Programa Empreendedor Rural: Guia Completo
Programa Empreendedor Rural: Guia Completo
SEBRAE/PR e SENAR/PR
A produção não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação dos direitos autorais (lei nº 9.610).
SEBRAE PR SENAR PR
Presidente do Conselho Deliberativo Presidente do Conselho Administrativo
Jefferson Nogaroli Agide Meneguette
Organizadores: Fernando Curi Peres; Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka; José Roberto Canziani; Vania Di Addario
Guimarães; Marina Magalhães Carneiro de Oliveira.
1. Empreendedorismo rural. 2. Administração rural. I. Peres, Fernando Curi. II. Hironaka, Giselda
Maria Fernandes Novaes. III. Canziani, José Roberto. IV. Guimarães, Vania Di Addario. V. Oliveira,
Marina Magalhães Carneiro de. VI. Título.
CDD650
CDU65.08+633.2.03
O Programa Empreendedor Rural está de cara nova. O material atualizado traz uma nova proposta de trabalho
do conteúdo dos 15 módulos, com temas interligados que impulsionam o participante na utilização dos novos
conhecimentos para o desenvolvimento do seu projeto de investimento.
Autonomia para o produtor rural. Seja na tomada de decisões, seja no planejamento de sua atividade. Este é o
foco do Programa e para isso ele foi remodelado.
Da experiência de cinco anos em campo, surgiu a necessidade de se atingir um aprendizado mais efetivo, em
que a qualificação técnica tenha suporte no desenvolvimento humano e vice-versa.
O Empreendedor Rural foi criado para o seu público e hoje, após 650 turmas concluídas e mais de 16 mil em-
preendedores participantes, é justo dizer que estas pessoas estão ajudando a construir o Programa.
Da mesma forma, cada empreendedor descobre ao longo dos módulos que cabe a ele a utilização dos novos
conhecimentos na criação de condições mais favoráveis para a implantação de seu projeto, a começar pela mo-
bilização de pessoas que estão a sua volta, sejam familiares, funcionários ou colaboradores. Sua primeira lição é
compartilhar para construir juntos.
Não há mais espaço para amadorismo. Mas sempre haverá espaço para empreendedores rurais competentes.
A expectativa dos parceiros SENAR-PR, SEBRAE-PR, FETAEP e FAEP é que, mais uma vez, o Programa Em-
preendedor Rural seja um grande aliado para você que está recebendo este material. Aproveite a oportunidade e
conte com o Programa para ajudar na sua caminhada.
Ágide Meneguette
Presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná
Presidente do Conselho Administrativo do SENAR – Administração Regional do Estado do Paraná
Transformação no campo
O Empreendedor Rural é uma parceria de sucesso, um modelo para o Brasil. O programa, fruto do trabalho do
SEBRAE/PR e do SENAR/PR, virou realidade no Paraná e também em 24 estados brasileiros e no Distrito Federal.
É uma experiência que tem transformado a realidade no campo.
Em todo o País, perto de 8,7 mil produtores já passaram pelo Empreendedor Rural. De 2007 para 2008, o nú-
mero de turmas saltou de 95 para 291. No Paraná, em 2008, foi executado em 311 dos 399 municípios. Foram
cerca de 17 mil produtores rurais envolvidos, que deram um novo rumo para suas propriedades.
Os números mostram que os produtores rurais estão cada vez mais profissionais, mais conscientes quanto à
necessidade de formação de lideranças fortes e mais preocupados com a gestão de suas propriedades rurais. Para
o SEBRAE/PR, essa mudança é fundamental.
O produtor tem que ser visto como um empreendedor, que precisa saber administrar sua propriedade, calcular
os custos de seus processos produtivos e ter uma visão de sua atividade frente a um mercado globalizado. O SE-
BRAE/PR, que aposta no desenvolvimento do Paraná, é parceiro nessa empreitada.
Para o SEBRAE/PR, a inovação, por exemplo, é uma condição essencial para o desenvolvimento do empreen-
dedorismo. No meio rural, uma maneira de conquistar novos mercados, diversificar a produção, investir em novos
métodos e ganhar produtividade.
Que esta publicação, sirva como uma ferramenta de aprendizado!
Allan Marcelo de Campos Costa
Diretor-superintendente do SEBRAE/PR
Apresentação
Sabemos que o sucesso do Programa se deve ao que ocorre nos encontros e nas vidas de cada participante. E
não temos a pretensão de reproduzir o movimento vivo que acontece no campo. Porém, com essa publicação, em
três volumes, pretendemos fornecer textos que abram “janelas” para ampliar o olhar de cada leitor participante
sobre diversos temas que são abordados ao longo dos encontros.
Trazemos em 15 capítulos, divididos em dois volumes, informações sobre os temas que serão trabalhados du-
rante o Empreendedor Rural, para que o produtor rural que quer participar do Programa conheça um pouco mais o
que será abordado. O terceiro volume é um guia para auxiliá-lo na elaboração dos projetos, com orientações sobre
como fazer um diagnóstico de sua propriedade rural e conhecer melhor o mercado, o que facilitará na elaboração
de um plano de ação. Por fim, oferecemos um caderno de campo para a anotação de conteúdos e de reflexões e
aprendizagens ao longo do Programa.
Desejamos que todos os participantes leiam os textos desta publicação e discutam, em sala de aula e ou fora
dela, os seus conteúdos. São, em grande parte, diferentes do que a literatura e a imprensa apresentam em análises
sobre o rural no Brasil. Uma das principais diferenças é a análise de que existe uma postura antiempresarial e an-
tirrural que ainda prevalece em nossa sociedade, trazendo a percepção de que a posse da terra no país continua
sendo organizada em moldes feudais, mesmo nos dias de hoje. Ao contrário, em nossa visão, o setor rural brasi-
leiro está totalmente voltado à eficiência dos mercados.
Entendemos que ainda serão necessárias muitas pesquisas e novas publicações, além das visões estruturalistas
que ainda prevalecem em nossa sociedade, para que o viés antirrural possa ser superado no Brasil. Nesses textos
acreditamos contribuir com uma pequena parcela para disseminar essa nova forma de compreender o setor.
Sobre os Autores:
Fernando Curi Peres: PHD em Economia pela Ohio State University (EUA) e professor titular da Universidade de
São Paulo (USP)
Vania Di Addario Guimarães: Doutora em Economia Aplicada pela Universidade de São Paulo (ESALQ/USP) e
professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR)
José Roberto Canziani: Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de São Paulo (ESALQ/USP) e professor
da Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka: Doutora em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e professo-
ra associada desta mesma universidade.
Programa Empreendedor Rural – Volume I
> O Empresário Rural e suas competências
> A Economia e a Renda Nacional
> Especificidades do Setor Agropecuário
> A Família e a Propriedade Rural
> Desenvolvimento Humano e Organizacional
> Planejamento Participativo
> Globalização e Políticas Econômicas
50 Estratégias de Comercialização
78 Instituições da Agropecuária
Cleverson Bege
Eixo de Aprendizagem do
Programa Empreendedor Rural
O Programa
Empreendedor
Rural
O
Desenvolvimento O Setor Rural
Empreendedor
Humano e e o Meio
Rural e suas
Empresarial Ambiente
Competências
Instituições A Administração
Planejamento
A Economia e a Cadeias da da Empresa
Participativo
RendaNacional Agroindustriais Agropecuária Rural
Implantação
Diagnóstico Planejamento Estudo de Engenharia
Avaliações
ou Inventário Estratégico Mercado do Projeto
Como um exemplo, a figura 9.1 identifica, respectivamente, os principais agentes e os produtos integrantes do
sistema agroindustrial da soja no Brasil, desde o fornecimento de insumos ao produtor rural até a etapa de distribui-
ção dos produtos ao consumidor final. Da mesma forma, podem ser identificados os agentes e produtos de qualquer
sistema agroindustrial.
Uso dos fatores primários de produção: Recurso natural, Trabalho, Capital físico e financeiro, Recurso empresarial
Compra de insumos (Sementes, fertilizantes, defensivos agrícolas, combustíveis, energia, peças e assessórios, embalagens, produtos
químicos, etc), pagamento de impostos, taxas e contribuições, entre outros.
$ $ $ $ C
O
N
Soja em FÁBRICAS DE farelo, óleo S
grão ESMAGAMENTO e outros OUTRAS derivados U
COOPERATIVAS (MERCADO derivados finais
Soja em $ INDÚSTRIAS M
grão INTERNO) $ I
$
CEREALISTAS farelo, óleo e D
PRODUTOR RURAL $ $ ATACADISTAS
outros derivados O
Soja em R
grão
TRADINGS (MERCADO VAREJISTAS F
$ EXTERNO)
I
N
A
$ $ $ $
L
Remuneração aos fatores primários de produção. Aluguéis ou arrendamento, salários, juros, lucros
Importações de óleo
variações do estoque
0,02 (0,3%)
Fonte: Dados básicos Abiove <[Link]> e CONAB (2008); cálculo dos autores.
Segundo dados da POF de 2003, do valor médio nacional de despesas mensais para alimentação no domicílio,
as compras de carne de frango representaram 5,8%, enquanto as despesas com os demais tipos de carnes, vísce-
ras e pescados representaram outros 13,6%, sendo os 80,6% restantes os demais gastos com outros produtos para
alimentação no domicílio.
PRODUTOR RURAL
FRIGORÍFICO (ABATE)
FRANGO
EM PARTES (60%)
FRANGO
INDUSTRIALIZADO (5%)
o
pIMP
P*
PEXP
D
0
Q* Quantidade
Onde:
PIMP = Preço de paridade de importação.
PEXP = Preço de paridade de exportação.
P* = Preço de equilíbrio no mercado interno.
reduziu a safra), se o novo preço de 6.2 Preço de paridade posto Cascavel (R$/t) (5 - 6.1) 400,00
6.3 Preço de paridade posto Cascavel (R$/saca) 24,00
equilíbrio interno ficar acima do pre-
6.4 Preço no mercado de lotes em Cascavel (R$/saca) 23,00
ço de paridade de importação (PIMP) 6.5 Paridade de exportação Cascavel (6.3 – 6.4) 1,00
MERCADO DE LEITE
BARROS, G.S.A.C.; GALAN, V. B.; FAO. <[Link]> (vários acessos). SECRETARIA DE COMÉRCIO EXTE-
GUIMARÃES, V.D.A.; BACCHI, RIOR. Balança Comercial. <http://
M. R. P. Sistema agroindustrial do GUIMARÃES, V. D. A. Análise do ar- [Link]/indicadores/estatis-
leite no Brasil. Brasília: Embrapa, mazenamento de milho no Brasil [Link]> (vários acessos).
2002. 170 p. com um modelo dinâmico de expec-
tativas racionais. Piracicaba: ESALQ/ UNITED STATES DEPARTAMENT
BRASIL. Companhia Nacional do USP, 2001. (Tese de Doutorado). OF AGRICULTURE. Foreign Agri-
Abastecimento (CONAB). <http:// cultural Service <[Link]
[Link]> (vários acessos). MAFIOLETTI, R.L. Formação de pre- [Link]/> (vários acessos).
ços na cadeia agroindustrial da
CONSELEITE – PARANÁ. Metodo- soja na década de 90. Piracicaba, UNITED STATES DEPARTAMENT OF
logia para o cálculo de preços de 2000. 95p. Dissertação (Mestrado) [Link]-
referência para o leite no Para- – Escola Superior de Agricultura ral Statistics Service. <[Link]
ná. Curitiba: FAEP e SINDILEITE, “Luiz de Queiroz”, Universidade [Link]/nass/> (vários acessos).
2002. 109p. de São Paulo.
Bovino de Pequena
Áreas Grãos Cana-de-Açúcar Café Frango Hortifruti
Corte produção
Gestão Estratégica
3 4 1 3 1 5 2
Comercialização
Gestão Operacional
4 4 1 4 1 5 3
Comercialização
Fonte: CANZIANI, 2001 (p. 140)
dos com tapete vermelho, pois são qual vendeu é menor do que o preço
eles que aceitam o risco do qual pro- pelo qual comprou.
dutores e indústrias querem se livrar.
O contrato
O objetivo dos especuladores
que operam neste mercado não é O contrato é a unidade de nego-
vender de fato a mercadoria que ciação em mercados futuros. Ele de-
possui nem adquirir a mercadoria fine o produto, a qualidade, a praça
que precisa. Este é um mercado de de referência (local) e os locais de
preços onde o objetivo é ganhar na entrega e a moeda pela qual o produ-
diferença de preços, ou seja, vender to é cotado, como pontos principais.
por um preço maior do que se com- Outros detalhes podem ser analisados
prou. Neste mercado não é necessá- nos contratos disponíveis diretamente
rio possuir a mercadoria para poder nos sites das bolsas <[Link]>
vender. Vende um contrato quem <[Link]&[Link]>etc.).
acha que o preço está alto e irá redu-
zir. Compra quem acha que o preço O contrato da soja em grão em
atual é baixo e irá subir. Chicago, por exemplo corresponde a:
Secretaria de Depto. de Sistemas de Depto. de Cooperativismo Depto. de Infra-Estrutura Depto. de Propr. Intelectual
Desenv. Agropec Produção e Sustentab. e Associativismo e Logística e Tecnologia da Agropec.
e Cooperativismo
Ministro
INMET
Cleve
rson
Beje
MINISTERIO DA AGRICULTURA. Dis- MOVIMENTO DOS SEM TERRA. CONTAG. Disponível em: <http://
ponível em: <[Link] Disponível em: <[Link] [Link]/principal.
[Link]> Acesso em: dez. 2008. [Link]/> Acesso em: dez. 2008. php3> Acesso em: dez. 2008.
94
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
conseqüências, para o desenvolvimento do país, advindas destas revisões Anotações
contratuais que a lei entrega à análise pontual do Poder Judiciário; (vii) para,
enfim, poder se ter uma visão geral do ambiente contratual e, com isso, con-
seguir definir melhor quais as perspectivas mais adequadas de um contrato e
de suas cláusulas.
95
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
vem ter capacidade jurídica para fazê-lo, (ii) a vontade que declararão, para retagem matrimonial, entre outros).
a constituição do contrato deve ser livre, não podendo o contratante, por Já a chamada ordem pública, esta
exemplo, sofrer qualquer tipo de coação, (iii) o objeto da negociação deve deve ser entendida, genericamente,
ser lícito (por isso, compra e venda de entorpecentes, por exemplo, é ilícita e como aquele conjunto de normas
esta transação não é juridicamente considerada contrato) e (iv) a forma deve destinadas ao desenvolvimento da
ser a adequada àquele tipo de contrato (por exemplo, para a compra e ven- atividade econômica nacional, bem
da de bens imóveis, se exige escritura pública). Mas, superado este patamar como aquelas que objetivam velar
mínimo de exigências legais, o contrato será, como se disse, o lugar de maior pela efetiva igualdade entre os con-
exercício da liberdade negocial entre os homens, muito embora o exercí- tratantes quando há desequilíbrio
cio desta liberdade não possa ser abusivo, certamente, devendo o contrato (conforme se verá, adiante, neste
respeitar a lei, os bons costumes, a ordem pública, o respeito à finalidade mesmo capítulo).
do contrato e à boa fé dos contratantes. Entende-se por bons costumes a
chamada moral social (por exemplo: são inválidos os contratos contrários às Descrevendo, ainda, o que se
regras gerais da moral sexual, como os contratos de prostituição, os de cor- denomina liberdade de contratar,
Cleverson Beje
96
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
afirma-se que ninguém está obri- Retornando àquela noção antes Anotações
gado a contratar. Decidindo-se, no vista, acerca da base legal mínima
entanto, por contratar, pode acon- de qualquer contrato, é importante
tecer que a liberdade das partes de registrar que não se deve confundi-
escolher as cláusulas contratuais la com esta eventual limitação, ago-
seja limitada pela lei (não em todos, ra referida, à liberdade dos contra-
mas em alguns contratos – escolhi- tantes de livremente estabelecerem
dos pela lei como sendo contratos todo o conteúdo do contrato que
em que as partes possam estar em pretendem realizar. Como já men-
desequilíbrio ou em desigualdade cionado, a base legal mínima diz
sócio-econômicos). Se assim ocor- respeito à capacidade que devem
rer, o conteúdo da cláusula será de- ter os contratantes para efetivamen-
finido por lei, isto é, por norma de te contratar, diz respeito também à
ordem pública (ou norma cogente, absoluta liberdade de suas vontades,
ou norma imperativa), e não pode- no sentido de realizarem o contra-
rá ser modificado pela vontade dos to, diz respeito, ainda, à licitude do
contratantes. Exemplos: o prazo de objeto contratual propriamente dito
duração do contrato nos casos de e diz respeito, finalmente, à forma
contrato de locação urbana, ou de adequada para a sua elaboração. Já
arrendamento rural ou de parceria a limitação ao conteúdo contratual
rural, entre outros exemplos. (que ocorre em alguns contratos),
97
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
esta deriva de lei que – por ter natu- é não. Na verdade, a completude antes referidos, isto é, se hou-
reza de norma de ordem pública, ou de um contrato – quer dizer, a sua ver duas partes (um vendedor
cogente, ou imperativa – determina plena possibilidade de produzir os e um comprador), se as par-
como devam ser certas cláusulas, efeitos que as partes desejavam, tes tiverem dado o seu con-
visando evitar o desequilíbrio sócio- quando contrataram (por exemplo: sentimento para a realização
econômico entre as partes. Por isso, fizeram contrato de compra e venda do negócio (declararam a sua
e em conclusão, é acertado dizer porque um queria vender algo e o vontade), se houver um bem a
que a liberdade de contratar (isto é, a outro desejava comprar exatamente ser vendido e comprado (pro-
decisão acerca de realizar um certo esta mesma coisa) – trafega por três duto agrícola, por exemplo)
contrato) é uma liberdade ilimitada, planos distintos e obrigatórios, quais e se utilizarem a forma ade-
enquanto que a liberdade contratual sejam: (i) o plano da existência, (ii) o quada para a realização deste
(isto é, aquela liberdade de escolher plano da validade e (iii) o plano da contrato (normalmente a for-
o conteúdo das cláusulas contratu- eficácia. ma é livre, salvo nos casos em
ais) é uma liberdade limitada (limita- que a lei exija uma determi-
da exatamente pela chamada norma Explicando, cada um desses três nada forma, como uma escri-
de ordem pública, ou norma cogen- planos, por meio do exemplo de um tura pública, por exemplo);
te, ou norma imperativa). contrato de compra e venda de um
certo bem: > Plano da validade: se com
Outra coisa que se deve anali- a presença desses quatro
sar, nesta primeira visão do contrato > Plano da existência: o con- pressupostos (partes, consen-
como instituto jurídico, é o seguin- trato existirá (vale dizer, terá timento, objeto e forma) o
te: para que um contrato seja váli- ingresso no mundo jurídico) contrato pôde alcançar a sua
do, basta que ele exista? A resposta quando estiverem presentes existência jurídica, para que
aqueles quatro pressupostos
98
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
ele seja válido será preciso que os mesmos quatro pressupostos pos- Anotações
suam atributos tais que os qualifiquem neste outro plano, o plano da
validade. Assim, não basta que tenha partes, mas será preciso que
estas partes sejam capazes de contratar (atributo da capacidade das
partes), assim como será preciso que o consentimento que as partes
emitam seja um consentimento livre (atributo da liberdade do con-
sentimento), sem nenhuma mácula de coação, de erro, de fraude,
entre outros vícios da vontade. Se a vontade apresentar vícios, ou
máculas, o contrato que foi assim realizado será nulo, ou ao me-
nos será anulável, com problemas, então, para conseguir produzir
os efeitos esperados pelos contratantes;
99
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
certo (chama-se condição, em direito), os efeitos O princípio da função social do contrato
finais esperados daquele contrato (efetivamente
vender/comprar o bem) dependerão da ocorrên- Quando se quer, em direito, descrever princípios –
cia daquele acontecimento. Por exemplo: vendo- como agora, relativamente aos princípios contratuais – a
lhe tal coisa se você ganhar na loteria esportiva. razão principal reside justamente na infastável importância
Tudo neste contrato exemplificado estava perfei- deste tema na construção de todo a edificação jurídica.
to, nos planos da existência e da validade, mas,
se não se produzir aquele acontecimento (ganhar Os princípios são as mais significativas normas de
na loteria esportiva), o contrato permanecerá sem todo o direito e, por isso, fundamentam todas as demais
a produção final de seus efeitos. regras legais que o legislador elabora, bem como orien-
tam as decisões prolatadas pelo juiz. A justiça e a eqüida-
Para melhor compreensão (e fixação) desses três de são os mais valiosos e gerais dos princípios jurídicos,
planos de completude do contrato, poder-se-ia visuali- e são tão soberanos que não há necessidade de serem
zá-los como se fossem degraus de uma escada, devendo enunciados pelo legislador para que sejam aplicados;
cada degrau ser escalado por sua vez para, só então, ser aplicam-se por si só (por isso são princípios). Ao lado dos
possível passar para o próximo degrau. Assim: mega-princípios, se assim se puder chamá-los, há os prin-
EFICÁCIA cípios que são aplicáveis a certas partes do direito, como,
VALIDADE O acordo, enfim,
por exemplo, os princípios contratuais. São eles: (i) prin-
EXISTÊNCIA Capacidade pode produzir
Partes
Liberdade
cípio da autonomia privada; (ii) princípio da supremacia
seus efeitos.
Consentimento
Licitude da ordem pública; (iii) princípio da obrigatoriedade da
Objeto convenção; (iv) princípio da relatividade da obrigação
Figura 12.1
contratual; (v) princípio da função social do contrato; e
(vi) princípio da boa-fé objetiva nos contratos.
100
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Destacaremos, com maior ênfase, o princípio da função social do con- Anotações
trato, por ser o de maior interesse para os contratos agrários, que serão exa-
minados mais adiante. No entanto, daremos uma breve notícia de cada um
dos demais princípios, antes. Assim, por princípio da autonomia privada se
entende aquela liberdade que as partes têm para disciplinar seus interesses
privados como melhor lhes aprouver. Nota-se, portanto, que a autonomia
privada decorre do direito fundamental à liberdade. Mas esta liberdade, no
entanto, não é absoluta, e tem como limitação o interesse público. Desta
forma, e à face do princípio da supremacia da ordem pública, embora as
partes tenham a liberdade de contratar, deverão obedecer às questões de
natureza social, moral e bons costumes (conforme já mencionado ante-
riormente), a exemplo das limitações impostas por normas de ordem pú-
blica (ou cogentes, ou imperativas), contidas em leis especiais como a Lei
do Inquilinato, o Código de Defesa do Consumidor, ou – segundo o que
interessa prontamente agora – o Estatuto da Terra (e a legislação que o re-
gulamenta), no que diz respeito aos contratos agrários de arrendamento e
de parceria rural. Já o princípio da obrigatoriedade da convenção mostra
que os contratos nascem para ser cumpridos. Dito de outra forma: significa
que os contratantes (que estiveram livres para contratar e para assumir ris-
cos), a partir do momento em que celebram um contrato, estão obrigados a
cumprir as obrigações que são dele derivadas, uma vez que, em princípio,
não é possível alterar os termos do contrato pactuado, salvo se as duas
partes decidirem fazê-lo, estruturando, assim, uma espécie de intangibili-
101
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
dade do conteúdo contratual (adiante veremos exceções a esta afirmação, Não se encontra eliminado, neste
no estudo da chamada revisão contratual). Quanto ao princípio da relativi- dispositivo legal de alcance consti-
dade da obrigação contratual, o que ele determina é que apenas as partes tucional, o princípio da autonomia
contratantes estão obrigadas ao cumprimento do contrato. O contrato, ao contratual, mas atenua ou reduz o
menos em princípio, diz respeito somente às pessoas que contrataram, não alcance deste princípio quando pre-
aproveitando, nem prejudicando terceiros, razão, então, pela qual, ele vin- sentes interesses metaindividuais ou
cula exclusivamente as partes que nele intervieram. Já o princípio da boa-fé interesse individual relativo à digni-
objetiva implica na observância dos preceitos de lealdade e de respeito à dade da pessoa humana.
confiança que são gerados em todas as relações inter-humanas e que devem
ser preservados em todo o percurso contratual, quer dizer, durante toda a Sob duas visões distintas é pos-
sua duração, mas também mesmo antes da sua celebração (quando as par- sível examinar o papel e a aplicabi-
tes ainda pré-negociam), e ao término de sua vigência. lidade do princípio da função social
do contrato: (i) ponto de vista da
Interessa, aqui, estudar mais detalhadamente, na medida do possível, o concepção liberal dos contratos e (ii)
último dos princípios mencionados, isto é, o princípio da função social do ponto de vista da concepção social
contrato. A inserção deste princípio no Código Civil, em 2002, representou dos contratos.
a mais importante inovação, no campo contratual. O objetivo do legislador
foi o de subordinar o exercício da liberdade contratual aos ditames da socia- Segundo o Professor Fernando
lidade, sem perder de vista a necessária proteção aos interesses individuais. Curi Peres – e sob o ponto de vista
Por meio desse princípio e de seu comando, buscou-se conciliar a tutela dos da concepção liberal, é possível di-
interesses dos contratantes com os interesses da coletividade. zer que o princípio da função social
dos contratos insere-se como um dos
O art. 421 do Código Civil brasileiro prescreve que a liberdade de con- novos princípios sociais, mostrando-
tratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato. se em confronto com os princípios
102
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
liberais clássicos (liberdade contra- o que é contratado é cumprido, os Anotações
tual, relatividade dos efeitos somen- custos de negociação são menores e
te às partes contratantes e pacta sunt a eficiência dos negócios é aumen-
servanda = os contratos devem ser tada. Mais recentemente no Brasil,
cumpridos). Pela visão liberal clás- segundo a visão liberal, um grupo
sica, os contratos, resultado da livre de pessoas que professa uma visão
expressão da vontade das partes, de “socialidade” (conceito indefini-
devem ser, sempre, cumpridos. Este do), já que o socialismo deixou de
é um dos casos típicos de institui- apelar à consciência da maioria das
ções não naturais – para os quais pessoas, conseguiu introduzir na
não existem padrões ou exemplos Constituição Brasileira de 1988 o
na natureza – que o gênio humano, preceito segundo o qual os contra-
ou sua cultura, criou e incorporou tos, tal como a posse da terra, teriam
como valor ético fundamental na sua realização condicionada ao seu
maioria das sociedades. O cumpri- uso, de forma que a sua “função so-
mento obrigatório dos contratos foi cial” fosse assegurada. É a mesma
identificado como requerimento efi- angústia de indivíduos que sonham
ciente, pelos diferentes povos e em com o conceito de “preço justo”
diversas épocas da história humana, que alguma fórmula mágica permi-
na produção de riquezas e no de- tiria ao magistrado fixar. O proble-
senvolvimento econômico, político ma com essa nova exigência legal é
e social dos diversos agrupamentos que, tal como acontece com a “fun-
humanos. Se as pessoas sabem que ção social da posse da terra”, nin-
103
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
guém sabe o que é a “função social alocação menos eficiente dos fatores fica a sua proteção jurídica. Assim,
dos contratos”. E, provavelmente, tal de produção de que dispõe a socie- o contrato deve ser interpretado de
como aconteceu com a exigência da dade e, conseqüentemente, esta terá acordo com a concepção do meio
“função social” no caso da posse da menos recursos (produtos e serviços) social onde está inserido, não poden-
terra, alguma regra esdrúxula será para consumir do que aconteceria do acarretar onerosidade excessiva às
criada para que os contratos possam na ausência daquelas regras. partes contratantes, garantindo que a
ser enquadrados no grupo dos que igualdade entre elas seja respeitada,
“satisfazem as funções sociais dos De acordo com a visão da con- mantendo as partes no mesmo estágio
contratos”. Como a lei, neste caso, cepção social dos contratos, o enfo- de equilíbrio em que estavam, quan-
não especifica o que é função social que é diferente (partilho, pessoalmen- do contrataram, mantendo a justiça
dos contratos, sua aplicação prática te, deste ponto de vista): mesmo não contratual e re-equilibrando a avença
será decidida pela jurisprudência perdendo de vista que a livre iniciati- onde houver a preponderância de um
(as decisões padrões dos tribunais). va seja um dos valores fundamentais contratante sobre o outro. Valoriza-se
Antevendo o que deverá acontecer, do Estado brasileiro, e que o contrato a eqüidade, a razoabilidade, o bom
por semelhança ao caso da função consiste numa importante manifes- senso, afastando o enriquecimen-
social da posse da terra, pode-se tação da livre iniciativa (e, por isso, to sem causa (proibido pela própria
esperar procedimentos regulatórios a sua tutela é relevante para toda a legislação), tudo porque o contrato
que irão dificultar o pleno funciona- coletividade), ainda assim, o contra- não pode deixar de sofrer a influên-
mento dos mecanismos de mercado, to não pode servir de instrumento de cia decisiva do tipo de organização
introduzindo ineficiências na melhor opressão do fraco pelo forte, uma vez político-social a cada momento afir-
alocação de recursos da sociedade. que, se assim for, o contrato não es- mada. O contrato, assim, muda a
Em outras palavras, provavelmente tará promovendo a adequada criação sua disciplina, as suas funções, a sua
serão criadas regras que levarão à e distribuição de riquezas que justi-
104
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
própria estrutura, segundo o contexto cidos por este Código para assegurar Anotações
econômico-social em que está inseri- a função social da propriedade e dos
do. A função social do contrato, hoje, contratos”.
