© 2009.
SEBRAE/PR e SENAR/PR
Todos os direitos reservados.
A produção não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação dos direitos autorais (lei nº 9.610).
O Programa Empreendedor Rural é uma parceria do SEBRAE-PR, SENAR-PR., FAEP e FETAEP.
SEBRAE PR SENAR PR
Presidente do Conselho Deliberativo Presidente do Conselho Administrativo
Jefferson Nogaroli Agide Meneguette
Diretoria Executiva Superintendência
Allan Marcelo de Campos Costa Ronei Volpi
Julio Cézar Agostini
Gerencia Técnica
Vitor Roberto Tioqueta
Elcio Chagas da Silva
Coordenação Técnica do Desenvolvimento
Gerencia Administrativa e Financeira
Unidade de Desenvolvimento
de Soluções - Educação Denise Laine Souza
Luciane Sayuri Sato Gerencia Planejamento
Márcia Valéria Paixão Henrique de Salles Gonçalves
Os direitos de reprodução são reservados aos Editores.
Organizadores: Fernando Curi Peres; Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka; José Roberto Canziani; Vania Di Addario
Guimarães; Marina Magalhães Carneiro de Oliveira.
Catalogação no Centro de Documentação, Informação Técnica e Editoração Sebrae-Pr e Senar-Pr.
O Programa Empreendedor Rural.
O programa empreendedor rural. – Curitiba : SEBRAE/PR e SENAR/PR, 2009. 3 volumes.
1. Empreendedorismo rural. 2. Administração rural. I. Peres, Fernando Curi. II. Hironaka, Giselda
Maria Fernandes Novaes. III. Canziani, José Roberto. IV. Guimarães, Vania Di Addario. V. Oliveira,
Marina Magalhães Carneiro de. VI. Título.
CDD650
CDU65.08+633.2.03
Editoração, Projeto Gráfico e Revisão de Texto
Ceolin & Lima Serviços Ltda.
Planejamento e independência
O Programa Empreendedor Rural está de cara nova. O material atualizado traz uma nova proposta de trabalho
do conteúdo dos 15 módulos, com temas interligados que impulsionam o participante na utilização dos novos
conhecimentos para o desenvolvimento do seu projeto de investimento.
Autonomia para o produtor rural. Seja na tomada de decisões, seja no planejamento de sua atividade. Este é o
foco do Programa e para isso ele foi remodelado.
Da experiência de cinco anos em campo, surgiu a necessidade de se atingir um aprendizado mais efetivo, em
que a qualificação técnica tenha suporte no desenvolvimento humano e vice-versa.
O Empreendedor Rural foi criado para o seu público e hoje, após 650 turmas concluídas e mais de 16 mil em-
preendedores participantes, é justo dizer que estas pessoas estão ajudando a construir o Programa.
Da mesma forma, cada empreendedor descobre ao longo dos módulos que cabe a ele a utilização dos novos
conhecimentos na criação de condições mais favoráveis para a implantação de seu projeto, a começar pela mo-
bilização de pessoas que estão a sua volta, sejam familiares, funcionários ou colaboradores. Sua primeira lição é
compartilhar para construir juntos.
Não há mais espaço para amadorismo. Mas sempre haverá espaço para empreendedores rurais competentes.
A expectativa dos parceiros SENAR-PR, SEBRAE-PR, FETAEP e FAEP é que, mais uma vez, o Programa Em-
preendedor Rural seja um grande aliado para você que está recebendo este material. Aproveite a oportunidade e
conte com o Programa para ajudar na sua caminhada.
Ágide Meneguette
Presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná
Presidente do Conselho Administrativo do SENAR – Administração Regional do Estado do Paraná
Transformação no campo
O Empreendedor Rural é uma parceria de sucesso, um modelo para o Brasil. O programa, fruto do trabalho do
SEBRAE/PR e do SENAR/PR, virou realidade no Paraná e também em 24 estados brasileiros e no Distrito Federal.
É uma experiência que tem transformado a realidade no campo.
Em todo o País, perto de 8,7 mil produtores já passaram pelo Empreendedor Rural. De 2007 para 2008, o nú-
mero de turmas saltou de 95 para 291. No Paraná, em 2008, foi executado em 311 dos 399 municípios. Foram
cerca de 17 mil produtores rurais envolvidos, que deram um novo rumo para suas propriedades.
Os números mostram que os produtores rurais estão cada vez mais profissionais, mais conscientes quanto à
necessidade de formação de lideranças fortes e mais preocupados com a gestão de suas propriedades rurais. Para
o SEBRAE/PR, essa mudança é fundamental.
O produtor tem que ser visto como um empreendedor, que precisa saber administrar sua propriedade, calcular
os custos de seus processos produtivos e ter uma visão de sua atividade frente a um mercado globalizado. O SE-
BRAE/PR, que aposta no desenvolvimento do Paraná, é parceiro nessa empreitada.
Para o SEBRAE/PR, a inovação, por exemplo, é uma condição essencial para o desenvolvimento do empreen-
dedorismo. No meio rural, uma maneira de conquistar novos mercados, diversificar a produção, investir em novos
métodos e ganhar produtividade.
Que esta publicação, sirva como uma ferramenta de aprendizado!
Allan Marcelo de Campos Costa
Diretor-superintendente do SEBRAE/PR
Apresentação
A atualização e aprimoramento do Programa Empreendedor Rural - PER (SENAR/PR e SEBRAE/PR) nasceu
das necessidades identificadas, a partir da experiência desenvolvida durante os cinco anos de sua implantação no
Paraná, e mais recentemente, em outros 24 estados da Federação e Distrito Federal.
Sabemos que o sucesso do Programa se deve ao que ocorre nos encontros e nas vidas de cada participante. E
não temos a pretensão de reproduzir o movimento vivo que acontece no campo. Porém, com essa publicação, em
três volumes, pretendemos fornecer textos que abram “janelas” para ampliar o olhar de cada leitor participante
sobre diversos temas que são abordados ao longo dos encontros.
Trazemos em 15 capítulos, divididos em dois volumes, informações sobre os temas que serão trabalhados du-
rante o Empreendedor Rural, para que o produtor rural que quer participar do Programa conheça um pouco mais o
que será abordado. O terceiro volume é um guia para auxiliá-lo na elaboração dos projetos, com orientações sobre
como fazer um diagnóstico de sua propriedade rural e conhecer melhor o mercado, o que facilitará na elaboração
de um plano de ação. Por fim, oferecemos um caderno de campo para a anotação de conteúdos e de reflexões e
aprendizagens ao longo do Programa.
Desejamos que todos os participantes leiam os textos desta publicação e discutam, em sala de aula e ou fora
dela, os seus conteúdos. São, em grande parte, diferentes do que a literatura e a imprensa apresentam em análises
sobre o rural no Brasil. Uma das principais diferenças é a análise de que existe uma postura antiempresarial e an-
tirrural que ainda prevalece em nossa sociedade, trazendo a percepção de que a posse da terra no país continua
sendo organizada em moldes feudais, mesmo nos dias de hoje. Ao contrário, em nossa visão, o setor rural brasi-
leiro está totalmente voltado à eficiência dos mercados.
Entendemos que ainda serão necessárias muitas pesquisas e novas publicações, além das visões estruturalistas
que ainda prevalecem em nossa sociedade, para que o viés antirrural possa ser superado no Brasil. Nesses textos
acreditamos contribuir com uma pequena parcela para disseminar essa nova forma de compreender o setor.
Sobre os Autores:
Fernando Curi Peres: PHD em Economia pela Ohio State University (EUA) e professor titular da Universidade de
São Paulo (USP)
Vania Di Addario Guimarães: Doutora em Economia Aplicada pela Universidade de São Paulo (ESALQ/USP) e
professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR)
José Roberto Canziani: Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de São Paulo (ESALQ/USP) e professor
da Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka: Doutora em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e professo-
ra associada desta mesma universidade.
Programa Empreendedor Rural – Volume I
> O Empresário Rural e suas competências
> A Economia e a Renda Nacional
> Especificidades do Setor Agropecuário
> A Família e a Propriedade Rural
> Desenvolvimento Humano e Organizacional
> Planejamento Participativo
> Globalização e Políticas Econômicas
Programa Empreendedor Rural – Volume II
> Cadeias Agroindustriais
> Estratégias de Comercialização
> Instituições da Agropecuária
> Sistema Jurídico e Legislação Agrária
> Setor Rural e o Meio Ambiente
> Administração da Empresa Rural
> O Projeto e as Ações Futuras
Programa Empreendedor Rural – Elaboração e Análise de Projetos
A Situação Atual da Empresa e o Plano Estratégico
> Introdução
> Diagnóstico da empresa
> Planejamento estratégico da empresa
> Estudos de casos – primeira parte
Plano de negócios: Estudo de Mercado, Engenharia do Projeto e Avaliações
> Estudo de mercado
> Engenharia do projeto
> Avaliações
> Estudos de casos – segunda parte
> Roteiro para a elaboração de projetos
SUMÁRIO
12 O Programa Empreendedor Rural
26 O Empresário Rural e suas Competências
46 A Economia e a Renda Nacional
68 Especificidades do Setor Agropecuário
88 A Família e a Propriedade Rural
170 Desenvolvimento Humano e Organizacional
218 Planejamento Participativo
234 Globalização e Políticas Econômicas
Cleverson Bege
Eixo de Aprendizagem do
Programa Empreendedor Rural
O Programa
Empreendedor
Rural
O
Desenvolvimento O Setor Rural
Empreendedor
Humano e e o Meio
Rural e suas
Empresarial Ambiente
Competências
Instituições A Administração
Planejamento
A Economia e a Cadeias da da Empresa
Participativo
RendaNacional Agroindustriais Agropecuária Rural
Implantação
Diagnóstico Planejamento Estudo de Engenharia
Avaliações
ou Inventário Estratégico Mercado do Projeto
Especificidades Globalização Estratégias de Sistema O Projeto e as
do Setor Rural e Políticas Comercialização Jurídico e Ações Futuras
Econômicas Legislação
A Família e a Agrária
Propriedade
Rural
O Programa
Empreendedor Rural
Vânia Di Addario Guimarães • Fernando Curi Peres • José Roberto Canziani • Giselda Maria Fernandes Hironaka
O Programa Empreendedor Ru- entende que o participante necessita Portanto, a eficiência empresarial é
ral tem por objetivo principal opor- compreender as inter-relações entre o caminho para a otimização do uso
tunizar ao participante, uma visão sua atividade e os demais setores da dos recursos de uma sociedade.
mais clara de seu papel na socieda- economia e o que a sociedade espe-
de brasileira, para que ele possa me- ra dele. A sustentabilidade necessária às
lhorar a sua qualidade de vida e de unidades de negócio rurais implica
sua família. Para tanto, o programa A sociedade espera que ele alo- na eficiência da empresa em diver-
que seus recursos na forma mais efi- sas dimensões: (i) a econômica, que
ciente para que o bem-estar social corresponde a uma geração de renda
possa ser maximizado. À medida ou lucro positivo para o empresário
que ele compreende seu papel e e sua família. Os outros fatores pri-
usa seus recursos nesta forma mais mários de produção, especialmente
eficiente, sua autoestima é corres- o capital humano devem, segundo
pondentemente melhorada. É pos- esta visão, ser adequadamente remu-
sível demonstrar que, em situações nerados para garantir a sustentabili-
competitivas, como é o caso das dade social de todos os envolvidos
atividades rurais, o maior bem-estar nas atividades rurais. (ii) a ambien-
social é conseguido quando cada tal, que corresponde ao uso de re-
empresário busca maximizar os re- cursos naturais de forma a garantir
tornos econômicos do seu negócio. seu uso pelas gerações futuras. (iii)
Cleverson Beje
12 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
da qualidade dos produtos da agricultura, no sentido, de garantir aos con- Anotações
sumidores, alimentos e fibras saudáveis e produzidos com a menor agressão
ambiental possível.
O público alvo do Programa Empreendedor Rural é a pessoa ligada ao
meio rural – proprietários ou arrendatários de terras, parceiros, suas famí-
lias, trabalhadores rurais, prestadores de serviço para o meio rural (ofici-
nas de tratores, por exemplo) e outras pessoas cujas atividades econômicas
mantêm vínculo com o setor rural. Embora desenhado para este público,
o Programa pode ser útil para empreendedores de outros setores já que as
atividades rurais necessitam de uma performance de mercado igual a qual-
quer outra atividade da economia. No entanto, a participação no Programa,
de pessoas não ligadas ao meio rural reduzirá seu aproveitamento uma vez
que o Programa não foi desenhado somente para melhorar sua competência
empresarial, mas também para que ele tenha uma visão mais clara de seu
papel e do setor na sociedade.
O PER tem por objetivo oportunizar o aprimoramento de competências
empresariais em cada participante sem impor um resultado homogêneo ou
pré-estabelecido. Assim, indivíduos que têm maior grau de conhecimento
ou experiência, por partirem de um patamar mais alto que outros, podem
aproveitar mais. Espera-se que todos cresçam, embora isto não implique na
padronização de conhecimento. A característica específica da agricultura
de trabalhar em mercados que tendem para competição perfeita estimula a
Capítulo I • O Programa Empreendedor Rural 13
cooperação entre os participantes. Esse fato permite o compartilhamento de A metodologia educacional do
competências entre eles. Programa envolve o aprendizado
a partir de experiências vivenciais,
Como discutido acima, o aprimoramento de competências empresariais que permite a construção de conhe-
dos produtores rurais brasileiros é uma forma de otimizar o uso dos recursos cimentos valendo-se de elementos
produtivos do indivíduo e da sociedade, contribuindo para o desenvolvi- da cultura, valores e conhecimentos
mento sustentável das unidades de negócio e do conjunto da economia. anteriores dos participantes. “Apren-
der fazendo” é o lema do Programa,
Aprimorar as competências empresariais é uma questão ainda aberta o que requer do participante uma
no âmbito da ciência, ou seja, sem uma metodologia amplamente aceita postura pró-ativa de aprendizagem,
de como fazê-lo. A proposta do Programa Empreendedor Rural é de que ao contrário dos modos tradicionais
este aprimoramento se dá por meio da prática e análise de experiências de ensino nos quais o aluno recebe,
empreendedoras. Em termos concretos, o participante analisa e pratica um de forma passiva, o conhecimento
negócio para si. O Programa oportuniza ao participante refletir sobre si, em que é transmitido pelo instrutor.
que situação se encontra e planejar para onde quer ir e como chegar lá.
