ela entre na
minha cabeça e acabe me levando com ela. — Tenho que fazer isso antes que a dor
consuma as últimas células saudáveis e eu desista de mim.
Lisa parece chocada. Havia lágrimas verdadeiras em seus olhos, sua boca
ligeiramente aberta pelo choque. Ela tenta fazer com que as palavras deixem sua
mente e saia por seus lábios, mas está petrificada em seu lugar. A dor dentro de
mim deixava meus pulmões ardendo em fogo, como se ele fosse revestido de pele e
agora estava desprotegido e queimando em carne viva, e estava fazendo isso de
dentro para fora. Eu precisava fazer isso, mas nunca significou que não doeria.
Segurei as lágrimas, pois não podia deixar que ela as visse, qualquer fraquejar e
Lisa saberia como jogar comigo e eu acabaria em qualquer lugar que ela quisesse me
colocar.
Ela olha para o lado e pela primeira vez percebe a lápide de Noel. Um rápido
brilho passa por seu olhar e podia jurar que era arrependimento. A julgar sendo
Lisa, qualquer coisa poderia fazer parte de algum plano de manipulação.
— Tudo bem, você deve estar confusa — ela continua com seu teatro, ignorando
a conversa em que eu deixava claro ter desistido dela. — Porém, quando sentir minha
falta, lembre-se que eu não fugi, você que me deixou ir. — Ela caminha até o ponto
de onde veio e olha uma última vez para mim.— Eu estava lá por você, se lembre
disso.
E então ela desaparece. Dois minutos depois eu estou fraca demais para me
manter sobre meus pés e desabo no chão, um galho rasga minha pela na queda. E eu
não sinto nada, nenhuma dor física poderia superar aquela que me rasgava a alma ao
meio. Eu não percebi quando tinha começado a chorar, e embora tenha percebido, não
consegui parar. O choro começou com lágrimas silenciosas, e num momento de
consciência eu estava gritando, deixando minha alma evidenciar toda a sua dor.
É difícil continuar com a rotina, ou seguir sua vida quando você se torna
dependente de uma pessoa. Bem, eu percebi um pouco tarde demais que eu era
dependente da presença de Lisa. E Lisa tinha ido embora para sempre, porque eu
pedi, não, porque eu a *mandei* embora desta vez.
Eu estava quebrada de novo, e então percebi: eu nunca estive consertada, de
fato.
Foi Lexie quem me encontrou. Ela me observou, e quando meus ombros se
mexerem, enquanto meu peito se enchia de ar, ela suspirou aliviada e a cor voltou
ao seu rosto. Ela se aproximou com cuidado e chamou por mim. Eu tinha gritado tanto
que minha garganta estava em carne viva, minha boca estava com um constante gosto
de ferro.
Eu tinha jurado que não seria mais aquela garota triste outra vez. Me sentia
inútil ao ver o olhar de dor em Lexie. Eu estava causando dor a ela mais uma vez,
depois de jurar nunca mais fazer isso. Eu queria dizer algo, certificá-la de que as
coisas ficariam bem.
Eu estava pronta para encarar a verdade. Pronta para me deixar mudar, para
aceitar. Eu estou pronta para me libertar. O fato era que isso exigia sacrifícios,
e sacrifícios causavam dores, e essa parte levava um tempo para passar. Eu
precisava de um tempo para me curar, sacrificar Lisa tinha sido mais difícil do que
eu jamais imaginei. O preço foi alto, mas preciso.
*"Me desculpa ter me entregado mais uma vez, pessoal. Mas é que só eu sei o
quanto doeu ver algo que um dia foi a melhor coisa do mundo indo embora."*
Num momento estava caída a alguns metros da lápide de Noel, no meio da
floresta escura, e no seguinte um buraco negro me sugou e eu estava dentro da
instalação. Como da primeira vez que Lexie fez isso, sinto minha audição indo
embora. Havia várias pessoas a minha volta, sua bocas se mexiam num ritmo
alucinado, mas não conseguia escutar. Lexie levanta as mãos, e depois de falar,
todos concordam e esperam. Aos poucos minha audição volta.
