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Programa Empreendedor Rural: Guia Completo

O Programa Empreendedor Rural, uma parceria entre SEBRAE-PR e SENAR-PR, visa capacitar produtores rurais através de 15 módulos interligados que promovem a autonomia e a gestão eficiente de suas propriedades. Desde sua criação, o programa já impactou mais de 16 mil empreendedores, enfatizando a importância da formação de lideranças e da inovação no setor rural. A publicação atualizada serve como um guia para auxiliar na elaboração de projetos e no desenvolvimento de habilidades empreendedoras.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Programa Empreendedor Rural: Guia Completo

O Programa Empreendedor Rural, uma parceria entre SEBRAE-PR e SENAR-PR, visa capacitar produtores rurais através de 15 módulos interligados que promovem a autonomia e a gestão eficiente de suas propriedades. Desde sua criação, o programa já impactou mais de 16 mil empreendedores, enfatizando a importância da formação de lideranças e da inovação no setor rural. A publicação atualizada serve como um guia para auxiliar na elaboração de projetos e no desenvolvimento de habilidades empreendedoras.
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© 2009.

SEBRAE/PR e SENAR/PR

Todos os direitos reservados.

A produção não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação dos direitos autorais (lei nº 9.610).

O Programa Empreendedor Rural é uma parceria do SEBRAE-PR, SENAR-PR., FAEP e FETAEP.

SEBRAE PR SENAR PR
Presidente do Conselho Deliberativo Presidente do Conselho Administrativo
Jefferson Nogaroli Agide Meneguette

Diretoria Executiva Superintendência


Allan Marcelo de Campos Costa Ronei Volpi
Julio Cézar Agostini
Gerencia Técnica
Vitor Roberto Tioqueta
Elcio Chagas da Silva
Coordenação Técnica do Desenvolvimento
Gerencia Administrativa e Financeira
Unidade de Desenvolvimento
de Soluções - Educação Denise Laine Souza

Luciane Sayuri Sato Gerencia Planejamento


Márcia Valéria Paixão Henrique de Salles Gonçalves

Os direitos de reprodução são reservados aos Editores.

Organizadores: Fernando Curi Peres; Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka; José Roberto Canziani; Vania Di Addario
Guimarães; Marina Magalhães Carneiro de Oliveira.

Catalogação no Centro de Documentação, Informação Técnica e Editoração Sebrae-Pr e Senar-Pr.

O Programa Empreendedor Rural.

O programa empreendedor rural. – Curitiba : SEBRAE/PR e SENAR/PR, 2009. 3 volumes.

1. Empreendedorismo rural. 2. Administração rural. I. Peres, Fernando Curi. II. Hironaka, Giselda
Maria Fernandes Novaes. III. Canziani, José Roberto. IV. Guimarães, Vania Di Addario. V. Oliveira,
Marina Magalhães Carneiro de. VI. Título.

CDD650
CDU65.08+633.2.03

Editoração, Projeto Gráfico e Revisão de Texto


Ceolin & Lima Serviços Ltda.
Planejamento e independência

O Programa Empreendedor Rural está de cara nova. O material atualizado traz uma nova proposta de trabalho
do conteúdo dos 15 módulos, com temas interligados que impulsionam o participante na utilização dos novos
conhecimentos para o desenvolvimento do seu projeto de investimento.
Autonomia para o produtor rural. Seja na tomada de decisões, seja no planejamento de sua atividade. Este é o
foco do Programa e para isso ele foi remodelado.
Da experiência de cinco anos em campo, surgiu a necessidade de se atingir um aprendizado mais efetivo, em
que a qualificação técnica tenha suporte no desenvolvimento humano e vice-versa.
O Empreendedor Rural foi criado para o seu público e hoje, após 650 turmas concluídas e mais de 16 mil em-
preendedores participantes, é justo dizer que estas pessoas estão ajudando a construir o Programa.
Da mesma forma, cada empreendedor descobre ao longo dos módulos que cabe a ele a utilização dos novos
conhecimentos na criação de condições mais favoráveis para a implantação de seu projeto, a começar pela mo-
bilização de pessoas que estão a sua volta, sejam familiares, funcionários ou colaboradores. Sua primeira lição é
compartilhar para construir juntos.
Não há mais espaço para amadorismo. Mas sempre haverá espaço para empreendedores rurais competentes.
A expectativa dos parceiros SENAR-PR, SEBRAE-PR, FETAEP e FAEP é que, mais uma vez, o Programa Em-
preendedor Rural seja um grande aliado para você que está recebendo este material. Aproveite a oportunidade e
conte com o Programa para ajudar na sua caminhada.
Ágide Meneguette
Presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná
Presidente do Conselho Administrativo do SENAR – Administração Regional do Estado do Paraná
Transformação no campo

O Empreendedor Rural é uma parceria de sucesso, um modelo para o Brasil. O programa, fruto do trabalho do
SEBRAE/PR e do SENAR/PR, virou realidade no Paraná e também em 24 estados brasileiros e no Distrito Federal.
É uma experiência que tem transformado a realidade no campo.
Em todo o País, perto de 8,7 mil produtores já passaram pelo Empreendedor Rural. De 2007 para 2008, o nú-
mero de turmas saltou de 95 para 291. No Paraná, em 2008, foi executado em 311 dos 399 municípios. Foram
cerca de 17 mil produtores rurais envolvidos, que deram um novo rumo para suas propriedades.
Os números mostram que os produtores rurais estão cada vez mais profissionais, mais conscientes quanto à
necessidade de formação de lideranças fortes e mais preocupados com a gestão de suas propriedades rurais. Para
o SEBRAE/PR, essa mudança é fundamental.
O produtor tem que ser visto como um empreendedor, que precisa saber administrar sua propriedade, calcular
os custos de seus processos produtivos e ter uma visão de sua atividade frente a um mercado globalizado. O SE-
BRAE/PR, que aposta no desenvolvimento do Paraná, é parceiro nessa empreitada.
Para o SEBRAE/PR, a inovação, por exemplo, é uma condição essencial para o desenvolvimento do empreen-
dedorismo. No meio rural, uma maneira de conquistar novos mercados, diversificar a produção, investir em novos
métodos e ganhar produtividade.
Que esta publicação, sirva como uma ferramenta de aprendizado!
Allan Marcelo de Campos Costa
Diretor-superintendente do SEBRAE/PR
Apresentação

A atualização e aprimoramento do Programa Empreendedor Rural - PER (SENAR/PR e SEBRAE/PR) nasceu


das necessidades identificadas, a partir da experiência desenvolvida durante os cinco anos de sua implantação no
Paraná, e mais recentemente, em outros 24 estados da Federação e Distrito Federal.

Sabemos que o sucesso do Programa se deve ao que ocorre nos encontros e nas vidas de cada participante. E
não temos a pretensão de reproduzir o movimento vivo que acontece no campo. Porém, com essa publicação, em
três volumes, pretendemos fornecer textos que abram “janelas” para ampliar o olhar de cada leitor participante
sobre diversos temas que são abordados ao longo dos encontros.

Trazemos em 15 capítulos, divididos em dois volumes, informações sobre os temas que serão trabalhados du-
rante o Empreendedor Rural, para que o produtor rural que quer participar do Programa conheça um pouco mais o
que será abordado. O terceiro volume é um guia para auxiliá-lo na elaboração dos projetos, com orientações sobre
como fazer um diagnóstico de sua propriedade rural e conhecer melhor o mercado, o que facilitará na elaboração
de um plano de ação. Por fim, oferecemos um caderno de campo para a anotação de conteúdos e de reflexões e
aprendizagens ao longo do Programa.

Desejamos que todos os participantes leiam os textos desta publicação e discutam, em sala de aula e ou fora
dela, os seus conteúdos. São, em grande parte, diferentes do que a literatura e a imprensa apresentam em análises
sobre o rural no Brasil. Uma das principais diferenças é a análise de que existe uma postura antiempresarial e an-
tirrural que ainda prevalece em nossa sociedade, trazendo a percepção de que a posse da terra no país continua
sendo organizada em moldes feudais, mesmo nos dias de hoje. Ao contrário, em nossa visão, o setor rural brasi-
leiro está totalmente voltado à eficiência dos mercados.
Entendemos que ainda serão necessárias muitas pesquisas e novas publicações, além das visões estruturalistas
que ainda prevalecem em nossa sociedade, para que o viés antirrural possa ser superado no Brasil. Nesses textos
acreditamos contribuir com uma pequena parcela para disseminar essa nova forma de compreender o setor.

Sobre os Autores:
Fernando Curi Peres: PHD em Economia pela Ohio State University (EUA) e professor titular da Universidade de
São Paulo (USP)
Vania Di Addario Guimarães: Doutora em Economia Aplicada pela Universidade de São Paulo (ESALQ/USP) e
professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR)
José Roberto Canziani: Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de São Paulo (ESALQ/USP) e professor
da Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka: Doutora em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e professo-
ra associada desta mesma universidade.
Programa Empreendedor Rural – Volume I
> O Empresário Rural e suas competências
> A Economia e a Renda Nacional
> Especificidades do Setor Agropecuário
> A Família e a Propriedade Rural
> Desenvolvimento Humano e Organizacional
> Planejamento Participativo
> Globalização e Políticas Econômicas

Programa Empreendedor Rural – Volume II


> Cadeias Agroindustriais
> Estratégias de Comercialização
> Instituições da Agropecuária
> Sistema Jurídico e Legislação Agrária
> Setor Rural e o Meio Ambiente
> Administração da Empresa Rural
> O Projeto e as Ações Futuras
Programa Empreendedor Rural – Elaboração e Análise de Projetos

A Situação Atual da Empresa e o Plano Estratégico


> Introdução
> Diagnóstico da empresa
> Planejamento estratégico da empresa
> Estudos de casos – primeira parte

Plano de negócios: Estudo de Mercado, Engenharia do Projeto e Avaliações


> Estudo de mercado
> Engenharia do projeto
> Avaliações
> Estudos de casos – segunda parte
> Roteiro para a elaboração de projetos
SUMÁRIO
12 Cadeias Agroindustriais

50 Estratégias de Comercialização

78 Instituições da Agropecuária

94 Sistema Jurídico e Legislação Agrária

180 O Setor Rural e o Meio Ambiente

206 A administração da Empresa Rural

233 O Projeto e as Ações Futuras

Cleverson Bege
Eixo de Aprendizagem do
Programa Empreendedor Rural
O Programa
Empreendedor
Rural

O
Desenvolvimento O Setor Rural
Empreendedor
Humano e e o Meio
Rural e suas
Empresarial Ambiente
Competências

Instituições A Administração
Planejamento
A Economia e a Cadeias da da Empresa
Participativo
RendaNacional Agroindustriais Agropecuária Rural

Implantação
Diagnóstico Planejamento Estudo de Engenharia
Avaliações
ou Inventário Estratégico Mercado do Projeto

Especificidades Globalização Estratégias de Sistema O Projeto e as


do Setor Rural e Políticas Comercialização Jurídico e Ações Futuras
Econômicas Legislação
A família e a Agrária
Propriedade
Rural
Cadeias
Agroindustriais1
José Roberto Canziani

Um melhor conhecimento sobre d) Como funcionam os mercados Para auxiliar o empreendedor


a organização e funcionamento das de cada fator de produção? rural a responder as questões rela-
cadeias produtivas agroindustriais II) No estudo do mercado de produtos. cionadas acima, este capítulo foi or-
pode auxiliar o empreendedor rural a) Para quem é possível vender? ganizado em duas partes, de forma
na elaboração e análise de projetos b) Por quanto é possível vender? a expor alguns exemplos para dife-
de investimentos para a sua proprie- c) Quanto é possível vender? rentes e importantes cadeias pro-
dade ou negócio rural. O tema “ca- d) Como funcionam os merca- dutivas agroindustriais do país. A
deias agroindustriais” tem uma rela- dos dos produtos e subprodu- primeira parte trata da organização
ção estreita com a fase de “estudo de tos que serão produzidos? e funcionamento das cadeias pro-
mercado” que compõe a elaboração dutivas, desde o mercado de fatores
de projetos, pois nesta fase o empre- Certamente pode haver seme- (fertilizantes, defensivos, máquinas e
endedor rural está diante de pergun- lhanças e diferenças na organização e equipamentos, rações, medicamen-
tas importantes que devem ser res- funcionamento de diferentes cadeias tos, entre outros), a produção agrope-
pondidas, tais como: produtivas agroindustriais ou até para cuária propriamente dita, o processa-
I) No estudo do mercado de fatores. uma mesma ou determinada cadeia mento industrial e a distribuição ao
a) De quem é possível comprar? produtiva agroindustrial localizada em atacado e varejo. Na segunda parte,
b) Por quanto é possível comprar? diferentes países ou regiões. Este arran- apresentam-se questões relacionadas
c) Quanto é possível comprar? jo, em termos de organização e funcio- à oferta, demanda e o processo de
namento das cadeias produtivas, tam- formação de preços em cada merca-
1 Baseado no capítulo 7 do livro do Pro-
bém pode se alterar no tempo. do. Por fim, em anexo, relacionam-se
grama Empreendedor Rural (2003) de
autoria de José Roberto Canziani.

12 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


alguns endereços eletrônicos (sites) da internet que disponibilizam informações estatísticas relevantes sobre sistemas
agroindustriais, com objetivo de facilitar ao empreendedor rural um permanente monitoramento dos mercados.
Foram selecionadas como exemplos neste capítulo as cadeias produtivas do milho, do leite, do frango e da
soja, em função de sua importância na geração de renda e emprego no meio rural brasileiro.

Organização e funcionamento de cadeias agroindustriais

Como um exemplo, a figura 9.1 identifica, respectivamente, os principais agentes e os produtos integrantes do
sistema agroindustrial da soja no Brasil, desde o fornecimento de insumos ao produtor rural até a etapa de distribui-
ção dos produtos ao consumidor final. Da mesma forma, podem ser identificados os agentes e produtos de qualquer
sistema agroindustrial.

Figura 9.1 – Representação do sistema agroindustrial da soja no Brasil.

Uso dos fatores primários de produção: Recurso natural, Trabalho, Capital físico e financeiro, Recurso empresarial
Compra de insumos (Sementes, fertilizantes, defensivos agrícolas, combustíveis, energia, peças e assessórios, embalagens, produtos
químicos, etc), pagamento de impostos, taxas e contribuições, entre outros.

$ $ $ $ C
O
N
Soja em FÁBRICAS DE farelo, óleo S
grão ESMAGAMENTO e outros OUTRAS derivados U
COOPERATIVAS (MERCADO derivados finais
Soja em $ INDÚSTRIAS M
grão INTERNO) $ I
$
CEREALISTAS farelo, óleo e D
PRODUTOR RURAL $ $ ATACADISTAS
outros derivados O
Soja em R
grão
TRADINGS (MERCADO VAREJISTAS F
$ EXTERNO)
I
N
A
$ $ $ $
L
Remuneração aos fatores primários de produção. Aluguéis ou arrendamento, salários, juros, lucros

Capítulo IX • Cadeias Agroindustriais 13


FATORES DE PRODUÇÃO Na formulação das rações, a O mercado de máquinas agríco-
principal fonte de energia no Brasil las é relativamente concentrado no
Nos setores fornecedores à pro- é o milho, mas outros cereais tam- Brasil. No segmento de tratores de
dução primária, os agentes econô- bém são utilizados como o sorgo, rodas, a participação de mercado das
micos participantes das cadeias pro- arroz, triticale, trigo, triguilho, mi- 4 maiores empresas (Agco – Massey
dutivas são semelhantes para a soja lheto, entre outros. Como fonte de Ferguson, Case-New Holland; Valtra
e milho. Nestes casos, destacam-se proteína destaca-se o farelo de soja – Valmet e John Deere) supera 95%,
os fornecedores de máquinas e equi- e como ingrediente fibroso o farelo e no segmento de colheitadeiras só
pamentos (colheitadeiras, tratores, de trigo. As rações normalmente são há 3 empresas (Agco, Case-New
pulverizadores, semeadeiras, entre adquiridas pelos avicultores junto à Holland e John Deere). Na venda
outros), e de defensivos (herbici- empresa integradora e no caso dos de máquinas agrícolas no Brasil,
das, inseticidas, fungicidas, entre produtores de leite junto a fábricas estima-se que cerca de 50% sejam
outros). Também há semelhanças de rações independentes. Os farelos faturadas (emissão da nota fiscal) di-
de fornecedores para o leite e car- de soja, trigo e outros macro-ingre- retamente pela indústria, 40% sejam
ne de frango, como os de vacinas, dientes normalmente são adquiridos faturadas pelos distribuidores e ape-
medicamentos, rações, entre outros, da integradora ou de indústrias re- nas 10% por estabelecimentos vare-
mas há diferenças no fornecimento gionais. Já os ingredientes minerais jistas. Além do poder de compra do
de equipamentos específicos para as e vitamínicos (premix) normalmente setor rural (valor relativo da produ-
duas atividades, como é o caso de são adquiridos via integradoras ou ção), a disponibilidade de crédito é
comedouros e nebulizadores utiliza- via representantes regionais dessa um importante requisito para a com-
dos na produção de frango e de or- indústria. Os equipamentos, por sua pra de máquinas agrícolas. Estima-
denhadeiras e resfriadores utilizados vez, normalmente são adquiridos se que cerca de 80% das vendas
para a produção de leite. em feiras agropecuárias ou no mer- de tratores e colheitadeiras sejam
cado regional. financiados com recursos de várias

14 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


fontes: crédito rural (Moderfrota); re- madas peças originais), sendo os 70% Anotações

cursos livres dos bancos e recursos restantes produzidos por terceiros.


próprios da indústria. No tocante a
políticas de vendas de máquinas no- É muito ampla a variedade de
vas no Brasil não há grandes diferen- implementos agrícolas existentes no
ças entre os fabricantes em termos Brasil. É também relativamente pul-
de: (a) financiamento; (b) comissão, verizado o número de fabricantes.
que é paga a concessionária regio- No mercado de implementos não há
nal, independente da venda ser di- o mesmo atrelamento entre as fábri-
reta ou não da indústria ao produtor; cas e os revendedores (ou concessio-
(c) atendimento pós-venda (assistên- nários) como ocorre no mercado de
cia técnica) que é sempre realizado máquinas agrícolas. Quase sempre os
pela concessionária regional; e (d) revendedores de implementos agrí-
cada concessionária atua em região colas trabalham com vários tipos e
pré-estabelecida pela indústria (“Lei marcas de equipamentos. Dentre os
Ferrari”). implementos e equipamentos agrí-
colas destacam-se: os de preparo do
O mercado de revenda de peças solo, aplicação de fertilizantes, irri-
de reposição tem na prestação de gação, tratamento e inoculação de
serviços pós-venda uma boa parcela sementes, semeaduras, transplante
de seu faturamento. Da produção de e plantio, cultivo e poda, aplicação
peças de reposição para máquinas e de defensivos, equipamentos para
equipamentos, cerca de 30% são pro- colheita e para o beneficiamento da
duzidos pela própria indústria (as cha- produção.

Capítulo IX • Cadeias Agroindustriais 15


A produção de fertilizantes mi- primas básicas para o setor de fertili- A base do setor de defensivos é
nerais depende basicamente de zantes no Brasil. Já no segmento de a indústria química com destaque
três matérias-primas: amônia, ácido misturadoras, o mercado é menos para os derivados do refino de pe-
fosfórico e potássio (mineração). A concentrado com a participação de tróleo. Poucas empresas participam
produção de amônia, por sua vez, mais de uma centena de empresas. deste mercado no Brasil (que aliás
depende da oferta de gás natural e Uma forma comum de venda de vem se concentrando nacional e
o fertilizante fosfatado, da oferta de fertilizantes ao produtor é quando a mundialmente por meio de fusões e
enxofre (mineração). Os fertilizan- “misturadora” repassa o fertilizante aquisições), e suas unidades indus-
tes básicos (potássicos, fosfatados para uma empresa (receptora) e esta triais localizam-se próximo de pólos
e nitrogenados) são utilizados para realiza uma operação casada com o petroquímicos em São Paulo, Rio de
elaboração dos fertilizantes formula- produtor, ou seja, troca o fertilizante Janeiro e Bahia. Os principais tipos
dos (N-P-K), estes adquiridos pelos pela produção futura (venda ante- de transações neste mercado são: a)
produtores rurais de acordo com a cipada ou escambo). Outra forma, a indústria repassa o produto a uma
cultura e com as características físi- utilizada por grandes produtores distribuidora (ou cooperativa) e esta
co-químicas de seus solos. (ou condomínio de produtores) é a ao produtor e tem a responsabilida-
compra de fertilizante diretamen- de da assistência técnica. Esta mo-
O Brasil não é autosuficiente na te das misturadoras ou mesmo da dalidade representa 80% do volume
produção de nenhuma das matérias- indústria. Por fim, há a compra de total na região sul, 30% na região
primas fundamentais para a formu- fertilizantes de revendas, que no sul sudeste e 20% no centro-oeste; b)
lação de fertilizantes, sendo nos- do país são principalmente coopera- venda direta da indústria ao produ-
sa maior dependência de enxofre tivas. Estima-se que destas 3 formas tor – 20% na região sul, 10% na re-
(99%) e cloreto de potássio (95%). de comercialização, a participação gião sudeste e 50% no centro-oeste;
Apenas 8 empresas participam do de cada uma seja de 50%, 20% e c) venda através de revenda (60%
mercado de produção das matérias- 30%, respectivamente. das vendas na região sudeste).

16 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA A produção de leite no Brasil é Anotações

extremamente diversa. São muitos


Na produção primária de soja, os sistemas de produção existentes
milho, leite e frango há importantes no país, com significativas variações
diferenças que podem ser destaca- entre regiões e entre produtores, em
das. No caso da soja, a tecnologia termos de alimentação, manejo e
utilizada pelos agricultores normal- genética do rebanho. Já a produção
mente é de ponta e relativamente de frango é bastante homogênea em
homogênea. Este produto geralmen- termos de tecnologia. Neste setor é
te é cultivado em médias e grandes a indústria que define o pacote tec-
propriedades rurais e a exploração é nológico, pois a maior parte da pro-
totalmente mecanizada. Já a produ- dução é integrada. Outra diferença
ção de milho no Brasil se caracte- entre o leite e frango é o ambiente
riza por uma significativa dualidade de produção, que no segundo caso
tecnológica em termos de utilização é feito quase sempre em condições
da tecnologia disponível, com as controladas de temperatura e umida-
colheitas podendo resultar em muito de.
altas e muito baixas produtividades.
No país o milho é plantado em duas Na venda da produção rural tam-
safras (verão e safrinha) e cultivado bém há diferenças importantes entre
por mini, pequenos, médios e gran- soja, milho, leite e frango. A soja
des produtores. segue uma referência internacional
de preços que é a Bolsa de Chicago

Capítulo IX • Cadeias Agroindustriais 17


e o seu comércio é feito quase que soja, como no milho, há o mercado mente integrado, praticamente não
exclusivamente pela iniciativa pri- de balcão e o mercado de lotes, com há disputa entre indústrias na reu-
vada, com o predomínio das vendas significativa diferença de preços en- nião da produção. Outra diferença
ao exterior realizadas por poucas tre eles. importante é que a indústria avícola
“trandings” internacionais, como a financia quase integralmente a pro-
Bünge, ADM, Cargil, Dreyfus, en- No Brasil a venda do leite é re- dução primária, via fornecimento
tre outras. Já o comércio do milho é alizada em um mercado próximo a de insumos, pintainhos, assistência
bastante pulverizado, mas no Brasil concorrência perfeita, com grande técnica, entre outros e também de-
o principal destino (utilização) des- disputa pelos laticínios na captação termina o volume a ser produzido.
te produto é a alimentação animal da produção. Também é significati- Neste setor, o acerto de contas entre
(principalmente por frangos e suí- va a diferença de qualidade da pro- indústria e produtores é pouco trans-
nos). No país, o mercado de milho dução primária entre os produtores. parente no tempo, mas há rígido
é regional, em sua maior parte, du- Mas é o volume de produção entre- controle da qualidade da produção
rante a época da safra, pois é caro o gue ao laticínio que é o principal fa- e este fator influencia o preço final
seu transporte entre regiões. Mas há tor de discriminação de preços entre recebido pelos avicultores a cada
regiões exportadoras (ex.: Paraná e os produtores de leite. Na captação fechamento de lotes. Os principais
Goiás) que praticam preços menores da matéria-prima leite há indústrias parâmetros que medem a eficiência
e regiões importadoras (ex.: São Pau- de diferentes portes e que produ- produtiva dos lotes de frango são:
lo e Santa Catarina) onde os preços zem diferentes derivados lácteos, taxa de mortalidade, de conversão
são mais altos. No mercado brasilei- de maior ou menor valor agregado, alimentar e ganho de peso diário.
ro de milho é comum haver interfe- muitos com preços instáveis no tem-
rências do governo, ora voltadas ao po e que afetam o poder de compra Na venda da produção, os pro-
apoio da produção, ora voltadas à do setor industrial. No caso do fran- dutores brasileiros de soja tem mais
garantia de abastecimento. Tanto na go, pelo sistema de produção geral- alternativas de comercialização que

18 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


os produtores de milho. A produção O pagamento do leite pela in- Anotações

de soja pode ser vendida, facilmente, dústria é normalmente mensal, refe-


de forma antecipada com ou sem ga- rente a produção recebida de cada
rantias de CPRs (cédulas de produto produtor no mês anterior. Em geral,
rural com aval bancário), ou comer- o preço do leite é definido unilate-
cializada logo após ou bem depois ralmente pela indústria, de acordo
da colheita. É comum no mercado com o resultado da venda de seus
de soja, especialmente no centro- derivados, o que pode resultar, pelo
oeste do país, que as vendas anteci- menos no curto prazo, em remune-
padas de soja estejam vinculadas à rações para o leite diferentes entre
compra de insumos (especialmente indústrias de uma região, além de
fertilizantes e defensivos) diretamen- preços diferentes pagos aos produto-
te da indústria ou por intermédio res conforme o volume e qualidade
de atacadistas. No caso do milho a do leite.
venda pelos produtores geralmente
é feita após a colheita, pois as la- PROCESSAMENTO
vouras tendem a ser financiadas via E DISTRIBUIÇÃO
crédito rural. No mercado de milho
é comum a entrega da produção a No setor industrial é grande a
fábricas de rações e a troca de milho diversidade de produtos gerados a
por ração, ou mesmo, o uso próprio partir do milho. O milho é um pro-
do milho nas propriedades rurais. duto versátil e base para mais de

Capítulo IX • Cadeias Agroindustriais 19


600 produtos na indústria alimen- tros 27,2% são comercializados pelos ampla gama de produtos. Este segun-
tícia, química, de bebidas, entre produtores através de cooperativas, do processamento do milho conso-
outras. No segmento consumidor 5,92% através de cerealistas e cerca me um volume de aproximadamente
de milho destacam-se três tipos de de 26,0% diretamente dos produtores 6,2% da oferta interna. Outros 2,3%
demanda: a alimentação animal, a à indústria. As indústrias de rações (em equivalente milho) chegam ao
indústria de moagem a seco e a in- (considerando a parcela que as inte- varejo para consumo humano, qua-
dústria de moagem úmida. A figura gradoras compram no mercado) ab- se sempre na forma de produtos pro-
9.2 apresenta estimativas sobre as sorvem 28,7% da oferta interna total. cessados.
percentagens da oferta total de mi- O conjunto das demais indústrias que
lho no Brasil (produção mais impor- utilizam milho “in natura” (indústria
tação) transacionada nos principais moageira) absorve cerca de 8,5% da
canais de comercialização na safra oferta interna. Este grupo gera uma
07/08. Do total da oferta (incluin- grande variedade de produtos a partir
do estoque inicial), cerca de 99,5% do milho, dos quais alguns são insu-
foram produzidos internamente e mos para outras empresas enquanto
0,5% importados. Do total de mi- outros são produtos para consumo fi-
lho disponível no mercado interno nal. A exportação de milho em grãos
cerca de um terço são consumidos naquela safra foi equivalente a 17,6%
pelos próprios produtores rurais em da oferta interna.
nível de fazenda (autoconsumo),
incluindo-se neste montante as re- Parte da industrialização de mi-
lações entre produtores de suínos e lho gera insumos industriais que vão
aves em sistema de integração. Ou- para outras indústrias compor uma
Cleverson Beje

20 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


Figura 9.2 – Estimativa dos canais de comercialização
do milho no Brasil, safra 07/08. Anotações
Estoque inicial Autoconsumo PRODUTOR Importação
10,07% (6,60) 30% (19,67) 89,17% (58,46) 0,76% (0,5)

Produção da safra comercializada pelo produtor 59,17% (38,79)


26,03%
(17,84)
Cooperativas Cerealistas
27,22% (17,84) 5,92% (3,88)

Mercado de lotes 70,0% (45,89)

Estoque final Sem/Perdas Indústrias de Ração Indústrias moageiras Exportação


14,50% (9,50) 0,69% (0,45) 28,73% (18,83) 8,47% (5,55) 17,62% (11,55)

Derivados de milho 8,47% (5,55)

Outras Indústrias Atacado


6,18% (4,05) 2,29% (1,50)

Mercado de Varejo (derivados) 2,29% (1,50)

Supermercado Hotéis, Bares e Restaurantes Outros Estabelecimentos


1,08% (0,71) 0,59% (0,39) 0,62% (0,40)

Fonte: Dados básicos CONAB, ABIMILHO, SINDIRAÇÕES. Cálculos dos autores.

A soja chega ao consumidor final através dos subprodutos, tanto na


forma de carnes quanto de óleo refinado, margarina e outros produtos que
utilizam algum derivado do grão na sua composição.

Capítulo IX • Cadeias Agroindustriais 21


A figura 9.3 evidencia a impor- farelo tostado, equivalente a 76,5% normalmente possuem produção di-
tância das exportações para a soja da soja em grão, do qual 52,7% se versificada: frangos inteiros (resfria-
brasileira, tanto em termos de grão destinam à exportação e o restante dos ou congelados), os cortes, pro-
quanto de derivados. Os percentu- é consumido internamente. A mis- dutos embutidos, defumados, pratos
ais se referem à safra 07/08, na qual, cela dá origem ao óleo bruto pela prontos ou semi-prontos, além dos
além da produção nacional, foram extração com solvente e, deste, se subprodutos não comestíveis. Estes
importados 0,1% de soja em grão. obtém o óleo degomado, separan- últimos se destinam a fábricas de ra-
A maior parcela do grão disponível do-se a lecitina. Do óleo degomado ções e os anteriores se destinam ao
foi para esmagamento nas indústrias disponível, 65,7% é consumido in- sistema de distribuição e varejo, no
nacionais (50,9%), 40,5% para a ternamente e o restante é exporta- Brasil e exterior.
exportação de grão, 4,2% para se- do. Em equivalente-grão, cerca de
mentes e perdas e 4,4% para o esto- dois terços da produção brasileira é Da produção brasileira de carne
que final (ou de passagem) da safra exportada. de frango em 2006, cerca de 70,9%
07/08. foram consumidas internamente e
Para chegar ao consumidor fi- cerca de 29,1% foram exportadas,
A indústria da soja não tem flexi- nal a carne de frango (“in natura” conforme pode ser visualizado na
bilidade de produção de derivados. ou processada), e seus derivados figura 9.4. Neste ano, do volume
Após o esmagamento do grão, 78% comestíveis e não comestíveis, pas- exportado, 60% foram na forma de
do volume de soja se transforma em sam por uma série de etapas que frangos em partes, 35% na forma de
farelo úmido e 22% em miscela. Do podem envolver um ou mais pro- frangos inteiros e 5% na forma de
farelo úmido se extrai uma pequena cessos de industrialização. No Bra- frango industrializado.
quantidade de borra obtendo-se o sil, as unidades de abate de frangos

22 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


Figura 9.3 – Disponibilidade e uso da soja e derivados, Brasil, safra 2007/2008.
Anotações
Estoque inicial Produção brasileira Importação grãos
10,07 (6,60 %) 59,84 (94,1%) 0,10 (0,1%)

Perdas e sementes Esmagamento Exportações Estoque final


2,7 (4,2 %) 32,35 (50,9%) 25,75 (40,5%) 2,82 (4,4%)

Farelo comido Miscela Solvente


25,39 (78,5%) 7,17 (22,0%) 0,32 (1,0%)

Borra 0,48 (1,5%)

Farelo tostado Exportações óleo bruto


24,91 (77,0%) 13,20 (52,7%) 6,79 (21,0%)

Mercado interno óleo degomado Lecitina


11,80 (47,1%) 6,15 (19,0%) 0,65 (2,0%)

Importações de farelo óleo refinado


e variações do estoque 5,82 (18,0%)
0,05 (0,2%)

Exportações Mercado interno


2,12 (34,0%) 4,10 (65,7%)

Importações de óleo
variações do estoque
0,02 (0,3%)

Fonte: Dados básicos Abiove <[Link]> e CONAB (2008); cálculo dos autores.

Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF, 1996) do IBGE o


principal local de compra de carne de frango pelos brasileiros para consu-
mo no domicílio (39,1% do total) é o supermercado. Na segunda posição

Capítulo IX • Cadeias Agroindustriais 23


estão os açougues e casas de carne, com 37%. Nestes dois tipos de estabelecimentos se concentram 78% das com-
pras da população para o consumo no domicílio. Os armazéns aparecem em terceiro na pesquisa do IBGE (13%),
seguido de mercados e sacolões com cerca de 7%.

Segundo dados da POF de 2003, do valor médio nacional de despesas mensais para alimentação no domicílio,
as compras de carne de frango representaram 5,8%, enquanto as despesas com os demais tipos de carnes, vísce-
ras e pescados representaram outros 13,6%, sendo os 80,6% restantes os demais gastos com outros produtos para
alimentação no domicílio.

Figura 9.4 – Canais de comercialização da carne de frango no Brasil em 2006.

PRODUTOR RURAL

PRODUÇÃO INTEGRADA (90%) PRODUÇÃO INDEPENDENTE (10%)

FRIGORÍFICO (ABATE)

SUBPRODUTOS INDÚSTRIA DE RAÇÃO E


NÍVEL COMESTÍVEIS OUTRAS INDÚSTRIAS

FRANGO
EM PARTES (60%)

MERCADO INTERNO (70,9%) MERCADO EXTERNO (29,1%) FRANGO


INTEIRO (35%)

FRANGO
INDUSTRIALIZADO (5%)

BARES E AÇOUGUES/CASAS MERCADOS


ARMAZÉNS SUPERMERCADOS FEIRAS
RESTAURANTES DE CARNE E SACOLÕES

Fonte: Dados básicos MDIC <[Link]>; cálculo dos autores.

24 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


O setor industrial do leite é com- 1992 para mais de 70% a partir de Anotações

posto por um grande conjunto de 2001. A preferência do consumidor


empresas incluindo desde multina- brasileiro pelo leite UHT em relação
cionais de grande porte, quanto cen- ao pasteurizado provocou impor-
trais de cooperativas, cooperativas tantes mudanças estruturais no mer-
singulares, grupos nacionais de mé- cado lácteo, tais como: (a) redução
dio e pequeno porte e até mini-usi- das perdas em nível do consumidor;
nas. No varejo o supermercado tem (b) ampliação da área geográfica de
importante destaque como local nas atuação das empresas; (c) maiores
aquisições de lácteos e derivados por incentivos à produção de leite em
parte dos consumidores, especial- regiões mais distantes dos grandes
mente pelo grande crescimento do centros consumidores; (d) redução
consumo de leite longa-vida (UHT) dos preços do leite UHT ao consu-
verificado no país, a partir dos anos midor final, pela maior concorrência
90. No Brasil, o local preferido pelos e pressão dos supermercados; (e) re-
consumidores para a compra de leite dução da margem de comercializa-
e seus derivados é o supermercado, ção da indústria, e (f) maior pressão
que respondiam em 1996 por apro- negativa sobre os preços da matéria-
ximadamente 50% do total das com- prima ao produtor, de forma a man-
pras (em equivalente leite) para con- ter os preços do UHT ao consumidor
sumo no domicílio. A participação final em níveis próximos ao do leite
do leite longa-vida (UHT) no total pasteurizado, vendido em embala-
de leite fluido consumido no Brasil gens plásticas de menor custo.
saltou de aproximadamente 10% em

Capítulo IX • Cadeias Agroindustriais 25


A figura 9.5 apresenta o fluxo de Figura 9.5 – Fluxo da comercialização Oferta, demanda e
do leite e derivados.
comercialização do leite e derivados formação de preços
no Brasil. As linhas contínuas repre- PRODUTOR

sentam os canais de comercializa- Na elaboração de projetos agro-


ção dos produtos mais comumente COOPERATIVA pecuários é preciso estimar preços,
observados no mercado brasileiro; para responder fundamentalmente a
as linhas tracejadas representam seguinte questão: Por quanto é possí-
INDÚSTRIA
canais alternativos, menos comuns. vel vender? Essa estimativa não é tare-
Normalmente os produtores ven- fa fácil, pois nos mercados agrícolas
REPRESENTANTE
dem a matéria-prima (leite) à indús- é grande a variabilidade dos preços,
tria (cooperativa ou não) e esta ao uma vez que as curvas de oferta e de-
representante ou distribuidor, que DISTRIBUIDOR manda são inelásticas, ou seja, peque-
revende os derivados aos varejistas nas variações na quantidade ofertada
e estes aos consumidores. É comum, VAREJISTA ou demandada provocam variações
também, que a indústria tenha seu proporcionalmente maiores nos pre-
próprio sistema de distribuição, ao ços de mercado. Além disso, fatores
CONSUMIDOR
menos para o mercado local ou re- aleatórios como o clima, que afetam
gional. O mesmo pode ser dito do Canais mais comuns a produção em termos de qualidade e
Canais alternativos
produtor, que pode vender seus pro- quantidade, são comuns no setor ru-
dutos diretamente ao consumidor. Fonte: Barros et. al., 2002. ral, resultando em constantes choques
de oferta e, portanto, em variabilidade
de preços.

26 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


Para cada mercado agropecuário preços e vice-versa. Por outro lado, Anotações

é fundamental o conhecimento do deslocamentos da demanda para a


processo de formação de preço, que esquerda causada, por exemplo, por
é o resultado do equilíbrio da oferta e redução no preço de produtos subs-
demanda ao longo do tempo. Assim, titutos ou devido a diminuição de
a identificação e o monitoramento renda dos consumidores reduzem
das variáveis que afetam os merca- os preços e vice-versa. O estudo de
dos agropecuários (oferta e demanda) um mercado pela estática compara-
são cruciais para a compreensão do tiva pode fornecer informações rele-
preço, tanto de seu comportamento vantes sobre a provável direção dos
passado e presente, como para a infe- acontecimentos.
rência sobre o seu provável compor-
tamento futuro. Figura 9.6 – Ilustração teórica de
deslocamentos nas
curvas de oferta e demanda
A figura 9.6 ilustra deslocamen-
P
tos nas curvas de oferta e demanda
de um produto hipotético e mostra
que esses deslocamentos alteram
Pe t0
o preço de equilíbrio de merca-
Pe t1
do. Deslocamentos da oferta para
a esquerda causada, por exemplo,
por redução da produção devido a
problemas climáticos aumentam os Qe t1 Qe t0 Q

Capítulo IX • Cadeias Agroindustriais 27


MERCADO DE MILHO na entre setembro a dezembro. Já a nal. A produção de “milho safrinha”
colheita se estende, principalmente, ocorre entre o Paraná e a Bahia. Os
Oferta e demanda de milho de fevereiro a junho no Brasil e de principais estados produtores (Para-
março a junho na Argentina. Nos Es- ná, Mato Grosso, Mato Grosso do
A produção de milho no Brasil tados Unidos o plantio do milho se Sul e Goiás) são estados importantes
se dá em duas safras. A maior delas concentra em abril e maio e a co- na produção de soja e detêm condi-
é plantada no outono e colhida entre lheita nos meses de setembro a no- ções climáticas que permitem o cul-
o verão e a primavera e pode ser de- vembro. tivo de milho após a safra de verão.
nominada de 1ª safra, safra de verão
ou safra normal. A segunda safra ou O milho no verão é uma das Os dados sobre o consumo de
safrinha é bem menor que a safra de poucas culturas presente em todo o milho no Brasil são imprecisos, prin-
verão, mas vem ganhando importân- território nacional. A safra de verão cipalmente pelo significativo volume
cia na última década. O desenvol- se concentra na região sul, seguida de milho destinado ao autoconsumo
vimento genético das variedades de pelas regiões sudeste e centro-oeste. observado nas propriedades rurais.
milho (sobretudo os híbridos), tem A produção no nordeste é bastante Da oferta total, estima-se que a maior
favorecido seu plantio em diferen- instável em função do clima, muitas parte se destina a avicultura, segui-
tes latitudes e épocas do ano. Por vezes adverso. No Brasil, os princi- da da suinocultura, consumo indus-
ser uma planta típica de verão, seu pais estados produtores de milho na trial e bovinocultura. No Brasil há
cultivo predominante ocorre no se- safra de verão são pela ordem: Pa- milhares de granjas de aves e suínos
gundo semestre no hemisfério sul e raná, Minas Gerais, Rio Grande do espalhadas pelo país, que tornam o
no primeiro semestre no hemisfério Sul, Santa Catarina e São Paulo. Em mercado de milho bastante pulveri-
norte. No Brasil, o plantio de milho conjunto, esses Estados respondem zado com muitas negociações regio-
(1ª safra) se concentra nos meses de por mais de 80% da produção nacio- nais e entre vizinhos. A participação
setembro a novembro e na Argenti- das cooperativas no recebimento

28 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


de milho é muito menor do que na exemplo, pressionam a demanda Anotações

soja e no trigo, especialmente pela por milho, elevando seu preço no


menor presença que as cooperativas mercado interno.
têm fora da região sul. Outras razões
são: o elevado autoconsumo, as tro- O milho destinado à industriali-
cas com as integradoras, o comércio zação tem dois processos alternati-
local diretamente com granjeiros e o vos: moagem via úmida e moagem
armazenamento na propriedade. via seca. No processo a úmido o
milho é macerado, separado em
Pela importância do milho na germe, fibras e endosperma, o qual
produção de carnes de frango e su- é separado em amido e glúten. Os
ínos há uma alta correlação entre principais produtos da via úmida
estes mercados no Brasil. Como o são os amidos alimentícios, amidos
milho é o principal componente industriais, dextrinas, xaropes de
energético das rações (o farelo de glucose e de maltose, entre outros.
soja é o principal componente pro- Os amidos têm ampla utilização na
téico), seu preço tem impacto direto indústria de alimentos (doces, sucos,
na rentabilidade dos produtores de molhos, bebidas, produtos de panifi-
frangos e suínos. A alta dos preços cação e embutidos etc.), e em outras
do grão costuma motivar pressões indústrias como têxtil, papel, produ-
junto ao governo para que interve- tos de limpeza, plásticos, tintas, entre
nha no mercado para reduzir o pre- outras. Os xaropes são utilizados na
ço do milho. Por outro lado, aumen- fabricação de sorvetes, geléias, go-
tos nas exportações de carnes, por mas de mascar, licores, cosméticos,

Capítulo IX • Cadeias Agroindustriais 29


produtos medicinais, graxas, resinas do atuam centenas de empresas no Os cinco principais países impor-
etc. No Brasil há poucas empresas país, com destaque para algumas tadores de milho são: Japão, Coréia
que trabalham com o processamen- empresas de maior porte. Tanto no do Sul, México, Egito e Taiwan. Nos
to do milho via úmida, pois se trata mercado de snacks (salgadinhos) e últimos anos, esses países responde-
de um mercado concentrado e com no mercado de cereais matinais há ram em conjunto por quase metade
fortes barreiras a entradas de novas dois tipos de empresas: aquelas de das importações mundiais. O Japão,
firmas, especialmente pelo domínio atuação regional e as líderes de mer- principal importador de milho, res-
da tecnologia. cado com atuação nacional. ponde por quase 20% das impor-
tações mundiais. Em segundo lugar
No processo a seco, o milho, O comércio mundial de milho aparece a Coréia do Sul, que importa
após limpeza e secagem, é desger- movimenta anualmente algo entre cerca de 10% do total mundial.
minado e separado em endosperma 85 a 100 milhões de toneladas. Os
e germe. O endosperma é moído e Estados Unidos são dos é o principal Formação de preços do milho
classificado para a obtenção de pro- exportador mundial de milho com
dutos finais, e o germe passa por pro- mais da metade do total. Argentina Os preços do milho em dólar no
cesso de extração para produção de e Brasil normalmente ocupam, res- Brasil e na Bolsa de Chicago (CBOT)
óleo e farelo. Na moagem via seca pectivamente, a segunda e terceira possuem correlação positiva, ou
há três grupos de indústrias: moagei- posição no ranking dos países ex- seja, é provável que eles apresentem
ra, snacks e cereais matinais. Na in- portadores. E nos últimos anos, Ar- movimentos semelhantes de direção
dústria moageira se produz canjica, gentina e Brasil têm aumentado sua ou tendência (pelo menos no médio
óleo de milho, sêmola, creme, fubá, participação no comércio mundial, prazo). Assim, se os preços sobem
polenta, floculados, pré-cozidos, fa- pela maior destinação de milho nor- em Chicago devem subir no Brasil
rinhas, e vários outros produtos para te-americano para o seu mercado in- e vice-versa. Nos momentos em que
alimentação humana. Nesse merca- terno (fabricação de etanol). os preços no Brasil são menores do

30 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


que na CBOT há possibilidade de exportação. Por outro lado, quando os Anotações

preços internos estão acima do externo há possibilidade de importação. As


diferenças de preços que viabilizam o comércio entre duas regiões podem
ser estimadas por um modelo de “cálculo do preço de paridade”.

Figura 9.7 – Modelo teórico de preços de paridade de importação e exportação e


de equilíbrio no mercado interno para uma dada região.
Preço

o
pIMP

P*

PEXP

D
0
Q* Quantidade
Onde:
PIMP = Preço de paridade de importação.
PEXP = Preço de paridade de exportação.
P* = Preço de equilíbrio no mercado interno.

Capítulo IX • Cadeias Agroindustriais 31


A figura 9.7 mostra o equilíbrio viabilizam-se as importações. Ocorrendo as importações o maior preço do
teórico de mercado para um produ- mercado será dado pelo preço de paridade de importação. Num ano de
to em determinada região (ou país). grande produção, a oferta desloca para a direita. Dependendo do grau de
Observe que quando o preço de deslocamento (o quanto aumentou a safra) o novo equilíbrio interno po-
equilíbrio no mercado interno supe- deria ficar abaixo do preço de paridade de exportação (PEXP) o que passa a
ra o preço de paridade de exportação viabilizar as exportações. Neste caso o menor preço do mercado será dado
(PEXP) e é inferior ao preço de parida- pela paridade de exportação. Assim, considerando uma determinada região
de de importação (PIMP) essa determi- (representada no gráfico), em geral não haverá exportação nem importação
nada região ou país não vai importar para esta região sempre que as condições de oferta e demanda regional
nem exportar. Se em alguns momen- determinarem preços de equilíbrio entre as duas paridades.
tos o preço interno estiver acima do Tabela 9.1 – Cálculo do preço de paridade do milho para exportação
pelo porto de Paranaguá, em valores hipotéticos
preço de paridade de importação
(PIMP) viabilizam-se as importações e CÁLCULO DO PREÇO DE PARIDADE PARANAGUÁ
a maior oferta de produto importado 1. PREÇO FOB (US$/t) (*) 232,00
tende a trazer os preços para dentro 2. Despesas exportação (US$/t) (soma 2.1 e 2.2) 12,00
do intervalo {(PEXP)(PIMP)}. Isto pode 2.1. Despesas portuárias 6,00
2.2. Despachante, carta de crédito e outros 6,00
ocorrer, por exemplo, em um ano
3. Valor posto Porto de Paranaguá (1 - 2) (US$/t) 220,00
de quebra de safra, quando a curva
4. Taxa de Câmbio (R$/US$) 2,00
de oferta indicada no gráfico se des- 5. Valor no Porto (R$/t) 440,00
loca para a esquerda. Dependendo 6. Simulação Cascavel
do grau de deslocamento (o quanto 6.1 Frete Cascavel para Paranaguá (ferroviário) (R$/t) 40,00

reduziu a safra), se o novo preço de 6.2 Preço de paridade posto Cascavel (R$/t) (5 - 6.1) 400,00
6.3 Preço de paridade posto Cascavel (R$/saca) 24,00
equilíbrio interno ficar acima do pre-
6.4 Preço no mercado de lotes em Cascavel (R$/saca) 23,00
ço de paridade de importação (PIMP) 6.5 Paridade de exportação Cascavel (6.3 – 6.4) 1,00

32 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


Os dados da tabela 9.1 exempli- havendo venda de milho do Paraná Anotações

ficam o cálculo do preço de paridade para Santa Catarina.


de exportação do milho pelo Porto
de Paranaguá – PR a partir da região MERCADO DE SOJA
de Cascavel – PR, que é tradicional
exportadora de milho. Os resulta- Oferta e demanda de soja
dos da tabela (hipotéticos) indicam
que o preço no mercado de lotes em A produção mundial de soja é
Cascavel (R$ 23,00/saca) era inferior concentrada em poucos países, tanto
à paridade de exportação (R$ 24,00/ no hemisfério norte (Estados Unidos
saca), viabilizando a exportação do e China) como no sul (Brasil e Argen-
produto. tina), mas vem registrando significa-
tivo crescimento nas últimas décadas
O cálculo dos preços de paridade em linha com o crescimento da de-
sempre associa apenas duas regiões, manda mundial pelos seus principais
uma exportadora e outra importado- derivados (farelo e óleo). Os maiores
ra. Isto significa que pode, em um produtores mundiais de soja em grão
dado momento, não estar ocorrendo são pela ordem: Estados Unidos, Bra-
comércio entre duas regiões ou paí- sil, Argentina e China. Em conjunto
ses e estar ocorrendo comércio entre esses países respondem por aproxi-
duas outras regiões ou países. Ou madamente 90% da produção mun-
seja, em um dado momento pode dial, que se situa acima de 200 mi-
estar havendo venda de milho de lhões de toneladas por ano.
Goiás para São Paulo, mas não estar

Capítulo IX • Cadeias Agroindustriais 33


Nos Estados Unidos a produção colheita se concentra nos meses de soja tem crescido substancialmente
de soja se concentra na chamada re- março e abril (Brasil) e abril e maio nas últimas décadas, especialmente
gião meio-oeste, especialmente nos (Argentina). Nesses países, quanto na China, México e Argentina.
Estados de Iowa e Illinois. No Brasil mais se caminha em direção ao sul,
a produção de soja se concentra na mais tardio é o plantio e a colheita. As estatísticas sobre o consumo
região centro-sul, mas está presente Assim, no Estado do Mato Grosso, total de soja em grão englobam: o seu
em quase todas as unidades da fe- por exemplo, se colhe e planta soja uso (processamento) industrial que é
deração. Os Estados do Mato Grosso quase 90 dias antes do que na pro- o principal destino do grão (cerca de
e Paraná são os maiores produtores víncia de Buenos Aires. Na China 86% do total em nível mundial), o uso
nacionais. Na Argentina a produção o plantio da soja se concentra em para sementes (7%) e o uso para ali-
de soja se concentra nas províncias abril e maio e nos Estados Unidos mentação humana (7%). O consumo
de Buenos Aires, Santa Fé e Córdo- em maio e junho. Nesses países a de soja para alimentação é mais signi-
ba. Na China a produção de soja colheita se concentra nos meses de ficativo nos países da Ásia, atingindo
se concentra na região nordeste do setembro e outubro. Na maioria dos cerca de 20% do consumo total no
país. A província de Heilongjiang é países, o plantio do milho (safra ve- Japão, 25% na Coréia e China. Já no
a principal produtora nacional. rão) antecede em algumas semanas Brasil, Argentina e Estados Unidos o
o plantio da soja. consumo de soja em grão na alimen-
Por ser uma planta de verão, a tação humana é inexpressivo (me-
soja é plantada no segundo semestre Os principais países consumi- nos de 0,01% do consumo total). Na
no hemisfério sul e no primeiro se- dores de soja em grão (para pro- União Européia não chega a 0,1%.
mestre no hemisfério norte. No Bra- cessamento industrial) são pela or-
sil, o plantio se concentra nos meses dem: Estados Unidos, China, Brasil, Na última década, o consu-
de outubro e novembro e na Argen- Argentina e União Européia. Assim mo doméstico de soja em grão
tina em novembro e dezembro. Já a como a produção, o consumo de para esmagamento/processamento

34 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


industrial tem crescido mais na Ar- as importações de farelo de soja são Anotações

gentina e na China, em função da bastante pulverizadas entre os demais


ampliação de seu parque industrial países do mundo. O segundo e tercei-
e de incentivos ao processamento ro maiores importadores são a Indo-
interno. Já no Brasil o crescimen- nésia e Tailândia com participações
to do processamento industrial tem inferiores a 5,0% no total mundial.
sido menor, devido à ampliação das
exportações de soja em grão. Os O consumo de óleo de soja é re-
quatro principais países/regiões im- lativamente alto nos principais países
portadores de soja em grão são pela produtores (exceção para a Argentina
ordem: China, União Européia, Ja- que exporta quase a totalidade de sua
pão e México. produção) em relação aos não produ-
tores. Mais de dois terços do consumo
No caso do farelo de soja, os mundial de óleo de soja ocorrem nos
Estados Unidos, União Européia e Estados Unidos, China, Brasil, União
China respondem, em conjunto, por Européia e Índia. Os dois principais
quase dois terços do consumo mun- países/regiões exportadores de óleo
dial. Os quatro principais países/ de soja (Argentina e Brasil) respon-
regiões exportadores de farelo soja dem por mais de três quartos do total
são pela ordem: Argentina, Brasil, Es- mundial. A China, a União Européia,
tados Unidos e Índia. A União Euro- a Índia e o Irã são os 4 principais pa-
péia é a principal região importadora íses importadores de óleo de soja e,
de farelo de soja em nível mundial. À em conjunto, respondem por mais da
exceção da União Européia (UE-25), metade do total mundial.