Os projetos são elaborados pelos
O eixo condutor deste processo é a elaboração e análise, pelo partici- participantes e para os participantes
pante, de um projeto de investimento de capital. Duas razões sustentam esta e não para serem entregues ao ins-
escolha. Uma delas é que, para o aprendizado, é necessário um instrumento trutor como um “trabalho” de sala
motivador. E o projeto é este instrumento, pois se trata da análise do negó- de aula. Pretende-se que os partici-
cio do participante feito por ele e para ele. Esta é uma razão validada pela pantes, de forma voluntária, compar-
pedagogia moderna. A outra é que este é um dos mais eficientes instrumen- tilhem com o grupo o trabalho que
tos da ciência da administração para o gerenciamento eficiente dos fatores realiza a fim de permitir o aprendi-
de produção comandados pela empresa. zado de todos a partir das situações
14 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
individuais. Da mesma forma, no – que já sabe e ensina – na elabo- Anotações
caso da promoção de algum tipo de ração de diagnósticos e planos de
concurso de seleção dos melhores negócios de infinitas combinações
projetos elaborados pelas turmas, a de posse e controle de fatores de
decisão de inscrever os trabalhos é produção e de negócios correspon-
de responsabilidade do participante. dentes às mais diversas atividades
Em diversos momentos são realiza- econômicas no agronegócio.
das assembléias nos quais as dúvi-
das serão discutidas por todos. Este O eixo de aprendizagem do
procedimento é rico para o processo participante é a elaboração do seu
de aprendizagem uma vez que a he- projeto de investimento (página 08),
terogeneidade da turma garante uma composto de cinco fases: diagnósti-
diversidade de dúvidas que enrique- co, planejamento estratégico, estudo
cerá a todos. de mercado, engenharia do projeto
e avaliações. Note que se trata de
O instrutor é, acima de tudo, uma seta, cuja ponta é a implanta-
um facilitador do processo de ção do projeto, desde que o mesmo
aprendizagem e não um “professor” se mostre viável. A implantação será
tradicional. Além das razões meto- realizada pelo participante, sem a
dológicas que caracterizam o PER, interferência do programa. A partir
fazendo o instrutor aprender junto deste ponto, ele caminhará por si,
com o participante, seria humana- realizando novos projetos para seu
mente impossível para qualquer negócio, uma vez que o programa
pessoa ser um professor tradicional lhe permite aprender a fazer projetos
Capítulo I • O Programa Empreendedor Rural 15
e tomar decisões sobre seu negócio. çar o objetivo maior do Programa que muitas vezes o participante não
que é oportunizar ao participante ter tem oportunidade de refletir e que
O programa está estruturado em uma visão mais clara de seu papel o auxiliam a ampliar sua visão do
módulos, correspondentes a cada na sociedade brasileira, para que ele mundo e de si.
encontro do grupo com o facilitador. possa melhorar a sua qualidade de
Em todos os módulos o assunto pro- vida e de sua família. Não se espe- Por operarem em mercados que
jetos será tratado, de acordo com a ra que o participante se torne espe- tendem à concorrência perfeita, al-
fase de elaboração do mesmo. Além cialista em economia ou em direito, guns objetivos que o empresário in-
disso, cada módulo tem um tema a mas que tenha algum conhecimento dividual precisa alcançar para atin-
ser tratado com o grupo. Estes temas sobre estes assuntos que o afetam gir seu objetivo maior de qualidade
foram pensados no sentido de con- diretamente na sua vida diária. Mais de vida e seu papel na sociedade,
tribuir para o bom desenvolvimento do que “transmitir” conhecimento ele precisa da colaboração de outras
do projeto, mas também para alcan- acadêmico, os temas propostos são pessoas. Há diversos exemplos de si-
como “abrir janelas” sobre assuntos tuações em que o produtor individu-
al tem maior dificuldade, ou maiores
custos, ou menores lucros nas quais
ele age sozinho, comparativamente
a ações coletivas. A existência das
cooperativas é um destes exemplos,
nas quais os produtores, em conjun-
to, procuram obter maiores preços
para seus produtos e menores preços
na compra de um fator de produção.
Com o mesmo objetivo, formam-se
Cleverson Beje
16 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
associações tanto de grandes produtores como se encontra na região Cen- Anotações
tro-Oeste quanto de pequenos produtores da região sul. No Centro-Oeste os
grandes produtores associam-se, em condomínios, para compras em comum
e mesmo para vendas em comum. Na região Sul, são comuns associações
de pequenos produtores que vendem de maneira coletiva a sua produção
de leite, obtendo ágio de preço por fornecerem um volume maior do que
cada um individualmente. Enfim, são formas de ganhar escala, reduzindo
custos e elevando receitas.
No entanto, esta colaboração não ocorre de forma espontânea, mas
exige investimento. O desenvolvimento econômico e social de qualquer
indivíduo, município, região ou país, depende da quantidade e da quali-
dade dos estoques de capital que o indivíduo, município, região ou país
detém. A ação coletiva depende de um destes capitais, denominado ca-
pital social, que é o tecido que agrega as pessoas na busca de soluções
conjuntas. O texto a seguir é um trecho de uma Dissertação de Mestrado
defendida na Faculdade de Direito da USP em abril de 20081 e discute este
assunto: É importante destacar que o Programa Empreendedor Rural procu-
ra ampliar o capital humano das pessoas, mas também o capital social de
seu público alvo.
“Ao longo da história recente do mundo ocidental, as visões sobre o
1
Peres, Fernando C. Uma visão interdisciplinar acerca da função social do contrato. São Paulo: Faculdade de Dire-
ito da USP, 2008 (Dissertação de Mestrado).
Capítulo I • O Programa Empreendedor Rural 17
desenvolvimento das economias vamente, um determinante de altas taxas de desenvolvimento econômico.
têm enfatizado o papel fundamen- Disponibilidades de outros estoques de capitais passaram a ser vistos como
tal de diferentes fatores primários determinantes do desenvolvimento das economias.
de produção. Inicialmente, acredi-
tava-se que só se desenvolveriam Os estoques de capital físico disponíveis em uma economia foram, por
sociedades que tivessem altos esto- muitas décadas, considerados os determinantes da capacidade de desenvol-
ques de capital natural ou recursos vimento das economias. Este foi especialmente o caso logo após a Segunda
naturais. Até a época Malthusiana, Guerra Mundial. Os Estados Unidos ofereceram à Europa e ao Japão a possi-
acreditava-se que só o controle da bilidade de reconstruírem parte importante de seus respectivos estoques de
natalidade poderia impedir a fome capitais, que tinham sido destruídos durante a guerra, com o chamado Pla-
generalizada que se seguiria ao fato no Marshall. As economias destes países voltaram a trilhar os caminhos do
de a humanidade crescer a taxas ge- desenvolvimento. O Banco Mundial (Bird) e outras instituições voltadas ao
ométricas, enquanto a agricultura só desenvolvimento das economias passaram a conceder empréstimos na pres-
conseguiria crescer a taxas aritméti- suposição de que era a falta de infra-estrutura que limitava o crescimento
cas. A incorporação dos princípios das economias, portanto o seu desenvolvimento. Os resultados alcançados
científicos às técnicas da agricultura na maioria dos países da América Latina e da África mostraram que esse ca-
permitiu romper com aquela previ- minho não era, no entanto, suficiente para colocar essas economias na rota
são pessimista prevalente. Alguns desejada. Outros estoques de capitais foram sugeridos, na literatura, como
casos de grande desenvolvimento determinantes do desenvolvimento.
em economias assentadas em bases
naturais relativamente pobres, como Com a pouca resposta de algumas economias aos estímulos dados pelos
o Japão ou a Holanda, mostram que investimentos em infra-estrutura, o melhor funcionamento dos mercados
a abundância relativa deste fator pri- financeiros passou a ser encarado como o fator determinante na capacidade
mário de produção não é, definiti- de desenvolvimento das economias. Igualar as relações entre o valor do pro-
18 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
duto marginal e o preço do respec- trabalhos de Schultz e, posteriormen- Anotações
tivo fator,2 para todos os mercados te, de G. Becker, de Chicago,3 apon-
de uma economia, passou a ser visto taram para a imprescindível necessi-
como o objetivo político maior, o dade de investir no capital humano
qual seria capaz de colocá-la na rota – competência (conhecimento, ha-
do desenvolvimento econômico. Era bilidade e atitude) e saúde das pes-
preciso eliminar a segmentação dos soas – como condição para permitir
mercados financeiros. Os programas o desenvolvimento das economias,
de crédito subsidiado do Brasil, por especialmente na situação de rápida
exemplo, foram bastante criticados. transformação tecnológica que pas-
A bola da vez ficou com os merca- sou a caracterizar o mundo contem-
dos financeiros, mas o tão almejado porâneo. Acredita-se que os pesados
desenvolvimento econômico não investimentos em educação feitos,
aconteceu. Um outro estoque de principalmente, pelos países asiáti-
capital foi sugerido como condicio- cos tenham sido determinantes para
nador da capacidade de desenvolvi- permitir as altas taxas de desenvol-
mento de um país. vimento, que ostentam desde então.
Mas a queda do “Muro de Berlin”,
Os estoques de capital humano indicação simbólica da constatação
passaram, desde a década de 1950, do fracasso da experiência econô-
a serem vistos como determinantes mica do socialismo real, mostrou
3
Ver os trabalhos de SCHULTZ, T. W. Transforming tra-
do desenvolvimento econômico. Os ditional agriculture. New Haven: Yale University Press,
1964; SCHULTZ, T. W. Economic growth and agricul-
2
Ver o trabalho de SHAW, E. S. Financial deepening in ture. New York: MaGraw Hill, 1968; BECKER, G. S. Hu-
economic development. New York: Oxford University man capital: a theoretical and empirical analysis, with
Press, 1973. special reference to education. Chicago: University of
Chicago Press, 1993.
Capítulo I • O Programa Empreendedor Rural 19
CAPITAL CAPITAL
FÍSICO FINANCEIRO
que outro estoque de capital é fun- nomias. Esse algo foi definido, de um
damental na criação das condições lado, como o baixo estoque de capi-
básicas que permitem o crescimento tal social, medido por variáveis indi-
CAPITAL CAPITAL
sustentado das economias. cadoras (i) da “confiança” existente NATURAL HUMANO
entre as pessoas, nas comunidades;
Com o fracasso econômico da (ii) pela capacidade das pessoas de CAPITAL
proposta marxista, acreditava-se, nos “formarem grupos” para resolverem SOCIAL Figura 1.1
meios acadêmicos, que os países que os problemas enfrentados pelas co-
antes estavam no regime da cortina munidades; e, (iii) pelo grau de “ci- A existência de altos estoques do
de ferro passariam a ser os principais vismo” ou pela capacidade das po- “Capital Social ou Institucional” pas-
recebedores dos investimentos de pulações de viver de acordo com as sou, em duas visões convergentes,4
capitais físicos e financeiros dos pa- normas aceitas pelas comunidades. a ser encarada, mais recentemente,
íses desenvolvidos, em detrimento Por outro lado, ele foi definido como como condição fundamental para o
dos outros emergentes, já que aque- deficiências institucionais da econo- desenvolvimento econômico. Basi-
les tinham bons estoques de capitais mia, no sentido de mecanismos que camente, o grupo da nova visão ins-
humanos. Como havia uma relativa permitissem o uso efetivo e eficiente titucional tem avançado bastante no
abundância de capitais físicos e fi- dos contratos no ordenamento das estudo da interface entre o Direito e
4
nanceiros nos países desenvolvidos, atividades econômicas. Como indi- PUTNAM, R. D., LEONARDI. R.; NANETTI, R.Y.
Making democracy work: civic traditions in modern
Italy. Princeton University Press, 1993; COLEMAN, J. S.
eles poderiam aumentar os respecti- cado na Figura 1.1, os estoques de Foundations of social theory. Harvard University Press,
1994, desenvolveram trabalhos teóricos e práticos
vos estoques do “segundo mundo”, capital social ou institucional passa- usando o conceito de “Capital Social” e BUCHANAN,
J. Cost and choice: an inquiry in economic theory.
permitindo a estes se desenvolverem ram a ser o quinto vértice do chama- University of Chicago Press, 1969 (Collected Works
of James M. Buchanan, v. 6); COASE, R. The nature
rapidamente. Os resultados foram do pentágono do desenvolvimento. of the firm. In readings in price theory. STIGLER, J.;
BOULDING, K. (Ed.). Chicago: Irwin, 1952; NORTH,
frustrantes! Faltava algo para permi- D. Institutions, Institutional Change and Economic
Performance, 1990, são expoentes importantes da
tir o desenvolvimento daquelas eco- chamada Nova Economia Institucional.
20 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
a Economia, trazendo importantes contribuições5 a esta interação analítica Anotações
fundamental para o desenvolvimento econômico. Na ausência de altos es-
toques de capital social ou institucional, grupos alternativos – mafiosos, ter-
roristas, traficantes, contraventores ou outros quaisquer – assumem o papel
de ordenadores das relações sociais, em substituição aos governos, como
forma organizacional dos Estados. Isso acontece, em geral, em alguns países
recém-saídos de regimes ditatoriais ou autoritários, por exemplo, regimes
que, por necessidade fundamental de sobrevivência, precisaram destruir ou
reduzir importantes componentes dos seus estoques de capitais sociais. A
confiança entre as pessoas e, conseqüentemente, a capacidade de os cida-
dãos formarem grupos (ou instituições) para enfrentar os problemas com
que se deparam as comunidades, ficam prejudicadas. Os ditadores não po-
dem permitir essas iniciativas; o estado ditatorial precisa prover todas as
iniciativas. Dessa forma, pode-se explicar por que aquelas economias do se-
gundo mundo não se desenvolveram como o esperado, mesmo recebendo
consideráveis investimentos para aumentar seus estoques de capitais físicos
e financeiros.
Em recente livro de memórias, Alan Greenspan, o poderoso condutor
da política monetária dos Estados Unidos por quase duas décadas, quando
conviveu com diversos governos, relata o que ele chama de condições que
influenciam o crescimento global, no sentido de que vale para todas as eco-
5
Ver, nesse sentido: ZILBERSZTAJN, D.; SZTAJN, R. (Org.). Direito & economia: análise econômica do direito e das
organizações. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.
Capítulo I • O Programa Empreendedor Rural 21
nomias. Ele lista três importantes características gerais:
“1) a extensão da competição interna e, sobretudo para os países em
desenvolvimento, a extensão da abertura do país para o comércio e sua
integração com o resto do mundo; 2) a qualidade das instituições do país,
que contribuem para o funcionamento da economia; e 3) o sucesso de seus
formuladores de políticas na implementação das medidas necessárias à es-
tabilidade macroeconômica”.6
Em seguida, ele relata sua crença profunda no papel das instituições como
condicionadoras do desenvolvimento das sociedades:
“No entanto, não obstante o aparente consenso geral de que essas três
condições são essenciais para a prosperidade, acho que, caso se fizesse
uma pesquisa entre especialistas em desenvolvimento econômico, muitos
deles as apresentariam em diferentes ordens de importância e provavelmen-
te também enfatizariam diversos aspectos de cada uma. Minha experiência
me leva a considerar a garantia do direito de propriedade pelo Estado a
principal instituição promotora do crescimento, pois, sem essa certeza, de
pouco adiantariam o livre-comércio, os enormes benefícios da competição
Cleverson Beje
e as vantagens comparativas”.7
6
GREENSPAN, Alan A Era da Turbulência: aventuras em um novo mundo Rio de Janeiro: Elsevier, 2008, tradução
de Afonso Celso da Cunha Serra, 2008 p. 242-3.