é um preceito de ordem pública, tor-
nando-se inválida a avença que não A função social do contrato tem
o atender, que o contrariar (mesmo dupla eficácia, no sentido externo e
que o contrato tenha sido celebrado no sentido interno, sendo que o sen-
antes da vigência do Código Civil, tido externo encontra-se relacionado
em 2003), conforme determina a pró- ao ambiente no qual se encontram
pria norma jurídica – art. 2035 deste situados outros interesses que vão
Código – que determina: “A validade além dos interesses dos contratantes,
dos negócios e demais atos jurídicos, enquanto que o sentido interno en-
constituídos antes da entrada em vi- contra-se relacionado exclusivamen-
gor deste Código, obedece ao dispos- te às partes contratantes. Explicando
to nas leis anteriores, referidas no art. melhor: (i) segundo a função social
2.045, mas os seus efeitos, produzi- externa do contrato: admite-se que o
dos após a vigência deste Código, aos contrato não deve dizer respeito ape-
preceitos dele se subordinam, salvo nas às partes contratantes, mas leva
se houver sido prevista pelas partes em consideração, além desses inte-
determinada forma de execução. Pa- resses privados, os interesses sociais
rágrafo único: Nenhuma convenção gerais em jogo, condizentes com o
prevalecerá se contrariar preceitos de bem comum. A interação entre inte-
ordem pública, tais como os estabele- resses sociais e interesses individuais
105
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
determina a necessidade de respeitar CONTRATOS DE
o relacionamento que deve existir ARRENDAMENTO RURAL
entre as próprias partes contratuais, E DE PARCERIA RURAL
mas também o relacionamento que
extrapola esses interesses individuais Os contratos agrários: introdução
(conjugados, ou não) e alcança – no
mais das vezes – interesses de tercei- Contratos agrários são aqueles
ros não-contratantes; (ii) segundo a que têm por objeto o uso ou a posse
função social interna do contrato: por temporária da terra, com a finalida-
este prisma, a função social do contra- de de nela ser exercida a atividade
to opera de maneira mais restrita aos agrária (de agricultura ou de pecuá-
interesses dos próprios contratantes, ria). São eles, os contratos de arren-
procurando preservar, antes de tudo, damento rural e de parceria rural.
a equivalência material das presta-
ções contratais, quer como fonte do Disciplinam a matéria as seguin-
equilíbrio social entre as partes, quer tes leis:
como diretriz de trocas econômicas > Estatuto da Terra – Lei
justas e eqüitativas (finalidade primei- 4.504/1964 (artigos 92 ao 96).
ra do contrato), quer como – por isso > Lei 4.947/1966 (artigos 13 ao
mesmo – fundamento e esteio da pos- 15).
sibilidade de revisão judicial destes
> Decreto (regulamentador)
mesmos contratos (conforme se verá, 59.566/1966.
neste capítulo, mais adiante).
> Lei 11.443/2007.
Cleverson Beje
106
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Todos os contratos agrários re- de obra permanente ou temporária), Anotações
gem-se por estas normas, cuja apli- locação de pastos, compra e venda de
cação e observância são obrigatórias tratores ou de insumos etc.).
em todo o território nacional, por
serem normas de ordem pública (ou Apenas os contratos agrários fi-
cogentes, ou imperativas). Por isso, cam adstritos à inclusão obrigatória
são normas irrenunciáveis e garan- de cláusulas legalmente previstas
tem, de todo modo, a conservação (normas de ordem pública, ou co-
e observância de todos os direitos gentes, ou imperativas) que têm, pre-
e vantagens nelas instituídas. Qual- cipuamente, dupla função: (i) prote-
quer estipulação contratual que ger as partes contratantes (buscando
contrarie estas normas será nula de a mantença do equilíbrio contratual)
pleno direito e não gerará nenhum e (ii) proteger os recursos naturais
efeito. (buscando a conservação do meio
ambiente).
Não confundir contratos agrários
(arrendamento e parceria) com outros As cláusulas obrigatórias estão
contratos que sejam firmados no agro previstas no art. 13 do Decreto n.
(mais adiante, ainda neste capítulo, se 59.566/66. As principais cláusulas
dará notícia sobre estes outros contra- são as seguintes (entre outras): (i)
tos), mas que não envolvam propria- relacionada à conservação dos re-
mente a finalidade de exercício da ati- cursos naturais; (ii) relacionada à
vidade agrária (ex.: comodato, locação estipulação de prazos mínimos; (iii)
de serviços agropecuários (como mão
107
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
relacionada às exigências de práticas agrícolas; (iv) re- ceiros; (ii) irrenunciabilidade dos direitos garantidos por
lativas à fixação de preço do arrendamento; (v) relativas lei; (iii) indenização pelas benfeitorias úteis e necessá-
à fixação das condições de partilha dos frutos, produtos rias, podendo permanecer no imóvel e dele usufruir en-
ou lucros obtidos na parceria; (vi) relativas à observân- quanto não for indenizado (também são indenizáveis as
cia das normas dirigidas à renovação ou prorrogação benfeitorias voluptuárias, desde que autorizados previa-
dos contratos; (vii) relativas à observância das normas mente pelo arrendador).
conducentes às causas de extinção ou rescisão contra-
tual; (viii) relativas à observância das normas determi- São deveres do arrendatário: (i) pagar pontualmente
nantes do direito e das formas de indenização por ben- o valor do arrendamento, cumprindo as obrigações tra-
feitorias; (ix) relativas à observância de disposições do balhistas e previdenciárias pertinentes; (ii) conservar o
Código Florestal. imóvel, assim como o recebeu; (iii) preservar a fauna, a
flora e os mananciais hídricos; (iv) manter o imóvel livre
Contrato de arrendamento rural de invasões e turbações.
Este contrato é celebrado entre o proprietário (arren- Os prazos legais mínimos para o arrendamento ru-
dante ou arrendador), que cede o uso do imóvel rural, ral: (i) três anos para os casos de arrendamento em que
no todo ou em parte, a outro (arrendatário), que exercerá ocorra atividade de exploração de lavoura temporária
a atividade agrária (exploração agrícola, pecuária, agro- ou de pecuária de pequeno e médio porte; (ii) cinco
industrial, extrativa ou mista) e explorará a atividade anos para os casos de atividade de exploração de lavou-
econômica, por certo prazo e por certo preço, atenden- ra permanente ou de pecuária de grande porte;(iii) sete
do às disposições legais sobre cláusulas obrigatórias. anos para os casos de atividade de exploração florestal.
São direitos do arrendatário: (i) preferência na aqui- Se o arrendamento rural (assim como também a par-
sição do imóvel, em igualdade de condições com ter- ceria rural) for contratado por um prazo maior que dez
108
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
anos, será necessário que o cônjuge direitos e obrigações do seu próprio Anotações
do arrendador (ou do parceiro outor- contrato de arrendamento. Deve,
gante) dê a sua anuência. obrigatoriamente, ser autorizado pelo
arrendante do contrato original.
Dá-se a extinção do arrenda-
mento rural (art. 26 do Decreto Contrato de parceria rural
59.566/66) nas seguintes situações:
(i) pelo término do prazo do contra- Este contrato é celebrado en-
to e do de sua renovação; (ii) pela tre o proprietário do imóvel rural
retomada; (iii) pela aquisição de gle- (parceiro-outorgante), que cede o
ba arrendada, pelo arrendatário; (iv) uso específico do imóvel rural a ou-
pelo distrato ou rescisão do contrato; tro (parceiro-outorgado), por tempo
(v) por motivo de força maior, que determinado ou não, incluindo ou
impossibilite a execução do contra- não as benfeitorias, outros bens ou
to; (vi) por sentença judicial irrecor- facilidades, com o objetivo de nele
rível; (vii) pela perda do imóvel rural; ser exercido a exploração agrícola,
(viii) pela desapropriação parcial ou pecuária, agro-industrial, extrativa
total do imóvel rural e (ix) por qual- vegetal ou mista, e/ou entrega ani-
quer outra causa prevista na lei. mais para cria, recria, invernagem,
engorda ou extração de matérias
Subarrendamento é o contrato primas de origem animal, median-
pelo qual o arrendatário transfere te partilha de riscos (caso fortuito
a outrem, no todo ou em parte, os ou força maior) do empreendimen-
109
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
to rural e dos frutos e produtos ou moradia; (iv) 40%, caso o parceiro- A chamada falsa parceria retrata
lucros havidos, conforme previsão e outorgante concorra com o conjunto uma situação na qual o proprietário
percentuais da lei (art. 96, VI do Es- básico de benfeitorias, constituído concorre com a terra, a moradia, as
tatuto da Terra). especialmente de casa de moradia, sementes, os animais, as máquinas,
galpões, banheiro para gado, cercas, os semoventes, os inseticidas e, ain-
Os prazos mínimos para a parce- valas ou currais, conforme o caso; da, com algum dinheiro. De outro
ria rural são os mesmos previstos no (v) 50%, caso o parceiro-outorgante lado, o outro contratante participa
contrato de arrendamento, porém, concorra com a terra preparada, a apenas com o seu trabalho, que será
nesta modalidade contratual não há moradia, o conjunto básico de ben- remunerado pelo proprietário por
pagamento de arrendamento e sim feitorias acima referido e mais as meio de salário (muitas vezes, me-
divisão dos frutos, produtos, lucros máquinas e implementos agrícolas, nor que o salário-mínimo), pago par-
e riscos. Na parceria há uma socie- sementes, animais de tração, e na te em dinheiro e parte em percentual
dade peculiar. Diferentemente do parceria pecuária, com animais de dos frutos e produtos da exploração
arrendamento, não há locação, nem cria em proporção superior a 50%, agrária. A direção, o custeio e os
aluguel. Partilham-se lucros e riscos do número total de cabeças objeto riscos do empreendimento estarão
e a lei fixa os percentuais desta par- de parceria; (vi) 75%, nas zonas de sob exclusiva responsabilidade do
tilha, da seguinte maneira: (i) 20%, pecuária ultra-extensiva em que fo- proprietário do imóvel rural, de tudo
quando o parceiro-outorgante con- rem os animais de cria em propor- isso não participando o outro con-
correr só com a terra-nua; (ii) 25%, ção superior da 25%, do rebanho e tratante, o trabalhador. Este contra-
quando o parceiro-outorgante con- onde se adotem a meação do leite e to, portanto, não é um contrato de
correr com a terra preparada; (iii) a comissão mínima de 5%, por ani- parceria rural, mas sim um contrato
30%, quando o parceiro-outorgante mal vendido. de locação de serviços (que deveria
concorrer com a terra preparada e a ser regido pelas leis trabalhistas e
110
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
previdenciárias), verdadeira relação empregatícia. Encontrados tais contra- Anotações
tos, assim mascarados como “parceria”, o Poder Judiciário lhes dará o tra-
tamento adequado, passando a considerá-los e tratá-los como contratos de
trabalho, regidos pela legislação trabalhista e previdenciária.
111
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
São deveres dos contratantes- ria: são as benfeitorias que se destinam à conservação do imóvel
parceiros: qualquer dos contratantes rural ou que evitem que ele se deteriore. Exemplos: o reparo de um
que não cumprir as obrigações deri- telhado, o conserto de infiltrações etc.; (ii) benfeitoria útil: são obras
vadas do contrato de parceria rural que aumentam ou facilitam o uso do imóvel. Exemplos: a construção
será constituído em mora, por meio de um curral, a instalação de cercas protetora etc.; (iii) benfeitoria
de notificação judicial ou extrajudi- voluptuária: são as obras que tornam o imóvel mais bonito ou agra-
cial. Não ocorrendo o cumprimento dável, ou seja, são obras de mero deleite ou recreio, não aumentando
da obrigação reclamada no prazo nem facilitando o uso do imóvel rural, ainda que sejam de elevado
notificado, dar-se-á a rescisão do re- valor. Exemplos: a construção de uma piscina, obras de jardinagem
ferido contrato agrário. e de decoração etc.
Quanto à indenização por ben- As benfeitorias necessárias feitas pelo parceiro-outorgado (ou pelo arren-
feitorias, o art. 24 do Decreto n. datário, no caso de contrato de arrendamento), ainda que não tenham sido
59.566/66 preceitua que são indeni- autorizadas pelo parceiro-outorgante (ou pelo arrendante ou arrendador, no
záveis as benfeitorias necessárias e/ caso de contrato de arrendamento), são indenizáveis e produzem, por con-
ou úteis que tenham sido realizadas seqüência, o chamado direito de retenção (a favor do parceiro-outorgado
no imóvel rural pelo parceiro-outor- ou do arrendatário, se for o caso, até que sejam efetivamente indenizadas.
gado (e também pelo arrendatário,
se o contrato for de arrendamento), Nota: É necessário que o parceiro-outorgado (ou o arrendatário) no-
no momento da extinção ou rescisão tifique o parceiro-outorgante (ou o arrendador) antes de realizar a
da relação contratual. benfeitoria necessária. Mas, se este não a autorizar, e se os danos
de sua ausência puderem comprometer o uso normal do imóvel, o
Nota: são espécies de benfei- parceiro-outorgado poderá realizá-las, mediante três orçamentos ini-
torias: (i) benfeitoria necessá-
112
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
ciais, guardando as notas ficais e os recibos, para vê-las indenizadas, Anotações
no futuro.
OUTROS CONTRATOS
Há muitos outros contratos que são realizados no agro e que não são,
exatamente, os contrários agrários (pois que estes são apenas os contratos
de arrendamento rural e de parceria rural), e que não estão regidos pela
legislação agrária de natureza cogente, como aqueles. Regem-se pelas nor-
mas do Código Civil, da legislação extravagante, ou da legislação especial,
em alguns casos, como o Código de Defesa do Consumidor.
113
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
destacados contratos (na área das re- o bem em empréstimo denomina-se bem for solicitado pelo comodante,
lações privadas comuns, excluídos, comodante e aquele que toma em- desde que tenha passado o tempo
portanto os contratos de trabalho – prestado denomina-se comodatário. necessário para o uso devido.
que serão examinados mais adian- As obrigações do comodante são,
te, em outro momento deste mesmo genericamente, as seguintes: (i) não Locação de serviços
capítulo –, os contratos bancários, pedir a devolução do bem antes do
e outros que não pertencem à área escoamento do prazo contratual ou, A locação ou prestação de ser-
mencionada. Vejamos: se não houver prazo fixado, não an- viços é o contrato em que uma das
tes de permitir ao comodatário o uso partes (prestador) se obriga para com
Comodato esperado; (ii) indenizar o comoda- a outra (tomador) a fornecer-lhe a
tário por benfeitorias úteis e neces- prestação de uma atividade, median-
Este contrato é regido pelo Códi- sárias (art. 1219 do Código Civil). te remuneração. É, assim, toda espé-
go Civil (artigos 579 ao 585) e retrata As obrigações do comodatário são, cie de atividade ou trabalho lícito
um empréstimo que transfere tem- genericamente, as seguintes: (i) con- que seja contratada mediante retri-
porariamente a posse direta de bens servar e cuidar do bem emprestado buição. Este contrato não abrange as
infungíveis (aqueles que não podem como se fosse seu; (ii) usar o bem de relações de emprego e outros servi-
ser substituídos por outros, de igual forma correta, de acordo com o con- ços que são regulados por legislação
qualidade e quantidade), móveis ou trato ou com a natureza do bem; (iii) específica, isto é, a legislação tra-
imóveis, sendo absolutamente gra- indenizar o comodante pela perda balhista (contrato de trabalho). Bem
tuito, quer dizer, não há contrapres- do bem, especialmente nos casos em por isso, sua regulamentação se en-
tação pelo empréstimo (se houver que tenha agido com negligência, contra sob as regras do Código Civil,
remuneração, não se trata mais de com imprudência ou com imperícia; e não da legislação agrária propria-
contrato de comodato, mas sim de (iv) restituir o bem na data apraza- mente dita, aquela que regulamenta
contrato de locação). Aquele que dá da ou, se não houver data, quando o os contratos de arrendamento e de
114
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
parceria, por exemplo. Se a contratação estiver vinculada a tempo deter- Os contratos agrários típicos,
minado ou ao resultado do serviço, o prestador não poderá se ausentar, ou como se disse antes, são o arrenda-
despedir-se, sem justa causa, antes de preenchido o tempo, ou concluída mento e a parceria rurais e ambos
a obra. Diferente da atividade de produção ou fabricação, serviço é a ati- são disciplinados pelo Estatuto da
vidade econômica da qual não resulta um produto tangível. Por exemplo, Terra e pelo Decreto 59.566/66,
a atividade de transporte e atividade exercida pelos profissionais liberais. que os regulamentou. Já se anotou,
Excluem-se da relação dos serviços que podem ser prestados, sob a égide exaustivamente, que tais contratos
deste contrato, então, todos os serviços regulados pela legislação trabalhis- obedecem a normas rígidas (normas
ta, pelo código do consumidor ou por outras leis especiais. de ordem pública, cogentes, impe-
rativas) que estão acima da vontade
Locação de pastos das partes. [...]
Segundo Augusto Ribeiro Garcia, “a locação de pastos é uma modali- “A diferença entre a locação
dade contratual praticada com muita assiduidade em todo o Brasil. É um de pastos e o arrendamento rural”
velho costume praticado principalmente entre vizinhos nos períodos de es- – prossegue Augusto Ribeiro Gar-
cassez das pastagens. A maioria deles é feita verbalmente e por períodos cia – “está exatamente aqui. Arren-
curtos, em geral não ultrapassando a um ou dois anos. No Rio Grande do damento rural e locação de pastos
Sul, onde a falta de pastos é mais constante, esse tipo de contrato tem o não são a mesma coisa, posto que
nome de pastoreio. Só que lá, ele é praticado com maior intensidade e são regidos por leis diferentes. O ar-
abrange outras modalidades. Algumas se assemelham à parceria pecuária. rendamento é regido pela legislação
Isto porque ela envolve também a cria, recria e engorda. E, neste caso, agrária e a locação de pastos pelo
realmente, configura-se uma parceria. Juridicamente, a locação ou arren- Código Civil. O contrato de arren-
damento de pastos é um contrato agrário atípico, porque não foi abrangido damento abrange o imóvel e todos
pela legislação agrária”. os seus acessórios. A locação recai
115
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
apenas sobre os pastos, diz respeito a um número determinado de cabeças de gado (o que não acontece no ar-
rendamento) e tem sempre um caráter emergencial. E isso tem conseqüências significantes, que podem acarretar
complicações de ordem prática muito relevantes para as partes. Por exemplo, imagine-se que um arrendante/lo-
cador quis socorrer o vizinho e fez uma locação para apenas seis meses; ao final do período, ele quer o pasto de
volta, mas o locatário não retira o gado do pasto, alegando que a lei assegura a sua permanência, ali, pelo prazo
mínimo de três anos”. Contudo, a solução correta para esta hipótese será a aplicação da legislação civil e não da
legislação agrária, e o vizinho/locador poderá ser despejado rapidamente. “Para se evitar situação como essa, o
locador de pastagens precisa tomar muito cuidado na contratação”, adverte o mesmo autor. “Isto porque tanto a
doutrina como a jurisprudência são majoritariamente favoráveis ao reconhecimento da locação de pastos como
arrendamento rural. Soma-se a isso o fato de a maioria dos juízes ter formação civilista.” (in Revista DBO, março
de 2004 – <[Link]/revistadbo> e <[Link]
Trata-se da intervenção do Estado, por meio da figura do juiz, na esfera e conteúdo de contrato já existente – sem-
pre a pedido de uma das partes contratantes – com a finalidade de alterar ou expurgar certa cláusula, ou para reduzir a
carga financeira que nela se contém, operando a revisão judicial destas convenções estabelecidas entre particulares.
Em que se baseia e fundamenta esta possibilidade de revisão judicial de contratos? A idéia de fundo de tal
possibilidade de revisão judicial estampa-se num eventual desequilíbrio contratual, produzido depois que o con-
trato foi formado, e provocando uma quebra na imprescindível necessidade de justa equivalência material entre os
contratantes obrigados.
116
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Anotações
Nota: Os dispositivos legais que, conjugados podem admitir a revisão
judicial dos contratos são os seguintes:
> Art. 317 do Código Civil – Quando, por motivos imprevisíveis, so-
brevier desproporção manifesta entre o valor da prestação devida e
o do momento de sua execução, poderá o juiz corrigi-lo, a pedido
da parte, de modo que assegure, quando possível, o valor real da
prestação.
117
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
pelas partes deveria, de qualquer forma, ser cumprido. um contrato cujo cumprimento se encontre estendido
A força obrigatória dos contratos superava qualquer no tempo, como, por exemplo, uma compra e venda
chance de reformulação judicial das cláusulas estipula- em várias prestações); (ii) que tenha ocorrido um evento
das pelos contratantes, ainda que desequilibrado viesse superveniente e imprevisível (um fato que ocorra depois
a se tornar o contrato, onerando excessivamente uma da celebração do contrato – superveniente, portanto – e
das partes e admitindo, em contrapartida, exagerados que tenha a caracterização de ser imprevisível – extra-
benefícios para a outra parte. Ex.: alguns dos contratos ordinário, portanto – ou seja, que não tenha podido ser
de venda de soja estipulados entre os agricultores e os previsto pelas partes contratantes, ao tempo da celebra-
entrepostos de grãos (especialmente nos anos de 2005 ção do contrato); (iii) que tenha se dado, por conseqü-
e 2006). ência, a verificação de uma onerosidade excessiva para
uma das partes versus uma vantagem exagerada para
Quais são os requisitos e quais são os pressupostos que a outra parte (conceitos jurídicos abertos e certamente
devem estar presentes para que, num certo contrato, o de difícil alcance e construção, tarefa esta que estará a
juiz pudesse operar a sua revisão judicial? cargo do juiz que examina o caso concreto); (iv) apenas
em casos reais – contratos já celebrados e que, durante
Em primeiro lugar, é preciso entender que um con- a sua execução (cumprimento das obrigações assumi-
trato só será judicialmente revisto se ele se apresentar das pelos contratantes) tenham ocorrido as circunstân-
desequilibrado ou se ele se conformar como injusto. A cias acima retratadas – é que poderá, eventualmente,
identificação da justiça ou injustiça, do equilíbrio ou de- produzir-se a revisão da avença pelo juiz que examinar
sequilíbrio no âmago de um contrato já existente deve o caso concreto, sob todos os aspectos de sua própria
levar em conta, necessária e obrigatoriamente, a presen- identificação, buscando manter o contrato sob a sua for-
ça de alguns requisitos indispensáveis: (i) que se trate de ma útil, justa e equilibrada.
um contrato de execução diferida ou continuada (isto é,
118
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Quais as consequências inde- implicação importante, no presente Anotações
sejáveis que a revisão judicial caso, é que qualquer tendência que
dos contratos pode causar, sob o o poder judiciário mostre no trata-
ponto de vista do desenvolvimen- mento dado à revisão dos contratos
to econômico de uma nação? será logo percebida pelos mercados
e incorporado como expectativas
Segundo o Professor Fernando pelos respectivos agentes. Conse-
Curi Peres, “desde a década dos cin- qüências graves podem advir desta
qüenta, no século passado, Muth in- incorporação. Tome, por exemplo, o
troduziu na economia uma hipótese caso dos contratos de venda anteci-
que veio a ser comprovada, ou siste- pada de produtos, como feita pelos
maticamente verificada nos estudos produtores de grãos às corporações
econométricos, intitulada hipótese que comercializam seus produtos e/
das expectativas racionais. Segun- ou insumos ou a algumas grandes
do esta hipótese – hoje uma lei da cooperativas. Pelo contrato, o produ-
economia – os mercados identifi- tor rural se compromete a entregar,
cam qualquer variação sistemática à época da colheita (portanto, num
numa variável aleatória. Ela explica, período futuro) determinada quanti-
por exemplo, porque os pregões dos dade de produto que, em geral, cor-
mercados futuros têm, sempre, uma responde a uma fração não superior
melhor performance na previsão de a 25% ou 1/3 de sua produção espe-
variáveis ou cenários econômicos do rada, por um preço ajustado entre as
que qualquer modelo econométri- partes. Este preço, quase sempre cor-
co, por mais sofisticado que seja. A
119
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
responde ao que o mercado futuro ou podem ser menores, o que resulta ção contratada por preços menores
está indicando como o mais prová- em ganhos para os produtores rurais. que a metade do que prevalescia
vel na época da colheita. Ele é muito De fato, a coisa não acontece, ne- no mercado. Certamente, ninguém
importante para os produtores rurais cessariamente, assim. As empresas previu que a China fosse entrar com-
porque são recursos, na maioria dos que comercializam essas produções prando grandes quantidades de soja
casos, utilizados para pagar os insu- tomam empréstimos no mercado fi- no mercado e que a doença da vaca
mos necessários ao processo produti- nanceiro internacional e repassam louca fosse aumentar, de forma vio-
vo. Cumprem, assim, um importante estes empréstimos aos agricultores, lenta, a procura por proteína vegetal
papel de financiar o processo produ- os quais não têm condições de fazê- para substituir a proteína de origem
tivo na agricultura. Como o preço é lo individualmente. Quando fecham animal na alimentação dos bovinos.
julgado atrativo pelos produtores, o contratos com os produtores rurais Muitos agricultores pediram à justiça
que é necessariamente o caso, pois, elas, imediatamente, vendem contra- que fosse feita uma revisão dos con-
de outra forma não venderiam parte tos equivalentes nas bolsas de futuro tratos, alegando perdas grandes para
de suas produções, eles livremente para reduzirem ou transferirem parte eles e, correspondetemente, ganhos
contratam com aquelas empresas. de seus riscos (hedge) para investi- desproporcionais para as empresas
Como toda atividade econômica en- dores das bolsas, que podem ser, ou compradoras. Se os juizes enten-
volve risco, o que justifica a própria de fato são, muitas vezes, fundos de dessem que os agricultores eram as
existência do empresário, os valores pensão de determinadas categorias partes mais fracas – e, de fato, eram,
ou preços esperados podem, ou não, de trabalhadores. Quando acontece quando comparados com o enor-
se realizarem. Na época da colheita dos preços diferirem muito dos espe- me poder de mercado e riqueza das
eles podem ser maiores que o espe- rados, como aconteceu há três anos grandes corporações – e lhes dessem
rado, o que poderia resultar em ga- (2004) atrás, os produtores tiveram ganho de causa, uma enorme distor-
nhos para a empresa compradora, que entregar a parte de sua produ-
120
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
ção estaria sendo criada nesses mercados. Primeiro, sua generalização aca- Anotações
baria com a prática de compra antecipada. Segundo, estaria, dessa forma,
sendo destruída uma importante fonte de financiamento para a agricultura.