Capítulo IX • Cadeias Agroindustriais 35


No Brasil a cultura da soja tem 1 na Bahia (Extremo Oeste Baiano). quando os Estados Unidos ampliam
o maior valor bruto da produção suas vendas ao exterior.
agropecuária. Pela sua exigência de Para o setor industrial o ano sa-
fertilidade e mecanização a cultura fra da soja no Brasil inicia-se em 01/ As vendas de farelo e óleo de
da soja localiza-se principalmente fevereiro e encerra-se em 31/janeiro. soja ao exterior apresentam um pa-
em regiões com solos de médio ou Normalmente o ritmo de esmaga- drão sazonal menos pronunciado ao
alto teor de argila e relevo plano mento de soja cresce entre fevereiro longo do ano (relativamente ao grão).
ou suave ondulado. Desta forma, a e maio (maior média mensal) e cai de Para estes produtos se percebe gran-
distribuição espacial da cultura da junho a janeiro (menor média men- des variações no volume embarcado
soja não é uniforme, nos principais sal), mas há variações de ano para de um mês para outro, o que pode
estados produtores. Nas últimas sa- ano. Já os embarques do grão brasi- estar relacionado ao fechamento de
fras, das 10 principais mesorregiões leiro para o exterior normalmente se contratos com determinados países
produtoras 3 localizam-se no Mato concentram entre os meses de março importadores. Para o óleo e o farelo
Grosso (Norte Mato-grossense, Su- a outubro. A intensificação dos em- de soja, os maiores volumes mensais
deste Mato-grossense e Nordeste barques de soja em grão a partir de de embarque normalmente ocorrem
Mato-grossense); 3 no Paraná (Oeste março ocorre pela chegada aos por- entre maio e agosto, mas há maior
Paranaense, Norte Central Parana- tos da soja colhida em fevereiro nos variabilidade do óleo frente ao farelo.
ense e Centro Ocidental Paranaen- estados do Mato Grosso e Paraná. Isto ocorre pelo modo predominante
se); 1 no Rio Grande do Sul (Noroes- Já o menor volume embarcado pelo de comercialização no mercado ex-
te Rio-Grandense); 1 em Goiás (Sul Brasil entre novembro e fevereiro terno dos dois produtos. No farelo de
Goianio); 1 no Mato Grosso do Sul deve-se ao deslocamento da deman- soja predominam contratos de ven-
(Sudoeste de Mato Grosso do Sul) e da mundial para o hemisfério norte, da ao exterior de longo prazo, onde

36 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


exportador e importador contratam produtoras paranaenses: Cascavel e Anotações

volumes totais para vários anos e um Ponta Grossa. O cálculo de parida-


fluxo (periodicidade) de entrega de de mostra o quanto vale a soja em
“x” toneladas por mês. Já no caso do um determinado dia ou momento
óleo as negociações predominantes em cada região levando em conta as
são de contratos para serem cumpri- principais variáveis deste processo
dos em um prazo mais curto (dentro que são: a cotação externa, o prêmio
de um ano, por exemplo), pois a de- e os custos em colocar a soja embar-
manda de óleo de soja no mercado cada no navio. O ponto de partida é
internacional pelos países importa- a cotação na CBOT à qual é adicio-
dores é mais irregular no tempo. nado um prêmio resultando no pre-
ço FOB, ou seja, a soja embarcada
Formação de preços da soja no navio e desembaraçada (com as
devidas documentações). Deste pre-
Os preços da soja no merca- ço são deduzidos os custos de em-
do brasileiro são formados a partir barcar esta soja, inclusive com taxas
das cotações na Bolsa de Chicago e comissões pagas. Ao se deduzir es-
(CBOT – Chicago Board of Trade), tas despesas do preço FOB se obtêm
principal bolsa de negociação do o valor da soja no porto de Parana-
complexo soja em todo o mundo. A guá. A partir deste preço é deduzido
tabela 9.2 ilustra o processo de for- o frete do grão até o porto. O frete
mação de preço da soja no Brasil to- é a ligação entre o preço no porto e
mando como exemplo duas regiões nas diversas regiões.

Capítulo IX • Cadeias Agroindustriais 37


Tabela 9.2 – Cálculo do preço de paridade da soja em grão para exportação
pelo porto de Paranaguá, em valores hipotéticos.
ridade calculados para cada região.
CÁLCULO DO PREÇO FOB PARANAGUÁ SOJA GRÃO Os preços, por sua vez, mudam a
1. COTAÇÃO CHICAGO (cents US$/bushel) 850,00 cada momento durante o horário de
2. Prêmio em Paranaguá -10,00
pregão na CBOT e de acordo com os
PREÇO FOB PARANAGUÁ (cents US$/bushel) (1+2) 840,00
prêmios que vão sendo negociados.
3. Preço FOB Paranaguá (US$/tonelada) (a) 308,64
4. Despesas de exportação 12,64 É comum que num mesmo dia vários
[Link] portuárias 6,00 preços diferentes sejam observados
4.2. Taxas, comissões, corretagem 6,64 nas negociações no porto, acom-
5. Valor posto Porto (3 - 4) - US$/t 296,00 panhando de perto as variações na
6. Taxa de câmbio (R$/US$) 2,00
CBOT, no prêmio e no câmbio.
7. Valor posto no porto de Paranaguá (R$/tonelada) 592,00
Dentre as “commodities” agrícolas a
8. Simulação Ponta Grossa
Frete Ponta Grossa - Paranaguá ferroviário 17,00 soja é uma das que apresenta maior
Preço Posto Ponta Grossa (R$/t) 575,00 volatilidade nos preços internos.
Preço Posto Ponta Grossa (R$/sc) 34,50
Preço no mercado de lotes em Ponta Grossa (R$/sc) 34,20 O valor do prêmio, que pode
9. Simulação Cascavel
ser positivo ou negativo, reflete as
Frete Cascavel - Paranaguá ferroviário 40,00
condições de oferta e a demanda do
Preço Posto Cascavel (R$/t) 535,00
Preço Posto Cascavel (R$/sc) 32,10 produto em um determinado local.
Preço no mercado de lotes em Cascavel (R$/sc) 32,00 O valor negociado do prêmio (po-
(a) 1 bushel de soja = 60 libras-peso = 27,216 kg sitivo ou negativo) é fixado sobre
o preço de um contrato de referên-
A cada momento os cálculos de paridade são feitos pelos agentes que cia na Bolsa de Chicago. Quando o
estão negociando a soja que os tomam como parâmetro de negociação. Há prêmio da soja em Paranaguá, por
uma tendência dos preços praticados serem bem próximos dos preços de pa- exemplo, sobre a Bolsa de Chicago

38 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


é positivo significa que compradores bilizada a exportação. O chamado Anotações

(importadores) e vendedores (expor- mercado de lotes representa as nego-


tadores) entendem que o preço da ciações de produto padronizado em
soja em Paranaguá (por questões de volumes maiores (lotes). O mercado
logística, oferta, demanda ou outra de balcão negocia o produto do agri-
razão) deve ter preço maior do que cultor que esteja depositado em um
aquele transacionado na Bolsa de armazém de empresa (cerealista ou
Chicago para uma determinada data. trading) ou cooperativa. A diferen-
O mesmo vale para farelo e óleo. Os ça de preços entre os mercados de
prêmios são publicados diariamente lote e de balcão em um dado local e
em jornais, onde aparecem os valo- momento representa o custo e o lu-
res para as oferta de compra (valores cro do intermediário que compra o
sugeridos pelos compradores) e para produto no mercado de balcão e o
as ofertas de venda (valores sugeri- vende no mercado de lotes. Dentre
dos pelos vendedores). os custos fixos e variáveis destacam-
se os de armazenagem da produção
Como a soja brasileira é um pro- e aqueles necessários para reunir o
duto de exportação seu valor no por- produto em grandes lotes. A política
to é quase sempre superior aquele de formação de preços de balcão di-
praticado no interior do país. A dife- fere entre empresas, especialmente
rença de preços porto-interior deve entre cooperativas. Há empresas que
representar, pelo menos, o custo mantém significativa diferença entre
de transporte do grão do interior ao os preços pelos quais vende a soja
porto exportador para que seja via- (lote) e o preço pelo qual paga o pro-

Capítulo IX • Cadeias Agroindustriais 39


dutor (balcão). Muitas vezes esta diferença supera o cus-
to da cooperativa para comercializar a produção e estes
valores acabam por compor as sobras do ano. Em outras
empresas a política de formação de preços é descontar um
valor fixo do preço de venda (lote) obtendo assim o preço
ao produtor (balcão). Os preços nos mercados de lote e
balcão não variam na mesma intensidade. Uma alta no
mercado de lotes pode demorar, em média, de 1 a 3 dias
para ser repassada ao mercado de balcão. É possível tam-
bém que esta variação seja assimétrica, ou seja, as altas
são repassadas de forma mais lenta e em menor intensida-
de para os preços de balcão enquanto as quedas de preço
chegam mais rápidas e intensas para os produtores.

MERCADO DE LEITE

Oferta e demanda de leite

O leite fluido é produzido e consumido em todos os


países do mundo, com um volume anual estimado em 500
milhões de toneladas. Desse total, o principal destino (cer-
ca de dois terços do total) é a industrialização para a fabri-
cação de derivados (inclusos o leite pasteurizado e UHT
Cleverson Beje

– leite longa vida). Em seguida vem o consumo humano

40 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


direto de leite cru ou in natura com O leite em pó, por sua vez, é o Anotações

cerca de um terço do total e, por fim, principal derivado do leite comer-


um pequeno consumo animal. cializado entre os países, sendo que
a Europa e a Oceania são as prin-
Os dados sobre consumo de leite cipais regiões exportadoras e a Ásia
e derivados normalmente se referem e África as principais regiões impor-
a quantidade em equivalente leite tadoras. Os cinco principais países
cru ou in natura. Por ser um produto ou regiões exportadoras de leite em
perecível e de baixo valor específico pó são: Nova Zelândia; União Eu-
(o que dificulta o comércio em fun- ropéia; Austrália; Estados Unidos e
ção do custo de transporte), o con- Argentina. Já os cinco principais im-
sumo total de leite in natura é maior portadores são: Argélia; China, In-
nos principais países produtores, donésia, Filipinas e México.
seja pelo consumo direto do produto
in natura, seja pela sua industriali- A produção brasileira de leite
zação para a fabricação de deriva- vem crescendo nas últimas décadas
dos. O consumo mundial de leite, e já supera 25 bilhões de litros por
por continentes, apresenta dados ano. O Estado de Minas Gerais é,
muito semelhantes aos da produção. com folga, o principal produtor na-
O continente europeu é o principal cional, enquanto Rio Grande do Sul,
produtor e consumidor de leite no Paraná, Goiás e São Paulo vem se al-
mundo, seguido pela América, Ásia, ternando no ranking como segundo
Oceania e África. ao quinto maior produtor.

Capítulo IX • Cadeias Agroindustriais 41


Segundo dados do IBGE (2007) tro-oeste, nordeste e norte. Segundo (c) maiores incentivos à produção de
as dez principais mesoregiões produ- a Pesquisa de Orçamento Familiar leite em regiões mais distantes dos
toras de leite no Brasil são: Noroeste (POF, 2003) o consumo médio per grandes centros consumidores; (d)
Rio-grandense – RS; Triângulo Minei- capita de leite e derivados no Brasil redução dos preços do leite UHT ao
ro/Alto Paranaíba – MG; Oeste Cata- dentro do domicílio era da ordem de consumidor final, pela maior concor-
rinense – SC; Sul Goiano – GO; Sul/ 57,7 quilos por ano, ou o equivalente rência e pressão dos supermercados;
Sudoeste de Minas – MG; Oeste Pa- 78,1 litros em equivalente leite fluí- (e) redução da margem de comercia-
ranaense – PR; Zona da Mata – MG; do. A partir dos anos 90 houve subs- lização da indústria, entre outras.
Centro Goiano – GO; Leste Rondo- tancial incremento na participação
niense – RO e Oeste de Minas – MG. do leite longa-vida (UHT) no total Formação de preços do leite
de leite fluido consumido no Brasil.
No Brasil é grande o comércio O leite UHT teve sua participação No Brasil os preços do leite nas
de leite e derivados entre as regiões. ampliada nas vendas de leite fluído diferentes bacias variam com razo-
Como estados exportadores líquidos de menos de 10% no início dos anos ável grau de coordenação (Barros
destacam-se pela ordem Minas Ge- 90 para mais de 70% a partir dos et al., 2002), indicando que varia-
rais, Goiás, Paraná, Rio Grande do anos 2000. Essa preferência do con- ções de preços em uma região são
Sul e Rondônia. E como estados im- sumidor brasileiro pelo leite UHT repassadas a outras regiões e que
portadores líquidos São Paulo, Rio de em relação ao pasteurizado provo- há uma relação de dependência de
Janeiro, Pernambuco, Ceará e Bahia. cou importantes mudanças estrutu- longo prazo entre os preços do leite
rais no mercado lácteo, tais como: ao produtor nas diversas regiões. Se-
O maior consumo per capita de (a) redução das perdas em nível do gundo os autores, o Estado de Minas
leite no Brasil ocorre na região sul, consumidor; (b) ampliação da área Gerais é a principal bacia formado-
seguida pelas regiões sudeste, cen- geográfica de atuação das empresas; ra de preços no país, com sentido

42 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


causal sobre os preços de todas as de preços ao produtor nas bacias lei- Anotações

demais regiões, ou seja, que as va- teiras indicam que as variações de


riações de preços ao produtor em preço em Minas Gerais são transmi-
Minas Gerais tendem a se transmitir tidas, em boa parte, simultaneamen-
para os preços nas demais regiões. A te (dentro de 1 mês) para os demais
importância do estado na produção estados, e são transmitidos na tota-
nacional – seu volume é pouco in- lidade em cerca de 2 a 3 meses. A
ferior à soma das produções do Rio coordenação de preços entre as regi-
Grande do Sul, São Paulo e Goiás – ões, no entanto, não significa preços
parece ser a principal razão desta in- absolutos iguais praticados pelas em-
fluência. Portanto, o preço ao produ- presas na captação da matéria-pri-
tor em um determinado estado está ma, que, aliás, variam consideravel-
fortemente ligado ao preço em outro mente conforme a disputa regional
estado. Esta ligação se tornou mais pela produção e o volume individu-
forte a partir dos anos 90, em função al entregue pelo produtor. Segundo
da grande quantidade de leite longa Barros et al. (2002), o volume é o
vida que é comercializado entre re- principal parâmetro de bonificação
giões. Antes desse período, quando utilizado pelas indústrias no país.
o mercado de leite fluído era do- Assim, o preço efetivamente pago
minado pelo leite pasteurizado (em aos produtores por parte das empre-
saquinhos) os mercados eram funda- sas difere de acordo com o produtor.
mentalmente locais. Cada laticínio tem um sistema pró-
prio de bonificações e descontos de
As elasticidades de transmissão forma que o seu preço médio final

Capítulo IX • Cadeias Agroindustriais 43


é resultado da sua política leiteira. ria-prima foi adquirida. mercialização dos derivados. Neste
Uma diretriz é comum entre as in- modelo o preço ao produtor é deno-
dústrias, especialmente as de médio Ao longo do ano, o padrão sazo- minado “valor de referência para a
e grande porte: não pode faltar leite nal dos preços do leite indica uma remuneração da matéria-prima leite”
para abastecer as fábricas. Portanto, valorização do produto entre os e é calculado a partir dos preços de
as empresas disputam os produtores meses de fevereiro a agosto e uma venda dos derivados das indústrias
entre si – especialmente aqueles que desvalorização entre setembro a ja- participantes do conselho paritário
se enquadram nos atributos procu- neiro, o mesmo ocorrendo com os produtores/indústrias de leite, tais
rados por elas (volume, qualidade e preços do leite UHT ao consumidor. como: leite pasteurizado, leite UHT,
preço). Cada responsável pela com- O estudo de Barros et al (2002) indi- leite cru resfriado, leite em pó, be-
pra de matéria-prima tem liberdade ca que os preços deste produto e da bida láctea, iogurte, creme de leite,
para pagar o que achar necessário matéria-prima ao produtor variam doce de leite, requeijão, manteiga,
para determinado produtor, e os praticamente na mesma forma e in- queijo prato, queijo mussarela, quei-
valores crescem de forma direta ou tensidade. jo parmesão e queijo provolone. Os
indireta de acordo com o interesse preços de referência divulgados pelo
da indústria em determinado forne- O modelo Conseleite, que já Conseleite, que variam de acordo
cedor. Um grande produtor vai rece- existe em alguns estados brasileiros, com o volume e qualidade do leite,
ber mais para viabilizar a “linha” em procura dar indicações (referência) pretendem representar um valor jus-
que se encontra, e é ele que possi- para o preço do leite ao produtor. to para a remuneração da matéria-
bilita a coleta do leite dos pequenos A proposta do modelo Conseleite é prima tanto para os produtores rurais
produtores que estão nessa linha de de que os preços da matéria-prima quanto para as indústrias.
leite. O aspecto mais importante é o (leite) ao produtor sejam formados
preço médio final pelo qual a maté- a partir dos preços médios de co-

44 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


MERCADO DE FRANGO mas três décadas. O Brasil é o tercei- Anotações

ro maior produtor de carne de frango


Oferta e demanda de frango do mundo com quase 10 milhões de
toneladas, atrás apenas dos Estados
A produção mundial de carne de Unidos e China que produziram em
aves supera 70 milhões de toneladas 2007, 16,0 e 10,5 milhões de tonela-
por ano, representando mais de um das, respectivamente. Em conjunto,
quarto da produção mundial de car- estes três países respondem por qua-
nes (bovina, suína, de aves, caprina, se 60% da produção mundial.
entre outras). O comércio de carne
de aves, de aproximadamente 11 Nos principais países a produção
milhões de toneladas por ano, repre- de frango tende a se localizar próxi-
senta quase um terço do comércio ma das regiões produtoras de grãos.
internacional de carnes. Com este É o caso dos Estados Unidos, por
desempenho a carne de aves é a se- exemplo, que concentra seu plantel
gunda em produção, a segunda na no sudeste do país, um pouco ao sul
relação comércio/produção e a ter- da maior região produtora de grãos,
ceira em termos de volume de co- conhecida como meio-oeste (corn
mércio exterior, mas muito próxima belt) americano.
das carnes bovina e suína.
Os países maiores consumido-
Surpreende o aumento da produ- res mundiais de carne de frango são
ção mundial de carne de frango que também os maiores produtores. O
cresceu cerca de 10 vezes nas últi- predomínio da criação de frangos

Capítulo IX • Cadeias Agroindustriais 45


em ambientes controlados (tempera- No Brasil a avicultura de corte go brasileira destaca-se a importân-
tura e umidade) favorece a explora- tem se mostrado uma atividade em cia tanto do mercado interno, como
ção desta atividade em países com expansão há várias décadas, a des- do mercado externo (exportação).
climas diferenciados, estimulando a peito das dificuldades nas relações Nas últimas décadas as vendas brasi-
produção em locais onde há maior entre integradoras e integrados. Os leiras de carne de frango ao exterior
demanda pelo produto. O custo das ganhos de produtividade tem sido têm crescido de forma quase ininter-
rações é outro aspecto importante na a razão principal desse desenvolvi- rupta, com o volume de vendas au-
maior ou menor produção nos paí- mento, que permite à atividade cres- mentando cerca de dez vezes desde
ses, pois este item representa mais da cer com preços decrescentes para o início dos anos 90. Por outro lado,
metade do desembolso dos aviculto- produtores e consumidores. o consumo per capita brasileiro de
res. Os maiores consumidores, pela carne de frango estimado em 34 qui-
ordem são: Estados Unidos, China, O rebanho brasileiro de aves los por ano é muito superior à média
União Européia, Brasil, México, Rús- (comercial e de subsistência) se dis- mundial, de 9 quilos per capita por
sia, Índia, Japão e Argentina. tribui por todos os Estados da fede- ano. No Brasil, quanto maior a renda
ração, mas se concentra nas regiões da população, pela POF 2003, maior
As exportações mundiais de car- sul e sudeste do país. Os 5 principais é o consumo de carne de frango, es-
ne de frango são extremamente con- Estados com maior efetivo de reba- pecialmente de alguns cortes como
centradas. Estados Unidos e Brasil, nho de aves são: Paraná, São Paulo, o peito de frango, a coxa de frango,
principais exportadores mundiais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e entre outros.
respondem por quase três quartos do Minas Gerais que, em conjunto, res-
total mundial. Nas importações mun- pondem por aproximadamente três Formação de preços do frango
diais de carne de frango, destaque quartos do efetivo nacional.
para Rússia e Japão, que adquirem No sistema integrado o produtor
mais de um terço do total mundial. Na demanda pela carne de fran- de frango garante a entrega da sua

46 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


produção à indústria e recebe dela in- lotes são: taxa de mortalidade, taxa Anotações

sumos necessários à produção, assis- de conversão alimentar e ganho de


tência técnica, entre outros. Na aqui- peso diário. O valor dos insumos ad-
sição dos insumos junto à integradora quiridos junto à empresa integradora
há situações de maior (obrigatorieda- é descontado do preço a ser pago ao
de contratual) e menor flexibilidade produtor por ocasião da entrega dos
para o produtor. O financiamento lotes. No acerto, o saldo financeiro
direto da indústria ao produtor para do lote visa remunerar o produtor
a construção e/ou modernização do pelo uso da mão-de-obra, energia
aviário é uma importante forma de (elétrica, lenha, gás etc.), instalações
apoio à produção de frango. Há vá- e equipamentos, entre outras. Em ge-
rias particularidades nos tipos de con- ral, não há muita transparência nos
tratos de integração entre a indústria valores cobrados pela indústria por
e os produtores de frango de corte, ocasião do acerto final de cada lote
mas o “pagamento por taxa de con- entregue pelos avicultores.
versão” é o mais comum. Nesta re-
lação produtor/indústria as decisões O índice sazonal de preços do
estratégicas e parte das operacionais frango indica que os menores pre-
pertencem ao integrador (indústria), ços do produto ocorrem entre junho
que remunera o produtor pela com- e agosto e os maiores entre novem-
binação de um valor específico por bro e dezembro. Os menores preços
frango e pela sua eficiência na pro- do frango coincidem com o período
dução. Os principais parâmetros que subseqüente a colheita da safra de
medem a eficiência produtiva dos verão do milho (principal compo-

Capítulo IX • Cadeias Agroindustriais 47


nente da ração), que reduz os custos vas de oferta e demanda de alguns produtos agropecuários. Os endereços
de produção e permite a prática de eletrônicos relacionados contêm informações sobre a oferta e demanda des-
menores preços nas transações entre tes produtos em importantes países e regiões produtoras e consumidoras.
produtores e indústria. Já os maiores
Tabela 9.3 – Relação de alguns sites que divulgam informações1 de mercado
preços coincidem com as festas de sobre os sistemas agroindustriais de milho, leite, frango e soja.
final de ano, quando há uma maior
Nacionais Internacionais
demanda pela carne de frango. Há,
[Link] [Link]
no entanto, normalmente uma pe-
[Link]/seab [Link]
quena variabilidade ao longo do [Link] [Link]/agency/oce/waob
ano, tendo em vista que a produção [Link] [Link]/nass
de frangos é relativamente contínua [Link] [Link]
dentro do ano e essa atividade é mui- [Link] [Link]
[Link] [Link]
to pouco afetada pelo clima.
[Link] [Link]
[Link]
[Link]
Sites de informação [Link]
[Link]
A tabela 9.3 relaciona os princi- [Link]
[Link]
pais endereços eletrônicos que divul-
[Link]/conseleite
gam, periodicamente, informações
[Link]/conseleite
necessárias para o monitoramento 1) Preços, produção, consumo, exportação, importação, embarques, estoques, crédito, plantio e co-
lheita, estimativas de safra e condições das lavouras, alojamento de pintos de corte e matrizes, entre
das variáveis deslocadoras das cur- outros.

48 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


Referências
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ra, Ganadería y Pesca. Séries his- Manual do Conseleite Santa Cata- do Abastecimento. Serviços. <http://
tóricas. <[Link] rina. Florianópolis: FAESC e SIN- [Link]/seab/[Link]> (vários
agricu/[Link]> DILEITE, 2007. acessos).

BARROS, G.S.A.C.; GALAN, V. B.; FAO. <[Link]> (vários acessos). SECRETARIA DE COMÉRCIO EXTE-
GUIMARÃES, V.D.A.; BACCHI, RIOR. Balança Comercial. <http://
M. R. P. Sistema agroindustrial do GUIMARÃES, V. D. A. Análise do ar- [Link]/indicadores/estatis-
leite no Brasil. Brasília: Embrapa, mazenamento de milho no Brasil [Link]> (vários acessos).
2002. 170 p. com um modelo dinâmico de expec-
tativas racionais. Piracicaba: ESALQ/ UNITED STATES DEPARTAMENT
BRASIL. Companhia Nacional do USP, 2001. (Tese de Doutorado). OF AGRICULTURE. Foreign Agri-
Abastecimento (CONAB). <http:// cultural Service <[Link]
[Link]> (vários acessos). MAFIOLETTI, R.L. Formação de pre- [Link]/> (vários acessos).
ços na cadeia agroindustrial da
CONSELEITE – PARANÁ. Metodo- soja na década de 90. Piracicaba, UNITED STATES DEPARTAMENT OF
logia para o cálculo de preços de 2000. 95p. Dissertação (Mestrado) [Link]-
referência para o leite no Para- – Escola Superior de Agricultura ral Statistics Service. <[Link]
ná. Curitiba: FAEP e SINDILEITE, “Luiz de Queiroz”, Universidade [Link]/nass/> (vários acessos).
2002. 109p. de São Paulo.

Capítulo IX • Cadeias Agroindustriais 49


Estratégias de
Comercialização
Vania Di Addario Guimarães

Introdução gestão estratégica e operacional da empresas, o baixo grau de relevân-


Os mercados de produtos agro- comercialização nessas empresas, o cia da gestão da comercialização na
pecuários funcionam de maneiras que envolve escolher como, quan- opinião dos produtores deve-se, en-
diferentes, dependendo das caracte- do e para quem vai vender e, uma tre outras razões, ao processo de in-
rísticas do produto e da composição vez tomada a decisão, todas as ati- tegração dessas empresas agropecu-
de sua cadeia produtiva, como discu- vidades de efetivá-la. A tabela 10.1 árias com a indústria, que transfere
tido no capítulo anterior. Da mesma apresenta os resultados da pesquisa a esta a responsabilidade da comer-
forma, os produtos têm alternativas do autor junto a centenas de pro- cialização da produção (que é feita
diferentes para sua comercialização priedades rurais brasileiras. As notas na forma de produtos processados),
pelos produtores rurais, uma vez que que indicam o grau de importância e que geram um determinado preço
os mercados são diferentes. Uma vi- da gestão da comercialização para para a matéria-prima entregue pelo
são mais organizada sobre este tema as diferentes empresas, variam de produtor rural. Nas outras duas em-
é apresentada por Canziani (2001)1, 1 (pouco relevante) a 5 (muito im- presas, por sua vez, a gestão da co-
analisando as características de sete portante). Nas empresas agropecuá- mercialização é realizada cotidiana-
empresas agropecuárias referenciais rias referenciais “cana-de-açúcar” e mente pelos produtores rurais, que,
– quanto à sua atividade produtiva “frango”, por exemplo, a gestão da aliás, se deparam com uma série de
mais importante – e o grau de impor- comercialização tem menor rele- dificuldades inerentes a estes merca-
tância, atribuído pelos produtores, à vância em comparação àquelas das dos. A produção hortifrutícola é, em
1 Canziani (2001), Assessoria administrativa a produ- empresas “bovino de corte” e “hor- geral, perecível exigindo do produ-
tores rurais no Brasil, Tese de doutorado, ESALQ/USP.
tifruticultura”. Nas duas primeiras tor o planejamento da comercializa-

50 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


ção mesmo antes de produzir, ou todo o esforço produtivo pode se perder Anotações

sem que haja comprador no momento da colheita ou que o produtor tenha


que vender a qualquer preço. Na pecuária de corte, é comum que o pecua-
rista comercialize, ao longo do ano, diversas categorias animais (vendendo
boi gordo, comprando bezerros ou vacas etc.) e, como não há um padrão
de qualidade homogêneo, as transações envolvem tempo do produtor ou
a contratação de pessoa de confiança para verificar qual a qualidade do
bezerro que ele está comprando ou o acompanhamento do abate de seus
animais e efetivo rendimento no frigorífico. O importante é que as alternati-
vas ou estratégias de comercialização variam entre os diversos produtos do
setor. Em suma, alguns produtos têm mais alternativas e outros, menos.

Tabela 10.1 – Estimativas sobre o grau de importância (ou relevância)


da gestão estratégica e operacional da comercialização
em diferentes empresas agropecuárias referenciais.

Bovino de Pequena
Áreas Grãos Cana-de-Açúcar Café Frango Hortifruti
Corte produção
Gestão Estratégica
3 4 1 3 1 5 2
Comercialização
Gestão Operacional
4 4 1 4 1 5 3
Comercialização
Fonte: CANZIANI, 2001 (p. 140)

Produtos agropecuários apresentam três grandes alternativas básicas de


comercialização, levando em conta a comercialização pelo produtor, ou
seja, a venda de matéria prima in natura. Se o produtor adiciona serviços ao

Capítulo X • Estratégias de Comercialização 51


seu produto (processamento, benefi- de cada uma, e depois escolher a colheram ou têm produto pronto
ciamento, embalagem, classificação que lhe parece mais indicada naque- para vender. Produtos perecíveis e
etc.), ou seja, agrega valor (e custo) le momento. não armazenáveis inevitavelmente
ao seu produto, ele passa a atuar nos precisam optar por esta alternativa
Venda na “época
níveis seguintes do canal de comer- – ou, de fato, não há outra alter-
da colheita”
cialização – que é o mesmo que di- nativa. No caso destes produtos, o
zer que o produtor passa a realizar O termo “época da colheita” está planejamento antecipado da comer-
o trabalho que, de forma alternativa, entre aspas porque não se “colhe” cialização é fundamental, como de-
é feito por outros agentes do merca- boi, nem frango, nem ovinos etc. O monstrou a avaliação dos produtores
do. As três grandes alternativas são: termo é usado no sentido de “ter o pesquisados por Canziani (2001) nas
venda na época da colheita, venda produto pronto para venda” ou o “ci- empresas de hortifruticultura.
antecipada e estocagem para espe- clo de produção terminou”. A maio-
culação. Estas alternativas podem ria dos produtos agropecuários tem Mesmo assim, produtores que
ser implementadas de formas dife- produção sazonal, ou seja, é con- poderiam aguardar mais tempo para
rentes e, há ainda, operações finan- centrada numa determinada época vender, podem optar pela venda
ceiras que podem ser utilizadas de do ano, denominada como período nesta época, por algumas razões,
forma combinada à comercialização de safra. Para estes produtos, a venda tais como: (a) falta de capacidade de
da produção, procurando financiar a na época da colheita normalmente estocagem de seu produto, na pro-
produção, reduzir o risco ou garantir não é uma boa opção para o produ- priedade ou na região; (b) vencimen-
um determinado patamar de preço. tor, tendo em vista que, nesta época to de compromissos financeiros na
Quando o produtor pode escolher os preços desses produtos, tendem a época da colheita sem outra fonte de
entre diferentes alternativas de co- estar em níveis baixos relativamen- recurso para saldá-las; (c) o produtor
mercialização isto implica, em geral, te à média anual, justamente porque tem a expectativa de que os preços
analisar as vantagens e desvantagens muitos produtores, assim como ele, ao longo do ano não se valorizem o

52 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


suficiente para remunerar a estocagem. Devido à melhoria nas condições Anotações

de armazenagem, esta alternativa vem apresentando, ao longo dos anos,


uma importância cada vez menor, como demonstra os dados da Tabela
10.2, relativos ao crescimento da capacidade estática de armazenagem no
Brasil de 1996 a 2008.

Tabela 10.2 – Capacidade Estática Instalada de Armazéns


Credenciados na Conab, 1996 e 2008.

Convencionais Granéis+silos Total


Região
1996 2008 var % 1996 2008 var % 1996 2008 var %
Norte 1.343 1.047 -22,1 349 1.416 305,7 1.692 2.463 45,5
Nordeste 3.195 1.856 -41,9 1.616 5.384 233,2 4.811 7.240 50,5
C-Oeste 6.884 6.383 -7,3 18.967 37.571 98,1 25.851 43.955 70,0
Sudeste 9.216 8.522 -7,5 6.798 12.000 76,5 16.014 20.522 28,2
Sul 10.746 8.490 -21,0 29.642 42.839 44,5 40.388 51.329 27,1
BRASIL 31.384 26.298 -16,2 57.372 99.211 72,9 88.756 125.509 41,4

Fonte: CONAB <[Link]>

Há situações, no entanto, que vender no período da colheita pode ser


melhor do que estocar o produto – isto depende do custo esperado dos es-
toques e da variação esperada nos preços. Dois exemplos para o milho no
Paraná são apresentados na tabela 10.3, que contêm os preços médios men-
sais ao produtor no Estado e o percentual da safra de verão comercializado
pelos produtores paranaenses nos anos safra 03/04 a 06/07, segundo dados
do DERAL. A antepenúltima linha de cada tabela mostra o preço médio pon-
derado anual (o preço do mês ponderado pelo percentual comercializado
a cada mês), que seria o preço final recebido por um produtor que tivesse

Capítulo X • Estratégias de Comercialização 53


comercializado a sua produção aos preços do mês e no mesmo ritmo do conjunto dos produtores do estado. A
penúltima linha destaca o preço médio do período de colheita (fevereiro a junho), considerando que o produtor
tivesse vendido toda a sua produção neste período. Observa-se que, nas safras 03/04 e 04/05, a venda na safra foi
mais vantajosa do que armazenar e vender ao longo do ano e o contrário ocorreu nas safras 05/06 e 06/07.

Tabela 10.3 – Preços Médios Mensais do Milho ao Produtor e Percentual da Produção


Comercializada, Paraná, Safras 03/04 a 06/07

MÊS SAFRA 03/04 SAFRA 04/05 SAFRA 05/06 SAFRA 06/07

Preço nominal Preço nominal


Vendas Preço nominal Vendas Preço nominal Vendas
Vendas (%)
(%) (R$/sc) (%) (R$/sc) (%)
(R$/sc) (R$/sc)

Fevereiro 14,81 4% 13,38 4% 12,67 7% 16,33 12%


Março 15,67 12% 15,78 7% 10,95 8% 16,25 23%
Abril 18,2 14% 16,26 13% 10,44 10% 14,83 20%
Maio 18,96 19% 15,97 16% 11,69 15% 14,54 14%
Junho 17,37 11% 15,95 16% 12,45 16% 14,60 11%
Julho 15,97 10% 15,87 14% 12,12 15% 14,14 2%
Agosto 14,97 4% 15,02 8% 11,81 3% 16,34 4%
Setembro 15,03 3% 14,55 5% 12,03 6% 19,58 7%
Outubro 14,23 1% 13,08 4% 13,26 6% 19,39 2%
Novembro 13,49 6% 11,79 3% 15,40 5% 22,82 1%
Dezembro 12,71 5% 11,52 2% 16,44 2% 24,94 4%
Janeiro 13,02 3% 11,87 2% 16,56 5% 22,20

Preço médio ponderado


15,18 14,12 12,40 16,23
anual (fev/jan)

Preço médio ponderado


17,56 15,84 11,69 15,38
na colheita (fev/jun) (B)
((B)/(A) %) 15,68 12,18 -5,68 -5,24
FONTE: DERAL/PR
Obs.: safra de verão

54 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


A venda logo após a obtenção AQUISIÇÃO PELO GOVERNO Anotações

do produto (colheita no caso de pro- FEDERAL (AGF)


dutos agrícolas e animais com peso
de abate para produtos pecuários É a venda direta do produto ao
como boi gordo e suíno, por exem- governo pelo preço mínimo. O vo-
plo), pode ser feita a mercado e, para lume de produto adquirido pelo go-
alguns produtos, é possível vender verno (AGF) já é pequeno no país
por meio de alguns instrumentos desde a década de 90, assim como
governamentais de apoio à comer- o EGF, ambos substituídos por ins-
cialização agropecuária. Em princí- trumentos de menor custo para o
pio, estes instrumentos poderiam ser estado. Se o preço mínimo estiver
analisados à parte, mas por escolha acima do preço de mercado e sem
didática, foram inseridos nos blocos perspectivas de que vá subir mais do
de alternativas. Em princípio os ins- que o mínimo nos próximos meses,
trumentos podem ser utilizados em a venda ao governo pode ser a me-
qualquer época do ano, mas original- lhor alternativa – sempre lembrando
mente foram desenhados para serem que isto é possível nas ocasiões em
utilizados em determinada época. que o programa tiver recursos. Este
Assim, neste item são apresentados instrumento está disponível para
dois instrumentos da Política de Ga- os produtos constantes da pauta de
rantia de Preços Mínimos: AGF e PEP preços mínimos e pode ser utilizado
que tendem a ser mais utilizados em por produtores rurais e suas coope-
períodos de maior oferta e menores rativas. Os produtos amparados por
preços (safra).

Capítulo X • Estratégias de Comercialização 55


AGF na safra de verão 08/09 foram: determinada quantidade de lotes Um exemplo de PEP: o preço
algodão em pluma, arroz longo fino de produto (cujos proprietários são mínimo do Rio Grande do Sul era
em casca, arroz longo em casca, fari- identificados) é colocada em leilão de 397,50/t. O trigo importado da
nha de mandioca, fécula de mandio- com um prêmio máximo que o go- Argentina e posto na indústria em
ca, goma/polvilho, feijão, juta/malva verno se dispõe a aceitar. Arremata São Paulo custa R$ 450/tonelada.
embonecada, juta/malva prensada, o produto aquele comprador que O custo do frete acrescido dos im-
milho, sorgo e trigo. Como a lista ofertar o menor prêmio, ou seja, o postos para comprar o trigo gaúcho
dos produtos amparados por AGF menor subsídio pelo qual ele acei- e levar para São Paulo é de R$ 80/
muda ao longo do tempo, é preciso ta adquirir o produto. Considerando tonelada. Assim, um moinho pau-
consultar o plano de safra de cada um ambiente competitivo, o prêmio lista poderia pagar, no máximo, R$
ano para atualizá-la. de arremate dos leilões corresponde 370/t aos produtores. Neste caso, o
à diferença entre o preço mínimo e governo oferece em leilão a compra
PRÊMIO DE ESCOAMENTO o preço de equilíbrio de mercado. do trigo do Rio Grande e sua trans-
DO PRODUTO (PEP) Este prêmio é o subsídio pago pelo ferência para SP com um subsídio
governo aos produtores (ou por meio máximo (prêmio) de R$ 27,50/t, o
O Prêmio para Escoamento de e suas cooperativas e associações). que possibilita a execução da ope-
Produto (PEP), lançado em 1996, é Uma característica importante no ração com os produtores recebendo
um dos novos instrumentos da Polí- PEP é que o produto leiloado não o preço mínimo. O adquirente que
tica de Garantia de Preços Mínimos pertence ao governo nem irá com- se dispuser a receber o menor valor
(PGPM) e tem por objetivo permitir por estoques públicos. Quando o do prêmio, na disputa em leilão nas
que a iniciativa privada adquira a produto a ser leiloado é do governo Bolsas ou em pregão eletrônico, será
produção no período de safra garan- o instrumento recebe o nome de VEP o vencedor da operação. Em suma,
tindo ao produtor o preço mínimo, (valor para escoamento de produto). o produtor recebe o preço mínimo
subsidiando os produtores. Uma (R$ 397,50), o moinho paga o preço

56 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


de mercado (R$ 370,00) e o governo to antecipado no momento do negó- Anotações

paga o prêmio (R$ 27,50) aos produ- cio ou pagamento de adiantamento


tores. O governo decide, a cada ano no fechamento do negócio e com-
e dependendo dos preços mínimos, plemento na entrega; e (b) com pa-
dos preços de mercado e dos recur- gamento apenas na entrega. As nego-
sos do governo, quais produtos se- ciações “a termo” se diferenciam das
rão amparados por este instrumento negociações “a futuro” por implica-
e que volumes serão leiloados. rem na efetiva entrega do produto,
ou seja, é uma negociação física,
O governo criou um instrumen- enquanto no mercado futuro as ne-
to semelhante ao PEP, denominado gociações são, predominantemente,
PEPRO (Prêmio equalizador pago ao financeiras sem obrigatoriedade de
produtor), que não se restringe ao entrega/recebimento da mercadoria.
preço mínimo. O governo pode defi- As principais razões pelas quais um
nir qualquer valor de referência nes- produtor procura fazer venda ante-
te caso, mesmo acima do mínimo. cipada são: (a) garantir um determi-
nado preço para o produto antes de
produzi-lo; (b) oferecer parte de sua
Venda Antecipada produção como garantia em opera-
A venda antecipada é uma nego- ções de financiamento da produção.
ciação “a termo”, ou seja, o negócio
é realizado: (a) com entrega numa Esta operação exige a cautela de
data futura com preço determinado não contratar parcela substancial de
ou a determinar, mas com pagamen- sua produção esperada, pois possí-

Capítulo X • Estratégias de Comercialização 57


veis frustrações de safra podem for- Contratos que estabelecem preço mínimo
çar o produtor a ter que comprar o
produto no mercado, a fim de saldar São contratos privados (produtor e comprador) que garantem um preço
o compromisso com o comprador. mínimo a ser pago pela matéria-prima na época de entrega da produção. Se,
A parcela da produção que pode no momento da entrega do produto, o preço de mercado estiver abaixo do
ser contratada antecipadamente de- preço mínimo contratado, a empresa paga o valor combinado. Se, por outro
pende de cada cultura e do risco de lado, o preço de mercado for superior ao contratado, a empresa paga o preço
perdas por adversidade climática. A de mercado. Esta modalidade de contrato ocorre, por exemplo, nas fecula-
venda antecipada pode ser feita de rias (que produzem amido a partir da raiz de mandioca), e foram criados na
diferentes maneiras. Destacam-se os tentativa de reduzir a grande variabilidade da oferta de mandioca para as in-
contratos formais ou informais rea- dústrias, evitando grandes reduções na produção causadas por fortes quedas
lizados entre produtores e compra- nos preços de mercado.
dores privados e a CPR (Cédula de
Produto Rural) negociada por meio Contratos que estabelecem preço e volume sem adiantamento ao produtor
de instituições financeiras.
Este contrato para entrega numa data futura é um compromisso (acordo)
CONTRATOS por escrito entre produtor e comprador que especifica que um determina-
do produto será entregue numa data pré-fixada, por determinado preço. O
Há diversas modalidades de con- principal objetivo deste tipo de contrato é garantir fornecimento de maté-
tratos de venda antecipada da pro- ria-prima para a indústria e a compra da matéria-prima do produtor rural,
dução agropecuária. Quatro destes com preço definido para ambas as partes. Contratos como este existem para
contratos são apresentados a seguir. produtos negociados em bolsas de futuros, pois é necessário definir, com

58 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


antecedência, qual preço será pago. O exemplo mais comum no Brasil é a Anotações

soja, negociada com meses de antecedência nesta modalidade. A base da


formação do preço a ser negociado é o cálculo da paridade de exportação –
exemplificado na Tabela 10.4 para a soja em grão. Ao realizar um contrato
como este com o produtor rural, o comprador realiza, simultaneamente, a
venda do produto (operação casada), garantindo ao mesmo tempo seu preço
de compra e de venda. Na data combinada o produtor realiza a entrega e a
empresa paga o valor combinado.

TABELA 10.4 – Estimativa, em 16/out/08, do preço de paridade de exportação


de soja para embarque em abril/2009

DESCRIÇÃO Soja Grão


Mercado Externo
1. Chicago (cents/bushel) contrato maio/09 871,50
2. Prêmio (cents/bushel) para embarque abril/09 -10,00
3. Preço CIF Paranaguá (US$/tonelada) p/ abril/09 316,54
4. Taxa de câmbio (R$/US$) out/08 2,400
5. Receita bruta (R$/t) 759,70
6. Despesas (R$/t) 57,62
a. Frete ao porto (ferroviário) 37,00
b. Despesas portuárias (D) 14,40
c. Taxas e comissões 4,80
d. Corretagem de câmbio 1,42
7. Preço equivalente em Cascavel (R$/t) 702,08
10. Preço da soja equivalente em Cascavel (R$/sc) 42,12

Fonte: cálculos da autora.

Capítulo X • Estratégias de Comercialização 59


Contratos que estabelecem preço empresa na sua região que lhe ofereceu as seguintes alternativas de venda
e volume com adiantamento ao da soja para entrega em abril do ano seguinte:
produtor
Preço da soja:
Os termos deste contrato são
iguais ao anterior com a diferença > para recebimento e entrega em abril: R$ 40,00/saca
de que o produto é pago quando
se faz o contrato, ou seja, a empre- > para recebimento à vista e entrega em abril: R$ 35,20/saca
sa paga adiantado o valor acertado
com o produtor, que se compromete O custo financeiro desta operação é calculado pela mesma fórmula de
a entregar o produto nas condições valor presente e valor futuro já apresentada neste livro, onde o preço para
definidas no contrato meses mais entrega e recebimento em abril é o valor futuro; o preço para recebimento
tarde. É claro que, neste caso, o pre- em setembro do ano anterior é o valor presente, o período de tempo é o nú-
ço não será igual ao anterior. Nesta mero de meses entre setembro de um ano e abril do ano seguinte, ou seja,
modalidade a empresa está, de fato, 7 meses e a taxa de juros é a incógnita a descobrir.
financiando o produtor rural que pa- VF = VP(1 + i)n
gará juros sobre este empréstimo. O VF = R$ 40,00
cálculo dos juros desta venda ante- VP = R$ 35,20
cipada é feito comparando os preços n = 7 meses
para entrega futura com e sem adian- 40,00 = 35,20*(1 + i)7
tamento. Observe o exemplo: i = 1,843% ao mês = 24,50% ao ano

Exemplo 1: Em setembro, um A venda com adiantamento de dinheiro, em geral, interessa ao produtor


produtor rural de soja procurou uma rural que precisa fazer caixa na fazenda para arcar com as despesas de cus-

60 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


teio e outras despesas de curto prazo. ser entregue se refere ao que será co- Anotações

O produtor compara os juros desta lhido em uma determinada área plan-


alternativa com os juros da econo- tada (a qual é definida no contrato),
mia ou das alternativas que ele dis- mas o volume de produção será co-
põe para financiar sua lavoura. Se o nhecido apenas no final da colheita,
produtor conseguir recursos através dependendo das condições climáticas
do crédito rural, por exemplo, cuja durante o desenvolvimento da cultura.
taxa de juros fosse de 6,75% ao ano, Normalmente estes contratos elegem
seria muito melhor acessar o crédito algum preço de referência que será
rural do que vender a soja antecipa- pago, ou seja, o valor em si não é de-
da, no exemplo acima. Qualquer ou- finido, mas sim qual fonte ou referên-
tra alternativa que tenha custo finan- cia será usada. Há diversos exemplos
ceiro inferior a 24,50% ao ano será deste tipo de contrato: (a) entre forne-
um melhor negócio do que a venda cedores de cana-de-açúcar e usinas,
nas condições do exemplo. que elegem como referência o preço
do CONSECANA – Conselho paritá-
Contratos com volume e rio de produtores de cana-de-açúcar,
preço pós-fixados açúcar e álcool; (b) entre produtores
de algodão e indústrias, utilizando
Alguns contratos estabelecem um indicador de preços com base em
apenas o compromisso de compra e São Paulo; (c) entre produtores de mi-
venda, sem definir volume ou preço. lho waxy (ou ceroso) e a indústria de
Nesta modalidade há tantos contratos amido de milho que elegem preços
formais quanto informais. O volume a divulgados por instituições oficiais

Capítulo X • Estratégias de Comercialização 61


como Secretarias de Agricultura; (d) na conversão da dívida em quanti- atrativa para os financiadores em
entre produtores de leite e laticínios dade de produto a entregar. potencial do produto.
que tanto podem eleger um indicador
de preços como aqueles divulgados CÉDULA DE PRODUTO RURAL A CPR física é um título por meio
pelos sistemas Conseleite (nos estados (CPR) FÍSICA do qual o emitente – produtor rural
onde o sistema existe) ou, o que tem e suas associações, inclusive coope-
sido mais comum, é o produtor saber A CPR física2 é uma formaliza- rativas – vende a termo parte de sua
no dia 15 do mês seguinte, qual preço ção dos contratos de venda anteci- produção agropecuária, recebe o
ele vai receber pelo leite que entregou pada, que se tornou uma alternativa valor da venda no ato da formaliza-
no mês anterior. de comercialização devido à escas- ção do negócio e se compromete a
sez crescente de crédito oficial a entregar o produto vendido na quan-
ESCAMBO partir do início dos anos 90. A venda tidade, qualidade e em local e data
por CPR, além de garantir a comer- estipulados no titulo. Os adquirentes
É a transação conhecida como cialização antecipada é uma forma de CPR’s podem ser qualquer pessoa
“troca” onde o produtor comprome- de financiar a produção. O preço de física ou jurídica. O custo da opera-
te parte da sua safra em troca de in- venda é baseado nos preços do mer- ção para o produtor é representado
sumos para a lavoura. O preço pelo cado futuro para a época de entrega pelo custo do aval do Banco (0,45%
qual o valor do insumo é transforma- do produto. Como tem aval bancário a 0,65% ao mês aplicado sobre o
do em número de sacas (ou arrobas do Banco do Brasil, há garantia da valor a ser recebido pelo produtor)
etc.) de produto é o preço esperado entrega do produto ou da sua liqui- mais o custo do registro do título na
pelo fornecedor de insumos para a dação financeira, tornando-a mais CETIP e os juros a serem cobrados
próxima safra, o qual deve ser bem 2 Há também a CPR financeira na qual o produtor, pelo comprador. O fluxo de comer-
ao invés de entregar sua produção no vencimento da
analisado pelo produtor para que o CPR, liquida o título financeiramente. Por não envolver cialização da CPR obedece aos se-
a venda efetiva do produto, trata-se de uma operação
seu produto não seja subvalorizado financeira e não uma alternativa de comercialização. guintes passos:

62 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


(a) O produtor ou a cooperativa emite o título e registra em Cartório. Anotações

(b) A instituição financeira avaliza o título, registra na CETIP, e emite


certificado de custódia.
(c) O título pode ser comercializado em pregão da Bolsa de Mercadorias
e no pregão eletrônico do Banco Brasil. Os adquirentes participam
do leilão somente por meio dos corretores.
(d) O produtor ou a cooperativa, no caso da liquidação física, deposita
a mercadoria no armazém indicado, até a data e na quantidade e
qualidade expressas no título.
(e) O adquirente do título no pregão, por meio do corretor, recebe o certi-
ficado de custódia que o habilita a retirar a mercadoria no armazém ou
a efetuar a transferência da mercadoria no armazém para o seu nome.