— Agora sim — Lexie certifica-os. — Ela está escutando.
— Onde está doendo — Steve é o primeiro a dizer algo. Algo em mim queria
dizer alguma coisa a ele, mas eu me sentia cansada a ponto de não poder levantar a
mão e apontar onde doía tanto. — Vee, preciso que me ajude para que eu posso ajudá-
la.
— Onde ela está? — Valery grita do outro lado.
Só naquele momento percebi o quão egoísta eu estava me comportando, sempre
tomando decisões primeiro, e vendo o quanto isso afetava a ela e Anne depois.
Quando eu iria parar de fazê-los sofrer?
Meu corpo se resumia a cansaço e dor, mas minha habilidades ainda
funcionavam. Will me ensinou como mandar mensagens curtas e interceptar alguns
pensamentos fragmentados. Eu só podia fazer isso com uma pessoa, e normalmente,
depois de fazê-lo, eu me sentia cansada. Me concentrei em Steve e em uma mensagem
curta. Era apenas um tiro. Uma tacada. Uma chance antes que meu corpo sucumbisse.
* "Garganta. Lisa. Floresta. Exausta. Nada bem..."*
E então desmaio.

Não sei quanto tempo fiquei inconsciente. Podiam ter sido horas, dias ou
meses. Eu queria muito que não tivessem se passado meses. Isso poderia dar muita
vantagem a Lisa. Como em muitas vezes quando eu acordava depois de perder uma
guerra contra meu corpo, eu estava dividindo minha maca com o corpo de Abby. A
imagem dele quase me jogando para fora me arrancou um riso baixo. Percebi que minha
garganta já estava totalmente curada.
Fator tempo? Ou fator aprimorada?
— Sabe, uma garota normalmente sentiria ciúmes — Kate diz de uma cadeira
perto de nós.
— Eu não sei de onde ele tirou essa ideia, mas ajuda.
Kate sorri uma última vez antes da preocupação formar uma expressão em seu rosto.
— Você está bem?
— Eu não sei — digo sinceramente —, mas quero ficar.
Ela assente e não diz mais nada. Minutos depois Steve entra em ação. Eu dormi
apenas um dia, para o meu alívio. Graças a minha sinceridade, sobre meu estado,
Steve disse que pode me liberar apenas amanhã de manhã. Eu não discuto, se eu
tivesse outra recaída, preferia estar aos seus cuidados do que no meio de uma
floresta. Abby acorda e ao me ver me abraça e solta um *"Não te disse"* para Kate
que revira os olhos para ele. Passamos meia hora convencendo-o de que eu ficaria
bem e que ele podia ir.
Valery vem me visitar antes de ir para aula. Anne chora quando pergunta se a
irmã tem a ver com o que me aconteceu. Aparentemente, Steve conseguiu receber minha
mensagem. Eu digo que Lisa não teve culpa diretamente.
— Você está acobertando ela — Anne me acusa.
— Não, eu não estou — asseguro ela. — Eu fiquei assim porquê não estava
pronta para dizer adeus a ela.
— A verdade é que ninguém está — Valery dá de ombros. — Você sempre vai
lembrar de Lisa matando Noel, e eu sei, isso não foi um fato pequeno a ser
ignorado. Mas não pode deixar de entender que eu sempre vou me lembrar da Lisa que
arriscava noites em um saleta pequena só porque eu estava com vontade de comer pão.
Valery me entendia, constatei. Era por isso então que ela nunca me julgava
quando se tratava de Lisa. Todos evitavam falar sobre isso, mas seus olhares
denunciavam seus pensamentos, eles me condenavam mesmo sem dizer nada. Valery nunca
fez isso, e agora eu entendia. Eu alcanço sua mão e aperto levemente.
— Desculpa te preocupar mais uma vez — digo a ela.
— Eu não estava preocupada — ela dá de ombros. — Só fiquei pirada com a
possibilidade de você partir como Willy. Eu sei que você não se deixaria vencer, e
qualquer um que tentasse te machucar é uma pessoa morta antes mesmo de tentar.