7
GREENSPAN, Alan Obra citada, Página p. 243.
22 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
GREENSPAN vai além, dizendo, enfaticamente que: Anotações
Ao longo dos anos, tem sido impressionante ver os efeitos de até pe-
quenas doses de propriedade privada. Quando a China concedeu formas
altamente diluídas de propriedade aos residentes de áreas rurais que cul-
tivavam lotes pertencentes à comunidade, a produtividade agrícola e os
padrões de vida ostentaram aumentos substanciais. Estigma extremamente
comprometedor para o planejamento central da União Soviética era o fato
de grande parte de suas colheitas ser oriunda de terras privadas que repre-
sentavam apenas pequena fração das terras agricultáveis.
Se a vida exige propriedades físicas – alimentos, roupas, moradias – as
pessoas precisam de proteção legal para usar e dispor de tais bens, sem a
ameaça de confisco arbitrário pelo Estado ou pela turba nas ruas”.8
São muito comuns análises que mostram o insucesso de negócios coo-
perativos sendo atribuídos ao “espírito individualista” dos seus sócios. Esta
é uma análise inconsistente, ou errada, da performance de cooperativas em
economias de mercado. Na economia neoclássica hoje prevalecente assu-
me-se, como pressuposição fundamental, que os indivíduos procuram seu
bem-estar ou o bem-estar de sua família e a de seus entes queridos. Eles são,
portanto, individuais! O entendimento e aceitação desta pressuposição bá-
sica são importantes conquistas da humanidade desde o “iluminismo”, que
8
GREENSPAN, Alan. Obra citada, Página 243.
Capítulo I • O Programa Empreendedor Rural 23
iniciou a incorporação do conheci- desenvolver sobremaneira a partir da aceitação da hipótese realista de que
mento científico na organização e as pessoas agem por interesse privado. Isto não quer dizer que, por inteli-
gestão dos grupos sociais. Até o sé- gência, não saibam que, para que o indivíduo e seus entes queridos possam
culo XVII o desenho de organizações desfrutar da qualidade de vida correspondente a seu esforço de trabalho e
sociais se baseava na pressuposição acumulação, ele precisa agir em sociedade de acordo com princípios éticos
religiosa de que indivíduos agiam de convivência e precisa, muitas vezes, cooperar em vez de competir, para
levados somente por cavalheirismo, atingir determinados objetivos que as forças de mercado não atingem por
honra e, acima de tudo, como forma sua própria dinâmica. A procura por escalas cada vez maiores nos proces-
de louvar a Deus. A ciência pôde se sos produtivos tem sido uma dessas características da economia moderna
Cleverson Beje
24 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
que podem levar anos para serem conseguidas se deixadas às próprias for- Anotações
ças de mercado. O trabalho em grupo entre agricultores é um caso típico
de exigência de cooperação para aproveitamento de economias de escala.
Os agricultores precisam cooperar para atingir seus objetivos individuais
de propiciar bem-estar a seus entes queridos ou famílias. Levar o agricultor
a entender isso é questão de educação ou, pelo menos, requer processos
educacionais.”
Capítulo I • O Programa Empreendedor Rural 25
O Empresário Rural e
suas Competências
Fernando Curi Peres
O recurso humano é considera- geral e ao empresário rural em parti- conjunto de valores que o caracteri-
do o mais importante estoque de ca- cular, como forma de justificar as po- za. Erich Fromm dizia que “todos os
pital comandado por uma empresa. líticas de extração dos recursos huma- valores referem-se a uma determina-
Ele reflete as competências – conhe- nos e financeiros do setor rural para da cultura.”1 Assim, para entender
cimentos, habilidades e atitudes – e financiar e tripular a industrialização porquê a sociedade brasileira apre-
a saúde das pessoas que o formam. e urbanização do país; na segunda, senta um alto grau de hostilidade
Este capítulo mostra como alguns fa- discute as implicações, para o geren- para com seus empreendedores ru-
tores históricos explicam os valores ciamento dos recursos humanos nas rais, é preciso buscar as origens des-
antirrurais da sociedade brasileira e empresas do agro, da existência des- se comportamento coletivo. Existem
as conseqüências na autoestima da ses valores antirrurais; na terceira, su- muitas formas de se contar a história
população rural, prejudicando a ati- mariza as implicações derivadas dos de um agrupamento humano qual-
tude do empresário, de sua família e fatos históricos mencionados. quer. É preciso fazer cortes tempo-
dos trabalhadores das empresas; dis- rais para que se possa trabalhar com
cute, também, a característica cen- um horizonte finito e suficientemen-
tralizadora do empresário rural e as A origem dos valores te documentado para que a análise
implicações gerenciais deste tipo de antirrurais da tenha algum valor científico. Neste
comportamento. Está organizado em sociedade brasileira. capítulo, o corte é feito a partir da
três partes: na primeira, é mostrado década dos anos vinte do Século
como a sociedade desenvolveu valo- Cada grupo social apresenta, nas XX, período muito rico em aconte-
res hostis ao modo de vida rural em diversas épocas de sua história, um 1 “all values are only relative to a given culture”.
26 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
cimentos que contribuíram para a dução de bens de consumo não Anotações
escolha de um determinado modelo duráveis e de um conjunto restrito
de desenvolvimento para a socieda- de ferramentas utilizadas, princi-
de brasileira. palmente, na agricultura. Naquele
tempo, a economia brasileira tinha
A história oficial é, em geral, uma renda da agropecuária que era
aquela contada pelos ganhadores e, responsável por quase 60% do PIB
só esporadicamente, vista pelo lado nacional. A população era, também,
dos perdedores. O setor rural da eco- fortemente rural. Os dados apontam
nomia brasileira foi o grande perde- para quase 80% da população vi-
dor do chamado modelo brasileiro vendo da agricultura.
de desenvolvimento, que começou
com o fim da República Velha. A O sistema de representação polí-
origem dos atuais valores antirrurais tica era particularmente interessante
brasileiros pode ser buscada na de- no período da Velha República. Em
cisão de transformar, rapidamente, geral, votava nas eleições dos diver-
um país predominantemente agrário sos níveis de governo – municipal,
do início do século XX, numa socie- estadual e federal – pouco mais de
dade urbana e industrializada. Até 2% da população acima de 18 anos.
1930, início da Nova República, a Houve só um caso, de 1989 até 1930,
sociedade brasileira tinha caracte- em que votou cerca de 5% da popu-
rísticas fundamentalmente agrárias, lação. Além disso, a literatura con-
com um setor industrial pouco im- corda no fato da lisura do processo
portante e caracterizado pela pro- eleitoral deixar muito a desejar. São
Capítulo II • O Empresário Rural e suas Competências 27
famosos, e até mesmo anedóticos, alternância dos escolhidos para ocu- nos, o início dos anos oitenta. Al-
os casos que
q relatam a corrupção
pç parem a Presidência da República, gumas visões da década merecem
durante a votação e na apuração dos entre os indicados pelos Partidos Re- menção. Primeiro, a Semana de Arte
resultados eleitorais no período. A publicanos dos estados de São Pau- Moderna de 1922 pode ser vista
lo e Minas Gerais, ficou conhecida como um grito da intelectualidade
como a política do café-com-leite, do país no sentido da modernida-
eje
em referência às vantagens produti- de. O conceito incluía a bandeira
nBso
vas desses dois estados. Os aconteci- da urbanização e, principalmente,
ver
Cle
mentos da década de vinte, que cul- da industrialização como condições
minaram com a Revolução de 1930, necessárias para o desenvolvimento
mudaram os rumos da sociedade e da sociedade. Estas percepções con-
da nação brasileira. tinuam vivas na sociedade brasileira
atual.
A década de vinte, do século
passado, foi particularmente rica no Ainda na década de vinte, os
amadurecimento de visões que vie- acontecimentos militares, de 1924
ram a permitir o desenho do mode- em São Paulo, e, posteriormente, a
lo brasileiro de Coluna Prestes que começou no Rio
d e s e n v o l v i - Grande do Sul, resultaram na difu-
mento, segui- são, especialmente entre a jovem ofi-
do pelos cialidade do Exército e da Marinha,
diferentes de ideais e orientações políticas que
g o v e r n o s vieram a ser conhecidas como o Mo-
até, pelo me- vimento Tenentista. Este movimento
28 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
teve importante papel no desenho do movimento. Ele foi politicamente Anotações
do arcabouço político e ideológico muito hábil ao abraçar aquelas ban-
que moldou a orientação política do deiras e usá-las como base de sua
país, desde então. Algumas bandei- sustentação política. Getúlio sinali-
ras ou objetivos compunham o ideá- zou para a população sua intenção
rio político do tenentismo para a so- de melhorar a representação política
ciedade brasileira: (i) aprimoramento do país ao permitir o voto feminino
democrático, com a universalização (meta do voto universal), logo nos
do voto; (ii) a urbanização da socie- primeiros anos depois que tomou o
dade brasileira e a industrialização poder. No entanto, o efetivo exercí-
da economia; (iii) o aprimoramento cio do voto, pela massa da popula-
moral da condução da coisa pública ção, foi uma história bem diferente.
ou a eliminação da corrupção; (iv) A urbanização e industrialização do
a integridade territorial do Brasil; e país foram bandeiras particularmen-
(v) a exaltação do nacionalismo em te interessantes nesta análise. Como
diversos aspectos da organização so- desenvolver as cidades e criar uma
cial do país. Coube a Getúlio Vargas economia industrializada no am-
a implantação de políticas destina- biente fortemente agrário da econo-
das a alcançar esses ideais. mia da época?
Com a vitória da Revolução de As alternativas para a industria-
1930, Getúlio Vargas cooptou o te- lização e urbanização da economia
nentismo e tratou de implantar polí- brasileira permitiam duas soluções:
ticas destinadas a alcançar os ideais (i) a importação de dois excedentes
Capítulo II • O Empresário Rural e suas Competências 29
– populações e poupanças – na for- industrialização vieram dos respec- teriam que ser tirados, ou extorqui-
ma de abertura à imigração e a acei- tivos setores rurais das economias. dos, do setor rural por políticas espe-
tação de empréstimos e de investi- No Brasil, no entanto, uma praga cialmente desenhadas para esse fim.
mentos do exterior; ou (ii) extrair do que secularmente afligia a economia
setor rural as populações e recursos impedia a transferência, via meca- Getúlio Vargas foi um exímio
financeiros necessários ao processo. nismos de mercado, dos excedentes político no sentido de divisar for-
A característica “nacionalista” do financeiros do campo para financiar mas eficientes de atingir as metas
movimento tenentista impediu a op- a industrialização. Trata-se da praga propostas ao mesmo tempo em que
ção pela primeira alternativa. Dizia- inflacionária. Graças a ela, o sistema construía um sistema de sustentação
se, na época, e durante a maior parte bancário e o insipiente mercado de política muito forte para ele e seus
do período em que predominavam os capitais era incompetente para trans- seguidores. Ele foi muito competente
valores do tenentismo, que o capital ferir os recursos entre os dois setores. no desenho de políticas destinadas
estrangeiro alienaria a soberania na- As poupanças dos agricultores não a atingirem algumas das metas do
cional. De fato, a aversão ao capital eram depositadas no sistema bancá- Tenentismo, especialmente a urba-
estrangeiro aparece, explicitamente, rio para serem utilizadas onde seus nização e industrialização do país.
nos principais documentos políticos retornos fossem maiores. Por causa Pode-se mencionar algumas das suas
do período Getulista. Desta forma, da inflação – e na ausência de me- políticas que foram, posteriormente,
para tripular a industrialização e ur- canismos de correção monetária – as seguidas por diferentes governos,
banização do país os necessários re- poupanças rurais eram aplicadas em sob influência das idéias do Tenen-
cursos humanos e financeiros teriam ativos fixos ou bens reais, especial- tismo. Algumas políticas econômi-
que vir do setor rural do Brasil. mente os de maior liquidez, em vez cas, a política de seguridade social e
de serem depreciados, pela inflação, a política educacional são exemplos
Na Europa e na América do Nor- no sistema financeiro pouco desen- que mostram a convergência de sua
te os recursos necessários para a volvido da época. Assim, os recursos orientação para atingir aquela meta.
30 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Entre as políticas econômicas, tura. Desta forma, recursos desse se- Anotações
desenhadas por Getúlio ou caracte- tor foram extraídos para financiar a
rísticas da influência tenentista, para industrialização.
extrair recursos financeiros do setor
rural e financiar a urbanização e in- A política de supervalorização
dustrialização do país, destacam-se da taxa de câmbio (US$/Unidade
as políticas de taxação das exporta- da moeda nacional, inicialmente o
ções, de supervalorização da taxa de Milreis, depois o Cruzeiro, seguido
câmbio e a de tabelamento de pre- pelo Cruzeiro Novo e por diversas
ços dos produtos do setor. A criação, outras moedas) foi, de acordo com
na década de 30, dos institutos do as pesquisas econômicas, a forma
café (IBC) e do açúcar e do álcool mais importante de transferir recur-
(IAA) foram instrumentos que permi- sos do setor rural para a industriali-
tiram uma enorme arrecadação de zação do país. Ela foi uma política
recursos para financiar a industriali- recorrente em quase todo o período
zação do país pela, também recém- de trinta até os anos oitenta do sécu-
criada, Carteira Agrícola e Industrial lo passado. (De fato, ela foi utilizada
do Banco do Brasil (CREAI). Até também na recuperação tecnológi-
então, a principal fonte de recursos ca de diversas áreas da indústria de
do Governo Federal era a taxação transformação do país na década de
das importações. Deve-se notar que noventa, no início do Plano Real).
quase toda exportação brasileira na Como a maioria das exportações do
época era composta por produtos país era de bens primários, a agricul-
primários, especialmente da agricul- tura era penalizada por políticas de
Capítulo II • O Empresário Rural e suas Competências 31
taxas de câmbio, fixadas de forma pudessem alimentar adequadamente urbanos da economia. Mas, outras
a valorizar artificialmente a moeda suas famílias. Como a indústria não políticas também contribuíram para
nacional, enquanto os importadores, conseguia pagar os salários devidos, tirar gente do setor.