Finalmente, a justiça estaria interferindo, de forma perversa, numa estrutura
de mercado onde o lucro tende a premiar aqueles que aplicam os recur-
sos sociais de forma mais eficiente, desde que asseguradas as condições
de competitividade. Neste caso, a própria existência de cooperativas de
produtores realizando o mesmo tipo de operação e contratando por pre-
ços semelhantes garantia que as condições de competição estavam sendo
observadas. Dificilmente a justiça poderia fazer melhor que os mercados
na alocação mais eficiente dos recursos sociais, nestes casos. A atitude de
alguns produtores foi, claramente, oportunística e a justiça deveria, sim,
garantir que o que foi contratado fosse cumprido”.
121
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
tual na atualidade, como, por exemplo, a função
social do contrato e a boa-fé objetiva. Os referidos
princípios regem, no campo do direito privado, os
mais variados negócios realizados entre as pessoas
(físicas ou jurídicas). Ocorre que desses empreendi-
mentos surgem outras vertentes contratuais que ul-
trapassam as margens do direito civil e comercial,
ou seja, tais pactos fazem surgir inúmeras relações
de trabalho.
122
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
mente do direito do trabalho, e, ainda, de acordo com os usos e costumes,
o direito comparado, mas sempre de maneira que nenhum interesse de Anotações
classe ou particular prevaleça sobre o interesse público. Parágrafo único:
O direito comum será fonte subsidiária do direito do trabalho, naquilo em
que não for incompatível com os princípios fundamentais deste.
123
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
direitos do trabalho e civil se relacionam e têm profundas raízes constitucionais. Enfim, a compreensão dos prin-
cípios e das normas trabalhistas no agro é fator essencial para o desenvolvimento do campo e para o aumento
da competitividade. Por esse motivo, há na atualidade uma crescente preocupação no setor econômico com a
modernização e com a flexibilização das relações de trabalho. Entender as relações laborais, e as suas normas, sig-
nifica dar um grande passo para o desenvolvimento, significa estar preparado para recepcionar novas tecnologias
e significa saber melhor enfrentar as oscilações do mercado e a crescente concorrência.
124
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Em seguida, no art. 170, determina que: Anotações
A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na li-
vre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os
ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: VIII – busca
do pleno emprego...
Logo, nota-se que há, nas nossas leis, vasta proteção dos valores sociais
do trabalho, do emprego e da livre iniciativa.
125
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
Por sua vez, o empregado (ou tra- modo não-eventual, pessoal e sejam remunerados e subordinados ao em-
balhador) rural, de acordo com o art. pregador rural.
2º da Lei n. 5.889/73 (atualizada pela
Lei n. 11.718/2008), pode ser definido A mesma lei acima citada também conceitua, em seu art. 3º, a figura do
como: empregador rural:
...toda pessoa física que, em ... é a pessoa física ou jurídica, proprietário ou não, que explora
propriedade rural ou prédio atividade agro-econômica, em caráter permanente ou temporá-
rústico, presta serviços de na- rio, diretamente ou através de prepostos.
tureza não eventual a empre-
gador rural, sob a dependência Além disso, equiparam-se a empregadores rurais: (i) aqueles que exe-
deste e mediante salário. cutam serviços de natureza agrária com o auxílio do trabalho de outra pes-
soa (física) – como é o caso da empreitada e da sub-empreitada –, e (ii) o
Nesse contexto, vale dizer que consórcio de empregador rural, tema que será analisado adiante, com mais
não importam os métodos de traba- profundidade, devido a sua extrema importância no agro.
lho, ou os fins da atividade em que
se envolve, ou a função exercida, ou Então, conclui-se que a definição de empregado rural depende do enqua-
ainda o tipo de profissão do empre- dramento da atividade exercida pelo empregador, ou seja, se este exercer ativi-
gado, mas, sim, o empreendimento dade rural (ou agro-econômica), os seus empregados serão considerados rurais
do empregador. Por isso, são con- – caso contrário, serão considerados urbanos. Em idêntico sentido, a Súmula
siderados trabalhadores rurais, por 196 do Superior Tribunal Federal dispõe que ainda que exerça atividade ru-
exemplo, o tratorista, o motorista, ral, o empregado de empresa industrial ou comercial é classificado de acordo
o médico veterinário, desde que com a categoria do empregador. (Legislação aplicável: art. 3º, § 1º, da Lei n.
desempenhem os seus serviços de 5.889/1973 e Decreto n. 73.626/1974).
126
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Nota: por esta razão (relação estreita entre a classificação rural O que é exploração industrial em
para a relação de emprego, a partir da atividade rural desenvolvida estabelecimento agrário?
pelo empregador), deve ficar anotado que o empregado doméstico
que não exerça atividade agrária não será classificado como empre- Considera-se exploração indus-
gado rural. Seu enquadramento será o de empregado doméstico, trial em estabelecimento ou empre-
conforme regência da Lei n. 5.859/72, cujo art. 1º determina que em- endimento agrário todas as ativi-
pregado doméstico é aquela pessoa que presta serviços de natureza dades que se referem ao primeiro
contínua e de finalidade não lucrativa, à pessoa ou à família no âmbi- tratamento dos produtos in natura,
to residencial destas, mediante salário em caráter permanente, ainda sem transformação da sua nature-
que seja em períodos alternados ou descontínuos, por exemplo, duas za, por exemplo: o beneficiamento,
ou três vezes por semana, laborando na limpeza da casa, quintal e a primeira modificação e o preparo
jardim, cultivo de horta, cuidado de animais para consumo próprio dos produtos agropecuários e horti-
do empregador, do empregado e de terceiros, desde que não haja co- granjeiros e, bem assim, das matérias
mercialização, ainda que os serviços tenham sido prestados na casa primas de origem animal ou vegetal
da sede da fazenda, na praia, no sítio de lazer ou na cidade. O mo- para posterior venda ou industriali-
torista que presta serviços numa propriedade rural, em princípio, é zação; e o aproveitamento dos seus
considerado como empregado doméstico; no entanto, se porventura subprodutos.
ele praticar atividade relacionada à exploração agro-econômica de
seu empregador (com finalidade lucrativa, por isso), será classificado
como empregado rural2.
2 Para mais leituras sobre a distinção entre empregado rural e empregado doméstico, acesse-se os sites seguintes:
<[Link] <[Link]
[Link]?idNoticia=54833> <[Link]
127
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
Conceito, elementos e requisitos do pelo qual uma pessoa física se obri- pelo empregador (ou seu prepos-
contrato de trabalho rural ga a uma prestação de trabalho em to); (iii) onerosidade: em virtude da
favor e sob a direção de um empre- prestação da mão-de-obra (da força
Denominado antigamente de gador rural (pessoa física ou jurídica) de trabalho) é exigida a contrapres-
locação de serviços, o contrato in- mediante uma contraprestação, isto tação de salários; (iv) continuidade:
dividual de trabalho é um precioso é, salário. o contrato de trabalho exige a con-
meio de valorização da dignidade tinuidade da prestação dos serviços,
da pessoa humana e exerce impor- Aliás, conforme explicamos no ou seja, não pode ser eventual; e (v)
tante papel no desenvolvimento de item “Para entender o contrato”, não relação trabalhista rural: o empre-
um país. O seu conceito está des- podemos nos esquecer que o contra- gador deve explorar atividade agro-
crito de forma muito simples no art. to de trabalho rural deve ser sempre econômica (v. conceitos no item b,
442 da CLT: firmado com base na boa-fé objetiva precedente).
Contrato de trabalho é o acordo e em razão e nos limites da função
tácito ou expresso, correspon- social do contrato (art. 421 do novo Ainda, como já dissemos nos itens
dente à relação de emprego. Código Civil; artigos 1º, 6º, 7º e 170 passados, é necessária uma mínima
da Constituição Federal de 1988; art. base de exigências, pré-determina-
Porém, ao analisar o mencio- 8º da CLT). das por lei, para a concretização do
nado conceito em conjunto com as contrato de trabalho, por exemplo: o
diretrizes fixadas pela Constituição Os principais requisitos do con- empregador e o empregado devem
Federal de 1988 e pelo Código Civil trato de trabalho no âmbito rural ser capazes juridicamente, precisam
de 2002, podemos concluir que o são: (i) pessoalidade: o contrato deve manifestar a vontade de contratar
contrato de trabalho (no agro) é um ser firmado com pessoa física, cer- (sem qualquer incidência de coação
negócio jurídico de direito privado ta e determinada; (ii) subordinação: ou ameaça), o contrato de trabalho
(sujeito às normas de ordem pública) o empregado rural deve ser dirigido deve ter objeto lícito, possível, deter-
128
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
minado ou determinável e a forma prescrita ou não defesa em lei. As suas Anotações
características gerais são a bilateralidade (direitos e obrigações recíprocas),
a consensualidade (vontade e concordância das partes) e o trato sucessivo
(o contrato não se extingue com a prática de um único ato). Conforme pres-
creve o art. 104 do novo Código Civil, a ausência de um desses elementos
citados torna nulo o contrato de trabalho e não enseja qualquer direito tra-
balhista, exceto quanto aos salários que não foram pagos.
129
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
do, destacam-se os princípios do respeito à dignidade te marca as relações trabalhistas, ou seja, ampara
da pessoa humana, dos valores sociais do trabalho e da o empregado. Tal princípio desdobra-se em três
livre iniciativa, da liberdade, da igualdade entre homens vertentes: (i) impõe a aplicação da norma mais
e mulheres, da liberdade sindical. Vejamos, a seguir, al- favorável ao empregado (parte hipossuficiente),
guns dos mais importantes princípios inerentes ao direi- (ii) prevalece a regra da condição mais benéfica
to do trabalho: ao trabalhador e (iii) determina a aplicação do
critério in dubio pro operario.
> Princípio da irrenunciabilidade dos direitos tra-
balhistas: consiste na impossibilidade jurídica de > Princípio da primazia da realidade: nos casos de
o trabalhador renunciar aos direitos e às vanta- dissonância entre o que ocorre na realidade e o
gens a ele conferidas pela leis trabalhistas, que que extrai-se dos contratos ou dos recibos ou de
não podem ser modificadas para prejudicar o outros documentos, deve-se privilegiar a verdade
empregado, nem mesmo com o seu ‘consenti- real – essa é a regra do art. 9º, da CLT: “Serão
mento expresso’, nem mesmo ‘voluntariamente’. nulos de pleno direito os atos praticados com o
Se ocorrer a renúncia aos direitos, é nulo todo objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar a apli-
contrato ou ato destinado a fraudar ou impedir a cação dos preceitos contidos na presente Conso-
aplicação da legislação trabalhista. Só se permi- lidação”.
te a modificação das condições de trabalho com
o consentimento do empregado, mas desde que > Princípio da continuidade do contrato de traba-
não lhe acarrete danos (sob pena de nulidade). lho: o seu fundamento reside na natureza alimen-
tar do salário, pois o trabalhador é subordinado
> Princípio protetor: visa contrapor a desigualdade jurídica e economicamente ao empregador e re-
jurídica à desigualdade econômica que geralmen- tira o seu sustento (e da sua família) da prestação
130
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
de serviços. Visa também, esse princípio, destinar maior probabili- Anotações
dade de continuação da relação trabalhista. Por isso, o direito do
trabalho estabelece como regra – e meta – o contrato por tempo in-
determinado e desincentiva as sucessivas prorrogações dos contratos
a termo (por tempo determinado).
131
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
Classificação dos contratos de trabalho Já quanto à duração do contrato de trabalho, pode-
mos fazer a seguinte distinção: (i) o contrato pode ser
A legislação pátria (art. 443 da CLT) determina que: firmado por prazo indeterminado (regra geral em razão
O contrato individual de trabalho poderá ser acor- do princípio da continuidade) ou (ii) por prazo deter-
dado tácita ou expressamente, verbalmente ou por minado, isto é, a vigência do contrato depende da data
escrito e por prazo determinado ou indeterminado. prefixada ou da conclusão dos serviços contratados.
Vale ressaltar que os contratos de trabalho firmados por
Logo, a lei não exige que o contrato de trabalho seja prazo determinado (prazo máximo de 2 anos – art. 445
escrito (maior segurança jurídica), embora ele pode ser da CLT) têm validade somente se as atividades forem de
verbal também. Ocorre que, caso seja verbal, as partes caráter transitório ou se o contrato for de experiência
contratantes terão maior dificuldade de provar as suas (90 dias, podendo ser prorrogado apenas uma vez – art.
alegações e direitos na Justiça do Trabalho. Então, acon- 451 da CLT).
selha-se sempre aos empregadores e empregados rurais
que façam o contrato de trabalho por escrito e com a Os contratos mais comuns por prazo determinado
presença de testemunhas. Assim, poderão ser evitados são o de safra (art. 14, Lei n. 5.889/73) e o de obra certa
futuros problemas e prejuízos. (Lei n. 2.959/58). Todavia, no âmbito do agro, foi apro-
vada uma nova lei sobre o contrato de trabalho rural por
O contrato de trabalho pode ser classificado quanto pequeno prazo – tema que vai merecer especial desta-
aos seus sujeitos: (i) será individual o contrato que tiver que no item a seguir.
um único empregado no pólo ativo da relação traba-
lhista e (ii) será plúrimo (contrato de equipe) aquele que Contrato de trabalho rural por pequeno prazo
tiver mais de um obreiro, ou melhor, é o ajuste reali-
zado entre o empregador e um grupo de empregados Em 20 de junho de 2008 foi publicada a Lei n.
reunidos para a execução de certo serviço. 11.718, que trata do contrato de trabalho rural por pe-
132
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
queno prazo. Essa lei decorreu da conversão modificada da Medida Pro- Anotações
visória n. 410, editada em 28 de dezembro de 2007, e acrescentou o art.
14-A à Lei do Trabalho Rural – n. 5.889/73. O contrato poderá ser formali-
zado por meio da inclusão do trabalhador na GFIP (Guia de Recolhimento
do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência
Social), pela anotação na CTPS (ou no Livro de Registro de Empregados) ou
por contrato escrito (em duas vias).
Pela lei, o empregador rural não tem o dever de anotar a CTPS do tra-
balhador. Entretanto, todas as parcelas devidas ao empregado serão calcu-
ladas diariamente e pagas a ele mediante recibo no qual estejam especifi-
cados os direitos e os respectivos valores e períodos. A propósito, uma das
133
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
questões mais polêmicas que antecedeu a aprovação deduzida pelo empregador rural e recolhida ao Instituto
da lei do contrato rural por pequeno prazo (e que ain- Nacional do Seguro Social (INSS)3.
da hoje é objeto de acirradas discussões) diz respeito à
facultatividade da anotação na carteira de trabalho do Contrato de safra (safrista)4
empregado ou no livro de registro. Para a Federação dos
Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo Contrato de safra é aquele em que o empregado
(FERAESP), a lei precariza cada vez mais as relações de presta serviço durante o período da safra, ou seja, desde
trabalho. Contudo, para a Confederação da Agricultura o preparo do solo para o cultivo até a colheita. Portanto,
e Pecuária do Brasil (CNA), a iniciativa do Governo Fe- é um contrato a termo (por prazo determinado) e sua
deral desburocratiza as relações de trabalho, desenvol- duração depende das variações estacionais da atividade
ve o agronegócio no Brasil e incentiva a legalização das agrária desenvolvida no empreendimento rural. Porém,
relações trabalhistas no campo. se terminada a safra e o empregado continuar a prestar
outros serviços típicos do meio agrário ao empregador,
Por fim, no contrato de trabalho rural por pequeno o contrato será por tempo indeterminado. O FGTS e os
prazo, a filiação e a inscrição do empregado na Previ- respectivos direitos são todos assegurados ao safrista.
dência Social decorrem da sua inclusão pelo emprega-
dor na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do O contrato de safra não é formal e pode ser pactu-
Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social ado verbalmente entre empregado e empregador rural,
(GFIP). Frisa-se que a não inclusão do trabalhador na mas é aconselhável firmá-lo por escrito em razão de ser
GFIP pressupõe a inexistência de contratação por curto um dos meios de prova mais convincentes.
prazo. Aliás, o recolhimento e o levantamento do FGTS 3 Leia sobre a Lei n. 11.718/2008 que alterou a Lei n. 5889/1973, no link <http://
[Link]/2008/06/[Link]>
efetivar-se-ão nos termos da Lei n. 8.036/90, sob a alí-
4 Mais leituras podem ser feitas, por exemplo, nos seguintes links: <[Link]
quota de 8%. Já a contribuição previdenciária devida [Link]/[Link]>
<[Link]
pelo empregado, também sob a alíquota de 8%, será <[Link]
134
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Registro na CTPS (Carteira de trabalho e previdência social) Anotações
135
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
normal poderá ser acrescida de horas suplementares em número não > Descontos no salário: é possí-
excedente a duas horas, mediante acordo escrito entre o emprega- vel haver descontos no salá-
dor e o empregado ou mediante contrato ou convenção coletiva de rio do trabalhador rural, nos
trabalho. A remuneração da hora suplementar será, no mínimo, 50% termos do art. 9º, alíneas a e
(cinqüenta por cento) superior à da hora normal e, nesse caso, a du- b da Lei n. 5.889/73. Nessa
ração do trabalho não poderá exceder dez horas. hipótese, podem ser descon-
tados: (i) pelo uso da moradia
> Trabalho e adicional noturno: a hora noturna do trabalhador rural é até o limite de 20% do salário
de sessenta minutos e tem o acréscimo de 25% sobre a remuneração mínimo, (ii) pelo fornecimen-
normal da hora diurna (art. 7º da Lei n. 5.889/73). Nesse contexto, to da alimentação até o limite
considera-se trabalho noturno aquele prestado das 21h às 5h, no de 25% do salário mínimo.
caso da lavoura, e das 20h às 4h, no caso da pecuária. Ressalta-se Todavia, esses descontos
que ao menor de 18 (dezoito) anos é vedado o trabalho noturno. dependem da prévia anuên-
cia do empregado rural, sob
> Intervalos durante a jornada de trabalho: conforme dispõe o art. 5º pena de nulidade (art. 9º, §1º
da Lei n. 5.889/73, para qualquer prestação contínua de serviço de da Lei n. 5.889/73).
duração superior a seis horas é necessária a concessão de intervalo
mínimo de uma hora para repouso ou alimentação. Aliás, devemos, Considera-se morada a habita-
para tanto, observar os usos e costumes da região onde ocorre a re- ção fornecida pelo empregador ru-
lação trabalhista. Os intervalos para alimentação ou repouso não se- ral que atenda às condições pecu-
rão computados na duração do trabalho. Além disso, duas jornadas liares de cada região e satisfaça os
deverá ser observado o período mínimo de onze horas consecutivas requisitos de salubridade e higiene
para descanso. estabelecidas em normas expedidas
136
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
pela Delegacia Regional do Trabalho (DRT). É vedado o uso de moradia Anotações
coletiva de famílias. Finalizado o contrato de trabalho, o empregado ru-
ral será obrigado a desocupar a morada fornecida pelo empregador no
prazo máximo de trinta dias.
137
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
Por isso, o consórcio de empregadores rurais surgiu como uma alternativa à contratação informal, à arriscada
intermediação de mão-de-obra por gatos ou turmeiros e às cooperativas de trabalhadores rurais. Consiste o consór-
cio na união de produtores rurais (duas ou mais pessoas físicas) com o intuito exclusivo de contratar um emprega-
do e dividir a sua força de trabalho – nesse caso, um dos consorciados representará os demais (que serão solidários
nas dívidas trabalhistas e fiscais) e assinará a CTPS do empregado. O referido instituto foi regulamentado pela Lei
n. 10.256, de 9 de julho de 2001, que acrescentou o artigo 25-A à Lei n. 8.212 de 24 de julho de 1991.
No entanto, mesmo antes da referida previsão legal, vários produtores do Paraná, de Minas Gerais e de São Paulo
já se utilizavam desta modalidade de contratação. De acordo com os dados da Secretaria de Inspeção do Trabalho –
SEFIT, do Ministério do Trabalho, havia no Brasil, em julho de 2002, 103 (cento e três) consórcios de empregadores
rurais formados por mais de 3.400 produtores e nos quais trabalhavam cerca de 65 mil trabalhadores.
De maneira geral, a intenção do legislador ao regulamentar o consórcio de empregadores rurais foi facilitar a
contratação definitiva de empregados, sobretudo por pequenos e médios proprietários que necessitam de força de
trabalho suplementar apenas em determinadas épocas do ano ou alguns períodos do dia. Nesse aspecto, propicia-
se maior estabilidade na relação de trabalho, pois a contratação coletiva (i) evita a precarização das relações de
trabalho provocada pelas constantes realizações de bicos e (ii) contribui, em última análise, para a formação do
pleno emprego no campo por meio da criação de um vínculo formal no qual esteja assegurada a observância das
normas trabalhistas.
Portanto, a contratação coletiva, pela via dos consórcios de empregadores rurais, traz benefícios ao Estado,
facilita a fiscalização das normas de segurança e higiene do trabalho e, especialmente, torna mais fácil e rápida a
arrecadação das verbas securitárias e previdenciárias5.
5 Mais leituras podem ser feitas, por exemplo, nos seguintes links: <[Link]/downloads/Consorcio_de_empregadores.doc> <[Link]
delegacias/sc/noticias/[Link]>
138
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Direitos do trabalhador contratado por consórcio de empregadores rurais Anotações
Vale dizer que o consórcio não pode ser utilizado para diminuir ou
restringir os direitos do trabalhador. Assim, eventuais litígios ou dúvidas
quanto às normas aplicáveis devem ser sempre decididas por meio dos
princípios da proteção, da norma mais favorável, da indisponibilidade das
normas trabalhistas e da condição mais benéfica.
139
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
Formalização do consórcio de em- lativas à parceria, arrendamento ou sórcio de empregadores e não para
pregadores rurais equivalente e a matrícula no Institu- o contrato de trabalho em si – que
to Nacional de Seguro Social (INSS) pode ser verbal – salvo quando esta-
As exigências para que o consór- de cada um dos produtores rurais, belecido por tempo determinado.
cio de empregadores se formalize es- (ii) o consórcio deverá ser matricula-
tão expressas na Lei n. 8.212/91 (§1º do no INSS em nome do empregador Demais aspectos da formalização
do art. 25-A). Equipara-se ao empre- a quem foram outorgados os pode- do consórcio
gador rural pessoa física o consórcio res, na forma do regulamento, (iii) os
simplificado de produtores rurais produtores rurais integrantes do con- O consórcio de empregadores
formado pela união de produtores sórcio serão responsáveis solidários deverá ter matrícula própria junto ao
rurais pessoas físicas, mediante do- em relação às obrigações previden- INSS (CEI – Cadastro Específico do
cumento registrado em cartório de ciárias. INSS), que será criada em nome do
títulos e documentos. produtor a quem hajam sido outor-
Observa-se que para a formali- gados os poderes de gestão do em-
Os principais requisitos para esta zação do consórcio de empregado- pregado e será considerado por tal
formalização do contrato de consór- res rurais é necessária a formação órgão como pessoa física. O perti-
cio, portanto, são: (i) o documento de documento escrito – devidamen- nente formulário de matrícula do
deverá conter a identificação de cada te registrado no cartório de títulos e consórcio será assinado por todos
produtor, seu endereço pessoal e o documentos. Na prática, este docu- os participantes, sendo que as pro-
de sua propriedade rural, bem como mento está sendo batizado de “Ter- priedades rurais devem se situar no
o respectivo registro no Instituto Na- mo de Responsabilidade Solidária”. mesmo município ou nos limítrofes.
cional de Colonização e Reforma Importa dizer que a forma escrita Importante frisar que o consórcio
Agrária (INCRA) ou informações re- é exigida para a formação do con- deverá recolher o imposto de renda,
140
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
caso a remuneração do empregado ultrapasse o limite de isenção. Caso não Anotações
haja a retenção e o repasse, todos os participantes poderão ser responsabi-
lizados de forma solidária.
141
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
po demanda cuidados especiais, sob de cada participante para com a remuneração dos empregados contratados
pena de tornar-se inviável em decor- pelo consórcio. Evidentemente, cada consórcio poderá eleger o critério que
rência das tensões naturais que en- julgar conveniente dentre vários possíveis, tais como (i) a quantidade de
volvem qualquer associação. horas ou dias que utilizou a mão-de-obra do empregado, (ii) a natureza ou
a forma de prestação do serviço exigido, (iii) o rateio per capita entre os
Os produtores rurais membros do produtores. Afinal, não se pode admitir que a remuneração do trabalhador
consórcio deverão ser orientados no fique à mercê do pagamento de todos os empregados que utilizaram sua
sentido de que, para a viabilização do mão-de-obra. O gestor deve cuidar para que o pagamento seja realizado no
grupo, todos deverão estar imbuídos dia, mesmo que alguns dos empregadores não tenham adimplido com suas
de um espírito coletivo de trabalho, cotas-partes.
que se aproxima, bastante, do espírito
cooperativista. Só por meio da cola- Outra questão gerencial que produz reflexos no direito do trabalho e que
boração de todos para manter a união deve ser alvo de especial atenção no pacto de solidariedade é o exercício
do grupo, é que poderão ser contor- do poder disciplinar dos empregadores sobre o(s) empregado(s), uma vez
nados os problemas rotineiros. que envolve grande carga de subjetividade. Determinada atitude do empre-
gado pode parecer faltosa a um dos empregadores e indiferente aos demais.
Assim, conhecidas as necessida- Portanto, será previdente constar no acordo como o administrador do grupo
des de cada produtor do consórcio e poderá resolver tais situações sem que, obviamente, os demais empregado-
elaborado o plano de gestão do con- res percam a parcela do poder disciplinar indispensável ao bom andamento
domínio de empregadores é interes- dos serviços.
sante que se faça constar no pacto
de solidariedade algumas regras es- Na hipótese de excesso ou de abuso do poder disciplinar (tão freqüente
pecíficas. A principal regra é, segu- nos dias atuais) praticado por apenas um dos empregadores, é de se convir
ramente, como será a contribuição que não há responsabilidade solidária dos demais, já que o ato poderá ser in-
142
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
dividualizado e o ônus do abuso imputado exclusivamente ao seu autor. No Anotações
entanto, no caso do excesso ser coletivo ou praticado pelo gestor do grupo
(no uso de suas atribuições de gerência, e não de produtor) deve persistir a
responsabilidade comum pelos danos, tal como a aplicação de uma preten-
sa justa causa anulada pelo Poder Judiciário.