Para vender a produção via CPR o produtor ou a cooperativa procura


a agência do banco onde tiver cadastro, o qual analisa o pedido e abre um
limite para concessão de aval. Dentro deste limite, o produtor ou a coope-
rativa emite as CPR conforme suas necessidades.

Exemplo: Custo da venda por CPR.


CPR de café arábica – produtor de Franca, SP.
Data de venda da CPR: 30/01/2009
Data de vencimento da CPR: 30/10/2009
Valor fixo na data de vencimento: R$ 335,21/saca.
Valor arrematado no leilão: R$ 275,00/saca, a serem pagos em
30/10/2009.

Capítulo X • Estratégias de Comercialização 63


Custo do aval na CPR: 0,3% a.m. sobre o valor da operação. Pt = Po x (1 + taxa de juros)período +
Prazo total = 9 meses custo de armazenagem; ou
Do valor arrematado no leilão (R$ 275,00/saca) o banco desconta Pt = P0 x (1 + i)n + CA
antecipadamente o custo do aval, calculado da seguinte forma:
Preço - custo do aval = 275,00 – ((0,003*9))*275,00) = 275,00 – 7,43 Quem armazena espera obter lu-
= R$ 267,57/saca cro ou, na pior hipótese, não perder.
Mas nada garante que a sua intenção
será bem sucedida, pois o preço pode
Aplicando-se a mesma fórmula do custo financeiro dos contratos com subir menos do que ele espera (ou
adiantamento, o custo financeiro desta operação para o produtor seria de até cair). O custo financeiro dos es-
2,54% ao mês ou 35,05% ao ano. toques tem papel fundamental tanto
na decisão de armazenar quanto para
Estocagem
verificar se a decisão foi rentável ou
O produtor decide armazenar quando espera que os preços subam nos não. Cada produtor tem uma situação
próximos períodos, ao menos o suficiente para cobrir o custo da estocagem, financeira própria, ou seja, o custo de
que inclui o custo direto (armazém e seguro) e o indireto, representado pelo oportunidade (juros) de cada produ-
custo oportunidade (juros) do capital investido no estoque, ou seja: tor é diferente do vizinho. Para um
determinado produtor o armazena-
(Pt − P0) > (custo da estocagem + juros + seguro) mento pode ter sido rentável enquan-
Onde: to para outro que armazenou o mes-
Po é o preço atual (ou presente); mo produto, pode ter dado prejuízo,
Pt é o preço futuro (num determinado momento do futuro quando ele pois eles têm diferentes situações fi-
espera vender). nanceiras. Considere dois produtores
O preço esperado no futuro pode ser calculado da seguinte forma: de feijão da Bahia e que o preço na

64 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


época da colheita era de R$ 34,10/sc. Ambos armazenaram sua produção e Anotações

venderam por R$ 37,1/sc quatro meses depois pagando R$ 0,05/sc/mês ao ar-


mazém da sua cidade. O produtor A tem um custo de oportunidade de 1,5%
ao mês enquanto o produtor B, por não vender a produção, deixou de pagar
uma dívida que lhe custa 3,0% ao mês.

A rentabilidade da estocagem do produto foi:


Pt = P0 x (1 + i)n + CA
37,10 = 34,10 x (1 + i)4 + 4*0,05
(1+i)4 = (37,10 - 0,20)/34,10
i = 0,0199 = 1,99% ao mês

Comparando a rentabilidade da estocagem com o custo oportunidade


de cada produtor, verifica-se que para o produtor A, a estocagem foi rentá-
vel, mas não para o produtor B.

ESTOCAGEM COM RECURSOS DO CRÉDITO RURAL (EGF)

O produtor pode armazenar produto com crédito oficial, que é obtido


por meio do instrumento de EGF (Empréstimo do Governo Federal), nas mo-
dalidades com opção de venda (EGF/COV) praticamente em extinção, e a
modalidade sem opção de venda (EGF/SOV), ambos instrumentos da Política
de Garantia de Preços Mínimos (PGPM). Há duas classes de produto: (a) com

Capítulo X • Estratégias de Comercialização 65


preço mínimo, que são os mesmos amparados pelo AGF além de café arábica agropecuários no Brasil: o Contrato
e robusta; (b) com valor de financiamento: algodão em caroço, amendoim, de Opção de Venda e o hedge que
borracha natural, leite, soja, entre outros. Preço Mínimo é o valor definido envolve mercados futuros.
pelo governo, por decreto ou voto do Conselho Monetário Nacional (CMN),
para cada produto e safra, que atua como seguro de preço visando garan- Os Contratos de Opção de Ven-
tir uma renda mínima aos produtores e serve de base para aquisição (AGF) da se destinam a produtores rurais e/
ou financiamento, ou seja, Empréstimo do Governo Federal Com Opção de ou suas cooperativas e dependem de
Venda (EGF/COV). É calculado com base no custo de produção e na política recursos e disposição do governo em
governamental de estímulo ou controle de produção. Valor de Financiamen- lançá-los. O hedge é um mecanismo
to é o valor, por unidade de peso, que o beneficiário recebe na contratação que objetiva um seguro de preço
do Empréstimo do Governo Federal Sem Opção de Venda (EGF/SOV). para qualquer agente do mercado
que transaciona o produto agrope-
Ao armazenar com recursos de EGF o produto fica atrelado ao crédito e cuário, mas também permite a entra-
o valor do financiamento é baseado no preço mínimo do produto ou valor da de pessoas de fora do setor. Este
de financiamento. No vencimento do EGF/COV (disponível, em geral, ape- seguro é feito utilizando-se do mer-
nas para a Agricultura Familiar) o produtor opta se quer pagar o emprésti- cado futuro que se desenvolve nas
mo, vendendo o produto no mercado e pagando o banco ou prefere exercer bolsas de futuros ou de mercadorias
o EGF que significa entregar o produto ao governo que arcará com todos os como a Bolsa de Chicago, de Nova
custos da operação (armazenamento, seguro, juros). No EGF/SOV o produ- York e a Bolsa de Mercadorias & Fu-
tor tem que pagar ao governo sem possibilidade de venda ao governo. turos (BM&F) no Brasil.

CONTRATO DE OPÇÃO DE VENDA


Operações de seguro de preço
Há duas formas de seguro de preço disponíveis para alguns produtos O contrato de opção de venda é

66 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


uma modalidade de operação governamental na qual o produtor adquire Anotações

em leilão o direito (mas não a obrigação) de vender o produto objeto do


contrato ao governo, numa data futura, por um preço determinado (chama-
do de preço de exercício). O governo, que oferece este contrato, assume
a obrigação de comprar o produto e de pagar o preço estabelecido, se o
produtor assim o desejar.

Em qualquer momento que entender como desejável, o governo oferta


contratos de opção de venda nas Bolsas, em leilões públicos efetuados pela
CONAB. Os produtores que arrematam os contratos são os que pagam o
maior prêmio – que é o preço a pagar para ter o direito de vender ao go-
verno nas condições mencionadas – e arcam também com as despesas de
corretagem e registro na CETIP. Sua participação no leilão é feita por meio
de um corretor credenciado nas Bolsas. Esta alternativa não viabiliza a ven-
da imediata da produção, apenas possibilita a estocagem e a venda em
momento no futuro por um preço conhecido (o preço de exercício).

Na data de vencimento da opção, o produtor decide se vai exercê-la


ou não (ou seja, se vende ao governo ou não), decisão esta que depende
da diferença entre o preço de exercício e o preço de mercado na ocasião.
Se o preço de mercado estiver acima do preço de exercício o produtor não
exerce a opção e vende no mercado. Se, por outro lado, o preço de merca-
do for inferior ao preço de exercício, o produtor exerce a opção vendendo
ao governo. Desde a criação deste instrumento da PGPM os produtos am-

Capítulo X • Estratégias de Comercialização 67


parados foram: arroz, milho, algo- ciação – não se pode negociar meio e expectativa de seca para as próxi-
dão entre os principais. O governo contrato ou qualquer fração de um mas semanas – que potencialmente
lançou um instrumento semelhante contrato, mas apenas quantidades pode reduzir a produção (e, conse-
a este, mas de forma que o produto inteiras de contratos. qüentemente, a oferta) levando a um
fosse adquirido pela iniciativa priva- cenário de preços maiores. Nesse
da, denominado PROP (Prêmio de A principal função dos merca- dia a pressão compradora pode ser
risco para aquisição de produto agrí- dos futuros é a formação de preços maior do que a vendedora e os pre-
cola oriundo de contrato privado de dos produtos para meses à frente. ços sobem. A alta será para os pre-
opção de venda). As cotações dos produtos nas bolsas ços futuros e não atuais no mercado
de futuros são afetadas pelas condi- físico, cuja oferta é de produto dis-
SEGURO DE PREÇO USANDO O ções de oferta e demanda futuras e ponível no momento e não em um
MERCADO FUTURO não pelas condições de oferta e de- tempo futuro.
manda do mercado físico naquele
Como o próprio nome diz, mer- momento. De fato, os preços sobem Deste mercado participam tan-
cado futuro negocia produto apenas ou caem nos mercados futuros de- to produtores quanto consumidores
para o futuro (meses ou anos à fren- pendendo das expectativas quanto à do produto (consumidor em termos
te). As negociações são realizadas oferta e demanda futuras dos agentes gerais, pois normalmente produtos
nas dependências de bolsas, que que estão negociando na bolsa. As agrícolas são matéria prima indus-
nada mais são do que um espaço cotações reagem de acordo com a trial e os consumidores do produto
físico onde compradores e vende- avaliação que os agentes fazem dos in natura são indústrias, atacadistas
dores estão em contato direto (re- fatos que ocorrem. Por exemplo, du- etc.) e também quem não produz e
presentados pelos seus corretores), rante o período de safra nos Estados nem precisa do produto – são espe-
onde se negociam “contratos”. Um Unidos, o preço pode subir num de- culadores que, ao contrário de outros
contrato é uma unidade de nego- terminado dia porque foi anunciada mercados onde esta palavra tem co-

68 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


notação pejorativa, aqui são recebi- Perde: Sempre que o preço pelo Anotações

dos com tapete vermelho, pois são qual vendeu é menor do que o preço
eles que aceitam o risco do qual pro- pelo qual comprou.
dutores e indústrias querem se livrar.
O contrato
O objetivo dos especuladores
que operam neste mercado não é O contrato é a unidade de nego-
vender de fato a mercadoria que ciação em mercados futuros. Ele de-
possui nem adquirir a mercadoria fine o produto, a qualidade, a praça
que precisa. Este é um mercado de de referência (local) e os locais de
preços onde o objetivo é ganhar na entrega e a moeda pela qual o produ-
diferença de preços, ou seja, vender to é cotado, como pontos principais.
por um preço maior do que se com- Outros detalhes podem ser analisados
prou. Neste mercado não é necessá- nos contratos disponíveis diretamente
rio possuir a mercadoria para poder nos sites das bolsas <[Link]>
vender. Vende um contrato quem <[Link]&[Link]>etc.).
acha que o preço está alto e irá redu-
zir. Compra quem acha que o preço O contrato da soja em grão em
atual é baixo e irá subir. Chicago, por exemplo corresponde a:

Produto: soja em grão


Regra:
Local: Chicago (e outras duas
regiões de entrega, próximas)
Ganha: Sempre que o preço pelo
Qualidade: soja americana,
qual vendeu é maior do que o preço amarela, tipo 2
pelo qual comprou.

Capítulo X • Estratégias de Comercialização 69


Quantidade: 5.000 bushels Mês Letra Mês Letra
Janeiro F Julho N
Cotação: em centavos de dólar por bushel considerando 4 frações de Fevereiro G Agosto Q
centavo (0, ¼, ½ e ¾ ou 0,00, 0,25, 0,50, e 0,75 centavos). Março H Setembro U
O contrato de milho na BM&F, corresponde a: Abril J Outubro V
Maio K Novembro X
Produto: milho em grão
Junho M Dezembro Z
Local: Campinas – SP
Qualidade: milho amarelo, semi-duro, tipo 2. O milho na CBOT tem os seguin-
Quantidade: 450 sacas (ou 27 toneladas) tes vencimentos: janeiro, março,
Cotação: em reais por saca, considerando duas casas decimais.
maio, julho, setembro, novembro e
dezembro. Os vencimentos também
constam da descrição dos contratos.
Assim, ao comprar um contrato de soja na bolsa de Chicago (CBOT), o que
está sendo adquirido é um lote de 5.000 bushels de soja americana amarela Funcionamento
tipo 2 posto em Chicago. As cotações naquela bolsa são para o produto desta
qualidade e nesta praça. Para apresentar o funcionamen-
to do mercado futuro será adotado o
Vencimentos exemplo de dois especuladores A e
B. Para operar em mercados futuros
No mercado futuro se negocia produto para meses à frente. Os me- basta ter cadastro junto a uma cor-
ses para os quais o produto é negociado são pré-definidos pela Bolsa. O retora da Bolsa (as listas de corre-
contrato da soja em Chicago é negociado para (ou apresenta os seguintes toras estão disponíveis nos sites das
vencimentos): janeiro, março, maio, julho, agosto, setembro e novembro. bolsas). Admita que o Sr. A, em 26
Muitas vezes os meses de vencimento são identificados apenas por letras, de fevereiro de 2004, observando
da seguinte forma: as cotações do milho na BM&F para

70 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


setembro de 2004 e utilizando o seu conhecimento do mercado de milho, Anotações

conclui que o preço de R$ 21,70/saca pelo qual o produto foi negociado


(para setembro posto em Campinas) é um preço muito baixo porque, pela
sua visão, a produção brasileira será menor do que se espera (acha, por
exemplo, que a safrinha terá problemas climáticos). Se alguém acha que o
preço vai subir, a atitude a tomar no mercado futuro é comprar contratos de
milho. Se ele estiver certo, o preço vai subir e, conforme a regra enunciada
acima, ele poderá vender por um preço maior mais tarde. Assim, o Sr. A
liga para seu corretor e manda que este compre um contrato de milho para
setembro na BM&F e dá um intervalo de preços no qual o corretor poderá
realizar a compra.

No mesmo dia, o Sr. B, observando as cotações do milho na BM&F para


setembro de 2004 e utilizando o seu conhecimento do mercado de milho,
conclui que o preço de R$ 21,70/saca pelo qual o produto foi negociado
(para setembro posto em Campinas) é um preço muito alto porque, pela
sua visão, a produção brasileira será maior do que se espera (acha, por
exemplo, que a safrinha não terá problemas climáticos e será uma produ-
ção recorde). Se alguém acha que o preço vai cair, a atitude a tomar no
mercado futuro é vender contratos de milho. Se ele estiver certo, o preço
vai cair e, conforme a regra enunciada acima, ele poderá comprar por um
preço menor mais tarde. Assim, o Sr. B liga para seu corretor e manda que
este venda um contrato de milho para setembro na BM&F e dá um intervalo
de preços no qual o corretor poderá realizar a venda.

Capítulo X • Estratégias de Comercialização 71


Durante o pregão da bolsa (veja realizado, o respectivo comprador, saber: abertura, máximo, mínimo e
os horários de negociação direta- vendedor, valor, número de con- fechamento. Abertura é o preço pelo
mente nos sites das bolsas) os cor- tratos negociados etc. O preço ne- qual foi realizado o primeiro negócio
retores estão executando as ordens gociado é registrado imediatamente (ou a primeira oferta de compra ou
de compra e venda de seus clientes. pelos operadores que ficam ao redor de venda); mínimo é o menor preço
Cada oferta de compra e de ven- do pregão. Cada registro de preço é, pelo qual o produto foi negociado
da é apregoada à viva voz (aquela geralmente transmitido on-line para naquele dia; máximo é o maior pre-
confusão que se observa nos pits de diversas agências de notícias que ço pelo qual o produto foi negociado
negociação) de forma que elas são, pagam para receber a informação e naquele dia e fechamento ou ajuste
de fato, públicas. Por simplicidade depois vendem para seus clientes. é o preço do último negócio ou mé-
didática, assuma que o corretor do Todos os operadores de mercado, ou dia dos últimos negócios ou ofertas
Sr. A e do Sr. B se interessem pela ao menos a grande maioria, assina de compra e venda durante os últi-
ofertas que estão fazendo e fechem estes serviços e acompanha na tela mos 15 minutos de pregão (call de
negócio a R$ 20,60/sc. Foi negocia- de seu computador as cotações em fechamento). O ajuste ou fechamen-
do um contrato de milho para setem- tempo real (agências como CMA e to (settle em inglês) é muito impor-
bro de 2004 por R$ 20,60/sc tendo Agrocast, por exemplo). O preço do tante, pois este valor é utilizado para
como vendedor o Sr. B e comprador negócio realizado entre os Srs. A e o cálculo do ajuste diário como se
o Sr. A. B aparecerá nas telas logo após ter verá na próxima seção.
sido realizado.
Cada corretor preenche um bo- Uma vez realizado o negócio os
leto com os dados desse negócio, Quatro informações são conside- Srs. A e B são informados por seus cor-
que vai para a Clearing House (Cai- radas muito importantes em relação retores do preço de R$ 20,60/sc. No
xa ou Câmara de Liquidação) que ao preços de cada vencimento reali- entanto, o Sr. A que comprou não irá
é da Bolsa e registra cada negócio zados (cotações) durante o pregão, a fazer um cheque ou depósito do va-

72 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


lor do negócio (que foi de R$ 20,60/ negócios vão sendo realizados du- Anotações

sc x 450 sacas = R$ 9.270,00) nem o rante o pregão. Admita que o pre-


Sr. B espera receber este valor. Este ço de fechamento do dia foi de R$
mercado é para apostar na variação 26,70/sc. Este valor será utilizado
de preços, como se verá a seguir e para o cálculo do ajuste diário do Sr.
não para vender de fato a mercadoria A e do Sr. B da seguinte forma. O
nem comprar o produto e recebê-lo preço de fechamento é comparado
(apesar de que isso pode ser feito, se ao preço do negócio realizado por
assim o desejarem as partes). ambos, lembrando a regra já descri-
ta e considerando que: para sair de
Até o momento, o Sr. A está uma posição assumida no mercado
comprado em um contrato de milho futuro é preciso fazer uma operação
para setembro de 2004 a R$ 20,60 e inversa, ou seja, quem comprou terá
o Sr. B está vendido em um contrato de vender para liquidar a sua posi-
de milho para setembro a R$ 20,60/ ção e, quem vendeu terá que com-
sc ou seja: prar (sempre a mesma quantidade
de contratos que negociou e para o
Data Sr. A Sr. B mesmo vencimento). Assim, o Sr. A
26/02 20,60 C 20,60 V está comprado a R$ 20,60 e o fecha-
mento foi a um preço mais alto, de
Ajuste diário R$ 20,70. Se ele tivesse de sair da
sua posição, estaria vendendo a R$
Nesse mesmo dia em que o Srs. 20,70, um preço maior do que ele
A e B fizeram um negócio, outros pagou comprando.

Capítulo X • Estratégias de Comercialização 73


Assim: quem está comprado 0,10/sc x 450 sacas = R$ 45,00. Este valor deverá ser depositado pelo Sr. B
ganha sempre que o preço sobe e junto à sua corretora (que, através da Clearing e da corretora do Sr. A fará
quem está vendido, perde toda vez o valor chegar ao Sr. A) no dia seguinte sem falta. Assim, para um negócio
que o preço sobe. Quem está com- de valor total de R$ 9.270,00 serão movimentados apenas R$ 45,00 nesse
prado perde sempre que o preço cai dia. Essa é a característica de alavancagem do mercado futuro, ou seja, um
e quem está vendido, ganha toda vez movimento pequeno de dinheiro em relação ao valor total do negócio.
que o preço cai. A razão é a regra de
ganho/perda já apresentada. No dia seguinte o contrato de milho para setembro continuará sendo ne-
gociado por diversos agentes. Haverá outro preço de fechamento ao final do
Voltando ao exemplo, isto sig- pregão do dia 27/02 que, novamente, será utilizado para o cálculo do ajuste
nifica que o Sr. A ganhou a diferen- diário, dessa vez comparando este fechamento com o fechamento anterior.
ça entre o preço pelo qual realizou o Admita que, por notícias climáticas adversas os preços tenham subido mais,
negócio e o preço de fechamento (ou para R$ 21,00/sc.
ajuste) do dia. Conseqüentemente, o Data Sr. A Sr. B

Sr. B perdeu a mesma quantia, como 26/02 Negociado 20,60 C 20,60 V


26/02 Fechamento 20,70 20,70
pode ser visualizado no esquema a
26/02 Ajuste + 0,10/sc - 0,10/sc
seguir: 27/02 Fechamento 21,00 21,00
27/02 Ajuste + 0,30/sc - 0,30/sc
Data Sr. A Sr. B
26/02 Negociado 20,60 C 20,60 V O Sr. B continua perdendo, desta vez R$ 0,30/sc, totalizando um valor de
26/02 Fechamento 20,70 20,70 ajuste no dia de: R$ 0,30/sc x 450 sacas = R$ 135,00, a ser depositado pelo Sr.
26/02 Ajuste + 0,10/sc - 0,10/sc
B no dia útil seguinte. O processo de ajuste diário continua enquanto a pessoa
O cálculo do ajuste é feito no mantiver a sua posição.
preço e depois multiplicado pelo
tamanho do contrato (450 sc): R$ Para sair de uma posição em aberto a pessoa deve fazer uma opera-

74 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


ção inversa àquela pela qual entrou: A situação pode ser resumida no esquema abaixo:
vender se entrou comprando e com- Data Sr. A Sr. B Sr. C
prar se entrou vendendo. Voltando 26/02 Negociado 20,60 C 20,60 V
26/02 Fechamento 20,70 20,70
ao exemplo, imagine que, em mar-
26/02 Ajuste + 0,10/sc - 0,10/sc
ço, os dados mostram que a safrinha 27/02 Fechamento 21,00 21,00
teve atraso no plantio, as plantas não 27/02 Ajuste + 0,30/sc - 0,30/sc

estão com bom desenvolvimento e o


preço futuro do milho subiu ainda 23/03 Fechamento 22,00 22,00
24/03 Negociado 22,50 C 22,50 V
mais. O Sr. B percebe que irá perder
- 0,50
ainda mais dinheiro com novas al-
tas do preço e resolve liquidar a sua 24/03 Fechamento 22,60 22,60
24/03 Ajuste + 0,60/sc - 0,10/sc
posição comprando um contrato de
milho para setembro. No mesmo dia Observe que o Sr. A continua comprado e agora sua contraparte é o Sr.
o Sr. C acha que o preço do milho já C. O Sr. A deve receber um ajuste diário de R$ 0,60/saca que virá de duas
atingiu um preço muito alto para se- fontes: R$ 0,50/sc virão do Sr. B, pela diferença entre o preço pelo qual saiu
tembro e envia uma ordem de ven- no dia 24 e o fechamento anterior e os R$ 0,10 restantes virão do Sr. C que
da de um contrato para setembro a perde 10 centavos no dia.
seu corretor. Admita que se realiza
um negócio entre ambos no pregão O resultado final da aposta do Sr. B foi perder R$ 1,90/sc, que é a dife-
do dia 24 de março por R$ 22,50/sc rença entre o valor pelo qual vendeu (R$ 20,60) e o valor pelo qual com-
e que o fechamento do dia anterior prou (R$ 22,50/sc) – veja a regra.
(23 de março) tenha sido a R$ 22,00
e o fechamento do dia 24 seja de R$
22,60/sc.

Capítulo X • Estratégias de Comercialização 75


Vencimento dos contratos Da mesma forma, o Sr. A deverá sair de segurança que a bolsa exige para
da sua posição comprada antes do cobrir os ajustes diários. Se um clien-
A bolsa de futuros só negocia vencimento do contrato, pois de ou- te deixa de depositar o ajuste diário
produto para o futuro. Quando o fu- tra forma será obrigado e receber a devido num determinado dia, a bol-
turo se torna presente, os contratos mercadoria e pagar o valor total do sa saca o valor correspondente dessa
expiram, ou seja, todos os contratos contrato pelo último preço. margem e paga a quem de direito e
têm um último dia de negociação pode, em seguida liquidar a posição
que varia de acordo com o produto A bolsa pertence às corretoras do cliente que deixou de pagar o ajus-
e a Bolsa. Os contratos de câmbio, que cobram corretagem de cada ope- te. Da mesma forma a margem varia
por exemplo, terminam no último ração realizada por elas. As taxas de de acordo com a bolsa e o produto.
dia útil do mês anterior ao do ven- corretagem variam de acordo com Para a soja na CBOT a margem de
cimento. Um contrato de câmbio o produto e devem ser consultadas garantia é de US$ 2.025,00/contrato
para março será negociado até o úl- nos sites das bolsas ou das correto- e pode ser alterada a qualquer mo-
timo dia útil de fevereiro. Na Bolsa ras. Além da corretagem, o cliente mento a critério da bolsa. O depósito
de Chicago os contratos expiram em paga a taxa de registro que é um va- não precisa ser em dinheiro – tendo
torno do décimo dia útil do mês de lor fixo por contrato e emolumentos, várias alternativas, inclusive carta de
vencimento. Se o Sr. C ficar na posi- da ordem de 6,32% da corretagem. fiança bancária. Se for em dinheiro a
ção vendida até o final do contrato A corretagem é paga em cada nego- margem é remunerada por juros en-
ele terá de entregar a mercadoria ao ciação (ou “perna”). quanto estiver depositada.
seu comprador nos locais definidos
pela bolsa. Se não quiser entregar, Além desses custos o cliente é O mercado futuro merece des-
terá de liquidar a sua posição antes obrigado a depositar um valor junto à taque nas estratégias de comercia-
do vencimento do contrato – que é bolsa, correspondente à Margem de lização apesar de que no Brasil as
o que acontece em 99% dos casos. Garantia. Essa margem é uma trava bolsas de mercadorias ainda estão

76 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


crescendo, o que não tira a utilidade lizar a produção que estava plantando em setembro. Na BM&F o milho para
do mercado futuro para o produtor o contrato de maio do ano seguinte estava sendo negociado, em setembro, a
rural brasileiro, especialmente com R$ 17,50/saca. O produtor vendeu contratos de milho para maio na BM&F
a abertura do mercado e a necessi- em quantidade suficiente que corresponde à produção que esperava colher.
dade de maior eficiência para com- Em abril, quando o produtor colheu o milho, o preço no mercado físico na
petir. Ele permite ao produtor ru- sua região foi de R$ 15,30/sc. No mercado futuro, o preço também caiu, para
ral reduzir o risco das variações de R$ 16,80/sc para o contrato de maio3. O produtor vendeu no mercado físico
preços, característica dos produtos a R$ 15,30/sc. Para sair da sua posição no mercado futuro ele teve que fazer
agropecuários que apresenta efeitos uma operação inversa àquela pela qual ele entrou, ou seja, comprar se entrou
muitas vezes funestos sobre a renda vendendo e vender se entrou comprando. Neste caso, ele comprou o mesmo
agrícola. Assim, um produtor rural número de contratos que vendeu em setembro, sempre para o mesmo venci-
que, na época de plantio teme que mento, ou seja, maio. Para saber se ganhou ou perdeu no mercado futuro é só
os preços do seu produto na safra comprar os preços de compra e venda. Ganha sempre que o preço de venda
caiam, pode se proteger desta redu- for maior do que o de compra e perde quando o preço de compra é maior
ção vendendo contratos no mercado do que o preço de venda. Neste exemplo, o produtor vendeu por R$ 17,50 e
futuro em quantidade equivalente a comprou por R$ 16,70/sc – o ganho é a diferença, de R$ 0,80/sc. O resultado
que pretende colher (isto é hedge). final foi um preço de R$ 15,30 + 0,80 = 16,10/sc para seu produto.

Data Mercado físico Mercado futuro


Por exemplo, em setembro, quan-
Situação Preço Situação Preço
do iniciou o plantio de milho, o pre-
Setembro/02 plantio R$ 16,00 vende R$ 17,50
ço do grão ao produtor na sua região
Abril/03 Colhe/vende R$ 15,30 compra R$ 16,70
era de R$ 16,00/saca. No entanto, o
Resultado + 0,80
produtor não sabia qual seria o preço
em abril do ano seguinte, quando ele 3 Todos os contratos são negociados diariamente até o vencimento. O preço do exemplo seria na data em que o
produtor vai vender a sua produção no físico e sair do mercado futuro.
teria colhido o milho e iria comercia-

Capítulo X • Estratégias de Comercialização 77


Instituições da
Agropecuária1
José Roberto Canziani

Diversas instituições públicas e No Brasil federativo, as institui- sociais, entre outros.


privadas atuam no meio rural bra- ções da agropecuária podem ter influ-
sileiro. Suas ações – ora de fomen- ência nacional, regional, estadual ou Dentre as instituições relaciona-
to, apoio, incentivo, ajuda; ora de até mesmo municipal. Neste capítulo das neste capítulo destacam-se as
regulação, fiscalização, imposição, vamos tratar daquelas com influência instituições públicas de fomento e
cobrança – podem influir positiva- nacional, mas o empreendedor rural regulação da produção agropecuá-
mente ou negativamente no desen- deve também analisar além destas, ria, instituições de ensino, pesquisa
volvimento cotidiano e na estrutura de forma crítica, a atuação das ins- e extensão, instituições financeiras,
do setor rural como um todo, ou na tituições com influência regional, es- instituições associativas e de repre-
empresa agropecuária em particular. tadual e municipal, percebendo, por sentação sindical, organizações e
É preciso que o empreendedor rural exemplo, a eficácia dos serviços de movimentos sociais, entre outros.
conheça a missão e os objetivos des- secretarias estaduais e municipais de Para cada instituição será apresenta-
tas instituições, além da eficácia do agricultura ou dos serviços públicos da a sua missão e objetivos gerais,
desempenho de suas atividades para, e privados de pesquisa e assistência sua estrutura organizacional e as
de forma pró-ativa, poder se valer dos técnica; das ações ou omissões de principais atividades que realiza.
aspectos positivos e oportunidades e seu sindicato rural, cooperativa ou
tentar minimizar os aspectos negati- de sua federação de agricultura; das Neste texto algumas instituições
vos e ameaças proporcionados pelas conseqüências positivas ou negativas agropecuárias selecionadas estão
ações ou omissões das instituições resultado de ações de organizações agrupadas conforme sua atividade
da agropecuária. não governamentais, de movimentos principal: a) instituições públicas de

1 Baseado no capítulo 3 do livro “Programa Empreendedor


Rural” (2003) de autoria de Derli Dossa.
78 Programa Empreendedor Rural • Volume 2
fomento e regulação (MAPA, MDA); produtivas, incentivando a inovação
instituições associativas e de repre- e a adoção de novas tecnologias, Anotações

sentação (CNA, CONTAG, OCB e de maneira a assegurar qualidade e


associações); Instituições de ensino, competitividade aos produtos e ser-
pesquisa e extensão (EMBRAPA, SE- viços agropecuários do país.
NAR, SEBRAE); instituições finan-
ceiras (BNDES, Banco do Brasil); e Para implementar suas ações
outras instituições, organizações e tanto de formulação de políticas
movimentos sociais (MST, BM&F). quanto para a execução programá-
tica o MAPA possui uma estrutura,
apresentada na Tabela 11.1. Na sua
Instituições públicas de execução direta, por exemplo, vi-
fomento e regulação sando o controle sanitário, o MAPA
dispõe da Secretaria de Defesa
MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, Agropecuária – SDA, na implemen-
PECUÁRIA E ABASTECIMENTO - tação de política de preços mínimos
MAPA e armazenagem, a CONAB e na ge-
ração de conhecimento e de novas
O Ministério da Agricultura, Pe- tecnologias destaca-se a EMBRAPA.
cuária e Abastecimento – MAPA, Com elas o MAPA pode atuar, per-
tem por missão formular e viabilizar manentemente, em todos os proble-
a implementação de políticas agríco- mas que dificultam a competição de
las, integrando os aspectos tecnoló- nossa agricultura e que são, sistema-
gicos, sociais e de mercado, favore- ticamente, demandados pelos pro-
cendo a sustentabilidade das cadeias dutores e trabalhadores rurais.

Capítulo XI • Instituições da Agropecuária 79


Tabela 11.1. Organograma do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
Orgãos Específicos Singulares

Depto. de Fiscalização Depto. de Inspeção de Depto. de Saúde


de Insumos Pecuários Produtos Origem Animal Animal
Secretaria
de Defesa
Agropecuária
Depto. de Fiscalização Depto. de Inspeção de Depto. de Sanidade
de Insumos Agrícolas Produtos Origem Vegetal Vegetal

Secretaria de Depto. de Sistemas de Depto. de Cooperativismo Depto. de Infra-Estrutura Depto. de Propr. Intelectual
Desenv. Agropec Produção e Sustentab. e Associativismo e Logística e Tecnologia da Agropec.
e Cooperativismo

Ministro

Secretaria de Depto. de Comercializ. Depto. de Economia Depto. de Gestão de


Política e Abastec. Agropec. Agrícola Risco Rural
Agrícola
Gabinete Secretaria Consultoria
AGE
do Ministro Executiva Jurídica

Secretaria de Depto. de Assuntos Depto. de Assuntos Depto. de Promoção


Relações Internac. Comerciais Sanitários e Fitossanit. Intern. do Agronegócio
do Agronegócio

Secretaria de Depto. do Café Depto. de Cana-de-Açucar


Produção e
Agroenergia

Superint. Regional Superint. Regional Superint. Regional


CEPLAC da Bahia e Espírito Santo da Amazônia Ocidental da Amazônia Oriental

INMET

Unidades Descentralizadas SUPERINTENDÊNCIAS LABORATÓRIOS

Empresas Públicas EMBRAPA CONAB

Empresas de Economia Mista CEAGESP CEASA-MG CASEMG CEASA-AM

Fonte: MAPA <[Link]>, dez/2008.

80 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


A Secretaria de Defesa Agro- nomia Agrícola e Departamento de Anotações

pecuária tem a responsabilidade de Gestão e Risco Rural. No MAPA, há


prevenir e controlar doenças e pra- ainda outras secretarias como: a) Se-
gas animais e vegetais de interesse cretaria de Desenvolvimento Agro-
econômico e de importância para a pecuário e Cooperativismo a qual
saúde pública, por meio de ativida- compete o fomento ao cooperativis-
des de defesa sanitária, inspeção de mo e associativismo rural, à proteção
produtos e derivados, fiscalização da de cultivares e à infraestrutura rural;
produção, assim como de assegurar b) Secretaria de Relações Internacio-
a origem e a conformidade dos pro- nais do Agronegócio a qual compete
dutos destinados à alimentação hu- a defesa e promoção do agronegócio
mana e a outros fins e dos insumos brasileiro no mercado externo por
de uso na agricultura e na pecuária. meio de estudos que visam nortear
as ações do ministério e participação
Já a Secretaria de Política Agríco- em fóruns e frentes de negociações
la tem por missão formalizar e orien- internacionais; e c) Secretaria de Pro-
tar a execução da política agrícola dução e Agroenergia a qual compete
brasileira, vinculada à produção, viabilizar soluções para o desenvol-
comercialização, abastecimento, ar- vimento sustentável dos setores de
mazenagem e indicadores de preços café, açúcar e agroenergia.
mínimos. Ela é estruturada em três
departamentos: Departamento de Vinculado ao MAPA, o Instituto
Comercialização e Abastecimento Nacional de Meteorologia – INMET
Agropecuário; Departamento de Eco- – tem a missão de acompanhar diu-

Capítulo XI • Instituições da Agropecuária 81


turnamente as variações atmosféri- ma de Abastecimento Social / Aten- No apoio a reforma agrária o
cas no Brasil, bem como informar dimento Institucional e Vendas em MDA é responsável pela formulação
cotidianamente à sociedade as con- Balcão, Projeto Social de Emergên- de políticas sobre aquisição, acesso
dições meteorológicas. Já as Dele- cias e Projeto Social de Pequenos à terra e assentamentos de trabalha-
gacias Federais de Agricultura tem Produtores, entre outros. dores rurais, além da supervisão dos
a missão de representar o MAPA programas de assentamento e a im-
em todos os Estados da Federação MINISTÉRIO DE DESENVOLVI- plementação das políticas agrárias.
visando levar a mensagem e ações MENTO AGRÁRIO – MDA Para o apoio a agricultura familiar,
governamentais de apoio ao desen- o MDA realiza ações de promoção,
volvimento da agricultura brasileira. O Ministério do Desenvolvimen- controle e avaliação de atividades
A estrutura de cada estado segue o to Agrário (MDA) tem por objetivo relacionadas à política de desenvol-
modelo do MAPA em termos dos o apoio a reforma agrária, a promo- vimento da agricultura familiar, por
diferentes departamentos e progra- ção do desenvolvimento sustentável meio da supervisão e execução de
mas estabelecidos nacionalmente. A do segmento constituído pelos agri- programas de desenvolvimento des-
CONAB – Companhia Nacional de cultores familiares, e a definição de ses agricultores e de ações relacio-
Abastecimento é uma empresa vin- terras ocupadas por comunidades nadas ao desenvolvimento territorial
culada ao MAPA, com o objetivo de quilombolas. Sua estrutura orga- rural.
gerir as políticas agrícolas (preços nizacional contempla os seguintes
mínimos) e de abastecimento (esto- órgãos específicos regulares: a) Se- A principal instituição vinculada
cagem dos excedentes), por meio da cretaria de Reordenamento Agrário; a este ministério é o Instituto Na-
Política de Garantia de Preços Mí- b) Secretaria da Agricultura Familiar cional de Colonização e Reforma
nimos – PGPM, Venda de Produtos e c) Secretaria de Desenvolvimento Agrária – INCRA, cuja missão é de-
Agropecuários, Venda de Pontas de Territorial. senvolver as políticas fundiárias e de
Estoque, Contrato de Opção, Progra-

82 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


reforma agrária. Para tanto suas su- volvimento do setor. Neste aspecto, Anotações

perintendências regionais desempe- destaca-se o sindicalismo e o coo-


nham atividades como: a) avaliação perativismo. O sindicalismo rural no
e vistoria para fins de desapropria- Brasil atua em dois segmentos: de um
ção, aquisição e discriminação de lado agrega os produtores (classe pa-
terras devolutas e outras formas de tronal) e, de outro lado, os produto-
obtenção de imóveis rurais e arren- res familiares (que não tem mais que
damento rural; b) alienação de terras um número mínimo de funcionários
públicas; c) fiscalização cadastral; d) permanentes definidos em decreto
elaboração de estudos ambientais; de autoridade normatizadora) e tra-
e) levantamento de dados técnicos; balhadores rurais. O primeiro grupo
f) mapeamentos temáticos; g) geor- é ligado a Confederação de Agri-
referenciamento de imóveis rurais; cultura e Pecuária do Brasil – CNA,
h) implementação e consolidação enquanto o segundo vinculam-se,
dos projetos de reforma agrária e de nacionalmente, à Confederação Na-
colonização oficial; entre outros. cional dos Trabalhadores na Agri-
cultura – CONTAG.

Instituições associati- CONFEDERAÇÃODAAGRICULTU-


vas e de representação RA E PECUÁRIA DO BRASIL – CNA.

No meio rural brasileiro estão A CNA é o principal foro de de-


em ação muitas estruturas privadas bates e decisões dos produtores ru-
de representação e apoio ao desen- rais. Graças a sua representatividade

Capítulo XI • Instituições da Agropecuária 83


tem, junto aos setores (público e pri- publicações técnicas, interpreta e do em sua base milhares de sindica-
vado), amplo reconhecimento como analisa a conjuntura econômica agro- tos, estes representados por federa-
interlocutora da classe produtiva pecuária e promove pesquisas de as- ções estaduais que têm na CNA sua
rural nas discussões e decisões que suntos pertinentes ao setor. Além de representação máxima. A CNA con-
afetam o setor, tanto nos produtos de que, como gestora do SENAR, atua, fere ao sistema sindical rural ampla
mercado interno quanto nos de ex- em conjunto com a CONTAG, for- capilaridade, configurada também
portação. A CNA lidera um sistema temente, na formação dos recursos pela existência de mais de um mi-
organizacional que envolve milhões humanos do setor rural. lhão de associados filiados volunta-
de imóveis rurais e o maior volume riamente aos sindicatos, em todo o
de produção agropecuária do setor O sistema sindical patronal é território nacional.
rural brasileiro. A entidade mantém constituído de forma piramidal, ten-

Cleve
rson
Beje

84 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


O sistema sindical patronal do utilizados para a manutenção dos Anotações

setor agropecuário é suprido por Sindicatos, nas campanhas institu-


duas fontes de recursos. A mais cionais e na defesa dos interesses do
importante delas é a contribuição setor e treinamento dos produtores
sindical compulsória cobrada dire- rurais.
tamente pelo sistema sindical atra-
vés da CNA, conforme estabelece a Outra atuação importante da
Consolidação das Leis do Trabalho CNA é a sua efetiva participação em
(CLT). A segunda forma de contri- diversos conselhos consultivos e de-
buição são as mensalidades espon- liberativos que formulam diretrizes
tâneas dos associados aos sindicatos de políticas agrícolas, como o Con-
rurais. A maior parcela dos recursos selho Nacional de Política Agrícola
oriundos das contribuições compul- (CNPA), e também em outros con-
sórias – 60% do que é arrecadado, selhos, como o Conselho de Contri-
é destinada aos sindicatos. Do total, buintes, Conselho Nacional de Pre-
20% são repassados ao Ministério vidência Social; Conselho Nacional
do Trabalho e destinam-se ao Fundo de Saúde, Conselho Nacional de Se-
de Amparo ao Trabalhador (FAT). Às guridade Social; Conselho Nacional
Federações cabem 15% dessa mas- do Trabalho; Conselho Nacional do
sa de recursos. A CNA, no topo da Meio Ambiente, Conselho da Em-
pirâmide, detém 5% do total dessas brapa; Conselho da Política do Café;
contribuições. Esses recursos são Conselho de Desenvolvimento da

Capítulo XI • Instituições da Agropecuária 85


Amazônia; Conselho de Desenvol- lhadores rurais assalariados, permanentes ou temporários; dos pequenos
vimento do Nordeste; Conselho do agricultores familiares, proprietários ou não e, ainda, daqueles que traba-
Serviço Brasileiro de Apoio às Micro lham em atividades extrativistas. A CONTAG tem entre as suas prioridades
e Pequenas Empresas; Conselho Na- de luta as ações de apoio à reforma agrária; fortalecimento da agricultura
cional de Agronegócios; Conselho familiar; os assalariados rurais; as questões que envolvem a previdência e
do Serviço Nacional de Aprendi- assistência social, saúde e educação, e o combate ao trabalho Infantil e ao
zagem Rural, Conselho do Instituto trabalho escravo.
Brasileiro de Geografia e Estatística,
entre outros, além de comissões te- ORGANIZAÇÃO DAS COOPERATIVAS BRASILEIRAS - OCB
máticas, grupos de trabalho e pro-
gramas oficiais. A expressão “cooperativismo” significa “cooperação”, ou operar em
conjunto um grupo de pessoas. O cooperativismo é um movimento inter-
CONFEDERAÇÃO NACIONAL nacional, que tem como objetivo básico a busca por uma sociedade jus-
DOS TRABALHADORES RURAIS – ta, livre e fraterna, em bases democráticas, através de empreendimentos
CONTAG que atendam às necessidades reais dos cooperados. No Congresso de 1955
da Aliança Cooperativa Internacional – ACI, realizado em Manchester –
A CONTAG conta com milhares Inglaterra, o conceito de cooperativa ficou explicitado da seguinte forma:
de sindicatos de trabalhadores ru- “Cooperativa é uma associação autônoma de pessoas que se unem, vo-
rais e suas federações estaduais que luntariamente, para satisfazer aspirações e necessidades econômicas, socais
compõem o Movimento Sindical e culturais comuns, por meio de uma empresa de propriedade coletiva e
dos Trabalhadores Rurais do Brasil, democraticamente gerida”. Uma forma simples de mostrar a organização
representando, atualmente, milhões de uma cooperativa é dizer que se trata de uma sociedade de, no mínimo,
de trabalhadores rurais. A CONTAG vinte (20) pessoas físicas, com o objetivo de se dedicar as mesmas ativida-
representa os interesses dos traba- des econômicas (de produção, de consumo, de trabalho etc.), livremente e

86 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


em benefícios de todos.
Anotações

O cooperativismo tem seus aspectos éticos associados a sua organiza-


ção e gestão, que envolve a adesão voluntária e livre e a autogestão demo-
crática pelos membros. No Brasil a entidade maior do cooperativismo é a
Organização das Cooperativas Brasileiras – OCB, que atua em 13 setores
da economia ou ramos cooperativos; a) agropecuário; b) consumo; c) cré-
dito; d) educacional; e) habitacional; f) especial; g) mineral; h) produção; i)
infra-estrutura; j) trabalho; k) saúde; l) turismo e lazer e m) transporte.

Integrante do Sistema Cooperativista Nacional destaca-se o SESCOOP


– Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo que tem por ob-
jetivo principal o ensino de formação profissional e a promoção social dos
empregados de cooperativas e também dos seus cooperados e familiares.

OUTRAS ENTIDADES ASSOCIATIVAS

Há várias outras entidades associativas vinculadas ao setor rural. Sua atu-


ação normalmente está relacionada ao atendimento de interesses de algum
segmento específico do agronegócio. Neste caso há associações de produ-
tores rurais como a Associação Brasileira de Criadores (de zebu, de nelore,
de charolês, de angus, de limousin, de girolando, de cavalos crioulos, de
mangalarga marchador, de camarão, de ovinos, de aves etc.); Associação
Brasileira de Produtores de Maça; Associação Brasileira dos Produtores de

Capítulo XI • Instituições da Agropecuária 87


Algodão; Associação Brasileira de e Exportadora de Carne Suína. Asso- técnica com outros países e institui-
Piscicultores e Pesqueiros; Associa- ciação Brasileira de Marketing Rural; ções de pesquisas internacionais.
ção Brasileira de Citricultores; entre Associação Brasileira do Agronegó-
outras. cio; Associação Brasileira de Frigorí- O Serviço Nacional de Aprendi-
ficos; entre outras. zagem Rural – SENAR – é uma Insti-
Ou associações compostas por tuição de direito privado, paraestatal,
Instituições de ensino,
membros diversos como a Associa- mantida pela classe patronal rural,
pesquisa e extensão
ção Brasileira de Leite Longa Vida; vinculada à Confederação da Agri-
Associação Brasileira de Educação A Empresa Brasileira de Pesqui- cultura e Pecuária do Brasil – CNA e
Agrícola Superior; Associação Brasi- sa Agropecuária – EMBRAPA, que é dirigida por um Conselho Deliberati-
leira da Indústria de Café; Associa- vinculada ao MAPA tem por missão vo, composto por representantes do
ção Brasileira da Indústria do Trigo; viabilizar soluções para o desenvol- governo, da classe patronal rural e
Associação Brasileira de Celulose e vimento sustentável do agronegó- da classe trabalhadora. Sua principal
Papel; Associação Brasileira dos Pro- cio brasileiro por meio de geração, fonte mantenedora é a contribuição
dutores e Exportadores de Frango; adaptação e transferência de conhe- compulsória dos produtores rurais
Associação Brasileira de Turismo Ru- cimentos e tecnologias, em benefício que incide sobre a comercialização
ral; Associação Brasileira de Semen- da sociedade. A Embrapa desenvolve de produtos agropecuários. O obje-
tes e Mudas; Associação Brasileira seus trabalhos através de uma estru- tivo do SENAR é organizar, adminis-
de Buiatria; Associação Brasileira de tura composta por dezenas de cen- trar e executar, em todo território na-
Aqüicultura; Associação Brasileira tros de pesquisa, serviços e unidades cional, a Formação Profissional Rural
de Milho e Sorgo; Associação Brasi- centrais em praticamente todos esta- – FPR e a Promoção Social – PS de
leira da Indústria de Café; Associa- dos da federação. Também mantém jovens e adultos, homens e mulheres
ção Brasileira da Indústria Produtora centenas de acordos de cooperação que exerçam atividades no meio ru-

88 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


ral. A missão do SENAR é desenvol- uma evolução sustentável, contri- Anotações

ver ações de Formação Profissional buindo para o desenvolvimento do


Rural e atividades de Promoção So- país. Se os conceitos de pequena e
cial voltadas para o “homem rural”, micro empresas do SEBRAE forem
contribuindo com sua profissionali- aplicados no campo, a esmagadora
zação, integração na sociedade, me- maioria das empresas rurais se en-
lhoria da qualidade de vida e pleno quadraria no universo de seu pú-
exercício da cidadania. blico alvo. As unidades Sebrae nos
estados e no Distrito Federal têm
O Serviço Brasileiro de Apoio ampla autonomia no desempenho
às Micro e Pequenas Empresas – SE- de suas funções, e contam com uma
BRAE é uma instituição técnica de rede de mais de 500 balcões para
apoio ao desenvolvimento da ativi- prestar informações aos micro e pe-
dade empresarial de pequeno porte, quenos empresários e futuros em-
voltada para o fomento e difusão preendedores.
de programas e projetos que visam
Instituições financeiras
à promoção e ao fortalecimento de
micro e pequenas empresas. Seu As instituições financeiras atuam
propósito é trabalhar de forma estra- no crédito rural brasileiro confor-
tégica, inovadora e pragmática para me normas, em geral, determinadas
fazer com que o universo dos pe- pelo Conselho Monetário Nacio-
quenos negócios no Brasil tenha as nal – CMN. Nestas linhas de crédito
melhores condições possíveis para destacam-se o Banco do Brasil e o

Capítulo XI • Instituições da Agropecuária 89


Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES , que
são os principais agentes financeiros dos programas governam entais de
financiamento do agronegócio.

O crédito rural visa estimular os investimentos rurais, favorecer o opor-


tuno custeio e comercialização da produção e incentivar a utilização de
métodos racionais de produção, visando o aumento de produtividade, à
melhoria do padrão de vida das populações rurais e à adequada defesa do
solo. O crédito de custeio destina-se a cobrir as despesas normais dos ciclos
produtivos. O crédito de investimento destina-se a aplicação em bens e
serviços cujo desfrute se estenda por vários períodos de produção. Por fim,
o crédito de comercialização destina-se a cobrir despesas próprias da fase
posterior a colheita ou a converter em espécie os títulos oriundos da venda
da produção.

Na agricultura destacam-se os seguintes programas de financiamento do


BNDES:
> PRODEFRUTA (Programa de desenvolvimento da fruticultura),
> MODERAGRO (Programa de modernização da agricultura e conser-
vação de recursos naturais),
> PRODEAGRO (Programa de desenvolvimento do agronegócio),
> MODERINFRA (Programa de incentivo à irrigação e à armazena-
gem),
Cleverson Beje

90 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


> PRODECOOP (Programa de desenvolvimento cooperativo para agre-
gação de valor á produção agropecuária), Anotações

> PROPFLORA (Programa de plantio comercial de florestas),


> PROLEITE (Programa de incentivo à mecanização, ao resfriamento e
ao transporte granelizado da produção de leite) e
> MODERFROTA (Programa de modernização de tratores agrícolas e
implementos associados e colheitadeiras).