principalmente os de bens de capital a agricultura era chamada a pagá-
– em especial o setor de máquinas e los pelo recebimento de preços me- A política de seguridade social
equipamentos – e de alguns insumos nores pelos seus produtos. O termo iniciada por Getúlio Vargas foi uma
estratégicos, necessários para o fun- bens de salário foi exaustivamente das maiores responsáveis pela saída
cionamento da indústria nacional, usado como justificativa para mais do homem do campo, no século pas-
eram subsidiados. Mas, outras polí- esse tipo de transferência de rendas sado. Em 1933, foi criado o primeiro
ticas econômicas ainda contribuíram entre setores da econômia. Deve-se Instituto de Aposentadoria e Pensão
para extrair, ou extorquir, recursos notar que, em certos períodos do (IAP) – Instituto de Aposentadoria e
do setor rural. horizonte analisado, quase todos os Pensão dos Marítimos (IAPM) – ao
produtos da agricultura tinham seus qual logo se seguiriam outros 15 ins-
Uma forma acintosa de extrair preços tabelados: arroz, feijão, car- titutos, todos destinados a oferecer
recursos da agricultura, para finan- nes, ovos, farinha, leite etc. Desta serviços de aposentadoria, de assis-
ciar a industrialização, foi pela polí- forma, a agricultura teve suas rendas tência médica e de assistência habi-
tica de tabelamento dos preços dos expropriadas pelas políticas econô- tacional para as diversas categorias
produtos da agropecuária. Dizia-se micas que prevaleceram no período, de trabalhadores urbanos – dos ban-
que a indústria nascente não pode- provocando o empobrecimento do cários (IAPB), dos industriários (IAPI),
ria pagar os salários requeridos e setor, em especial daquelas unidades dos comerciários (IAPC) etc. Somen-
merecidos pelos trabalhadores da produtivas que não tiveram acesso a te em 1971, o Governo Federal criou
indústria, justificando o tabelamento políticas compensatórias e, conse- uma comissão de representantes dos
dos preços dos produtos da agricul- qüentemente, incentivando a saída ministérios da área econômica, che-
tura, de forma que aqueles operários de recursos humanos para os setores fiados pelo Secretário Geral do Mi-
32 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
nistério do Trabalho, para estudar a A política educacional pública Anotações
extensão de parte daqueles benefí- do país deve ter sido a principal cau-
cios para os trabalhadores rurais do sa da migração das famílias rurais
país. Daquela comissão participou o para as cidades. O sistema público
autor deste texto na condição de re- de ensino urbano foi, durante algu-
presentante do Ministério da Agricul- mas décadas, desde os trinta, con-
tura. O Funrural foi implantado, por siderado de excelente qualidade. O
recomendação da comissão, a partir Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro,
de 1973 e passou a oferecer meio os colégios estaduais nas capitais do
salário mínimo de aposentadoria ao Brasil, os liceus nas maiores cidades
trabalhador do campo e alguma as- do Estado de São Paulo eram consi-
sistência médica. Só com a Constitui- deradas as melhores escolas do país.
ção de 1988 eles tiveram igualdade Convivendo com um bom sistema
de condições de aposentadoria e de urbano de ensino público, a escola
assistência de saúde disponível para rural apresentava características es-
os urbanos. Quanto à assistência ha- peciais que era responsável por sua
bitacional, ela ainda continua sendo baixa qualidade. Primeiro, um(a) jo-
um diferencial para os trabalhadores vem que terminasse o curso de ma-
das cidades. Nestes mais de quarenta gistério e quisesse ser professor(a)
anos de intervalo, enquanto era ofe- era obrigado(a) a passar algum tem-
recido enorme leque de segurança po lecionando numa escola rural
ao trabalhador urbano e nada ao ru- até conseguir os pontos necessários
ral, foi grande o estímulo às famílias para garantir sua vaga numa escola
rurais a migrarem para as cidades. urbana. O mecanismo fez com que
Capítulo II • O Empresário Rural e suas Competências 33
as escolas rurais funcionassem com campo que os(as) professores(as) material de reprografia. Pior, ainda,
trainees durante todo o tempo, com trainees transmitiam aos jovens ru- era a irrelevância dos conteúdos
alta rotatividade de professores e rais, deve-se lembrar que a grande disciplinares para a vida no campo.
com a qualidade do ensino corres- maioria daquelas escolas funciona- Nestas condições, qualquer família
pondentemente pior. Sendo pessoas vam – e, de fato, ainda funcionam rural que quisesse assegurar um mí-
honestas, esses(as) professores(as) em muitos estados – com salas multi- nimo de qualidade na educação de
tiveram que estimular os jovens a seriadas. O(a) mesmo(a) professor(a) seus filhos teria que considerar, se-
sair do campo, assim como eles(as) tinha(tem), simultaneamente e na riamente, a possibilidade de mudar-
próprios(as) fariam, quando comple- mesma sala, que ensinar aos alunos se para a cidade.
tassem os pontos necessários. da primeira, segunda, terceira e quar-
ta série do primeiro grau. As condi- Com todos os estímulos para
Além do estímulo a deixar o ções dos prédios escolares do cam- que os recursos humanos saíssem do
po sempre foram precárias, quando campo e com as rendas do setor sen-
comparadas às das escolas urbanas. do sistematicamente expropriadas
Nelas não existiam bibliotecas nem pelas políticas econômicas adota-
das, começaram a surgir problemas
de abastecimento para as popula-
Cleverson Beje
34 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
ções urbanas. As crises de abaste- aquisição de insumos modernos. Es- Anotações
cimento, que começaram na déca- tas duas últimas políticas tiveram um
da de cinqüenta, foram enfrentadas efeito notável.
com algumas políticas destinadas a
compensar os agricultores e permitir As políticas destinadas a aumen-
a regularização dos suprimentos de tar a produtividade dos fatores de
alimentos e fibras à população urba- produção da agricultura – de garan-
na e à indústria. O governo JK con- tia de preços mínimos e de crédito
templou, indiretamente, na segunda oficial subsidiado – foram implanta-
metade dos anos cinqüenta, o setor das via sistema bancário. Ora, o sis-
rural, com as políticas de transpor- tema bancário é seletivo na escolha
te e de armazenamento do chama- de sua clientela. Somente unidades
do Plano de Metas. Elas permitiram produtivas que tinham um estoque
a expansão horizontal da oferta de de capital empresarial relativamen-
alimentos e fibras pela incorporação te desenvolvido tiveram acesso ao
de novas áreas à produção pelo setor crédito subsidiado e à garantia de
rural. No entanto, esforços destina- preços de produtos. Estes, estimados
dos a aumentar a produtividade dos em número de 400.000 a 600.0002
fatores de produção do setor só co- agricultores, puderam se capitalizar
meçaram com as políticas de garan- 2 Os relatórios do sistema bancário mostravam, no auge
da política de crédito rural subsidiado nos anos sessenta
tia de preços mínimos e, principal- e setenta do século passado, números de contratos ru-
rais superiores à casa do milhão, em alguns casos, mas
mente, com a de crédito subsidiado o número de unidades produtivas, ou agricultores, aten-
didos foi, definitivamente, muito inferior. Pesquisas de
para a produção rural, inicialmente campo mostravam agricultores com muitas dezenas de
contratos ativos de crédito rural em todas as regiões do
denominada de financiamento para país.
Capítulo II • O Empresário Rural e suas Competências 35
e incorporar novas tecnologias então disponíveis e transformaram-se no se-
tor moderno da agricultura brasileira. Os demais, de 4 a 5 milhões de agri-
cultores, em geral os menores ou que tinham menores estoques de capital
empresarial e humano, continuaram pobres, como reflexo das políticas de
extração dos excedentes humanos e financeiros praticados contra o setor.
O resultado final foi a dicotomização do setor: um formado por empre-
sas modernas, capitalizadas, e capazes de gerar excedentes utilizados pela
sociedade no seu desenvolvimento. Este sub-setor tem importante papel
na geração de emprego, de rendas e divisas que alicerçam o crescimento
da economia brasileira, o chamado agronegócio; o outro, formado por um
imenso número de unidades pobres e ineficientes, transformou-se em fonte
de problemas, gerando um enorme passivo social, na forma de excluídos,
que o país precisa incorporar nos demais setores da sua economia.
A pergunta que fica no ar é de como foi possível penalizar durante tanto
tempo um setor da economia tão importante, no e do qual vivia uma alta
percentagem da população do país? Embora as condições de representação
democrática fossem muito pobres nas décadas iniciais do período, certa-
mente haveria reações se uma estratégia explícita não tivesse sido seguida
na condução do chamado modelo brasileiro de desenvolvimento, às ve-
zes chamado de nacional desenvolvimentismo. A extração dos recursos da
agricultura e a conseqüente penalização do setor foram possíveis graças ao
desenvolvimento de valores antirrurais na sociedade brasileira. Os agricul-
tores foram, durante todo o período, chamados de exploradores, atrasados,
Cleverson Beje
36 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
latifundiários que querem manter o ilustra esta priorização de instrumen- Anotações
atraso no campo para explorar tan- tos político-econômicos entre setores
to os trabalhadores rurais quanto os da economia brasileira. Com o início
urbanos, cobrando preços altos por da abertura da economia, nos pri-
seus produtos, já que preferem ex- meiros anos da década de noventa,
portar a vendê-los internamente e, a produção nacional de tecidos de
acima de tudo, são poluidores e ca- algodão logo mostrou sua falta de
loteiros que não pagam suas dívidas. competitividade, especialmente na
Estes valores hostis à agricultura e, fase industrial, já que ela foi, tradicio-
especialmente, ao empresário rural, nalmente, protegida contra a compe-
justificaram as políticas de extração tição estrangeira. Quando a produ-
dos recursos da agricultura para pro- ção nacional de tecidos começou a
mover a urbanização e industrializa- dar mostras de sua fraqueza relativa,
ção do país. É impressionante quão indicada pelo fechamento de fábri-
arraigados estão estes valores na vi- cas e o conseqüente desemprego de
são da população sobre desenvolvi- trabalhadores urbanos, a luz verme-
mento econômico. De acordo com lha logo foi acesa. Era preciso fazer
essa visão, só a industrialização traz alguma coisa para ajudar a indústria
crescimento e qualquer prioridade é nacional. Em vez de políticas de au-
devida sempre às políticas destina- xílio ao elo menos competitivo da ca-
das a favorecer as indústrias. deia – o da transformação industrial
– recorreu-se, novamente, ao velho
Um caso recente de política eco- processo de tirar rendas da agricultu-
nômica – a da produção de algodão – ra para doá-las à indústria.
Capítulo II • O Empresário Rural e suas Competências 37
Além do aumento no valor das Pode-se, sempre, argumentar que a substituição da produção dos peque-
tarifas de importação de tecidos, foi nos agricultores, com alta intensidade de utilização de mão-de-obra, seria
liberada a importação do algodão substituída pela produção em grandes propriedades, ou com maior escala,
(tarifa zero) e, o pior, o algodão im- com processos altamente mecanizados e com as melhores tecnologias que
portado era financiado por entidades caracterizam a atual produção. Provavelmente isto viria mesmo a acontecer,
do exterior com taxas de juros inter- pelas forças do mercado. O que não se sabe é se a velocidade da falência
nacionais de 6-8% ao ano. Deve-se dos pequenos produtores seria tão rápida como foi, estimulada pela política
notar que o algodão nacional, ao ser de proteção à indústria. Os custos do ajustamento daquelas populações a
comprado pela indústria nacional era novas atividades poderia ter sido muito menores para a sociedade do que
financiado a taxas superiores a 35% efetivamente está sendo.
reais, ao ano. Não é difícil calcular
quanto mais barato teria que custar Inúmeros exemplos podem ser apontados mostrando que sempre que
o algodão produzido no país para a sociedade brasileira se vê de frente a algum desafio originado na falta
que a indústria aceitasse comprá-lo. de competitividade de setores de sua indústria de transformação uma das
A política custou ao país a perda da primeiras soluções sugeridas é extrair mais recursos da agricultura para sub-
condição de tradicional exportador sidiar a indústria não competitiva. As inúmeras vezes que se recorreu ao
de algodão e passou a ser importador contingenciamento de importações de certos insumos estratégicos, como o
até recentemente. Mais sério, ainda, fertilizante, para a proteção da indústria nacional, ilustra este tipo de alter-
foi o deslocamento populacional que nativa política anti-rural. A taxação do couro cru, para proteger a indústria
ela induziu. Estima-se que cerca de calçadista, foi outro caso recente que mostra a preferência da sociedade
400.000 a 600.000 pequenos pro- brasileira por penalizar a agropecuária, sempre que alguma indústria de
dutores, principalmente dos estados transformação tem problemas competitivos. A implantação das correspon-
do Paraná, São Paulo e Mato Grosso dentes políticas é fácil, já que a sociedade tem valores hostis à agricultura.
do Sul perderam seu meio de vida.
38 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Uma importante característica do participação popular nos processos Anotações
nacional desenvolvimentismo, ini- eleitorais do governo federal em par-
ciado com a Nova República de Ge- te do período considerado.
túlio Vargas, pode ser mostrada com
a interessante interação político-eco- Como é sabido pela maioria dos
nômica seguida pelo modelo. Como brasileiros a inflação é um processo
mencionado anteriormente, somente que penaliza, principalmente, os po-
uma pequena fração da população bres de uma economia. É uma forma
adulta do país tinha direito, efetivo, de taxação cujo ônus recai, funda-
ao voto. A fração que tinha direito foi mentalmente, sobre as camadas mais
crescendo, ao longo do período, até pobres da população, especialmente,
que o país alcançasse, na década dos os assalariados que ganham menos e
oitenta, o “status” de democracia de que não têm capacidade de pressão
massa. O modelo era simples: os ga- para conseguir corrigir seus ganhos
nhadores, a fração da população que em tempo, de modo a sofrerem me-
teve acesso a determinados privilé- nos com a perda do poder de compra
gios, foi sendo incorporada ao mer- de seus salários. A taxação via infla-
cado e cooptada politicamente pelos ção foi exaustivamente usada, desde
governantes que eram mantidos pelos os anos trinta até o início dos anos
votos desses grupos. Os analfabetos noventa do século passado. Desta
não tinham direito ao voto, sendo- forma, o processo era simples: os go-
lhes negado, conseqüentemente, sua vernos davam os privilégios aos gru-
habilidade de manifestação política. pos escolhidos e mandavam a conta
O Quadro 1, mostra a evolução da para a maioria – de pobres – pagar.