— Eu te amo — eu a puxo para um abraço, ela resmunga mas no fim me abraça.
Anne nos observa de longe, com os braços cruzados. Sei que ela está processando as
palavras de Valery e ela merecia um tempo para isso.
Elas tinham mais uma tarde de exercícios. Valery reclama e continua até
fechar a porta e desaparecer no corredor. Ando pelo quarto, praticando os
exercícios que Sebastian deixou por escrito para mim. Se perdi um dia dormindo,
aquilo queria dizer que a ida até Nova Iorque estava mais próxima ainda. Eu precisa
mostrar que estava bem para ir. Depois de terminar, encontro uma muda de roupas que
Lexie ou Izzie pegaram da minha gaveta e tomo um banho para me livrar do suor. Noah
está me esperando quando saio do banheiro.
— Oi campeão — levanto a mão para um "bate aqui", mas fico no vácuo. — O que
foi?
— Você me tirou de lá para que eu não a visse? — Ele é direto e eu meio que
não esperava por isso.
— Mais ou menos.
— Estava protegendo ela? — Ele grita e salta da maca.
— Estava protegendo você.
— Mentira!
— Noah, ela já matou mais pessoas do que você poderia contar. Lisa machucaria
você antes que eu pudesse fazer algo.
— Como você fez por Noel — ele acusa e uma dor aguda corta meu peito. — Me
desculpa, eu não quis…
— Eu sei que você quer justiça por Noel — digo antes que ele termine. — Assim
como Izzie, Thommas e Anne. Mas a verdade é que existem pouquíssimas pessoas que
podem fazer isso. E vocês não são uma exceção.
— Você vai matá-la? — Ele se senta de novo, mais calmo agora. — Seja sincera.
— Eu espero não ter que precisar, Noah. Há coisas que eu devo fazer, mas
ainda sim, gostaria de não ter que fazê-las.
Ele não se irrita e tão pouco me acusa. Apenas assente com a cabeça em
silêncio.
— Me desculpa — ele pede.
— Está tudo bem — eu vou até a maca e me sento ao lado dele. — Estou
acostumada com o jeito Collins de lidar com a raiva. Vocês falam demais quando
estão no ápice da irá.
— Mas ainda nem falei com você — Izzie aparece atrás da cortina que rodeia
minha maca. Noah sorri para a irmã, e quando ela indica a porta para ele, ele
suspira e sai pisando com força. — Você não pode obedecer Steve — antes que eu
possa perguntar o por quê, ela continua —, eles partiram e ele quer te liberar
depois pra impedir isso. Eles estão em reunião agora.
Pulo da cama e caminho até a porta, Izzie me alcança e me puxa pelo ombro,
quando eu não paro, ela entra na minha frente.
— Use a cabeça — ela estala os dedos na minha frente. — Eu tenho um plano, e
vou te explicar. Se não concordar, pode fazer o que você quiser, mas escute Vee,
você vai amar.
Uma guerra é travada dentro de mim. Izzie parecia louca setenta por cento do
tempo e vinte por cento era imatura, os outros dez ela era calma porque estava
dormindo.
— Estou escutando — Izzie bate palmas e começa a falar e continua por mais
uma hora explicando cada detalhe que escutou e o plano que ela estruturou apartir
disso. Eu tinha que confessar:
— Você estava certa, é um bom plano — digo abrindo os braços.
— Ótimo! — Ela comemora. — Tomi vai aparecer aqui por volta das 19h00. Aja
normalmente, acha que consegue?
— Sim — assinto. Izzie bate palmas de novo.
— Tenho que ir, já demorei muito aqui e podem começar a desconfiar — ela vai
até a porta e para com a mão na maçaneta, volta até mim e me envolve com os braços.
— Eu sinto muito.
Eu sabia que ela estava falando sobre o que aconteceu na floresta. Eu não
digo nada, nem tento explicar, apenas a abraço de volta. O abraço de estende mais
do que o normal e então ela parte.