O BNDES é uma empresa pública federal vinculada ao Ministério do


Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, que tem como missão fi-
nanciar, a longo prazo, os empreendimentos que contribuam para o desen-
volvimento do país. Entre os seus objetivos encontram-se o fortalecimento da
estrutura de capital das empresas privadas, o desenvolvimento do mercado
de capitais, a comercialização de máquinas e equipamentos e o financia-
mento à exportação. Sua parceria com as demais instituições bancárias do
país, distribuídas em todo território nacional, permite a disseminação do cré-
dito, possibilitando um maior acesso aos recursos disponíveis no BNDES.

O Banco do Brasil é uma instituição financeira controlada pelo gover-


no federal que detinha em 2008 mais de 4 mil agências no país. Essa sua
capilaridade em todo o território nacional e suas linhas de financiamento
de crédito rural permite ao banco liderar o volume de recursos aplicados
na agropecuária brasileira. Em todo o agronegócio sua carteira de crédito
somava 60,5 bilhões de reais no terceiro trimestre de 2008.

Capítulo XI • Instituições da Agropecuária 91


Outras instituições, organizações como desenvolver, organizar e ope-
e movimentos sociais racionalizar mercados livres e trans-
O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST teve a sua origem parentes, para negociação de títulos
em 1984 e hoje está presente em todas as unidades da federação. De acordo e/ou contratos que possuam como
com o que está especificado no site da entidade, sua principal atuação é referências: ativos financeiros, índi-
a defesa da reforma agrária e a organização de produtores e trabalhadores ces, indicadores, taxas, mercadorias
rurais sem terra. Ele indica, ainda, que assiste famílias assentadas e suas e moedas, nas modalidades à vista e
atividades através de associações de produção, comercialização e serviços; de liquidação futura.
cooperativas de produção agropecuárias; cooperativas de prestação de ser-
viços; cooperativas regionais de comercialização; cooperativas de crédito; e Neste capítulo foram apresentadas
pequenas e médias agroindústrias. Também gerencia escolas onde desenvol- as missões de algumas instituições re-
ve uma pedagogia específica favorável a lutas massivas pela implantação de levantes para o agronegócio brasileiro,
formas socialistas de organizações políticas, sociais e econômicas no país. para que o participante do Programa
Está associada com a chamada Via Campesina, na América Latina. Empreendedor Rural possa avaliar
melhor as conseqüências positivas e
A BM&FBOVESPA é uma fusão da Bolsa de Valores de São Paulo (BO- negativas resultantes das ações destas
VESPA) e a Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) que opera clearings instituições na promoção do desenvol-
de derivativos, câmbio e ativos. Dentre os derivativos agropecuários estão vimento econômico e social do país.
os contratos de açúcar cristal, etanol, algodão, bezerro, boi gordo, café Para isso, elas devem contribuir para
arábica, café robusta conillon, milho e soja. Nos derivativos financeiros o funcionamento eficiente do setor ru-
estão os contratos de ouro, taxas de câmbio, taxas de juro, índices, títulos ral em seus objetivos de oferecer ali-
da dívida externa, entre outros. Além de ativos de empresas (ações) a bolsa mentos, energia e fibras de qualidade,
também negocia Letras e Notas do Tesouro Nacional. O objetivo maior por preços acessíveis e produzidos de
da bolsa é efetuar o registro, a compensação e a liquidação, física e finan- forma sustentável em suas dimensões
ceira, das operações realizadas em pregão ou em sistema eletrônico, bem econômica, social e ambiental.

92 Programa Empreendedor Rural • Volume 2


Referências
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MINISTÉRIO DO DESENVOLVI- NIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA VOLVIMENTO ECONÔMICO E
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em: <[Link] [Link]/> Acesso em: <[Link] Aces-
Acesso em: dez. 2008. dez. 2008. so em: dez. 2008.

EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUI- CONFEDERAÇÃO DA AGRICULTU- ORGANIZAÇÃO DAS COOPERATI-


SA AGROPECUÁRIA. Disponível RA E PECUÁRIA DO BRASIL – CNA. VAS DO BRASIL. Disponível em:
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Acesso em: dez. 2008. [Link]/> Acesso em: dez. 2008. em: dez. 2008.

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ABASTECIMENTO. Disponível em: DIZAGEM RURAL. Disponível em: ROLOGIA – INMET. Disponível em:
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MINISTERIO DA AGRICULTURA. Dis- MOVIMENTO DOS SEM TERRA. CONTAG. Disponível em: <http://
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BANCO DO BRASIL. Disponível


em: <[Link]> Acesso
em: dez. 2008.

Capítulo XI • Instituições da Agropecuária 93


Sistema Jurídico e
Legislação Agrária1
Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka

Relações interpessoais agrárias prévias (de preço, por exemplo), que

de natureza contratual não podem ser alteradas pela vontade


individual do contratante (contrato de
PARA ENTENDER O CONTRATO adesão); (iv) para compreender que o
que foi contratado deve ser cumprido
Por qual razão se deve procurar entender contrato num Programa como este? pelos contratantes, salvo casos espe-
ciais em que o cumprimento rigoro-
Há razões de grande relevância para que o instituto jurídico do contrato so e total do que foi compromissado
seja analisado num Programa como o PER. As principais razões poderiam ser leve um dos contratantes à situação
assim enumeradas: (i) para que se possa ter melhor acesso também a mais este (não previsível) de prejuízo insupor-
instrumental de realização do projeto dos participantes; (ii) para compreen- tável ou de onerosidade excessiva;
der que na essência de qualquer negócio e de qualquer empreendimento o (v) para poder analisar – sob ponto
contrato está rigorosamente presente; (iii) para saber que os contratos priva- de vista legal – quais situações não
dos, entre as pessoas (físicas ou jurídicas), traduzem a grande chance de livre previsíveis são estas e quando podem
negociação, exceto nos casos em que a lei (no seu perfil maximizado, isto é, ser aplicadas, por meio do exame do
como norma de ordem pública [ou norma cogente, ou norma imperativa], juiz do caso concreto e da correspon-
ou norma cogente, ou norma imperativa) estampe, previamente, as cláusulas dente decisão judicial; (vi) para po-
(que se tornam inegociáveis, portanto), ou quando o mercado tem definições der reconhecer – pelo ponto de vista
econômico – quais são as eventuais
1 Na elaboração do presente capítulo, a autora contou com a colaboração – para as questões relativas às relações
trabalhistas, previdenciárias e tributárias – do advogado e pesquisador, Dr. Ezequiel de Morais (Goiânia/GO).

94
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
conseqüências, para o desenvolvimento do país, advindas destas revisões Anotações
contratuais que a lei entrega à análise pontual do Poder Judiciário; (vii) para,
enfim, poder se ter uma visão geral do ambiente contratual e, com isso, con-
seguir definir melhor quais as perspectivas mais adequadas de um contrato e
de suas cláusulas.

Contrato: sua existência, sua validade e sua eficácia;

O que é, afinal, o contrato? É instrumento muito antigo e presente desde


as mais antigas mostras do relacionamento humano, essencial para a rea-
lização da sociedade, fazendo com que circulem as riquezas. Tem por fi-
nalidade primordial, enfim, a autoregulamentação dos interesses privados,
admitindo, desta forma, a vida dos negócios.

Qual é o perfil jurídico e institucional do contrato? Costuma-se dizer,


do contrato, que ele faz lei entre as partes. Isso quer dizer, singelamente,
que por meio do contrato, as partes contratantes podem definir com gran-
de liberdade (há restrições, que serão examinadas a seguir), priorizando a
vontade dos contratantes. É, na verdade, o maior habitat da autonomia da
vontade humana, no relacionamento jurídico entre os homens. Assim, o
contrato opera-se sobre uma mínima base de exigências, pré-estabelecidas
legalmente, como, por exemplo: (i) as partes que desejam contratar de-

95
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
vem ter capacidade jurídica para fazê-lo, (ii) a vontade que declararão, para retagem matrimonial, entre outros).
a constituição do contrato deve ser livre, não podendo o contratante, por Já a chamada ordem pública, esta
exemplo, sofrer qualquer tipo de coação, (iii) o objeto da negociação deve deve ser entendida, genericamente,
ser lícito (por isso, compra e venda de entorpecentes, por exemplo, é ilícita e como aquele conjunto de normas
esta transação não é juridicamente considerada contrato) e (iv) a forma deve destinadas ao desenvolvimento da
ser a adequada àquele tipo de contrato (por exemplo, para a compra e ven- atividade econômica nacional, bem
da de bens imóveis, se exige escritura pública). Mas, superado este patamar como aquelas que objetivam velar
mínimo de exigências legais, o contrato será, como se disse, o lugar de maior pela efetiva igualdade entre os con-
exercício da liberdade negocial entre os homens, muito embora o exercí- tratantes quando há desequilíbrio
cio desta liberdade não possa ser abusivo, certamente, devendo o contrato (conforme se verá, adiante, neste
respeitar a lei, os bons costumes, a ordem pública, o respeito à finalidade mesmo capítulo).
do contrato e à boa fé dos contratantes. Entende-se por bons costumes a
chamada moral social (por exemplo: são inválidos os contratos contrários às Descrevendo, ainda, o que se
regras gerais da moral sexual, como os contratos de prostituição, os de cor- denomina liberdade de contratar,
Cleverson Beje

96
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
afirma-se que ninguém está obri- Retornando àquela noção antes Anotações
gado a contratar. Decidindo-se, no vista, acerca da base legal mínima
entanto, por contratar, pode acon- de qualquer contrato, é importante
tecer que a liberdade das partes de registrar que não se deve confundi-
escolher as cláusulas contratuais la com esta eventual limitação, ago-
seja limitada pela lei (não em todos, ra referida, à liberdade dos contra-
mas em alguns contratos – escolhi- tantes de livremente estabelecerem
dos pela lei como sendo contratos todo o conteúdo do contrato que
em que as partes possam estar em pretendem realizar. Como já men-
desequilíbrio ou em desigualdade cionado, a base legal mínima diz
sócio-econômicos). Se assim ocor- respeito à capacidade que devem
rer, o conteúdo da cláusula será de- ter os contratantes para efetivamen-
finido por lei, isto é, por norma de te contratar, diz respeito também à
ordem pública (ou norma cogente, absoluta liberdade de suas vontades,
ou norma imperativa), e não pode- no sentido de realizarem o contra-
rá ser modificado pela vontade dos to, diz respeito, ainda, à licitude do
contratantes. Exemplos: o prazo de objeto contratual propriamente dito
duração do contrato nos casos de e diz respeito, finalmente, à forma
contrato de locação urbana, ou de adequada para a sua elaboração. Já
arrendamento rural ou de parceria a limitação ao conteúdo contratual
rural, entre outros exemplos. (que ocorre em alguns contratos),

97
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
esta deriva de lei que – por ter natu- é não. Na verdade, a completude antes referidos, isto é, se hou-
reza de norma de ordem pública, ou de um contrato – quer dizer, a sua ver duas partes (um vendedor
cogente, ou imperativa – determina plena possibilidade de produzir os e um comprador), se as par-
como devam ser certas cláusulas, efeitos que as partes desejavam, tes tiverem dado o seu con-
visando evitar o desequilíbrio sócio- quando contrataram (por exemplo: sentimento para a realização
econômico entre as partes. Por isso, fizeram contrato de compra e venda do negócio (declararam a sua
e em conclusão, é acertado dizer porque um queria vender algo e o vontade), se houver um bem a
que a liberdade de contratar (isto é, a outro desejava comprar exatamente ser vendido e comprado (pro-
decisão acerca de realizar um certo esta mesma coisa) – trafega por três duto agrícola, por exemplo)
contrato) é uma liberdade ilimitada, planos distintos e obrigatórios, quais e se utilizarem a forma ade-
enquanto que a liberdade contratual sejam: (i) o plano da existência, (ii) o quada para a realização deste
(isto é, aquela liberdade de escolher plano da validade e (iii) o plano da contrato (normalmente a for-
o conteúdo das cláusulas contratu- eficácia. ma é livre, salvo nos casos em
ais) é uma liberdade limitada (limita- que a lei exija uma determi-
da exatamente pela chamada norma Explicando, cada um desses três nada forma, como uma escri-
de ordem pública, ou norma cogen- planos, por meio do exemplo de um tura pública, por exemplo);
te, ou norma imperativa). contrato de compra e venda de um
certo bem: > Plano da validade: se com
Outra coisa que se deve anali- a presença desses quatro
sar, nesta primeira visão do contrato > Plano da existência: o con- pressupostos (partes, consen-
como instituto jurídico, é o seguin- trato existirá (vale dizer, terá timento, objeto e forma) o
te: para que um contrato seja váli- ingresso no mundo jurídico) contrato pôde alcançar a sua
do, basta que ele exista? A resposta quando estiverem presentes existência jurídica, para que
aqueles quatro pressupostos

98
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
ele seja válido será preciso que os mesmos quatro pressupostos pos- Anotações
suam atributos tais que os qualifiquem neste outro plano, o plano da
validade. Assim, não basta que tenha partes, mas será preciso que
estas partes sejam capazes de contratar (atributo da capacidade das
partes), assim como será preciso que o consentimento que as partes
emitam seja um consentimento livre (atributo da liberdade do con-
sentimento), sem nenhuma mácula de coação, de erro, de fraude,
entre outros vícios da vontade. Se a vontade apresentar vícios, ou
máculas, o contrato que foi assim realizado será nulo, ou ao me-
nos será anulável, com problemas, então, para conseguir produzir
os efeitos esperados pelos contratantes;

> Plano da eficácia: desta forma, se os contratantes forem capazes,


se o consentimento deles for livre, se o objeto do contrato for lícito
e se a forma, para aquele contrato, for adequada, já se saberá que
o contrato existe e é válido, juridicamente. Mas, aqui, se faz no-
vamente a pergunta: basta que o contrato exista e que seja válido
para que ele, automaticamente produza os seus efeitos? A resposta
também é não, uma vez que a produção desses efeitos dependerá,
em algumas ocasiões, da ocorrência de certos acontecimentos, ou
circunstâncias, que admitam que isso aconteça. Assim, por exem-
plo, se o contrato de compra e venda (que nos serve de exemplo)
estiver submetido à ocorrência de um acontecimento futuro e in-

99
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
certo (chama-se condição, em direito), os efeitos O princípio da função social do contrato
finais esperados daquele contrato (efetivamente
vender/comprar o bem) dependerão da ocorrên- Quando se quer, em direito, descrever princípios –
cia daquele acontecimento. Por exemplo: vendo- como agora, relativamente aos princípios contratuais – a
lhe tal coisa se você ganhar na loteria esportiva. razão principal reside justamente na infastável importância
Tudo neste contrato exemplificado estava perfei- deste tema na construção de todo a edificação jurídica.
to, nos planos da existência e da validade, mas,
se não se produzir aquele acontecimento (ganhar Os princípios são as mais significativas normas de
na loteria esportiva), o contrato permanecerá sem todo o direito e, por isso, fundamentam todas as demais
a produção final de seus efeitos. regras legais que o legislador elabora, bem como orien-
tam as decisões prolatadas pelo juiz. A justiça e a eqüida-
Para melhor compreensão (e fixação) desses três de são os mais valiosos e gerais dos princípios jurídicos,
planos de completude do contrato, poder-se-ia visuali- e são tão soberanos que não há necessidade de serem
zá-los como se fossem degraus de uma escada, devendo enunciados pelo legislador para que sejam aplicados;
cada degrau ser escalado por sua vez para, só então, ser aplicam-se por si só (por isso são princípios). Ao lado dos
possível passar para o próximo degrau. Assim: mega-princípios, se assim se puder chamá-los, há os prin-
EFICÁCIA cípios que são aplicáveis a certas partes do direito, como,
VALIDADE O acordo, enfim,
por exemplo, os princípios contratuais. São eles: (i) prin-
EXISTÊNCIA Capacidade pode produzir
Partes
Liberdade
cípio da autonomia privada; (ii) princípio da supremacia
seus efeitos.
Consentimento
Licitude da ordem pública; (iii) princípio da obrigatoriedade da
Objeto convenção; (iv) princípio da relatividade da obrigação
Figura 12.1
contratual; (v) princípio da função social do contrato; e
(vi) princípio da boa-fé objetiva nos contratos.

100
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Destacaremos, com maior ênfase, o princípio da função social do con- Anotações
trato, por ser o de maior interesse para os contratos agrários, que serão exa-
minados mais adiante. No entanto, daremos uma breve notícia de cada um
dos demais princípios, antes. Assim, por princípio da autonomia privada se
entende aquela liberdade que as partes têm para disciplinar seus interesses
privados como melhor lhes aprouver. Nota-se, portanto, que a autonomia
privada decorre do direito fundamental à liberdade. Mas esta liberdade, no
entanto, não é absoluta, e tem como limitação o interesse público. Desta
forma, e à face do princípio da supremacia da ordem pública, embora as
partes tenham a liberdade de contratar, deverão obedecer às questões de
natureza social, moral e bons costumes (conforme já mencionado ante-
riormente), a exemplo das limitações impostas por normas de ordem pú-
blica (ou cogentes, ou imperativas), contidas em leis especiais como a Lei
do Inquilinato, o Código de Defesa do Consumidor, ou – segundo o que
interessa prontamente agora – o Estatuto da Terra (e a legislação que o re-
gulamenta), no que diz respeito aos contratos agrários de arrendamento e
de parceria rural. Já o princípio da obrigatoriedade da convenção mostra
que os contratos nascem para ser cumpridos. Dito de outra forma: significa
que os contratantes (que estiveram livres para contratar e para assumir ris-
cos), a partir do momento em que celebram um contrato, estão obrigados a
cumprir as obrigações que são dele derivadas, uma vez que, em princípio,
não é possível alterar os termos do contrato pactuado, salvo se as duas
partes decidirem fazê-lo, estruturando, assim, uma espécie de intangibili-

101
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
dade do conteúdo contratual (adiante veremos exceções a esta afirmação, Não se encontra eliminado, neste
no estudo da chamada revisão contratual). Quanto ao princípio da relativi- dispositivo legal de alcance consti-
dade da obrigação contratual, o que ele determina é que apenas as partes tucional, o princípio da autonomia
contratantes estão obrigadas ao cumprimento do contrato. O contrato, ao contratual, mas atenua ou reduz o
menos em princípio, diz respeito somente às pessoas que contrataram, não alcance deste princípio quando pre-
aproveitando, nem prejudicando terceiros, razão, então, pela qual, ele vin- sentes interesses metaindividuais ou
cula exclusivamente as partes que nele intervieram. Já o princípio da boa-fé interesse individual relativo à digni-
objetiva implica na observância dos preceitos de lealdade e de respeito à dade da pessoa humana.
confiança que são gerados em todas as relações inter-humanas e que devem
ser preservados em todo o percurso contratual, quer dizer, durante toda a Sob duas visões distintas é pos-
sua duração, mas também mesmo antes da sua celebração (quando as par- sível examinar o papel e a aplicabi-
tes ainda pré-negociam), e ao término de sua vigência. lidade do princípio da função social
do contrato: (i) ponto de vista da
Interessa, aqui, estudar mais detalhadamente, na medida do possível, o concepção liberal dos contratos e (ii)
último dos princípios mencionados, isto é, o princípio da função social do ponto de vista da concepção social
contrato. A inserção deste princípio no Código Civil, em 2002, representou dos contratos.
a mais importante inovação, no campo contratual. O objetivo do legislador
foi o de subordinar o exercício da liberdade contratual aos ditames da socia- Segundo o Professor Fernando
lidade, sem perder de vista a necessária proteção aos interesses individuais. Curi Peres – e sob o ponto de vista
Por meio desse princípio e de seu comando, buscou-se conciliar a tutela dos da concepção liberal, é possível di-
interesses dos contratantes com os interesses da coletividade. zer que o princípio da função social
dos contratos insere-se como um dos
O art. 421 do Código Civil brasileiro prescreve que a liberdade de con- novos princípios sociais, mostrando-
tratar será exercida em razão e nos limites da função social do contrato. se em confronto com os princípios

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Programa Empreendedor Rural • Volume 2
liberais clássicos (liberdade contra- o que é contratado é cumprido, os Anotações
tual, relatividade dos efeitos somen- custos de negociação são menores e
te às partes contratantes e pacta sunt a eficiência dos negócios é aumen-
servanda = os contratos devem ser tada. Mais recentemente no Brasil,
cumpridos). Pela visão liberal clás- segundo a visão liberal, um grupo
sica, os contratos, resultado da livre de pessoas que professa uma visão
expressão da vontade das partes, de “socialidade” (conceito indefini-
devem ser, sempre, cumpridos. Este do), já que o socialismo deixou de
é um dos casos típicos de institui- apelar à consciência da maioria das
ções não naturais – para os quais pessoas, conseguiu introduzir na
não existem padrões ou exemplos Constituição Brasileira de 1988 o
na natureza – que o gênio humano, preceito segundo o qual os contra-
ou sua cultura, criou e incorporou tos, tal como a posse da terra, teriam
como valor ético fundamental na sua realização condicionada ao seu
maioria das sociedades. O cumpri- uso, de forma que a sua “função so-
mento obrigatório dos contratos foi cial” fosse assegurada. É a mesma
identificado como requerimento efi- angústia de indivíduos que sonham
ciente, pelos diferentes povos e em com o conceito de “preço justo”
diversas épocas da história humana, que alguma fórmula mágica permi-
na produção de riquezas e no de- tiria ao magistrado fixar. O proble-
senvolvimento econômico, político ma com essa nova exigência legal é
e social dos diversos agrupamentos que, tal como acontece com a “fun-
humanos. Se as pessoas sabem que ção social da posse da terra”, nin-

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Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
guém sabe o que é a “função social alocação menos eficiente dos fatores fica a sua proteção jurídica. Assim,
dos contratos”. E, provavelmente, tal de produção de que dispõe a socie- o contrato deve ser interpretado de
como aconteceu com a exigência da dade e, conseqüentemente, esta terá acordo com a concepção do meio
“função social” no caso da posse da menos recursos (produtos e serviços) social onde está inserido, não poden-
terra, alguma regra esdrúxula será para consumir do que aconteceria do acarretar onerosidade excessiva às
criada para que os contratos possam na ausência daquelas regras. partes contratantes, garantindo que a
ser enquadrados no grupo dos que igualdade entre elas seja respeitada,
“satisfazem as funções sociais dos De acordo com a visão da con- mantendo as partes no mesmo estágio
contratos”. Como a lei, neste caso, cepção social dos contratos, o enfo- de equilíbrio em que estavam, quan-
não especifica o que é função social que é diferente (partilho, pessoalmen- do contrataram, mantendo a justiça
dos contratos, sua aplicação prática te, deste ponto de vista): mesmo não contratual e re-equilibrando a avença
será decidida pela jurisprudência perdendo de vista que a livre iniciati- onde houver a preponderância de um
(as decisões padrões dos tribunais). va seja um dos valores fundamentais contratante sobre o outro. Valoriza-se
Antevendo o que deverá acontecer, do Estado brasileiro, e que o contrato a eqüidade, a razoabilidade, o bom
por semelhança ao caso da função consiste numa importante manifes- senso, afastando o enriquecimen-
social da posse da terra, pode-se tação da livre iniciativa (e, por isso, to sem causa (proibido pela própria
esperar procedimentos regulatórios a sua tutela é relevante para toda a legislação), tudo porque o contrato
que irão dificultar o pleno funciona- coletividade), ainda assim, o contra- não pode deixar de sofrer a influên-
mento dos mecanismos de mercado, to não pode servir de instrumento de cia decisiva do tipo de organização
introduzindo ineficiências na melhor opressão do fraco pelo forte, uma vez político-social a cada momento afir-
alocação de recursos da sociedade. que, se assim for, o contrato não es- mada. O contrato, assim, muda a
Em outras palavras, provavelmente tará promovendo a adequada criação sua disciplina, as suas funções, a sua
serão criadas regras que levarão à e distribuição de riquezas que justi-

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Programa Empreendedor Rural • Volume 2
própria estrutura, segundo o contexto cidos por este Código para assegurar Anotações
econômico-social em que está inseri- a função social da propriedade e dos
do. A função social do contrato, hoje, contratos”.
é um preceito de ordem pública, tor-
nando-se inválida a avença que não A função social do contrato tem
o atender, que o contrariar (mesmo dupla eficácia, no sentido externo e
que o contrato tenha sido celebrado no sentido interno, sendo que o sen-
antes da vigência do Código Civil, tido externo encontra-se relacionado
em 2003), conforme determina a pró- ao ambiente no qual se encontram
pria norma jurídica – art. 2035 deste situados outros interesses que vão
Código – que determina: “A validade além dos interesses dos contratantes,
dos negócios e demais atos jurídicos, enquanto que o sentido interno en-
constituídos antes da entrada em vi- contra-se relacionado exclusivamen-
gor deste Código, obedece ao dispos- te às partes contratantes. Explicando
to nas leis anteriores, referidas no art. melhor: (i) segundo a função social
2.045, mas os seus efeitos, produzi- externa do contrato: admite-se que o
dos após a vigência deste Código, aos contrato não deve dizer respeito ape-
preceitos dele se subordinam, salvo nas às partes contratantes, mas leva
se houver sido prevista pelas partes em consideração, além desses inte-
determinada forma de execução. Pa- resses privados, os interesses sociais
rágrafo único: Nenhuma convenção gerais em jogo, condizentes com o
prevalecerá se contrariar preceitos de bem comum. A interação entre inte-
ordem pública, tais como os estabele- resses sociais e interesses individuais

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Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
determina a necessidade de respeitar CONTRATOS DE
o relacionamento que deve existir ARRENDAMENTO RURAL
entre as próprias partes contratuais, E DE PARCERIA RURAL
mas também o relacionamento que
extrapola esses interesses individuais Os contratos agrários: introdução
(conjugados, ou não) e alcança – no
mais das vezes – interesses de tercei- Contratos agrários são aqueles
ros não-contratantes; (ii) segundo a que têm por objeto o uso ou a posse
função social interna do contrato: por temporária da terra, com a finalida-
este prisma, a função social do contra- de de nela ser exercida a atividade
to opera de maneira mais restrita aos agrária (de agricultura ou de pecuá-
interesses dos próprios contratantes, ria). São eles, os contratos de arren-
procurando preservar, antes de tudo, damento rural e de parceria rural.
a equivalência material das presta-
ções contratais, quer como fonte do Disciplinam a matéria as seguin-
equilíbrio social entre as partes, quer tes leis:
como diretriz de trocas econômicas > Estatuto da Terra – Lei
justas e eqüitativas (finalidade primei- 4.504/1964 (artigos 92 ao 96).
ra do contrato), quer como – por isso > Lei 4.947/1966 (artigos 13 ao
mesmo – fundamento e esteio da pos- 15).
sibilidade de revisão judicial destes
> Decreto (regulamentador)
mesmos contratos (conforme se verá, 59.566/1966.
neste capítulo, mais adiante).
> Lei 11.443/2007.
Cleverson Beje

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Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Todos os contratos agrários re- de obra permanente ou temporária), Anotações
gem-se por estas normas, cuja apli- locação de pastos, compra e venda de
cação e observância são obrigatórias tratores ou de insumos etc.).
em todo o território nacional, por
serem normas de ordem pública (ou Apenas os contratos agrários fi-
cogentes, ou imperativas). Por isso, cam adstritos à inclusão obrigatória
são normas irrenunciáveis e garan- de cláusulas legalmente previstas
tem, de todo modo, a conservação (normas de ordem pública, ou co-
e observância de todos os direitos gentes, ou imperativas) que têm, pre-
e vantagens nelas instituídas. Qual- cipuamente, dupla função: (i) prote-
quer estipulação contratual que ger as partes contratantes (buscando
contrarie estas normas será nula de a mantença do equilíbrio contratual)
pleno direito e não gerará nenhum e (ii) proteger os recursos naturais
efeito. (buscando a conservação do meio
ambiente).
Não confundir contratos agrários
(arrendamento e parceria) com outros As cláusulas obrigatórias estão
contratos que sejam firmados no agro previstas no art. 13 do Decreto n.
(mais adiante, ainda neste capítulo, se 59.566/66. As principais cláusulas
dará notícia sobre estes outros contra- são as seguintes (entre outras): (i)
tos), mas que não envolvam propria- relacionada à conservação dos re-
mente a finalidade de exercício da ati- cursos naturais; (ii) relacionada à
vidade agrária (ex.: comodato, locação estipulação de prazos mínimos; (iii)
de serviços agropecuários (como mão

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Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
relacionada às exigências de práticas agrícolas; (iv) re- ceiros; (ii) irrenunciabilidade dos direitos garantidos por
lativas à fixação de preço do arrendamento; (v) relativas lei; (iii) indenização pelas benfeitorias úteis e necessá-
à fixação das condições de partilha dos frutos, produtos rias, podendo permanecer no imóvel e dele usufruir en-
ou lucros obtidos na parceria; (vi) relativas à observân- quanto não for indenizado (também são indenizáveis as
cia das normas dirigidas à renovação ou prorrogação benfeitorias voluptuárias, desde que autorizados previa-
dos contratos; (vii) relativas à observância das normas mente pelo arrendador).
conducentes às causas de extinção ou rescisão contra-
tual; (viii) relativas à observância das normas determi- São deveres do arrendatário: (i) pagar pontualmente
nantes do direito e das formas de indenização por ben- o valor do arrendamento, cumprindo as obrigações tra-
feitorias; (ix) relativas à observância de disposições do balhistas e previdenciárias pertinentes; (ii) conservar o
Código Florestal. imóvel, assim como o recebeu; (iii) preservar a fauna, a
flora e os mananciais hídricos; (iv) manter o imóvel livre
Contrato de arrendamento rural de invasões e turbações.

Este contrato é celebrado entre o proprietário (arren- Os prazos legais mínimos para o arrendamento ru-
dante ou arrendador), que cede o uso do imóvel rural, ral: (i) três anos para os casos de arrendamento em que
no todo ou em parte, a outro (arrendatário), que exercerá ocorra atividade de exploração de lavoura temporária
a atividade agrária (exploração agrícola, pecuária, agro- ou de pecuária de pequeno e médio porte; (ii) cinco
industrial, extrativa ou mista) e explorará a atividade anos para os casos de atividade de exploração de lavou-
econômica, por certo prazo e por certo preço, atenden- ra permanente ou de pecuária de grande porte;(iii) sete
do às disposições legais sobre cláusulas obrigatórias. anos para os casos de atividade de exploração florestal.

São direitos do arrendatário: (i) preferência na aqui- Se o arrendamento rural (assim como também a par-
sição do imóvel, em igualdade de condições com ter- ceria rural) for contratado por um prazo maior que dez

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Programa Empreendedor Rural • Volume 2
anos, será necessário que o cônjuge direitos e obrigações do seu próprio Anotações
do arrendador (ou do parceiro outor- contrato de arrendamento. Deve,
gante) dê a sua anuência. obrigatoriamente, ser autorizado pelo
arrendante do contrato original.
Dá-se a extinção do arrenda-
mento rural (art. 26 do Decreto Contrato de parceria rural
59.566/66) nas seguintes situações:
(i) pelo término do prazo do contra- Este contrato é celebrado en-
to e do de sua renovação; (ii) pela tre o proprietário do imóvel rural
retomada; (iii) pela aquisição de gle- (parceiro-outorgante), que cede o
ba arrendada, pelo arrendatário; (iv) uso específico do imóvel rural a ou-
pelo distrato ou rescisão do contrato; tro (parceiro-outorgado), por tempo
(v) por motivo de força maior, que determinado ou não, incluindo ou
impossibilite a execução do contra- não as benfeitorias, outros bens ou
to; (vi) por sentença judicial irrecor- facilidades, com o objetivo de nele
rível; (vii) pela perda do imóvel rural; ser exercido a exploração agrícola,
(viii) pela desapropriação parcial ou pecuária, agro-industrial, extrativa
total do imóvel rural e (ix) por qual- vegetal ou mista, e/ou entrega ani-
quer outra causa prevista na lei. mais para cria, recria, invernagem,
engorda ou extração de matérias
Subarrendamento é o contrato primas de origem animal, median-
pelo qual o arrendatário transfere te partilha de riscos (caso fortuito
a outrem, no todo ou em parte, os ou força maior) do empreendimen-

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Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
to rural e dos frutos e produtos ou moradia; (iv) 40%, caso o parceiro- A chamada falsa parceria retrata
lucros havidos, conforme previsão e outorgante concorra com o conjunto uma situação na qual o proprietário
percentuais da lei (art. 96, VI do Es- básico de benfeitorias, constituído concorre com a terra, a moradia, as
tatuto da Terra). especialmente de casa de moradia, sementes, os animais, as máquinas,
galpões, banheiro para gado, cercas, os semoventes, os inseticidas e, ain-
Os prazos mínimos para a parce- valas ou currais, conforme o caso; da, com algum dinheiro. De outro
ria rural são os mesmos previstos no (v) 50%, caso o parceiro-outorgante lado, o outro contratante participa
contrato de arrendamento, porém, concorra com a terra preparada, a apenas com o seu trabalho, que será
nesta modalidade contratual não há moradia, o conjunto básico de ben- remunerado pelo proprietário por
pagamento de arrendamento e sim feitorias acima referido e mais as meio de salário (muitas vezes, me-
divisão dos frutos, produtos, lucros máquinas e implementos agrícolas, nor que o salário-mínimo), pago par-
e riscos. Na parceria há uma socie- sementes, animais de tração, e na te em dinheiro e parte em percentual
dade peculiar. Diferentemente do parceria pecuária, com animais de dos frutos e produtos da exploração
arrendamento, não há locação, nem cria em proporção superior a 50%, agrária. A direção, o custeio e os
aluguel. Partilham-se lucros e riscos do número total de cabeças objeto riscos do empreendimento estarão
e a lei fixa os percentuais desta par- de parceria; (vi) 75%, nas zonas de sob exclusiva responsabilidade do
tilha, da seguinte maneira: (i) 20%, pecuária ultra-extensiva em que fo- proprietário do imóvel rural, de tudo
quando o parceiro-outorgante con- rem os animais de cria em propor- isso não participando o outro con-
correr só com a terra-nua; (ii) 25%, ção superior da 25%, do rebanho e tratante, o trabalhador. Este contra-
quando o parceiro-outorgante con- onde se adotem a meação do leite e to, portanto, não é um contrato de
correr com a terra preparada; (iii) a comissão mínima de 5%, por ani- parceria rural, mas sim um contrato
30%, quando o parceiro-outorgante mal vendido. de locação de serviços (que deveria
concorrer com a terra preparada e a ser regido pelas leis trabalhistas e

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Programa Empreendedor Rural • Volume 2
previdenciárias), verdadeira relação empregatícia. Encontrados tais contra- Anotações
tos, assim mascarados como “parceria”, o Poder Judiciário lhes dará o tra-
tamento adequado, passando a considerá-los e tratá-los como contratos de
trabalho, regidos pela legislação trabalhista e previdenciária.

Para que se configure exatamente um contrato de parceria rural, então,


devem estar presentes as seguintes e principais características: (i) diversida-
de de deveres e atribuições entre parceiro-outorgante e o parceiro-outor-
gado; (ii) participação por ambos os contratantes-parceiros nos resultados,
partilhando os riscos do empreendimento, inclusive por caso fortuito e por
força maior; (iii) deve ser relação assemelhada à sociedade de capital e in-
dústria; (iv) deve ter finalidade econômica.

Nota: É aconselhável que o contrato da parceria rural seja feito por


escrito (embora valha também o contrato verbal, mas cuja prova
será sempre mais difícil de ser realizada) e que seja registrado no
Registro Imobiliário da circunscrição competente, acompanhado do
Certificado de Cadastro de Imóvel Rural (CCIR), expedido pelo IN-
CRA, comprovante de pagamento do Imposto Territorial Rural (ITR)
e da Certidão Negativa do IBAMA, com a finalidade de que terceiros
interessados não aleguem, no futuro, desconhecimento da avença e,
tampouco, boa-fé.

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Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
São deveres dos contratantes- ria: são as benfeitorias que se destinam à conservação do imóvel
parceiros: qualquer dos contratantes rural ou que evitem que ele se deteriore. Exemplos: o reparo de um
que não cumprir as obrigações deri- telhado, o conserto de infiltrações etc.; (ii) benfeitoria útil: são obras
vadas do contrato de parceria rural que aumentam ou facilitam o uso do imóvel. Exemplos: a construção
será constituído em mora, por meio de um curral, a instalação de cercas protetora etc.; (iii) benfeitoria
de notificação judicial ou extrajudi- voluptuária: são as obras que tornam o imóvel mais bonito ou agra-
cial. Não ocorrendo o cumprimento dável, ou seja, são obras de mero deleite ou recreio, não aumentando
da obrigação reclamada no prazo nem facilitando o uso do imóvel rural, ainda que sejam de elevado
notificado, dar-se-á a rescisão do re- valor. Exemplos: a construção de uma piscina, obras de jardinagem
ferido contrato agrário. e de decoração etc.

Quanto à indenização por ben- As benfeitorias necessárias feitas pelo parceiro-outorgado (ou pelo arren-
feitorias, o art. 24 do Decreto n. datário, no caso de contrato de arrendamento), ainda que não tenham sido
59.566/66 preceitua que são indeni- autorizadas pelo parceiro-outorgante (ou pelo arrendante ou arrendador, no
záveis as benfeitorias necessárias e/ caso de contrato de arrendamento), são indenizáveis e produzem, por con-
ou úteis que tenham sido realizadas seqüência, o chamado direito de retenção (a favor do parceiro-outorgado
no imóvel rural pelo parceiro-outor- ou do arrendatário, se for o caso, até que sejam efetivamente indenizadas.
gado (e também pelo arrendatário,
se o contrato for de arrendamento), Nota: É necessário que o parceiro-outorgado (ou o arrendatário) no-
no momento da extinção ou rescisão tifique o parceiro-outorgante (ou o arrendador) antes de realizar a
da relação contratual. benfeitoria necessária. Mas, se este não a autorizar, e se os danos
de sua ausência puderem comprometer o uso normal do imóvel, o
Nota: são espécies de benfei- parceiro-outorgado poderá realizá-las, mediante três orçamentos ini-
torias: (i) benfeitoria necessá-

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Programa Empreendedor Rural • Volume 2
ciais, guardando as notas ficais e os recibos, para vê-las indenizadas, Anotações
no futuro.

As benfeitorias úteis só serão indenizadas se houver prévia autorização


do parceiro-outorgante (ou do arrendador, se o contrato for o de arrenda-
mento) para que possam ser executadas. Se autorizadas darão ao arrendatá-
rio ou parceiro-outorgado o direito de reter o imóvel até o recebimento dos
valores comprovados.

As benfeitorias voluptuárias não são indenizáveis e não geram, em con-


seqüência, o direito de retenção do imóvel.

OUTROS CONTRATOS

Há muitos outros contratos que são realizados no agro e que não são,
exatamente, os contrários agrários (pois que estes são apenas os contratos
de arrendamento rural e de parceria rural), e que não estão regidos pela
legislação agrária de natureza cogente, como aqueles. Regem-se pelas nor-
mas do Código Civil, da legislação extravagante, ou da legislação especial,
em alguns casos, como o Código de Defesa do Consumidor.

Dentre tantos, destacam-se os seguintes contratos, que serão apresen-


tados apenas, como notícia e orientação mínima, uma vez que os mais

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Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
destacados contratos (na área das re- o bem em empréstimo denomina-se bem for solicitado pelo comodante,
lações privadas comuns, excluídos, comodante e aquele que toma em- desde que tenha passado o tempo
portanto os contratos de trabalho – prestado denomina-se comodatário. necessário para o uso devido.
que serão examinados mais adian- As obrigações do comodante são,
te, em outro momento deste mesmo genericamente, as seguintes: (i) não Locação de serviços
capítulo –, os contratos bancários, pedir a devolução do bem antes do
e outros que não pertencem à área escoamento do prazo contratual ou, A locação ou prestação de ser-
mencionada. Vejamos: se não houver prazo fixado, não an- viços é o contrato em que uma das
tes de permitir ao comodatário o uso partes (prestador) se obriga para com
Comodato esperado; (ii) indenizar o comoda- a outra (tomador) a fornecer-lhe a
tário por benfeitorias úteis e neces- prestação de uma atividade, median-
Este contrato é regido pelo Códi- sárias (art. 1219 do Código Civil). te remuneração. É, assim, toda espé-
go Civil (artigos 579 ao 585) e retrata As obrigações do comodatário são, cie de atividade ou trabalho lícito
um empréstimo que transfere tem- genericamente, as seguintes: (i) con- que seja contratada mediante retri-
porariamente a posse direta de bens servar e cuidar do bem emprestado buição. Este contrato não abrange as
infungíveis (aqueles que não podem como se fosse seu; (ii) usar o bem de relações de emprego e outros servi-
ser substituídos por outros, de igual forma correta, de acordo com o con- ços que são regulados por legislação
qualidade e quantidade), móveis ou trato ou com a natureza do bem; (iii) específica, isto é, a legislação tra-
imóveis, sendo absolutamente gra- indenizar o comodante pela perda balhista (contrato de trabalho). Bem
tuito, quer dizer, não há contrapres- do bem, especialmente nos casos em por isso, sua regulamentação se en-
tação pelo empréstimo (se houver que tenha agido com negligência, contra sob as regras do Código Civil,
remuneração, não se trata mais de com imprudência ou com imperícia; e não da legislação agrária propria-
contrato de comodato, mas sim de (iv) restituir o bem na data apraza- mente dita, aquela que regulamenta
contrato de locação). Aquele que dá da ou, se não houver data, quando o os contratos de arrendamento e de

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Programa Empreendedor Rural • Volume 2
parceria, por exemplo. Se a contratação estiver vinculada a tempo deter- Os contratos agrários típicos,
minado ou ao resultado do serviço, o prestador não poderá se ausentar, ou como se disse antes, são o arrenda-
despedir-se, sem justa causa, antes de preenchido o tempo, ou concluída mento e a parceria rurais e ambos
a obra. Diferente da atividade de produção ou fabricação, serviço é a ati- são disciplinados pelo Estatuto da
vidade econômica da qual não resulta um produto tangível. Por exemplo, Terra e pelo Decreto 59.566/66,
a atividade de transporte e atividade exercida pelos profissionais liberais. que os regulamentou. Já se anotou,
Excluem-se da relação dos serviços que podem ser prestados, sob a égide exaustivamente, que tais contratos
deste contrato, então, todos os serviços regulados pela legislação trabalhis- obedecem a normas rígidas (normas
ta, pelo código do consumidor ou por outras leis especiais. de ordem pública, cogentes, impe-
rativas) que estão acima da vontade
Locação de pastos das partes. [...]

Segundo Augusto Ribeiro Garcia, “a locação de pastos é uma modali- “A diferença entre a locação
dade contratual praticada com muita assiduidade em todo o Brasil. É um de pastos e o arrendamento rural”
velho costume praticado principalmente entre vizinhos nos períodos de es- – prossegue Augusto Ribeiro Gar-
cassez das pastagens. A maioria deles é feita verbalmente e por períodos cia – “está exatamente aqui. Arren-
curtos, em geral não ultrapassando a um ou dois anos. No Rio Grande do damento rural e locação de pastos
Sul, onde a falta de pastos é mais constante, esse tipo de contrato tem o não são a mesma coisa, posto que
nome de pastoreio. Só que lá, ele é praticado com maior intensidade e são regidos por leis diferentes. O ar-
abrange outras modalidades. Algumas se assemelham à parceria pecuária. rendamento é regido pela legislação
Isto porque ela envolve também a cria, recria e engorda. E, neste caso, agrária e a locação de pastos pelo
realmente, configura-se uma parceria. Juridicamente, a locação ou arren- Código Civil. O contrato de arren-
damento de pastos é um contrato agrário atípico, porque não foi abrangido damento abrange o imóvel e todos
pela legislação agrária”. os seus acessórios. A locação recai

115
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
apenas sobre os pastos, diz respeito a um número determinado de cabeças de gado (o que não acontece no ar-
rendamento) e tem sempre um caráter emergencial. E isso tem conseqüências significantes, que podem acarretar
complicações de ordem prática muito relevantes para as partes. Por exemplo, imagine-se que um arrendante/lo-
cador quis socorrer o vizinho e fez uma locação para apenas seis meses; ao final do período, ele quer o pasto de
volta, mas o locatário não retira o gado do pasto, alegando que a lei assegura a sua permanência, ali, pelo prazo
mínimo de três anos”. Contudo, a solução correta para esta hipótese será a aplicação da legislação civil e não da
legislação agrária, e o vizinho/locador poderá ser despejado rapidamente. “Para se evitar situação como essa, o
locador de pastagens precisa tomar muito cuidado na contratação”, adverte o mesmo autor. “Isto porque tanto a
doutrina como a jurisprudência são majoritariamente favoráveis ao reconhecimento da locação de pastos como
arrendamento rural. Soma-se a isso o fato de a maioria dos juízes ter formação civilista.” (in Revista DBO, março
de 2004 – <[Link]/revistadbo> e <[Link]

A REVISÃO JUDICIAL DOS CONTRATOS

O que é revisão judicial dos contratos?

Trata-se da intervenção do Estado, por meio da figura do juiz, na esfera e conteúdo de contrato já existente – sem-
pre a pedido de uma das partes contratantes – com a finalidade de alterar ou expurgar certa cláusula, ou para reduzir a
carga financeira que nela se contém, operando a revisão judicial destas convenções estabelecidas entre particulares.

Em que se baseia e fundamenta esta possibilidade de revisão judicial de contratos? A idéia de fundo de tal
possibilidade de revisão judicial estampa-se num eventual desequilíbrio contratual, produzido depois que o con-
trato foi formado, e provocando uma quebra na imprescindível necessidade de justa equivalência material entre os
contratantes obrigados.

116
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Anotações
Nota: Os dispositivos legais que, conjugados podem admitir a revisão
judicial dos contratos são os seguintes:

> Art. 317 do Código Civil – Quando, por motivos imprevisíveis, so-
brevier desproporção manifesta entre o valor da prestação devida e
o do momento de sua execução, poderá o juiz corrigi-lo, a pedido
da parte, de modo que assegure, quando possível, o valor real da
prestação.

> Art. 478 do Código Civil – Nos contratos de execução continuada ou


diferida, se a prestação de uma das partes se tornar excessivamente
onerosa, com extrema vantagem para a outra, em virtude de acon-
tecimentos extraordinários e imprevisíveis, poderá o devedor pedir a
resolução do contrato. Os efeitos da sentença que a decretar retroa-
girão à data da citação.

Esta possibilidade de alteração (pelo juiz) do conteúdo de um contra-


to já existente, conforme se vê hoje, sempre existiu? Não. Antes de existir
esta possibilidade legal (artigos 317 e 478 do CC) de se pleitear a revisão
de um contrato – o que poderá ser atendido pelo juiz se os requisitos e os
pressupostos mencionados na lei estiverem presentes –, os contratos não
podiam ser revistos, de modo que aquilo que havia sido convencionado

117
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
pelas partes deveria, de qualquer forma, ser cumprido. um contrato cujo cumprimento se encontre estendido
A força obrigatória dos contratos superava qualquer no tempo, como, por exemplo, uma compra e venda
chance de reformulação judicial das cláusulas estipula- em várias prestações); (ii) que tenha ocorrido um evento
das pelos contratantes, ainda que desequilibrado viesse superveniente e imprevisível (um fato que ocorra depois
a se tornar o contrato, onerando excessivamente uma da celebração do contrato – superveniente, portanto – e
das partes e admitindo, em contrapartida, exagerados que tenha a caracterização de ser imprevisível – extra-
benefícios para a outra parte. Ex.: alguns dos contratos ordinário, portanto – ou seja, que não tenha podido ser
de venda de soja estipulados entre os agricultores e os previsto pelas partes contratantes, ao tempo da celebra-
entrepostos de grãos (especialmente nos anos de 2005 ção do contrato); (iii) que tenha se dado, por conseqü-
e 2006). ência, a verificação de uma onerosidade excessiva para
uma das partes versus uma vantagem exagerada para
Quais são os requisitos e quais são os pressupostos que a outra parte (conceitos jurídicos abertos e certamente
devem estar presentes para que, num certo contrato, o de difícil alcance e construção, tarefa esta que estará a
juiz pudesse operar a sua revisão judicial? cargo do juiz que examina o caso concreto); (iv) apenas
em casos reais – contratos já celebrados e que, durante
Em primeiro lugar, é preciso entender que um con- a sua execução (cumprimento das obrigações assumi-
trato só será judicialmente revisto se ele se apresentar das pelos contratantes) tenham ocorrido as circunstân-
desequilibrado ou se ele se conformar como injusto. A cias acima retratadas – é que poderá, eventualmente,
identificação da justiça ou injustiça, do equilíbrio ou de- produzir-se a revisão da avença pelo juiz que examinar
sequilíbrio no âmago de um contrato já existente deve o caso concreto, sob todos os aspectos de sua própria
levar em conta, necessária e obrigatoriamente, a presen- identificação, buscando manter o contrato sob a sua for-
ça de alguns requisitos indispensáveis: (i) que se trate de ma útil, justa e equilibrada.
um contrato de execução diferida ou continuada (isto é,

118
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Quais as consequências inde- implicação importante, no presente Anotações
sejáveis que a revisão judicial caso, é que qualquer tendência que
dos contratos pode causar, sob o o poder judiciário mostre no trata-
ponto de vista do desenvolvimen- mento dado à revisão dos contratos
to econômico de uma nação? será logo percebida pelos mercados
e incorporado como expectativas
Segundo o Professor Fernando pelos respectivos agentes. Conse-
Curi Peres, “desde a década dos cin- qüências graves podem advir desta
qüenta, no século passado, Muth in- incorporação. Tome, por exemplo, o
troduziu na economia uma hipótese caso dos contratos de venda anteci-
que veio a ser comprovada, ou siste- pada de produtos, como feita pelos
maticamente verificada nos estudos produtores de grãos às corporações
econométricos, intitulada hipótese que comercializam seus produtos e/
das expectativas racionais. Segun- ou insumos ou a algumas grandes
do esta hipótese – hoje uma lei da cooperativas. Pelo contrato, o produ-
economia – os mercados identifi- tor rural se compromete a entregar,
cam qualquer variação sistemática à época da colheita (portanto, num
numa variável aleatória. Ela explica, período futuro) determinada quanti-
por exemplo, porque os pregões dos dade de produto que, em geral, cor-
mercados futuros têm, sempre, uma responde a uma fração não superior
melhor performance na previsão de a 25% ou 1/3 de sua produção espe-
variáveis ou cenários econômicos do rada, por um preço ajustado entre as
que qualquer modelo econométri- partes. Este preço, quase sempre cor-
co, por mais sofisticado que seja. A

119
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
responde ao que o mercado futuro ou podem ser menores, o que resulta ção contratada por preços menores
está indicando como o mais prová- em ganhos para os produtores rurais. que a metade do que prevalescia
vel na época da colheita. Ele é muito De fato, a coisa não acontece, ne- no mercado. Certamente, ninguém
importante para os produtores rurais cessariamente, assim. As empresas previu que a China fosse entrar com-
porque são recursos, na maioria dos que comercializam essas produções prando grandes quantidades de soja
casos, utilizados para pagar os insu- tomam empréstimos no mercado fi- no mercado e que a doença da vaca
mos necessários ao processo produti- nanceiro internacional e repassam louca fosse aumentar, de forma vio-
vo. Cumprem, assim, um importante estes empréstimos aos agricultores, lenta, a procura por proteína vegetal
papel de financiar o processo produ- os quais não têm condições de fazê- para substituir a proteína de origem
tivo na agricultura. Como o preço é lo individualmente. Quando fecham animal na alimentação dos bovinos.
julgado atrativo pelos produtores, o contratos com os produtores rurais Muitos agricultores pediram à justiça
que é necessariamente o caso, pois, elas, imediatamente, vendem contra- que fosse feita uma revisão dos con-
de outra forma não venderiam parte tos equivalentes nas bolsas de futuro tratos, alegando perdas grandes para
de suas produções, eles livremente para reduzirem ou transferirem parte eles e, correspondetemente, ganhos
contratam com aquelas empresas. de seus riscos (hedge) para investi- desproporcionais para as empresas
Como toda atividade econômica en- dores das bolsas, que podem ser, ou compradoras. Se os juizes enten-
volve risco, o que justifica a própria de fato são, muitas vezes, fundos de dessem que os agricultores eram as
existência do empresário, os valores pensão de determinadas categorias partes mais fracas – e, de fato, eram,
ou preços esperados podem, ou não, de trabalhadores. Quando acontece quando comparados com o enor-
se realizarem. Na época da colheita dos preços diferirem muito dos espe- me poder de mercado e riqueza das
eles podem ser maiores que o espe- rados, como aconteceu há três anos grandes corporações – e lhes dessem
rado, o que poderia resultar em ga- (2004) atrás, os produtores tiveram ganho de causa, uma enorme distor-
nhos para a empresa compradora, que entregar a parte de sua produ-

120
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
ção estaria sendo criada nesses mercados. Primeiro, sua generalização aca- Anotações
baria com a prática de compra antecipada. Segundo, estaria, dessa forma,
sendo destruída uma importante fonte de financiamento para a agricultura.
Finalmente, a justiça estaria interferindo, de forma perversa, numa estrutura
de mercado onde o lucro tende a premiar aqueles que aplicam os recur-
sos sociais de forma mais eficiente, desde que asseguradas as condições
de competitividade. Neste caso, a própria existência de cooperativas de
produtores realizando o mesmo tipo de operação e contratando por pre-
ços semelhantes garantia que as condições de competição estavam sendo
observadas. Dificilmente a justiça poderia fazer melhor que os mercados
na alocação mais eficiente dos recursos sociais, nestes casos. A atitude de
alguns produtores foi, claramente, oportunística e a justiça deveria, sim,
garantir que o que foi contratado fosse cumprido”.