143
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
serviço – inclusive para fins de verificação de excesso de jornada e mereci- o trabalhador rural do trabalhador
mento dos pertinentes adicionais pelas horas extraordinárias. urbano.
Enfim, o consórcio de empregadores rurais é uma alternativa viável para Assim, o ordenamento jurídico
a conquista e viabilização do pleno emprego no campo. Os empregadores brasileiro, por meio do RGPS, conce-
contam com uma forma segura e menos onerosa para admissão formal dos de, aos trabalhadores rurais e urba-
empregados que, por sua vez, contam com a garantia de um vínculo estável e nos, semelhante proteção previden-
não mais maculado pela intermitência dos períodos de safra e entressafra. ciária. Porém, a previdência social é
um direito que exige o cumprimento
ENCARGOS PREVIDENCIÁRIOS E RECOLHIMENTO de um dever, ou seja, a contribuição
por parte do trabalhador.
Introdução
A propósito, o art. 195 da Cons-
A Constituição Federal de 1988 estabeleceu a Seguridade Social, isto é, tituição determina, em síntese, que:
um sistema de proteção social composto por três campos: saúde, assistência A Seguridade Social será finan-
social e previdência. A finalidade é garantir a manutenção dos trabalhadores ciada por toda a sociedade, de
e seus dependentes, por meio de benefícios, em virtude de incapacidade la- forma direta e indireta, nos ter-
boral. mos da lei, mediante recursos
provenientes dos orçamentos
A inclusão dos trabalhadores rurais no Regime Geral de Previdência da União, dos Estados, do Dis-
Social (RGPS) foi tardia em relação a outras categorias de trabalhadores. trito Federal e dos Municípios,
Contudo, a legislação previdenciária passou por considerável avanço nos e das seguintes contribuições
últimos 30 anos, no sentido de propiciar uma melhor cobertura social dos sociais: I – do empregador, da
trabalhadores rurais. Tal fato, no que condiz aos direitos sociais, aproximou empresa e da entidade a ela
144
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
equiparada na forma da lei; II – do trabalhador e dos demais segurados da Anotações
previdência social, não incidindo contribuição sobre aposentadoria e pen-
são concedidas pelo regime geral de previdência social de que trata o art.
201; III – sobre a receita de concursos de prognósticos; IV – do importador
de bens ou serviços do exterior, ou de quem a lei a ele equiparar.
145
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
Conceitos de empresa, empregados,
A Seguridade Social compreende um conjunto integrado de ações de ini- contribuintes individuais, trabalha-
ciativa dos poderes públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os di- dor avulso e segurado especial se-
reitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social. Parágrafo úni- gundo o direito previdenciário
co. Compete ao poder público, nos termos da lei, organizar a seguridade
social, com base nos seguintes objetivos: I - universalidade da cobertura No campo do direito obrigacio-
e do atendimento; II - uniformidade e equivalência dos benefícios e ser- nal previdenciário, podemos definir
viços às populações urbanas e rurais; III - seletividade e distributividade empresa como sendo aquela em que
na prestação dos benefícios e serviços; IV - irredutibilidade do valor dos o empresário, ou a sociedade, assu-
benefícios; V - eqüidade na forma de participação no custeio; VI - diver- me o risco de uma ou mais ativida-
sidade da base de financiamento; VII - caráter democrático e descentra- des econômicas rurais ou urbanas,
lizado da gestão administrativa, com a participação da comunidade, em com ou sem fins lucrativos. Ainda,
especial de trabalhadores, empresários e aposentados. equiparam-se a empresas, por exem-
plo, (i) o contribuinte individual, em
Porém, dentre todos esses princípios citados, merece especial desta- relação ao segurado que lhe presta
que o da universalidade da cobertura e do atendimento, ou seja, o nosso serviços, (ii) a cooperativa rural, (iii)
sistema de Seguridade Social deve dar ampla proteção, cobertura e aten- a associação ou a entidade de qual-
dimento aos segurados-beneficiários no sentido de cobrir todos os eventos quer natureza ou finalidade, inclusi-
que redundem em estado de necessidade: (i) idade avançada, (ii) morte, (iii) ve o condomínio, (iv) o proprietário
invalidez, (iv) deficiência física, (iv) maternidade etc. do imóvel, quando pessoa física, em
relação a segurado que lhe presta
serviços.
146
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Por sua vez, empregados são os que prestam serviços às empresas, de Anotações
natureza rural ou urbana, em caráter não-eventual e com subordinação,
fazem parte do rol de segurados obrigatórios, exercem atividade remune-
rada abrangida pelo Regime Geral da Previdência Social (RGPS) e têm o
desconto da contribuição previdenciária sobre a sua remuneração em folha
de pagamento.
147
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
Contribuições do produtor rural receita bruta proveniente da comer- Quanto às cooperativas de traba-
pessoa jurídica e pessoa física e do cialização da produção, é de 2,5% lho, a contribuição destinada à Se-
consórcio de produtores rurais (destinados à Seguridade Social) e guridade Social será de 15% sobre
de 0,1% (destinados à aposentadoria o valor bruto da nota fiscal ou da
Como o Programa Empreende- especial e aos casos que envolvam fatura de prestação de serviços, re-
dor Rural (PER) tem por meta apoiar incapacidade para o trabalho decor- lativamente aos serviços que lhe são
a criação, o planejamento e o desen- rente dos riscos ambientais da ativi- prestados por cooperados por inter-
volvimento do agronegócio e das em- dade). médio de cooperativas de trabalho
presas rurais (ou a elas equiparadas), (art. 22, IV, da Lei n. 8.212/91).
analisaremos, a seguir, os principais Tais alíquotas não se aplicam às
aspectos relacionados às contribui- operações relativas à prestação de A contribuição do produtor (em-
ções da empresa rural, do produtor serviços a terceiros, cujas contribui- pregador) rural pessoa física e do
rural pessoa física e do consórcio de ções previdenciárias deverão obser- consórcio simplificado de produto-
produtores rurais. var o disposto no art. 22 (“20% so- res rurais é calculada conforme os
bre o total das remunerações pagas, termos a seguir: 2% da receita bruta
Nesse contexto, a contribuição devidas ou creditadas a qualquer tí- proveniente da comercialização da
devida pela agroindústria (definida tulo, durante o mês, aos segurados produção e 0,1% da receita bruta
pela lei “como sendo o produtor empregados e trabalhadores avulsos proveniente da comercialização da
rural pessoa jurídica cuja atividade que lhe prestem serviços...”), e tam- sua produção para o financiamento
econômica seja a industrialização de bém não são aplicáveis às socieda- das prestações por acidente do tra-
produção própria ou de produção des cooperativas e às agroindústrias balho.
própria e adquirida de terceiro” – art. de piscicultura, carcinicultura, sui-
22-A, Lei n. 8.212, de 24 de julho nocultura e avicultura.
de 1991), incidente sobre o valor da
148
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Breves considerações sobre a con- é fato gerador de contribuições ao Anotações
tribuição do trabalhador rural INSS (obrigação dos empregadores
e dos trabalhadores de contribuir) e
Todo empregado que presta ser- que a idade exigida para a aposenta-
viço de natureza urbana ou rural à doria por idade do trabalhador rural
empresa, em caráter não eventual, é de sessenta anos para os homens
sob a sua subordinação e median- e cinqüenta e cinco para as mulhe-
te remuneração é considerado se- res (art. 201, § 7º, II da CF/88). O
gurado obrigatório da Previdência prazo final para o trabalhador rural
Social. Também é segurado obriga- empregado requerer a aposentado-
tório o contribuinte individual pes- ria por idade foi estendido até 31
soa física, proprietária ou não, que de dezembro de 2010. O valor dos
explora atividade agropecuária ou benefícios previdenciários destina-
pesqueira, em caráter permanente dos ao trabalhador rural (ou urbano)
ou temporário, diretamente ou por não pode ser inferior a um salário
intermédio de prepostos e com au- mínimo segundo o art. 201, § 5º da
xílio de empregados, utilizados a Constituição: “nenhum benefício
qualquer título, ainda que de forma que substitua o salário de contribui-
não contínua (art. 12, I e V, da Lei n. ção ou o rendimento do trabalho do
8.212/91). segurado terá valor mensal inferior
ao salário mínimo”.
Adiantamos que a contratação
de trabalhadores por empresas rurais
149
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
A contribuição dos segurados con- devida ou creditada ao trabalhador Previdência Social. É por meio da
tribuintes – tanto individual quanto fa- (segurado). GFIP que são prestadas as informa-
cultativo – deve ser feita com base na ções condizentes aos fatos geradores
alíquota de 20% sobre o respectivo O prazo para isso vence no dia da contribuição previdenciária e aos
salário-de-contribuição (art. 21 da Lei 10 do mês subseqüente ao da res- dados inerentes ao FGTS, tais como
n. 8.212/91); e a contribuição dos se- pectiva competência e pode ser a admissão de empregado, o paga-
gurados empregados e trabalhadores prorrogado para o dia útil seguinte mento de salário, o auxílio-doença,
avulsos é calculada pela aplicação da quando não houver expediente ban- o acidente de trabalho.
correspondente alíquota sobre o seu cário no dia 10, nos termos do art.
salário-de-contribuição mensal, de 30, I, ‘b’, da Lei 8.212/1991, e da Lei
forma não cumulativa, nos termos do n. 11.488, de 15/06/2007 (que con- Principais Aspectos da
art. 28 e da tabela do art. 20, ambos verteu em lei a Medida Provisória n. Tributação Rural
da Lei n. 8.212/91). 351, de 22/01/2007).
NOÇÕES GERAIS DE DIREITO
Prazo para recolhimento da contri- GuiaderecolhimentodoFundodeGa- TRIBUTÁRIO
buição previdenciária rantia por Tempo de Serviço e Infor-
mações à Previdência Social (GFIP) Para realizar as diversas funções
Já dissemos que a empresa (ou que lhe compete, a administração
aqueles equiparados a ela, segundo Por meio da Guia de Recolhimen- pública necessita de recursos finan-
o direito previdenciário), o produtor to do Fundo de Garantia do Tempo ceiros, os quais são arrecadados, em
rural pessoa física e o segurado espe- de Serviço e Informações à Previ- sua grande maioria, por meio de tri-
cial são obrigados a recolher as con- dência Social (GFIP), o empregador- butos. Podemos definir os tributos
tribuições previdenciárias mediante contribuinte disponibiliza todas as como prestações compulsórias, ins-
o desconto na remuneração paga, informações referentes ao FGTS e à tituídas por lei, exigidas pelo Estado
150
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
e cujo valor esteja expresso em moeda corrente, mas que não provenham Anotações
da aplicação de alguma pena decorrente da prática de atos ilícitos.
151
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
Fato gerador é o fato que dá ori- apuração do tributo, bem como outros dados porventura exigidos. Tanto
gem ao nascimento da obrigação tri- o descumprimento da obrigação principal quando da obrigação acessória
butária. É a situação, devidamente implicam na imposição de multa ao contribuinte.
discriminada e prevista em lei ante-
rior (princípio da legalidade tributá- As imunidades tributárias são situações acerca das quais o legislador
ria), que enseja a constituição do cré- não poderá constituir fatos geradores de tributos. As imunidades decorrem
dito. É a partir da ocorrência do fato sempre de expressa previsão constitucional e não são presumidas. Assim,
gerador (ou fato imponível) que nas- para os imunes, não há fato gerador e, de conseqüência, não existirá obri-
ce a obrigação de pagar o tributo. gação tributária e, tampouco, crédito tributário a ser pago.
A obrigação tributária é a relação A isenção tributária, por seu turno, não decorre de previsão constitucio-
existente entre o órgão estatal titular nal, mas de lei infraconstitucional (assim consideradas aquelas abaixo da
do tributo cobrado e o sujeito passi- Constituição Federal). Neste caso, o fato gerador existe, a obrigação tribu-
vo (contribuinte). A obrigação tribu- tária também, mas em razão de expressa previsão legal de isenção, não há
tária é dividida em duas espécies: (i) para o sujeito passivo (contribuinte) o dever de pagar o crédito tributário,
a obrigação tributária principal, de que se torna inexigível justamente em função da imunidade existente. A
natureza patrimonial, assim compre- previsão de isenções tributárias impede a cobrança do tributo pela adminis-
endido o dever de pagar o tributo, tração pública.
nos limites e condições previstos em
lei; e (ii) a obrigação tributária aces- Princípios de direito tributário
sória, de natureza não-patrimonial,
consistente no dever de disponibi- O exercício da função de tributar deve observar alguns princípios; regras
lizar à administração pública todas importantes cujo descumprimento torna a cobrança da obrigação tributária
as informações necessárias à correta ilegítima por parte da administração pública. Assim, princípios inerentes ao
152
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Direito Tributário são garantias decorrentes da própria Constituição Federal Anotações
vigente, e asseguram aos contribuintes que a exigência de tributos não será
feita de forma aleatória ou indiscriminada. Dentre vários, alistamos abaixo
os mais importantes ao objetivo deste trabalho:
153
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
> Princípio da igualdade tributária: significa que > Princípio da anterioridade anual e nonagesimal: a
contribuintes que se encontram em situação de cobrança do tributo não pode acontecer no mes-
igualdade não podem ser tratados de maneira de- mo exercício financeiro em que foi criado e, tam-
sigual (art. 150, ‘II’ da CF/88). pouco, antes de decorridos noventa dias da data
em que haja sido publicada a lei que o instituiu
> Princípio da capacidade econômica: só pode ser ou o aumentou (art. 150, ‘III’, ‘a’ e ‘b’ da CF/88).
instituído tributo em situações em que ocorra um
fato econômico acerca do qual se presuma uma > Princípio da vedação ao confisco (ou princípio
riqueza que possa ser tributada. Logo, o tributo do não-confisco): proíbe o Estado de estabelecer
deve estar relacionado a uma base econômica, tributos de tamanha magnitude ou alcance que
capaz de suportar a respectiva tributação. acabe por confiscar (expropriar) o bem jurídico
tributado ou inviabilizar a propriedade ou a ex-
> Princípio da capacidade contributiva: permite ploração deste bem por parte do contribuinte.
um caráter de progressividade aos tributos. Isto
significa que o valor do crédito tributário exigido > Princípio da proibição à bi-tributação (ou prin-
pode ser maior se a possibilidade de pagamento cípio da vedação ao ‘bis in idem ): assegura que
do contribuinte também o for. Um bom exemplo um mesmo fato gerador (causa do tributo) não
da aplicação deste princípio é o Imposto de Ren- pode ensejar a cobrança de mais de um tributo.
da, em que os contribuintes são onerados com
uma alíquota maior à proporção em que suas Enfim, vale dizer que tais diretrizes principiológi-
rendas aumentam. cas devem ser cumpridas por todos os entes federados
(União, Estados, Municípios e o Distrito Federal) quan-
154
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
do forem instituir, aumentar ou modificar os tributos de suas respectivas Anotações
competências.
155
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
ficiado da ação estatal. Em resumo, a taxa é um tributo instrumento de sua atuação nas respectivas
contraprestacional. Um exemplo de taxa, bastante co- áreas, observado o disposto nos artigos 146,
mum, é a taxa judiciária, paga por aqueles que movem III e 150, I e III, e sem prejuízo do previsto
alguma ação judicial. no art. 195, relativamente às contribuições
a que alude o dispositivo. Parágrafo único:
A contribuição de melhoria, por sua vez, incide os Estados, o Distrito Federal e os Municí-
quando algum imóvel do contribuinte é valorizado ou pios poderão instituir contribuição, cobrada
de alguma forma beneficiado pela atuação estatal. Uma de seus servidores, para o custeio, em be-
situação corriqueira em que é exigida a contribuição de nefício destes, de sistemas de previdência e
melhoria é a pavimentação da via pública de acesso ao assistência social.
imóvel rural. Neste caso, o poder público poderá exigir Em outras palavras, a contribuição social é
uma contribuição de melhoria do proprietário, vez que uma obrigação tributária, isto é, uma presta-
inegável a valorização do bem. ção pecuniária compulsória paga ao Estado
com a finalidade de criar um fundo econô-
Por último, as contribuições de maneira geral, ou mico destinado ao fomento e à manutenção
contribuições sociais, têm a finalidade de assegurar a do sistema de seguridade social.
atuação estatal no campo da seguridade social, sobre-
tudo a previdência e o Sistema Único de Saúde (SUS). É importante dizer que a Constituição Federal de
As contribuições sociais estão previstas no art. 149 da 1988 concretizou a natureza tributária das contribui-
Constituição Federal: ções sociais, pois estabeleceu no seu referido art. 149 a
Compete exclusivamente à União instituir sua exigência, desde que por meio de lei complementar
contribuições sociais, de intervenção no e levando em consideração os princípios da irretroativi-
domínio econômico e de interesse das ca- dade da lei e da anterioridade (art. 150, III, da CF/88).
tegorias profissionais ou econômicas, como
156
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Continuando, de acordo com Tributos Federais: Imposto de Renda sobre Proventos de Qualquer Na-
as determinações constitucionais, tureza (IR), Imposto Territorial Rural (ITR), Imposto sobre Produtos Indus-
as contribuições sociais não po- trializados (IPI), Imposto de Importação, Imposto de Exportação, Imposto
dem incidir sobre as receitas de ex- sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro e sobre Operações relati-
portações (149, §2º), sobre a apo- vas a Valores Mobiliários, Imposto sobre Grandes Fortunas; Impostos Ex-
sentadoria e pensões concedidas traordinários; as Contribuições para a Social sobre o Lucro Líquido (CSLL);
pelo regime geral da previdência Contribuição Social para o financiamento da Seguridade Social (Confins);
(art. 195, II) e sobre as entidades Contribuição para o PIS/Pasep, Taxas Federais etc.
beneficentes de assistência social
(art. 195, §7º). Tributos Estaduais e do Distrito Federal: Imposto sobre operações rela-
tivas à Circulação de Bens e Prestação de Serviços (ICMS), Imposto sobre
Competência tributária a propriedade de Veículos Automotores (IPVA), Imposto Sobre Heranças e
Doações, Taxas Estaduais.
No que condiz à competência
tributária, há aqueles tributos que: Tributos Municipais: Imposto sobre a Propriedade Territorial e Predial
(i) são de competência federal (da Urbana (IPTU), Imposto sobre a transmissão inter vivos de bens imóveis
União Federal); (ii) são de compe- e direitos a eles relativos, Impostos Sobre Serviços de Qualquer Natureza
tência estadual (dos Estados); (iii) (ISSQN), Taxas Municipais.
são de competência municipal; e (iv)
são de competência distrital (DF). A IMPOSTO TERRITORIAL RURAL (ITR)
relação abaixo (meramente exempli-
ficativa) ajudará na visualização da O Imposto Territorial Rural é o principal imposto que incide sobre a
classificação. propriedade ou a posse do imóvel rural. Trata-se de imposto pago anual-
157
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
mente cuja competência tributária é da União Federal (sujeito ativo), segun- Portanto, o valor do imposto será
do o art. 153, ‘VI’ da Constituição Federal. sempre inversamente proporcional
ao grau de utilização da gleba tri-
Uma importante característica do ITR é ser extrafiscal. Isto significa que butada. Através deste mecanismo, o
a cobrança deste tributo não é importante apenas pelo montante de recur- possuidor ou o proprietário são in-
sos que serão arrecadados para os cofres públicos, mas sobretudo pelo fato centivados a aproveitar integralmen-
dele estimular o cumprimento da função social da propriedade. te as terras que detém, aplicando-
lhes a destinação social exigida pela
De fato, conforme demonstraremos na seqüência, o valor do ITR será coletividade.
calculado de acordo com o grau de utilização (GU) da gleba tributada, de
maneira que quanto maior for o grau de aproveitamento do imóvel, menor Causas (fato gerador) e responsabili-
será a quantia a ser paga, sendo a recíproca verdadeira. dade pelo pagamento do ITR – quem
e quando se deve pagar o ITR?
Cleverson Beje
O ITR tem como fato gerador
(causa) a propriedade, o domínio
útil ou a posse de imóvel localiza-
do na zona urbana. Logo, o ITR in-
cide sobre a propriedade ou a posse
de todos os imóveis que não sejam
urbanos, independentemente da di-
mensão ou da destinação econômi-
ca atribuída ao bem.
158
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
O imposto incide não só sobre Os arrendatários e parceiros não Anotações
a propriedade, mas também sobre são obrigados a pagar o ITR, pois as
a posse e o domínio útil do imóvel posses que exercem não são plenas,
rural. Por esta razão, não apenas o porquanto subordinadas, respecti-
proprietário deve realizar o reco- vamente, aos contratos de arrenda-
lhimento do imposto, vez que todo mento e de parceria que firmaram.
aquele que exercer a posse plena Pelo mesmo motivo, não devem ser
da gleba (leia-se: sem subordinação considerados contribuintes os co-
a outra pessoa) tem a obrigação de modatários, pessoas que exercem a
fazê-lo. posse de algum bem de forma gra-
tuita com autorização do proprietá-
Assim, na relação de contribuin- rio (comodante) no contrato deno-
tes do ITR devem ser incluídos, além minado comodato.
do dono, os usufrutuários – aqueles
que utilizam o domínio útil do bem, Para encerramento deste tópico
ou seja, usam e gozam da coisa sem é relevante informar que o sucessor
serem donos, em função da institui- a qualquer título fica responsável
ção de usufruto ou de enfiteuse ad- pelo pagamento de eventuais impos-
ministrativa – e, de forma geral, to- tos referentes à propriedade que não
dos possuidores, ainda que a posse tenham sido pagos pelos proprietá-
por eles exercida seja ilegal. rios anteriores. Isto significa que os
herdeiros (no caso de falecimento
159
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
do proprietário), ou o adquirente do imóvel rural (na hipótese da gleba ser > 30 ha (hectares), se localiza-
vendida) são responsáveis pelo pagamento dos débitos antigos. do em qualquer outro muni-
cípio situado fora das regiões
Aliás, no ato de transferência de qualquer imóvel (urbano ou rural) para acima mencionadas.
um novo proprietário, é dever do alienante (pessoa que deixará de ser dona)
exibir certidões negativas de débitos tributários das fazendas públicas fe- Por conseguinte, os proprietários,
deral, estadual e municipal, sob pena da transferência do bem (registro da usufrutuários e possuidores dos imó-
escritura de alienação na matrícula do imóvel) não poder ser realizada pelo veis caracterizados como pequena
oficial do Cartório de Registro de Imóveis. gleba rural estão imunes ao ITR e, por
isso, não precisam recolhê-lo. No en-
Hipóteses de imunidade e isenção (quando o pagamento do ITR não é de- tanto, devem prestar as informações
vido) condizentes às suas terras à Secreta-
ria da Receita Federal (SRF), obriga-
A Constituição Federal tornou a pequena gleba rural imune à exigência ção que explicaremos em seguida.
do ITR. Assim, por pequena gleba rural se deve entender os imóveis que
possuem área igual ou inferior a: Ao seu turno, as situações abai-
xo geram isenção ao pagamento do
> 100 ha (hectares), se localizado em município compreendido na ITR:
Amazônia Ocidental ou no Pantanal mato-grossense ou sul-mato-
grossense; > o imóvel rural compreendido
em programa oficial de re-
> 50 ha (hectares), se localizado em município compreendido na Ama- forma agrária, caracterizado
zônia Oriental ou no Polígono das Secas; e, pelas autoridades competen-
tes como assentamento, que,
160
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
cumulativamente, atenda aos seguintes requisitos: (i) seja explorado Anotações
por associação ou cooperativa de produção; (ii) a fração ideal por fa-
mília não ultrapasse os limites estabelecidos para a imunidade (aci-
ma mencionados); e, (iii) o assentado não possua outro imóvel; e,
Obrigações do contribuinte
161
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
A obrigação acessória é o preen- NIRF. Este número é necessário para o recolhimento do imposto, cujos pro-
chimento do DIAC (Declaração de cedimentos estão explicados na seqüência.
Informação e Atualização Cadastral),
documento que deve ser entregue à A obrigação principal deve ser precedida do preenchimento de outro
SRF pelo contribuinte no prazo de formulário, o DIAT – Documento de Informação e Apuração do ITR, a ser
60 dias todas as vezes que o imóvel apresentado à SRF todos os anos (normalmente, o prazo fixado é até o úl-
for: (i) desmembrado (dividido), (ii) timo dia útil do mês de setembro). Cada DIAT deve corresponder a uma
anexado a outro, (iii) transmitido por única gleba (matrícula no Cartório de Registro de Imóveis). A impontualida-
alienação (venda ou doação) ou por de na apresentação do DIAT enseja a mesma multa exigida na hipótese de
herança, (iv) houver cessão de direi- atraso na entrega do DIAC.
tos da posse, ou (v) tiver sido consti-
tuído ou extinto o usufruto. No caso No DIAT, o contribuinte informará o valor da terra nua (VTN), além
de não apresentação espontânea no de outras informações necessárias à correta apuração do valor do tributo.
prazo legal o contribuinte pagará É importante mencionar que este valor será utilizado como referência do
multa de 1% (um por cento) por mês preço de mercado do bem no caso de uma desapropriação do imóvel (seja
de atraso sobre o imposto devido, qual for o motivo). Por isso, não é prudente, na tentativa de pagar um valor
sendo que a multa terá sempre um menor de ITR, sub-valorizar o imóvel na declaração, pois na hipótese de
valor mínimo de R$ 50,00 (cinqüen- ser desapropriado o proprietário não poderá discutir o preço por ele mesmo
ta reais). Através do DIAC o imóvel fornecido.
recebe um número de registro pe-
rante a Receita Federal, chamado de
162
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Cálculo do ITR – como apurar o valor a ser pago Anotações
163
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
acordo com o Grau de Utili-
sua função social de produzir alimentos, gerar tributos e oferecer postos de zação apurado em cada pro-
trabalho. priedade.
Antes de prosseguir com a explanação sobre o cálculo do imposto, é Para encontrar o VTN tributá-
preciso recordar a fórmula geral: vel, temos que multiplicar o Valor
da Terra Nua (informado no DIAT),
Valor do ITR = VTNtributável x alíquota do GU. pelo quociente (resultado da divisão)
entre a área tributável e a área total
Onde: do imóvel. Por área tributável, deve-
> Valor do ITR será o montante a ser pago; se entender a área total do imóvel,
subtraídas as seguintes: (i) áreas de
> VTNtributável significa Valor da Terra Nua tributável; e,
preservação permanente e de reserva
> Alíquota do GU é o fator de multiplicação encontrado na tabela, de
legal, (ii) áreas de interesse ecológi-
Cleverson Beje co para a proteção de ecossistemas,
assim declaradas mediante ato do ór-
gão (federal, estadual ou municipal)
competente, (iii) áreas comprovada-
mente imprestáveis para qualquer
atividade agrária, agrícola, pecuária,
granjeira, aqüícola, ou florestal, de-
claradas de interesse ecológico me-
diante ato do órgão competente, (iv)
áreas sob regime de servidão flores-
tal ou ambiental, (v) áreas cobertas
por florestas nativas, primárias ou
164
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
secundárias em estágio médio ou A seu turno, as áreas efetivamen- Anotações
avançado de regeneração, (vi) áreas te utilizadas são medidas observan-
alagadas para fins de construção de do a utilização do imóvel no ano an-
reservatórios de usinas hidrelétricas terior, pelo que serão computadas a
autorizadas pelo Poder Público. este título: aquelas que tenham sido
plantadas com produtos vegetais; as
Por sua vez, o Valor da Terra Nua tenham servido de pastagem, nati-
deve ser aquele condizente à terra, va ou plantada; as que tenham sido
excluídos os relativos a: (i) constru- objeto de exploração extrativa; e, as
ções, instalações e benfeitorias, (ii) que tenham servido para exploração
culturas permanentes e temporárias, de atividades granjeira ou aqüícola.