Como Izzie disse, Thommas chega às 19h00, com dois pratos de comida. Ele para
em frente a mim, e é impossível não admirá-lo. Thommas não tem noção do quanto
espero para passar alguns minutos com ele só para admirar aqueles olhos lindos e o
sorriso que me faz esquecer de tudo. Ele poderia estar mentindo pra mim, e
caminhando diretamente para a morte, o que me deixava extremamente brava com ele,
mas não tinha como esquecer-se de tudo isso no segundo em que ele coloca os olhos
em mim e meu corpo se ascende.
Ele não procura por uma cadeira e penso: "Se Abby cabe aqui, Thommas também
cabe."
— Minha cama é pequena, mas sempre vai ter espaço para você.
Ele sorri e passa os pratos para mim enquanto se acomoda ao meu lado. Quando
está pronto, passo o prato de volta para ele e comemos em silêncio. Percebi olhadas
discretas dele para mim e me pergunto se ele estaria tão apreensivo assim se
tivesse ideia que eu sei do plano que eles arquitetaram. O plano que me excluía.
— Apenas diga — peço para ele quando termino meu prato.
— O quê? — Ele tenta dar uma de desentendido. Eu rolo os olhos e saio da cama
em direção ao banheiro para escovar os dentes. Quando volto Thommas já terminou seu
prato. — Sabe, eu estava pensando. Tem certeza que o troço da Ponte foi a única
coisa que fez você se afastar?
Normalmente, eu daria uma resposta curta e nem tão verdadeira. Uma meia
verdade com uma pitada de mentira, para que eu não me sentisse mal e tão pouco
fosse pega, pois eu era um desastre mentindo. Mas me deixei considerar as
possibilidades do plano de Izzie dar errado, considerar que essa podia ser a última
vez que nos veríamos, e não pude deixar de me sentir culpada por sequer considerar
nosso último momento juntos mentindo. Então eu seria sincera com ele como talvez eu
nunca fui antes, e muito provavelmente não seria de novo.
— Acho que eu sempre te imaginava com outra pessoa, e como você poderia ser
feliz com uma garota que não desmoronasse tanto quanto desmorono.
— Foi por isso que você não disse nada quando me viu com Claire? — Pergunta,
finalmente algumas peças sendo encaixadas. Eu assinto. — Eu não entendo você. Todos
sempre dizem o quanto você é incrível . Quão poderosa você é. Você tem tanto amor
dentro de você, que mesmo tendo todos os motivos do mundo para sair matando todos a
torto e a direito, prefere dar uma segunda chance, mesmo aqueles que não merecem. E
agora está aqui me dizendo que não me merecia? Eu, Thommas que sempre tratava todos
como lixo. Eu que tratei *você* como lixo. Meu Deus, eu estou lutando contra todos
os meus ridículos costumes pra mudar por você, e agora escuto que você não é boa
para mim.
Eu nunca tinha visto Thommas falar tanto sobre si mesmo. Eu estava
processando tantas informações enquanto meu coração pirava dentro de mim. Ele não
tinha mudado depois da morte do irmão, como eu pensei esse tempo todo. Ele tinha
feito isso por mim. Thommas não se achava o bastante para mim. E eu não me achava
boa o suficiente para ficar com ele. No fim, éramos dois idiotas.
— Todos aqui, tem raiva por causa da Invasão, por que aliens vieram e tiraram
tudo de nós. Mas, porra, você já tinha motivos para todo esse ódio *antes* que isso
acontecesse.
Pergunto como ele soube da minha vida no orfanato, e me parece óbvio que Will
se abriu para Izzie sobre o inferno que viveu lá, e ela passou suas palavras para o
irmão. Mas nem Will pôde contar a Izzie sobre meu momento sombrio. Quando permito
que as ideias de Lisa deixassem de serem apenas teoria. Quando, num momento de
fraqueza, me rendi e deixei que ela semeasse seu ódio em mim, e de repente me vi
pensando como ela, sentindo como ela e me vingando junto a ela. Senão fosse Will,
nesse momento eu estaria do outro lado do pequeno confronto que aconteceria amanhã,
ao lado de Lisa. Se não fosse por ele e Mouse eu poderia ser a pessoa a ferir ou
matar Thommas.