Relações trabalhistas no agro e o


sequenciamento previdenciário

POR QUE É NECESSÁRIO COMPREENDER AS RELAÇÕES


TRABALHISTAS NO AGRO?

Na primeira parte deste capítulo, analisamos o instituto jurídico do con-


trato, mais especificamente a sua existência, validade e eficácia. Além disso,
foram abordados alguns dos importantes princípios civis do direito contra-

121
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
tual na atualidade, como, por exemplo, a função
social do contrato e a boa-fé objetiva. Os referidos
princípios regem, no campo do direito privado, os
mais variados negócios realizados entre as pessoas
(físicas ou jurídicas). Ocorre que desses empreendi-
mentos surgem outras vertentes contratuais que ul-
trapassam as margens do direito civil e comercial,
ou seja, tais pactos fazem surgir inúmeras relações
de trabalho.

Por isso, é importante entender as relações tra-


balhistas (gênero da espécie relações de emprego)
no agro. O ramo do direito do trabalho é autônomo;
todavia, não significa que esteja isolado dos direitos
agrário, previdenciário, fiscal, civil, penal e cons-
titucional. Aliás, a própria CLT (Consolidação das
Leis do Trabalho) prevê essa simbiose no seu artigo
8º:
As autoridades administrativas e a Justiça do
Trabalho, na falta de disposições legais ou con-
tratuais, decidirão, conforme o caso, pela juris-
prudência, por analogia, por eqüidade e outros
Cleverson Beje

princípios e normas gerais de direito, principal-

122
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
mente do direito do trabalho, e, ainda, de acordo com os usos e costumes,
o direito comparado, mas sempre de maneira que nenhum interesse de Anotações
classe ou particular prevaleça sobre o interesse público. Parágrafo único:
O direito comum será fonte subsidiária do direito do trabalho, naquilo em
que não for incompatível com os princípios fundamentais deste.

Modernamente, pode-se afirmar que o direito do trabalho tem carac-


terísticas de direito público e, ao mesmo tempo, de direito privado. Públi-
co, porque contém, em face do caráter social, considerável intervenção do
Estado e proteção da parte costumeiramente chamada de hipossuficiente
(empregado), por ser tida como a mais frágil (sócio-economicamente) da
relação de trabalho; e privado, porque as relações trabalhistas são firmadas
por meio de contratos em que predominam a autonomia da vontade e a
liberdade de contratar. Ademais, no que diz respeito à natureza jurídica,
outras correntes doutrinárias preferem classificá-lo como direito social, di-
reito unitário.

Mas qualquer que seja a nomenclatura ou a classificação adotada, o


direito laboral não é um produto da atuação exclusiva do Estado. As normas
trabalhistas são dinâmicas e têm por finalidade a proteção dos interesses so-
ciais, a cooperação social, a harmonização dos vários direitos e a redução
das tensões e conflitos entre empregado e empregador. Trata-se, então, de
um direito mais socializado, mais humano, tal como as diretrizes contra-
tuais fixadas pelo novo Código Civil de 2002 e pela própria Constituição
Federal de 1988 (especialmente art. 7º). Daí, não há outra conclusão: os

123
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
direitos do trabalho e civil se relacionam e têm profundas raízes constitucionais. Enfim, a compreensão dos prin-
cípios e das normas trabalhistas no agro é fator essencial para o desenvolvimento do campo e para o aumento
da competitividade. Por esse motivo, há na atualidade uma crescente preocupação no setor econômico com a
modernização e com a flexibilização das relações de trabalho. Entender as relações laborais, e as suas normas, sig-
nifica dar um grande passo para o desenvolvimento, significa estar preparado para recepcionar novas tecnologias
e significa saber melhor enfrentar as oscilações do mercado e a crescente concorrência.

CONTRATO DE TRABALHO E REGISTRO EM CARTEIRA

Proteção constitucional do trabalhador

Como já demonstrado, as peculiaridades inerentes ao agronegócio repercutem no campo do direito do tra-


balho e, por conseqüência, impõem uma análise contextual – interdisciplinar e multidisciplinar – das relações
laborais que ali se formam.

A Constituição Federal de 1988 dispõe no seu art. 1º que:


A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal,
constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: III – A dignidade da pessoa humana; IV –
Os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa...

124
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Em seguida, no art. 170, determina que: Anotações
A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na li-
vre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os
ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: VIII – busca
do pleno emprego...

Esse complexo de normas superiores, por si só, confere às relações


trabalhistas uma função da maior relevância no âmbito sócio-econômico,
tanto é verdade que o trabalho foi alçado à categoria de direito social na
Constituição Brasileira, em seu art. 6º:
São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a
segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a
assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.

Logo, nota-se que há, nas nossas leis, vasta proteção dos valores sociais
do trabalho, do emprego e da livre iniciativa.

Conceito de trabalho rural, empregado e empregador rural

Para a compreensão do contrato de trabalho é necessário primeiro en-


tendermos o conceito de trabalho rural – que é, diga-se de passagem, muito
amplo e objeto de várias polêmicas. Assim, para fins do presente estudo,
considera-se trabalho rural aquele exercido nas atividades pertinentes ao
agronegócio.

125
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
Por sua vez, o empregado (ou tra- modo não-eventual, pessoal e sejam remunerados e subordinados ao em-
balhador) rural, de acordo com o art. pregador rural.
2º da Lei n. 5.889/73 (atualizada pela
Lei n. 11.718/2008), pode ser definido A mesma lei acima citada também conceitua, em seu art. 3º, a figura do
como: empregador rural:

...toda pessoa física que, em ... é a pessoa física ou jurídica, proprietário ou não, que explora
propriedade rural ou prédio atividade agro-econômica, em caráter permanente ou temporá-
rústico, presta serviços de na- rio, diretamente ou através de prepostos.
tureza não eventual a empre-
gador rural, sob a dependência Além disso, equiparam-se a empregadores rurais: (i) aqueles que exe-
deste e mediante salário. cutam serviços de natureza agrária com o auxílio do trabalho de outra pes-
soa (física) – como é o caso da empreitada e da sub-empreitada –, e (ii) o
Nesse contexto, vale dizer que consórcio de empregador rural, tema que será analisado adiante, com mais
não importam os métodos de traba- profundidade, devido a sua extrema importância no agro.
lho, ou os fins da atividade em que
se envolve, ou a função exercida, ou Então, conclui-se que a definição de empregado rural depende do enqua-
ainda o tipo de profissão do empre- dramento da atividade exercida pelo empregador, ou seja, se este exercer ativi-
gado, mas, sim, o empreendimento dade rural (ou agro-econômica), os seus empregados serão considerados rurais
do empregador. Por isso, são con- – caso contrário, serão considerados urbanos. Em idêntico sentido, a Súmula
siderados trabalhadores rurais, por 196 do Superior Tribunal Federal dispõe que ainda que exerça atividade ru-
exemplo, o tratorista, o motorista, ral, o empregado de empresa industrial ou comercial é classificado de acordo
o médico veterinário, desde que com a categoria do empregador. (Legislação aplicável: art. 3º, § 1º, da Lei n.
desempenhem os seus serviços de 5.889/1973 e Decreto n. 73.626/1974).

126
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Nota: por esta razão (relação estreita entre a classificação rural O que é exploração industrial em
para a relação de emprego, a partir da atividade rural desenvolvida estabelecimento agrário?
pelo empregador), deve ficar anotado que o empregado doméstico
que não exerça atividade agrária não será classificado como empre- Considera-se exploração indus-
gado rural. Seu enquadramento será o de empregado doméstico, trial em estabelecimento ou empre-
conforme regência da Lei n. 5.859/72, cujo art. 1º determina que em- endimento agrário todas as ativi-
pregado doméstico é aquela pessoa que presta serviços de natureza dades que se referem ao primeiro
contínua e de finalidade não lucrativa, à pessoa ou à família no âmbi- tratamento dos produtos in natura,
to residencial destas, mediante salário em caráter permanente, ainda sem transformação da sua nature-
que seja em períodos alternados ou descontínuos, por exemplo, duas za, por exemplo: o beneficiamento,
ou três vezes por semana, laborando na limpeza da casa, quintal e a primeira modificação e o preparo
jardim, cultivo de horta, cuidado de animais para consumo próprio dos produtos agropecuários e horti-
do empregador, do empregado e de terceiros, desde que não haja co- granjeiros e, bem assim, das matérias
mercialização, ainda que os serviços tenham sido prestados na casa primas de origem animal ou vegetal
da sede da fazenda, na praia, no sítio de lazer ou na cidade. O mo- para posterior venda ou industriali-
torista que presta serviços numa propriedade rural, em princípio, é zação; e o aproveitamento dos seus
considerado como empregado doméstico; no entanto, se porventura subprodutos.
ele praticar atividade relacionada à exploração agro-econômica de
seu empregador (com finalidade lucrativa, por isso), será classificado
como empregado rural2.
2 Para mais leituras sobre a distinção entre empregado rural e empregado doméstico, acesse-se os sites seguintes:
<[Link] <[Link]
[Link]?idNoticia=54833> <[Link]

127
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
Conceito, elementos e requisitos do pelo qual uma pessoa física se obri- pelo empregador (ou seu prepos-
contrato de trabalho rural ga a uma prestação de trabalho em to); (iii) onerosidade: em virtude da
favor e sob a direção de um empre- prestação da mão-de-obra (da força
Denominado antigamente de gador rural (pessoa física ou jurídica) de trabalho) é exigida a contrapres-
locação de serviços, o contrato in- mediante uma contraprestação, isto tação de salários; (iv) continuidade:
dividual de trabalho é um precioso é, salário. o contrato de trabalho exige a con-
meio de valorização da dignidade tinuidade da prestação dos serviços,
da pessoa humana e exerce impor- Aliás, conforme explicamos no ou seja, não pode ser eventual; e (v)
tante papel no desenvolvimento de item “Para entender o contrato”, não relação trabalhista rural: o empre-
um país. O seu conceito está des- podemos nos esquecer que o contra- gador deve explorar atividade agro-
crito de forma muito simples no art. to de trabalho rural deve ser sempre econômica (v. conceitos no item b,
442 da CLT: firmado com base na boa-fé objetiva precedente).
Contrato de trabalho é o acordo e em razão e nos limites da função
tácito ou expresso, correspon- social do contrato (art. 421 do novo Ainda, como já dissemos nos itens
dente à relação de emprego. Código Civil; artigos 1º, 6º, 7º e 170 passados, é necessária uma mínima
da Constituição Federal de 1988; art. base de exigências, pré-determina-
Porém, ao analisar o mencio- 8º da CLT). das por lei, para a concretização do
nado conceito em conjunto com as contrato de trabalho, por exemplo: o
diretrizes fixadas pela Constituição Os principais requisitos do con- empregador e o empregado devem
Federal de 1988 e pelo Código Civil trato de trabalho no âmbito rural ser capazes juridicamente, precisam
de 2002, podemos concluir que o são: (i) pessoalidade: o contrato deve manifestar a vontade de contratar
contrato de trabalho (no agro) é um ser firmado com pessoa física, cer- (sem qualquer incidência de coação
negócio jurídico de direito privado ta e determinada; (ii) subordinação: ou ameaça), o contrato de trabalho
(sujeito às normas de ordem pública) o empregado rural deve ser dirigido deve ter objeto lícito, possível, deter-

128
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
minado ou determinável e a forma prescrita ou não defesa em lei. As suas Anotações
características gerais são a bilateralidade (direitos e obrigações recíprocas),
a consensualidade (vontade e concordância das partes) e o trato sucessivo
(o contrato não se extingue com a prática de um único ato). Conforme pres-
creve o art. 104 do novo Código Civil, a ausência de um desses elementos
citados torna nulo o contrato de trabalho e não enseja qualquer direito tra-
balhista, exceto quanto aos salários que não foram pagos.

Princípios de direito do trabalho

Qual, afinal, o significado e a função dos princípios? Os princípios gerais


do direito e os princípios específicos do direito do trabalho constituem-se
em importante fonte do direito laboral; são postulados que devem orientar
a criação das leis e a interpretação e aplicação destas pelo Poder Judiciário.
Essa função foi prevista de forma clara no art. 8º da CLT:
As autoridades administrativas e a Justiça do Trabalho, na falta de dispo-
sições legais ou contratuais, decidirão, conforme o caso, pela jurisprudên-
cia, (...) e outros princípios e normas gerais de direito, principalmente do
direito do trabalho (...), mas sempre de maneira que nenhum interesse de
classe ou particular prevaleça sobre o interesse público.

Além do mais, muitos dos princípios aplicáveis ao direito do trabalho


são garantias que decorrem da Constituição Federal de 1988. Exemplifican-

129
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
do, destacam-se os princípios do respeito à dignidade te marca as relações trabalhistas, ou seja, ampara
da pessoa humana, dos valores sociais do trabalho e da o empregado. Tal princípio desdobra-se em três
livre iniciativa, da liberdade, da igualdade entre homens vertentes: (i) impõe a aplicação da norma mais
e mulheres, da liberdade sindical. Vejamos, a seguir, al- favorável ao empregado (parte hipossuficiente),
guns dos mais importantes princípios inerentes ao direi- (ii) prevalece a regra da condição mais benéfica
to do trabalho: ao trabalhador e (iii) determina a aplicação do
critério in dubio pro operario.
> Princípio da irrenunciabilidade dos direitos tra-
balhistas: consiste na impossibilidade jurídica de > Princípio da primazia da realidade: nos casos de
o trabalhador renunciar aos direitos e às vanta- dissonância entre o que ocorre na realidade e o
gens a ele conferidas pela leis trabalhistas, que que extrai-se dos contratos ou dos recibos ou de
não podem ser modificadas para prejudicar o outros documentos, deve-se privilegiar a verdade
empregado, nem mesmo com o seu ‘consenti- real – essa é a regra do art. 9º, da CLT: “Serão
mento expresso’, nem mesmo ‘voluntariamente’. nulos de pleno direito os atos praticados com o
Se ocorrer a renúncia aos direitos, é nulo todo objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar a apli-
contrato ou ato destinado a fraudar ou impedir a cação dos preceitos contidos na presente Conso-
aplicação da legislação trabalhista. Só se permi- lidação”.
te a modificação das condições de trabalho com
o consentimento do empregado, mas desde que > Princípio da continuidade do contrato de traba-
não lhe acarrete danos (sob pena de nulidade). lho: o seu fundamento reside na natureza alimen-
tar do salário, pois o trabalhador é subordinado
> Princípio protetor: visa contrapor a desigualdade jurídica e economicamente ao empregador e re-
jurídica à desigualdade econômica que geralmen- tira o seu sustento (e da sua família) da prestação

130
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
de serviços. Visa também, esse princípio, destinar maior probabili- Anotações
dade de continuação da relação trabalhista. Por isso, o direito do
trabalho estabelece como regra – e meta – o contrato por tempo in-
determinado e desincentiva as sucessivas prorrogações dos contratos
a termo (por tempo determinado).

> Princípio da isonomia ou da igualdade: todo trabalhador tem a mes-


ma vantagem que percebe um companheiro que executa trabalho
equivalente ou de igual valor. Esse princípio tem base no art. 7º da
Constituição Federal de 1988: “São direitos dos trabalhadores urba-
nos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição
social: (...) XXX - proibição de diferença de salários, de exercício de
funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou
estado civil; XXXI - proibição de qualquer discriminação no tocante
à salário e critérios de admissão do trabalhador portador de deficiên-
cia; XXXII – proibição de distinção entre trabalho manual, técnico e
intelectual ou entre os profissionais respectivos”.

> O princípio da igualdade também é previsto no art. 3º do texto cons-


titucional,

[...] IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo,


cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.

131
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
Classificação dos contratos de trabalho Já quanto à duração do contrato de trabalho, pode-
mos fazer a seguinte distinção: (i) o contrato pode ser
A legislação pátria (art. 443 da CLT) determina que: firmado por prazo indeterminado (regra geral em razão
O contrato individual de trabalho poderá ser acor- do princípio da continuidade) ou (ii) por prazo deter-
dado tácita ou expressamente, verbalmente ou por minado, isto é, a vigência do contrato depende da data
escrito e por prazo determinado ou indeterminado. prefixada ou da conclusão dos serviços contratados.
Vale ressaltar que os contratos de trabalho firmados por
Logo, a lei não exige que o contrato de trabalho seja prazo determinado (prazo máximo de 2 anos – art. 445
escrito (maior segurança jurídica), embora ele pode ser da CLT) têm validade somente se as atividades forem de
verbal também. Ocorre que, caso seja verbal, as partes caráter transitório ou se o contrato for de experiência
contratantes terão maior dificuldade de provar as suas (90 dias, podendo ser prorrogado apenas uma vez – art.
alegações e direitos na Justiça do Trabalho. Então, acon- 451 da CLT).
selha-se sempre aos empregadores e empregados rurais
que façam o contrato de trabalho por escrito e com a Os contratos mais comuns por prazo determinado
presença de testemunhas. Assim, poderão ser evitados são o de safra (art. 14, Lei n. 5.889/73) e o de obra certa
futuros problemas e prejuízos. (Lei n. 2.959/58). Todavia, no âmbito do agro, foi apro-
vada uma nova lei sobre o contrato de trabalho rural por
O contrato de trabalho pode ser classificado quanto pequeno prazo – tema que vai merecer especial desta-
aos seus sujeitos: (i) será individual o contrato que tiver que no item a seguir.
um único empregado no pólo ativo da relação traba-
lhista e (ii) será plúrimo (contrato de equipe) aquele que Contrato de trabalho rural por pequeno prazo
tiver mais de um obreiro, ou melhor, é o ajuste reali-
zado entre o empregador e um grupo de empregados Em 20 de junho de 2008 foi publicada a Lei n.
reunidos para a execução de certo serviço. 11.718, que trata do contrato de trabalho rural por pe-

132
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
queno prazo. Essa lei decorreu da conversão modificada da Medida Pro- Anotações
visória n. 410, editada em 28 de dezembro de 2007, e acrescentou o art.
14-A à Lei do Trabalho Rural – n. 5.889/73. O contrato poderá ser formali-
zado por meio da inclusão do trabalhador na GFIP (Guia de Recolhimento
do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência
Social), pela anotação na CTPS (ou no Livro de Registro de Empregados) ou
por contrato escrito (em duas vias).

Em resumo, o contrato de trabalho rural por pequeno prazo deverá con-


ter os seguintes requisitos básicos: (i) empregador pessoa física – proprietário
ou não do imóvel onde será prestado o serviço pelo empregado, (ii) ativida-
de agro-econômica e de natureza temporária, com duração máxima de dois
meses dentro do período de um ano (caso esse prazo seja ultrapassado, o
contrato será considerado de tempo indeterminado), (iii) contrato escrito.

Também é imprescindível constar a expressa autorização em acordo


coletivo ou convenção coletiva, a identificação do empregado (com a indi-
cação do Número de Inscrição do Trabalhador – NIT), a do produtor rural,
a do imóvel onde será prestado o serviço e da sua respectiva matrícula.

Pela lei, o empregador rural não tem o dever de anotar a CTPS do tra-
balhador. Entretanto, todas as parcelas devidas ao empregado serão calcu-
ladas diariamente e pagas a ele mediante recibo no qual estejam especifi-
cados os direitos e os respectivos valores e períodos. A propósito, uma das

133
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
questões mais polêmicas que antecedeu a aprovação deduzida pelo empregador rural e recolhida ao Instituto
da lei do contrato rural por pequeno prazo (e que ain- Nacional do Seguro Social (INSS)3.
da hoje é objeto de acirradas discussões) diz respeito à
facultatividade da anotação na carteira de trabalho do Contrato de safra (safrista)4
empregado ou no livro de registro. Para a Federação dos
Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo Contrato de safra é aquele em que o empregado
(FERAESP), a lei precariza cada vez mais as relações de presta serviço durante o período da safra, ou seja, desde
trabalho. Contudo, para a Confederação da Agricultura o preparo do solo para o cultivo até a colheita. Portanto,
e Pecuária do Brasil (CNA), a iniciativa do Governo Fe- é um contrato a termo (por prazo determinado) e sua
deral desburocratiza as relações de trabalho, desenvol- duração depende das variações estacionais da atividade
ve o agronegócio no Brasil e incentiva a legalização das agrária desenvolvida no empreendimento rural. Porém,
relações trabalhistas no campo. se terminada a safra e o empregado continuar a prestar
outros serviços típicos do meio agrário ao empregador,
Por fim, no contrato de trabalho rural por pequeno o contrato será por tempo indeterminado. O FGTS e os
prazo, a filiação e a inscrição do empregado na Previ- respectivos direitos são todos assegurados ao safrista.
dência Social decorrem da sua inclusão pelo emprega-
dor na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do O contrato de safra não é formal e pode ser pactu-
Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social ado verbalmente entre empregado e empregador rural,
(GFIP). Frisa-se que a não inclusão do trabalhador na mas é aconselhável firmá-lo por escrito em razão de ser
GFIP pressupõe a inexistência de contratação por curto um dos meios de prova mais convincentes.
prazo. Aliás, o recolhimento e o levantamento do FGTS 3 Leia sobre a Lei n. 11.718/2008 que alterou a Lei n. 5889/1973, no link <http://
[Link]/2008/06/[Link]>
efetivar-se-ão nos termos da Lei n. 8.036/90, sob a alí-
4 Mais leituras podem ser feitas, por exemplo, nos seguintes links: <[Link]
quota de 8%. Já a contribuição previdenciária devida [Link]/[Link]>
<[Link]
pelo empregado, também sob a alíquota de 8%, será <[Link]

134
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Registro na CTPS (Carteira de trabalho e previdência social) Anotações

O registro na CTPS é obrigatório – e constitui-se numa das provas do


contrato de trabalho – seja ele verbal ou escrito. De acordo com o art. 29 da
CLT, o empregador tem o prazo de 48 horas para as anotações na carteira
de trabalho, devolvendo-a em seguida ao empregado. Pela lei, nenhum
empregado pode ser admitido sem a apresentação da CTPS. As anotações
nela efetuadas geram presunção quanto à existência da relação de emprego
e prestam-se a esclarecimentos solicitados pela DRT (Delegacia Regional
do Trabalho) em eventuais fiscalizações.

Para fins previdenciários, as anotações sobre os acidentes do trabalho, o


estado civil e os dependentes do empregado devem ser feitas pelo Instituto
Nacional de Seguro Social (INSS), conforme o disposto nos artigos 20 e 30
da CLT.

Peculiaridades do trabalho rural

A Constituição Federal de 1988 (art. 7º) igualou os trabalhadores urba-


nos e rurais, no tocante aos respectivos direitos. Porém, há algumas diferen-
ças e particularidades que devem ser mencionadas, tais como:

> Duração da jornada de trabalho: a jornada do trabalhador rural é de


oito horas por dia e quarenta e quatro horas por semana. A duração

135
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
normal poderá ser acrescida de horas suplementares em número não > Descontos no salário: é possí-
excedente a duas horas, mediante acordo escrito entre o emprega- vel haver descontos no salá-
dor e o empregado ou mediante contrato ou convenção coletiva de rio do trabalhador rural, nos
trabalho. A remuneração da hora suplementar será, no mínimo, 50% termos do art. 9º, alíneas a e
(cinqüenta por cento) superior à da hora normal e, nesse caso, a du- b da Lei n. 5.889/73. Nessa
ração do trabalho não poderá exceder dez horas. hipótese, podem ser descon-
tados: (i) pelo uso da moradia
> Trabalho e adicional noturno: a hora noturna do trabalhador rural é até o limite de 20% do salário
de sessenta minutos e tem o acréscimo de 25% sobre a remuneração mínimo, (ii) pelo fornecimen-
normal da hora diurna (art. 7º da Lei n. 5.889/73). Nesse contexto, to da alimentação até o limite
considera-se trabalho noturno aquele prestado das 21h às 5h, no de 25% do salário mínimo.
caso da lavoura, e das 20h às 4h, no caso da pecuária. Ressalta-se Todavia, esses descontos
que ao menor de 18 (dezoito) anos é vedado o trabalho noturno. dependem da prévia anuên-
cia do empregado rural, sob
> Intervalos durante a jornada de trabalho: conforme dispõe o art. 5º pena de nulidade (art. 9º, §1º
da Lei n. 5.889/73, para qualquer prestação contínua de serviço de da Lei n. 5.889/73).
duração superior a seis horas é necessária a concessão de intervalo
mínimo de uma hora para repouso ou alimentação. Aliás, devemos, Considera-se morada a habita-
para tanto, observar os usos e costumes da região onde ocorre a re- ção fornecida pelo empregador ru-
lação trabalhista. Os intervalos para alimentação ou repouso não se- ral que atenda às condições pecu-
rão computados na duração do trabalho. Além disso, duas jornadas liares de cada região e satisfaça os
deverá ser observado o período mínimo de onze horas consecutivas requisitos de salubridade e higiene
para descanso. estabelecidas em normas expedidas

136
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
pela Delegacia Regional do Trabalho (DRT). É vedado o uso de moradia Anotações
coletiva de famílias. Finalizado o contrato de trabalho, o empregado ru-
ral será obrigado a desocupar a morada fornecida pelo empregador no
prazo máximo de trinta dias.

CONSÓRCIO DE EMPREGADORES RURAIS

A burocracia inerente à contratação formal e os ônus decorrentes dos


encargos sociais são alguns dos fatores que contribuem para a inobservân-
cia do pleno emprego no campo. Por conseqüência, acabou se tornando
comum, no meio rural, a existência de formas precárias de contratação do
trabalhador, tais como: falsas parcerias e intermediação de mão-de-obra
através de “turmeiros” ou “gatos”.

Além do mais, o afastamento dos centros urbanos dificulta a fiscali-


zação do cumprimento das normas trabalhistas previstas no ordenamento
jurídico. Outros pontos a serem considerados dizem respeito à falta de in-
formações e à baixa escolaridade dos empregados rurais. Todos esses fatos
concorrem para o desrespeito às regras laborais na medida em que os tra-
balhadores, desinformados de seus direitos, não procuram o devido amparo
nas instâncias administrativas e judiciais.

137
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
Por isso, o consórcio de empregadores rurais surgiu como uma alternativa à contratação informal, à arriscada
intermediação de mão-de-obra por gatos ou turmeiros e às cooperativas de trabalhadores rurais. Consiste o consór-
cio na união de produtores rurais (duas ou mais pessoas físicas) com o intuito exclusivo de contratar um emprega-
do e dividir a sua força de trabalho – nesse caso, um dos consorciados representará os demais (que serão solidários
nas dívidas trabalhistas e fiscais) e assinará a CTPS do empregado. O referido instituto foi regulamentado pela Lei
n. 10.256, de 9 de julho de 2001, que acrescentou o artigo 25-A à Lei n. 8.212 de 24 de julho de 1991.

No entanto, mesmo antes da referida previsão legal, vários produtores do Paraná, de Minas Gerais e de São Paulo
já se utilizavam desta modalidade de contratação. De acordo com os dados da Secretaria de Inspeção do Trabalho –
SEFIT, do Ministério do Trabalho, havia no Brasil, em julho de 2002, 103 (cento e três) consórcios de empregadores
rurais formados por mais de 3.400 produtores e nos quais trabalhavam cerca de 65 mil trabalhadores.

De maneira geral, a intenção do legislador ao regulamentar o consórcio de empregadores rurais foi facilitar a
contratação definitiva de empregados, sobretudo por pequenos e médios proprietários que necessitam de força de
trabalho suplementar apenas em determinadas épocas do ano ou alguns períodos do dia. Nesse aspecto, propicia-
se maior estabilidade na relação de trabalho, pois a contratação coletiva (i) evita a precarização das relações de
trabalho provocada pelas constantes realizações de bicos e (ii) contribui, em última análise, para a formação do
pleno emprego no campo por meio da criação de um vínculo formal no qual esteja assegurada a observância das
normas trabalhistas.

Portanto, a contratação coletiva, pela via dos consórcios de empregadores rurais, traz benefícios ao Estado,
facilita a fiscalização das normas de segurança e higiene do trabalho e, especialmente, torna mais fácil e rápida a
arrecadação das verbas securitárias e previdenciárias5.
5 Mais leituras podem ser feitas, por exemplo, nos seguintes links: <[Link]/downloads/Consorcio_de_empregadores.doc> <[Link]
delegacias/sc/noticias/[Link]>

138
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Direitos do trabalhador contratado por consórcio de empregadores rurais Anotações

O trabalhador contratado pelo consórcio de empregadores rurais deve-


rá fazer jus a todos os direitos previstos na legislação e garantidos aos de-
mais empregados rurais: (i) formalização adequada do contrato de trabalho:
assinatura da Carteira de Trabalho (CTPS) e registro no livro de empregados;
(ii) salário mínimo ou superior; (iii) receber equipamentos de proteção in-
dividual (EPIs) e treinamento para saber como utilizá-los adequadamente;
(iv) descanso semanal remunerado, preferencialmente aos domingos; (v)
repouso em feriados e dias santos; (vi) férias remuneradas acrescidas do ter-
ço condizente após doze meses de trabalho prestado; (vii) décimo terceiro
salário, pago na forma legal; (viii) remuneração pelas horas extras trabalha-
das, com o pertinente acréscimo; (ix) adicional noturno, com o acréscimo
devido; (x) aviso prévio, quando o contrato for por prazo indeterminado;
(xi) aposentadoria por tempo de contribuição, idade ou invalidez; (xii) re-
colhimento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço; e (xiii) outros
direitos previstos nas convenções ou acordos coletivos de trabalho.

Vale dizer que o consórcio não pode ser utilizado para diminuir ou
restringir os direitos do trabalhador. Assim, eventuais litígios ou dúvidas
quanto às normas aplicáveis devem ser sempre decididas por meio dos
princípios da proteção, da norma mais favorável, da indisponibilidade das
normas trabalhistas e da condição mais benéfica.

139
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
Formalização do consórcio de em- lativas à parceria, arrendamento ou sórcio de empregadores e não para
pregadores rurais equivalente e a matrícula no Institu- o contrato de trabalho em si – que
to Nacional de Seguro Social (INSS) pode ser verbal – salvo quando esta-
As exigências para que o consór- de cada um dos produtores rurais, belecido por tempo determinado.
cio de empregadores se formalize es- (ii) o consórcio deverá ser matricula-
tão expressas na Lei n. 8.212/91 (§1º do no INSS em nome do empregador Demais aspectos da formalização
do art. 25-A). Equipara-se ao empre- a quem foram outorgados os pode- do consórcio
gador rural pessoa física o consórcio res, na forma do regulamento, (iii) os
simplificado de produtores rurais produtores rurais integrantes do con- O consórcio de empregadores
formado pela união de produtores sórcio serão responsáveis solidários deverá ter matrícula própria junto ao
rurais pessoas físicas, mediante do- em relação às obrigações previden- INSS (CEI – Cadastro Específico do
cumento registrado em cartório de ciárias. INSS), que será criada em nome do
títulos e documentos. produtor a quem hajam sido outor-
Observa-se que para a formali- gados os poderes de gestão do em-
Os principais requisitos para esta zação do consórcio de empregado- pregado e será considerado por tal
formalização do contrato de consór- res rurais é necessária a formação órgão como pessoa física. O perti-
cio, portanto, são: (i) o documento de documento escrito – devidamen- nente formulário de matrícula do
deverá conter a identificação de cada te registrado no cartório de títulos e consórcio será assinado por todos
produtor, seu endereço pessoal e o documentos. Na prática, este docu- os participantes, sendo que as pro-
de sua propriedade rural, bem como mento está sendo batizado de “Ter- priedades rurais devem se situar no
o respectivo registro no Instituto Na- mo de Responsabilidade Solidária”. mesmo município ou nos limítrofes.
cional de Colonização e Reforma Importa dizer que a forma escrita Importante frisar que o consórcio
Agrária (INCRA) ou informações re- é exigida para a formação do con- deverá recolher o imposto de renda,

140
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
caso a remuneração do empregado ultrapasse o limite de isenção. Caso não Anotações
haja a retenção e o repasse, todos os participantes poderão ser responsabi-
lizados de forma solidária.

O artigo 3º da Portaria n. 1.964 de 01 de Dezembro de 1999 do Minis-


tério do Trabalho e Emprego estabelece que todos os documentos relacio-
nados ao consórcio deverão estar de posse do administrador (empregador-
gestor) do consórcio, a fim de que a fiscalização pelos auditores do trabalho
possa ser facilitada.

Estes documentos são: (i) a matrícula coletiva (CEI do consórcio); (ii)


o pacto de solidariedade, devidamente registrado; (iii) os documentos por
meio dos quais foram outorgados poderes ao gestor para contratar e gerir a
mão-de-obra a ser utilizada; (iv) livros, fichas ou sistema eletrônico de regis-
tro de empregados; (v) e todos os outros documentos que sejam necessários
à fiscalização laboral.

Estipulações e previsões importantes que devem constar no contrato de


consórcio e no pacto de solidariedade

A prestação de serviços concomitantemente a vários empregadores por


um ou mais empregados poderá dar ensejo a inúmeros conflitos entre os
próprios participantes do consórcio, ou mesmo, entre os produtores e os
empregados contratados. Por isso, o planejamento e a formação do gru-

141
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
po demanda cuidados especiais, sob de cada participante para com a remuneração dos empregados contratados
pena de tornar-se inviável em decor- pelo consórcio. Evidentemente, cada consórcio poderá eleger o critério que
rência das tensões naturais que en- julgar conveniente dentre vários possíveis, tais como (i) a quantidade de
volvem qualquer associação. horas ou dias que utilizou a mão-de-obra do empregado, (ii) a natureza ou
a forma de prestação do serviço exigido, (iii) o rateio per capita entre os
Os produtores rurais membros do produtores. Afinal, não se pode admitir que a remuneração do trabalhador
consórcio deverão ser orientados no fique à mercê do pagamento de todos os empregados que utilizaram sua
sentido de que, para a viabilização do mão-de-obra. O gestor deve cuidar para que o pagamento seja realizado no
grupo, todos deverão estar imbuídos dia, mesmo que alguns dos empregadores não tenham adimplido com suas
de um espírito coletivo de trabalho, cotas-partes.
que se aproxima, bastante, do espírito
cooperativista. Só por meio da cola- Outra questão gerencial que produz reflexos no direito do trabalho e que
boração de todos para manter a união deve ser alvo de especial atenção no pacto de solidariedade é o exercício
do grupo, é que poderão ser contor- do poder disciplinar dos empregadores sobre o(s) empregado(s), uma vez
nados os problemas rotineiros. que envolve grande carga de subjetividade. Determinada atitude do empre-
gado pode parecer faltosa a um dos empregadores e indiferente aos demais.
Assim, conhecidas as necessida- Portanto, será previdente constar no acordo como o administrador do grupo
des de cada produtor do consórcio e poderá resolver tais situações sem que, obviamente, os demais empregado-
elaborado o plano de gestão do con- res percam a parcela do poder disciplinar indispensável ao bom andamento
domínio de empregadores é interes- dos serviços.
sante que se faça constar no pacto
de solidariedade algumas regras es- Na hipótese de excesso ou de abuso do poder disciplinar (tão freqüente
pecíficas. A principal regra é, segu- nos dias atuais) praticado por apenas um dos empregadores, é de se convir
ramente, como será a contribuição que não há responsabilidade solidária dos demais, já que o ato poderá ser in-

142
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
dividualizado e o ônus do abuso imputado exclusivamente ao seu autor. No Anotações
entanto, no caso do excesso ser coletivo ou praticado pelo gestor do grupo
(no uso de suas atribuições de gerência, e não de produtor) deve persistir a
responsabilidade comum pelos danos, tal como a aplicação de uma preten-
sa justa causa anulada pelo Poder Judiciário.

Essa hipótese reforça a necessidade de um profundo planejamento do


consórcio, por meio do conhecimento adequado dos participantes, seus
costumes, suas necessidades e suas expectativas, para que, inadvertidamen-
te, o consórcio não acabe por se desfazer e prejudique a todos, incluindo
os trabalhadores.

A jornada de trabalho e a responsabilidade pelo pagamento de eventuais


horas extras (e reflexos), assim como os dias em que serão gozados repousos
semanais remunerados (e os meses em que serão concedidas as férias anu-
ais) também deverão ser diligentemente tratadas pelo acordo, consoante a
necessidade de cada grupo. Uma vez que poderá ser bastante freqüente o
deslocamento, em um mesmo dia, do trabalhador de uma propriedade rural
para outra, é de bom tamanho que o acordo do consórcio determine a quem
caberá o pagamento pelos custos desses deslocamentos, ou a forma de rateio
dos mesmos, se assumidos pelo grupo. É importante destacar que o tempo no
deslocamento entre os locais em que o empregado tenha que prestar serviços
deverá ser computado em sua jornada de trabalho. Trata-se, pois, de horas de

143
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
serviço – inclusive para fins de verificação de excesso de jornada e mereci- o trabalhador rural do trabalhador
mento dos pertinentes adicionais pelas horas extraordinárias. urbano.

Enfim, o consórcio de empregadores rurais é uma alternativa viável para Assim, o ordenamento jurídico
a conquista e viabilização do pleno emprego no campo. Os empregadores brasileiro, por meio do RGPS, conce-
contam com uma forma segura e menos onerosa para admissão formal dos de, aos trabalhadores rurais e urba-
empregados que, por sua vez, contam com a garantia de um vínculo estável e nos, semelhante proteção previden-
não mais maculado pela intermitência dos períodos de safra e entressafra. ciária. Porém, a previdência social é
um direito que exige o cumprimento
ENCARGOS PREVIDENCIÁRIOS E RECOLHIMENTO de um dever, ou seja, a contribuição
por parte do trabalhador.
Introdução
A propósito, o art. 195 da Cons-
A Constituição Federal de 1988 estabeleceu a Seguridade Social, isto é, tituição determina, em síntese, que:
um sistema de proteção social composto por três campos: saúde, assistência A Seguridade Social será finan-
social e previdência. A finalidade é garantir a manutenção dos trabalhadores ciada por toda a sociedade, de
e seus dependentes, por meio de benefícios, em virtude de incapacidade la- forma direta e indireta, nos ter-
boral. mos da lei, mediante recursos
provenientes dos orçamentos
A inclusão dos trabalhadores rurais no Regime Geral de Previdência da União, dos Estados, do Dis-
Social (RGPS) foi tardia em relação a outras categorias de trabalhadores. trito Federal e dos Municípios,
Contudo, a legislação previdenciária passou por considerável avanço nos e das seguintes contribuições
últimos 30 anos, no sentido de propiciar uma melhor cobertura social dos sociais: I – do empregador, da
trabalhadores rurais. Tal fato, no que condiz aos direitos sociais, aproximou empresa e da entidade a ela

144
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
equiparada na forma da lei; II – do trabalhador e dos demais segurados da Anotações
previdência social, não incidindo contribuição sobre aposentadoria e pen-
são concedidas pelo regime geral de previdência social de que trata o art.
201; III – sobre a receita de concursos de prognósticos; IV – do importador
de bens ou serviços do exterior, ou de quem a lei a ele equiparar.

Diante disso, em termos previdenciários, os trabalhadores são conside-


rados segurados obrigatórios e dividem-se em cinco categorias: empregado,
empregado doméstico, avulso, contribuinte individual e segurado especial.
Especificamente, os trabalhadores rurais podem ser: (i) empregados, (ii)
contribuintes individuais e (iii) especiais – agricultores que trabalham em
regime de economia familiar.

Princípios constitucionais de direito previdenciário

O art. 193 da Constituição Federal de 1988 dispõe que:


A ordem social tem como base o primado do trabalho, e como objetivo o
bem-estar e a justiça sociais.

Podemos observar, então, que o texto constitucional destina grande im-


portância à Seguridade Social. Com esse propósito, o legislador constituinte
fez constar no art. 194 os princípios basilares do direito previdenciário:

145
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
Conceitos de empresa, empregados,
A Seguridade Social compreende um conjunto integrado de ações de ini- contribuintes individuais, trabalha-
ciativa dos poderes públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os di- dor avulso e segurado especial se-
reitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social. Parágrafo úni- gundo o direito previdenciário
co. Compete ao poder público, nos termos da lei, organizar a seguridade
social, com base nos seguintes objetivos: I - universalidade da cobertura No campo do direito obrigacio-
e do atendimento; II - uniformidade e equivalência dos benefícios e ser- nal previdenciário, podemos definir
viços às populações urbanas e rurais; III - seletividade e distributividade empresa como sendo aquela em que
na prestação dos benefícios e serviços; IV - irredutibilidade do valor dos o empresário, ou a sociedade, assu-
benefícios; V - eqüidade na forma de participação no custeio; VI - diver- me o risco de uma ou mais ativida-
sidade da base de financiamento; VII - caráter democrático e descentra- des econômicas rurais ou urbanas,
lizado da gestão administrativa, com a participação da comunidade, em com ou sem fins lucrativos. Ainda,
especial de trabalhadores, empresários e aposentados. equiparam-se a empresas, por exem-
plo, (i) o contribuinte individual, em
Porém, dentre todos esses princípios citados, merece especial desta- relação ao segurado que lhe presta
que o da universalidade da cobertura e do atendimento, ou seja, o nosso serviços, (ii) a cooperativa rural, (iii)
sistema de Seguridade Social deve dar ampla proteção, cobertura e aten- a associação ou a entidade de qual-
dimento aos segurados-beneficiários no sentido de cobrir todos os eventos quer natureza ou finalidade, inclusi-
que redundem em estado de necessidade: (i) idade avançada, (ii) morte, (iii) ve o condomínio, (iv) o proprietário
invalidez, (iv) deficiência física, (iv) maternidade etc. do imóvel, quando pessoa física, em
relação a segurado que lhe presta
serviços.

146
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Por sua vez, empregados são os que prestam serviços às empresas, de Anotações
natureza rural ou urbana, em caráter não-eventual e com subordinação,
fazem parte do rol de segurados obrigatórios, exercem atividade remune-
rada abrangida pelo Regime Geral da Previdência Social (RGPS) e têm o
desconto da contribuição previdenciária sobre a sua remuneração em folha
de pagamento.

Já o contribuinte individual presta serviços rurais ou urbanos remune-


rados, em caráter eventual, a uma ou mais empresas. Não há, nesse caso,
relação de emprego.

Trabalhador avulso, por sua vez, é aquele contratado mediante a in-


termediação obrigatória do sindicato da categoria a que pertencer, para
prestar serviços a uma ou mais empresas. Não tem vínculo empregatício e
pode ser sindicalizado ou não.

Enfim, por segurado especial entende-se o produtor, o parceiro, o me-


eiro, o comodatário e o arrendatário rurais que exercem suas atividades
individualmente ou em regime de economia familiar (art. 9º, VII do Regula-
mento da Previdência Social – RPS).

147
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
Contribuições do produtor rural receita bruta proveniente da comer- Quanto às cooperativas de traba-
pessoa jurídica e pessoa física e do cialização da produção, é de 2,5% lho, a contribuição destinada à Se-
consórcio de produtores rurais (destinados à Seguridade Social) e guridade Social será de 15% sobre
de 0,1% (destinados à aposentadoria o valor bruto da nota fiscal ou da
Como o Programa Empreende- especial e aos casos que envolvam fatura de prestação de serviços, re-
dor Rural (PER) tem por meta apoiar incapacidade para o trabalho decor- lativamente aos serviços que lhe são
a criação, o planejamento e o desen- rente dos riscos ambientais da ativi- prestados por cooperados por inter-
volvimento do agronegócio e das em- dade). médio de cooperativas de trabalho
presas rurais (ou a elas equiparadas), (art. 22, IV, da Lei n. 8.212/91).
analisaremos, a seguir, os principais Tais alíquotas não se aplicam às
aspectos relacionados às contribui- operações relativas à prestação de A contribuição do produtor (em-
ções da empresa rural, do produtor serviços a terceiros, cujas contribui- pregador) rural pessoa física e do
rural pessoa física e do consórcio de ções previdenciárias deverão obser- consórcio simplificado de produto-
produtores rurais. var o disposto no art. 22 (“20% so- res rurais é calculada conforme os
bre o total das remunerações pagas, termos a seguir: 2% da receita bruta
Nesse contexto, a contribuição devidas ou creditadas a qualquer tí- proveniente da comercialização da
devida pela agroindústria (definida tulo, durante o mês, aos segurados produção e 0,1% da receita bruta
pela lei “como sendo o produtor empregados e trabalhadores avulsos proveniente da comercialização da
rural pessoa jurídica cuja atividade que lhe prestem serviços...”), e tam- sua produção para o financiamento
econômica seja a industrialização de bém não são aplicáveis às socieda- das prestações por acidente do tra-
produção própria ou de produção des cooperativas e às agroindústrias balho.
própria e adquirida de terceiro” – art. de piscicultura, carcinicultura, sui-
22-A, Lei n. 8.212, de 24 de julho nocultura e avicultura.
de 1991), incidente sobre o valor da

148
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Breves considerações sobre a con- é fato gerador de contribuições ao Anotações
tribuição do trabalhador rural INSS (obrigação dos empregadores
e dos trabalhadores de contribuir) e
Todo empregado que presta ser- que a idade exigida para a aposenta-
viço de natureza urbana ou rural à doria por idade do trabalhador rural
empresa, em caráter não eventual, é de sessenta anos para os homens
sob a sua subordinação e median- e cinqüenta e cinco para as mulhe-
te remuneração é considerado se- res (art. 201, § 7º, II da CF/88). O
gurado obrigatório da Previdência prazo final para o trabalhador rural
Social. Também é segurado obriga- empregado requerer a aposentado-
tório o contribuinte individual pes- ria por idade foi estendido até 31
soa física, proprietária ou não, que de dezembro de 2010. O valor dos
explora atividade agropecuária ou benefícios previdenciários destina-
pesqueira, em caráter permanente dos ao trabalhador rural (ou urbano)
ou temporário, diretamente ou por não pode ser inferior a um salário
intermédio de prepostos e com au- mínimo segundo o art. 201, § 5º da
xílio de empregados, utilizados a Constituição: “nenhum benefício
qualquer título, ainda que de forma que substitua o salário de contribui-
não contínua (art. 12, I e V, da Lei n. ção ou o rendimento do trabalho do
8.212/91). segurado terá valor mensal inferior
ao salário mínimo”.
Adiantamos que a contratação
de trabalhadores por empresas rurais

149
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
A contribuição dos segurados con- devida ou creditada ao trabalhador Previdência Social. É por meio da
tribuintes – tanto individual quanto fa- (segurado). GFIP que são prestadas as informa-
cultativo – deve ser feita com base na ções condizentes aos fatos geradores
alíquota de 20% sobre o respectivo O prazo para isso vence no dia da contribuição previdenciária e aos
salário-de-contribuição (art. 21 da Lei 10 do mês subseqüente ao da res- dados inerentes ao FGTS, tais como
n. 8.212/91); e a contribuição dos se- pectiva competência e pode ser a admissão de empregado, o paga-
gurados empregados e trabalhadores prorrogado para o dia útil seguinte mento de salário, o auxílio-doença,
avulsos é calculada pela aplicação da quando não houver expediente ban- o acidente de trabalho.
correspondente alíquota sobre o seu cário no dia 10, nos termos do art.
salário-de-contribuição mensal, de 30, I, ‘b’, da Lei 8.212/1991, e da Lei
forma não cumulativa, nos termos do n. 11.488, de 15/06/2007 (que con- Principais Aspectos da
art. 28 e da tabela do art. 20, ambos verteu em lei a Medida Provisória n. Tributação Rural
da Lei n. 8.212/91). 351, de 22/01/2007).
NOÇÕES GERAIS DE DIREITO
Prazo para recolhimento da contri- GuiaderecolhimentodoFundodeGa- TRIBUTÁRIO
buição previdenciária rantia por Tempo de Serviço e Infor-
mações à Previdência Social (GFIP) Para realizar as diversas funções
Já dissemos que a empresa (ou que lhe compete, a administração
aqueles equiparados a ela, segundo Por meio da Guia de Recolhimen- pública necessita de recursos finan-
o direito previdenciário), o produtor to do Fundo de Garantia do Tempo ceiros, os quais são arrecadados, em
rural pessoa física e o segurado espe- de Serviço e Informações à Previ- sua grande maioria, por meio de tri-
cial são obrigados a recolher as con- dência Social (GFIP), o empregador- butos. Podemos definir os tributos
tribuições previdenciárias mediante contribuinte disponibiliza todas as como prestações compulsórias, ins-
o desconto na remuneração paga, informações referentes ao FGTS e à tituídas por lei, exigidas pelo Estado

150
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
e cujo valor esteja expresso em moeda corrente, mas que não provenham Anotações
da aplicação de alguma pena decorrente da prática de atos ilícitos.

Conceitos de sujeito passivo e ativo, fato gerador, obrigação tributária,


imunidade e isenção

Além dos princípios e da classificação, que veremos no próximo tópico,


é necessário conhecer alguns conceitos elementares do Direito Tributário
como, por exemplo, sujeitos passivo e ativo, fato gerador, obrigação tribu-
tária, imunidade e isenção.

O sujeito passivo da obrigação tributária é a pessoa física ou jurídica


responsável pelo pagamento do tributo, ou seja, é o contribuinte que de-
verá quitar o crédito tributário existente em seu desfavor e em benefício da
administração pública (sujeito ativo). A não quitação do débito tributário
na data de recolhimento do tributo acarreta as seguintes conseqüências:
(i) cobrança de multa e juros de mora, além da atualização monetária do
valor do crédito; (ii) inscrição do nome do contribuinte nos cadastros de
inadimplentes das Fazendas Públicas Federal, Estadual, Municipal e Distri-
tal (conforme a competência do tributo devido); (iii) propositura de ação de
execução fiscal em desfavor do contribuinte; (iv) e eventualmente, abertura
de inquérito policial para futura ação penal em face do contribuinte, caso
seja verificada a ocorrência de crime contra a ordem tributária.

151
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
Fato gerador é o fato que dá ori- apuração do tributo, bem como outros dados porventura exigidos. Tanto
gem ao nascimento da obrigação tri- o descumprimento da obrigação principal quando da obrigação acessória
butária. É a situação, devidamente implicam na imposição de multa ao contribuinte.
discriminada e prevista em lei ante-
rior (princípio da legalidade tributá- As imunidades tributárias são situações acerca das quais o legislador
ria), que enseja a constituição do cré- não poderá constituir fatos geradores de tributos. As imunidades decorrem
dito. É a partir da ocorrência do fato sempre de expressa previsão constitucional e não são presumidas. Assim,
gerador (ou fato imponível) que nas- para os imunes, não há fato gerador e, de conseqüência, não existirá obri-
ce a obrigação de pagar o tributo. gação tributária e, tampouco, crédito tributário a ser pago.