Capítulo II • O Empresário Rural e suas Competências 39
Os pobres, a maioria dos analfabetos, hostis ao modo de vida rural e, prin- bre a permanência dos efeitos do
por outro lado, não tinham canais de cipalmente, hostis à atividade em- nacional-desenvolvimentismo, ini-
representação política, já que não ti- presarial no campo. Como esta for- ciado com Getúlio Vargas, na atual
nham direito ao voto. Assim, a renda mação de valores sociais antirrurais economia brasileira. Na década de
nacional foi se concentrando, e o pas- levou décadas se desenvolvendo, o noventa foi intenso o debate sobre
sivo social foi se acumulando. processo reverso – o reconhecimen- o tema. O ex-presidente Fernando
to social de que a agropecuária é o Henrique Cardoso e o ex-reitor da
Em resumo, o setor rural do Bra- principal elo nas diversas cadeias Universidade Federal do Rio de Ja-
sil, penalizado por muitas décadas do agronegócio – possivelmente le- neiro e ex-presidente do BNDES,
de extração de seus melhores recur- vará muitos anos para ser revertido. Carlos Lessa, mostraram opiniões di-
sos humanos e de suas rendas, aca- Embora o agronegócio, que englo- vergentes quanto ao término daque-
bou por concentrar um enorme con- ba elos urbanos e parte da indústria la influência. Lessa dizendo que ela
tingente de excluídos do mercado. nacional de transformação, tenha persistia e FHC afirmando que, final-
Além disso, ele teve, durante muitas merecido o reconhecimento do seu mente, o Getulismo chegara ao fim.
décadas, uma alta percentagem dos papel fundamental no desenvolvi- Em um debate mais recente no capí-
excluídos do processo político, por- mento da economia do país, o seu tulo paulista do Conselho Regional
que parte significativa de sua popu- elo mais importante, a fase dentro de Economia, J. Nakano, da Escola
lação era, além de pobre, formada da porteira, ainda carrega o estig- de Economia da FGV de São Paulo
por expressiva parcela de analfabe- ma de uma valoração antirrural que lamentava a falta de um modelo de
tos, aos quais a sociedade negava o caracterizou o modelo Tenentista e crescimento como o que prevaleceu
direito ao voto. Eram os excluídos Getulista do período histórico que no país até a década dos oitenta. De
políticos! Este processo sistemáti- moldou a atual sociedade brasileira. fato, o modelo foi responsável por
co de exclusão só foi possível pelo um longo período de crescimento da
desenvolvimento de valores sociais Ainda perdura a discussão so- economia. O desenvolvimento, que
40 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
implica no acesso de todos aos benefícios do crescimento é um problema Anotações
que só começou a ser efetivamente discutido no país depois da sua trans-
formação em uma verdadeira democracia política.
Quadro 2.1: Participação Política no Brasil. 1945-1994
(Votos como percentagem da população em idade de votar – PIV)
Data Tipo de eleição Votos/PIV
1945 Congresso 23,7
1945 Presidencial 24,0
1947 Congresso 9,7
1950 Congresso 28,3
1950 Presidencial 28,4
1954 Congresso 31,5
1955 Presidencial 27,5
1958 Congresso 35,7
1960 Presidencial 33,4
1962 Congresso 36,9
1966 Congresso 38,4
1970 Congresso 42,9
1978 Congresso 55,5
1982 Congresso 63,7
1986 Congresso 70,4
1989 Presidencial 79,4
1990 Congresso 76,6
1994 Congresso 76,8
1994 Presidencial 76,9
Fonte: International Institute for Democracy and Electoral Assistance (IDEA). “Voter Turnout Since 1945: A
Global Report on Political Participation,” at [Link]/voter_turnout, downloaded November 2000.
Capítulo II • O Empresário Rural e suas Competências 41
A autoestima da população de adoção de novos valores ou esti- exigências sobre a competência dos
rural e a perda de importante fra- los de vida; além do fato de (iv) se- estoques de capitais humanos do
ção do capital humano pelo setor rem, em geral, membros da camada campo continuam a crescer.
rural mais jovem dos adultos de uma po-
pulação ou grupo social. Como des- Além da extração intencional
A tendência das forças de merca- crito na seção anterior, com a migra- de recursos humanos e financeiros
do no sentido de expulsar o excesso ção para os centros urbanos o setor do setor rural para as áreas urbanas
de pessoas da agricultura, quando rural perdeu o melhor de seu capital do chamado modelo brasileiro, a
deixado à própria sorte, é de tirar o humano. Mas as pressões para a mo- agricultura é, estruturalmente, uma
melhor capital humano do campo dernização dos processos produtivos perdedora de recursos humanos em,
e deixar nele os indivíduos menos por meio da incorporação de novas praticamente, todas as economias de
aptos a competirem no mundo mo- tecnologias que embutem, cada vez mercado. O fenômeno foi bem estu-
derno. O migrante é, em geral, parte mais, os conhecimentos da ciência, dado por um importante economista
da melhor fração que compõe o ca- continuam a atuar sobre o setor. As rural brasileiro: Rui Miller Paiva. Ele
pital humano de um grupo original.
Ele tem as características considera-
das desejáveis pelos departamentos
de recursos humanos das empresas:
(i) disposição para incorrer nos ris-
cos que uma nova situação acarre-
ta, deixando a comodidade do estilo
conhecido de vida; (ii) disponibili-
dade para aprender novas formas de
trabalho; (iii) baixo apego ao modo
de vida tradicional e a possibilidade
Cleverson Beje
42 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
mostrou como o processo de incorpo- tradicional de vida, o processo, em Anotações
ração de novas tecnologias no cam- si, é considerado bom pela socie-
po tende a liberar recursos humanos dade. Todos os consumidores têm
do setor. Quando uma nova tecno- acesso aos produtos da agricultura
logia é adotada, os custos unitários por preços cada vez menores. Esta é
mais baixos elevam a quantidade uma tendência de longo prazo que
ofertada no mercado e provocam a desmentiu as previsões pessimistas
queda do preço do produto. Os que de Malthus. A agricultura tem sido
não adotam a tecnologia, porque a capaz de alimentar, cada vez mais
ausência de algum fator ou conheci- gente, pela incorporação de conhe-
mento assim o determina, são expul- cimentos científicos, só não tendo
sos do processo ou do setor. A China, eliminado a fome em situações onde
por exemplo, conseguiu manter uma as sociedades têm falhado em sua
alta fração da população no campo capacidade de organizar as respecti-
enquanto era uma economia socia- vas economias ou mercados.
lista, com altos índices de pobreza,
mas viu o fenômeno ocorrer em alta A agricultura moderna, como
intensidade com a incorporação da qualquer outro setor da economia,
economia de mercado nas suas re- exige competências crescentes dos
lações econômicas; a Europa gasta indivíduos. Os componentes da re-
fortunas em subsídios para manter a querida competência – conheci-
atual fração da população no campo. mentos, habilidades e atitudes – são,
Embora seja penoso assistir a saída cada vez mais, exigidos na compe-
forçada de agricultores da sua forma tição pela vida que os mercados do
Capítulo II • O Empresário Rural e suas Competências 43
presente, substituindo a competição Darwiniana pela sobrevivência das e erro e são perfeitamente compatí-
espécies dos seres vivos em geral, exigem dos agrupamentos humanos. A veis com formas autoritárias de gerir
cultura humana não determina que os mais fracos devem perecer, como recursos produtivos. Na agricultura
acontece com qualquer ser primitivo, inclusive os de grupos humanos não moderna, onde os recursos humanos
“civilizados”. Mas, mesmo com a cultura alterando parte da forma de vi- precisam de muitos conhecimentos e
ver do homem, a carga genética continua exercendo importante papel na habilidades, além de necessitarem de
determinação de seu comportamento. O funcionamento dos mercados foi motivações para desenvolverem ati-
a forma encontrada pelos diversos agrupamentos humanos para canalizar tudes positivas não podem conviver
a carga genética dos indivíduos, formada em milênios de evolução bioló- com a atitude centralizadora das de-
gica, no sentido da promoção do bem-estar das pessoas. Os mercados não cisões e da visão estratégica exclusiva
foram criados por ninguém em particular. Eles surgiram em todos os grupos do “dono” do negócio. O mundo está
onde houve pressão do número de pessoas sobre os recursos naturais. Só as exigindo escalas crescentes na maio-
sociedades tribais podem prescindir deles. Por seu lado, os mercados têm ria dos processos produtivos e, para
regras competitivas claras e muito rígidas. São altos os custos sociais que atingi-las, exige-se, cada vez mais, a
incorrem os grupos que violam suas leis. Até hoje, todas as sociedades que participação de outros indivíduos na
tentaram substituir o funcionamento dos mercados por formas alternativas posse dos estoques dos capitais e no
de organização econômica pagaram preços altos em termos de atraso nas gerenciamento das empresas.
condições de consumo de suas populações.
Acredita-se, na administração
No mundo quase extrativo da agricultura tradicional, onde o conheci- moderna, que um elemento funda-
mento científico foi só precariamente, ou ainda não foi incorporado, as rela- mental na motivação das pessoas
ções de trabalho podiam ser conduzidas sobre bases da autoridade derivada para terem desempenhos satisfató-
da posse de fatores de produção ou da hierarquia das classes sociais. Os rios na empresa é a sua participação
conhecimentos neste tipo de agricultura derivam de processos de tentativa na gestão estratégica da instituição.
44 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Quando as decisões estratégicas são tomadas com a aquiescência dos exe- Anotações
cutores, os processos produtivos fluem com muito mais eficiência e com
menores custos. As pessoas querem conhecer e aferir os riscos associados
aos processos em que estão envolvidos e podem colaborar para aumentar a
eficiência das empresas quando, efetivamente, “vestem a camisa” da mesma.
De fato, uma empresa bem administrada é a que consegue cooptar todos os
seus recursos humanos no sentido da sua colaboração para que os objetivos
estratégicos sejam atingidos. Isto, necessariamente, só pode ser conseguido
quando há transparência de metas e objetivos gerais com a corresponden-
te delegação de decisões. Ora, só se pode delegar quando se acredita na
competência daqueles a quem se delega ou se outorga a responsabilidade
por algum processo. Desta forma, a figura do empresário centralizador, que
quer decidir tudo sem a participação de ninguém, que vive determinando
tarefas para seus trabalhadores ou cobrando por tarefas que não há como os
funcionários adivinharem qual seria, está fadado na empresa moderna, ao
fracasso. Sua tarefa é, exatamente, a oposta: conseguir o envolvimento e a
conseqüente motivação dos recursos humanos da empresa.
Capítulo II • O Empresário Rural e suas Competências 45
A Economia e
a Renda Nacional Fernando Curi Peres
Para que se possa entender, mi- ma, os profissionais que analisam as PIB e é mostrado o caminho percor-
nimamente, como funciona a eco- economias definem, basicamente, rido de uma até a outra medida. Para
nomia de um país é preciso, inicial- quatro mercados agregados – mer- isso, é necessário mostrar e explicar
mente, definir alguns termos que são cado de trabalho, mercado de pro- as contas do balanço de pagamento.
utilizados pelos profissionais que tra- duto, mercado de moeda e mercado Em seguida, discute-se a remune-
tam deste ramo das ciências. Numa de títulos – e variáveis macroeconô- ração dos fatores primários de pro-
visão maior (macro) os economistas micas que são explicadas pelo fun- dução no Brasil, a participação do
definem os agregados macroeconô- cionamento desses mercados mais agronegócio nessa remuneração e,
micos, que são algumas poucas va- o exterior, ou mercado de câmbio. finalmente, são apresentados alguns
riáveis explicativas de alguns mer- Estas variáveis são o produto ou ren- dados sobre a distribuição de renda
cados, também poucos, para efeito da nacional, o nível de emprego, a no país.
de simplicidade, na qual é dividida taxa de juros, a taxa de câmbio e o
uma economia. Esta simplificação nível geral de preços. Neste capítulo
é necessária porque as análises que são tratados alguns desses conceitos O sistema econômico
considerassem simultâneas e indi- para que o participante do PER pos- Uma maneira prática de traba-
vidualmente todos os mercados de sa entender as interações dos fatores lhar com sistemas complexos, como
uma economia, exigiriam modelos e produtos com os quais trabalha, os mercados de uma economia, é
matemáticos correspondentes a sis- com os mercados do resto da econo- conseguida pela agregação dos seus
temas com números muito grandes mia. Inicialmente são discutidos os diferentes agentes em um número
de equações e variáveis. Desta for- conceitos de Renda Nacional e de menor de entidades. Assim, pode-
46 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
se falar nas “empresas” como uma ou por grupos familiares estendidos, Anotações
dessas entidades. Neste caso, as em- com decisões mais ou menos cen-
presas englobam todas as unidades tralizadas de consumo. As famílias
produtivas de um país, sejam elas são donas dos fatores primários de
organizadas como sociedades limi- produção – (i) da força de trabalho,
tadas, sociedades anônimas e dife- (ii) dos recursos naturais, (iii) dos ca-
rentes tipos de pessoas físicas, tais pitais físicos e monetários e (iv) dos
como produtores independentes, recursos empresariais – e cede os
artesãos, pequenos produtores ru- serviços deles às empresas, direta ou
rais, instituições sem fins lucrativos indiretamente, já que elas são, tam-
que atuam no sistema produtivo e bém, donas das empresas, mediante
empresas mistas e governamentais remunerações a esses serviços. O ter-
ou estatais. As empresas, no esque- ceiro agente é o “governo”, formado
ma a ser construído, usam os fatores pelos poderes executivo, legislativo
primários de produção, que perten- e judiciário dos níveis: federal, esta-
cem às famílias, na agregação de dual e municipal do país. O governo
valor que caracteriza todo processo presta serviços públicos – seguran-
produtivo de bens ou serviços. De ça, educação, saúde, aposentadoria,
forma semelhante, pode-se defi- garantia das instituições etc. – con-
nir “famílias” como o conjunto de sumindo recursos para isso, os quais
unidades consumidoras, sejam elas são pagos pelas famílias e empresas
formadas por um casal e seus filhos, na forma de impostos, taxas e con-
por unidades monoparentais e seus tribuições. Finalmente, outra enti-
filhos, por indivíduos que moram só, dade definida na macroeconomia é
Capítulo III • A Economia e a Renda Nacional 47
o “resto do mundo”, ou “exterior”. o recurso empresarial – para gerar voluntários, como os demais fluxos
Desta entidade o sistema econômi- produtos e serviços, elas pagam às do sistema econômico. Deve-se no-
co recebe insumos para o processo famílias, que são donas desses fa- tar que todo o resto do mundo é sin-
produtivo nacional e produtos finais tores, uma remuneração monetária. tetizado pela entidade exterior que
para o consumo das famílias e do De forma semelhante, o governo, vende e compra produtos e serviços
governo e vende a ela bens e servi- para prestar serviços às empresas e para e das empresas do país e recebe
ços finais produzidos no país. famílias, cobra delas impostos, ta- ou paga os correspondentes fluxos
xas e contribuições. Como a maioria de pagamentos monetários. Como
dos bens e serviços produzidos pelo as moedas são diferentes para cada
O conceito de Renda governo pode ser classificada como economia há, neste caso, um merca-
Nacional e sua bens públicos – todos se beneficiam do específico onde se estabelece(m)
utilidade desses serviços, ou seu uso por al- a(s) taxa(s) de câmbio, que é(são) o(s)
guém não reduz os seus estoques – valor(es) da(s) moeda(s) estrangeira(s)
A Figura 3.1 mostra, esquema- aqueles fluxos monetários não são em termo(s) da nacional.
ticamente, o funcionamento do sis-
FAMÍLIAS
tema econômico das economias de BE
NS
RIOS CO ES
MÁ ER
mercado ou capitalistas. Deve-se SP
RI
NS
UM
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OS
E
T OR DA
DA
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FIN
AIS
notar que a cada fluxo de produto FA EN AM
R ÍLI
AS
ou serviço corresponde um fluxo, in-
EXTERIOR
EXTERIOR
EXPORTAÇÕES
MERCADOS DE IMPORTAÇÕES
MERCADOS
BENS E
verso, de moeda, ou seu pagamento. DOS FATORES GOVERNO
SERVIÇOS
IMPORTAÇÕES PRIMÁRIOS EXPORTAÇÕES
FINAIS
Como as empresas usam os fatores O
ÇÃ
O DU
primários de produção – terra, ou SE
RV
IÇO
CU
ST
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PR
FIN
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SD S S
EF O RE IÇO
recursos naturais, trabalho, capitais AT
O RE
VA
L
ES
ER
V
S S
B EN
físicos e financeiros e, finalmente, EMPRESAS
Figura 3.1
48 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Uma primeira questão é, imediatamente, posta a quem indaga sobre o Anotações
funcionamento de um sistema econômico: o sistema funciona bem? Para
responder esta questão os economistas criaram medidas que indicam se
um sistema está crescendo, ou não, e em que ritmo. Esta medida é a Ren-
da Nacional ou uma variante dela chamada Produto Interno Bruto – PIB.