O pensamento é rápido e deixa minha cabeça com a mesma velocidade, esquecendo
um calafrio subindo minha espinha. Eu não estava pronta para contar essa parte da
minha vida para Thommas. Não agora, pelo menos.
— Não era tão ruim assim.
— Era sim — ele diz com força. — Vocês podiam passar dias sem comer. E quando
as coisas estavam para melhorar vocês foram vendidos como animais para pessoas que
eles nem mesmo conheciam.
— Colocando assim parece ruim…
— Não parece. *É* — ele me interrompe. — Só estou tentando dizer que você tem
todo direito de sentir raiva em algum momento.
— Como assim? — Pergunto curiosa.
— Você fica quieta enquanto acontece uma guerra dentro de você.
— Eu apenas não gosto de incomodar — dou de ombros. Thommas segura meu rosto
e o vira para ele.
— Você precisa parar de alimentar essa Vee que só existe dentro da sua cabeça
— ele diz entoando emoção em cada sílaba. — Nós te amamos, e quando uma pessoa que
você ama cai, contar sobre os problemas e escutar não incomoda. Eu preciso saber
que você está bem, e o que se passa na sua cabeça quando você mesma não sabe se
está bem ou não. Quando você chegou e se afastou eu pirei todos os dias. Eu sabia
que você não estava bem, mas não sabia como entender essa nova Vee. Eu estava
pronto para aceitá-la, mas não tinha ideia de como fazer isso.
Ele queria me entender? Ele não queria me afastar ou tentar me esquecer, ele
queria me entender para se acostumar com essa nova Violett. Eu não tinha como
expressar em palavras o quanto aquelas palavras me salvaram do buraco de dor que eu
estava desde que Lexie me encontrou naquela noite.
— Eu queria reunir minha família — eu penso em começar revelando o início do
fim. — Will, Anne, Valery, eu e Lisa. Ter que tirar uma pessoa dessa equação está
me custando mais do que eu imaginava. Eu me sinto culpada por ainda amá-la sabendo
o quanto ela te feriu, mas simplesmente não consigo tirar isso de mim.
— Violet — ele me chama, mas não consigo olhá-lo, não depois de revelar que
ainda amava a assassina de Noel. Ele me chama mais uma vez e forço meus olhos a
encará-lo. — Não vou dizer que gosto da ideia, porque não gosto, mas não posso
deixar de dizer que não entendo também. Vocês passaram pelos piores momentos juntas
e mesmo assim você a afastou de Noah e a deixou ir. Fico feliz apenas por você
tentar.
Uma lágrima cai e logo depois outras a acompanham, Thommas pega uma por uma
com o indicador. E simplesmente não consigo deixar de rir do nosso pequeno
relacionamento desastroso.
— É engraçado como alguém pode partir o seu coração — ele se inclina e beija
minha bochecha, onde antes estava molhada pelas lágrimas que ele secou. — E você
ainda amá-la com todos os pedaços partidos.
— Lisa já me machucou mais do que qualquer um — digo e conto toda a história
para ele. Conto como nos conhecemos logo depois do velório da minha mãe e como,
desde então, não nos desgrudamos mais. Nós cinco éramos uma família. Conforme eu
contava sobre nossos momentos bons e ruins, sentia falta da antiga Lisa, a minha
Lisa.
— Will acredita que ela já era assim antes de irmos para o CTH — eu explico
para Thommas. — E eu acredito que aquele lugar despertou toda a irá que havia
dentro dela. De alguma forma, enquanto estávamos no orfanato ela guardava aquilo
dentro de si. Não consigo imaginar uma pessoa com toda aquela fúria tentando lutar
contra isso num mundo destruído que não lhe oferecia nenhum futuro.
— Você acha que ela tentaria se o mundo fosse um lugar normal? — Thommas
pergunta, na tentativa de entender
— Nos tínhamos planos — eu digo capturando um linha solta da bermuda dele. —
Todos nós. Will seria o primeiro a completar 18 anos. Ele sairia, arrumaria um
emprego e logo depois arrumaria uma casa. Qualquer casa seria bom em comparação
aquele orfanato, então não ligaríamos se a casa que ele achasse precisaria de
reformas, tínhamos uma vida inteira pela frente. Enfim, Lisa sabia que tinha algo
de errado com ela, e quando saíssemos também, ela iria procurar ajuda.