(iii) pastagens cultivadas e melhora-
das e (iv) florestas plantadas. Prazo para pagamento do ITR
165
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
ferior a R$50,00 (cinqüenta reais) e da União (sujeito ativo do imposto). do nome e número de CPF (Cadastro
sobre elas incidirão juros calculados Logo, é obrigação do contribuinte de Pessoas Físicas) do devedor no
com base na Taxa Selic (taxa referen- realizar tais obrigações independen- CADIN (Cadastro de Créditos Não
cial do Sistema de Liquidação e de temente de receber qualquer espé- Quitados do Setor Público Federal).
Custódia para títulos federais). cie de cobrança. Este procedimento
é conhecido como autolançamento, Além disso, a União poderá pro-
O pagamento do imposto fora dos ou lançamento por homologação, ceder à execução fiscal do valor de-
prazos previstos ensejará a cobrança pois a obrigação tributária deve ser vido, por meio de processo judicial
de multa de mora (pelo atraso) no cumprida sem que para tanto a cre- no qual o próprio imóvel ou outros
patamar de 0,33% (zero vírgula trin- dora do imposto tenha que tomar bens em nome do contribuinte falto-
ta e três por cento), por dia de atraso, qualquer providência prévia. Em ou- so poderão ser penhorados (bloque-
não podendo ultrapassar 20% (vin- tras palavras, o contribuinte prestará ados judicialmente) e vendidos para
te por cento), calculada a partir do as informações, recolherá o tributo pagar o débito. Caso seja de interes-
primeiro dia útil subseqüente ao do e, posteriormente, a União dirá se se do INCRA (Instituto Nacional de
vencimento do prazo previsto para o homologa o pagamento ou cobra Colonização e Reforma Agrária), o
pagamento do imposto até o dia em o valor remanescente que entender imóvel poderá ser adjudicado (ex-
que ocorrer o efetivo pagamento. devido. propriado) para fins fundiários.
Explicada a forma de se apurar Se o contribuinte não realizar o Delegação da cobrança do ITR aos
o valor devido, deve se ressaltar que autolançamento do imposto, ficará Municípios
a entrega do DIAC, do DIAT e o pa- sujeito às multas comentadas e a Re-
gamento do tributo não dependem ceita Federal, através da SRF, realiza- Apesar de ser, o ITR, um tribu-
de qualquer provocação, notifica- rá o lançamento do imposto que, se to federal, metade da arrecadação
ção ou comunicado prévio por parte não for pago, acarretará a inscrição proveniente deste imposto é destina-
166
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
da aos municípios. No entanto, em rurais pode ser grande. Anotações
2005, a Lei Federal n. 11.250, trouxe
a possibilidade da Secretaria da Re- Porém, cabe chamarmos a aten-
ceita Federal firmar convênios com ção da necessidade do empreen-
os municípios para que a cobrança dedor reconhecer-se como líder na
do ITR seja assumida pelas prefeitu- condução de sua empresa rural. Não
ras que assim desejarem. Em contra- basta apenas compreender e seguir
partida, os municípios que firmarem o determinado juridicamente, mas
o convênio terão direito à totalidade sobretudo, saber conduzir sua equi-
da arrecadação do ITR nos imóveis pe de forma a aproveitar ao máximo
rurais situados em suas fronteiras. A seus talentos e habilidades.
lista das cidades que já aderiram ao
convênio pode ser encontrada nas Para isso, seguimos com algu-
Delegacias da Receita Federal ou mas reflexões e conceitos sobre as
no site da Receita Federal: <www. diversas qualidades de liderança.
[Link]>.
As qualidades da
Pelo exposto até o momento nes- liderança
te capítulo, fica visível a fundamen- Marina de Magalhães Carneiro de Oliveira
tal importância do conhecimento,
ainda que superficial, da Legislação O trabalho rural frequentemente
agrária e do que está estabelecido envolve a atuação conjunta, o traba-
no Sistema Jurídico. O impacto disso lho em grupos. Ainda que a produção
nas vidas cotidianas dos empresários agropecuária seja voltada ao trabalho
167
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
direto com a natureza, este trabalho Que qualidades são desejáveis para que as ações em grupo possam fluir
ocorre, na maioria das vezes, através de modo satisfatório?
do contato com outras pessoas.
Para lidar com estas perguntas é que este texto foi escrito, inspirado
O produtor rural depende de ou- no livro de Bernard Lievegoed6 – O Homem no Limiar. Lievegoed dedicou
tras pessoas para realizar a missão sua vida ao estudo do desenvolvimento das pessoas e das organizações.
de seu negócio: sócios, colaborado- Foi professor da Faculdade de Administração Empresarial de Rotterdam, na
res, parceiros, fornecedores, com- Holanda, na cadeira de Pedagogia Social, na qual propunha que, através
pradores, investidores. Boa parte do das relações humanas, o homem encontra um importante campo para o seu
trabalho rural depende da qualidade autodesenvolvimento.
das relações que se estabelece com
outras pessoas. Mas nem sempre isto Antes de mais nada, é importante lembrar que as pessoas são diferentes
ocorre facilmente. As atividades em entre si: têm histórias de vida, valores, crenças, temperamentos e habili-
grupo, as ações conjuntas são muitas dades diferentes. A diversidade em um grupo é mais desejável do que a
vezes permeadas de tensões, desen- uniformidade, pois pessoas diferentes trazem contribuições diferentes para
tendimentos e conflitos. o grupo. Cabe ao líder saber tirar proveito desta diversidade, valorizando-a
no grupo, a fim de que se beneficie em criatividade e em sinergia.
Como lidar com as tensões que
frequentemente ocorrem nas ativida- Além disso, vale ressaltar que somos nós que criamos nosso ambiente
des grupais? de trabalho. O campo das relações humanas é um campo vivo, dinâmico
que pode estar em constante renovação. As relações entre as pessoas po-
Como o indivíduo pode cuidar dem sempre ser renovadas, melhoradas, transformadas. Segundo Schaefer7,
de seu próprio desenvolvimento 6 LIEVEGOED, B. O homem no limiar: o desafio do autodesenvolvimento. São Paulo: Antroposófica, 1999.
7 SCHAEFER, C. Palestra proferida em São Paulo em dezembro de 2006.
como líder de equipes?
168
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
nós somos os deuses do mundo social: somos nós que criamos tudo o que Anotações
ocorre no campo das relações humanas.
Quem é líder deve estar atento ao modo como as relações ocorrem, en-
tre si próprio e os demais, e deve buscar aperfeiçoar-se na arte de se relacio-
nar com os outros, para ganhar respeito e confiança. Do mesmo modo, um
dos papéis do líder é ajudar as pessoas que estão ao seu redor a amadurecer
o modo como se relacionam com outros.
8 Baseado em OLIVEIRA, M.P. A equipe. In: SILVA, A.L.P.(org.) Guia de Gestão - Para quem dirige entidades soci-
ais. São Paulo: Editora SENAC/Fundação Abrinq, 2002.
169
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
> Para ajudá-lo a identificar as
qualidades que precisa apri- grupo ou a empresa seguirão. Con- “do que se trata a conversa”, pois
morar em si próprio, quando seguem apontar as tendências, as são capazes de perceber o que está
na ação com outros. mudanças que devem acontecer. por trás das coisas que o grupo está
Descrevemos aqui seis qualida- vivenciando.
des de liderança: o que as caracte- Pessoas que fazem uso desta ca-
riza, como se manifestam, em que pacidade são capazes de escutar o Ter profundidade, ter visão do
contribuem, o que acarretam quan- que está sendo conversado no grupo, todo, apontar a direção, identificar
do em excesso. São elas: fazer perguntas essenciais, estabele- padrões de comportamento nas coi-
1. A qualidade do futuro cer relações entre as diferentes infor- sas ou nas pessoas e perceber o que
2. A qualidade da memória mações e captar um sentido maior, de se revela por trás das aparências
3. A qualidade da forma fazer uma leitura do todo, construir são características de quem faz uso
4. A qualidade do movimento uma visão de futuro, dar uma dire- da qualidade do futuro.
5. A qualidade da realização ou ção para o grupo.
ação objetiva Como exemplos, esta qualidade
6. A qualidade do cuidado Outro aspecto desta qualidade se manifesta quando alguém, após
pode ser visto nas pessoas que bus- escutar as diversas notícias do jornal
A QUALIDADE DO FUTURO cam aprofundar-se em determinados da televisão, consegue expressar uma
assuntos para compreender o porquê leitura do momento atual; ou quan-
A primeira qualidade a ser des- das coisas, para chegar ao “cerne da do, numa reunião em que a conver-
crita é a qualidade do futuro. Ela questão”. sa está “empacada”, a discussão não
aparece nas pessoas que conseguem avança, alguém consegue identificar
perceber a totalidade das coisas, que Ainda, esta qualidade se faz pre- que há outros fatores interferindo na
têm visão de conjunto, que se sen- sente nas pessoas que ajudam os de- conversa, há algo que está por trás,
tem responsáveis pelos rumos que o mais membros do grupo a esclarecer mas não está sendo expresso.
170
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Quem faz uso desta qualidade A QUALIDADE DA MEMÓRIA Anotações
tende a não se preocupar com de-
talhes minuciosos, mas com grandes A segunda qualidade a ser des-
direções e com o longo prazo. crita é a qualidade da memória. Ela
é percebida em quem tem facilida-
Qualquer qualidade não é boa de de trazer informações, de trazer
ou ruim, em essência. Torna-se boa à consciência como isto ou aquilo
quando empregada de forma correta ocorreu; nas pessoas que registram
no momento adequado. Do mesmo dados, fatos; que costumam anotar
modo, se uma qualidade for utiliza- como as coisas foram realizadas.
da de modo exagerado, pode-se se
tornar um problema. Ocorre em quem presta atenção
em cada passo do grupo, registrando
Assim, a pessoa que utiliza em o que aconteceu, anotando o que foi
excesso a qualidade do futuro pode, aprendido, como forma de preservar
por exemplo, ficar tão interessada a experiência.
em suas próprias idéias de futuro e
assim isolar-se da realidade presen- A qualidade da memória está
te. Ou ainda, a pessoa pode ficar tão presente em quem mantém a consci-
ocupada em aprofundar-se no por- ência do caminho já percorrido, de
quê das coisas que pode prejudicar o modo a cuidar de sua continuidade.
andamento dos trabalhos do grupo. Por exemplo, quando uma pessoa
inicia uma reunião retomando os
171
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
passos que o grupo já deu, lembran- Esta qualidade também está pre- tro das informações, acha que sabe
do o que já foi decidido, de modo sente nas pessoas que valorizam as tudo e assim, tem dificuldade em
que todos os membros do grupo es- tradições, a história, as lembranças; abrir-se para aprender coisas novas.
tejam conscientes para avançar no nas pessoas que têm a habilidade de
trabalho. resgatar lições aprendidas e de citar A QUALIDADE DA FORMA
histórias da família, da empresa, da
Por terem o hábito do registro e cultura local. Outra qualidade que é necessá-
da memorização, tais pessoas contri- ria ao trabalho em equipe é a quali-
buem com informações que muitas A qualidade da memória, se uti- dade da forma.
vezes são importantes e que, se não lizada de modo excessivo, também
registradas no momento, dificilmente pode trazer dificuldades: por se ape- Ela ocorre em pessoas que têm fa-
serão recordadas mais tarde, quando gar demais ao passado, por se sentir cilidade em perceber como as coisas
for necessário. Como exemplos, a in- seguro naquilo que já é conhecido, ocorrem em processos, em priorizar as
formação de quando os animais fo- o indivíduo pode desenvolver certa necessidades, em dividir as ações por
ram vacinados, qual foi o tratamento resistência às novas idéias, à inova- etapas, em classificar os problemas,
aplicado na cura de certa doença, ou ção, às alternativas que surgem no em dividir as tarefas entre as pessoas.
qual foi o esquema de adubação uti- grupo. Isto porque o trabalho em
lizado em determinada cultura. grupo é um excelente meio para o Está presente em quem cria es-
surgimento de novas idéias e solu- quemas para solucionar os proble-
Quem faz uso da qualidade da ções criativas. mas, em quem consegue visualizar
memória costuma ser cauteloso, de que forma as coisas podem ser
sente-se bem com rotinas, costuma Outro risco desta qualidade ser feitas e que passos precisam ser da-
prestar atenção aos detalhes. levada ao extremo pode acontecer dos para se atingir os objetivos.
quando alguém que, por ter o regis-
172
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Percebe-se a qualidade da forma Outro risco do abuso desta qua- Anotações
nas pessoas que têm uma boa per- lidade é o indivíduo ficar tão apai-
cepção estética, espacial e tempo- xonado pela perfeição de seus es-
ral, ou seja, que conseguem plane- quemas que considera inadmissível
jar as ações, os recursos e as pessoas qualquer alteração em sua forma.
distribuindo-as de modo lógico no
tempo e no espaço. A QUALIDADE DO MOVIMENTO
173
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
A flexibilidade também pode trazer movimento às conversas. Esta qua- As pessoas que fazem uso desta
lidade faz com que a pessoa consiga perceber valor na fala de cada idéia qualidade costumam ser as primei-
trazida no grupo, mesmo que haja idéias divergentes. E também ajuda a ras a falar: “Então vamos começar.”
estabelecer relações entre as diferentes idéias, dissolvendo impasses e con- Trata-se da qualidade de se entender
tribuindo para que a conversa possa fluir melhor em um grupo. uma necessidade e de se pôr imedia-
tamente em movimento para atendê-
Pessoas que fazem uso desta qualidade raramente empacam em suas la. Popularmente dizemos que é a
idéias, mas estão sempre abertas ao novo, à criatividade. Este desapego às qualidade de arregaçar as mangas e
idéias já colocadas traz uma jovialidade, um “ar fresco” às conversas. Sem pôr a mão na massa.
receio, podem se perguntar: “por que não?” quando diante de propostas
inusitadas. A qualidade da realização ou
da ação objetiva ocorre nas pesso-
Um perigo do uso excessivo da qualidade do movimento é que, com tal as que, com senso prático, reagem
desapego, o indivíduo não desenvolva em si uma compreensão, uma opi- rapidamente a uma requisição, têm
nião mais fundamentada, suas próprias idéias, e caia na superficialidade. disposição de participar das coisas e
Outro risco é que a pessoa fique mais interessada em trazer tantas alternati- de tomar decisões. Em pessoas que
vas diferentes que gere uma situação caótica na qual o grupo perde a noção têm muita iniciativa, desempenham
do que é importante. suas tarefas com relativa facilidade,
pois são capazes de transformar con-
A QUALIDADE DA REALIZAÇÃO OU DA AÇÃO OBJETIVA vicções em metas.
Passemos agora a uma outra qualidade importante para o trabalho de Quem faz uso desta qualidade
equipe: a qualidade da realização ou da ação objetiva. não costuma se prender muito às
idéias, a escutar os outros ou a com-
174
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
preender o porquê de determinada preciso uma reação enérgica para que o perceba.
situação. Está mais focada na tarefa,
em “tirar o problema da frente”, em Outro risco é seguir precipitadamente para a ação objetiva, sem a devida
“fazer acontecer”. compreensão da situação, ocasionando conseqüências indesejáveis.
175
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
que haja encontro significativo en- de si própria e não desenvolver suas lidade do cuidado. Deste modo, é
tre as pessoas. próprias idéias, acalentar seus dese- comum percebermos que um indi-
jos e expressar suas opiniões. víduo desenvolva mais uma quali-
Outra característica da qualida- dade e tenha a sua qualidade polar
de do cuidado é de entender o que Outro problema da pessoa que pouco desenvolvida.
precisa ser feito, dar o suporte que exagera no uso da qualidade do cui-
os outros precisam, providenciar o dado é se ocupar demais com as re- Por exemplo, é normal que uma
que for necessário para que a ação lações interpessoais e assim perder pessoa com a qualidade do futuro
seja realizada. O seguinte exemplo a objetividade do trabalho. Ainda, bem desenvolvida, apresente a qua-
ilustra isto: ao escutar que o irmão, pode tornar-se muito suscetível ao lidade da memória pouco pronun-
após um telefonema, teria que fazer que os outros falam ou como agem, ciada. Como também é comum que
uma viagem de emergência, a irmã melindrando-se, ofendendo-se, ma- esta pessoa se incomode ou até se
providenciou-lhe um lanche, uma goando-se com facilidade. irrite quando diante de outra pessoa
bebida, um agasalho, antes mesmo que faz um amplo uso da qualidade
que ele pudesse pensar nisto. Estas qualidades de liderança da memória, como se isto não fosse
podem ser percebidas como pola- relevante ou fosse inoportuno.
Muitas vezes esta qualidade apa- res: a qualidade do futuro e a qua-
rece assim, discreta, anônima, e por lidade da memória, por exemplo, Um fenômeno facilmente obser-
isso pode ser pouco valorizada. ainda que não sejam antagôni- vável em reuniões de grupos é a ten-
cas nem opostas, podem ser vistas são criada entre pessoas que apresen-
O risco de esta qualidade ser le- como polares. Também são polares tem qualidades polares em excesso:
vada ao exagero é a pessoa se preocu- as qualidades da forma e a quali- alguém deseja chegar rapidamente a
par tanto em criar condições para os dade do movimento, bem como a uma forma de conduzir uma situação
outros que pode acabar descuidando qualidade da ação objetiva e a qua- (qualidade da forma) e outra pessoa
176
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
insiste na busca de outras alternativas O gráfico abaixo ilustra as qualidades da liderança em pólos, o que
(qualidade do movimento). Ou um pode auxiliar o líder a explicitá-las aos demais do grupo:
indivíduo propõe que se parta para
Realização ou
a ação (qualidade da ação objetiva) ação objetiva
177
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
Considerações finais Como líder, é importante ajudar ações e algumas qualidades que te-
o grupo a respeitar as diferenças e as mos bem pouco desenvolvidas.
Se prestarmos atenção nas pes- especificidades – e especialidades –
soas ao nosso redor, nas reuniões, de cada pessoa. Se o grupo reconhe- Para ser capaz de lidar com
encontros de família, ações de traba- ce que cada uma dessas qualidades questões cada vez mais comple-
lho, é fácil percebermos estas qua- é importante para o seu funciona- xas e desafios cada vez maiores, o
lidades se manifestarem através de mento saudável, então pode reco- líder precisa cuidar de seu próprio
cada um. É importante recordar que nhecer também que cada pessoa desenvolvimento, precisa estar con-
elas podem estar presentes em todas tem um importante papel de lideran- tinuamente aprendendo, rever cons-
as pessoas e que cada indivíduo não ça a cumprir, pois cada momento do tantemente suas idéias, acessar suas
é somente uma coisa ou outra. Por- processo de trabalho pode ser ala- dúvidas, trocar suas questões e per-
tanto, devemos cuidar para não rotu- vancado por uma pessoa diferente. cepções com outras pessoas, para
lar as pessoas. Buscar o equilíbrio se torna então a não ficar ultrapassado. Cada indi-
responsabilidade comum9. víduo pode tentar desenvolver es-
Cabe então, a quem exerce a li- sas qualidades em si, evitar os exa-
derança, prestar atenção às pessoas Do mesmo modo que as outras geros e fortalecer as qualidades de
ao seu redor, reconhecer o valor das pessoas podem ter mais facilidade liderança nas quais possui mais di-
qualidades e dos talentos de cada em expressar certas qualidades do ficuldade. Pode aproveitar as opor-
um, bem como as suas dificuldades, que outras, é possível perceber, em tunidades sociais para praticar estas
a fim de aproveitar melhor os pontos nós mesmos, algumas qualidades qualidades: as refeições em família,
fortes e apoiar o desenvolvimento de que temos mais presentes em nossas as reuniões na associação, os traba-
cada um nos pontos em que ainda lhos em grupo são momentos propí-
9 LIEVEGOED, B. O homem no limiar: o desafio do au-
são falhos. todesenvolvimento. São Paulo: Antroposófica, 1999. cios para isto. É importante ter clare-
178
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
za de que, mudar de hábitos nas relações com os outros, exige disposição, Anotações
perseverança e tolerância, com os demais e consigo mesmo. Os resultados
podem não ser imediatos, mas trazem grande satisfação pessoal, além do
reconhecimento de outros.
179
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
O Setor Rural
e o Meio Ambiente
Daniela Bacchi Bartholomeu1
180
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Apesar de estudos realizados
pelo Banco Mundial (2007) e pelo A questão da disponibilidade Anotações
7
PNUD (2006) indicarem que a da água para consumo humano é
competição pelo consumo da água um dos temas mais importantes re-
entre os setores industrial e domés- lativos ao meio ambiente. A ONU
tico irá se intensificar, a produção prevê que até 2025 dois terços da
de alimento ainda deverá perma- humanidade viverão em condições
necer como o maior consumidor, de escassez de água. A escassez é
conforme ilustra a Figura. 13.1. evidente devido a basicamente dois
Figura 13.1 – Consumo de água nos motivos. O primeiro é a redução da
setores industrial e doméstico
quantidade disponível, devido ao
Captações sectoriais de água
(quilômetros cúbicos por ano) ritmo de consumo muito maior do
3.200
Agricultura
que o necessário para que o ciclo
2.800
hidrológico consiga repor. O se-
2.400
gundo é a redução da qualidade,
2.000
devido aos elevados índices de po-
1.600 luição (PNUD, 2006).
1.200 Indústria
800
O crescimento da população e
Consumo municipal
400
da demanda mundial por alimentos
também exerce pressão sobre outro
0
1900 1925 1950 1975 2000 2025
recurso natural: o solo. Neste caso,
181
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
minação e aceleração do processo Apesar das significativas taxas de Como decorrência, a busca por
de erosão, decorrentes da excessiva crescimento da produtividade obser- recursos naturais de melhor quali-
utilização de fertilizantes químicos e vadas a partir da intensificação da dade é uma conseqüência natural
defensivos e das práticas agropecuá- mecanização, da introdução de tec- deste processo, e acaba provocando
rias sem o devido manejo. “Perdas de nologia e melhoramento genético, deslocamentos de áreas produtivas
nutrientes e matéria orgânica, altera- do uso de fertilizantes sintéticos e em direção a regiões de floresta.
ções na textura, estrutura e quedas de pesticidas, o Banco Mundial vem
nas taxas de infiltração e retenção de alentando para uma possível rever- Diante deste contexto, este ca-
água são alguns dos efeitos da erosão são nesta taxa, podendo comprome- pítulo busca introduzir conceitos
sobre as características do solo” (Ber- ter a oferta de alimento. Por exem- econômicos e jurídicos aplicados ao
toni; Lombardi Neto, 1995, citados plo, atualmente já se observa queda aspecto ambiental do setor rural. Ele
por Marques; Pizzianotto, 2004). da produtividade em cerca de 16% está dividido em duas grandes partes.
da terra agrícola nos países em de- A primeira apresenta um breve histó-
Além da conseqüente poluição e senvolvimento, especialmente África rico da preocupação da humanidade
assoreamento dos cursos d’água, “a e América Central. Outras pesquisas com o meio ambiente e como esta
perda de solo, provocada pela ero- também apontam na mesma direção, preocupação se refletiu nas ações
são, reduz a produtividade da terra, e afirmam que, devido à degradação nacionais na criação de órgãos e es-
principalmente, devido a perda de do solo, a produção das áreas culti- tabelecimento de regulamentações
nutrientes e a degradação de sua es- vadas e pastagens já é 12,7% e 3,8% ambientais no país. A segunda parte
trutura física” (Wolman, 1985, cita- menor do que o potencial, respec- introduz alguns conceitos da econo-
do por Marques; Pizzianotto, 2004). tivamente (Scherr, 1999, citado por mia ambiental que estão ligados à
Geralmente, a perda de nutrientes Banco Mundial, 2007). atividade agropecuária, e ilustra algu-
do solo é compensada através da mas alternativas de como o mercado
aplicação de fertilizantes industriais.