Por que é útil e necessário este tipo de medida? Todos estão acostumados
a ouvir ou ler que o Brasil é um país emergente, com renda per-capta1 in-
termediária, que cresceu muito dos anos 1930 até 1980, que perdeu uma
década de crescimento (a dos anos 80 do século passado) e tem tido cres-
cimento medíocre desde então. Isto tem sido afirmado com base na renda
per-capta observada nos respectivos períodos. Quando a Renda Nacional
está crescendo os políticos se vangloriam porque, em geral, as empresas
estão empregando mais gente e, na ausência de inflação, as famílias têm
mais recursos para melhorar seu consumo de bens e serviços. Estas medidas
são, também, utilizadas para comparar economias, ou a mesma economia
em períodos diferentes.
Ainda não foi mencionado, mas o leitor deve ter notado que o processo
de mensuração discutido até agora tratou, implicitamente, de fluxos, ou me-
didas acompanhadas por uma unidade de tempo. Está se falando de medidas
com dimensão temporal. Pode-se falar de valor agregado no semestre, no
trimestre ou no mês. Trata-se, portanto, de um fluxo. Um fluxo tem, sempre,
1
Renda per-capta = RN/População; onde RN é a Renda Nacional e População a quantidade de habitantes do país,
no período.
Capítulo III • A Economia e a Renda Nacional 49
uma dimensão temporal. Produto ou litros ou metros cúbicos. Pode-se hora ou por minuto. As variáveis que
renda pode ser anual, semestral, tri- dizer, neste caso, que uma determi- medem renda são, portanto, variá-
mestral, mensal, ou referente a qual- nada caixa contém (um estoque de) veis fluxos. Embora muitas vezes não
quer outro período de tempo esco- x litros d’água. Quando os registros mencionado, implicitamente está se
lhido. Ao contrário de um fluxo, uma são abertos, as quantidades do líqui- referindo a quantidades por unidade
medida pode se referir a um estoque do que passam em cada cano são de tempo. A mais comum delas é a
qualquer. Os estoques não têm a di- exemplos de variáveis fluxos, por- medida anual. Assim, quando de fala
mensão temporal. Assim, 1000 tone- tanto medidas em litros, ou metros em renda nacional o mais comum é
ladas de um produto em determina- cúbicos, por unidade de tempo – por tratar-se da renda nacional anual.
do armazém refere-se a um estoque,
a menos que a medida venha acom-
panhada pela dimensão temporal, o
que a transformaria em um fluxo. Se
por um armazém passassem 1000
toneladas do produto por mês, a me-
dida seria a de um fluxo.
A Figura 3.2 mostra, esquema-
ticamente, um sistema hidráulico
que ilustra bem o que são variáveis
fluxos e variáveis estoques. Quando
os registros estão fechados, os níveis
do líquido nas caixas são exemplos
Figura 3.2 - Sistema hidráulico com fluxos e estoques
de variáveis estoques, medidas em
50 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Um exemplo trivialmente sim- segurança e aposentadorias, entre Anotações
ples pode ajudar no entendimento do outros. As Figuras 3 e 4 mostram o
conceito de Renda Nacional. Imagi- processo de agregação, ou adição, de
ne uma pequena ilha independente, valores feitos em cada elo das duas
próxima a um continente, cuja eco- cadeias. Como se dá esta agregação
nomia se assenta sobre duas cadeias ou adição? Considere, por exemplo,
produtivas: a da construção civil e a o elo chamado de produtores rurais,
cadeia agro industrial do arroz. Toda na cadeia agroindustrial do arroz. Ele
a mão-de-obra economicamente ati- é o conjunto de todos os produtores
va da ilha está ligada às duas cadeias rurais daquela economia e todos eles
ou ao governo. É claro que se está dedicam-se à produção de arroz em
fazendo uma tremenda simplifica- casca. Eles precisam comprar insu-
ção ao se incorporar o setor varejista mos do continente (importados), tais
à cadeia do arroz. Os varejistas ven- como fertilizantes, defensivos, saca-
dem todo o tipo de produtos que a ria, sementes, combustíveis, lubrifi-
população consome, além do arroz. cantes etc., para seu processo pro-
Só as cadeias do arroz e da constru- dutivo, no valor de $4002. A esses
ção civil, além dos serviços públicos produtos eles agregam os serviços
produzem nesta economia; todos os dos fatores primários de produção:
outros produtos ou serviços consu- (i) dos recursos naturais – aluguéis
midos na ilha são importados. O go- ou arrendamentos – (ii) do trabalho
verno presta serviços típicos – cha- – salários e pró-labore.
mados bens públicos – de justiça,
2 A unidade pode ser milhões de Dólares dos USA ou
milhões de Euros, por exemplo.
Capítulo III • A Economia e a Renda Nacional 51
Sementes = 100 Combust = 120 Combust = 20
Defens = 80 Embalag = 80 Outros Prod = 10000
Fertiliz = 100 Mat. Limpez = 50 Mat. Limpez = 180
Sacaria = 20 Lubrific = 50 Combust = 100
Combust = 100 Combust = 100 (Ti – Su) = 150
(Ti – Su) = 100 (Ti – Su) = 200
EXTERIOR
$ 500 $ 500 $ 10350
CONSUMIDORES
PRODUTOR DE Processadores $ 1000 $ 11900
Varejista E GOVERNO
ARROZ de Arroz
$ 600
$ 550
$ 10700 $ 500
EXTERIOR
R = 20 R = 20
S = 200 S = 200
J = 150 J = 100
L = 130 L = 230
Figura 3.3 - A cadeia agroindustrial do arroz
(iii) dos capitais – juros – e (iv) vendem seus produtos por um valor ços daqueles fatores – arrendamen-
do recurso empresarial – lucros. Os total de $11200 ($10600 para o ex- tos $3000, salários e pró-labore de
fatores primários de produção são terior e $600 para a indústria local $4000, e juros de $3300 – sobrando
de propriedade (direta ou indireta) de processamento do arroz) e gas- $400, que é a remuneração residual
das famílias residentes no país ou tam em insumos comprados e em do recurso empresarial, ou o lucro. É
de famílias do exterior. Além dos tributação indireta (menos subsídios) preciso notar que os valores dos ar-
insumos comprados (no exterior) as a quantia de $500, eles agregam va- rendamentos, salários e juros são de-
empresas pagam ao governo tributos lores correspondentes aos serviços terminados pelo mercado. O lucro,
indiretos no valor de $100 (Ti) mas, dos fatores primários de produção no entanto, é um resto, ou sobra,
eventualmente, elas podem receber no valor de $10700. Este montan- apurado depois que os outros três
subsídios (Su). Como os produtores te é utilizado para pagar os servi- fatores são pagos pelos seus valores
52 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
de mercado. Por ser a remuneração ao risco incorrido pelo empresário, o Anotações
lucro pode corresponder a um valor positivo, o lucro propriamente dito, ou
negativo, o prejuízo.
Cimento = 50
Ma. Const = 100
Combust = 50 Materiais = 50
Acabament = 50 (Ti – Su) = 10
(Ti – Su) = 50
$ 300 $ 60
CONSUMIDORES
CONSTRUÇÃO $ 5110
$ 700 INVESTIDORES E GOVERNO
CIVIL
$ 4350
$ 500
$ 900 INVESTIDOR
INDUSTRIAL
R = 100 R = 50
S = 500 S = 400
J = 150 J = 3800 Figura 3.4 - A cadeia da construção civil
L = 150 L = 100
Da mesma forma que a dos produtores de arroz, pode-se medir o valor
agregado – ou adicionado – pelo elo processadores de arroz, na cadeia
mostrada na Figura 3.4. Ele corresponde a todas as indústrias que coletam
o arroz em casca dos produtores rurais e o processam de forma a deixar o
produto pronto para ser encaminhado às lojas retalhistas e posteriormente
consumido pelas famílias, ou para ser exportado na forma de arroz limpo.
Além disso, o elo exporta o farelo de arroz, um importante sub-produto da
indústria, utilizado na alimentação animal e na confecção de biscoitos e
Capítulo III • A Economia e a Renda Nacional 53
bolachas. As indústrias que formam o elo compram combustíveis ($120), agregado paga aqueles serviços da
embalagens ($80), materiais de limpeza ($50), lubrificantes ($50) e pagam seguinte forma: $20 para os recursos
impostos indiretos menos subsídios ($200) num total de $500. Compram, naturais; $200 para a mão-de-obra;
ainda, $600 de matéria prima – arroz em casca – dos agricultores ou produ- $150 para os juros, ou a remunera-
tores rurais. A este conjunto de bens comprados pela indústria de processa- ção dos capitais; e, residualmente,
mento ($1100) o elo processador adiciona os serviços dos seus fatores pri- remunera o empresário com $130
mários de produção. Como o elo vende produtos no valor de $1600 ($1000 de lucros.
para os varejistas e $600 para o exterior) ele adiciona, ou agrega, serviços
dos fatores primários de produção no valor de $500. No exemplo, este valor Na cadeia da construção civil,
a agregação, ou adição, de valores
Cleverson Beje
pode ser exemplificada para qual-
quer dos elos que a compõem. O
elo construção civil compra insu-
mos (importados, no caso simples
em exame) no valor de $250 ($50
de cimento, $100 de materiais de
construção, $50 de combustíveis e
$50 de acabamentos) e paga $50 de
impostos indiretos menos subsídios,
totalizando $300 nestes desembol-
sos. Como os construtores vendem
produtos no valor de $1200 ($700
para os investidores que alugam mo-
radias para as famílias mais $500
54 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
em prédios para as indústrias), eles priados pelos residentes numa eco- Anotações
adicionam, ou agregam, $900, cor- nomia ou país. Tecnicamente a vari-
respondentes à remuneração a seus ável Renda Nacional é denominada
fatores primários de produção: $100 de Produto Nacional Líquido a custo
de recursos naturais; $500 de salá- de fatores (PNLcf). É, portanto, uma
rios; $150 de juros e, conseqüente- variável fluxo, que mede o produto
mente, $150 de lucros. – ou valor adicionado, ou agregado
– a partir da remuneração aos fato-
Uma das medidas de renda na- res primários de produção da econo-
cional pode ser facilmente determi- mia. Somando os valores agregados
nada, bastando somar todos os va- por cada elo das cadeias mais o va-
lores adicionados nos diferentes elos lor agregado pelo governo pode-se
que compõem as cadeias produtivas estimar a capacidade da economia
de uma economia. No exemplo da gerar produto sem incorrer nos pro-
ilha com as duas cadeias menciona- blemas de dupla contagem que exis-
das – do arroz e da construção civil – tiria se fossem somadas as produções
elas contribuem com os respectivos de cada elo.
valores adicionados, ou agregados
por seus, elos para o cálculo daque- Existe uma importante diferen-
la medida de renda. Desta forma, ça entre os conceitos de produção e
pode-se definir a Renda Nacional produto, em economia. A produção
como a soma de todos os salários trata da quantidade ou valor do que
mais arrendamentos (ou aluguéis), é produzido por uma empresa ou
mais os juros e mais os lucros apro- pelo conjunto delas. Nas figuras 3.3
Capítulo III • A Economia e a Renda Nacional 55
e 3.4 a produção dos elos processadores de arroz e construção civil são, mílias e para as empresas, não existe
respectivamente, iguais a $1100 ($500 + $600) e $1200 ($700 + $500). Esta, um mercado para esses serviços. Por
no entanto, não é a contribuição destes elos para o produto ou renda nacio- serem bens públicos, ninguém pre-
nal. Existe, claramente, uma dupla contagem se ela for considerada como cisa pagar para consumi-los. Assim,
a contribuição dos elos para a renda, porque parte deste valor corresponde no cálculo da renda nacional faz-se
aos insumos ou produção de outros elos que foram comprados pelos dois a pressuposição básica de que os ser-
para conseguir a produção acima. Por isso, a opção pela medida produto viços governamentais valem o que
que é só o que os elos adicionaram no processo produtivo. O que cada elo custam. Ou seja, o governo “vende”
adiciona, ou agrega, são os valores dos serviços dos seus fatores primários serviços públicos no valor de seus
de produção. Em resumo, a medida produto trata da contribuição da em- desembolsos ou gastos.
presa (ou do elo) para a renda. A produção refere-se ao valor total dos bens
e serviços produzidos pela empresa ou pelo elo. No exemplo da ilha com duas
cadeias produtivas, com governo e
No cálculo da renda nacional da ilha do exemplo é preciso considerar, exterior, uma das medidas da renda
adicionalmente, os gastos do governo. No exemplo, a entidade “governo” nacional pode ser feita facilmente.
compreende os três níveis e os três poderes do que comumente é denomi- Primeiro soma-se os valores agrega-
nado de governo: federal, estadual e municipal e os respectivos poderes dos por cada elo das duas cadeias:
executivo, legislativo e judiciário. O governo recebe impostos indiretos das $11750 dos três elos da cadeia do
empresas e imposto de renda das pessoas. Por outro lado, ele dá subsídios arroz mais $5250 dos dois elos da
às empresas e transfere recursos para as famílias, como no caso das aposen- cadeia da construção civil, totalizan-
tadorias e paga juros que, para efeito das contas nacionais, são consideradas do $17000. Admitindo que o gover-
taxações negativas. A diferença entre a arrecadação total do governo menos no taxa a renda em 20% ($3400 =
os seus desembolsos é a sua poupança líquida que pode ser positiva ou ne- $17000 x 0,2) líquidos das transfe-
gativa, como no Brasil. Como o governo produz serviços públicos para as fa- rências que faz às pessoas e sabendo
56 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
que ele recolhe de tributação indireta menos subsídios às empresas o total Anotações
de $510 e pressupondo que ele tem poupança igual a zero, seu desembolso
é igual a $3910 ($3400 + $510). Os 20% líquidos de taxação da renda já
consideram os descontos na taxação da renda devido à depreciação dos
capitais. Admitindo, ainda, que o governo usa em pagamento de salários
50% de seus gastos, eles serão iguais a $1955 ($3910 x 0,5). Uma medida
da renda nacional, o Produto Interno Bruto a custos de fatores – PIBcf – da
ilha será, portanto, igual a $18955 ($17000+$1955). Para chegar à renda
nacional ou produto nacional líquido a custo de fatores – PNLcf – são neces-
sários novos dados.