— Ela iria a um psicólogo? — Thommas advinha e eu concordo. E ele constata. —
Então, havia uma chance.
— Mas então, faltando alguns meses para o aniversário de Will, chegaram
homens de terno preto em pleno verão e de noite estávamos dentro de ônibus e tudo
mudou. Will lembra o fato de que ele tem a mesma habilidade de Lisa e não se
transformou no mesmo que ela.
— Ele não sabe sobre os planos dela para depois do orfanato, sabe?
— Mesmo que soubesse — eu suspiro e afundo o rosto no seu casaco, inalando
seu cheiro. — Não acho que ele mudaria sua opinião sobre ela. No fundo, a mudança
dela também partiu o coração dele tanto quanto o meu e o de Anne.
— Eu sinto muito — ele me puxa para mais perto. — Sinto muito por tudo o que
você passou, antes e depois da Invasão.
— Obrigado — eu levanto meu rosto para olhá-lo. — Por ter me escutado.
— Está brincando? — Ele se afasta para me olhar melhor. — Eu soube mais sobre
você nessas horas do que jamais soube em meio ano com você.
— Nós dois precisávamos de um espaço — eu relembro de todos os dias que
passei longe de Thommas. — Aprender a sentir falta um do outro ajudou muito, eu
acho.
— Você sentiu minha falta? — Ele pergunta cinicamente. Eu o empurro de leve.
— Sabe, tinha noites que eu sentia tanto a sua falta que antes de dormir, eu reunia
cada lembrança nossa e ficava reproduzindo como meu filme até pegar no sono.
Estávamos compartilhando segredos a mais de uma hora, e era a primeira vez
que não podia dizer nada. Thommas percebe meu silêncio e o olhar perdido volta. Ele
não sabia o que estava errado, mas sabia que o meu silêncio representava que algo
não estava certo.
— Eu não pretendia voltar, então, com o tempo decidi que ia esquecer tudo e
todos aqui.
— Violet…
— A parte mais difícil foi tentar te esquecer — eu olho para as minhas mãos.
— Não funcionou e isso quase deixou Lexie louca. Com o tempo ela e Anne pararam de
falar o seu nome.
— Eu vou querer saber o por quê? — Thommas diz apreensivo.
— A minha cabeça decidiu que isso era o melhor, mas meu… e então eu vi Izzie
que era a sua cara e juro que meu pulmão entrou em colapso.
E como característica do novo Thommas, em sua resposta não há raiva, não há
decepção e menos ainda julgamentos. Ele passa o braço em volta da minha cintura e
descansa o queixo no topo da minha cabeça.
— Pra você ver, não existe mocinho e vilão — ele fala e uma pausa se segue. —
Você errou, eu errei também. Mas vai ver a gente estava tentando ser feliz, e
felicidade é um negócio complicado de alcançar.
Por algum motivo longe da minha compreensão eu começo a rir. E logo Thommas
está rindo junto comigo.
— Eu gosto quando você sorri e seus olhos quase se fecham — ele comenta
enquanto me encara. E simples assim, o clima está leve. Thommas também sente a
mudança e a aceita de bom grado. — Isso me lembra uma frase que eu li em um dos
livros que Stan separou para você.
— Você andou lendo meus livros antes de mim? — Eu não deixo um fato marcante
como esse passar despercebido.
— Calada — ele tira o braço de mim e cruza os braços sobre o peitoral. — Vai
querer ouvir ou não?
Eu estava pronta para soltar algo relacionado ao antigo Thommas ranzinza, mas
não quero estragar o clima tão bom entre nós.
— Recite para mim — eu peço olhando-o.
— Já que você suportou meus espinhos, te ofereço agora as minhas flores — ele
aperta os olhos e morde o lábio inferior. — Acho que era mais ou menos isso.