A obrigação tributária é a relação A isenção tributária, por seu turno, não decorre de previsão constitucio-
existente entre o órgão estatal titular nal, mas de lei infraconstitucional (assim consideradas aquelas abaixo da
do tributo cobrado e o sujeito passi- Constituição Federal). Neste caso, o fato gerador existe, a obrigação tribu-
vo (contribuinte). A obrigação tribu- tária também, mas em razão de expressa previsão legal de isenção, não há
tária é dividida em duas espécies: (i) para o sujeito passivo (contribuinte) o dever de pagar o crédito tributário,
a obrigação tributária principal, de que se torna inexigível justamente em função da imunidade existente. A
natureza patrimonial, assim compre- previsão de isenções tributárias impede a cobrança do tributo pela adminis-
endido o dever de pagar o tributo, tração pública.
nos limites e condições previstos em
lei; e (ii) a obrigação tributária aces- Princípios de direito tributário
sória, de natureza não-patrimonial,
consistente no dever de disponibi- O exercício da função de tributar deve observar alguns princípios; regras
lizar à administração pública todas importantes cujo descumprimento torna a cobrança da obrigação tributária
as informações necessárias à correta ilegítima por parte da administração pública. Assim, princípios inerentes ao

152
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Direito Tributário são garantias decorrentes da própria Constituição Federal Anotações
vigente, e asseguram aos contribuintes que a exigência de tributos não será
feita de forma aleatória ou indiscriminada. Dentre vários, alistamos abaixo
os mais importantes ao objetivo deste trabalho:

> Princípio da legalidade tributária: nenhum tributo pode ser criado,


aumentado, reduzido ou extinto sem que o seja por lei específica.
Portanto, não pode haver a exigência de qualquer tributo sem que,
previamente, haja uma lei estabelecendo com clareza e precisão to-
dos os requisitos necessários ao pleno conhecimento pelo contri-
buinte, ou seja: (i) as hipóteses em que tal tributo será exigido (fato
gerador), (ii) o responsável pelo pagamento do tributo, (iii) a base e a
fórmula de cálculo do valor a ser pago, (iv) o órgão da administração
pública ao qual foi atribuída a cobrança do tributo, (v) as conseqüên-
cias do não recolhimento e (vi) as hipóteses de exclusão, suspensão
e extinção do crédito tributário.

> Princípio da irretroatividade da lei tributária: proíbe a criação de tri-


butos incidentes sobre fatos já ocorridos. A lei deve determinar a in-
cidência do tributo em fatos futuros (posteriores) à sua edição, nunca
sobre fatos passados (anteriores).

153
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
> Princípio da igualdade tributária: significa que > Princípio da anterioridade anual e nonagesimal: a
contribuintes que se encontram em situação de cobrança do tributo não pode acontecer no mes-
igualdade não podem ser tratados de maneira de- mo exercício financeiro em que foi criado e, tam-
sigual (art. 150, ‘II’ da CF/88). pouco, antes de decorridos noventa dias da data
em que haja sido publicada a lei que o instituiu
> Princípio da capacidade econômica: só pode ser ou o aumentou (art. 150, ‘III’, ‘a’ e ‘b’ da CF/88).
instituído tributo em situações em que ocorra um
fato econômico acerca do qual se presuma uma > Princípio da vedação ao confisco (ou princípio
riqueza que possa ser tributada. Logo, o tributo do não-confisco): proíbe o Estado de estabelecer
deve estar relacionado a uma base econômica, tributos de tamanha magnitude ou alcance que
capaz de suportar a respectiva tributação. acabe por confiscar (expropriar) o bem jurídico
tributado ou inviabilizar a propriedade ou a ex-
> Princípio da capacidade contributiva: permite ploração deste bem por parte do contribuinte.
um caráter de progressividade aos tributos. Isto
significa que o valor do crédito tributário exigido > Princípio da proibição à bi-tributação (ou prin-
pode ser maior se a possibilidade de pagamento cípio da vedação ao ‘bis in idem ): assegura que
do contribuinte também o for. Um bom exemplo um mesmo fato gerador (causa do tributo) não
da aplicação deste princípio é o Imposto de Ren- pode ensejar a cobrança de mais de um tributo.
da, em que os contribuintes são onerados com
uma alíquota maior à proporção em que suas Enfim, vale dizer que tais diretrizes principiológi-
rendas aumentam. cas devem ser cumpridas por todos os entes federados
(União, Estados, Municípios e o Distrito Federal) quan-

154
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
do forem instituir, aumentar ou modificar os tributos de suas respectivas Anotações
competências.

CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS

Os tributos podem ser classificados de várias maneiras. Dentre elas, nos


interessa discutir o da modalidade (tipo) de tributo e da competência para a
cobrança do tributo (competência tributária).

Modalidades de tributo: imposto, taxa, contribuição de melhoria e contri-


buições sociais

O Código Tributário Nacional (CTN, art. 16) define imposto como o


tributo cuja:
obrigação tem por fato gerador uma situação independente de qualquer
atividade estatal específica, relativa ao contribuinte.

Portanto, para a cobrança do imposto não há uma contraprestação por


parte da administração pública ao contribuinte. O imposto é devido sem
que haja uma obrigação estatal de contrapartida. São exemplos de impos-
tos: o Imposto de Renda (IR) e o Imposto Territorial Rural (ITR).

Já a taxa está diretamente relacionada a uma prestação específica da


administração ao contribuinte, o qual a pagará a justamente por ter se bene-

155
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
ficiado da ação estatal. Em resumo, a taxa é um tributo instrumento de sua atuação nas respectivas
contraprestacional. Um exemplo de taxa, bastante co- áreas, observado o disposto nos artigos 146,
mum, é a taxa judiciária, paga por aqueles que movem III e 150, I e III, e sem prejuízo do previsto
alguma ação judicial. no art. 195, relativamente às contribuições
a que alude o dispositivo. Parágrafo único:
A contribuição de melhoria, por sua vez, incide os Estados, o Distrito Federal e os Municí-
quando algum imóvel do contribuinte é valorizado ou pios poderão instituir contribuição, cobrada
de alguma forma beneficiado pela atuação estatal. Uma de seus servidores, para o custeio, em be-
situação corriqueira em que é exigida a contribuição de nefício destes, de sistemas de previdência e
melhoria é a pavimentação da via pública de acesso ao assistência social.
imóvel rural. Neste caso, o poder público poderá exigir Em outras palavras, a contribuição social é
uma contribuição de melhoria do proprietário, vez que uma obrigação tributária, isto é, uma presta-
inegável a valorização do bem. ção pecuniária compulsória paga ao Estado
com a finalidade de criar um fundo econô-
Por último, as contribuições de maneira geral, ou mico destinado ao fomento e à manutenção
contribuições sociais, têm a finalidade de assegurar a do sistema de seguridade social.
atuação estatal no campo da seguridade social, sobre-
tudo a previdência e o Sistema Único de Saúde (SUS). É importante dizer que a Constituição Federal de
As contribuições sociais estão previstas no art. 149 da 1988 concretizou a natureza tributária das contribui-
Constituição Federal: ções sociais, pois estabeleceu no seu referido art. 149 a
Compete exclusivamente à União instituir sua exigência, desde que por meio de lei complementar
contribuições sociais, de intervenção no e levando em consideração os princípios da irretroativi-
domínio econômico e de interesse das ca- dade da lei e da anterioridade (art. 150, III, da CF/88).
tegorias profissionais ou econômicas, como

156
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Continuando, de acordo com Tributos Federais: Imposto de Renda sobre Proventos de Qualquer Na-
as determinações constitucionais, tureza (IR), Imposto Territorial Rural (ITR), Imposto sobre Produtos Indus-
as contribuições sociais não po- trializados (IPI), Imposto de Importação, Imposto de Exportação, Imposto
dem incidir sobre as receitas de ex- sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro e sobre Operações relati-
portações (149, §2º), sobre a apo- vas a Valores Mobiliários, Imposto sobre Grandes Fortunas; Impostos Ex-
sentadoria e pensões concedidas traordinários; as Contribuições para a Social sobre o Lucro Líquido (CSLL);
pelo regime geral da previdência Contribuição Social para o financiamento da Seguridade Social (Confins);
(art. 195, II) e sobre as entidades Contribuição para o PIS/Pasep, Taxas Federais etc.
beneficentes de assistência social
(art. 195, §7º). Tributos Estaduais e do Distrito Federal: Imposto sobre operações rela-
tivas à Circulação de Bens e Prestação de Serviços (ICMS), Imposto sobre
Competência tributária a propriedade de Veículos Automotores (IPVA), Imposto Sobre Heranças e
Doações, Taxas Estaduais.
No que condiz à competência
tributária, há aqueles tributos que: Tributos Municipais: Imposto sobre a Propriedade Territorial e Predial
(i) são de competência federal (da Urbana (IPTU), Imposto sobre a transmissão inter vivos de bens imóveis
União Federal); (ii) são de compe- e direitos a eles relativos, Impostos Sobre Serviços de Qualquer Natureza
tência estadual (dos Estados); (iii) (ISSQN), Taxas Municipais.
são de competência municipal; e (iv)
são de competência distrital (DF). A IMPOSTO TERRITORIAL RURAL (ITR)
relação abaixo (meramente exempli-
ficativa) ajudará na visualização da O Imposto Territorial Rural é o principal imposto que incide sobre a
classificação. propriedade ou a posse do imóvel rural. Trata-se de imposto pago anual-

157
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
mente cuja competência tributária é da União Federal (sujeito ativo), segun- Portanto, o valor do imposto será
do o art. 153, ‘VI’ da Constituição Federal. sempre inversamente proporcional
ao grau de utilização da gleba tri-
Uma importante característica do ITR é ser extrafiscal. Isto significa que butada. Através deste mecanismo, o
a cobrança deste tributo não é importante apenas pelo montante de recur- possuidor ou o proprietário são in-
sos que serão arrecadados para os cofres públicos, mas sobretudo pelo fato centivados a aproveitar integralmen-
dele estimular o cumprimento da função social da propriedade. te as terras que detém, aplicando-
lhes a destinação social exigida pela
De fato, conforme demonstraremos na seqüência, o valor do ITR será coletividade.
calculado de acordo com o grau de utilização (GU) da gleba tributada, de
maneira que quanto maior for o grau de aproveitamento do imóvel, menor Causas (fato gerador) e responsabili-
será a quantia a ser paga, sendo a recíproca verdadeira. dade pelo pagamento do ITR – quem
e quando se deve pagar o ITR?

Cleverson Beje
O ITR tem como fato gerador
(causa) a propriedade, o domínio
útil ou a posse de imóvel localiza-
do na zona urbana. Logo, o ITR in-
cide sobre a propriedade ou a posse
de todos os imóveis que não sejam
urbanos, independentemente da di-
mensão ou da destinação econômi-
ca atribuída ao bem.

158
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
O imposto incide não só sobre Os arrendatários e parceiros não Anotações
a propriedade, mas também sobre são obrigados a pagar o ITR, pois as
a posse e o domínio útil do imóvel posses que exercem não são plenas,
rural. Por esta razão, não apenas o porquanto subordinadas, respecti-
proprietário deve realizar o reco- vamente, aos contratos de arrenda-
lhimento do imposto, vez que todo mento e de parceria que firmaram.
aquele que exercer a posse plena Pelo mesmo motivo, não devem ser
da gleba (leia-se: sem subordinação considerados contribuintes os co-
a outra pessoa) tem a obrigação de modatários, pessoas que exercem a
fazê-lo. posse de algum bem de forma gra-
tuita com autorização do proprietá-
Assim, na relação de contribuin- rio (comodante) no contrato deno-
tes do ITR devem ser incluídos, além minado comodato.
do dono, os usufrutuários – aqueles
que utilizam o domínio útil do bem, Para encerramento deste tópico
ou seja, usam e gozam da coisa sem é relevante informar que o sucessor
serem donos, em função da institui- a qualquer título fica responsável
ção de usufruto ou de enfiteuse ad- pelo pagamento de eventuais impos-
ministrativa – e, de forma geral, to- tos referentes à propriedade que não
dos possuidores, ainda que a posse tenham sido pagos pelos proprietá-
por eles exercida seja ilegal. rios anteriores. Isto significa que os
herdeiros (no caso de falecimento

159
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
do proprietário), ou o adquirente do imóvel rural (na hipótese da gleba ser > 30 ha (hectares), se localiza-
vendida) são responsáveis pelo pagamento dos débitos antigos. do em qualquer outro muni-
cípio situado fora das regiões
Aliás, no ato de transferência de qualquer imóvel (urbano ou rural) para acima mencionadas.
um novo proprietário, é dever do alienante (pessoa que deixará de ser dona)
exibir certidões negativas de débitos tributários das fazendas públicas fe- Por conseguinte, os proprietários,
deral, estadual e municipal, sob pena da transferência do bem (registro da usufrutuários e possuidores dos imó-
escritura de alienação na matrícula do imóvel) não poder ser realizada pelo veis caracterizados como pequena
oficial do Cartório de Registro de Imóveis. gleba rural estão imunes ao ITR e, por
isso, não precisam recolhê-lo. No en-
Hipóteses de imunidade e isenção (quando o pagamento do ITR não é de- tanto, devem prestar as informações
vido) condizentes às suas terras à Secreta-
ria da Receita Federal (SRF), obriga-
A Constituição Federal tornou a pequena gleba rural imune à exigência ção que explicaremos em seguida.
do ITR. Assim, por pequena gleba rural se deve entender os imóveis que
possuem área igual ou inferior a: Ao seu turno, as situações abai-
xo geram isenção ao pagamento do
> 100 ha (hectares), se localizado em município compreendido na ITR:
Amazônia Ocidental ou no Pantanal mato-grossense ou sul-mato-
grossense; > o imóvel rural compreendido
em programa oficial de re-
> 50 ha (hectares), se localizado em município compreendido na Ama- forma agrária, caracterizado
zônia Oriental ou no Polígono das Secas; e, pelas autoridades competen-
tes como assentamento, que,

160
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
cumulativamente, atenda aos seguintes requisitos: (i) seja explorado Anotações
por associação ou cooperativa de produção; (ii) a fração ideal por fa-
mília não ultrapasse os limites estabelecidos para a imunidade (aci-
ma mencionados); e, (iii) o assentado não possua outro imóvel; e,

> o conjunto de imóveis rurais de um mesmo proprietário, cuja área to-


tal observe os limites fixados para a regra de imunidade, desde que,
cumulativamente, o proprietário: (i) o explore só ou com sua família,
admitida ajuda eventual de terceiros; e, (ii) não possua imóvel urba-
no.

Logo, sempre que estiverem caracterizadas as condições relatadas, não


haverá a obrigação de pagar o ITR, no entanto, a exemplo dos imunes, de-
vem prestar os dados necessários à Secretaria da Receita Federal.

Obrigações do contribuinte

Os contribuintes do ITR têm duas obrigações, uma de natureza patri-


monial (obrigação principal), que é o pagamento do imposto; e outra de
natureza não patrimonial (obrigação acessória), consistente na prestação
das informações relativas à gleba tributada junto à Secretaria da Receita
Federal (SRF).

161
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
A obrigação acessória é o preen- NIRF. Este número é necessário para o recolhimento do imposto, cujos pro-
chimento do DIAC (Declaração de cedimentos estão explicados na seqüência.
Informação e Atualização Cadastral),
documento que deve ser entregue à A obrigação principal deve ser precedida do preenchimento de outro
SRF pelo contribuinte no prazo de formulário, o DIAT – Documento de Informação e Apuração do ITR, a ser
60 dias todas as vezes que o imóvel apresentado à SRF todos os anos (normalmente, o prazo fixado é até o úl-
for: (i) desmembrado (dividido), (ii) timo dia útil do mês de setembro). Cada DIAT deve corresponder a uma
anexado a outro, (iii) transmitido por única gleba (matrícula no Cartório de Registro de Imóveis). A impontualida-
alienação (venda ou doação) ou por de na apresentação do DIAT enseja a mesma multa exigida na hipótese de
herança, (iv) houver cessão de direi- atraso na entrega do DIAC.
tos da posse, ou (v) tiver sido consti-
tuído ou extinto o usufruto. No caso No DIAT, o contribuinte informará o valor da terra nua (VTN), além
de não apresentação espontânea no de outras informações necessárias à correta apuração do valor do tributo.
prazo legal o contribuinte pagará É importante mencionar que este valor será utilizado como referência do
multa de 1% (um por cento) por mês preço de mercado do bem no caso de uma desapropriação do imóvel (seja
de atraso sobre o imposto devido, qual for o motivo). Por isso, não é prudente, na tentativa de pagar um valor
sendo que a multa terá sempre um menor de ITR, sub-valorizar o imóvel na declaração, pois na hipótese de
valor mínimo de R$ 50,00 (cinqüen- ser desapropriado o proprietário não poderá discutir o preço por ele mesmo
ta reais). Através do DIAC o imóvel fornecido.
recebe um número de registro pe-
rante a Receita Federal, chamado de

162
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Cálculo do ITR – como apurar o valor a ser pago Anotações

O valor do imposto a ser pago será encontrado através da multiplicação


do VTNt (Valor da Terra Nua tributável) pela alíquota correspondente ao
Grau de Utilização encontrado. As alíquotas são as seguintes:

Área total do imóvel


GRAU DE UTILIZAÇÃO - GU ( EM %)
(em hectares)

Maior Maior Maior


Maior
que que que
que Até 30
65 até 50 até 30 até
80
80 65 50
Até 50 0,03 0,20 0,40 0,70 1,00
Maior que 50 até 200 0,07 0,40 0,80 1,40 2,00
Maior que 200 até 500 0,10 0,60 1,30 2,30 3,30
Maior que 500 até 1.000 0,15 0,85 1,90 3,30 4,70
Maior que 1.000
0,30 1,60 3,40 6,00 8,60
até 5.000
Acima de 5.000 0,45 3,00 6,40 12,00 20,00
Tabela 12.1

É importante observar que quanto maior o GU, menor a alíquota. Por


outro lado, quando menor for o GU, maior é a alíquota. Portanto, é fácil
concluir que o valor do imposto será tanto menor quanto maior for o apro-
veitamento do imóvel. Esta sistemática, consoante mencionamos no início,
visa incentivar a melhor utilização da propriedade, para que seja cumprida

163
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
acordo com o Grau de Utili-
sua função social de produzir alimentos, gerar tributos e oferecer postos de zação apurado em cada pro-
trabalho. priedade.

Antes de prosseguir com a explanação sobre o cálculo do imposto, é Para encontrar o VTN tributá-
preciso recordar a fórmula geral: vel, temos que multiplicar o Valor
da Terra Nua (informado no DIAT),
Valor do ITR = VTNtributável x alíquota do GU. pelo quociente (resultado da divisão)
entre a área tributável e a área total
Onde: do imóvel. Por área tributável, deve-
> Valor do ITR será o montante a ser pago; se entender a área total do imóvel,
subtraídas as seguintes: (i) áreas de
> VTNtributável significa Valor da Terra Nua tributável; e,
preservação permanente e de reserva
> Alíquota do GU é o fator de multiplicação encontrado na tabela, de
legal, (ii) áreas de interesse ecológi-
Cleverson Beje co para a proteção de ecossistemas,
assim declaradas mediante ato do ór-
gão (federal, estadual ou municipal)
competente, (iii) áreas comprovada-
mente imprestáveis para qualquer
atividade agrária, agrícola, pecuária,
granjeira, aqüícola, ou florestal, de-
claradas de interesse ecológico me-
diante ato do órgão competente, (iv)
áreas sob regime de servidão flores-
tal ou ambiental, (v) áreas cobertas
por florestas nativas, primárias ou
164
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
secundárias em estágio médio ou A seu turno, as áreas efetivamen- Anotações
avançado de regeneração, (vi) áreas te utilizadas são medidas observan-
alagadas para fins de construção de do a utilização do imóvel no ano an-
reservatórios de usinas hidrelétricas terior, pelo que serão computadas a
autorizadas pelo Poder Público. este título: aquelas que tenham sido
plantadas com produtos vegetais; as
Por sua vez, o Valor da Terra Nua tenham servido de pastagem, nati-
deve ser aquele condizente à terra, va ou plantada; as que tenham sido
excluídos os relativos a: (i) constru- objeto de exploração extrativa; e, as
ções, instalações e benfeitorias, (ii) que tenham servido para exploração
culturas permanentes e temporárias, de atividades granjeira ou aqüícola.
(iii) pastagens cultivadas e melhora-
das e (iv) florestas plantadas. Prazo para pagamento do ITR

Já o GU (Grau de Utilização) O valor mínimo de pagamen-


é a relação percentual entre a área to de ITR é de R$ 50,00 (cinqüenta
efetivamente utilizada e a área apro- reais) e o imposto deve ser pago até
veitável. As áreas aproveitáveis são o último dia útil do mês fixado para
todas aquelas que forem passíveis de a entrega do DIAT (normalmente, é
aproveitamento agrário, exceto: a) o mês de setembro). O pagamento
as ocupadas por benfeitorias úteis e pode ser parcelado em até três parce-
necessárias e b) as excluídas do con- las mensais, vencíveis no último dia
ceito de área tributável (indicadas útil dos meses subseqüentes, sendo
anteriormente). que nenhuma parcela pode ser in-

165
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
ferior a R$50,00 (cinqüenta reais) e da União (sujeito ativo do imposto). do nome e número de CPF (Cadastro
sobre elas incidirão juros calculados Logo, é obrigação do contribuinte de Pessoas Físicas) do devedor no
com base na Taxa Selic (taxa referen- realizar tais obrigações independen- CADIN (Cadastro de Créditos Não
cial do Sistema de Liquidação e de temente de receber qualquer espé- Quitados do Setor Público Federal).
Custódia para títulos federais). cie de cobrança. Este procedimento
é conhecido como autolançamento, Além disso, a União poderá pro-
O pagamento do imposto fora dos ou lançamento por homologação, ceder à execução fiscal do valor de-
prazos previstos ensejará a cobrança pois a obrigação tributária deve ser vido, por meio de processo judicial
de multa de mora (pelo atraso) no cumprida sem que para tanto a cre- no qual o próprio imóvel ou outros
patamar de 0,33% (zero vírgula trin- dora do imposto tenha que tomar bens em nome do contribuinte falto-
ta e três por cento), por dia de atraso, qualquer providência prévia. Em ou- so poderão ser penhorados (bloque-
não podendo ultrapassar 20% (vin- tras palavras, o contribuinte prestará ados judicialmente) e vendidos para
te por cento), calculada a partir do as informações, recolherá o tributo pagar o débito. Caso seja de interes-
primeiro dia útil subseqüente ao do e, posteriormente, a União dirá se se do INCRA (Instituto Nacional de
vencimento do prazo previsto para o homologa o pagamento ou cobra Colonização e Reforma Agrária), o
pagamento do imposto até o dia em o valor remanescente que entender imóvel poderá ser adjudicado (ex-
que ocorrer o efetivo pagamento. devido. propriado) para fins fundiários.

Explicada a forma de se apurar Se o contribuinte não realizar o Delegação da cobrança do ITR aos
o valor devido, deve se ressaltar que autolançamento do imposto, ficará Municípios
a entrega do DIAC, do DIAT e o pa- sujeito às multas comentadas e a Re-
gamento do tributo não dependem ceita Federal, através da SRF, realiza- Apesar de ser, o ITR, um tribu-
de qualquer provocação, notifica- rá o lançamento do imposto que, se to federal, metade da arrecadação
ção ou comunicado prévio por parte não for pago, acarretará a inscrição proveniente deste imposto é destina-

166
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
da aos municípios. No entanto, em rurais pode ser grande. Anotações
2005, a Lei Federal n. 11.250, trouxe
a possibilidade da Secretaria da Re- Porém, cabe chamarmos a aten-
ceita Federal firmar convênios com ção da necessidade do empreen-
os municípios para que a cobrança dedor reconhecer-se como líder na
do ITR seja assumida pelas prefeitu- condução de sua empresa rural. Não
ras que assim desejarem. Em contra- basta apenas compreender e seguir
partida, os municípios que firmarem o determinado juridicamente, mas
o convênio terão direito à totalidade sobretudo, saber conduzir sua equi-
da arrecadação do ITR nos imóveis pe de forma a aproveitar ao máximo
rurais situados em suas fronteiras. A seus talentos e habilidades.
lista das cidades que já aderiram ao
convênio pode ser encontrada nas Para isso, seguimos com algu-
Delegacias da Receita Federal ou mas reflexões e conceitos sobre as
no site da Receita Federal: <www. diversas qualidades de liderança.
[Link]>.
As qualidades da
Pelo exposto até o momento nes- liderança
te capítulo, fica visível a fundamen- Marina de Magalhães Carneiro de Oliveira
tal importância do conhecimento,
ainda que superficial, da Legislação O trabalho rural frequentemente
agrária e do que está estabelecido envolve a atuação conjunta, o traba-
no Sistema Jurídico. O impacto disso lho em grupos. Ainda que a produção
nas vidas cotidianas dos empresários agropecuária seja voltada ao trabalho

167
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
direto com a natureza, este trabalho Que qualidades são desejáveis para que as ações em grupo possam fluir
ocorre, na maioria das vezes, através de modo satisfatório?
do contato com outras pessoas.
Para lidar com estas perguntas é que este texto foi escrito, inspirado
O produtor rural depende de ou- no livro de Bernard Lievegoed6 – O Homem no Limiar. Lievegoed dedicou
tras pessoas para realizar a missão sua vida ao estudo do desenvolvimento das pessoas e das organizações.
de seu negócio: sócios, colaborado- Foi professor da Faculdade de Administração Empresarial de Rotterdam, na
res, parceiros, fornecedores, com- Holanda, na cadeira de Pedagogia Social, na qual propunha que, através
pradores, investidores. Boa parte do das relações humanas, o homem encontra um importante campo para o seu
trabalho rural depende da qualidade autodesenvolvimento.
das relações que se estabelece com
outras pessoas. Mas nem sempre isto Antes de mais nada, é importante lembrar que as pessoas são diferentes
ocorre facilmente. As atividades em entre si: têm histórias de vida, valores, crenças, temperamentos e habili-
grupo, as ações conjuntas são muitas dades diferentes. A diversidade em um grupo é mais desejável do que a
vezes permeadas de tensões, desen- uniformidade, pois pessoas diferentes trazem contribuições diferentes para
tendimentos e conflitos. o grupo. Cabe ao líder saber tirar proveito desta diversidade, valorizando-a
no grupo, a fim de que se beneficie em criatividade e em sinergia.
Como lidar com as tensões que
frequentemente ocorrem nas ativida- Além disso, vale ressaltar que somos nós que criamos nosso ambiente
des grupais? de trabalho. O campo das relações humanas é um campo vivo, dinâmico
que pode estar em constante renovação. As relações entre as pessoas po-
Como o indivíduo pode cuidar dem sempre ser renovadas, melhoradas, transformadas. Segundo Schaefer7,
de seu próprio desenvolvimento 6 LIEVEGOED, B. O homem no limiar: o desafio do autodesenvolvimento. São Paulo: Antroposófica, 1999.
7 SCHAEFER, C. Palestra proferida em São Paulo em dezembro de 2006.
como líder de equipes?

168
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
nós somos os deuses do mundo social: somos nós que criamos tudo o que Anotações
ocorre no campo das relações humanas.

Aliás, o campo das relações humanas é um campo em que as pessoas


acumulam muita experiência, mas raramente estão conscientes disto como
uma área de conhecimento.

Quem é líder deve estar atento ao modo como as relações ocorrem, en-
tre si próprio e os demais, e deve buscar aperfeiçoar-se na arte de se relacio-
nar com os outros, para ganhar respeito e confiança. Do mesmo modo, um
dos papéis do líder é ajudar as pessoas que estão ao seu redor a amadurecer
o modo como se relacionam com outros.

Queremos apresentar aqui algumas qualidades da liderança8. Estas qua-


lidades estão presentes, em maior ou menor intensidade, em todas as pesso-
as, mas muitas vezes de modo inconsciente. Reconhecer as características
de cada uma destas qualidades será útil ao líder em diversos aspectos:
> Para ajudá-lo a reconhecer tais qualidades nas pessoas, realçando-as
no trabalho grupal;
> Para ajudar a apoiar o desenvolvimento dos colaboradores, orien-
tando-os em que podem se aprimorar;

8 Baseado em OLIVEIRA, M.P. A equipe. In: SILVA, A.L.P.(org.) Guia de Gestão - Para quem dirige entidades soci-
ais. São Paulo: Editora SENAC/Fundação Abrinq, 2002.

169
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
> Para ajudá-lo a identificar as
qualidades que precisa apri- grupo ou a empresa seguirão. Con- “do que se trata a conversa”, pois
morar em si próprio, quando seguem apontar as tendências, as são capazes de perceber o que está
na ação com outros. mudanças que devem acontecer. por trás das coisas que o grupo está
Descrevemos aqui seis qualida- vivenciando.
des de liderança: o que as caracte- Pessoas que fazem uso desta ca-
riza, como se manifestam, em que pacidade são capazes de escutar o Ter profundidade, ter visão do
contribuem, o que acarretam quan- que está sendo conversado no grupo, todo, apontar a direção, identificar
do em excesso. São elas: fazer perguntas essenciais, estabele- padrões de comportamento nas coi-
1. A qualidade do futuro cer relações entre as diferentes infor- sas ou nas pessoas e perceber o que
2. A qualidade da memória mações e captar um sentido maior, de se revela por trás das aparências
3. A qualidade da forma fazer uma leitura do todo, construir são características de quem faz uso
4. A qualidade do movimento uma visão de futuro, dar uma dire- da qualidade do futuro.
5. A qualidade da realização ou ção para o grupo.
ação objetiva Como exemplos, esta qualidade
6. A qualidade do cuidado Outro aspecto desta qualidade se manifesta quando alguém, após
pode ser visto nas pessoas que bus- escutar as diversas notícias do jornal
A QUALIDADE DO FUTURO cam aprofundar-se em determinados da televisão, consegue expressar uma
assuntos para compreender o porquê leitura do momento atual; ou quan-
A primeira qualidade a ser des- das coisas, para chegar ao “cerne da do, numa reunião em que a conver-
crita é a qualidade do futuro. Ela questão”. sa está “empacada”, a discussão não
aparece nas pessoas que conseguem avança, alguém consegue identificar
perceber a totalidade das coisas, que Ainda, esta qualidade se faz pre- que há outros fatores interferindo na
têm visão de conjunto, que se sen- sente nas pessoas que ajudam os de- conversa, há algo que está por trás,
tem responsáveis pelos rumos que o mais membros do grupo a esclarecer mas não está sendo expresso.

170
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Quem faz uso desta qualidade A QUALIDADE DA MEMÓRIA Anotações
tende a não se preocupar com de-
talhes minuciosos, mas com grandes A segunda qualidade a ser des-
direções e com o longo prazo. crita é a qualidade da memória. Ela
é percebida em quem tem facilida-
Qualquer qualidade não é boa de de trazer informações, de trazer
ou ruim, em essência. Torna-se boa à consciência como isto ou aquilo
quando empregada de forma correta ocorreu; nas pessoas que registram
no momento adequado. Do mesmo dados, fatos; que costumam anotar
modo, se uma qualidade for utiliza- como as coisas foram realizadas.
da de modo exagerado, pode-se se
tornar um problema. Ocorre em quem presta atenção
em cada passo do grupo, registrando
Assim, a pessoa que utiliza em o que aconteceu, anotando o que foi
excesso a qualidade do futuro pode, aprendido, como forma de preservar
por exemplo, ficar tão interessada a experiência.
em suas próprias idéias de futuro e
assim isolar-se da realidade presen- A qualidade da memória está
te. Ou ainda, a pessoa pode ficar tão presente em quem mantém a consci-
ocupada em aprofundar-se no por- ência do caminho já percorrido, de
quê das coisas que pode prejudicar o modo a cuidar de sua continuidade.
andamento dos trabalhos do grupo. Por exemplo, quando uma pessoa
inicia uma reunião retomando os

171
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
passos que o grupo já deu, lembran- Esta qualidade também está pre- tro das informações, acha que sabe
do o que já foi decidido, de modo sente nas pessoas que valorizam as tudo e assim, tem dificuldade em
que todos os membros do grupo es- tradições, a história, as lembranças; abrir-se para aprender coisas novas.
tejam conscientes para avançar no nas pessoas que têm a habilidade de
trabalho. resgatar lições aprendidas e de citar A QUALIDADE DA FORMA
histórias da família, da empresa, da
Por terem o hábito do registro e cultura local. Outra qualidade que é necessá-
da memorização, tais pessoas contri- ria ao trabalho em equipe é a quali-
buem com informações que muitas A qualidade da memória, se uti- dade da forma.
vezes são importantes e que, se não lizada de modo excessivo, também
registradas no momento, dificilmente pode trazer dificuldades: por se ape- Ela ocorre em pessoas que têm fa-
serão recordadas mais tarde, quando gar demais ao passado, por se sentir cilidade em perceber como as coisas
for necessário. Como exemplos, a in- seguro naquilo que já é conhecido, ocorrem em processos, em priorizar as
formação de quando os animais fo- o indivíduo pode desenvolver certa necessidades, em dividir as ações por
ram vacinados, qual foi o tratamento resistência às novas idéias, à inova- etapas, em classificar os problemas,
aplicado na cura de certa doença, ou ção, às alternativas que surgem no em dividir as tarefas entre as pessoas.
qual foi o esquema de adubação uti- grupo. Isto porque o trabalho em
lizado em determinada cultura. grupo é um excelente meio para o Está presente em quem cria es-
surgimento de novas idéias e solu- quemas para solucionar os proble-
Quem faz uso da qualidade da ções criativas. mas, em quem consegue visualizar
memória costuma ser cauteloso, de que forma as coisas podem ser
sente-se bem com rotinas, costuma Outro risco desta qualidade ser feitas e que passos precisam ser da-
prestar atenção aos detalhes. levada ao extremo pode acontecer dos para se atingir os objetivos.
quando alguém que, por ter o regis-

172
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Percebe-se a qualidade da forma Outro risco do abuso desta qua- Anotações
nas pessoas que têm uma boa per- lidade é o indivíduo ficar tão apai-
cepção estética, espacial e tempo- xonado pela perfeição de seus es-
ral, ou seja, que conseguem plane- quemas que considera inadmissível
jar as ações, os recursos e as pessoas qualquer alteração em sua forma.
distribuindo-as de modo lógico no
tempo e no espaço. A QUALIDADE DO MOVIMENTO

A qualidade da forma costuma ser A qualidade do movimento apa-


útil por trazer um caráter prático e or- rece nas pessoas que apresentam
denador das idéias aos demais. Além flexibilidade, nas pessoas que têm
disso, esta qualidade confere a capa- facilidade para começar de novo
cidade de criar conceitos e regras que quando percebem que erraram e
orientam o trabalho do grupo. que se adaptam rapidamente a no-
vas situações. Se algo planejado não
Entretanto, se esta qualidade for deu certo, rapidamente se vai em
praticada em excesso, pode gerar busca de alternativas. Esta qualida-
certa rigidez na forma de “como as de é útil para desencalhar o grupo
coisas devem ser” que poderá impe- de problemas. As pessoas que fazem
dir a criatividade ou a dificuldade na uso desta qualidade costumam ter
percepção de problemas ou de as- respostas vivazes, bem-humoradas
pectos não previstos no planejamen- às questões do grupo.
to, e a dificuldade para se lidar com
tais imprevistos.

173
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
A flexibilidade também pode trazer movimento às conversas. Esta qua- As pessoas que fazem uso desta
lidade faz com que a pessoa consiga perceber valor na fala de cada idéia qualidade costumam ser as primei-
trazida no grupo, mesmo que haja idéias divergentes. E também ajuda a ras a falar: “Então vamos começar.”
estabelecer relações entre as diferentes idéias, dissolvendo impasses e con- Trata-se da qualidade de se entender
tribuindo para que a conversa possa fluir melhor em um grupo. uma necessidade e de se pôr imedia-
tamente em movimento para atendê-
Pessoas que fazem uso desta qualidade raramente empacam em suas la. Popularmente dizemos que é a
idéias, mas estão sempre abertas ao novo, à criatividade. Este desapego às qualidade de arregaçar as mangas e
idéias já colocadas traz uma jovialidade, um “ar fresco” às conversas. Sem pôr a mão na massa.
receio, podem se perguntar: “por que não?” quando diante de propostas
inusitadas. A qualidade da realização ou
da ação objetiva ocorre nas pesso-
Um perigo do uso excessivo da qualidade do movimento é que, com tal as que, com senso prático, reagem
desapego, o indivíduo não desenvolva em si uma compreensão, uma opi- rapidamente a uma requisição, têm
nião mais fundamentada, suas próprias idéias, e caia na superficialidade. disposição de participar das coisas e
Outro risco é que a pessoa fique mais interessada em trazer tantas alternati- de tomar decisões. Em pessoas que
vas diferentes que gere uma situação caótica na qual o grupo perde a noção têm muita iniciativa, desempenham
do que é importante. suas tarefas com relativa facilidade,
pois são capazes de transformar con-
A QUALIDADE DA REALIZAÇÃO OU DA AÇÃO OBJETIVA vicções em metas.

Passemos agora a uma outra qualidade importante para o trabalho de Quem faz uso desta qualidade
equipe: a qualidade da realização ou da ação objetiva. não costuma se prender muito às
idéias, a escutar os outros ou a com-

174
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
preender o porquê de determinada preciso uma reação enérgica para que o perceba.
situação. Está mais focada na tarefa,
em “tirar o problema da frente”, em Outro risco é seguir precipitadamente para a ação objetiva, sem a devida
“fazer acontecer”. compreensão da situação, ocasionando conseqüências indesejáveis.

É uma qualidade dinamizadora, A QUALIDADE DO CUIDADO


que costuma trazer energia para o
grupo. Contribui pela facilidade de Polar à qualidade da realização está a do cuidado. Em essência, esta é a
vencer obstáculos, em assumir riscos qualidade que cria condições propícias, tanto no âmbito material como no
e de ir em busca de um objetivo. âmbito das relações humanas: ambientes acolhedores para que o trabalho
aconteça, para que haja conversa, para que as pessoas se encontrem.
Esta qualidade costuma ganhar
grande força dentro da pessoa, o que Esta qualidade está presente nas pessoas que sabem ouvir bem, que
pode fazer com que ela, tomada pelo prestam atenção, que acolhem as pessoas do grupo.
impulso, deixe de considerar os de-
mais e saia “atropelando” as idéias, Estéticas, buscam e expressam o que é belo. Esta qualidade pode ser
os sentimentos e os desejos dos ou- percebida, por exemplo, quando chegamos a uma sala em que haverá
tros, gerando mágoas, conflitos, ou, uma reunião e o local está limpo, as cadeiras estão arrumadas, há o que
como conseqüência, ficando sozi- comer e beber e há florezinhas no vaso. Às vezes esta qualidade está
nha, porque “perdeu” a companhia presente sem que a pessoa esteja presente na reunião. Mas a qualidade
dos demais. Neste caso, o indivíduo do cuidado também pode aparecer numa conversa em grupo: a pessoa
precisa ser ajudado a perceber o que que escuta atentamente os outros e ajuda com que as pessoas se escutem.
o seu excesso de impulsividade pro- Preocupa-se com que todos do grupo participem, tragam suas idéias, ex-
vocou ao redor, e normalmente, é pressem suas vontades. Esta qualidade preza para que haja diálogo, para

175
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
que haja encontro significativo en- de si própria e não desenvolver suas lidade do cuidado. Deste modo, é
tre as pessoas. próprias idéias, acalentar seus dese- comum percebermos que um indi-
jos e expressar suas opiniões. víduo desenvolva mais uma quali-
Outra característica da qualida- dade e tenha a sua qualidade polar
de do cuidado é de entender o que Outro problema da pessoa que pouco desenvolvida.
precisa ser feito, dar o suporte que exagera no uso da qualidade do cui-
os outros precisam, providenciar o dado é se ocupar demais com as re- Por exemplo, é normal que uma
que for necessário para que a ação lações interpessoais e assim perder pessoa com a qualidade do futuro
seja realizada. O seguinte exemplo a objetividade do trabalho. Ainda, bem desenvolvida, apresente a qua-
ilustra isto: ao escutar que o irmão, pode tornar-se muito suscetível ao lidade da memória pouco pronun-
após um telefonema, teria que fazer que os outros falam ou como agem, ciada. Como também é comum que
uma viagem de emergência, a irmã melindrando-se, ofendendo-se, ma- esta pessoa se incomode ou até se
providenciou-lhe um lanche, uma goando-se com facilidade. irrite quando diante de outra pessoa
bebida, um agasalho, antes mesmo que faz um amplo uso da qualidade
que ele pudesse pensar nisto. Estas qualidades de liderança da memória, como se isto não fosse
podem ser percebidas como pola- relevante ou fosse inoportuno.
Muitas vezes esta qualidade apa- res: a qualidade do futuro e a qua-
rece assim, discreta, anônima, e por lidade da memória, por exemplo, Um fenômeno facilmente obser-
isso pode ser pouco valorizada. ainda que não sejam antagôni- vável em reuniões de grupos é a ten-
cas nem opostas, podem ser vistas são criada entre pessoas que apresen-
O risco de esta qualidade ser le- como polares. Também são polares tem qualidades polares em excesso:
vada ao exagero é a pessoa se preocu- as qualidades da forma e a quali- alguém deseja chegar rapidamente a
par tanto em criar condições para os dade do movimento, bem como a uma forma de conduzir uma situação
outros que pode acabar descuidando qualidade da ação objetiva e a qua- (qualidade da forma) e outra pessoa

176
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
insiste na busca de outras alternativas O gráfico abaixo ilustra as qualidades da liderança em pólos, o que
(qualidade do movimento). Ou um pode auxiliar o líder a explicitá-las aos demais do grupo:
indivíduo propõe que se parta para
Realização ou
a ação (qualidade da ação objetiva) ação objetiva

e outra pessoa se ofenda porque não


o primeiro não está dando a oportu-
Forma
nidade de que todos se pronunciem
(qualidade do cuidado).

Para a pessoa que deseja se de-


senvolver como líder, é importante Memória Futuro

aprender a reconhecer estes fenôme-


nos grupais e trazê-los à consciên-
cia do grupo. Não se trata de achar
quem está certo e quem está errado;
Movimento
provavelmente, cada um tenha uma
contribuição pertinente, em alguma
medida; apenas tem maior facilidade
Cuidado
para utilizar uma das qualidades da
liderança e, por conseguinte, mais Figura 12.2: Esquema gráfico das qualidades da liderança.

dificuldade de aplicar outra.

177
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
Considerações finais Como líder, é importante ajudar ações e algumas qualidades que te-
o grupo a respeitar as diferenças e as mos bem pouco desenvolvidas.
Se prestarmos atenção nas pes- especificidades – e especialidades –
soas ao nosso redor, nas reuniões, de cada pessoa. Se o grupo reconhe- Para ser capaz de lidar com
encontros de família, ações de traba- ce que cada uma dessas qualidades questões cada vez mais comple-
lho, é fácil percebermos estas qua- é importante para o seu funciona- xas e desafios cada vez maiores, o
lidades se manifestarem através de mento saudável, então pode reco- líder precisa cuidar de seu próprio
cada um. É importante recordar que nhecer também que cada pessoa desenvolvimento, precisa estar con-
elas podem estar presentes em todas tem um importante papel de lideran- tinuamente aprendendo, rever cons-
as pessoas e que cada indivíduo não ça a cumprir, pois cada momento do tantemente suas idéias, acessar suas
é somente uma coisa ou outra. Por- processo de trabalho pode ser ala- dúvidas, trocar suas questões e per-
tanto, devemos cuidar para não rotu- vancado por uma pessoa diferente. cepções com outras pessoas, para
lar as pessoas. Buscar o equilíbrio se torna então a não ficar ultrapassado. Cada indi-
responsabilidade comum9. víduo pode tentar desenvolver es-
Cabe então, a quem exerce a li- sas qualidades em si, evitar os exa-
derança, prestar atenção às pessoas Do mesmo modo que as outras geros e fortalecer as qualidades de
ao seu redor, reconhecer o valor das pessoas podem ter mais facilidade liderança nas quais possui mais di-
qualidades e dos talentos de cada em expressar certas qualidades do ficuldade. Pode aproveitar as opor-
um, bem como as suas dificuldades, que outras, é possível perceber, em tunidades sociais para praticar estas
a fim de aproveitar melhor os pontos nós mesmos, algumas qualidades qualidades: as refeições em família,
fortes e apoiar o desenvolvimento de que temos mais presentes em nossas as reuniões na associação, os traba-
cada um nos pontos em que ainda lhos em grupo são momentos propí-
9 LIEVEGOED, B. O homem no limiar: o desafio do au-
são falhos. todesenvolvimento. São Paulo: Antroposófica, 1999. cios para isto. É importante ter clare-

178
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
za de que, mudar de hábitos nas relações com os outros, exige disposição, Anotações
perseverança e tolerância, com os demais e consigo mesmo. Os resultados
podem não ser imediatos, mas trazem grande satisfação pessoal, além do
reconhecimento de outros.

179
Capítulo XII • Sistema Jurídico e Legislação Agrária
O Setor Rural
e o Meio Ambiente
Daniela Bacchi Bartholomeu1

Introdução ocorrendo sobretudo em países em ladas, ocupando uma área de 47,49


desenvolvimento, especialmente da milhões de ha., isso representa uma
O setor rural vive atualmente um África e Ásia. Esta tendência deve- produtividade média de 2,89 t/ha4,
enorme desafio: atender à crescen- rá, por um lado, ampliar ainda mais que varia conforme a região, de um
te demanda mundial por alimentos a competição por recursos naturais mínimo de 0,5t/ha no estado da Pa-
frente à pressão da sociedade por (especialmente água e solo), e por raíba a um máximo de 4,4 no DF.
práticas de produção agropecuária outro, a necessidade de intensifica-
sustentáveis. ção da agricultura como forma de De fato, a preocupação com
aumentar a produção via aumento a utilização de recursos naturais é
Considerando as taxas de cres- de produtividade. evidente neste setor, uma vez que
cimento da população mundial e da a agricultura ocupa mais de 1/3 da
urbanização, Cawma (2007) prevê No Brasil, a produtividade vem área e consome mais de 2/3 da água
que a demanda global por alimento aumentando nas últimas décadas, no mundo5 (World Bank, 20076). No
deve dobrar nos próximos 50 anos. situando-se mais recentemente, em caso dos países em desenvolvimen-
Para se ter uma idéia, a ONU (2001)2 torno de 3 toneladas de grãos por to, a situação é ainda mais grave,
estima que em 2050 haverá 10,9 bi- hectare. Segundo dados da CONAB com a agricultura consumindo cerca
lhões de pessoas no mundo, com (2009)3, safra nacional de grãos de 80% do total da água utilizada.
o maior crescimento populacional 2008/09 foi de 137 milhões de tone-
3 Companhia Nacional de Abastecimento – CONAB. 4 Segundo a CONAB, contribuíram para este resultado:
1 Doutora em economia aplicada pela ESALQ/USP e Acompanhamento da safra brasileira: grãos, safra as perspectivas negativas de mercado, as baixas cota-
pesquisadora do CEPEA. 2008/2009. jan.2009. Disponível em: <[Link] ções no mercado interno e externo, o crédito escasso e
2 Organização das Nações Unidas – ONU. Estado da [Link]/conabweb/download/safra/3graos_08.09. as fortes adversidades climáticas.
População Mundial, 2001. pdf> 5 Cerca de 40% da produção mundial de alimentos
vem de áreas que dependem de sistemas de irrigação.
6 World Bank. World Development Indicators, 2007.

180
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Apesar de estudos realizados
pelo Banco Mundial (2007) e pelo A questão da disponibilidade Anotações
7
PNUD (2006) indicarem que a da água para consumo humano é
competição pelo consumo da água um dos temas mais importantes re-
entre os setores industrial e domés- lativos ao meio ambiente. A ONU
tico irá se intensificar, a produção prevê que até 2025 dois terços da
de alimento ainda deverá perma- humanidade viverão em condições
necer como o maior consumidor, de escassez de água. A escassez é
conforme ilustra a Figura. 13.1. evidente devido a basicamente dois
Figura 13.1 – Consumo de água nos motivos. O primeiro é a redução da
setores industrial e doméstico
quantidade disponível, devido ao
Captações sectoriais de água
(quilômetros cúbicos por ano) ritmo de consumo muito maior do
3.200
Agricultura
que o necessário para que o ciclo
2.800
hidrológico consiga repor. O se-
2.400
gundo é a redução da qualidade,
2.000
devido aos elevados índices de po-
1.600 luição (PNUD, 2006).
1.200 Indústria

800
O crescimento da população e
Consumo municipal
400
da demanda mundial por alimentos
também exerce pressão sobre outro
0
1900 1925 1950 1975 2000 2025
recurso natural: o solo. Neste caso,

Fonte: IWMI Forthcoming, citado por PNUD, 2006.


os problemas apontados geralmen-
te estão relacionados a sua conta-
7 Programa das Nações Unidas para o Desenvolvi-
mento – PNUD. A água para lá da escassez: poder,
pobreza e a crise mundial da água. Relatório do De-
senvolvimento Humano New York. 2006.

181
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
minação e aceleração do processo Apesar das significativas taxas de Como decorrência, a busca por
de erosão, decorrentes da excessiva crescimento da produtividade obser- recursos naturais de melhor quali-
utilização de fertilizantes químicos e vadas a partir da intensificação da dade é uma conseqüência natural
defensivos e das práticas agropecuá- mecanização, da introdução de tec- deste processo, e acaba provocando
rias sem o devido manejo. “Perdas de nologia e melhoramento genético, deslocamentos de áreas produtivas
nutrientes e matéria orgânica, altera- do uso de fertilizantes sintéticos e em direção a regiões de floresta.
ções na textura, estrutura e quedas de pesticidas, o Banco Mundial vem
nas taxas de infiltração e retenção de alentando para uma possível rever- Diante deste contexto, este ca-
água são alguns dos efeitos da erosão são nesta taxa, podendo comprome- pítulo busca introduzir conceitos
sobre as características do solo” (Ber- ter a oferta de alimento. Por exem- econômicos e jurídicos aplicados ao
toni; Lombardi Neto, 1995, citados plo, atualmente já se observa queda aspecto ambiental do setor rural. Ele
por Marques; Pizzianotto, 2004). da produtividade em cerca de 16% está dividido em duas grandes partes.
da terra agrícola nos países em de- A primeira apresenta um breve histó-
Além da conseqüente poluição e senvolvimento, especialmente África rico da preocupação da humanidade
assoreamento dos cursos d’água, “a e América Central. Outras pesquisas com o meio ambiente e como esta
perda de solo, provocada pela ero- também apontam na mesma direção, preocupação se refletiu nas ações
são, reduz a produtividade da terra, e afirmam que, devido à degradação nacionais na criação de órgãos e es-
principalmente, devido a perda de do solo, a produção das áreas culti- tabelecimento de regulamentações
nutrientes e a degradação de sua es- vadas e pastagens já é 12,7% e 3,8% ambientais no país. A segunda parte
trutura física” (Wolman, 1985, cita- menor do que o potencial, respec- introduz alguns conceitos da econo-
do por Marques; Pizzianotto, 2004). tivamente (Scherr, 1999, citado por mia ambiental que estão ligados à
Geralmente, a perda de nutrientes Banco Mundial, 2007). atividade agropecuária, e ilustra algu-
do solo é compensada através da mas alternativas de como o mercado
aplicação de fertilizantes industriais.