Para transformar uma medida da renda ou produto interno bruto (PIBcf)
para produto interno líquido (PILcf) é necessário descontar na remuneração
aos serviços dos capitais da economia o valor da depreciação (D) no perí-
odo. Todos os capitais físicos se depreciam, no tempo, por duas razões: (1)
o gasto físico, devido ao seu uso e (2) a depreciação tecnológica, devido às
mudanças nos processos tecnológicos. Um trator, um galpão, um armazém
ou um equipamento qualquer se deprecia fisicamente por seu uso ou, sim-
plesmente, pela ação do tempo ou das intempéries sobre ele. Ao mesmo
tempo, as novas tecnologias, que estão sempre sendo geradas pelos avan-
ços das ciências, acabam por tornar obsoletos os equipamentos, ou mesmo
algumas construções; esta é a depreciação tecnológica. Ora, parte do valor
agregado pelas empresas está super estimado porque nem toda a sua produ-
Capítulo III • A Economia e a Renda Nacional 57
ção corresponde à criação de novas de $3750 estimado pela agência responsável pela contabilidade social da
riquezas. Uma parte do valor agre- economia da ilha. O valor do PILcf será igual a $15205 ($18955-$3750) ou
gado calculado até agora deveria ser PIBcf – D. Para encontrar a Renda Nacional, ou PNLcf – o Produto Nacional
guardado para repor as depreciações Líquido a custo de fatores – é preciso buscar no balanço de pagamentos da
dos capitais que aconteceram no pe- ilha a conta que indica o saldo dos pagamentos dos fatores primários de
ríodo. A medida líquida é que indi- produção entre o país e o resto do mundo.
ca, realmente, a criação de novas
riquezas pela economia no período O balanço de pagamentos de uma economia, ou país, mede as transa-
em questão. Considere um valor da ções entre as suas entidades e as do resto do mundo. Como todas as con-
depreciação anual dos capitais (D) tas em “partidas dobradas” os componentes do balanço têm, sempre, dois
lados; no caso do balanço de pagamentos, os dois lados são o Saldo em
Contas Correntes e sua contrapartida a Conta Capital. O balanço em Contas
Correntes é o resultado de três sub-contas que o compõe: (i) o balanço co-
mercial; (ii) a conta serviços; e (iii) as transferências unilaterais. O balanço
comercial mostra o saldo entre as exportações e importações de produtos
tangíveis, ou daqueles que podem ser medidos, pesados, tocados etc., pelos
sentidos das pessoas. No Brasil, por exemplo, o saldo do balanço comer-
cial nos últimos anos tem sido, sistematicamente, positivo (indicando que
as exportações anuaís superam as importações dos bens tangíveis) devido,
principalmente, à competitividade do seu agronegócio. Embora esteja entre
as empresas tipicamente urbanas as maiores responsáveis pelas exportações
– Embraer, Petrobrás, as montadoras de automóveis etc. – elas são, também,
grandes importadoras, pouco contribuindo, desta forma, para o saldo posi-
tivo da balança comercial do país.
Cleverson Beje
58 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
A conta serviços registra transa- residentes e não-residentes, chama- Anotações
ções muito importantes na definição do “saldo das transferências líqui-
do PNLcf (Produto Nacional Líquido das”. Mas a conta serviços registra,
a custo de fatores) ou a Renda Na- ainda, as transações, ou pagamentos,
cional. Na conta serviços são regis- de serviços de fretes, seguros, gastos
tradas as exportações e importações com representações diplomáticas,
de serviços dos fatores primários de viagens de residentes para outros
produção da economia e as do res- países e de turistas no país, além de
to do mundo. Quando os residentes outros serviços. Devido, principal-
em outros países detêm direitos de mente, ao efeito das transferências
propriedade sobre fatores primários de rendas líquidas do Brasil para o
de produção em uso no país, eles resto do mundo, especialmente no
podem receber salários, lucros, ju- envio de juros e lucros, a conta ser-
ros, aluguéis ou arrendamentos cor- viços têm tido saldo sistematicamen-
respondentes ao uso dos fatores. Por te negativo.
outro lado, os residentes no país po-
dem ter, ou possuir, fatores primá- A última conta das transações
rios de produção em outros países correntes é intitulada “transferências
e receber as correspondentes remu- unilaterais”. Como o nome indica,
nerações. O saldo desta sub-conta nela são registradas as entradas e
da conta serviços – chamada conta saídas de recursos que não tem cor-
rendas – mostra o efeito final das respondência com fluxos físicos de
transferências das remunerações aos bens ou serviços. As doações filan-
fatores primários de produção entre trópicas, envios de recursos de fami-
Capítulo III • A Economia e a Renda Nacional 59
liares residentes em outros países a o saldo do balanço de pagamentos mitido uma acumulação inédita de
residentes no país e programas de as- em contas correntes. Apesar do con- reservas internacionais conversíveis
sistência alimentar e outras ajudas de siderável saldo positivo do balanço – US Dollars, Euros, Libras Esterli-
e para outros países são contabiliza- comercial e do também positivo sal- nas, ouro, Direitos Especiais de Sa-
dos nesta conta. Valores importantes do das transferências unilaterais, o ques no FMI etc. – que funcionam
nesta conta foram anotados quando caráter altamente negativo da conta como um importante redutor do
descendentes de japoneses que mi- serviços muitas vezes tem prevaleci- “risco do país”. Esta percepção, pelo
graram para o Brasil retornaram ao do, fazendo o saldo em contas cor- sistema financeiro internacional, de
Japão para trabalhar e enviavam par- rentes, do Brasil, acusar déficit, ou baixo risco, tem funcionado como
te de seus ganhos a familiares que saldos negativos, exigindo financia- uma pressão negativa no custo de
permaneceram no país. Em anos mentos correspondentes mostrados captação de recursos financeiros no
mais recentes, brasileiros que, legal na conta capital. A conta capital exterior.
ou ilegalmente, vão trabalhar nos relaciona as transações financeiras,
Estados Unidos, enviam uma consi- as transferências de patrimônio, os Embora seja o elo mais fraco das
derável soma de recursos a familia- investimentos diretos (capitais de cadeias agroindustriais, a agricultura
res que deixaram no país. Por essas risco) e investimentos em mercados – a produção dentro da porteira – é
razões, esta conta tem sido mantida de capitais e os resultados das apli- a principal responsável pela relativa
com saldos positivos no balanço de cações das reservas do país no ex- vantagem comparativa que o agro-
pagamentos do país. terior. Os saldos positivos das con- negócio brasileiro tem demonstrado.
tas correntes em anos recentes e a Apesar dos produtos da agricultura
Quando se considera, simulta- atração da economia aos capitais brasileira serem produzidos de for-
neamente, os saldos das três contas externos, devido às perspectivas da ma mais eficiente que na maioria
(balanço comercial, conta serviços economia e às altas taxas de juros das economias do mundo e, conse-
e transferências unilaterais) têm-se que prevalecem no Brasil, têm per- qüentemente, a custos mais baixos,
60 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
parte desta vantagem é perdida no do internamente, ou dentro, da eco- Anotações
caminho até seu embarque nos por- nomia da ilha. Nada foi dito acerca
tos, configurando o que se conven- de quem são os donos de parte dos
cionou chamar de “alto custo Bra- fatores primários de produção, prin-
sil”. As ineficiências dos transportes, cipalmente a terra e os capitais, em-
feitos em estradas pessimamente bora os recursos empresariais e até
mantidas por órgãos públicos, onde mesmo os recursos humanos possam
é alto o índice de corrupção, a bai- ser de não-residentes na ilha. O con-
xa qualidade das instalações portu- ceito de “nacional”, em oposição
árias e as ineficiências derivadas da ao conceito de “interno” leva em
interposição de burocracias públicas consideração não só o que é gerado
caras e corporativas, oneram os pro- na economia; ele considera o que
dutos das cadeias agroindustriais, ti- é apropriado pelos seus residentes.
rando deles as vantagens dos baixos Assim, parte da remuneração aos
custos conseguidos pelas explora- fatores primários de produção que
ções agropecuárias. corresponde ao produto gerado na
ilha pode não ser apropriado pelos
Agora pode-se definir adequada- residentes nela. Por outro lado, os
mente a Renda Nacional ou o Pro- residentes da ilha podem ser donos
duto Nacional Líquido a custo de de fatores primários de produção
fatores – PNLcf. Foi visto que o valor localizados em outras economias.
do PILcf é igual a $15205 no exemplo Para saber qual o produto nacional
da ilha em consideração. $15205 é líquido a custo de fatores – PNLcf –
o valor que reflete o produto gera- basta somar ao PILcf o valor das re-
Capítulo III • A Economia e a Renda Nacional 61
ceitas líquidas enviadas ao exterior mercado”. Fazendo a operação inversa ao que foi anteriormente feito, pode-
– RLEx – (que podem ser positivas ou se, agora, calcular o PIL a partir do PNL; para isso, basta adicionar ao PNL
negativas), uma sub-conta da conta as receitas líquidas enviadas ao exterior – RLEx. Assim, PIL = PNL + RLEx =
serviços do balanço de pagamentos $15015 + $700 = $15715. Esta é uma medida do produto ou renda gerada
da ilha. Admitindo que o saldo das internamente, embora parte dela seja apropriada por residentes em outros
receitas líquidas enviadas ao exte- países. Para transformar PIL em PIB (Produto Interno Bruto), basta somar ao
rior – RLEx – pela ilha do exemplo, PIL o valor da depreciação dos capitais da economia (D). Desta forma tem-
seja igual a $-700 (saldo negativo de se: PIB = PIL + D = $15715 + $3750 = $19465.
$700) o PNLcf será igual a $14505
($15205 - $700). Esta é a Renda Na- Em resumo, e na forma de equações, tem-se:
cional da ilha.
Renda Nacional = PNLcf = $14505
A partir da renda nacional pode- PNL = PNLpm = PNLcf + (Ti – Su) = $15015
se, facilmente, chegar ao conceito de PIL = PNL + RLEx = $15715
Produto Interno Bruto, ou PIB. Como
mencionado anteriormente, a partir e, finalmente:
do PNLcf pode-se chegar ao PNLpm –
Produto Nacional Líquido a preços PIB = PIL + D = $19465
de mercado – pela adição dos tribu-
tos indiretos menos subsídios: PNLpm, Existem sérias limitações ao uso das medidas PIB ou PILcf (Renda Nacio-
ou simplesmente PNL = PNLcf + (Ti – nal) como indicadores de bem-estar social. Dentre elas podem ser mencio-
Su) = $14505 + $510 = $15015. Estes nadas as associadas à poluição gerada pelos processos produtivos e a não
são valores efetivamente observados, computação da produção que não é transacionada no mercado. Como o
portanto chamados de “a preços de processo de privatização da produção ainda não foi completado em qua-
62 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
se todas as economias do mundo (o nacional do país. Mas no caso de Anotações
manejo da poluição associada ou de uma dona de casa de Bangladesh,
externalidades negativas), o seu cus- por exemplo, que gasta muitas horas
to continua sendo um problema das diárias pilando arroz para prepará-lo
respectivas sociedades, ou comuni- para o consumo da família, o valor
dades. Quando a privatização for do seu trabalho não é computado na
completada, as empresas, e conse- respectiva renda nacional. É assim,
qüentemente as famílias, receberão porque seu trabalho não correspon-
os benefícios ou remunerações aos de a transações de mercado e é de
fatores de produção que comandam, difícil mensuração. Portando, dizer
mas serão responsabilizadas pelos que a renda nacional alemã é tan-
custos da respectiva recuperação am- tas vezes maior que a de Bangladesh
biental. Até lá, as sociedades estarão é tenebroso porque estas distorções
sujeitas ao que Garret Hardin3 deno- estão presentes. No entanto, embora
minou de “a tragédia dos comuns”. longe de ser uma medida perfeita de
No caso de transações fora do mer- bem-estar, a renda nacional é, ainda,
cado pode-se considerar o exemplo a forma mais sintética e aceita inter-
do trabalho das donas de casa que nacionalmente de medir a capacida-
não é computado na renda nacional. de produtiva de uma economia.
Assim, quando uma mulher alemã,
por exemplo, trabalha fora de casa, A distribuição da renda entre
numa indústria qualquer, o valor do os habitantes de um país é um dos
seu trabalho é computado na renda critérios que permite inferir sobre o
3 HARDIN, Garret. The Tragedy of the Commons. Sci- grau de justiça daquela sociedade.
ence, Dec. 1968.
Capítulo III • A Economia e a Renda Nacional 63
A distribuição da renda no Brasil é considerada muito ruim. Quando se tuitiva, após o entendimento do que
divide a população do país nos percentis – listados como os 10% mais é a renda nacional. Foi dito que a
pobres, seguidos pelos próximos 10% mais pobres etc., até os 10% mais ri- renda nacional ou o PIB podem ser-
cos – verifica-se uma forte concentração da apropriação da renda nacional vir para medir a capacidade de uma
pelas frações mais ricas da população economicamente ativa. De fato, o economia produzir bens e serviços.