182
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
pode auxiliar na busca pela susten- nômico. Até 1949, quando surgem Anotações
tabilidade (selos e certificações, pa- as categorias de divisão do mundo
gamentos por serviços ambientais). (em 1º Mundo, 2º Mundo e 3º Mun-
do ou países subdesenvolvidos), o
Um pouco de história
termo “desenvolvimento” referia-
“Durante séculos, predominou se à biologia e estava associado
a idéia de que a natureza existia aos estágios dos seres vivos, como
somente para satisfazer as vonta- “crescimento”, “evolução” e “ma-
des humanas, não se questionando turação”. Neste sentido, o mundo
os limites desse usufruto.” (p. 3). A industrializado era apresentado
partir da década de 60, a socieda- como uma finalidade não apenas
de foi se conscientizando de que a desejada, mas como o único mode-
capacidade de suporte do planeta é lo realmente válido de organização
limitada e de que a utilização indis- social; os países industrializados e
criminada dos recursos não-reno- desenvolvidos eram vistos como se
váveis e a poluição provocada pelo estes estivessem no topo da escala
desenvolvimento humano podem social.
causar danos irreversíveis ao meio
ambiente (Fogliati et al., 2004). Entretanto, um conjunto de forças
internas que já vinham emergindo
Nas décadas de 50 e 60, a pa- antes mesmo dos anos 60 faz surgir
lavra “desenvolvimento” estava um movimento e uma conscientiza-
associada com crescimento eco- ção frente ao meio ambiente. Den-
183
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
tre estas forças, podem ser citados: a recursos naturais passam a ser mais
era dos testes atômicos; a influência valorizados, já com a preocupação do, dentre elas, o Programa das Na-
de outros movimentos sociais (movi- com o aumento da população e do ções Unidas para o Meio Ambiente
mentos hippie e estudantis); a publi- consumo, visualizando seu esgo- – PNUMA, no âmbito da ONU, com
cação do livro Primavera Silenciosa tamento futuro (petróleo, madeira, o objetivo de intermediar o diálogo
(Silent Spring), em 1962 pela bióloga água etc.). e ações de cientistas, políticos etc.,
americana Rachel Carson; o avanço relacionados ao meio ambiente.
dos conhecimentos científicos; e a Neste sentido, em 1972, é rea-
ocorrência de uma série de desastres lizada a Conferência de Estocolmo, Nesta década de 70 também
ambientais, tais como a contamina- da qual participam 113 países com surge o conceito de “ecodesenvolvi-
ção da Baía de Minamata no Japão, o intuito de rever o modelo desen- mento”, que propõe adaptar o desen-
a explosão da indústria química em volvimentista. Neste encontro, ficou volvimento científico e tecnológico
Seveso (Itália), explosão do reator na evidenciada uma forte polaridade de às necessidades da população e aos
usina nuclear de Tchernobyl, o aci- interesses entre países ricos e pobres: limites do ambiente, e não vice-ver-
dente com o navio Exxon Valdez, no enquanto os primeiros defendiam sa. Através deste conceito, acredita-
Alasca, causando um dos maiores controles internacionais para reduzir se que é possível existir crescimento
derramamentos de petróleo da histó- a poluição, os últimos interpretavam com qualidade do ambiente, através
ria, dentre uma série de outros casos. essa posição como freio ao seu de- da minimização das retiradas dos es-
senvolvimento. toques de recursos não-renováveis e
Esses acontecimentos destaca- da maximização do proveito do flu-
vam a importância de uma ação glo- Esta Conferência foi um marco na xo de energia renovável.
bal dos problemas ambientais, ge- tomada de consciência da dimensão
rando a necessidade de discussões planetária dos problemas ambientais A preocupação ambiental se am-
e soluções internacionais, por meio e fortaleceu o estabelecimento de plia, e além da preocupação concen-
de convenções e tratados. Alguns organizações ambientais no mun- trada no esgotamento das fontes de
184
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
recursos naturais, passa-se a prestar efeitos dos problemas ambientais Anotações
atenção na capacidade de absorção do mundo), desde que orientado
dos ecossistemas devido à poluição para um uso menos intensivo de
derivada das atividades humanas. matérias-primas e energia, um cres-
cimento populacional equilibrado
Em 1987, a Comissão Mundial e adoção de tecnologia de avalia-
sobre o Meio Ambiente e Desen- ção e minimização de riscos am-
volvimento (World Commission bientais.
on Environment and Development
– WCED) publica o relatório deno- Cinco anos mais tarde, a cidade
minado “Nosso Futuro Comum” ou do Rio de Janeiro sediou a Confe-
Relatório Brundtland, que defendia rência Mundial das Nações unidas
a necessidade de um novo tipo de sobre Meio Ambiente e Desenvol-
desenvolvimento capaz de manter vimento, também conhecida como
o progresso em todo o planeta e, “Rio-92”. Este encontro, que reuniu
no longo prazo, ser alcançado por 170 países, se constituiu através de
todos os países (isto é, introduz um duas iniciativas complementares:
dos conceitos mais difundidos na a Conferência das Nações Unidas,
atualidade, o de desenvolvimento para atender aos interesses gover-
sustentável). Além disso, o relatório namentais e o Fórum Global, de-
defende o crescimento econômico dicado aos interesses de entidades
como forma de superar a pobreza não governamentais e da socieda-
(considerada como uma das prin- de civil. Realizada pouco após a
cipais causas e um dos principais queda do Muro de Berlin (1989), a
185
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
Rio-92 foi dominada por um entu- nos rumos do desenvolvimento sus- efetivamente definido no Relatório
siasmo de que o mundo iria inexo- tentável também foram aprovados: a Brundtland, como sendo a busca
ravelmente caminhar na direção do Declaração do Rio de Janeiro sobre pelo “atendimento das necessida-
desenvolvimento sustentável. Neste Meio Ambiente e Desenvolvimento des do presente sem comprometer a
contexto, foram assinadas duas Con- também conhecida como Carta da possibilidade de as gerações futuras
venções, que representam marcos Terra, e a Agenda 21. atenderem as suas próprias necessi-
regulatórios globais sobre os dois dades” (WCED, 1991).
maiores problemas da humanidade: Uma série de outros eventos im-
a Convenção-Quadro das Nações portantes e de escala global ocorreu A partir deste conceito, há uma
Unidas sobre Diversidade Biológica; após a Rio-92, sempre buscando ava- série de derivações, mas todas elas,
e a Convenção-Quadro das Nações liar os resultados, em termos práticos, no fundo, buscam o equilíbrio entre
Unidas sobre Mudanças Climáticas das propostas contidas nestes grandes a capacidade de suporte da Terra e a
Globais (esta última originou o Pro- documentos e, sempre que possível, retirada dos recursos naturais, garan-
tocolo de Quioto, que entrou efeti- avançar no sentido do alinhamento tindo a continuidade e a existência
vamente em vigor em fevereiro de aos princípios de sustentabilidade. destes recursos no longo prazo.
2005 e estabelece metas de redução
para as emissões de GEE para os pa- Mas, afinal, o que é Para Mello (1999), “o desenvol-
íses desenvolvidos, bem como me- sustentabilidade? vimento sustentável é mais que cres-
canismos de mercado para auxiliar cimento. Ele exige uma mudança no
o alcance destas metas). Outros dois Conforme citado acima, o con- teor do crescimento, a fim de torná-
documentos importantes que visa- ceito de sustentabilidade foi sendo lo menos intensivo de matérias-pri-
vam conduzir as ações dos países desenhado ao longo dos anos, e mas e energia, e mais eqüitativo em
186
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
seu impacto. Tais mudanças precisam ocorrer em todos os países, como Anotações
parte de um pacote de medidas para manter a reserva do capital ecológi-
co, melhorar a distribuição de renda e reduzir o grau de vulnerabilidade
às crises econômicas” (Mello, 1999, p. 42, citado por Silva, 2003).
187
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
com grau variável de sucesso, usados por vários países INSTRUMENTOS REGULADORES: COMANDO E
em decisões relativas à questão ambiental, e podem ser CONTROLE (CC)
classificadas como:
– Corretivas: tais como controle, pesquisa, obras, A regulamentação do tipo CC tem sido a base dos
incentivos, planos de recuperação, auditorias; sistemas de gestão do meio ambiente, e constitui-se de
– Preventivas: tais como licenciamento, avaliação um conjunto de normas, regras, procedimentos e pa-
de impacto, planos diretores de uso, unidades de drões a serem obedecidos pelos agentes econômicos de
conservação; modo a adequar-se a certas metas ambientais. No fundo,
– De potencialização do uso: como reciclagem, estes instrumentos buscam modificar o comportamento
reaproveitamento, economia e racionalização dos agentes através da imposição da lei, que define os
de energia e água, uso de fontes alternativas de critérios a serem adotados e é geralmente acompanhada
energia e tecnologias “limpas”; e de penalidades caso tais critérios não sejam observados
– De persuasão: como educação ambiental, infor- pelos agentes.
mações e incentivos para adoção de práticas am-
bientalmente sustentáveis. Para que os instrumentos do tipo CC funcionem com
eficácia, o Estado deve monitorar, fiscalizar e responsa-
Margulis (1996)8 divide estes instrumentos de políti- bilizar o agente econômico, assegurando a obediência à
ca ambiental em dois tipos principais: instrumentos re- lei. Desta maneira, é necessário que: (i) os papéis regu-
guladores – ou instrumentos do tipo comando e controle lador e policial dos governos funcionem em associação;
(CC); e instrumentos econômicos – ou instrumentos de e (ii) haja recursos financeiros suficientes para garantir o
mercado (IM). funcionamento destes mecanismos.
188
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
É importante destacar que tais instrumentos podem impactar nega- Anotações
tivamente no resultado econômico da atividade, através do aumento de
custos de produção decorrente da internalização das exigências legais à
atividade econômica.
189
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
biente); de emissão (estabelecem limites máximos diz respeito às regulamentações que afetam ou estão li-
para as quantidades de uma fonte de poluição); gadas ao setor rural. É dada especial atenção ao Código
tecnológicos (determinam o uso de tecnologias es- Florestal, considerado um dos mais polêmicos e contro-
pecíficas); de produto e processo, entre outros. versos atualmente, e freqüentemente alvo de discussões
políticas.
No Brasil
A Lei n. 6.938, de 31 de agosto de 1981 dispõe so-
Independentemente da motivação, regulamentações bre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus meca-
envolvendo recursos naturais já existiam desde o período nismos de formulação e aplicação. Através desta Lei,
colonial no Brasil. Como exemplo, Giordano (2008)9 cita são instituídos o Sistema Nacional do Meio Ambiente
que “desde o regimento do Pau Brasil de 1605, preocu- – SISNAMA, responsável pela proteção e melhoria da
pava-se o Governo com a desregulamentação e a “desor- qualidade ambiental, e o Conselho Nacional do Meio
dem” em relação ao desmatamento desmesurado e não Ambiente – CONAMA, órgão consultivo e deliberativo
reposto. A essa ordenação seguiram-se algumas tentativas do SISNAMA.
de regulamentação com a Lei n. 601 de 1850, a respeito
das terras devolutas, que penalizava quem as desmatasse O Art. 9º da Lei n. 6.938/1981 define como instru-
ou desmatasse terras alheias.” mentos da Política Nacional do Meio Ambiente:
I- o estabelecimento de padrões de qualidade am-
Assim, foi sendo delineada a teia legal que rege as ati- biental;
vidades econômicas e sua relação com o meio ambiente. II - o zoneamento ambiental; (Regulamento);
III - a avaliação de impactos ambientais;
Esta seção tem como objetivo apresentar alguns pon- IV - o licenciamento e a revisão de atividades efetivas
tos importantes dessa evolução, especialmente no que ou potencialmente poluidoras;
9 GIORDANO, S.R.; Caleman, S.M.Q. Preservação Ambiental via coordenação de
ações. Estudo de Caso TNC. 2008.
190
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
V - os incentivos à produção e instalação de equipamentos e a criação Anotações
ou absorção de tecnologia, voltados para a melhoria da qualidade
ambiental;
VI - a criação de reservas e estações ecológicas, áreas de proteção am-
biental e as de relevante interesse ecológico, pelo Poder Público
Federal, Estadual e Municipal;
VI - a criação de espaços territoriais especialmente protegidos pelo Poder
Público federal, estadual e municipal, tais como áreas de proteção am-
biental, de relevante interesse ecológico e reservas extrativistas (Reda-
ção dada pela Lei n. 7.804, de 1989);
VII - o sistema nacional de informações sobre o meio ambiente;
VIII - o Cadastro Técnico Federal de Atividades e Instrumentos de Defesa
Ambiental;
IX - as penalidades disciplinares ou compensatórias ao não cumprimen-
to das medidas necessárias à preservação ou correção da degrada-
ção ambiental;
X- a instituição do Relatório de Qualidade do Meio Ambiente, a ser
divulgado anualmente pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e
Recursos Naturais Renováveis – IBAMA (Incluído pela Lei n. 7.804,
de 1989);
XI - a garantia da prestação de informações relativas ao Meio Ambien-
te, obrigando-se o Poder Público a produzi-las, quando inexistentes
(Incluído pela Lei n. 7.804, de 1989);
191
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
XII - o Cadastro Técnico Federal de atividades
potencialmente poluidoras e/ou utilizado-
ras dos recursos ambientais (Incluído pela
Lei n. 7.804, de 1989); e
XIII - instrumentos econômicos, como conces-
são florestal, servidão ambiental, seguro
ambiental e outros (Incluído pela Lei n.
11.284, de 2006).
192
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
mulgada a “Lei das Águas” (Lei n. ções são: agropecuária, industrial, Anotações
9.433/1997), na qual se elaborou as em industrialização e conservação.
diretrizes da Política Nacional dos
Recursos Hídricos (PNRH), consi- No Estado de São Paulo, também
derando a água como um recurso se iniciou a efetiva cobrança pelo uso
natural limitado e dotado de valor da água a partir de janeiro de 2006
econômico. em rios da União. Através dessa fer-
ramenta, pretende-se racionalizar o
Em seguida, as Unidades da Fe- uso desse recurso, promovendo sua
deração também expressaram pre- disponibilidade para as próximas ge-
ocupação acerca dos recursos hí- rações. Além disso, diversos órgãos
dricos. O Estado de São Paulo, por foram criados (entre eles o Fundo Es-
exemplo, foi um dos pioneiros nes- tadual dos Recursos Hídricos – FEHI-
se sentido, tendo instituído a Políti- DRO), de forma a aplicar os recursos
ca Estadual dos Recursos Hídricos financeiros advindos da cobrança em
ainda em 1991 (Lei n. 7.663/1991), projetos de melhoria de qualidade da
dividindo o Estado de São Paulo água.
em 22 grandes áreas, chamadas
de Unidades de Gerenciamento de Com relação à floresta, sua pro-
Recursos Hídricos (UGRHI). Essas teção legal começou a tomar forma
Unidades, por sua vez, estão clas- no ano de 1934, a partir do Decreto
sificadas segundo a atividade pre- Federal n. 23.793, ou o “primeiro
dominante na região. As classifica- Código Florestal”; o “Segundo Có-
193
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
digo Florestal” foi sancionado pela é permitido o corte raso e deverá ser averbada. Estabelece também a obriga-
Lei n. 4.771, e introduz os conceitos toriedade da recomposição da RL, mediante o plantio, em cada ano, de pelo
de Área de Preservação Permanente menos 1/30 avos da área total. Esta Lei também traz contribuições ao Código
(APP) e de Reserva Legal (RL), em- Florestal de 1965 no que diz respeito à definição das áreas que devem cons-
bora, em ambos os Códigos, os cri- tituir APP, quais sejam: aquelas situadas ao longo dos rios ou de qualquer
térios de preservação eram definidos curso d’água; ao redor das lagoas, lagos ou reservatórios d’água naturais ou
com base na vegetação existente na artificiais; nas nascentes; no topo de morros, serras e montanhas; nas encostas
propriedade rural. com declividade superior a 45º; e em altitude superior a 1800 m.
Desta forma, tais conceitos são Entre outras, a Medida Provisória 2.166-67, de 24 de agosto de 2001,
bastante antigos, e o Código de 1965 em vigor por força da Emenda Constitucional 32/2001, se destaca por suas
ainda continua em vigor. Entretanto, definições e alterações no Código de 1965. Esta MP define APP como a área
seus artigos vêm sofrendo alterações “coberta ou não por vegetação nativa, com a função ambiental de preservar
a partir da introdução de outras Leis os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade,
e Medidas Provisórias. o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das
populações humanas”. Já a RL, é a área “necessária ao uso sustentável dos re-
A Lei n. 7.803, de 18 de julho de cursos naturais, à conservação e reabilitação dos processos ecológicos, à con-
1989, por exemplo, introduz o con- servação da biodiversidade e ao abrigo e proteção de fauna e flora nativas”.
ceito de preservação baseado na área
total da propriedade, alterando o cri- Além disso, as propriedades rurais devem manter, a título de RL, um mí-
tério de conservação até então em nimo de 80% se situadas em área de floresta localizada na Amazônia Legal;
vigor. A partir dela, a RL passa a ser 35% se situadas em área de cerrado localizada na Amazônia Legal; 20% se
definida como a área de, no mínimo situadas em área de floresta ou outras formas de vegetação nativa localizada
20% de cada propriedade, onde não nas demais regiões do País.
194
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Outra definição importante diz respeito à possibilidade de compensação de parte da RL, desde que situada
na mesma microbacia, o que, de certa forma flexibiliza seu cumprimento. A legislação denomina esta compen-
sação de “servidão florestal” e aos documentos que representam sua propriedade de “cotas da reserva florestal-
CRF”. As regulações administrativas para essa legislação estão atualmente sob júdice, mas as CRF abrem, de
qualquer forma, uma importante perspectiva para viabilizar a RL (Giordano, 2008).
Por outro lado, também determina que, no limite da RL a ser respeitado, não pode ser incluída área des-
tinada à APP. Isto inviabiliza economicamente uma série de propriedades rurais, já que grande parte da área
produtiva deve deixar de sê-la, e vem sendo motivo de intenso debate político.
1500 – 1822 1822 – 1889 1889 – 1930 1930 – 1964 1965 – 2000 2001 em diante
Colônia Império República Velha 1º Código Florestal 2º Código Florestal Fase 2 – 2º Código
e suas alterações Florestal
• Colonização; • Colonização; • Domínio político das • Amazônia Legal; • Industrialização; • Abertura econômica;
• Exploração da madeira • Povoação; elites agrárias (MG, SP, • Ocupação e desenvolvi- • Regime Militar; • Densa legislação am-
(móveis e navios); • Abertura de estradas; RJ); mento; • Abertura econômica; biental;
• Pau-Brasil; • Café: influência políti- • Exploração da madeira; • Ambientalismo (Estocol- • Produção e exportação
• Captanias Hereditárias; co-econômica; • Transição entre elite ru- mo 1972); de alimentos;
• Escravidão; • Projetos de criação de ral e industrialização e • Globalização. • Amazônia em foco;
• Açúcar, ouro, grande parques nacionais; urbanização; • Pressão das ONGs.
propriedade agrícola. • Constituição de 34: pro-
teção da natureza.
Regimento do Lei 601 (1850) “Mapa Florestal Código Florestal (1965)
Código Florestal (1934) Código Florestal (1965)
Pau-Brasil (1605) Terras Devolutas do Brasil” (1911) e suas mudanças
Fonte: Fausto; Medeiros; Senado; citados por Lima, Instituto Ares, 2008.
195
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
Outra regulamentação impor- tivas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente (crimes
tante que envolve o setor rural e o contra a fauna e a flora e atividades lesivas como a poluição).
meio ambiente de forma mais gené-
Instrumentos Econômicos ou Mercado (IM)
rica são o Estatuto da Terra (Lei n.
4.504/64), que regula os direitos e Apesar de todo este arcabouço legal, os instrumentos de CC existentes
obrigações concernentes aos bens têm sido insuficientes para garantir os resultados da política ambiental. Em
imóveis rurais, para os fins de exe- outras palavras, apesar da existência de uma diversidade de leis regendo
cução da Reforma Agrária e promo- a questão ambiental das propriedades rurais, não se verifica, na prática, o
ção da Política Agrícola. Conforme cumprimento de grande parte dos casos. E este fato corrobora as limitações
suas disposições, o acesso à proprie- dos instrumentos de CC, dentre as quais, é preciso citar: a ineficiência do
dade da terra é assegurado, desde processo de fiscalização e enforcement por um lado, e os custos que tais
que exerça sua função social: favo- regulamentações embutem aos produtores, inviabilizando, muitas vezes,
reça o bem-estar dos proprietários e a atividade econômica. Também a falta de agilidade dos organismos am-
dos trabalhadores que nela labutam; bientais, como por exemplo, os responsáveis pela emissão de licenças, e
mantenha níveis satisfatórios de pro- ainda o próprio desconhecimento da legislação pertinente por parte dos
dutividade; assegure a conservação produtores rurais.
dos recursos naturais; e observe jus-
tas relações de trabalho. Assim, para complementar os instrumentos de CC e viabilizar a adoção
de boas práticas, inclusive do ponto de vista da sustentabilidade econômica
Finalmente, também é importante da atividade agropecuária, são utilizados Instrumentos de Mercado (IM).
destacar a Lei de Crimes Ambientais,
regulamentada pela Lei n. 9.065, de Diversos países tem adotado uma política ambiental que utiliza, simul-
12 de fevereiro de 1998, que dispõe taneamente, instrumentos de CC e IM, garantindo uma complementaridade
sobre as sanções penais e administra- entre os dois tipos de instrumentos e buscando atingir as metas de política
196
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
pública ao menor custo para a so- co utilizado para que o poluidor Anotações
ciedade. arque com os custos da atividade
poluidora, ou seja, internalize, de
Os instrumentos econômicos maneira eficiente, as externalida-
são diferentes porque estão base- des provocadas pela atividade pro-
ados nas forças do mercado e nas dutiva, passando assim a repercutir
mudanças de preços relativos para nos preços finais dos produtos e
modificar o comportamento dos serviços oriundos da atividade. Por
agentes econômicos. Através destes outro ângulo, busca-se com que os
instrumentos, os produtores/polui- agentes que originaram as externa-
dores e consumidores/usuários, in- lidades assumam os custos ou os
ternalizam os aspectos ambientais benefícios impostos a outros agen-
de maneira socialmente desejável tes, produtores e/ou consumidores.
em suas decisões. O norteador é
o princípio do poluidor pagador Externalidade é um conceito
(PPP), que se baseia no princípio de econômico que se refere aos efeitos
que a não-inclusão de todos os cus- positivos ou negativos – em termos
tos sociais e ambientais leva neces- de custos ou de benefícios – gera-
sariamente a uma super-utilização dos por um agente econômico (na
(desperdício) dos recursos naturais, produção ou mesmo no consumo
e assim à degradação ambiental. de um bem ou serviço) e que atin-
Desta maneira, o PPP pode ser en- gem os demais agentes, sem que
tendido como o recurso econômi- estes tenham oportunidade de im-
197
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
pedi-los. A externalidade pode ser Estes instrumentos, entretanto, possuem vantagens e limitações. Dentre
negativa, quando gera custos para os as vantagens, os resultados são geralmente alcançados com um menor custo
demais agentes (por exemplo, uma social quando se comparados aos Instrumentos CC; fornecem às empre-
fábrica que polui o ar, afetando a sas um incentivo permanente para a procura de tecnologias mais limpas e
comunidade próxima) ou positiva, baratas e a transferência de tecnologia entre atores. Ademais, conferem às
quando os demais agentes, involun- indústrias maior flexibilidade para controlar suas emissões.
tariamente, se beneficiam pela ação
de outros (por exemplo, a preserva- Como limitações a este modelo citam-se os resultados menos previsíveis
ção ambiental). se comparados à regulamentação direta, já que dependem da decisão indi-
vidual de cada agente de mudar ou não o padrão produtivo.
Conforme Margulis (1996), mes-
mo nos países da OCDE a política Os principais tipos de IM usados na gestão ambiental, conforme Margu-
ambiental foi inicialmente criada lis (1996), são:
com base em instrumentos estritos de a) as taxas ambientais: preços a serem pagos pela poluição, e dizem
regulamentação, acoplados a uma respeito às taxas por emissão; taxas ao usuário; taxas por produto ou
fiscalização estrita. Somente mais re- taxas administrativas;
centemente que os instrumentos de b) a criação de um mercado: comércio de direitos de poluição (ex.: mer-
mercado e, conseqüentemente o PPP, cado de carbono);
passaram a ser aplicados de maneira c) os subsídios: podem ser concessões, incentivos fiscais e créditos fis-
mais sistemática, tendo sido modifi- cais, destinados a incentivar os poluidores a reduzir suas emissões
cados a fim de incorporar conceitos ou a reduzir seus custos de controle.
e aspectos inicialmente ignorados.
198
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
No Brasil turalmente, se deixado em estado Anotações
Conforme visto até aqui, os de equilíbrio. Como exemplos de
produtores rurais são alvo de forte serviços ambientais, Nicodemo, et
pressão por parte da sociedade com al (2008)11 citam: manutenção da
relação à conservação dos recursos qualidade do ar e controle da po-
naturais. Acontece que em geral, luição; controle da temperatura e
estes recursos não possuem valor do regime de chuvas; regulação do
de mercado, sendo dificilmente
fluxo de águas superficiais e con-
inseridos ou internalizados no pro-
trole das enchentes; formação e
cesso produtivo. Desta forma, os
manutenção do solo e da fertilida-
produtores não possuem incentivos
econômicos para ofertá-los. Em ou- de do solo; degradação de dejetos
tras palavras, a preservação destes industriais e agrícolas e ciclagem de
recursos por parte dos produtores minerais; redução da incidência de
não é estimulada, uma vez que os pragas e doenças; polinização de
custos são privados (isto é, dos pro- plantas agrícolas e silvestres.
dutores), mas os benefícios são per-
cebidos por toda a sociedade. Desta maneira, os produtores ru-
Entretanto, o produtor rural rais são potenciais provedores destes
pode gerar, através da preservação serviços, mas para tanto, é preciso
do meio ambiente, uma série de que haja incentivos que estimulem
benefícios indiretos à sociedade, os a adoção voluntária de práticas sus-
chamados “serviços ambientais”. tentáveis. Neste sentido, uma série
Os serviços ambientais são benefí- 11 Nicodemo, et al. Conciliação entre produção
agropecuária e integridade ambiental: o papel dos
cios que o meio ambiente gera na- serviços ambientais. Embrapa, 2008.
199
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
de iniciativas vem sendo criadas no mundo para estimular é que estes esquemas de PSA são baseados não no prin-
um mercado de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) cípio do Poluidor-Pagador (PPP), mas sim no Princípio
providos por produtores rurais. do Provedor-Recebedor (PPR), ou seja, o proprietário ou
produtor rural, ao contribuir para o aumento do fluxo e
Os PSA constituem instrumento de incentivo ao da qualidade de serviços ambientais para a sociedade,
agente econômico para a conservação ambiental: ma- pode receber por esses serviços.
nejo sustentável do solo, da floresta e da água. Através
de pagamentos, constituem fonte adicional de renda O exemplo típico é a conservação de florestas como
para ressarcir os custos (de oportunidade e de manuten- prestadoras de serviços ambientais, provendo proteção
ção) de práticas conservacionistas que permitem o for- para as bacias hidrográficas, para a biodiversidade e
necimento dos serviços ecossistêmicos. Uma inovação para o clima, conforme ilustrado na Fig 13.3.
em relação aos instrumentos de mercado convencionais
Proteção
Florestas vêm sendo do Biodiversidade
amplamente usadas como
provedoras de SA para: Atração de fauna silvestre
Proteção
de bacias hidrográficas
Regulação do fluxo; Proteção do Clima
Manutenção da qualidade; Fixação de CO2
Controle de erosão e sedimentação
12 Bartholomeu, D.B. A importância da valoração ambiental. Apresentação Instituto ARES. 05 nov. 2008.
200
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
No Brasil, uma experiência que tem dado certo é o caso do município Anotações
de Extrema, que criou, através de uma parceria entre a Agência Nacional
de Águas (ANA), a Prefeitura de Extrema, o Instituto Estadual de Floresta
(IEF) e a ONG The Nature Conservancy (TNC), o Programa Conservador
das Águas. As nascentes do Rio Jaguari compõe o sistema cantareira, que
abastece boa parte da cidade de São Paulo. O objetivo do Programa é
proteger as nascentes e garantir a qualidade da água através da recompo-
sição da APP das propriedades e do cercamento para impedir a entrada de
gado. A adesão ao Programa é voluntária, e o produtor rural ainda recebe
uma remuneração mensal para cada hectare preservado. Atualmente são
40 proprietários do município envolvidos, e além da qualidade da água,
estão contribuindo também para a preservação dos animais silvestres e o
seqüestro de carbono.
201
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
O Brasil adota ainda uma série de outros instrumen- garante as características de um produto (ex.: Certifica-
tos de mercado para complementar os instrumentos de ção orgânica) ou a qualidade de um processo produtivo
CC, tais como: (ex.: ISO). Sua adoção, de caráter voluntário, geralmen-
• Compensação florestal: possibilidade de com- te é movida pela cultura interna, por oportunidades de
pensar a RL em outra área fora da propriedade, negócios ou mesmo por pressões do mercado consumi-
mas desde que dentro da mesma microbacia. dor.
Este instrumento é interessante porque possibilita
que terras mais aptas e com maior produtividade Entretanto, a expansão do mercado para produtos
sejam direcionadas à produção. certificados depende tanto da existência de consumi-
• Isenção fiscal (do Imposto Territorial Rural - ITR) dores finais ou empresariais dispostos a valorizá-los e
para áreas protegidas tais como as Reservas Par- consumi-los, quanto da concorrência com produtos não
ticulares do Patrimônio Natural (RPPNs); certificados.
• Servidão florestal: comercialização de cotas de
reserva florestal; Deve-se atentar ao tipo de certificação de cada selo.