182
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
pode auxiliar na busca pela susten- nômico. Até 1949, quando surgem Anotações
tabilidade (selos e certificações, pa- as categorias de divisão do mundo
gamentos por serviços ambientais). (em 1º Mundo, 2º Mundo e 3º Mun-
do ou países subdesenvolvidos), o
Um pouco de história
termo “desenvolvimento” referia-
“Durante séculos, predominou se à biologia e estava associado
a idéia de que a natureza existia aos estágios dos seres vivos, como
somente para satisfazer as vonta- “crescimento”, “evolução” e “ma-
des humanas, não se questionando turação”. Neste sentido, o mundo
os limites desse usufruto.” (p. 3). A industrializado era apresentado
partir da década de 60, a socieda- como uma finalidade não apenas
de foi se conscientizando de que a desejada, mas como o único mode-
capacidade de suporte do planeta é lo realmente válido de organização
limitada e de que a utilização indis- social; os países industrializados e
criminada dos recursos não-reno- desenvolvidos eram vistos como se
váveis e a poluição provocada pelo estes estivessem no topo da escala
desenvolvimento humano podem social.
causar danos irreversíveis ao meio
ambiente (Fogliati et al., 2004). Entretanto, um conjunto de forças
internas que já vinham emergindo
Nas décadas de 50 e 60, a pa- antes mesmo dos anos 60 faz surgir
lavra “desenvolvimento” estava um movimento e uma conscientiza-
associada com crescimento eco- ção frente ao meio ambiente. Den-

183
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
tre estas forças, podem ser citados: a recursos naturais passam a ser mais
era dos testes atômicos; a influência valorizados, já com a preocupação do, dentre elas, o Programa das Na-
de outros movimentos sociais (movi- com o aumento da população e do ções Unidas para o Meio Ambiente
mentos hippie e estudantis); a publi- consumo, visualizando seu esgo- – PNUMA, no âmbito da ONU, com
cação do livro Primavera Silenciosa tamento futuro (petróleo, madeira, o objetivo de intermediar o diálogo
(Silent Spring), em 1962 pela bióloga água etc.). e ações de cientistas, políticos etc.,
americana Rachel Carson; o avanço relacionados ao meio ambiente.
dos conhecimentos científicos; e a Neste sentido, em 1972, é rea-
ocorrência de uma série de desastres lizada a Conferência de Estocolmo, Nesta década de 70 também
ambientais, tais como a contamina- da qual participam 113 países com surge o conceito de “ecodesenvolvi-
ção da Baía de Minamata no Japão, o intuito de rever o modelo desen- mento”, que propõe adaptar o desen-
a explosão da indústria química em volvimentista. Neste encontro, ficou volvimento científico e tecnológico
Seveso (Itália), explosão do reator na evidenciada uma forte polaridade de às necessidades da população e aos
usina nuclear de Tchernobyl, o aci- interesses entre países ricos e pobres: limites do ambiente, e não vice-ver-
dente com o navio Exxon Valdez, no enquanto os primeiros defendiam sa. Através deste conceito, acredita-
Alasca, causando um dos maiores controles internacionais para reduzir se que é possível existir crescimento
derramamentos de petróleo da histó- a poluição, os últimos interpretavam com qualidade do ambiente, através
ria, dentre uma série de outros casos. essa posição como freio ao seu de- da minimização das retiradas dos es-
senvolvimento. toques de recursos não-renováveis e
Esses acontecimentos destaca- da maximização do proveito do flu-
vam a importância de uma ação glo- Esta Conferência foi um marco na xo de energia renovável.
bal dos problemas ambientais, ge- tomada de consciência da dimensão
rando a necessidade de discussões planetária dos problemas ambientais A preocupação ambiental se am-
e soluções internacionais, por meio e fortaleceu o estabelecimento de plia, e além da preocupação concen-
de convenções e tratados. Alguns organizações ambientais no mun- trada no esgotamento das fontes de

184
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
recursos naturais, passa-se a prestar efeitos dos problemas ambientais Anotações
atenção na capacidade de absorção do mundo), desde que orientado
dos ecossistemas devido à poluição para um uso menos intensivo de
derivada das atividades humanas. matérias-primas e energia, um cres-
cimento populacional equilibrado
Em 1987, a Comissão Mundial e adoção de tecnologia de avalia-
sobre o Meio Ambiente e Desen- ção e minimização de riscos am-
volvimento (World Commission bientais.
on Environment and Development
– WCED) publica o relatório deno- Cinco anos mais tarde, a cidade
minado “Nosso Futuro Comum” ou do Rio de Janeiro sediou a Confe-
Relatório Brundtland, que defendia rência Mundial das Nações unidas
a necessidade de um novo tipo de sobre Meio Ambiente e Desenvol-
desenvolvimento capaz de manter vimento, também conhecida como
o progresso em todo o planeta e, “Rio-92”. Este encontro, que reuniu
no longo prazo, ser alcançado por 170 países, se constituiu através de
todos os países (isto é, introduz um duas iniciativas complementares:
dos conceitos mais difundidos na a Conferência das Nações Unidas,
atualidade, o de desenvolvimento para atender aos interesses gover-
sustentável). Além disso, o relatório namentais e o Fórum Global, de-
defende o crescimento econômico dicado aos interesses de entidades
como forma de superar a pobreza não governamentais e da socieda-
(considerada como uma das prin- de civil. Realizada pouco após a
cipais causas e um dos principais queda do Muro de Berlin (1989), a

185
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
Rio-92 foi dominada por um entu- nos rumos do desenvolvimento sus- efetivamente definido no Relatório
siasmo de que o mundo iria inexo- tentável também foram aprovados: a Brundtland, como sendo a busca
ravelmente caminhar na direção do Declaração do Rio de Janeiro sobre pelo “atendimento das necessida-
desenvolvimento sustentável. Neste Meio Ambiente e Desenvolvimento des do presente sem comprometer a
contexto, foram assinadas duas Con- também conhecida como Carta da possibilidade de as gerações futuras
venções, que representam marcos Terra, e a Agenda 21. atenderem as suas próprias necessi-
regulatórios globais sobre os dois dades” (WCED, 1991).
maiores problemas da humanidade: Uma série de outros eventos im-
a Convenção-Quadro das Nações portantes e de escala global ocorreu A partir deste conceito, há uma
Unidas sobre Diversidade Biológica; após a Rio-92, sempre buscando ava- série de derivações, mas todas elas,
e a Convenção-Quadro das Nações liar os resultados, em termos práticos, no fundo, buscam o equilíbrio entre
Unidas sobre Mudanças Climáticas das propostas contidas nestes grandes a capacidade de suporte da Terra e a
Globais (esta última originou o Pro- documentos e, sempre que possível, retirada dos recursos naturais, garan-
tocolo de Quioto, que entrou efeti- avançar no sentido do alinhamento tindo a continuidade e a existência
vamente em vigor em fevereiro de aos princípios de sustentabilidade. destes recursos no longo prazo.
2005 e estabelece metas de redução
para as emissões de GEE para os pa- Mas, afinal, o que é Para Mello (1999), “o desenvol-
íses desenvolvidos, bem como me- sustentabilidade? vimento sustentável é mais que cres-
canismos de mercado para auxiliar cimento. Ele exige uma mudança no
o alcance destas metas). Outros dois Conforme citado acima, o con- teor do crescimento, a fim de torná-
documentos importantes que visa- ceito de sustentabilidade foi sendo lo menos intensivo de matérias-pri-
vam conduzir as ações dos países desenhado ao longo dos anos, e mas e energia, e mais eqüitativo em

186
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
seu impacto. Tais mudanças precisam ocorrer em todos os países, como Anotações
parte de um pacote de medidas para manter a reserva do capital ecológi-
co, melhorar a distribuição de renda e reduzir o grau de vulnerabilidade
às crises econômicas” (Mello, 1999, p. 42, citado por Silva, 2003).

De qualquer forma, para que a sustentabilidade seja verificada, é pre-


ciso que haja um equilíbrio entre os aspectos econômico, social e am-
biental de qualquer negócio. Estes três aspectos formam o tripé da susten-
tabilidade, e devem ser considerados em qualquer projeto ou atividade
produtiva.

Instrumentos de política ambiental

“As posições antagônicas entre o desenvolvimento econômico e a


preservação do meio ambiente criaram um dilema para a humanidade,
tornando-se necessário o estabelecimento de uma estrutura de apoio legal
onde contassem medidas corretivas, preventivas e de controle da polui-
ção.” (Fogliati et al., 2004).

A crescente conscientização e mobilização da humanidade em re-


lação à questão ambiental levou os países a reconhecer, ainda que de
formas diferentes e em momentos distintos, a importância da problemá-
tica e começam a adotar medidas buscando atender aos anseios da so-
ciedade. Estas medidas constituem-se de diferentes tipos de instrumentos,

187
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
com grau variável de sucesso, usados por vários países INSTRUMENTOS REGULADORES: COMANDO E
em decisões relativas à questão ambiental, e podem ser CONTROLE (CC)
classificadas como:
– Corretivas: tais como controle, pesquisa, obras, A regulamentação do tipo CC tem sido a base dos
incentivos, planos de recuperação, auditorias; sistemas de gestão do meio ambiente, e constitui-se de
– Preventivas: tais como licenciamento, avaliação um conjunto de normas, regras, procedimentos e pa-
de impacto, planos diretores de uso, unidades de drões a serem obedecidos pelos agentes econômicos de
conservação; modo a adequar-se a certas metas ambientais. No fundo,
– De potencialização do uso: como reciclagem, estes instrumentos buscam modificar o comportamento
reaproveitamento, economia e racionalização dos agentes através da imposição da lei, que define os
de energia e água, uso de fontes alternativas de critérios a serem adotados e é geralmente acompanhada
energia e tecnologias “limpas”; e de penalidades caso tais critérios não sejam observados
– De persuasão: como educação ambiental, infor- pelos agentes.
mações e incentivos para adoção de práticas am-
bientalmente sustentáveis. Para que os instrumentos do tipo CC funcionem com
eficácia, o Estado deve monitorar, fiscalizar e responsa-
Margulis (1996)8 divide estes instrumentos de políti- bilizar o agente econômico, assegurando a obediência à
ca ambiental em dois tipos principais: instrumentos re- lei. Desta maneira, é necessário que: (i) os papéis regu-
guladores – ou instrumentos do tipo comando e controle lador e policial dos governos funcionem em associação;
(CC); e instrumentos econômicos – ou instrumentos de e (ii) haja recursos financeiros suficientes para garantir o
mercado (IM). funcionamento destes mecanismos.

8 Margulis, S. A regulamentação ambiental: instrumentos e implementação.


IPEA: Texto para Discussão n. 437, Rio de Janeiro, 1996.

188
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
É importante destacar que tais instrumentos podem impactar nega- Anotações
tivamente no resultado econômico da atividade, através do aumento de
custos de produção decorrente da internalização das exigências legais à
atividade econômica.

Dentre os instrumentos de CC mais adotados na política ambiental,


podem ser citados:
– Licenças: usadas pelos órgãos de controle ambiental para permitir
a instalação e operação de atividades consideradas com certo po-
tencial de impacto ambiental.
– Zoneamento: conjunto de regras de uso da terra empregado prin-
cipalmente pelos governos locais a fim de indicar aos agentes eco-
nômicos a localização mais adequada para certas atividades. O
Zoneamento Ecológico Econômico (ZEE) é um instrumento para
planejar e ordenar o território, harmonizando as relações econô-
micas, sociais e ambientais que nele acontecem. Demanda um
efetivo esforço de compartilhamento institucional, voltado para a
integração das ações e políticas públicas territoriais, bem como
articulação com a sociedade civil, congregando seus interesses em
torno de um pacto pela gestão do território.
– Padrões: instrumento de uso mais freqüente na gestão ambiental em
todo o mundo, e se referem a padrões de qualidade ambiental (de-
finem limites máximos de concentração de poluentes no meio am-

189
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
biente); de emissão (estabelecem limites máximos diz respeito às regulamentações que afetam ou estão li-
para as quantidades de uma fonte de poluição); gadas ao setor rural. É dada especial atenção ao Código
tecnológicos (determinam o uso de tecnologias es- Florestal, considerado um dos mais polêmicos e contro-
pecíficas); de produto e processo, entre outros. versos atualmente, e freqüentemente alvo de discussões
políticas.
No Brasil
A Lei n. 6.938, de 31 de agosto de 1981 dispõe so-
Independentemente da motivação, regulamentações bre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus meca-
envolvendo recursos naturais já existiam desde o período nismos de formulação e aplicação. Através desta Lei,
colonial no Brasil. Como exemplo, Giordano (2008)9 cita são instituídos o Sistema Nacional do Meio Ambiente
que “desde o regimento do Pau Brasil de 1605, preocu- – SISNAMA, responsável pela proteção e melhoria da
pava-se o Governo com a desregulamentação e a “desor- qualidade ambiental, e o Conselho Nacional do Meio
dem” em relação ao desmatamento desmesurado e não Ambiente – CONAMA, órgão consultivo e deliberativo
reposto. A essa ordenação seguiram-se algumas tentativas do SISNAMA.
de regulamentação com a Lei n. 601 de 1850, a respeito
das terras devolutas, que penalizava quem as desmatasse O Art. 9º da Lei n. 6.938/1981 define como instru-
ou desmatasse terras alheias.” mentos da Política Nacional do Meio Ambiente:
I- o estabelecimento de padrões de qualidade am-
Assim, foi sendo delineada a teia legal que rege as ati- biental;
vidades econômicas e sua relação com o meio ambiente. II - o zoneamento ambiental; (Regulamento);
III - a avaliação de impactos ambientais;
Esta seção tem como objetivo apresentar alguns pon- IV - o licenciamento e a revisão de atividades efetivas
tos importantes dessa evolução, especialmente no que ou potencialmente poluidoras;
9 GIORDANO, S.R.; Caleman, S.M.Q. Preservação Ambiental via coordenação de
ações. Estudo de Caso TNC. 2008.

190
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
V - os incentivos à produção e instalação de equipamentos e a criação Anotações
ou absorção de tecnologia, voltados para a melhoria da qualidade
ambiental;
VI - a criação de reservas e estações ecológicas, áreas de proteção am-
biental e as de relevante interesse ecológico, pelo Poder Público
Federal, Estadual e Municipal;
VI - a criação de espaços territoriais especialmente protegidos pelo Poder
Público federal, estadual e municipal, tais como áreas de proteção am-
biental, de relevante interesse ecológico e reservas extrativistas (Reda-
ção dada pela Lei n. 7.804, de 1989);
VII - o sistema nacional de informações sobre o meio ambiente;
VIII - o Cadastro Técnico Federal de Atividades e Instrumentos de Defesa
Ambiental;
IX - as penalidades disciplinares ou compensatórias ao não cumprimen-
to das medidas necessárias à preservação ou correção da degrada-
ção ambiental;
X- a instituição do Relatório de Qualidade do Meio Ambiente, a ser
divulgado anualmente pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e
Recursos Naturais Renováveis – IBAMA (Incluído pela Lei n. 7.804,
de 1989);
XI - a garantia da prestação de informações relativas ao Meio Ambien-
te, obrigando-se o Poder Público a produzi-las, quando inexistentes
(Incluído pela Lei n. 7.804, de 1989);

191
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
XII - o Cadastro Técnico Federal de atividades
potencialmente poluidoras e/ou utilizado-
ras dos recursos ambientais (Incluído pela
Lei n. 7.804, de 1989); e
XIII - instrumentos econômicos, como conces-
são florestal, servidão ambiental, seguro
ambiental e outros (Incluído pela Lei n.
11.284, de 2006).

Com relação aos recursos hídricos, já na dé-


cada de 30, o Decreto n. 24.643 de 10 de julho
de 1934, ou o Código de Águas, definia o direito
de propriedade e de exploração dos recursos hí-
dricos para o abastecimento, irrigação, navega-
ção, uso industrial e geração de energia (Fogliatti,
200410).

A gestão dos recursos hídricos tem sofrido


grandes mudanças no decorrer dos anos. Em
âmbito nacional, após a Constituição Federal de
1988, a qual já previa a criação de uma estrutu-
ra descentralizada dos recursos hídricos, foi pro-
Cleverson Beje

10 Fogliatti, M.C.; FILIPPI, S.; Goudard, B. Avaliação de impactos ambi-


entais: Aplicação aos Sistemas de Transporte. Rio de Janeiro: Interciência,
2004.

192
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
mulgada a “Lei das Águas” (Lei n. ções são: agropecuária, industrial, Anotações
9.433/1997), na qual se elaborou as em industrialização e conservação.
diretrizes da Política Nacional dos
Recursos Hídricos (PNRH), consi- No Estado de São Paulo, também
derando a água como um recurso se iniciou a efetiva cobrança pelo uso
natural limitado e dotado de valor da água a partir de janeiro de 2006
econômico. em rios da União. Através dessa fer-
ramenta, pretende-se racionalizar o
Em seguida, as Unidades da Fe- uso desse recurso, promovendo sua
deração também expressaram pre- disponibilidade para as próximas ge-
ocupação acerca dos recursos hí- rações. Além disso, diversos órgãos
dricos. O Estado de São Paulo, por foram criados (entre eles o Fundo Es-
exemplo, foi um dos pioneiros nes- tadual dos Recursos Hídricos – FEHI-
se sentido, tendo instituído a Políti- DRO), de forma a aplicar os recursos
ca Estadual dos Recursos Hídricos financeiros advindos da cobrança em
ainda em 1991 (Lei n. 7.663/1991), projetos de melhoria de qualidade da
dividindo o Estado de São Paulo água.
em 22 grandes áreas, chamadas
de Unidades de Gerenciamento de Com relação à floresta, sua pro-
Recursos Hídricos (UGRHI). Essas teção legal começou a tomar forma
Unidades, por sua vez, estão clas- no ano de 1934, a partir do Decreto
sificadas segundo a atividade pre- Federal n. 23.793, ou o “primeiro
dominante na região. As classifica- Código Florestal”; o “Segundo Có-

193
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
digo Florestal” foi sancionado pela é permitido o corte raso e deverá ser averbada. Estabelece também a obriga-
Lei n. 4.771, e introduz os conceitos toriedade da recomposição da RL, mediante o plantio, em cada ano, de pelo
de Área de Preservação Permanente menos 1/30 avos da área total. Esta Lei também traz contribuições ao Código
(APP) e de Reserva Legal (RL), em- Florestal de 1965 no que diz respeito à definição das áreas que devem cons-
bora, em ambos os Códigos, os cri- tituir APP, quais sejam: aquelas situadas ao longo dos rios ou de qualquer
térios de preservação eram definidos curso d’água; ao redor das lagoas, lagos ou reservatórios d’água naturais ou
com base na vegetação existente na artificiais; nas nascentes; no topo de morros, serras e montanhas; nas encostas
propriedade rural. com declividade superior a 45º; e em altitude superior a 1800 m.

Desta forma, tais conceitos são Entre outras, a Medida Provisória 2.166-67, de 24 de agosto de 2001,
bastante antigos, e o Código de 1965 em vigor por força da Emenda Constitucional 32/2001, se destaca por suas
ainda continua em vigor. Entretanto, definições e alterações no Código de 1965. Esta MP define APP como a área
seus artigos vêm sofrendo alterações “coberta ou não por vegetação nativa, com a função ambiental de preservar
a partir da introdução de outras Leis os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade,
e Medidas Provisórias. o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das
populações humanas”. Já a RL, é a área “necessária ao uso sustentável dos re-
A Lei n. 7.803, de 18 de julho de cursos naturais, à conservação e reabilitação dos processos ecológicos, à con-
1989, por exemplo, introduz o con- servação da biodiversidade e ao abrigo e proteção de fauna e flora nativas”.
ceito de preservação baseado na área
total da propriedade, alterando o cri- Além disso, as propriedades rurais devem manter, a título de RL, um mí-
tério de conservação até então em nimo de 80% se situadas em área de floresta localizada na Amazônia Legal;
vigor. A partir dela, a RL passa a ser 35% se situadas em área de cerrado localizada na Amazônia Legal; 20% se
definida como a área de, no mínimo situadas em área de floresta ou outras formas de vegetação nativa localizada
20% de cada propriedade, onde não nas demais regiões do País.

194
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Outra definição importante diz respeito à possibilidade de compensação de parte da RL, desde que situada
na mesma microbacia, o que, de certa forma flexibiliza seu cumprimento. A legislação denomina esta compen-
sação de “servidão florestal” e aos documentos que representam sua propriedade de “cotas da reserva florestal-
CRF”. As regulações administrativas para essa legislação estão atualmente sob júdice, mas as CRF abrem, de
qualquer forma, uma importante perspectiva para viabilizar a RL (Giordano, 2008).

Por outro lado, também determina que, no limite da RL a ser respeitado, não pode ser incluída área des-
tinada à APP. Isto inviabiliza economicamente uma série de propriedades rurais, já que grande parte da área
produtiva deve deixar de sê-la, e vem sendo motivo de intenso debate político.

Figura. 13.2 - Cronologia das leis ambientais no Brasil

1500 – 1822 1822 – 1889 1889 – 1930 1930 – 1964 1965 – 2000 2001 em diante
Colônia Império República Velha 1º Código Florestal 2º Código Florestal Fase 2 – 2º Código
e suas alterações Florestal
• Colonização; • Colonização; • Domínio político das • Amazônia Legal; • Industrialização; • Abertura econômica;
• Exploração da madeira • Povoação; elites agrárias (MG, SP, • Ocupação e desenvolvi- • Regime Militar; • Densa legislação am-
(móveis e navios); • Abertura de estradas; RJ); mento; • Abertura econômica; biental;
• Pau-Brasil; • Café: influência políti- • Exploração da madeira; • Ambientalismo (Estocol- • Produção e exportação
• Captanias Hereditárias; co-econômica; • Transição entre elite ru- mo 1972); de alimentos;
• Escravidão; • Projetos de criação de ral e industrialização e • Globalização. • Amazônia em foco;
• Açúcar, ouro, grande parques nacionais; urbanização; • Pressão das ONGs.
propriedade agrícola. • Constituição de 34: pro-
teção da natureza.
Regimento do Lei 601 (1850) “Mapa Florestal Código Florestal (1965)
Código Florestal (1934) Código Florestal (1965)
Pau-Brasil (1605) Terras Devolutas do Brasil” (1911) e suas mudanças

Carta Régia (1797)


• Proibição de cortar o • Penalidades para • Parque Estadual de • Código de caça e pesca • Instituto Brasileiro de De- • Sistema Nacional de Uni-
Pau-Brasil; quem desmatasse São Paulo (1898) (1934); senvolvimento Florestal; dades de Conservação da
• Preocupação com a der- áreas de terras de- • Decreto 8843 (1911) • Parque Nacional de Ita- • Áreas de proteção am- Natureza (SNUC);
rubada das matas e ma- volutas ou alheias 2 Parques Nacionais tiaia (1937); biental; • Importância de Tratados
deiras relevantes para a no Acre • Parque Nacional do • Reservas ecológicas como a CDB;
Coroa. Iguaçu (1939). • Convenção de Zonas • Processos sobre Reserva
• Úmidas (Ramsar) Estatuto Legal;
do Índio • Setor privado se articula.
• Secretaria Especial do
Meio Ambiente;
• IBAMA

Fonte: Fausto; Medeiros; Senado; citados por Lima, Instituto Ares, 2008.

195
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
Outra regulamentação impor- tivas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente (crimes
tante que envolve o setor rural e o contra a fauna e a flora e atividades lesivas como a poluição).
meio ambiente de forma mais gené-
Instrumentos Econômicos ou Mercado (IM)
rica são o Estatuto da Terra (Lei n.
4.504/64), que regula os direitos e Apesar de todo este arcabouço legal, os instrumentos de CC existentes
obrigações concernentes aos bens têm sido insuficientes para garantir os resultados da política ambiental. Em
imóveis rurais, para os fins de exe- outras palavras, apesar da existência de uma diversidade de leis regendo
cução da Reforma Agrária e promo- a questão ambiental das propriedades rurais, não se verifica, na prática, o
ção da Política Agrícola. Conforme cumprimento de grande parte dos casos. E este fato corrobora as limitações
suas disposições, o acesso à proprie- dos instrumentos de CC, dentre as quais, é preciso citar: a ineficiência do
dade da terra é assegurado, desde processo de fiscalização e enforcement por um lado, e os custos que tais
que exerça sua função social: favo- regulamentações embutem aos produtores, inviabilizando, muitas vezes,
reça o bem-estar dos proprietários e a atividade econômica. Também a falta de agilidade dos organismos am-
dos trabalhadores que nela labutam; bientais, como por exemplo, os responsáveis pela emissão de licenças, e
mantenha níveis satisfatórios de pro- ainda o próprio desconhecimento da legislação pertinente por parte dos
dutividade; assegure a conservação produtores rurais.
dos recursos naturais; e observe jus-
tas relações de trabalho. Assim, para complementar os instrumentos de CC e viabilizar a adoção
de boas práticas, inclusive do ponto de vista da sustentabilidade econômica
Finalmente, também é importante da atividade agropecuária, são utilizados Instrumentos de Mercado (IM).
destacar a Lei de Crimes Ambientais,
regulamentada pela Lei n. 9.065, de Diversos países tem adotado uma política ambiental que utiliza, simul-
12 de fevereiro de 1998, que dispõe taneamente, instrumentos de CC e IM, garantindo uma complementaridade
sobre as sanções penais e administra- entre os dois tipos de instrumentos e buscando atingir as metas de política

196
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
pública ao menor custo para a so- co utilizado para que o poluidor Anotações
ciedade. arque com os custos da atividade
poluidora, ou seja, internalize, de
Os instrumentos econômicos maneira eficiente, as externalida-
são diferentes porque estão base- des provocadas pela atividade pro-
ados nas forças do mercado e nas dutiva, passando assim a repercutir
mudanças de preços relativos para nos preços finais dos produtos e
modificar o comportamento dos serviços oriundos da atividade. Por
agentes econômicos. Através destes outro ângulo, busca-se com que os
instrumentos, os produtores/polui- agentes que originaram as externa-
dores e consumidores/usuários, in- lidades assumam os custos ou os
ternalizam os aspectos ambientais benefícios impostos a outros agen-
de maneira socialmente desejável tes, produtores e/ou consumidores.
em suas decisões. O norteador é
o princípio do poluidor pagador Externalidade é um conceito
(PPP), que se baseia no princípio de econômico que se refere aos efeitos
que a não-inclusão de todos os cus- positivos ou negativos – em termos
tos sociais e ambientais leva neces- de custos ou de benefícios – gera-
sariamente a uma super-utilização dos por um agente econômico (na
(desperdício) dos recursos naturais, produção ou mesmo no consumo
e assim à degradação ambiental. de um bem ou serviço) e que atin-
Desta maneira, o PPP pode ser en- gem os demais agentes, sem que
tendido como o recurso econômi- estes tenham oportunidade de im-

197
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
pedi-los. A externalidade pode ser Estes instrumentos, entretanto, possuem vantagens e limitações. Dentre
negativa, quando gera custos para os as vantagens, os resultados são geralmente alcançados com um menor custo
demais agentes (por exemplo, uma social quando se comparados aos Instrumentos CC; fornecem às empre-
fábrica que polui o ar, afetando a sas um incentivo permanente para a procura de tecnologias mais limpas e
comunidade próxima) ou positiva, baratas e a transferência de tecnologia entre atores. Ademais, conferem às
quando os demais agentes, involun- indústrias maior flexibilidade para controlar suas emissões.
tariamente, se beneficiam pela ação
de outros (por exemplo, a preserva- Como limitações a este modelo citam-se os resultados menos previsíveis
ção ambiental). se comparados à regulamentação direta, já que dependem da decisão indi-
vidual de cada agente de mudar ou não o padrão produtivo.
Conforme Margulis (1996), mes-
mo nos países da OCDE a política Os principais tipos de IM usados na gestão ambiental, conforme Margu-
ambiental foi inicialmente criada lis (1996), são:
com base em instrumentos estritos de a) as taxas ambientais: preços a serem pagos pela poluição, e dizem
regulamentação, acoplados a uma respeito às taxas por emissão; taxas ao usuário; taxas por produto ou
fiscalização estrita. Somente mais re- taxas administrativas;
centemente que os instrumentos de b) a criação de um mercado: comércio de direitos de poluição (ex.: mer-
mercado e, conseqüentemente o PPP, cado de carbono);
passaram a ser aplicados de maneira c) os subsídios: podem ser concessões, incentivos fiscais e créditos fis-
mais sistemática, tendo sido modifi- cais, destinados a incentivar os poluidores a reduzir suas emissões
cados a fim de incorporar conceitos ou a reduzir seus custos de controle.
e aspectos inicialmente ignorados.

198
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
No Brasil turalmente, se deixado em estado Anotações
Conforme visto até aqui, os de equilíbrio. Como exemplos de
produtores rurais são alvo de forte serviços ambientais, Nicodemo, et
pressão por parte da sociedade com al (2008)11 citam: manutenção da
relação à conservação dos recursos qualidade do ar e controle da po-
naturais. Acontece que em geral, luição; controle da temperatura e
estes recursos não possuem valor do regime de chuvas; regulação do
de mercado, sendo dificilmente
fluxo de águas superficiais e con-
inseridos ou internalizados no pro-
trole das enchentes; formação e
cesso produtivo. Desta forma, os
manutenção do solo e da fertilida-
produtores não possuem incentivos
econômicos para ofertá-los. Em ou- de do solo; degradação de dejetos
tras palavras, a preservação destes industriais e agrícolas e ciclagem de
recursos por parte dos produtores minerais; redução da incidência de
não é estimulada, uma vez que os pragas e doenças; polinização de
custos são privados (isto é, dos pro- plantas agrícolas e silvestres.
dutores), mas os benefícios são per-
cebidos por toda a sociedade. Desta maneira, os produtores ru-
Entretanto, o produtor rural rais são potenciais provedores destes
pode gerar, através da preservação serviços, mas para tanto, é preciso
do meio ambiente, uma série de que haja incentivos que estimulem
benefícios indiretos à sociedade, os a adoção voluntária de práticas sus-
chamados “serviços ambientais”. tentáveis. Neste sentido, uma série
Os serviços ambientais são benefí- 11 Nicodemo, et al. Conciliação entre produção
agropecuária e integridade ambiental: o papel dos
cios que o meio ambiente gera na- serviços ambientais. Embrapa, 2008.

199
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
de iniciativas vem sendo criadas no mundo para estimular é que estes esquemas de PSA são baseados não no prin-
um mercado de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) cípio do Poluidor-Pagador (PPP), mas sim no Princípio
providos por produtores rurais. do Provedor-Recebedor (PPR), ou seja, o proprietário ou
produtor rural, ao contribuir para o aumento do fluxo e
Os PSA constituem instrumento de incentivo ao da qualidade de serviços ambientais para a sociedade,
agente econômico para a conservação ambiental: ma- pode receber por esses serviços.
nejo sustentável do solo, da floresta e da água. Através
de pagamentos, constituem fonte adicional de renda O exemplo típico é a conservação de florestas como
para ressarcir os custos (de oportunidade e de manuten- prestadoras de serviços ambientais, provendo proteção
ção) de práticas conservacionistas que permitem o for- para as bacias hidrográficas, para a biodiversidade e
necimento dos serviços ecossistêmicos. Uma inovação para o clima, conforme ilustrado na Fig 13.3.
em relação aos instrumentos de mercado convencionais

Figura. 13.3 – Exemplos de Serviços Ambientais providos pela conservação


de florestas nas propriedades rurais.

Proteção
Florestas vêm sendo do Biodiversidade
amplamente usadas como
provedoras de SA para: Atração de fauna silvestre

Proteção
de bacias hidrográficas
Regulação do fluxo; Proteção do Clima
Manutenção da qualidade; Fixação de CO2
Controle de erosão e sedimentação

Fonte: Bartholomeu (2008).12

12 Bartholomeu, D.B. A importância da valoração ambiental. Apresentação Instituto ARES. 05 nov. 2008.

200
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
No Brasil, uma experiência que tem dado certo é o caso do município Anotações
de Extrema, que criou, através de uma parceria entre a Agência Nacional
de Águas (ANA), a Prefeitura de Extrema, o Instituto Estadual de Floresta
(IEF) e a ONG The Nature Conservancy (TNC), o Programa Conservador
das Águas. As nascentes do Rio Jaguari compõe o sistema cantareira, que
abastece boa parte da cidade de São Paulo. O objetivo do Programa é
proteger as nascentes e garantir a qualidade da água através da recompo-
sição da APP das propriedades e do cercamento para impedir a entrada de
gado. A adesão ao Programa é voluntária, e o produtor rural ainda recebe
uma remuneração mensal para cada hectare preservado. Atualmente são
40 proprietários do município envolvidos, e além da qualidade da água,
estão contribuindo também para a preservação dos animais silvestres e o
seqüestro de carbono.

Este tipo de pagamento já vem sendo observado há um bom tempo


na Costa Rica e na cidade de Nova York. Embora com características e
objetivos diferentes, ambos tem tido sucesso na criação de um mercado
para PSA.

A (TNC) também tem se envolvido em outras iniciativas que buscam a


preservação da biodiversidade, recomposição florestal e projetos de mer-
cado de carbono em propriedades rurais em cidades do MT, PA, PR, MS,
MG, RS, SP e BA.

201
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
O Brasil adota ainda uma série de outros instrumen- garante as características de um produto (ex.: Certifica-
tos de mercado para complementar os instrumentos de ção orgânica) ou a qualidade de um processo produtivo
CC, tais como: (ex.: ISO). Sua adoção, de caráter voluntário, geralmen-
• Compensação florestal: possibilidade de com- te é movida pela cultura interna, por oportunidades de
pensar a RL em outra área fora da propriedade, negócios ou mesmo por pressões do mercado consumi-
mas desde que dentro da mesma microbacia. dor.
Este instrumento é interessante porque possibilita
que terras mais aptas e com maior produtividade Entretanto, a expansão do mercado para produtos
sejam direcionadas à produção. certificados depende tanto da existência de consumi-
• Isenção fiscal (do Imposto Territorial Rural - ITR) dores finais ou empresariais dispostos a valorizá-los e
para áreas protegidas tais como as Reservas Par- consumi-los, quanto da concorrência com produtos não
ticulares do Patrimônio Natural (RPPNs); certificados.
• Servidão florestal: comercialização de cotas de
reserva florestal; Deve-se atentar ao tipo de certificação de cada selo.
• ICMS ecológico e IR ecológico; Aqueles que possuem maior credibilidade e aceitação no
• Mercado de Carbono, entre outros. mercado são os que possuem uma verificação indepen-
dente (ou seja, realizada por uma terceira parte).
Um outro instrumento de mercado bastante impor-
tante como incentivador às práticas sustentáveis são as A Figura. 13.4 apresenta alguns exemplos de cer-
certificações. Existem vários selos que visam à produ- tificações que buscam a sustentabilidade da produção
ção agrícola responsável, e prometem, em troca, um agrícola.
premium-price para o produto. Em geral, a certificação

202
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Figura 13.4 – Exemplos de certificações para sustentabilidade

Forest Stewardship Council – FSC Rede de Agricultura Sustentável (RAS) Instituto Biodinâmico de Botucatu
Promove o bom manejo florestal, Busca transformar as condições sociais Inspeciona e certifica a agropecuária,
baseado em Princípios e Critérios e ambientais da agricultura tropical atra- o processamento e produtos extrati-
universais que definem o manejo vés de práticas produtivas sustentáveis. vistas, orgânicos e biodinâmicos.
florestal sustentável.

UTZ CERTIFIED - UTZ Kapeh Comércio justo - Fairtrade Labelling International Federation of Organic
É um dos maiores programas Organizations International – FLO Agricultural Movement
internacionais de certificação de Trata de aspectos éticos e sociais liga- Avalia questões sócio-ambientais, com
café, baseado num conjunto de dos ao processamento e à comerciali- ênfase para a produção orgânica.
critérios sociais e ambientais na zação.
produção do café.

Considerações finais

Este capítulo procurou mostrar o desafio que o setor produtivo apresenta frente à conscientização da socie-
dade da importância da preservação do meio ambiente, e conseqüente pressão sobre o setor rural.

É preciso destacar que toda e qualquer atividade econômica, seja ela rural ou urbana, produz impactos no
meio ambiente e utiliza recursos naturais de diferentes formas e proporções.

No caso do setor rural, talvez isso seja mais evidente devido à extensão e à importância econômica que
possui no país. Entretanto, os setores produtivos respondem aos estímulos do mercado, e se a demanda mundial

203
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
continua crescente, há necessidade Do ponto de vista ambiental, sig- Para exemplificar, Giordano
de ampliar a produção. É fundamen- nifica utilizar os recursos de forma a (2008) cita o caso da RL em São Pau-
tal, entretanto, que o setor comece garantir sua capacidade de regene- lo. As estimativas apontam para uma
a internalizar o conceito de susten- ração, de forma que a retirada seja área de floresta que soma 6% do ter-
tabilidade (social e ambiental), bus- equivalente à recomposição. ritório, frente aos 20% exigidos por
cando racionalizar a utilização dos lei. Levando-se em conta que esse
recursos e ampliar a produtividade, A partir dos instrumentos de po- déficit de 14% equivale a 3,36 mi-
como forma de garantir a própria lítica ambiental, foi possível verificar lhões de ha., ele cita um estudo da
sustentabilidade econômica. Isto uma ampla gama de mecanismos de CNA mostrando que a recomposição
porque a produção agrícola é alta- comando e controle, que muitas ve- de áreas representaria uma perda
mente depende de recursos natu- zes não são cumpridos ou até mesmo para São Paulo de R$20 bilhões/ano
rais, como solo e água, e a escassez são desconhecidos. Além disso, mui- e uma extinção de 800.000 empre-
destes recursos, seja na forma de tos apresentam inconsistência quan- gos para os sistemas agroindustriais.
quantidade disponível ou mesmo do aplicados na prática. A legislação Ou seja, as bases social e econômica
da qualidade, implicará, necessa- acaba considerando o país como se do tripé da sustentabilidade estariam
riamente um aumento de custos de fosse uma realidade homogênea, com seriamente comprometidas.
produção ou perda de produtividade sistemas produtivos equivalentes e ca-
da propriedade. Em outras palavras, racterísticas naturais semelhantes. Isto O grande desafio é transcender
a preservação dos recursos naturais causa uma distorção muito grande as políticas de comando e controle e
acaba também garantindo a sobre- quando considerados caso a caso, e encontrar mecanismos econômicos
vivência da propriedade rural e de nem sempre é possível compatibilizar que gerem benefícios tanto para o
seus níveis de produção. as diferentes realidades. meio ambiente (sociedade em geral)

204
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
quanto para os proprietários, garantindo uma situação de ganha-ganha. A última parte do capítulo apresentou
alguns exemplos de instrumentos que vem sendo adotados como alternativas na busca da sustentabilidade.

Referências
MARQUES, J.F.; PAZZIANOTTO, C.B. Custos econômicos da erosão do solo: estimativa pelo método do cus-
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SACHS, I. Ecodesenvolvimento: crescer sem destruir. São Paulo: Vértice. 1986.

205
Capítulo XIII • O Setor Rural e o Meio Ambiente
A Administração da
Empresa Rural1
José Roberto Canziani

Introdução continuidade da sua empresa, modi- que a maioria dos produtores rurais
ficada ou não por esse(s) projeto(s). no Brasil ainda não adota, de ma-
Nesta etapa do Programa Em- neira formal e eficiente, várias prá-
preendedor Rural o participante já Vários estudos têm mostrado ticas administrativas que poderiam
elaborou o diagnóstico e planeja- que empresas rurais melhor admi- proporcionar maior competitividade
mento estratégico de sua empresa nistradas obtêm melhores resultados aos seus negócios. (Canziani, 2001;
e definiu e elaborou seu projeto de econômicos. Isso significa que uma Meira, 1996; Dalmazo & Albertoni,
investimento de capital, envolvendo melhor prática das funções adminis- 1991; entre outros).
o estudo de mercado, engenharia e trativas (planejamento, organização,
avaliações. A decisão do participan- direção e controle) pelos produtores Pretende-se neste capítulo de-
te, de implementar ou não o proje- rurais, pode contribuir positivamente talhar como funciona o processo
to, deve estar próxima. De qualquer para melhorar o resultado econômi- administrativo em empresas rurais,
forma, já sabe que uma boa gestão co de suas empresas (Phillips & Pe- para que o participante do Programa
do seu negócio se faz sempre neces- terson, 1999; Miller et al., 1998; en- Empreendedor Rural possa avaliar a
sário, tanto para a implementação tre outros). No entanto, apesar dessa sua atual forma de administração e,
do projeto que elaborou durante o provável associação positiva entre se for necessário e possível, poder
programa ou outro que venha a ela- o uso de boas técnicas de gerencia- melhorá-la ao longo do tempo.
borar no futuro, como para a própria mento e o sucesso econômico das
1 Baseado em Canziani (2001), Assessoria administra-
tiva a produtores rurais no Brasil, Tese de doutorado,
empresas rurais, tem-se observado Canziani (2001) identificou um
ESALQ/USP.

206
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
conjunto de razões que limita o uso dução, finanças, comercialização e Anotações
de técnicas de gestão nas empresas pessoal, compondo, assim, o pro-
agropecuárias, analisando como os cesso administrativo.
produtores rurais administram os
seus negócios. Estas razões estão O Quadro 14.1 apresenta 32
relacionadas no apêndice 1 deste subgrupos de atividades ou ações
capítulo e sua leitura pode ajudar o administrativas, como se fossem 32
participante do programa a identifi- elementos distintos de uma matriz
car se tem ou não as mesmas ou ou- de 8 linhas e 4 colunas. Nas oito li-
tras deficiências administrativas na nhas estão representadas as combi-
gestão do seu negócio. nações possíveis das quatro funções
administrativas e dos dois níveis em-
Uma forma de se avaliar a ges- presariais. Nas quatro colunas estão
tão ou administração de uma empre- representadas as áreas administrati-
sa agropecuária pode ser feita com vas de produção, finanças, comer-
o uso de uma matriz de atividades cialização e de pessoal. No interior
administrativas, conforme propos- da “matriz 8x4”, cada um dos 32
to por Canziani (2001). Essa matriz elementos representa as inúmeras
relaciona as funções de planejamen- atividades ou ações administrativas
to, organização, direção e controle, possíveis de serem realizadas, e que
exercidas no nível estratégico e ope- em conjunto formam o processo ad-
racional da empresa agropecuária, ministrativo. A melhor compreensão
com as áreas administrativas de pro- desse processo administrativo com o

207
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
estabelecimento de 32 subgrupos de atividades administrativas permite uma O termo planejamento pode ser
administração mais eficaz pelos seguintes motivos: (a) pela mais fácil identi- entendido como um trabalho de pre-
ficação de algumas atividades administrativas que não estão (mas deveriam paração para qualquer empreendi-
estar) sendo realizadas pelo produtor rural; (b) pela mais fácil identificação mento, segundo roteiro e métodos
de atividades administrativas que estão sendo realizadas de forma ineficien- determinados que procuram antever
te e precisam ser corrigidas; (c) pela mais fácil identificação de atividades as conseqüências de uma ação. O
administrativas que não são relevantes ou têm pouca importância para o projeto elaborado pelos participantes
sistema de produção da empresa e, portanto, não precisam ser realizadas ou do Programa Empreendedor Rural,
pelo menos não necessitam de grande atenção por parte do produtor rural por exemplo, contém ações de pla-
em função do seu tipo de negócio. nejamento, pois visa à consecução
de determinados objetivos do pro-
Quadro 14.1 – Matriz de atividades administrativas
dutor como, por exemplo: aumentar
Funções\Áreas administrativas Produção Finanças Comercialização Pessoal
o bem estar das famílias envolvidas
Planejamento estratégico
com o negócio; auferir lucros com
Planejamento operacional
as atividades desenvolvidas pela
Organização estratégica

Organização operacional
empresa; e/ou conquistar o reconhe-
Direção estratégica cimento do mercado como empresa
Direção operacional produtora de alimentos saudáveis,
Controle estratégico entre outros. E também ações que vi-
Controle operacional sam o cumprimento de metas, como
Fonte: adaptado de Canziani (2001). por exemplo: ter o lucro da empresa
aumentado em R$ 500 mil nos próxi-
mos 4 anos; ter todas as pessoas en-
volvidas com o negócio recebendo

208
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
pelo menos 2 salários mínimos por atividades da empresa, a fim de se Anotações
mês a partir do ano, entre outras. propor as correções necessárias, em
tempo oportuno. A função de con-
A organização, enquanto fun- trole envolve o registro de dados, a
ção administrativa, se preocupa em comparação destes dados com pa-
agrupar e estruturar todos os recur- drões de desempenho pré-estabele-
sos ou fatores de produção disponí- cidos, a análise dos resultados e a
veis na empresa para viabilizar o seu comparação deles com os resultados
funcionamento de forma eficiente. A planejados e, por fim, a adoção de
função administrativa de direção, medidas corretivas a serem consi-
por sua vez, compreende o ato de deradas ou implementadas em uma
comandar, gerir ou dirigir a empre- nova etapa do planejamento.
sa. Ela engloba, entre outras coisas,
o ato de supervisionar o uso de to- O exercício das funções ad-
dos os recursos da empresa, a fim de ministrativas ocorre nas diferentes
cumprir com a execução das ações áreas da empresa. A área de produ-
planejadas, de motivar os trabalha- ção está diretamente relacionada às
dores, de executar em si as tarefas atividades que a empresa realiza e
e operações planejadas, de realizar os fatores de produção que utiliza.
compras e vendas, entre outras. Fi- Na área de produção se administra
nalmente, a função de controle, é questões físicas, de volume ou quan-
uma tarefa contínua de registrar e tidade (total ou unitária), como o uso
avaliar o desempenho de todas as de insumos e outros fatores de pro-

209
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
De uma forma geral, contribuem
dução (horas/máquina, homens/dia, A seguir, vamos discutir cada para o baixo uso do planejamen-
hectares/ano, litros/hectare, entre uma destas funções administrativas, to escrito nas empresas agropecu-
outros), e a geração de produtos ou detalhando as atividades ou ações a árias do país, os seguintes fatores:
serviços (sacas/ano, litros/mês, tone- elas relacionadas e como essas fun- (a) pouco conhecimento, por parte
ladas/hectare, hospedagens/semana, ções são efetivamente realizadas nas dos produtores rurais, sobre as mo-
entre outros). A área de finanças, empresas rurais. dalidades formais de elaboração do
como o próprio nome diz, envolve planejamento estratégico e opera-
a administração dos valores mone- cional, principalmente devido à falta
tários dos estoques de capitais e de Planejamento de tradição e prática dessas técnicas
fluxos financeiros como receitas ou De alguma ou de outra forma, a no meio rural; (b) desestímulo dos
despesas de x R$/ano ou y R$/mês. A grande maioria dos empresários fa- empresários em escriturar ou anotar
área de comercialização se relacio- zem planejamento. O simples ato de seus objetivos e metas, talvez pelas
na com as atividades administrativas pensar para decidir já pode ser con- constantes mudanças em variáveis
de compras e de vendas de bens e siderado um ato de planejamento. O do ambiente externo à empresa e
serviços, com fornecedores e clien- ato de pensar envolve indagações, e que não são controláveis por eles tais
tes, com os preços de produtos e fa- indagações envolvem questionamen- como o clima, a política agrícola, os
tores, entre outros. Por fim, a área de tos sobre: o que fazer? Como? Quan- preços, as disponibilidades de tecno-
recursos humanos é relacionada às do? Quanto? Para quem? Por que? E logia, entre outras razões, e a conse-
pessoas que trabalham na empresa, onde? Assim, o planejamento pode- qüente necessidade de se readequar
em termos de quantidade (oferta e ria ser entendido como um esforço ou reorientar periodicamente os pla-
demanda de mão de obra) e quali- contínuo (mental ou por escrito) que nos operacionais na empresa agrope-
dade ou competências humanas (co- busca saber quais são as implicações cuária; (c) desobrigação formal dos
nhecimento, habilidades e atitudes). futuras das decisões presentes. produtores rurais de prestar contas

210
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
a terceiros sobre suas decisões estratégicas e operacionais, principalmente Anotações
devido à existência predominante de firmas de propriedade ou gerência in-
dividual no meio rural.

De qualquer forma, o ideal é que o processo de planejamento seja forma-


lizado (por escrito) ou pelo menos que seja praticado ou discutido, cotidiana-
mente, pelo tomador de decisões com os demais membros da família, funcio-
nários e outros colaboradores da empresa rural. Essa cotidiana discussão sobre o
processo de planejamento é particularmente importante onde há envolvimento
da mão-de-obra familiar no processo produtivo, pois ajuda significativamente
na motivação e engajamento dos familiares e funcionários nas atividades da em-
presa visando o seu sucesso no curto prazo e também no longo prazo, quando
da sucessão patrimonial ou da mudança de comando na empresa.

PLANEJAMENTO DA PRODUÇÃO

O Quadro 14.2 apresenta exemplos de atividades ou ações administra-


tivas relacionadas ao planejamento estratégico e operacional da produção.
Normalmente, questionamentos do tipo “o que fazer?” se relacionam às de-
cisões estratégicas e questionamentos do tipo “como fazer?” às decisões de
ordem operacional. Assim, o esforço (mental ou por escrito) do tomador de
decisão, realizado para identificar e definir a(s) atividade(s) produtiva(s) a
ser(em) realizada(s) na empresa e suas correspondentes implicações futuras,
trata de uma atividade administrativa relacionada à função de “planejamen-

211
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
to estratégico da produção”. Da mesma forma, o esforço (mental ou por es- cuárias existentes na empresa. No
crito) do tomador de decisão, realizado para identificar, definir e avaliar o(s) caso de empresas agropecuárias que
sistema(s) de produção (tecnologia) a ser(em) adotado(s) na empresa, estaria cultivam hortaliças ou grãos de ciclo
relacionada à função “planejamento operacional da produção”. Ou seja, curto de produção, a revisão do pla-
quando o empresário está decidindo se plantará soja ou milho na próxima nejamento estratégico provavelmen-
safra está realizando um planejamento estratégico, mas se está decidindo se te será mais freqüente, do que nos
irá plantar a variedade A ou B ou se usará X ou Y quilos de fertilizantes, está casos de empresas que possuem cul-
realizando um planejamento operacional. turas perenes ou bovinocultura de
corte, por exemplo, onde o ciclo de
Quadro 14.2 - Exemplos de atividades administrativas em empresas
agropecuáriasrelacionadasaoplanejamentoestratégicoeoperacionaldaprodução. produção é mais longo.