— Eu poderia te corrigir, mas não li esse livro ainda. Eu achei perfeito. Bem
diferente do Thommas de dois dias atrás — lembro dele bêbado tentando me convencer
a deixar a festa e ir para o seu quarto. Thommas me olha com rugas marcando sua
testa. Será que ele não se lembrava?
— Álcool e eu não combinamos muito — ele diz e eu ainda não tenho ideia se
ele se lembra da festa ou não. — Ele bagunça com o meu autocontrole.
Ele com certeza se lembrava, mas não estava arrependido ou com vergonha, algo
que certamente estaria reagindo cavando um buraco tamanha a vergonha.
— O que fiz? — Ele quer saber.
— Você ficou animadinho demais — eu podia sentir minhas bochechas ficando
vermelhas. —Tentou me levar para o quarto
— Então aquela marca vermelha não foi Lisa? — Ele afunda o indicador na meu
pescoço, e a tiro um tapa. — Estava aí quando Lexie te trouxe.
— Foi você — eu o acuso. — Vocês todo estavam simplesmente fora de controle.
— Eu me lembro de acordar só de cueca — ele segura o queixo com os dedos,
como se refletisse sobre o ocorrido. — Tem certeza que não deu uma espiada?
— Thommas! — Eu bato em seu braço com força e viro meu rosto para o outro
lado.
Ele se aproxima e cola os lábios no meu ouvido, sua respiração causando
cócegas em mim e uma corrente de eletricidade se espalhando da minha orelha até o
meu estômago, explodindo como um enxame de borboletas.
— Sabe o que dizem sobre o álcool? — Seus lábios vão desenhando marcas de
beijos até que ele pare no ponto sensível do meu pescoço. — Ele te dá coragem para
fazer aquilo que a sobriedade não lhe permite.
Ele repete o mesmo movimento que fez na festa, e quando se afasta, posso
sentir o sangue pulsando onde ele deixou uma marca avermelhada. Thommas sorri de um
jeito diferente, e pela primeira vez depois de muito tempo, reparo na sua covinha
do lado esquerdo do rosto. Meu corpo irradiava de desejo. Eu passo uma perna por
cima das suas e sento sobre suas coxas, ele encontra minha boca antes que ela
complete o caminho até a sua. O beijo é esperado, um pouco de presa e desejo.
Thommas afunda os dedos na minha carne e eu impulsiono o corpo para frente,
pressionando minha pélvis contra a sua.
Em segundos, arranco sua camisa. Passo os dedos levemente pelo seu peitoral,
traçando as linhas torneadas de seus músculos desenhados sob a pele magra. Desço a
mão até encontrar o botão de sua calça e abro, desço o zíper sem pressa e meus
dedos começam a tremer. Thommas não percebe, seus olhos estão grudados aos meus.
Então ele se afasta.
— Está tudo bem? — Eu o inspeciono, procurando algo fora do padrão.
Retiro minhas mãos e saio de cima dele. Thommas se senta ereto e olho-o
confusa. Será que tinha feito de novo sem perceber?
— Você não fez nada — ele me tranquiliza rapidamente. — É só que… nós temos
tempo, sabe? Não precisamos apressar nada agora.
Eu fico mais confusa. Pensei que Thommas quisesse isso mais do que eu. Bem,
pelo menos foi o que ele deu a entender. Ele continua me observando, esperando. E
então eu me dou conta. Ele não tinha ideia que eu sabia de seu plano para Nova
Iorque amanhã. E, com certeza, não queria que eu tivesse a ideia de que só demos um
passo no nosso relacionamento, quando descobrisse que ele se fora amanhã. Era um
jogo arriscado, eu queria que ele ficasse, mas não podia fazer isso, ou pedir, sem
denunciar os planos de Izzie.
— Tudo bem — me aproximo e depósito um beijo em seu rosto. — Temos todo o
tempo do mundo.
Thommas sorri de volta, mas seu sorriso vacila um pouco. Ele não diz nada, e
eu permaneço em silêncio enquanto me deito e deixo que seus braços me envolvam.

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