• ICMS ecológico e IR ecológico; Aqueles que possuem maior credibilidade e aceitação no
• Mercado de Carbono, entre outros. mercado são os que possuem uma verificação indepen-
dente (ou seja, realizada por uma terceira parte).
Um outro instrumento de mercado bastante impor-
tante como incentivador às práticas sustentáveis são as A Figura. 13.4 apresenta alguns exemplos de cer-
certificações. Existem vários selos que visam à produ- tificações que buscam a sustentabilidade da produção
ção agrícola responsável, e prometem, em troca, um agrícola.
premium-price para o produto. Em geral, a certificação
202
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Figura 13.4 – Exemplos de certificações para sustentabilidade
Forest Stewardship Council – FSC Rede de Agricultura Sustentável (RAS) Instituto Biodinâmico de Botucatu
Promove o bom manejo florestal, Busca transformar as condições sociais Inspeciona e certifica a agropecuária,
baseado em Princípios e Critérios e ambientais da agricultura tropical atra- o processamento e produtos extrati-
universais que definem o manejo vés de práticas produtivas sustentáveis. vistas, orgânicos e biodinâmicos.
florestal sustentável.
UTZ CERTIFIED - UTZ Kapeh Comércio justo - Fairtrade Labelling International Federation of Organic
É um dos maiores programas Organizations International – FLO Agricultural Movement
internacionais de certificação de Trata de aspectos éticos e sociais liga- Avalia questões sócio-ambientais, com
café, baseado num conjunto de dos ao processamento e à comerciali- ênfase para a produção orgânica.
critérios sociais e ambientais na zação.
produção do café.
Considerações finais
Este capítulo procurou mostrar o desafio que o setor produtivo apresenta frente à conscientização da socie-
dade da importância da preservação do meio ambiente, e conseqüente pressão sobre o setor rural.
É preciso destacar que toda e qualquer atividade econômica, seja ela rural ou urbana, produz impactos no
meio ambiente e utiliza recursos naturais de diferentes formas e proporções.
No caso do setor rural, talvez isso seja mais evidente devido à extensão e à importância econômica que
possui no país. Entretanto, os setores produtivos respondem aos estímulos do mercado, e se a demanda mundial
203
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
continua crescente, há necessidade Do ponto de vista ambiental, sig- Para exemplificar, Giordano
de ampliar a produção. É fundamen- nifica utilizar os recursos de forma a (2008) cita o caso da RL em São Pau-
tal, entretanto, que o setor comece garantir sua capacidade de regene- lo. As estimativas apontam para uma
a internalizar o conceito de susten- ração, de forma que a retirada seja área de floresta que soma 6% do ter-
tabilidade (social e ambiental), bus- equivalente à recomposição. ritório, frente aos 20% exigidos por
cando racionalizar a utilização dos lei. Levando-se em conta que esse
recursos e ampliar a produtividade, A partir dos instrumentos de po- déficit de 14% equivale a 3,36 mi-
como forma de garantir a própria lítica ambiental, foi possível verificar lhões de ha., ele cita um estudo da
sustentabilidade econômica. Isto uma ampla gama de mecanismos de CNA mostrando que a recomposição
porque a produção agrícola é alta- comando e controle, que muitas ve- de áreas representaria uma perda
mente depende de recursos natu- zes não são cumpridos ou até mesmo para São Paulo de R$20 bilhões/ano
rais, como solo e água, e a escassez são desconhecidos. Além disso, mui- e uma extinção de 800.000 empre-
destes recursos, seja na forma de tos apresentam inconsistência quan- gos para os sistemas agroindustriais.
quantidade disponível ou mesmo do aplicados na prática. A legislação Ou seja, as bases social e econômica
da qualidade, implicará, necessa- acaba considerando o país como se do tripé da sustentabilidade estariam
riamente um aumento de custos de fosse uma realidade homogênea, com seriamente comprometidas.
produção ou perda de produtividade sistemas produtivos equivalentes e ca-
da propriedade. Em outras palavras, racterísticas naturais semelhantes. Isto O grande desafio é transcender
a preservação dos recursos naturais causa uma distorção muito grande as políticas de comando e controle e
acaba também garantindo a sobre- quando considerados caso a caso, e encontrar mecanismos econômicos
vivência da propriedade rural e de nem sempre é possível compatibilizar que gerem benefícios tanto para o
seus níveis de produção. as diferentes realidades. meio ambiente (sociedade em geral)
204
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
quanto para os proprietários, garantindo uma situação de ganha-ganha. A última parte do capítulo apresentou
alguns exemplos de instrumentos que vem sendo adotados como alternativas na busca da sustentabilidade.
Referências
MARQUES, J.F.; PAZZIANOTTO, C.B. Custos econômicos da erosão do solo: estimativa pelo método do cus-
to de reposição de nutrientes. Comunicado Técnico. Embrapa: Jaguariúna. 2004. Disponível em: [Link]
[Link]/analise_econ/.
CRESPO, S. Uma visão sobre a evolução da consciência ambiental no Brasil nos anos 1990 In: Trigueiro, A.
(coord.) Meio Ambiente no século 21. Campinas: Armazém do Ipê. 2005.
DUARTE, R.H. História & Natureza. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. 112p.
FELDMANN, F. A parte que nos cabe: Consumo Sustentável? In: Trigueiro, A. (coord.) Meio Ambiente no sé-
culo 21. Campinas: Armazém do Ipê. 2005.
MARTINEZ, P.H. História Ambiental no Brasil: Pesquisa e Ensino. São Paulo: Cortez, 2006. 120 p.
MOURA, L.A.A. de. Qualidade e Gestão Ambiental. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2002. 3ª ed. 360p.
205
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
A Administração da
Empresa Rural1
José Roberto Canziani
Introdução continuidade da sua empresa, modi- que a maioria dos produtores rurais
ficada ou não por esse(s) projeto(s). no Brasil ainda não adota, de ma-
Nesta etapa do Programa Em- neira formal e eficiente, várias prá-
preendedor Rural o participante já Vários estudos têm mostrado ticas administrativas que poderiam
elaborou o diagnóstico e planeja- que empresas rurais melhor admi- proporcionar maior competitividade
mento estratégico de sua empresa nistradas obtêm melhores resultados aos seus negócios. (Canziani, 2001;
e definiu e elaborou seu projeto de econômicos. Isso significa que uma Meira, 1996; Dalmazo & Albertoni,
investimento de capital, envolvendo melhor prática das funções adminis- 1991; entre outros).
o estudo de mercado, engenharia e trativas (planejamento, organização,
avaliações. A decisão do participan- direção e controle) pelos produtores Pretende-se neste capítulo de-
te, de implementar ou não o proje- rurais, pode contribuir positivamente talhar como funciona o processo
to, deve estar próxima. De qualquer para melhorar o resultado econômi- administrativo em empresas rurais,
forma, já sabe que uma boa gestão co de suas empresas (Phillips & Pe- para que o participante do Programa
do seu negócio se faz sempre neces- terson, 1999; Miller et al., 1998; en- Empreendedor Rural possa avaliar a
sário, tanto para a implementação tre outros). No entanto, apesar dessa sua atual forma de administração e,
do projeto que elaborou durante o provável associação positiva entre se for necessário e possível, poder
programa ou outro que venha a ela- o uso de boas técnicas de gerencia- melhorá-la ao longo do tempo.
borar no futuro, como para a própria mento e o sucesso econômico das
1 Baseado em Canziani (2001), Assessoria administra-
tiva a produtores rurais no Brasil, Tese de doutorado,
empresas rurais, tem-se observado Canziani (2001) identificou um
ESALQ/USP.
206
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
conjunto de razões que limita o uso dução, finanças, comercialização e Anotações
de técnicas de gestão nas empresas pessoal, compondo, assim, o pro-
agropecuárias, analisando como os cesso administrativo.
produtores rurais administram os
seus negócios. Estas razões estão O Quadro 14.1 apresenta 32
relacionadas no apêndice 1 deste subgrupos de atividades ou ações
capítulo e sua leitura pode ajudar o administrativas, como se fossem 32
participante do programa a identifi- elementos distintos de uma matriz
car se tem ou não as mesmas ou ou- de 8 linhas e 4 colunas. Nas oito li-
tras deficiências administrativas na nhas estão representadas as combi-
gestão do seu negócio. nações possíveis das quatro funções
administrativas e dos dois níveis em-
Uma forma de se avaliar a ges- presariais. Nas quatro colunas estão
tão ou administração de uma empre- representadas as áreas administrati-
sa agropecuária pode ser feita com vas de produção, finanças, comer-
o uso de uma matriz de atividades cialização e de pessoal. No interior
administrativas, conforme propos- da “matriz 8x4”, cada um dos 32
to por Canziani (2001). Essa matriz elementos representa as inúmeras
relaciona as funções de planejamen- atividades ou ações administrativas
to, organização, direção e controle, possíveis de serem realizadas, e que
exercidas no nível estratégico e ope- em conjunto formam o processo ad-
racional da empresa agropecuária, ministrativo. A melhor compreensão
com as áreas administrativas de pro- desse processo administrativo com o
207
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
estabelecimento de 32 subgrupos de atividades administrativas permite uma O termo planejamento pode ser
administração mais eficaz pelos seguintes motivos: (a) pela mais fácil identi- entendido como um trabalho de pre-
ficação de algumas atividades administrativas que não estão (mas deveriam paração para qualquer empreendi-
estar) sendo realizadas pelo produtor rural; (b) pela mais fácil identificação mento, segundo roteiro e métodos
de atividades administrativas que estão sendo realizadas de forma ineficien- determinados que procuram antever
te e precisam ser corrigidas; (c) pela mais fácil identificação de atividades as conseqüências de uma ação. O
administrativas que não são relevantes ou têm pouca importância para o projeto elaborado pelos participantes
sistema de produção da empresa e, portanto, não precisam ser realizadas ou do Programa Empreendedor Rural,
pelo menos não necessitam de grande atenção por parte do produtor rural por exemplo, contém ações de pla-
em função do seu tipo de negócio. nejamento, pois visa à consecução
de determinados objetivos do pro-
Quadro 14.1 – Matriz de atividades administrativas
dutor como, por exemplo: aumentar
Funções\Áreas administrativas Produção Finanças Comercialização Pessoal
o bem estar das famílias envolvidas
Planejamento estratégico
com o negócio; auferir lucros com
Planejamento operacional
as atividades desenvolvidas pela
Organização estratégica
Organização operacional
empresa; e/ou conquistar o reconhe-
Direção estratégica cimento do mercado como empresa
Direção operacional produtora de alimentos saudáveis,
Controle estratégico entre outros. E também ações que vi-
Controle operacional sam o cumprimento de metas, como
Fonte: adaptado de Canziani (2001). por exemplo: ter o lucro da empresa
aumentado em R$ 500 mil nos próxi-
mos 4 anos; ter todas as pessoas en-
volvidas com o negócio recebendo
208
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
pelo menos 2 salários mínimos por atividades da empresa, a fim de se Anotações
mês a partir do ano, entre outras. propor as correções necessárias, em
tempo oportuno. A função de con-
A organização, enquanto fun- trole envolve o registro de dados, a
ção administrativa, se preocupa em comparação destes dados com pa-
agrupar e estruturar todos os recur- drões de desempenho pré-estabele-
sos ou fatores de produção disponí- cidos, a análise dos resultados e a
veis na empresa para viabilizar o seu comparação deles com os resultados
funcionamento de forma eficiente. A planejados e, por fim, a adoção de
função administrativa de direção, medidas corretivas a serem consi-
por sua vez, compreende o ato de deradas ou implementadas em uma
comandar, gerir ou dirigir a empre- nova etapa do planejamento.
sa. Ela engloba, entre outras coisas,
o ato de supervisionar o uso de to- O exercício das funções ad-
dos os recursos da empresa, a fim de ministrativas ocorre nas diferentes
cumprir com a execução das ações áreas da empresa. A área de produ-
planejadas, de motivar os trabalha- ção está diretamente relacionada às
dores, de executar em si as tarefas atividades que a empresa realiza e
e operações planejadas, de realizar os fatores de produção que utiliza.
compras e vendas, entre outras. Fi- Na área de produção se administra
nalmente, a função de controle, é questões físicas, de volume ou quan-
uma tarefa contínua de registrar e tidade (total ou unitária), como o uso
avaliar o desempenho de todas as de insumos e outros fatores de pro-
209
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
De uma forma geral, contribuem
dução (horas/máquina, homens/dia, A seguir, vamos discutir cada para o baixo uso do planejamen-
hectares/ano, litros/hectare, entre uma destas funções administrativas, to escrito nas empresas agropecu-
outros), e a geração de produtos ou detalhando as atividades ou ações a árias do país, os seguintes fatores:
serviços (sacas/ano, litros/mês, tone- elas relacionadas e como essas fun- (a) pouco conhecimento, por parte
ladas/hectare, hospedagens/semana, ções são efetivamente realizadas nas dos produtores rurais, sobre as mo-
entre outros). A área de finanças, empresas rurais. dalidades formais de elaboração do
como o próprio nome diz, envolve planejamento estratégico e opera-
a administração dos valores mone- cional, principalmente devido à falta
tários dos estoques de capitais e de Planejamento de tradição e prática dessas técnicas
fluxos financeiros como receitas ou De alguma ou de outra forma, a no meio rural; (b) desestímulo dos
despesas de x R$/ano ou y R$/mês. A grande maioria dos empresários fa- empresários em escriturar ou anotar
área de comercialização se relacio- zem planejamento. O simples ato de seus objetivos e metas, talvez pelas
na com as atividades administrativas pensar para decidir já pode ser con- constantes mudanças em variáveis
de compras e de vendas de bens e siderado um ato de planejamento. O do ambiente externo à empresa e
serviços, com fornecedores e clien- ato de pensar envolve indagações, e que não são controláveis por eles tais
tes, com os preços de produtos e fa- indagações envolvem questionamen- como o clima, a política agrícola, os
tores, entre outros. Por fim, a área de tos sobre: o que fazer? Como? Quan- preços, as disponibilidades de tecno-
recursos humanos é relacionada às do? Quanto? Para quem? Por que? E logia, entre outras razões, e a conse-
pessoas que trabalham na empresa, onde? Assim, o planejamento pode- qüente necessidade de se readequar
em termos de quantidade (oferta e ria ser entendido como um esforço ou reorientar periodicamente os pla-
demanda de mão de obra) e quali- contínuo (mental ou por escrito) que nos operacionais na empresa agrope-
dade ou competências humanas (co- busca saber quais são as implicações cuária; (c) desobrigação formal dos
nhecimento, habilidades e atitudes). futuras das decisões presentes. produtores rurais de prestar contas
210
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
a terceiros sobre suas decisões estratégicas e operacionais, principalmente Anotações
devido à existência predominante de firmas de propriedade ou gerência in-
dividual no meio rural.
PLANEJAMENTO DA PRODUÇÃO
211
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
to estratégico da produção”. Da mesma forma, o esforço (mental ou por es- cuárias existentes na empresa. No
crito) do tomador de decisão, realizado para identificar, definir e avaliar o(s) caso de empresas agropecuárias que
sistema(s) de produção (tecnologia) a ser(em) adotado(s) na empresa, estaria cultivam hortaliças ou grãos de ciclo
relacionada à função “planejamento operacional da produção”. Ou seja, curto de produção, a revisão do pla-
quando o empresário está decidindo se plantará soja ou milho na próxima nejamento estratégico provavelmen-
safra está realizando um planejamento estratégico, mas se está decidindo se te será mais freqüente, do que nos
irá plantar a variedade A ou B ou se usará X ou Y quilos de fertilizantes, está casos de empresas que possuem cul-
realizando um planejamento operacional. turas perenes ou bovinocultura de
corte, por exemplo, onde o ciclo de
Quadro 14.2 - Exemplos de atividades administrativas em empresas
agropecuáriasrelacionadasaoplanejamentoestratégicoeoperacionaldaprodução. produção é mais longo.
212
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
alteração do processo produtivo ao produção futura das alternativas em Anotações
longo do tempo, ou se dedicasse análise na empresa agropecuária,
à atividade de produção florestal, também as incertezas com relação
onde o manejo produtivo é relativa- aos preços de mercado dos produtos,
mente simples a partir de determina- à disponibilidade de crédito para as
do porte da cultura. diferentes atividades, entre outras,
contribuem para uma grande impor-
Na área de produção, os er- tância de um eficiente planejamento
ros em decisões estratégicas têm da produção. É possível, entretan-
um alto custo para serem sanados to, que essas incertezas comuns ao
ou corrigidos, pois normalmente é meio agropecuário contribuam para
longo e irreversível o processo pro- uma inércia da ação empresarial, re-
dutivo agropecuário e alto são os sultando em lentas modificações nos
investimentos necessários para se sistemas de produção das empresas
iniciar ou modificar a infraestrutura agropecuárias. Neste sentido, não se
de apoio à produção. Em nível ope- pode confundir rigidez na produção
racional, decisões erradas na área agropecuária (oferta inelástica em
de produção normalmente reduzem relação a preços) com ausência de
a produtividade das explorações e, planejamento nas empresas agro-
por conseguinte, as margens líqui- pecuárias. Muitas vezes, no curto
das possíveis de serem obtidas em prazo, o alto custo para se alterar a
um determinado ciclo de produção. infraestrutura da propriedade torna
Além das incertezas com relação à a manutenção das atividades já de-
213
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
senvolvidas pela empresa a melhor for o valor das entradas e saídas de dinheiro necessário para a condução
opção apontada pelo processo de das atividades da empresa. Então um bom plano financeiro de longo prazo,
planejamento da produção. embora importante, terá menor utilidade para um produtor de frango (inte-
grado à indústria) ou para um produtor que arrenda suas terras a uma usina
PLANEJAMENTO DAS FINANÇAS de álcool, onde a indústria é que financia quase integralmente a produção;
em relação a um produtor que movimenta grandes valores financeiros para
O Quadro 14.3 apresenta exem- realizar a produção, como é o caso de produtores de algodão, de batata, de
plos de atividades ou ações adminis- tomate, entre outros. No planejamento operacional das finanças, o maior
trativas relacionadas ao planejamen- grau de importância deve-se, além do alto valor do capital de giro necessá-
to estratégico e operacional da área rio a produção, a maior freqüência de operações de compras de insumos e
de finanças em empresas agropecu- vendas da produção. Então, nesse caso, um bom plano financeiro de curto
árias. A área de finanças envolve to- prazo seria mais útil para um produtor de leite ou de hortaliças do que para
das as questões vinculadas às recei- um produtor de eucalipto ou de cana-de-açúcar.
tas, despesas de custeio, despesas de
Quadro 14.3. – Exemplos de atividades administrativas
investimentos, financiamentos, entre em empresas agropecuárias relacionadas ao
planejamento estratégico e operacional das finanças.
outras. Assim, planejar as finanças
significa, por exemplo, projetar o
Função administrativa Exemplos de atividades administrativas
fluxo de caixa da empresa, identifi-
Projetar o fluxo de caixa das atividades e da empresa
cando as prováveis entradas e saídas como um todo (incluindo gastos familiares), especi-
ficando as origens (fontes) e as aplicações (usos) dos
de recursos financeiros ao longo do Planejamento estratégico recursos financeiros.
das finanças Elaborar e analisar a viabilidade de projetos de
horizonte de tempo planejado. investimento para a implantação de novas atividades
ou para a modificação/alteração do atual sistema de
produção.
Em nível estratégico, o planeja- Elaborar orçamentos de receitas e despesas para as
Planejamento operacional
atividades da empresa.
mento das finanças apresenta maior das finanças
Estabelecer cronograma financeiro para as atividades.
grau de importância quanto maior
214
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
PLANEJAMENTO DA COMERCIALIZAÇÃO Anotações
215
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
Quadro 14.4 - Exemplos de atividades administrativas em empresas agropecuárias
relacionadas ao planejamento estratégico e operacional da comercialização
216
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Quadro 14.5 - Exemplos de atividades administrativas em empresas agro-
pecuárias relacionadas ao planejamento estratégico e operacional do pessoal Anotações
Organização
217
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
O quadro 14.6 apresenta alguns exemplos de atividades
administrativas relacionadas à organização estratégica e opera-
cional da produção, finanças, comercialização e pessoal. Con-
siderando a finalidade dessas atividades administrativas nas di-
ferentes áreas, podem-se distinguir quatro grandes grupos: (a)
as atividades destinadas a organizar os recursos físicos propria-
mente ditos da empresa que compõem a organização da pro-
dução, como a alocação espacial das atividades levando em
conta a capacidade de uso do solo, da disposição eficiente das
benfeitorias e melhoramentos fundiários, do arranjo racional e
eficiente em almoxarifado e depósitos de insumos agrícolas e
veterinários, entre outros; (b) as atividades destinadas a orga-
nizar o fluxo de informações financeiras da empresa, como o
estabelecimento de um bom plano de contas de despesas que
permita o agrupamento ou separação de gastos ou de uma or-
ganização gerencial que permita o monitoramento de contas
correntes em bancos, ou a apuração individual dos resultados
econômicos das atividades desenvolvidas, entre outras; (c) as
atividades destinadas a organizar o fluxo de informações co-
merciais da empresa, como o estabelecimento de um bom ca-
dastro de clientes e fornecedores com suas práticas de preços
e qualidade, da evolução dos preços de insumos e produtos,
ou de organização de sistema de informações de mercado que
Cleverson Beje
218
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
possam auxiliar decisões comerciais de compra e venda; e (d) as atividades destinadas a organizar os recursos
humanos, por meio do estabelecimento de organogramas funcionais, de planos de cargos e salários, entre outras,
que compõem a organização do pessoal.
219
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
Praticamente todos os empresários almejam possuir empresas bem or- nada à maior necessidade de se orga-
ganizadas. A organização física é a mais aparente, e por isso tem recebido, nizar a disposição espacial das ben-
nas últimas décadas, maior atenção dos empresários rurais. Nas empresas feitorias, dos animais, das pastagens e
agropecuárias, esse tipo de organização exige longo tempo e altos inves- demais alimentos fornecidos ao gado,
timentos para se materializar, mas ao final proporcionam além de ganhos entre outros. Por fim, a organização
na eficiência produtiva, melhorias de imagem (status) ao empresário rural. da mão-de-obra tem sido importante
Mais recentemente, a organização financeira e comercial tem sido almejada para aumentar a eficiência e reduzir
por muitos empresários rurais, não por um desejo pessoal, mas pela neces- os custos deste fator de produção, no
sidade imposta pelas mudanças macroeconômicas, que tem exigido maior sentido de evitar o retrabalho, elevar
eficiência gerencial das empresas agropecuárias quanto ao estabelecimento a motivação das pessoas e reduzir o
de planos de contas, centro de custos, cadastros de clientes, fornecedores, custo de ações trabalhistas.
bens de capital físico, rebanhos, dados meteorológicos, entre outros. A in-
formática tem contribuído nesse processo, mas os softwares existentes no
mercado ainda não atendem perfeitamente a demanda dos produtores ru- Direção
rais e seu uso é baixo no meio rural. A direção compreende o ato de
comandar, gerir ou dirigir uma em-
Normalmente a organização da produção é tão ou mais importante do presa. A direção envolve, além de
que a organização das demais áreas administrativas. Na agricultura, a impor- processos racionais de gestão, tam-
tância da organização da produção está relacionada à maior necessidade de bém desejos, convicções, gostos e
se organizar: (a) o uso do solo, a fim de permitir a execução de planos para interesses pessoais dos dirigentes.
melhorar a sua fertilidade e dos planos de sucessão e rotação de culturas; (b) o Cabe aos dirigentes exercer a lide-
manejo integrado de pragas e doenças e o controle de plantas daninhas; e (c) rança na empresa, motivar sua equi-
a logística que envolve o uso cotidiano dos capitais físicos da empresa; entre pe de trabalho e tomar decisões. A
outros. Na pecuária, a importância da organização da produção está relacio- liderança situacional nas empresas
220
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
agropecuárias pode ser exercida através de comportamentos variados dos Anotações
dirigentes, quais sejam: (1) comportamento autocrático (quando as decisões
são unilateralmente tomadas pelo dirigente, que exige dos subordinados um
rígido cumprimento das ordens); (2) comportamento democrático (quan-
do as decisões são compartilhadas, após discussão e análise conjunta do
problema pelo dirigente e subordinado); e (3) comportamento indiferente
(quando as decisões são tomadas pelos liderados, à revelia do dirigente).
221
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
Na direção estratégica e opera- tureza do trabalho e o convívio so- e fornecedores. Por fim, na área de pes-
cional dos recursos humanos, a mo- cial. Com menor importância ou em soal, a direção da empresa agropecuá-
tivação dos trabalhadores é vital para casos mais raros, destacam-se os se- ria engloba, por exemplo, a motivação
a empresa agropecuária. A motivação guintes fatores motivacionais para os dos trabalhadores, a transmissão das or-
pode ser entendida como um conjun- trabalhadores: a possibilidade de as- dens de serviço e o monitoramento das
to de forças e energias internas do in- censão hierárquica, a autorealização, tarefas realizadas.
divíduo que o mantém direcionado a a segurança no trabalho, o status e o
agir de determinada forma. Na empre- desenvolvimento pessoal. A exemplo do observado com
sa agropecuária o processo de moti- o planejamento e a organização, as
vação, engloba também o estabeleci- O quadro 14.7 apresenta vários atividades administrativas de direção
mento de padrões de comportamento exemplos de atividades administrati- exercidas na área de produção, nor-
e de desempenho, a fim de direcionar vas relacionadas à direção estratégica malmente também são mais impor-
e estimular os indivíduos (funcioná- e operacional da produção, finanças, tantes do que aquelas realizadas nas
rios e membros da família) a agirem comercialização e pessoal. Na área de outras áreas administrativas. Isso, in-
conforme os objetivos e metas da em- produção, por exemplo, faz-se à super- diretamente, representa a grande im-
presa. Segundo Canziani (2001), na visão do processo produtivo, a determi- portância da presença física do produ-
empresa agropecuária destacam-se os nação dos serviços a serem realizados tor rural ou outra pessoa responsável
seguintes fatores motivacionais mais nessa área administrativa, entre outras. junto aos serviços operacionais de
importantes para os trabalhadores: Nas finanças, a direção envolve a ges- produção e também a importância de
salário, benefícios indiretos (moradia, tão do fluxo de caixa da empresa (uso seu conhecimento e habilidade sobre
alimentação, lazer etc.) e o reconhe- e aplicações dos recursos financeiros). o processo produtivo. Neste aspecto,
cimento pelo trabalho desenvolvido. Na comercialização, o dirigente decide um constante investimento para o au-
Em segundo plano, destacam-se: o sobre compras e vendas e estabelece mento do capital humano na empre-
gosto pela tarefa desenvolvida, a na- critérios de comunicação com clientes sa rural se faz necessário.