Função administrativa Exemplos de atividades administrativas

Identificar e definir as atividades (culturas e criações) A complexidade do processo


a serem realizadas pela empresa, considerando fa-
tores como: as disponibilidades e as exigências de produtivo e a correspondente ne-
recursos; os riscos e as rentabilidades potenciais; as
Planejamento estratégico ameaças e as oportunidades do ambiente; e os gostos
cessidade de alterações ou ajustes
da produção e as preferências do produtor rural e sua família. operacionais no sistema de produ-
Projetar o desempenho produtivo da empresa e a alo-
cação dos recursos necessários à produção, levando ção, também afetam a freqüência do
em conta a missão, os objetivos gerais e as estratégias
da empresa e os resultados globais pretendidos. esforço de planejamento operacio-
Definir o sistema de produção (tecnologia) e estabe- nal. Assim, espera-se que empresas
lecer metas de produção e produtividade para cada
Planejamento operacional uma das atividades desenvolvidas. produtoras de hortaliças ou de grãos
da produção Estabelecer cronogramas físicos de tarefas e opera- que têm processos produtivos mais
ções e projetar rendimentos de produção para cada
uma das atividades da empresa. complexos revisariam seu planeja-
mento operacional com maior fre-
Em geral, a repetição ou periodicidade desse esforço de planejamento qüência em relação a empresas que
é influenciado pelo tempo ou ciclo de produção das atividades agrope- produzissem frangos que têm pouca

212
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
alteração do processo produtivo ao produção futura das alternativas em Anotações
longo do tempo, ou se dedicasse análise na empresa agropecuária,
à atividade de produção florestal, também as incertezas com relação
onde o manejo produtivo é relativa- aos preços de mercado dos produtos,
mente simples a partir de determina- à disponibilidade de crédito para as
do porte da cultura. diferentes atividades, entre outras,
contribuem para uma grande impor-
Na área de produção, os er- tância de um eficiente planejamento
ros em decisões estratégicas têm da produção. É possível, entretan-
um alto custo para serem sanados to, que essas incertezas comuns ao
ou corrigidos, pois normalmente é meio agropecuário contribuam para
longo e irreversível o processo pro- uma inércia da ação empresarial, re-
dutivo agropecuário e alto são os sultando em lentas modificações nos
investimentos necessários para se sistemas de produção das empresas
iniciar ou modificar a infraestrutura agropecuárias. Neste sentido, não se
de apoio à produção. Em nível ope- pode confundir rigidez na produção
racional, decisões erradas na área agropecuária (oferta inelástica em
de produção normalmente reduzem relação a preços) com ausência de
a produtividade das explorações e, planejamento nas empresas agro-
por conseguinte, as margens líqui- pecuárias. Muitas vezes, no curto
das possíveis de serem obtidas em prazo, o alto custo para se alterar a
um determinado ciclo de produção. infraestrutura da propriedade torna
Além das incertezas com relação à a manutenção das atividades já de-

213
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
senvolvidas pela empresa a melhor for o valor das entradas e saídas de dinheiro necessário para a condução
opção apontada pelo processo de das atividades da empresa. Então um bom plano financeiro de longo prazo,
planejamento da produção. embora importante, terá menor utilidade para um produtor de frango (inte-
grado à indústria) ou para um produtor que arrenda suas terras a uma usina
PLANEJAMENTO DAS FINANÇAS de álcool, onde a indústria é que financia quase integralmente a produção;
em relação a um produtor que movimenta grandes valores financeiros para
O Quadro 14.3 apresenta exem- realizar a produção, como é o caso de produtores de algodão, de batata, de
plos de atividades ou ações adminis- tomate, entre outros. No planejamento operacional das finanças, o maior
trativas relacionadas ao planejamen- grau de importância deve-se, além do alto valor do capital de giro necessá-
to estratégico e operacional da área rio a produção, a maior freqüência de operações de compras de insumos e
de finanças em empresas agropecu- vendas da produção. Então, nesse caso, um bom plano financeiro de curto
árias. A área de finanças envolve to- prazo seria mais útil para um produtor de leite ou de hortaliças do que para
das as questões vinculadas às recei- um produtor de eucalipto ou de cana-de-açúcar.
tas, despesas de custeio, despesas de
Quadro 14.3. – Exemplos de atividades administrativas
investimentos, financiamentos, entre em empresas agropecuárias relacionadas ao
planejamento estratégico e operacional das finanças.
outras. Assim, planejar as finanças
significa, por exemplo, projetar o
Função administrativa Exemplos de atividades administrativas
fluxo de caixa da empresa, identifi-
Projetar o fluxo de caixa das atividades e da empresa
cando as prováveis entradas e saídas como um todo (incluindo gastos familiares), especi-
ficando as origens (fontes) e as aplicações (usos) dos
de recursos financeiros ao longo do Planejamento estratégico recursos financeiros.
das finanças Elaborar e analisar a viabilidade de projetos de
horizonte de tempo planejado. investimento para a implantação de novas atividades
ou para a modificação/alteração do atual sistema de
produção.
Em nível estratégico, o planeja- Elaborar orçamentos de receitas e despesas para as
Planejamento operacional
atividades da empresa.
mento das finanças apresenta maior das finanças
Estabelecer cronograma financeiro para as atividades.
grau de importância quanto maior

214
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
PLANEJAMENTO DA COMERCIALIZAÇÃO Anotações

Exemplos de atividades ou ações administrativas relacionadas ao plane-


jamento estratégico e operacional da área de comercialização são mostra-
dos no Quadro 14.4. Os exemplos se relacionam aos preços de produtos e
insumos, aos fornecedores e clientes da empresa, aos canais de comerciali-
zação, entre outros. Tanto em nível estratégico, como em nível operacional
o grau de importância atribuído ao planejamento da comercialização está
relacionado ao número de clientes e fornecedores da empresa; ao maior ou
menor número de canais de comercialização utilizados; a maior ou menor
freqüência de venda da produção e de compra de insumos; a especifici-
dade, em termos de diferenciação de marca e qualidade, da produção co-
mercializada; ao processo de formação dos preços no mercado de fatores
e produtos que a empresa participa, entre outros. Assim, um bom plano
comercial de curto prazo poderia ter menor utilidade para um produtor de
cana-de-açúcar ou de frango integrados à indústria, pois nestes mercados o
preço prevalecente é o preço médio para um conjunto de produtores e não
um preço acertado a cada negociação. O contrário poderia ocorrer, por
exemplo, com um produtor de bezerros que vende seu rebanho em leilões,
onde os preços variam a cada lote vendido.

215
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
Quadro 14.4 - Exemplos de atividades administrativas em empresas agropecuárias
relacionadas ao planejamento estratégico e operacional da comercialização

Função administrativa Exemplos de atividades administrativas

Identificar e definir as estratégias de comercialização (compras


Planejamento estratégico e vendas) para todas as atividades da empresa.
da comercialização Estimar preços futuros de médio e longo prazo para insumos e
produtos e definir canais de comercialização.

Estabelecer planos para a comercialização (compras e vendas)


Planejamento operacional
no curto prazo.
da comercialização
Estimar preços futuros de curto prazo para insumos e produtos.

PLANEJAMENTO DE RECURSOS em nível estratégico como em nível em criações de frango e suíno, na


HUMANOS operacional, o grau de importância produção de leite, de hortifrutigran-
deste tipo de planejamento está rela- geiros, entre outros. Por outro lado,
Exemplos de atividades adminis- cionado ao número de trabalhadores o planejamento da área de pessoal
trativas relacionadas ao planejamen- (fixos e temporários) existentes na poderá exigir menor atenção do ges-
to estratégico e operacional da área empresa; a participação da mão-de- tor em empresas com baixa demanda
de pessoal (ou recursos humanos) obra nos custos de produção; a im- de mão-de-obra ou que não exigem
são mostrados no Quadro 14.5. Os portância dos serviços manuais na trabalho muito especializado, como
exemplos se relacionam a oferta e eficiência dos sistemas produtivos, a criação extensiva de bovinos ou de
demanda de mão-de-obra na empre- entre outros. Assim, planejar a área reflorestamento.
sa, a planos de seleção, motivação e de recursos humanos é de suma im-
treinamento de pessoal, a cronogra- portância em empresas que apresen-
mas de utilização do recurso huma- tam alta demanda de mão-de-obra e
no na empresa, entre outros. Tanto trabalho especializado, como ocorre

216
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Quadro 14.5 - Exemplos de atividades administrativas em empresas agro-
pecuárias relacionadas ao planejamento estratégico e operacional do pessoal Anotações

Função administrativa Exemplos de atividades administrativas

Estimar o balanço de oferta e demanda de mão-de-obra para a


Planejamento estratégico empresa.
do pessoal Definir a estratégia da empresa para a seleção, recrutamento e
treinamento da mão-de-obra.

Prever a disponibilidade e exigência de mão-de-obra para as


Planejamento operacional atividades da empresa.
do pessoal Estabelecer para a mão-de-obra as ações necessárias para a
execução dos planos de produção.

Organização

A organização abrange as atividades ou ações administrativas realizadas


para se estruturar e agrupar adequadamente os recursos físicos, financeiros,
mercadológicos e humanos da empresa. Daí resulta a classificação adotada
nesse capítulo, que abrange: a organização da produção, das finanças, da
comercialização e do pessoal.

Normalmente, as ações administrativas voltadas a organizar os recursos


da empresa sucedem as ações de planejamento e antecedem as ações de
direção e de controle. Na organização da produção, por exemplo, a correta
disposição dos campos e das benfeitorias normalmente é estabelecida após
a decisão do que e como produzir, mas antecede o início propriamente dito
do processo produtivo e, conseqüentemente o controle desse processo.

217
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
O quadro 14.6 apresenta alguns exemplos de atividades
administrativas relacionadas à organização estratégica e opera-
cional da produção, finanças, comercialização e pessoal. Con-
siderando a finalidade dessas atividades administrativas nas di-
ferentes áreas, podem-se distinguir quatro grandes grupos: (a)
as atividades destinadas a organizar os recursos físicos propria-
mente ditos da empresa que compõem a organização da pro-
dução, como a alocação espacial das atividades levando em
conta a capacidade de uso do solo, da disposição eficiente das
benfeitorias e melhoramentos fundiários, do arranjo racional e
eficiente em almoxarifado e depósitos de insumos agrícolas e
veterinários, entre outros; (b) as atividades destinadas a orga-
nizar o fluxo de informações financeiras da empresa, como o
estabelecimento de um bom plano de contas de despesas que
permita o agrupamento ou separação de gastos ou de uma or-
ganização gerencial que permita o monitoramento de contas
correntes em bancos, ou a apuração individual dos resultados
econômicos das atividades desenvolvidas, entre outras; (c) as
atividades destinadas a organizar o fluxo de informações co-
merciais da empresa, como o estabelecimento de um bom ca-
dastro de clientes e fornecedores com suas práticas de preços
e qualidade, da evolução dos preços de insumos e produtos,
ou de organização de sistema de informações de mercado que
Cleverson Beje

218
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
possam auxiliar decisões comerciais de compra e venda; e (d) as atividades destinadas a organizar os recursos
humanos, por meio do estabelecimento de organogramas funcionais, de planos de cargos e salários, entre outras,
que compõem a organização do pessoal.

Quadro 14.6 - Exemplos de atividades administrativas em empresas agropecuárias relacionadas à


organização estratégica e operacional das áreas administrativas

Função administrativa Exemplos de atividades administrativas


Dispor, ordenadamente, a exploração dos campos e a localização das ben-
feitorias na empresa.
Organização estratégica da produção
Definir sobre as formas de organização da produção na empresa (individual,
societária, parceria, arrendamento etc.).
Organizar e sistematizar o uso cotidiano dos capitais fixos e circulantes da
Organização operacional da produção empresa.
Definir sobre a contratação de serviços de terceiros.
Definir os centros de custos e/ou centros de lucros da empresa.
Organização estratégica das finanças
Definir e detalhar o plano de contas da empresa.
Organizar e sistematizar o fluxo de informações financeiras da empresa.
Organização operacional das finanças Definir a forma de armazenamento de dados e de processamento das infor-
mações financeiras.
Definir e sistematizar as estratégias de compra de insumos e outros fatores de
Organização estratégica da comercialização produção.
Definir e sistematizar as estratégias para a venda da produção.
Organizar os sistemas para a identificação e seleção de clientes e de fornece-
dores de bens e serviços.
Organização operacional da comercialização
Organizar os sistemas para o acompanhamento de preços no tempo e no
espaço.
Estabelecer o organograma funcional (atribuições) da mão-de-obra, indican-
do a interdependência e a hierarquia entre as pessoas, secções ou áreas de
Organização estratégica do pessoal responsabilidades existentes na empresa.
Estabelecer os planos de cargos e salários para a mão-de-obra.
Distribuir adequadamente no tempo e no espaço as tarefas da mão-de-obra.
Organização operacional do pessoal Estabelecer as responsabilidades cotidianas e padrões de desempenho para a
mão-de-obra.

219
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
Praticamente todos os empresários almejam possuir empresas bem or- nada à maior necessidade de se orga-
ganizadas. A organização física é a mais aparente, e por isso tem recebido, nizar a disposição espacial das ben-
nas últimas décadas, maior atenção dos empresários rurais. Nas empresas feitorias, dos animais, das pastagens e
agropecuárias, esse tipo de organização exige longo tempo e altos inves- demais alimentos fornecidos ao gado,
timentos para se materializar, mas ao final proporcionam além de ganhos entre outros. Por fim, a organização
na eficiência produtiva, melhorias de imagem (status) ao empresário rural. da mão-de-obra tem sido importante
Mais recentemente, a organização financeira e comercial tem sido almejada para aumentar a eficiência e reduzir
por muitos empresários rurais, não por um desejo pessoal, mas pela neces- os custos deste fator de produção, no
sidade imposta pelas mudanças macroeconômicas, que tem exigido maior sentido de evitar o retrabalho, elevar
eficiência gerencial das empresas agropecuárias quanto ao estabelecimento a motivação das pessoas e reduzir o
de planos de contas, centro de custos, cadastros de clientes, fornecedores, custo de ações trabalhistas.
bens de capital físico, rebanhos, dados meteorológicos, entre outros. A in-
formática tem contribuído nesse processo, mas os softwares existentes no
mercado ainda não atendem perfeitamente a demanda dos produtores ru- Direção
rais e seu uso é baixo no meio rural. A direção compreende o ato de
comandar, gerir ou dirigir uma em-
Normalmente a organização da produção é tão ou mais importante do presa. A direção envolve, além de
que a organização das demais áreas administrativas. Na agricultura, a impor- processos racionais de gestão, tam-
tância da organização da produção está relacionada à maior necessidade de bém desejos, convicções, gostos e
se organizar: (a) o uso do solo, a fim de permitir a execução de planos para interesses pessoais dos dirigentes.
melhorar a sua fertilidade e dos planos de sucessão e rotação de culturas; (b) o Cabe aos dirigentes exercer a lide-
manejo integrado de pragas e doenças e o controle de plantas daninhas; e (c) rança na empresa, motivar sua equi-
a logística que envolve o uso cotidiano dos capitais físicos da empresa; entre pe de trabalho e tomar decisões. A
outros. Na pecuária, a importância da organização da produção está relacio- liderança situacional nas empresas

220
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
agropecuárias pode ser exercida através de comportamentos variados dos Anotações
dirigentes, quais sejam: (1) comportamento autocrático (quando as decisões
são unilateralmente tomadas pelo dirigente, que exige dos subordinados um
rígido cumprimento das ordens); (2) comportamento democrático (quan-
do as decisões são compartilhadas, após discussão e análise conjunta do
problema pelo dirigente e subordinado); e (3) comportamento indiferente
(quando as decisões são tomadas pelos liderados, à revelia do dirigente).

No nível estratégico das empresas agropecuárias, geralmente prevale-


ce a liderança autocrática e um organograma funcional deficiente, talvez
pela forma centralizadora de gestão comumente exercida pela maioria dos
empresários rurais ou também pelo baixo nível cultural dos funcionários
dessas empresas. No nível operacional, no entanto, encontram-se presentes
todos os tipos de liderança situacional na empresa agropecuária. A lideran-
ça autocrática normalmente ocorre nas propriedades rurais quando é ne-
cessário o cumprimento rigoroso de uma determinada seqüência de tarefas.
A liderança democrática normalmente ocorre quando as tarefas são flexí-
veis, existindo formas alternativas para a sua realização, ou ainda, quando
os funcionários detêm informações importantes para subsidiar as decisões.
A liderança indiferente também ocorre, pois nem sempre é possível a pre-
sença do dirigente nos diferentes locais de trabalho na propriedade rural,
especialmente no caso de produtores de tempo parcial (part-time).

221
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
Na direção estratégica e opera- tureza do trabalho e o convívio so- e fornecedores. Por fim, na área de pes-
cional dos recursos humanos, a mo- cial. Com menor importância ou em soal, a direção da empresa agropecuá-
tivação dos trabalhadores é vital para casos mais raros, destacam-se os se- ria engloba, por exemplo, a motivação
a empresa agropecuária. A motivação guintes fatores motivacionais para os dos trabalhadores, a transmissão das or-
pode ser entendida como um conjun- trabalhadores: a possibilidade de as- dens de serviço e o monitoramento das
to de forças e energias internas do in- censão hierárquica, a autorealização, tarefas realizadas.
divíduo que o mantém direcionado a a segurança no trabalho, o status e o
agir de determinada forma. Na empre- desenvolvimento pessoal. A exemplo do observado com
sa agropecuária o processo de moti- o planejamento e a organização, as
vação, engloba também o estabeleci- O quadro 14.7 apresenta vários atividades administrativas de direção
mento de padrões de comportamento exemplos de atividades administrati- exercidas na área de produção, nor-
e de desempenho, a fim de direcionar vas relacionadas à direção estratégica malmente também são mais impor-
e estimular os indivíduos (funcioná- e operacional da produção, finanças, tantes do que aquelas realizadas nas
rios e membros da família) a agirem comercialização e pessoal. Na área de outras áreas administrativas. Isso, in-
conforme os objetivos e metas da em- produção, por exemplo, faz-se à super- diretamente, representa a grande im-
presa. Segundo Canziani (2001), na visão do processo produtivo, a determi- portância da presença física do produ-
empresa agropecuária destacam-se os nação dos serviços a serem realizados tor rural ou outra pessoa responsável
seguintes fatores motivacionais mais nessa área administrativa, entre outras. junto aos serviços operacionais de
importantes para os trabalhadores: Nas finanças, a direção envolve a ges- produção e também a importância de
salário, benefícios indiretos (moradia, tão do fluxo de caixa da empresa (uso seu conhecimento e habilidade sobre
alimentação, lazer etc.) e o reconhe- e aplicações dos recursos financeiros). o processo produtivo. Neste aspecto,
cimento pelo trabalho desenvolvido. Na comercialização, o dirigente decide um constante investimento para o au-
Em segundo plano, destacam-se: o sobre compras e vendas e estabelece mento do capital humano na empre-
gosto pela tarefa desenvolvida, a na- critérios de comunicação com clientes sa rural se faz necessário.

222
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Quadro 14.7. Exemplos de atividades administrativas em empresas agropecuárias
relacionadas à direção estratégica e operacional da produção

Função administrativa Exemplos de atividades administrativas

Supervisionar as atividades produtivas para o alcance dos objetivos da


Direção estratégica da produção empresa.
Supervisionar o uso dos bens de capital fixo e circulante da empresa.

Comandar e acompanhar o processo produtivo.


Direção operacional da produção Determinar as tarefas e operações a serem realizadas para o bom anda-
mento da produção.

Definir e supervisionar os usos dos recursos financeiros próprios e de


terceiros na empresa.
Direção estratégica das finanças
Administrar as finanças da empresa, decidindo sobre gastos ou pou-
panças e sobre aplicações ou contratações de recursos financeiros.

Executar o cronograma financeiro da empresa.


Direção operacional das finanças
Gerenciar cotidianamente o fluxo de caixa da empresa.

Executar a estratégia de compra de insumos e venda da produção.


Direção estratégica da comercialização Estabelecer os relacionamentos (comunicação) com clientes e fornece-
dores de bens e serviços.

Decidir e realizar as compras de insumos e outros fatores de produção.


Direção operacional da comercialização
Decidir e realizar as vendas da produção.

Promover a seleção, treinamento e desenvolvimento da mão-de-obra.


Direção estratégica do pessoal
Definir formas de comunicação e liderança na empresa.

Dar ordens de serviço à mão-de-obra e monitorar o cumprimento das


Direção operacional do pessoal tarefas.
Motivar os trabalhadores.

Controle
Exemplos de atividades administrativas relacionadas ao controle estratégico e operacional das áreas adminis-
trativas são mostrados no Quadro 14.8. O controle abrange as atividades administrativas destinadas a registrar e

223
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
avaliar o uso de todos os recursos físicos, financeiros, comerciais e humanos processo produtivo, totalmente dife-
da empresa, a fim de mensurar seu desempenho e poder propor as corre- rente ou simplesmente alterado em
ções necessárias, em tempo oportuno. Daí resulta a classificação adotada alguns detalhes.
nesse trabalho, que abrange: o controle da produção, das finanças, da co-
mercialização e do pessoal. Considerando a finalidade das
atividades de controle e o plano de
Normalmente, as ações administrativas voltadas a controlar os recursos contas existente na empresa agro-
da empresa sucedem as ações de planejamento, organização e direção, mas pecuária, pode-se distinguir vários
os resultados obtidos com o controle realimentam o processo administrati- tipos de controle: o controle de cus-
vo, fazendo-o reiniciar, com novos planejamentos, em várias oportunida- tos, o controle de produção, o con-
des. No controle da produção, por exemplo, a coleta, sistematização e ava- trole de estoques, o controle de bens
liação das atividades produtivas podem sugerir a reorientação da produção, de capital, o controle de contas cor-
com o abandono ou modificação da situação anterior e o início de outro rentes, o controle de clientes e for-
necedores, o controle de pessoal, e
o controle de outras informações re-
levantes para a empresa. No contro-
le de custos destacam-se os registros
dos gastos inerentes a cada atividade
(centros de custos) da empresa. Nos
controles de produção destacam-se
os registros de volume ou quantida-
de e de produtividade ou rendimen-
to. No caso do controle de estoques
de insumos e bens de capital desta-
Cleverson Beje

224
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
cam-se os registros de uso de fatores inerentes a cada atividade da empresa. Anotações
No caso do controle de contas correntes destacam-se os registros que moni-
toram o caixa, as contas bancárias e o saldo de contas a pagar e a receber.
No caso do controle de clientes e fornecedores destacam-se os registros de
identificação e do histórico de transações. No caso do controle do pessoal
destacam-se os registros de salário, benefícios e encargos sociais e uso da
mão-de-obra em cada atividade da empresa. Por fim, vários outros con-
troles podem ser relevantes para a empresa, como dados meteorológicos,
histórico de preços de produtos, insumos e indexadores, entre outros.

Nas atividades de controle uma importante distinção deve ser feita. O


controle das transações financeiras (fluxo de caixa) e o controle econômico
da empresa, que envolve além do fluxo de caixa valores não monetários
como, por exemplo, a depreciação e juros sobre o capital fixo no lado dos
custos, ou o crescimento e engorda de um animal ou a valorização da terra
no lado da renda.

Tanto em nível estratégico, como em nível operacional o sistema de


controle deve ser mais detalhado na empresa rural quanto: maior for o nú-
mero ou a complexidade das atividades produtivas; maior for o montante
de capital financeiro utilizado na empresa ou do fluxo de receitas e despe-
sas; maior for o número de clientes e fornecedores, os canais de comercia-
lização e a freqüência de compras de insumos e vendas da produção; e/ou
maior for o número de trabalhadores existentes na empresa rural.

225
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
Controlar certamente custa dinheiro e tempo. Portanto o sistema de controle precisa ser útil para a empresa,
também para evitar desvios, mas principalmente para gerar informações que possam embasar medidas corretivas e
subsidiar novos planejamentos.

Quadro 14.8. Exemplos de atividades administrativas em empresas agropecuárias relacionadas


ao controle estratégico e operacional da produção

Função administrativa Exemplos de atividades administrativas

Coletar e sistematizar dados relacionados à produção global da empresa.


Controle estratégico da produção
Avaliar a empresa como um todo sob o aspecto produtivo.

Coletar e sistematizar dados relacionados às atividades produtivas da empresa e ao uso dos


capitais fixos e circulantes.
Controle operacional da produção
Avaliar individualmente as atividades da empresa sob o aspecto produtivo e quanto ao uso dos
capitais fixos e circulantes.

Coletar e sistematizar dados relacionados às finanças da empresa como um todo, detalhando


Controle estratégico das finanças as origens (fontes) e aplicações (usos) dos recursos financeiros.
Avaliar a empresa como um todo nos aspectos econômicos e financeiros.

Coletar e sistematizar dados econômicos e financeiros das atividades desenvolvidas pela em-
Controle operacional das finanças presa.
Avaliar individualmente as atividades da empresa sob os aspectos econômico e financeiro.

Coletar e sistematizar dados relacionados à comercialização (compras e vendas) da empresa


Controle estratégico da comercialização no médio e longo prazo.
Avaliar a empresa como um todo no aspecto da comercialização.

Coletar e sistematizar dados relacionados à comercialização no ano safra.


Controle operacional da comercialização
Avaliar individualmente as atividades da empresa sob o aspecto da comercialização.

Coletar e sistematizar dados relacionados aos recursos humanos da empresa como um todo.
Controle estratégico do pessoal
Avaliar a empresa como um todo no aspecto dos recursos humanos.

Coletar e sistematizar dados relacionados aos recursos humanos nas atividades da empresa.
Controle operacional do pessoal
Avaliar as atividades da mão-de-obra na empresa.

226
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
Razões que Dificultam a
Anotações
Gestão de Empresas Rurais

Os fatores limitantes à competência administrativa nas empresas rurais


podem ser agrupados nas seguintes variáveis: a insuficiência de conheci-
mento, a falta de habilidades e a atitude negativa. A insuficiência de co-
nhecimento em administração rural advém do uso inadequado de muitas
técnicas de gerenciamento por parte dos produtores e da assistência técni-
ca, em função da própria natureza da experiência acumulada e ao tipo de
formação profissional, de maior ênfase em tecnologias de produção, que
produtores e técnicos receberam no passado.

A insuficiência de determinadas habilidades ou a falta de condições


apropriadas pode ser evidenciada quando o produtor não tem condições
de adotar alguns modelos de gestão por restrições de várias ordens. Essas
restrições podem estar relacionadas, por exemplo:

a) ao custo elevado para se implantar sistemas formais e eficientes de


controle pelo fato de seus trabalhadores geralmente possuírem baixo
grau de educação formal.

b) à má organização da estrutura de pessoal nas propriedades rurais,


com conseqüente acúmulo de responsabilidades para o produtor e
alguns funcionários;

227
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
c) à má organização ou até inexistência de um plano da empresa relativamente aos demais produtores
de contas gerencial com conseqüente dificuldade atuantes no mercado;
para a análise econômica individual das diferen-
tes atividades existentes. > maior preocupação histórica dos serviços de as-
sistência técnica e extensão rural em proporcionar
A atitude negativa, por parte de produtores e/ou pro- ganhos de produtividade da terra e do trabalho
fissionais da assistência técnica, para o uso de técnicas ao setor agrícola como sua principal estratégia de
de gestão nas empresas agropecuárias deve-se principal- demonstrar à sociedade seu papel social;
mente aos seguintes motivos:
> baixa tradição dos produtores rurais em divulgar
> presença de um certo ceticismo, por parte dos a terceiros informações sobre sua real situação
produtores e até dos técnicos, quanto à neces- econômica, financeira e patrimonial.
sidade e à eficácia de se usar técnicas de gestão
nas empresas rurais. Por um lado, essa atitude ne- > baixa tradição dos produtores rurais do país, em
gativa pode estar vinculada à relação mais direta, contratar serviços regulares de assessoria em ou-
ou de maior relevância, que outras variáveis pos- tras áreas, que não aquelas relacionadas aos as-
suem sobre o resultado econômico da proprie- pectos tecnológicos (que por muito tempo, foram
dade rural tais como: a aleatoriedade do clima, vinculadas de forma compulsória ao sistema de
as constantes mudanças na política econômica, crédito rural);
entre outros.
> alto custo para se modificar, no curto e médio pra-
> maior preocupação histórica dos produtores com zos, a estrutura vigente nas propriedades rurais, ge-
a rápida e permanente adoção de novas tecnolo- rando uma certa inércia ou repetição de suas estra-
gias visando à obtenção de vantagem competitiva tégias ao longo do tempo;

228
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
> maior custo dos serviços de uma assistência agropecuária mais abran- Anotações
gente, que incluam, além da parte tecnológica, outras questões contá-
beis, econômicas e administrativas.

Outros aspectos também dificultam a gestão das empresas rurais, tais


como:
(1) a natureza familiar predominante na empresa agropecuária lhe
confere uma forma própria de gestão, que muitas vezes contraria o
objetivo da maximização de lucros estabelecido pela teoria neoclás-
sica;
(2) há importantes e significativas diferenças na opinião e percepção
de técnicos e produtores sobre a melhor forma de gerenciar as em-
presas agropecuárias;
(3) a baixa participação dos técnicos no processo administrativo da
empresa agropecuária se deve muito mais às atitudes negativas dos
produtores rurais, do que às atitudes negativas dos técnicos, sobre o
problema. Os produtores, ao contrário dos técnicos, entendem que
esses profissionais devem priorizar as questões tecnológicas, em sua
prestação de serviço às propriedades rurais; (d) atualmente, tanto os
produtores, como os técnicos reconhecem a necessidade da empre-
sa agropecuária de adotar um critério mais formal de planejamento,
uma organização mais eficiente das áreas administrativas, uma dire-
ção mais abrangente da empresa e um controle mais pormenorizado

229
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
das atividades desenvolvidas. Isso sugere que, no futuro, seja amplia- Com relação às limitações que
da a demanda por serviços de assessoria administrativa às empresas dificultam a organização da em-
agropecuárias no Brasil, em complemento a atual forma tradicional presa agropecuária os resultados
de atuação da assistência técnica, e finalmente, (e) as recomenda- indicam que: (a) na organização da
ções para as formas de gerenciamento da empresa agropecuária de- infraestrutura e do pessoal na empre-
vem considerar as características da empresa e do empresário rural, sa agropecuária, há uma tendência
e não serem estabelecidas a priori sem o conhecimento da situação dos produtores em superdimensio-
particular de cada caso. nar a disponibilidade desses fatores
de produção, visando uma redução
Com relação às limitações que dificultam o planejamento da empresa dos riscos operacionais inerentes à
agropecuária os resultados da pesquisa feita por Canziani (2001) indicam produção. Portanto, nas recomen-
que: (a) os produtores rurais não alteram, contínua e sistematicamente, seu dações sobre a organização física e
planejamento estratégico de produção, em função das incertezas de merca- de pessoal devem ser considerados
do e dos custos associados à alteração do processo produtivo. Portanto, as os ganhos e perdas dessa prática no
simulações utilizadas no planejamento da produção devem considerar essa resultado econômico da empresa; e
característica da empresa agropecuária, e não simplesmente propor altera- (b) na organização das finanças na
ções sem avaliar os custos econômicos e de aprendizagem inerentes às mu- empresa agropecuária, normalmente
danças; e (b) no planejamento financeiro, os produtores rurais normalmente há um descompasso entre o detalha-
direcionam seus recursos para serem aplicados em estoques ou ativos fixos, mento dos registros idealizados por
pois preferem trabalhar suas atividades com maior estoque de capital do técnicos ou empresas de informática
que com maior liquidez em caixa. Desta forma, nas recomendações sobre o e a real capacidade dos produtores
planejamento financeiro deve-se indicar as vantagens e desvantagens dessa rurais de implementá-los com efi-
prática no resultado econômico da empresa agropecuária; ciência na empresa. Assim, há que se

230
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
considerar nas recomendações administrativas a relação benefício/custo do Anotações
sistema de informação a ser implantado na empresa agropecuária.

Com relação às limitações que dificultam a direção na empresa agropecu-


ária os resultados indicam que: (a) a estrutura funcional dos recursos humanos
é centralizada, com acúmulo de responsabilidades no produtor rural, gerando
ineficiências decorrentes da baixa delegação de atribuições ao restante da
mão-de-obra. Portanto, há que se questionar essa estrutura funcional predo-
minante nas empresas agropecuárias e estabelecer políticas para uma melhor
capacitação do recurso humano nessas empresas; e (b) a direção operacional
da produção ocupa o maior tempo de trabalho do produtor rural e normal-
mente direciona-se à busca por maiores produtividades. Nessa situação é pre-
ciso avaliar melhor o processo de perseguir maiores produtividades físicas a
qualquer preço, procurando adicionar ganhos por uma melhor direção das
finanças, da comercialização e do recurso humano.

Com relação às limitações que dificultam o controle na empresa agro-


pecuária os resultados indicam que: (a) as principais dificuldades no contro-
le da empresa agropecuária são a coleta de dados a campo, proporcionada
pelo baixo nível de conhecimento, habilidades e atitudes de seus funcioná-
rios em relação às tarefas de controle. Portanto, há que se desenvolver siste-
mas mais simples e versáteis de controle no âmbito da empresa agropecuá-
ria e que considerem a limitação cultural de seus funcionários; e (b) há, por
um lado, uma atitude favorável de produtores e técnicos em se aperfeiçoar

231
Capítulo XIV • A Administração da Empresa Rural
o sistema de controle da empresa Referências
agropecuária, mas, por outro, um
reconhecimento dos produtores so- CANZIANI, J. R. Assessoria administrativa a produtores rurais no Brasil.
bre as dificuldades de implantá-los Piracicaba, 2001. 220p. Tese (Doutorado) - Universidade de São Paulo.
e utilizá-los gerencialmente. Dessa
forma, há que se desenvolver futuras DALMAZO, N.L.; ALBERTONI, L.A. A necessidade de um enfoque de ad-
pesquisas orientadas para o desen- ministração rural na pesquisa e extensão rural. In: SEMANA DE ATUALI-
volvimento de sistemas de controle ZAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO RURAL, Lages, 1991. Anais. Florianópolis:
mais específicos para cada um dos SAA; EPAGRI; CTA do Planalto Serrano Catarinense, 1992. p.7-21.
diferentes sistemas de produção.
MEIRA, J.L. Sucesso econômico e perfil estrategista empreendedor de produ-
Com a elaboração do projeto, o tores rurais: o caso Nilo Coelho. Lavras, 1996. 76p. Dissertação (MS) - Uni-
participante do Programa Empreen- versidade Federal de Lavras.
dedor Rural pode entender que as
modificações a serem implementadas MILLER, A.; BOEHLJE, M.; DOBBINS, C. Positioning the farm business. West
na sua empresa advêm de um diag- Lafayette: Purdue University, 1998. 37p. (Staff Paper, 98-9).
nóstico prévio, de um plano estraté-
gico e de uma cuidadosa análise dos PHILLIPS, J.C.; PETERSON, H.C. Strategic planning and firm performance:
benefícios e custos que as mudanças a proposed theorical model for small agribusiness firms. East Lansing: Mi-
pretendidas podem proporcionar a chigan State University, 1999. 15p. (Staff Paper, 99-41).
empresa. Com esta prática espera-
se que o empreendedor rural possa,
também, melhorar a gestão ou admi-
nistração cotidiana do seu negócio.

232
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
O Projeto e as
Ações Futuras1 Fernando Curi Peres

“Penso que cumprir a vida seja simplesmente economia, além da sua ligação com
Compreender a marcha e ir tocando em frente o resto do mundo. Algumas cadeias
Como um velho boiadeiro levando a boiada agroindustriais foram analisadas com
Eu vou tocando dias pela longa estrada eu vou mais profundidade para que o partici-
Estrada eu sou” pante pudesse ver o papel que cada
Tocando em Frente de Almir Sater e Renato Teixeira elo desempenha no seu funcionamen-
to eficiente. Foi discutida a globaliza-
Neste capítulo encerra-se a primeira fase do Programa Empreendedor Ru- ção e suas conseqüências na vida das
ral. Foram 14 encontros onde se tratou, fundamentalmente, do planejamento, famílias do setor rural bem como o
uma das quatro funções básicas que têm que ser desempenhadas pelo admi- papel dos governos na condução de
nistrador. As outras três são: a organização, a direção e o controle. Elas serão políticas que, de alguma forma, im-
objeto de outras fases do programa ou do aprimoramento geral da competên- pactam o setor. Finalmente, mas não
cia administrativa dos empresários rurais. Além do planejamento, o Programa menos importantes, foram discutidos
Empreendedor Rural abriu importantes janelas de conhecimento que devem aspectos legais e ambientais que re-
ser aprofundadas por todos os participantes. Foram vistas algumas das especifi- gulamentam a vida da sociedade, es-
cidades do setor rural, principalmente na estrutura dos mercados dos produtos pecialmente a da sociedade rural. A
do setor, bem como dos mercados dos insumos e fatores de produção que pergunta que se coloca a seguir é: o
as empresas rurais precisam comprar. Também foram analisadas as interações que fazer agora, no processo de apri-
entre as empresas rurais e os mercados e entidades que fazem o conjunto da moramento da qualidade de vida das
1 Este capítulo, em particular, trata do programa como um todo, feito dos textos nos materiais de apoio, mas prin- populações rurais do país?
cipalmente dos encontros vivos entre os participantes e facilitador.

233
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
O principal objetivo do Programa sobrevivência dos mais capazes. Por sário rural precisa entender seu pa-
Empreendedor Rural não é ensinar a outro lado, além das forças de mer- pel na economia e na sociedade para
elaborar projeto de investimento de cado, que precisam sempre ser leva- poder participar do desenho das polí-
capitais. O projeto é, basicamente, das em conta no desenho das ações ticas que definem os rumos da nação
o elemento motivador ou o eixo de humanas na sua procura por qualida- ou da pátria. Assim, o objetivo maior
aprendizagem do programa. Como de de vida superior. A “cultura” tem do Programa Empreendedor Rural é
elemento fundamental no aprimora- permitido à humanidade incorporar o de ajudar às famílias rurais a terem
mento gerencial do participante ele valores que ela considera superio- melhores cidadãos, mais envolvidos
tem papel estruturante no programa res àqueles ditados somente pelos com suas comunidades e com toda a
já que, ao longo de sua elaboração, resultados puramente biológicos da vida da nação.
foram sendo abertas as janelas para luta pela sobrevivência das espécies.
que os participantes pudessem en- Assim, enquanto a morte de crian- Um dos mais importantes econo-
tender seu papel na economia e na ças que têm defeitos congênitos ou mistas rurais contemporâneos, o Prof.
sociedade, reconhecendo as interli- de nascimento é fato comum em so- Luther Tweeten, em seu livro semi-
gações que caracterizam as ativida- ciedades menos desenvolvidas cien- nal, intitulado Foundations of Farm
des do mundo moderno. É preciso ter tificamente, também o infanticídio é Policy2 (Os fundamentos da política
em mente que este mundo moderno prática, mais ou menos, generaliza- agrícola), menciona níveis diferentes
é altamente competitivo. O merca- da em populações tribais. Os valores de objetivos ou valores sociais que
do e a conseqüente competição tem culturais, ajudados pelo desenvolvi- são aceitos por grupos correspon-
sido a forma que a humanidade usa mento da ciência, têm permitido a dentemente menores de pessoas à
para incorporar elementos derivados superação dessa prática na vida das medida que ficam mais específicos.
da carga genética, comum a todos sociedades mais desenvolvidas. En- Assim, num primeiro nível, quase
os seres vivos, de procurar a maior quanto membro de um importante todo o mundo aceita que as pessoas
eficiência pela prevalência ou pela grupo que forma a nação, o empre- procuram aumentar seu bem-estar,
2 Tweeten, L. Foundations of Farm Policy. Lincoln: Uni-
versity of Nebraska Press, 1970.
234
Capítulo XV • O Projeto e as Ações Futuras
sua utilidade ou sua satisfação. É fácil muito pouca concordância quanto à “(i) os agricultores são bons ci-
de entender esse consenso, ou con- priorização desses objetivos ou va- dadãos e uma alta percentagem da
cordância, porque pode-se definir, lores sociais pelos diferentes grupos população deveria viver nas fazen-
ou defender, qualquer objetivo sobre que formam as sociedades, especial- das; (ii) agricultura não é só um ne-
esses imensos guarda-chuvas. Num mente a brasileira. O que pensam os gócio, mas um estilo de vida; (iii) o
segundo nível hierárquico, situam-se empresários rurais em termos de seus negócio rural deveria ser desenvol-
objetivos do tipo liberdade, justiça, objetivos sociais? vido em propriedades familiares; (iv)
segurança e progresso. Também são a terra deve ser possuída por quem a
bastante genéricos para acomodar Existe pouco consenso sobre os cultiva; (v) é desejável produzir dois
um enorme número de políticas em- valores sociais mantidos pelas popu- sacos de produto onde antes só se
bora, certamente, existam grandes lações rurais do Brasil. Para algumas produzia um; (vi) qualquer pessoa
diferenças quanto à prioridade que culturas eles são, por outro lado, que desejasse ser agricultor deveria
os diferentes grupos populacionais muito conhecidos. Na literatura an- poder sê-lo; e (vii) o agricultor deve
associam a cada um deles. No ter- glo-saxônica e na tradição fisiocráti- ser seu próprio patrão”.3
ceiro nível são muito mais aparentes ca francesa, por exemplo, os valores
as diferenças de prioridades entre os sociais dos agricultores são bem ex- Como o próprio Tweeten salien-
diversos grupos populacionais. Valo- plicitados. De fato, o Prof. Tweeten, ta, a seguir:
res ou objetivos como democracia, referindo-se especificamente aos fi-
crescimento econômico, eficiência siocratas franceses, fala dos compo- “Os componentes do fundamen-
econômica, a livre iniciativa (ou pro- nentes do que é conhecido como o talismo eram mais ou menos consis-
priedade privada de bens de produ- fundamentalismo rural, sem a cono- tentes internamente quando a ausên-
ção), a igualdade de oportunidades tação pejorativa atual do termo: cia de novas tecnologias limitavam a
e o patriotismo são exemplos des- 3 p. 8 de Tweeten, Luther Foundations of Farm Policy.
Lincoln: University of Nebraska Press, 1970, (Tradução
te nível de aspiração social. Existe livre).

235
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
habilidade dos agricultores de produ- atuais, então formas mais eficientes ser seu dono. A maior parte das áreas
zir dois sacos de produto onde antes de organização da produção devem cultivadas do sub-continente é o em
só produziam um. Mas o desenvolvi- substituir a propriedade familiar. Os terras arrendadas. Nos Estados Unidos
mento da ciência, das tecnologias e mercados, representando a exigên- da América o fenômeno só ocorreu
de outros setores da economia mu- cia social de eficiência na aplicação a partir da metade do século passa-
daram aquela situação e o item (v) dos recursos “da sociedade”, só per- do. Em ambas regiões, as exigências
começou a destruir as bases que fun- mitem a subsistência e o crescimen- de escala na produção agropecuária
damentavam aquelas visões”.4 to de empresas eficientes. Quando a tem feito a agricultura se dar, princi-
sociedade insiste em manter formas palmente, em áreas arrendadas. Além
Ele lembra, ainda, que embora não eficientes de organização da do crescimento do tamanho da pro-
os agricultores sejam considerados produção então ela precisa subsidiar priedade média que está ocorrendo
bons cidadãos, uma alta proporção as menos competitivas. Só assim elas em quase todas as agriculturas desen-
da população não pode ser forma- sobrevivem. volvidas do mundo, o arrendamento
da por agricultores se o desenvolvi- de terras permite que as áreas efetiva-
mento econômico é um valor para Um fato histórico importante difi- mente cultivadas pelo agropecuarista
as sociedades. Diz que, de fato, a culta a aceitação literal do item (iv) do moderno atinja escalas mais desejá-
atividade rural é uma atividade eco- fundamentalismo rural que diz que a veis pelas condições de mercado e
nômica como qualquer outra o que terra deve ser possuída por quem a por exigências das tecnologias mo-
deixa pouco espaço para ser consi- cultiva. Na Europa Ocidental, desde dernas.
derada um estilo de vida especial. a época do feudalismo e apesar dos
Finalmente, se a família não conse- movimentos de reforma agrária acon- O Prof. Tweeten menciona, ainda,
gue atingir o mínimo necessário, ou tecidos em alguns países, a posse da dois outros princípios que os funda-
exigido, pelas escalas dos negócios terra não se confunde com seu uso, mentalistas querem adicionar àqueles
4 p. 8 de Tweeten, Luther Foundations of Farm Policy. no sentido de quem a cultiva deve listados anteriormente. São eles:
Lincoln: University of Nebraska Press, 1970, (Tradução
livre).

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Capítulo XV • O Projeto e as Ações Futuras
“(1) alimentos e fibras são as volveram sob bases pobres de seus vão determinar esta decisão. Valores
necessidades mais básicas das civi- respectivos setores rurais, como está mais profundos, que envolvem es-
lizações; e (2) para que uma nação acontecendo com a China recente- tilos de vida alternativos interagem
prospere, seus agricultores têm que mente. Outros incluem as situações com os administrativo-econômicos
prosperar”.5 temporais, que mostravam seus se- para indicar o sentido de uma deci-
tores urbanos se desenvolvendo en- são. Mesmo que uma taxa de retor-
Novamente, apesar do apelo quanto os rurais se empobreciam, no econômico relativamente baixa
intuitivo dessas proposições, a rea- como aconteceu no Brasil nas déca- tenha sido encontrada para um de-
lidade está mostrando que elas es- das de 30 e 40 do século passado. terminado projeto, pode ser que a
tão longe de corresponder à verdade manutenção de um certo estilo de
dos fatos. Ele menciona o argumen- O participante do programa, vida justifique sua implantação. De
to inatacável que diz que apesar da agora que sistematicamente pensou fato, isso equivale à associação de
água ser um elemento mais impor- e explicitou alguns elementos do uma determinada valorização da-
tante do que os próprios alimentos plano estratégico de sua empresa e quele estilo de vida o que faria o
para a vida do homem, ou para a terminou seu primeiro projeto, está retorno do projeto tornar-se atrativo.
vida em geral, os trabalhadores dos de frente a decisões fundamentais De qualquer maneira, essa decisão
serviços de abastecimento de água para sua vida e de sua família. Cer- é de foro íntimo e interessa somente
não desfrutam de nenhum privilégio tamente, valores de todas as ordens ao empreendedor e à sua família.
correspondente dentro dos diferen- foram considerados na elaboração
tes grupos sociais. Quanto à segun- do plano estratégico e ainda estão Apesar da valoração do estilo de
da proposição, a história está cheia presentes na hora das decisões de vida que, acredita-se, é importante
de exemplos de países que se desen- implementar, ou não, o projeto es- para muitas famílias rurais, existe

5 p. 9 de Tweeten, Luther Foundations of Farm Policy.


tudado. Certamente, não só elemen- um fenômeno típico das economias
Lincoln: University of Nebraska Press, 1970, (Tradução
livre).
tos econômicos e administrativos de mercado que atuam de forma

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Programa Empreendedor Rural • Volume 2
divergente à manutenção daquele é deslocado ou que precisa mudar da combinação de atividades de
estilo. Trata-se da destruição criati- alguns elementos que formam sua uma empresa. Ele é medido como
va proposta por Joseph Schumpeter competência para continuar ativo no a variabilidade esperada para cada
e hoje aceita pelos economistas de mundo competitivo dos negócios. ponto do gráfico. No eixo dos y (na
todo o mundo. Segundo essa cons- Empresários rurais, tais como quais- vertical) está o retorno esperado (R)
tatação, nas economias de mercado quer outros empresários, precisam de cada combinação de atividades.
os padrões tecnológicos e gerenciais abandonar processos gerenciais, tec- A curva mostrada no gráfico (curva
são substituídos através da chamada nológicos ou de outra natureza para aai) é chamada de fronteira eficiente
destruição criativa. Quando um novo se adaptar a novos que estão cons- da economia. Ela mostra as diversas
processo tecnológico mostra-se mais tantemente surgindo. Infelizmente, combinações de atividades em uma
eficiente em termos competitivos ele não há lugar para os saudosistas no economia – portanto com determi-
destrói o processo que prevalecia mundo competitivo moderno. nada dotação de fatores primários
até então para substituí-lo. A subs- de produção – que são considera-
tituição é penosa para aqueles que Alguns trabalhos acadêmicos ri- das eficientes. Cada ponto da curva
viviam do processo anterior e que, gorosos estão mostrando que muitas apresenta a característica de ofere-
agora, precisam ser re-treinados, se unidades do setor rural, especialmen- cer o máximo de valor esperado de
vão continuar na mesma área, ou te da agropecuária, trabalham numa retorno para um determinado nível
precisam se dedicar a outra área das situação de ponto interno, no espaço de risco ou, o que é a mesma coisa,
atividades econômicas. Às vezes as retorno-risco para uma economia, oferecer o mínimo de risco para de-
empresas quebram e seus recursos como o ponto B da Figura 15.1. terminado nível de retorno. Por isso
ou fatores de produção são direcio- os pontos da curva são ditos eficien-
nados para outras mais dinâmicas O gráfico apresentado mede, tes, quando tanto os retornos possí-
que reconhecem e incorporam as no eixo x (na horizontal) o risco veis quanto os correspondentes ris-
necessárias mudanças. Assim, exis- esperado (V) para uma determina- cos são avaliados. Qualquer ponto
te sempre, um grupo humano que
238
Capítulo XV • O Projeto e as Ações Futuras
abaixo da fronteira eficiente corres- mesmo nível de risco esperado (V’). ficiente. Os retornos a seus fatores
ponde a uma combinação ineficien- Este é o ponto C na figura. De for- primários de produção podem ser
te de atividades. ma equivalente, pode-se dizer que o tão baixos que os membros de sua
R ponto B é ineficiente porque com o família acabarão por convencê-lo
ai mesmo nível de retorno esperado R’ é de que é melhor mudar de ramo de
possível achar usos para seus fatores atividade. Por isso, a agricultura é,
C
R’’ de produção com um nível de risco tradicionalmente, um setor perdedor
V” < V’. Este é o ponto D na figura. de recurso, especialmente de recur-
Como dito anteriormente, estudos sos humanos e financeiros.
R’
D
B empíricos têm mostrado muitas em-
a presas rurais com combinações de Foi visto, em toda a duração do
atividades fora da fronteira eficiente programa, que as diversas exigências

0
da economia, como o ponto B da fi- de escala de produção estão presen-
V’’ V’ V
gura; são pontos internos à fronteira tes num grande número de ativida-
Figura 15.1 - A fronteira eficiente e empresas e, portanto, ineficientes. Ora, embo- des econômicas do mundo moderno,
ineficientes numa economia.
ra isto possa estar custando retornos especialmente na economia globali-
O ponto B da Figura 15.1 é um não auferidos pelos agricultores – ou zada. Certamente, alguns requeri-
ponto ineficiente porque, para a fir- riscos adicionais controláveis, por- mentos de escala estarão presentes
ma em questão, é possível conseguir tanto desnecessários – eles podem na hora da implantação do projeto
uma taxa de retorno esperado maior ter justificativas, baseados em va- de cada participante: (i) a necessi-
que R’ pelo uso de outra combinação lores especiais que têm, que justifi- dade de pressão política para que
de atividades para seus fatores pri- cam essa aparente ineficiência. Não uma estrada seja mantida em con-
mários de produção que gere um re- tão aparente porque há limite para dições satisfatórias de tráfico; (ii) o
torno esperado de R” (R” > R’) com o quanto um agricultor pode ser ine- “pooling” de diversas empresas para

239
Programa Empreendedor Rural • Volume 2
anunciarem a disponibilidade local cipantes são estimulados a procurar Após a participação no Programa
de certos produtos; (iii) as exigências seus pares para, com a sinergia re- Empreendedor Rural espera-se que
de um número mínimo de partici- sultante das ações comuns no sen- cada um seja mais ativo nas iniciativas
pantes para que certos treinamentos tido de conseguir maiores escalas, associativas de seus pares. A partici-
de mão-de-obra possam ser ofereci- conseguirem atingir resultados que pação no sindicato rural e em associa-
dos localmente; (iv) a necessidade de dificilmente conseguiriam agindo ções e conselhos de suas comunida-
um número mínimo de interessados isoladamente. É lógico que a capaci- des são exemplos da contribuição de
numa comunidade para que o aces- dade de trabalhar em grupo precisa cada um para o aumento do capital
so à internet seja disponibilizado etc. ser aprimorada. Só conseguem bons social e institucional das comunida-
É imensa a lista de requerimentos de resultados os ambientes onde as três des. Por outro lado, cada um pode de-
“cooperação” exigidos na implanta- variáveis que definem os estoques mandar os serviços dessas instituições
ção dos projetos dos participantes. de capital social estão presentes: na busca interminável pelo aperfeiço-
Esta cooperação é fundamental num (i) confiança entre os pares; (ii) ci- amento ou incremento dos estoques
setor econômico onde as empresas vismo ou a obediência de determi- de capital humano – conhecimento,
são pulverizadas, como é o caso ge- nadas regras de convivência aceitas habilidades e atitudes e melhoria das
ral da agricultura, no mundo moder- socialmente; e, (iii) a capacidade de condições de saúde – que a competiti-
no de grandes escalas. É por isso que trabalhar em grupo ou a disposição vidade dos mercados está exigindo de
o produtor rural não pode mais se de formar grupos para enfrentar os cada empresa ou unidade produtiva.
isolar do contato com seus pares. problemas das respectivas comuni- Organizações formais da sociedade,
dades em vez de esperar, de forma tais como o sistema S, entre os quais
A fase II do Programa Empre- clientelista, que algum padrinho ou são particularmente importantes para
endedor Rural foi desenhada para político venha resolver o problema o setor rural o SENAR, SEBRAE e SES-
promover a necessária cooperação para a comunidade. COOP, oferecem inúmeras oportu-
entre as unidades produtivas – ou os nidades de aumento dos estoques de
produtores – do setor rural. Os parti- capitais humanos para a agricultura.
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Capítulo XV • O Projeto e as Ações Futuras

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