222
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Quadro 14.7. Exemplos de atividades administrativas em empresas agropecuárias
relacionadas à direção estratégica e operacional da produção
Controle
Exemplos de atividades administrativas relacionadas ao controle estratégico e operacional das áreas adminis-
trativas são mostrados no Quadro 14.8. O controle abrange as atividades administrativas destinadas a registrar e
223
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
avaliar o uso de todos os recursos físicos, financeiros, comerciais e humanos processo produtivo, totalmente dife-
da empresa, a fim de mensurar seu desempenho e poder propor as corre- rente ou simplesmente alterado em
ções necessárias, em tempo oportuno. Daí resulta a classificação adotada alguns detalhes.
nesse trabalho, que abrange: o controle da produção, das finanças, da co-
mercialização e do pessoal. Considerando a finalidade das
atividades de controle e o plano de
Normalmente, as ações administrativas voltadas a controlar os recursos contas existente na empresa agro-
da empresa sucedem as ações de planejamento, organização e direção, mas pecuária, pode-se distinguir vários
os resultados obtidos com o controle realimentam o processo administrati- tipos de controle: o controle de cus-
vo, fazendo-o reiniciar, com novos planejamentos, em várias oportunida- tos, o controle de produção, o con-
des. No controle da produção, por exemplo, a coleta, sistematização e ava- trole de estoques, o controle de bens
liação das atividades produtivas podem sugerir a reorientação da produção, de capital, o controle de contas cor-
com o abandono ou modificação da situação anterior e o início de outro rentes, o controle de clientes e for-
necedores, o controle de pessoal, e
o controle de outras informações re-
levantes para a empresa. No contro-
le de custos destacam-se os registros
dos gastos inerentes a cada atividade
(centros de custos) da empresa. Nos
controles de produção destacam-se
os registros de volume ou quantida-
de e de produtividade ou rendimen-
to. No caso do controle de estoques
de insumos e bens de capital desta-
Cleverson Beje
224
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
cam-se os registros de uso de fatores inerentes a cada atividade da empresa. Anotações
No caso do controle de contas correntes destacam-se os registros que moni-
toram o caixa, as contas bancárias e o saldo de contas a pagar e a receber.
No caso do controle de clientes e fornecedores destacam-se os registros de
identificação e do histórico de transações. No caso do controle do pessoal
destacam-se os registros de salário, benefícios e encargos sociais e uso da
mão-de-obra em cada atividade da empresa. Por fim, vários outros con-
troles podem ser relevantes para a empresa, como dados meteorológicos,
histórico de preços de produtos, insumos e indexadores, entre outros.
225
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
Controlar certamente custa dinheiro e tempo. Portanto o sistema de controle precisa ser útil para a empresa,
também para evitar desvios, mas principalmente para gerar informações que possam embasar medidas corretivas e
subsidiar novos planejamentos.
Coletar e sistematizar dados econômicos e financeiros das atividades desenvolvidas pela em-
Controle operacional das finanças presa.
Avaliar individualmente as atividades da empresa sob os aspectos econômico e financeiro.
Coletar e sistematizar dados relacionados aos recursos humanos da empresa como um todo.
Controle estratégico do pessoal
Avaliar a empresa como um todo no aspecto dos recursos humanos.
Coletar e sistematizar dados relacionados aos recursos humanos nas atividades da empresa.
Controle operacional do pessoal
Avaliar as atividades da mão-de-obra na empresa.
226
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Razões que Dificultam a
Anotações
Gestão de Empresas Rurais
227
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
c) à má organização ou até inexistência de um plano da empresa relativamente aos demais produtores
de contas gerencial com conseqüente dificuldade atuantes no mercado;
para a análise econômica individual das diferen-
tes atividades existentes. > maior preocupação histórica dos serviços de as-
sistência técnica e extensão rural em proporcionar
A atitude negativa, por parte de produtores e/ou pro- ganhos de produtividade da terra e do trabalho
fissionais da assistência técnica, para o uso de técnicas ao setor agrícola como sua principal estratégia de
de gestão nas empresas agropecuárias deve-se principal- demonstrar à sociedade seu papel social;
mente aos seguintes motivos:
> baixa tradição dos produtores rurais em divulgar
> presença de um certo ceticismo, por parte dos a terceiros informações sobre sua real situação
produtores e até dos técnicos, quanto à neces- econômica, financeira e patrimonial.
sidade e à eficácia de se usar técnicas de gestão
nas empresas rurais. Por um lado, essa atitude ne- > baixa tradição dos produtores rurais do país, em
gativa pode estar vinculada à relação mais direta, contratar serviços regulares de assessoria em ou-
ou de maior relevância, que outras variáveis pos- tras áreas, que não aquelas relacionadas aos as-
suem sobre o resultado econômico da proprie- pectos tecnológicos (que por muito tempo, foram
dade rural tais como: a aleatoriedade do clima, vinculadas de forma compulsória ao sistema de
as constantes mudanças na política econômica, crédito rural);
entre outros.
> alto custo para se modificar, no curto e médio pra-
> maior preocupação histórica dos produtores com zos, a estrutura vigente nas propriedades rurais, ge-
a rápida e permanente adoção de novas tecnolo- rando uma certa inércia ou repetição de suas estra-
gias visando à obtenção de vantagem competitiva tégias ao longo do tempo;
228
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
> maior custo dos serviços de uma assistência agropecuária mais abran- Anotações
gente, que incluam, além da parte tecnológica, outras questões contá-
beis, econômicas e administrativas.
229
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
das atividades desenvolvidas. Isso sugere que, no futuro, seja amplia- Com relação às limitações que
da a demanda por serviços de assessoria administrativa às empresas dificultam a organização da em-
agropecuárias no Brasil, em complemento a atual forma tradicional presa agropecuária os resultados
de atuação da assistência técnica, e finalmente, (e) as recomenda- indicam que: (a) na organização da
ções para as formas de gerenciamento da empresa agropecuária de- infraestrutura e do pessoal na empre-
vem considerar as características da empresa e do empresário rural, sa agropecuária, há uma tendência
e não serem estabelecidas a priori sem o conhecimento da situação dos produtores em superdimensio-
particular de cada caso. nar a disponibilidade desses fatores
de produção, visando uma redução
Com relação às limitações que dificultam o planejamento da empresa dos riscos operacionais inerentes à
agropecuária os resultados da pesquisa feita por Canziani (2001) indicam produção. Portanto, nas recomen-
que: (a) os produtores rurais não alteram, contínua e sistematicamente, seu dações sobre a organização física e
planejamento estratégico de produção, em função das incertezas de merca- de pessoal devem ser considerados
do e dos custos associados à alteração do processo produtivo. Portanto, as os ganhos e perdas dessa prática no
simulações utilizadas no planejamento da produção devem considerar essa resultado econômico da empresa; e
característica da empresa agropecuária, e não simplesmente propor altera- (b) na organização das finanças na
ções sem avaliar os custos econômicos e de aprendizagem inerentes às mu- empresa agropecuária, normalmente
danças; e (b) no planejamento financeiro, os produtores rurais normalmente há um descompasso entre o detalha-
direcionam seus recursos para serem aplicados em estoques ou ativos fixos, mento dos registros idealizados por
pois preferem trabalhar suas atividades com maior estoque de capital do técnicos ou empresas de informática
que com maior liquidez em caixa. Desta forma, nas recomendações sobre o e a real capacidade dos produtores
planejamento financeiro deve-se indicar as vantagens e desvantagens dessa rurais de implementá-los com efi-
prática no resultado econômico da empresa agropecuária; ciência na empresa. Assim, há que se
230
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
considerar nas recomendações administrativas a relação benefício/custo do Anotações
sistema de informação a ser implantado na empresa agropecuária.
231
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
o sistema de controle da empresa Referências
agropecuária, mas, por outro, um
reconhecimento dos produtores so- CANZIANI, J. R. Assessoria administrativa a produtores rurais no Brasil.
bre as dificuldades de implantá-los Piracicaba, 2001. 220p. Tese (Doutorado) - Universidade de São Paulo.
e utilizá-los gerencialmente. Dessa
forma, há que se desenvolver futuras DALMAZO, N.L.; ALBERTONI, L.A. A necessidade de um enfoque de ad-
pesquisas orientadas para o desen- ministração rural na pesquisa e extensão rural. In: SEMANA DE ATUALI-
volvimento de sistemas de controle ZAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO RURAL, Lages, 1991. Anais. Florianópolis:
mais específicos para cada um dos SAA; EPAGRI; CTA do Planalto Serrano Catarinense, 1992. p.7-21.
diferentes sistemas de produção.
MEIRA, J.L. Sucesso econômico e perfil estrategista empreendedor de produ-
Com a elaboração do projeto, o tores rurais: o caso Nilo Coelho. Lavras, 1996. 76p. Dissertação (MS) - Uni-
participante do Programa Empreen- versidade Federal de Lavras.
dedor Rural pode entender que as
modificações a serem implementadas MILLER, A.; BOEHLJE, M.; DOBBINS, C. Positioning the farm business. West
na sua empresa advêm de um diag- Lafayette: Purdue University, 1998. 37p. (Staff Paper, 98-9).
nóstico prévio, de um plano estraté-
gico e de uma cuidadosa análise dos PHILLIPS, J.C.; PETERSON, H.C. Strategic planning and firm performance:
benefícios e custos que as mudanças a proposed theorical model for small agribusiness firms. East Lansing: Mi-
pretendidas podem proporcionar a chigan State University, 1999. 15p. (Staff Paper, 99-41).
empresa. Com esta prática espera-
se que o empreendedor rural possa,
também, melhorar a gestão ou admi-
nistração cotidiana do seu negócio.
232
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
O Projeto e as
Ações Futuras1 Fernando Curi Peres
“Penso que cumprir a vida seja simplesmente economia, além da sua ligação com
Compreender a marcha e ir tocando em frente o resto do mundo. Algumas cadeias
Como um velho boiadeiro levando a boiada agroindustriais foram analisadas com
Eu vou tocando dias pela longa estrada eu vou mais profundidade para que o partici-
Estrada eu sou” pante pudesse ver o papel que cada
Tocando em Frente de Almir Sater e Renato Teixeira elo desempenha no seu funcionamen-
to eficiente. Foi discutida a globaliza-
Neste capítulo encerra-se a primeira fase do Programa Empreendedor Ru- ção e suas conseqüências na vida das
ral. Foram 14 encontros onde se tratou, fundamentalmente, do planejamento, famílias do setor rural bem como o
uma das quatro funções básicas que têm que ser desempenhadas pelo admi- papel dos governos na condução de
nistrador. As outras três são: a organização, a direção e o controle. Elas serão políticas que, de alguma forma, im-
objeto de outras fases do programa ou do aprimoramento geral da competên- pactam o setor. Finalmente, mas não
cia administrativa dos empresários rurais. Além do planejamento, o Programa menos importantes, foram discutidos
Empreendedor Rural abriu importantes janelas de conhecimento que devem aspectos legais e ambientais que re-
ser aprofundadas por todos os participantes. Foram vistas algumas das especifi- gulamentam a vida da sociedade, es-
cidades do setor rural, principalmente na estrutura dos mercados dos produtos pecialmente a da sociedade rural. A
do setor, bem como dos mercados dos insumos e fatores de produção que pergunta que se coloca a seguir é: o
as empresas rurais precisam comprar. Também foram analisadas as interações que fazer agora, no processo de apri-
entre as empresas rurais e os mercados e entidades que fazem o conjunto da moramento da qualidade de vida das
1 Este capítulo, em particular, trata do programa como um todo, feito dos textos nos materiais de apoio, mas prin- populações rurais do país?
cipalmente dos encontros vivos entre os participantes e facilitador.
233
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
O principal objetivo do Programa sobrevivência dos mais capazes. Por sário rural precisa entender seu pa-
Empreendedor Rural não é ensinar a outro lado, além das forças de mer- pel na economia e na sociedade para
elaborar projeto de investimento de cado, que precisam sempre ser leva- poder participar do desenho das polí-
capitais. O projeto é, basicamente, das em conta no desenho das ações ticas que definem os rumos da nação
o elemento motivador ou o eixo de humanas na sua procura por qualida- ou da pátria. Assim, o objetivo maior
aprendizagem do programa. Como de de vida superior. A “cultura” tem do Programa Empreendedor Rural é
elemento fundamental no aprimora- permitido à humanidade incorporar o de ajudar às famílias rurais a terem
mento gerencial do participante ele valores que ela considera superio- melhores cidadãos, mais envolvidos
tem papel estruturante no programa res àqueles ditados somente pelos com suas comunidades e com toda a
já que, ao longo de sua elaboração, resultados puramente biológicos da vida da nação.
foram sendo abertas as janelas para luta pela sobrevivência das espécies.
que os participantes pudessem en- Assim, enquanto a morte de crian- Um dos mais importantes econo-
tender seu papel na economia e na ças que têm defeitos congênitos ou mistas rurais contemporâneos, o Prof.
sociedade, reconhecendo as interli- de nascimento é fato comum em so- Luther Tweeten, em seu livro semi-
gações que caracterizam as ativida- ciedades menos desenvolvidas cien- nal, intitulado Foundations of Farm
des do mundo moderno. É preciso ter tificamente, também o infanticídio é Policy2 (Os fundamentos da política
em mente que este mundo moderno prática, mais ou menos, generaliza- agrícola), menciona níveis diferentes
é altamente competitivo. O merca- da em populações tribais. Os valores de objetivos ou valores sociais que
do e a conseqüente competição tem culturais, ajudados pelo desenvolvi- são aceitos por grupos correspon-
sido a forma que a humanidade usa mento da ciência, têm permitido a dentemente menores de pessoas à
para incorporar elementos derivados superação dessa prática na vida das medida que ficam mais específicos.
da carga genética, comum a todos sociedades mais desenvolvidas. En- Assim, num primeiro nível, quase
os seres vivos, de procurar a maior quanto membro de um importante todo o mundo aceita que as pessoas
eficiência pela prevalência ou pela grupo que forma a nação, o empre- procuram aumentar seu bem-estar,
2 Tweeten, L. Foundations of Farm Policy. Lincoln: Uni-
versity of Nebraska Press, 1970.
234
Capítulo XV • O Projeto e as Ações Futuras
sua utilidade ou sua satisfação. É fácil muito pouca concordância quanto à “(i) os agricultores são bons ci-
de entender esse consenso, ou con- priorização desses objetivos ou va- dadãos e uma alta percentagem da
cordância, porque pode-se definir, lores sociais pelos diferentes grupos população deveria viver nas fazen-
ou defender, qualquer objetivo sobre que formam as sociedades, especial- das; (ii) agricultura não é só um ne-
esses imensos guarda-chuvas. Num mente a brasileira. O que pensam os gócio, mas um estilo de vida; (iii) o
segundo nível hierárquico, situam-se empresários rurais em termos de seus negócio rural deveria ser desenvol-
objetivos do tipo liberdade, justiça, objetivos sociais? vido em propriedades familiares; (iv)
segurança e progresso. Também são a terra deve ser possuída por quem a
bastante genéricos para acomodar Existe pouco consenso sobre os cultiva; (v) é desejável produzir dois
um enorme número de políticas em- valores sociais mantidos pelas popu- sacos de produto onde antes só se
bora, certamente, existam grandes lações rurais do Brasil. Para algumas produzia um; (vi) qualquer pessoa
diferenças quanto à prioridade que culturas eles são, por outro lado, que desejasse ser agricultor deveria
os diferentes grupos populacionais muito conhecidos. Na literatura an- poder sê-lo; e (vii) o agricultor deve
associam a cada um deles. No ter- glo-saxônica e na tradição fisiocráti- ser seu próprio patrão”.3
ceiro nível são muito mais aparentes ca francesa, por exemplo, os valores
as diferenças de prioridades entre os sociais dos agricultores são bem ex- Como o próprio Tweeten salien-
diversos grupos populacionais. Valo- plicitados. De fato, o Prof. Tweeten, ta, a seguir:
res ou objetivos como democracia, referindo-se especificamente aos fi-
crescimento econômico, eficiência siocratas franceses, fala dos compo- “Os componentes do fundamen-
econômica, a livre iniciativa (ou pro- nentes do que é conhecido como o talismo eram mais ou menos consis-
priedade privada de bens de produ- fundamentalismo rural, sem a cono- tentes internamente quando a ausên-
ção), a igualdade de oportunidades tação pejorativa atual do termo: cia de novas tecnologias limitavam a
e o patriotismo são exemplos des- 3 p. 8 de Tweeten, Luther Foundations of Farm Policy.
Lincoln: University of Nebraska Press, 1970, (Tradução
te nível de aspiração social. Existe livre).
235
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
habilidade dos agricultores de produ- atuais, então formas mais eficientes ser seu dono. A maior parte das áreas
zir dois sacos de produto onde antes de organização da produção devem cultivadas do sub-continente é o em
só produziam um. Mas o desenvolvi- substituir a propriedade familiar. Os terras arrendadas. Nos Estados Unidos
mento da ciência, das tecnologias e mercados, representando a exigên- da América o fenômeno só ocorreu
de outros setores da economia mu- cia social de eficiência na aplicação a partir da metade do século passa-
daram aquela situação e o item (v) dos recursos “da sociedade”, só per- do. Em ambas regiões, as exigências
começou a destruir as bases que fun- mitem a subsistência e o crescimen- de escala na produção agropecuária
damentavam aquelas visões”.4 to de empresas eficientes. Quando a tem feito a agricultura se dar, princi-
sociedade insiste em manter formas palmente, em áreas arrendadas. Além
Ele lembra, ainda, que embora não eficientes de organização da do crescimento do tamanho da pro-
os agricultores sejam considerados produção então ela precisa subsidiar priedade média que está ocorrendo
bons cidadãos, uma alta proporção as menos competitivas. Só assim elas em quase todas as agriculturas desen-
da população não pode ser forma- sobrevivem. volvidas do mundo, o arrendamento
da por agricultores se o desenvolvi- de terras permite que as áreas efetiva-
mento econômico é um valor para Um fato histórico importante difi- mente cultivadas pelo agropecuarista
as sociedades. Diz que, de fato, a culta a aceitação literal do item (iv) do moderno atinja escalas mais desejá-
atividade rural é uma atividade eco- fundamentalismo rural que diz que a veis pelas condições de mercado e
nômica como qualquer outra o que terra deve ser possuída por quem a por exigências das tecnologias mo-
deixa pouco espaço para ser consi- cultiva. Na Europa Ocidental, desde dernas.
derada um estilo de vida especial. a época do feudalismo e apesar dos
Finalmente, se a família não conse- movimentos de reforma agrária acon- O Prof. Tweeten menciona, ainda,
gue atingir o mínimo necessário, ou tecidos em alguns países, a posse da dois outros princípios que os funda-
exigido, pelas escalas dos negócios terra não se confunde com seu uso, mentalistas querem adicionar àqueles
4 p. 8 de Tweeten, Luther Foundations of Farm Policy. no sentido de quem a cultiva deve listados anteriormente. São eles:
Lincoln: University of Nebraska Press, 1970, (Tradução
livre).
236
Capítulo XV • O Projeto e as Ações Futuras
“(1) alimentos e fibras são as volveram sob bases pobres de seus vão determinar esta decisão. Valores
necessidades mais básicas das civi- respectivos setores rurais, como está mais profundos, que envolvem es-
lizações; e (2) para que uma nação acontecendo com a China recente- tilos de vida alternativos interagem
prospere, seus agricultores têm que mente. Outros incluem as situações com os administrativo-econômicos
prosperar”.5 temporais, que mostravam seus se- para indicar o sentido de uma deci-
tores urbanos se desenvolvendo en- são. Mesmo que uma taxa de retor-
Novamente, apesar do apelo quanto os rurais se empobreciam, no econômico relativamente baixa
intuitivo dessas proposições, a rea- como aconteceu no Brasil nas déca- tenha sido encontrada para um de-
lidade está mostrando que elas es- das de 30 e 40 do século passado. terminado projeto, pode ser que a
tão longe de corresponder à verdade manutenção de um certo estilo de
dos fatos. Ele menciona o argumen- O participante do programa, vida justifique sua implantação. De
to inatacável que diz que apesar da agora que sistematicamente pensou fato, isso equivale à associação de
água ser um elemento mais impor- e explicitou alguns elementos do uma determinada valorização da-
tante do que os próprios alimentos plano estratégico de sua empresa e quele estilo de vida o que faria o
para a vida do homem, ou para a terminou seu primeiro projeto, está retorno do projeto tornar-se atrativo.
vida em geral, os trabalhadores dos de frente a decisões fundamentais De qualquer maneira, essa decisão
serviços de abastecimento de água para sua vida e de sua família. Cer- é de foro íntimo e interessa somente
não desfrutam de nenhum privilégio tamente, valores de todas as ordens ao empreendedor e à sua família.
correspondente dentro dos diferen- foram considerados na elaboração
tes grupos sociais. Quanto à segun- do plano estratégico e ainda estão Apesar da valoração do estilo de
da proposição, a história está cheia presentes na hora das decisões de vida que, acredita-se, é importante
de exemplos de países que se desen- implementar, ou não, o projeto es- para muitas famílias rurais, existe
237
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
divergente à manutenção daquele é deslocado ou que precisa mudar da combinação de atividades de
estilo. Trata-se da destruição criati- alguns elementos que formam sua uma empresa. Ele é medido como
va proposta por Joseph Schumpeter competência para continuar ativo no a variabilidade esperada para cada
e hoje aceita pelos economistas de mundo competitivo dos negócios. ponto do gráfico. No eixo dos y (na
todo o mundo. Segundo essa cons- Empresários rurais, tais como quais- vertical) está o retorno esperado (R)
tatação, nas economias de mercado quer outros empresários, precisam de cada combinação de atividades.
os padrões tecnológicos e gerenciais abandonar processos gerenciais, tec- A curva mostrada no gráfico (curva
são substituídos através da chamada nológicos ou de outra natureza para aai) é chamada de fronteira eficiente
destruição criativa. Quando um novo se adaptar a novos que estão cons- da economia. Ela mostra as diversas
processo tecnológico mostra-se mais tantemente surgindo. Infelizmente, combinações de atividades em uma
eficiente em termos competitivos ele não há lugar para os saudosistas no economia – portanto com determi-
destrói o processo que prevalecia mundo competitivo moderno. nada dotação de fatores primários
até então para substituí-lo. A subs- de produção – que são considera-
tituição é penosa para aqueles que Alguns trabalhos acadêmicos ri- das eficientes. Cada ponto da curva
viviam do processo anterior e que, gorosos estão mostrando que muitas apresenta a característica de ofere-
agora, precisam ser re-treinados, se unidades do setor rural, especialmen- cer o máximo de valor esperado de
vão continuar na mesma área, ou te da agropecuária, trabalham numa retorno para um determinado nível
precisam se dedicar a outra área das situação de ponto interno, no espaço de risco ou, o que é a mesma coisa,
atividades econômicas. Às vezes as retorno-risco para uma economia, oferecer o mínimo de risco para de-
empresas quebram e seus recursos como o ponto B da Figura 15.1. terminado nível de retorno. Por isso
ou fatores de produção são direcio- os pontos da curva são ditos eficien-
nados para outras mais dinâmicas O gráfico apresentado mede, tes, quando tanto os retornos possí-
que reconhecem e incorporam as no eixo x (na horizontal) o risco veis quanto os correspondentes ris-
necessárias mudanças. Assim, exis- esperado (V) para uma determina- cos são avaliados. Qualquer ponto
te sempre, um grupo humano que
238
Capítulo XV • O Projeto e as Ações Futuras
abaixo da fronteira eficiente corres- mesmo nível de risco esperado (V’). ficiente. Os retornos a seus fatores
ponde a uma combinação ineficien- Este é o ponto C na figura. De for- primários de produção podem ser
te de atividades. ma equivalente, pode-se dizer que o tão baixos que os membros de sua
R ponto B é ineficiente porque com o família acabarão por convencê-lo
ai mesmo nível de retorno esperado R’ é de que é melhor mudar de ramo de
possível achar usos para seus fatores atividade. Por isso, a agricultura é,
C
R’’ de produção com um nível de risco tradicionalmente, um setor perdedor
V” < V’. Este é o ponto D na figura. de recurso, especialmente de recur-
Como dito anteriormente, estudos sos humanos e financeiros.
R’
D
B empíricos têm mostrado muitas em-
a presas rurais com combinações de Foi visto, em toda a duração do
atividades fora da fronteira eficiente programa, que as diversas exigências
0
da economia, como o ponto B da fi- de escala de produção estão presen-
V’’ V’ V
gura; são pontos internos à fronteira tes num grande número de ativida-
Figura 15.1 - A fronteira eficiente e empresas e, portanto, ineficientes. Ora, embo- des econômicas do mundo moderno,
ineficientes numa economia.
ra isto possa estar custando retornos especialmente na economia globali-
O ponto B da Figura 15.1 é um não auferidos pelos agricultores – ou zada. Certamente, alguns requeri-
ponto ineficiente porque, para a fir- riscos adicionais controláveis, por- mentos de escala estarão presentes
ma em questão, é possível conseguir tanto desnecessários – eles podem na hora da implantação do projeto
uma taxa de retorno esperado maior ter justificativas, baseados em va- de cada participante: (i) a necessi-
que R’ pelo uso de outra combinação lores especiais que têm, que justifi- dade de pressão política para que
de atividades para seus fatores pri- cam essa aparente ineficiência. Não uma estrada seja mantida em con-
mários de produção que gere um re- tão aparente porque há limite para dições satisfatórias de tráfico; (ii) o
torno esperado de R” (R” > R’) com o quanto um agricultor pode ser ine- “pooling” de diversas empresas para
239
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
anunciarem a disponibilidade local cipantes são estimulados a procurar Após a participação no Programa
de certos produtos; (iii) as exigências seus pares para, com a sinergia re- Empreendedor Rural espera-se que
de um número mínimo de partici- sultante das ações comuns no sen- cada um seja mais ativo nas iniciativas
pantes para que certos treinamentos tido de conseguir maiores escalas, associativas de seus pares. A partici-
de mão-de-obra possam ser ofereci- conseguirem atingir resultados que pação no sindicato rural e em associa-
dos localmente; (iv) a necessidade de dificilmente conseguiriam agindo ções e conselhos de suas comunida-
um número mínimo de interessados isoladamente. É lógico que a capaci- des são exemplos da contribuição de
numa comunidade para que o aces- dade de trabalhar em grupo precisa cada um para o aumento do capital
so à internet seja disponibilizado etc. ser aprimorada. Só conseguem bons social e institucional das comunida-
É imensa a lista de requerimentos de resultados os ambientes onde as três des. Por outro lado, cada um pode de-
“cooperação” exigidos na implanta- variáveis que definem os estoques mandar os serviços dessas instituições
ção dos projetos dos participantes. de capital social estão presentes: na busca interminável pelo aperfeiço-
Esta cooperação é fundamental num (i) confiança entre os pares; (ii) ci- amento ou incremento dos estoques
setor econômico onde as empresas vismo ou a obediência de determi- de capital humano – conhecimento,
são pulverizadas, como é o caso ge- nadas regras de convivência aceitas habilidades e atitudes e melhoria das
ral da agricultura, no mundo moder- socialmente; e, (iii) a capacidade de condições de saúde – que a competiti-
no de grandes escalas. É por isso que trabalhar em grupo ou a disposição vidade dos mercados está exigindo de
o produtor rural não pode mais se de formar grupos para enfrentar os cada empresa ou unidade produtiva.
isolar do contato com seus pares. problemas das respectivas comuni- Organizações formais da sociedade,
dades em vez de esperar, de forma tais como o sistema S, entre os quais
A fase II do Programa Empre- clientelista, que algum padrinho ou são particularmente importantes para
endedor Rural foi desenhada para político venha resolver o problema o setor rural o SENAR, SEBRAE e SES-
promover a necessária cooperação para a comunidade. COOP, oferecem inúmeras oportu-
entre as unidades produtivas – ou os nidades de aumento dos estoques de
produtores – do setor rural. Os parti- capitais humanos para a agricultura.
240
Capítulo XV • O Projeto e as Ações Futuras