1% mais rico da população economicamente ativa do país recebe cerca de Este esforço produtivo tanto pode ser
13% de toda a Renda Nacional, enquanto os 20% mais ricos se apropriam visto do lado da remuneração dos fa-
de mais de 60% dela. O Professor Roberto Campos dizia que no Brasil to- tores primários de produção quanto
dos eram favoráveis à distribuição da renda, dos outros. Quando é proposta do lado do uso dado aos produtos e
alguma política de efetiva redistribuição da renda, tirando de alguns para serviços finais da economia. Como
transferi-la a outros, os grupos corporativos têm mostrado que a fina ironia são utilizados os bens e serviços fi-
do Professor Campos corresponde a mais pura verdade. A universalização nais produzidos na economia? Pelo
das oportunidades educacionais, medida tida em todo o mundo como uma exemplo da ilha, pode-se dizer que
das únicas que leva a uma distribuição duradoura e justa da renda, parece o PIB gerado (os bens e serviços fi-
que nunca foi prioridade, de fato, para nenhum governo brasileiro. Só na nais produzidos na ilha) pode ser:
década passada o país conseguiu oportunizar a educação formal de 1º grau consumido pelas pessoas ou famí-
para todas as crianças; a pré-escola, no entanto, continua sendo um sonho lias (C); usado em gastos do governo
distante para uma enorme fração das crianças do país. Os testes que medem (G); investido, como novos estoques
a qualidade da educação do Brasil revelam que os sistemas educacionais de capitais instalados ou como au-
estão entre os piores nos grupos dos países desenvolvidos mais os emergen- mento nos estoques das empresas
tes que formam a OCDE. (I); ou exportado para o resto do
mundo (X). No entanto, é necessário
Algumas igualdades macroeconômicas ou equações de equilíbrio nos subtrair o total de produtos e servi-
mercados agregados podem ser exploradas de forma, mais ou menos, in- ços importados pela economia (M)
64 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
para que não seja superestimada a Uma primeira tentativa de expli- Anotações
capacidade produtiva da economia. car a determinação do produto (PIB)
Os valores de X e M correspondem, de uma economia pode ser conse-
respectivamente, à soma dos valores guida a partir da condição de equilí-
positivos e negativos das contas que brio dada por:
compõem o balanço em contas cor-
rentes (do balanço de pagamentos) Y = C + G + I + (X – M)
de uma determinada economia. As-
sim, pode-se formular matematica- Considerando-se que o consumo
mente a seguinte igualdade: pelas famílias depende, basicamen-
PIB = C + G + I + (X – M) te, da capacidade da sociedade de
gerar renda ou produto tem-se que:
ou, como gostam os economistas,
C = C(Y) significando que a quanti-
Y = C + G + I + (X – M)
dade de bens e serviços consumidos
quando se substitui o PIB por uma pelas famílias depende (é função) do
variável algébrica Y que representa o produto gerado. O gasto do governo
produto total de uma economia. Esta pode ser, inicialmente, tido como
igualdade da contabilidade nacional uma variável autônoma, ou determi-
pode, por outro lado, ser formulada nada fora do modelo. O governo es-
como condição de equilíbrio ma- colhe quanto quer consumir e imple-
croeconômico, ou teoria, quando se menta essa decisão política. Assim, G
tenta explicar os determinantes de = Go indicando que o governo esco-
cada um de seus componentes. lhe um valor qualquer Go para seus
Capítulo III • A Economia e a Renda Nacional 65
gastos. Ela é chamada variável política. O investimento
pode, neste modelo inicial, ser também determinado pelo
nível de atividade da economia, ou ser função do produto:
I = I(Y). Isto quer dizer que, dado a taxa de juros, os em-
presários decidem investir mais ou menos dependendo das
perspectivas de crescimento da renda ou produto. Final-
Cleverson Beje
mente, no modelo simplificado em consideração, pode-se
aceitar que (X-M), o saldo do balanço em contas corren-
tes, ou o uso externo dos bens e serviços produzidos pela
economia, também seja função do produto: (X – M) = (X
– M)(Y). Esta pressuposição é bastante intuitiva se conside-
ra que à medida que uma economia produz mais, com a
conseqüente sensação de maior riqueza das famílias, elas
tenderão a consumir mais produtos importados (inclusive
fazendo viagens internacionais). Se for considerado que
a exportação (X) depende de fatores externos ao modelo,
X = Xo ou, dito de outra forma, se
X = Xo e M = M(Y) elas são equivalentes a (X – M) =
(Xo – M)(Y).
Um modelo que explica o valor da renda, mantido
tudo o mais constante na economia, pode ser explicitado
pela equação:
66 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Y = C(Y) + Go + I(Y) + Xo – M(Y) que, sob a pressuposição de linearidade das Anotações
funções, pode ser facilmente analisado no gráfico mostrado na Figura 5. Se os
termos que dependem de Y forem colocados no mesmo lado da equação, ter-se-á:
Y – C(Y) – I(Y) + M(Y) = Go + Xo. Admitindo linearidade das formas fun-
cionais, na Figura 3.5 o produto de equilíbrio corresponde ao ponto A do
gráfico 4. A linha tracejada corresponde, na figura, aos pontos em que a
quantidade ofertada de produto é igual à quantidade procurada para uso
final pelas diversas entidades que compõem a economia. Com Y = Y0 esta
condição de equilíbrio está satisfeita e, portanto, estará determinada a ren-
da (Y) de equilíbrio neste modelo simplificado.
$
(c + I – m)Y
Y0
G0 + X0 < 45º
= 45º
Y
Y0
Figura 3.5 Determinação elementar do produto de equilíbrio.
4 Se C = c Y; I = i Y; e M = -m Y, onde c, i e m são constantes positivas, em geral menores que 1 (a unidade), por
pressuposição.
Capítulo III • A Economia e a Renda Nacional 67
Especificidades do
Setor Agropecuário
Vania Di Addario Guimarães
O setor agropecuário tem algu- cesso biológico, tanto na produção
mas características que o diferen- vegetal quanto animal. Isto implica
ciam de outros setores da economia que a produção requer um determi-
e que influenciam sobremaneira o nado período de tempo para ocor-
funcionamento dos seus mercados. rer e que as condições climáticas
influenciam este processo. Assim, a
Uma primeira característica é produção agropecuária em geral é
que a produção do setor é um pro- sazonal e variável. Isto afeta a estru-
tura de armazenagem, de industriali-
zação e transporte do setor.
A característica biológica do
processo produtivo da agricultura
implica também em uma defasagem
de tempo importante entre o mo-
mento em que o produtor rural toma
a decisão de produzir (o que, quanto
e como) e a obtenção da produção
planejada. Este hiato de tempo va-
Cleverson Beje ria de acordo com o produto sendo
68 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
menor para atividades de ciclo curto capacidade dos armazéns e plantas Anotações
e maior para as atividades de ciclo industriais ou o armazenamento e
longo. Isto implica que as decisões transporte a frio, mais caro do que o
de produção são tomadas com base convencional. A grande maioria dos
em expectativas, pois o produtor não produtos agropecuários é matéria-
sabe exatamente o quanto vai pro- prima para outros segmentos da eco-
duzir e qual o preço que irá receber nomia e não produto final. Mesmo
pela sua produção. Portanto, expec- os produtos da hortifruticultura não
tativa é palavra chave na atividade. chegam ao consumidor na forma
que são produzidos nas proprieda-
O produto agropecuário também des rurais, passando pelos processos
tem características que o diferenciam de classificação e padronização. A
de outros setores e que afetam a sua maioria dos produtos, no entanto,
comercialização. São produtos, em é base para um grande conjunto de
geral, perecíveis; a maioria é maté- atividades. É esta característica que
ria-prima e sua qualidade é variável. ressalta a idéia do Agronegócio – a
A perecibilidade dos produtos agro- agropecuária como base de susten-
pecuários pode ser analisada em tação de diversos outros setores.
comparação a produtos industriais.
Dentre o próprio setor há graus dife- Não é possível manter um pa-
rentes de perecibilidade, mas quanto drão de qualidade para quase todos
maior, maior o custo de armazena- os produtos agropecuários pela va-
mento, transporte e processamento riabilidade das condições climáticas
por exigir superdimensionamento da que afetam diretamente a produção.
Capítulo IV • Especificidades do Setor Agropecuário 69
Estruturas de mercado
Em alguns produtos esta dificuldade
é mais evidente como no caso das A estrutura de mercado se refere a características que influenciam o tipo
frutas. Por isto mesmo é que se ex- de concorrência e a formação de preços. É a maneira pela qual os mercados
plica o grande sucesso da produção se organizam e que determina as relações entre os vendedores no mercado,
frutícola na região nordeste sob irri- entre os compradores, entre vendedores e compradores e entre os atuais
gação. Controlando-se a água e com vendedores e os novos vendedores do mercado. Trata-se de identificar se
a regularidade das outras variáveis um determinado mercado é mais ou menos concentrado, o que irá determi-
(sol) é possível manter-se um padrão nar o processo de formação dos preços.
de qualidade para uma parcela da
produção. As características que indicam a estrutura de um mercado são:
a) O número de vendedores/compradores, ou seja, quantas empresas
E outra característica fundamen- vendem o produto em questão ou quantas empresas compram o pro-
tal do setor é o grande número de duto. O critério para definir se um mercado tem poucos ou muitos
produtores rurais, fazendo com que a produtores é a capacidade que cada produtor, individualmente, possui
produção seja obtida por milhares ou de alterar o preço de mercado ao decidir vender/comprar o produto.
milhões de produtores no país (além b) O grau de diferenciação do produto: o quanto o produto produzido
do resto do mundo). De fato, como pela firma A é igual ou diferente daquele produzido pela firma B. Se
será analisada a seguir, esta é uma eles forem essencialmente o mesmo produto do ponto de vista do
das características que fazem com comprador, o produto é dito homogêneo. Se, para o comprador, o
que a estrutura de mercado do setor produto da empresa A tem alguma diferença em relação ao da empre-
se aproxime da concorrência perfeita sa B, então há algum grau de diferenciação do produto. O extremo é
com muitas implicações importantes quando um produto é único, com apenas uma empresa vendedora.
que o produtor precisa conhecer para c) Existência de barreiras à entrada de novas empresas no mercado.
melhor gerir seu negócio. Trata-se de avaliar quão difícil é para que novas empresas se tor-
70 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
nem produtoras daquele bem ou serviço. Existem diferentes tipos Anotações
de barreiras à entrada de novos produtores/vendedores, tais como:
patentes de invenção; controle de algum fator estratégico no proces-
so produtivo (como tecnologia); atividades que precisam de escala
(produzir em grandes quantidades para obter menores custos); bar-
reiras legais, entre outras.
d) Facilidade de acesso às informações de mercado. Se trata de quão
fácil ou difícil é para as empresas atuais e potenciais, ter acesso à
informações do mercado, tais como: como produzir (conhecer a tec-
nologia) e qual a rentabilidade atual do negócio, por exemplo. O
quadro 4.1 apresenta dois extremos possíveis para estas característi-
cas.
Quadro 4.1 – Combinações de características que
influenciam as estruturas de mercado.
Número de Fluxo de
Mercado Produto Barreiras
vendedores informações
A Muitos Homogêneo Não há Livre
Não é possível
B Um Único Restrito
entrar
Os mercados A e B da tabela representam dois extremos e, entre eles há
uma grande variedade de combinações possíveis. Olhando para o lado ven-
dedor, o mercado B é denominado, pela teoria econômica, de monopólio.
Capítulo IV • Especificidades do Setor Agropecuário 71
O termo “pólio” significa vendedor, e é este tipo de estrutura que carac- se destinam ao mercado interno. Nes-
enquanto o termo para o lado com- teriza o setor agropecuário, na gran- te grupo estão: cogumelos frescos, al-
prador é “psônio” e, no caso de ape- de maioria dos produtos. gumas variedades de feijão, diversas
nas um comprador, seria um monop- olerícolas e frutas, flores, ervas aro-
sônio. Há, neste mercado, apenas É possível pensar no setor, sepa- máticas, algumas plantas medicinais,
um vendedor, cujo produto é único rando dois grandes grupos de produ- e muitos outros, bem como produtos
do ponto de vista dos compradores tos. Um grupo é formado pelas “com- gerados por processos produtivos di-
(portanto, ele não tem produtos subs- modities” ou “mercadorias” que são ferenciados tais como aqueles da pro-
titutos nem concorrentes) e, alguma os produtos produzidos no país e no dução orgânica.
das barreiras mencionadas acima, mundo, em grandes volumes, com
faz com que nenhuma outra empresa qualidade semelhante e que normal- De fato, os dois grupos de pro-
possa entrar neste mercado. mente, são comercializados com o dutos estão em mercados de con-
exterior (exportando ou importando). corrência perfeita, mas as estraté-
O mercado A é o outro extremo: Neste grupo estão, por exemplo, pro- gias dos produtores de um e outro
tem muitos vendedores; o produto dutos como grãos (soja, milho, trigo e grupo podem ser diferentes. A busca
gerado por cada empresa é consi- arroz), carnes (bovina, suína e frango), da redução de custo é uma estraté-
derado homogêneo pelo comprador leite, algodão, café e cana-de-açúcar gia importante em ambos os casos,
(tanto faz comprar de uma empresa (por meio de seus derivados açúcar e enquanto a busca de economia de
quanto da outra, pois o produto é o álcool). Outro grande grupo é com- escala é muito importante para com-
mesmo) e não há (ou são pequenas) posto por não commodities ou produ- modities enquanto a diferenciação
as barreiras para que novas empre- tos com algum grau de diferenciação. de produto é uma possibilidade para
sas possam se tornar produtoras/ven- São produzidos em menor volume, as não commodities.
dedoras. A estrutura do mercado A é com padrões de qualidade variando
chamada de “concorrência perfeita” entre produtores e que, normalmente, Há milhares de produtores de
72 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
soja (bem como das outras commo- é para um produtor rural obter estas Anotações
dities) no Brasil, além dos produtores informações sobre a cultura da soja
do mundo todo e nenhum produtor ou qualquer outra atividade do se-
rural individual de soja é grande o tor? Pouco, uma vez que tanto a pes-
suficiente (ou tem tanta soja) para quisa pública como a pesquisa pri-
influenciar o preço do produto no vada disseminam, da maneira mais
mercado (nem local, nem nacional e ampla possível, as suas descobertas.
muito menos internacional) se deci- Novas cultivares e outros produtos
dir vender ou estocar sua produção. provenientes do melhoramento ge-
A soja produzida em qualquer pro- nético vegetal e animal; resultados
priedade rural tem as mesmas carac- experimentais com adubação ou
terísticas gerais de qualidade o que novas formulações de alimentação
torna o produto “homogêneo”. Além animal; de novos agroquímicos e
disso, não é segredo para ninguém medicamentos, e assim por dian-
que tenha interesse em saber, as in- te, são amplamente divulgadas aos
formações de mercado. produtores rurais por meio da assis-
tência técnica, de publicações, dias
A questão da informação de mer- de campo, seminários, exposições,
cado é tão importante que merece de conversas com os vizinhos e de
uma reflexão. Um grupo importante tantas outras formas. A razão econô-
de informação é sobre a tecnologia mica disto será discutida à frente. O
de produção ou sobre como produzir fato, é que este tipo de informação
– informações estas, que provêm da flui facilmente para os produtores e
pesquisa agropecuária. Quão difícil muitas delas, sem custo para ele.
Capítulo IV • Especificidades do Setor Agropecuário 73
Da mesma forma, chegam aos de uma tecnologia de produção, ao Nem é preciso ser dono de terras
produtores rurais informações rela- contrário do que ocorre em diversas para isto, basta ter a possibilidade de
tivas à rentabilidade das atividades. atividades urbanas tais como pro- seu uso, como faz um arrendatário.
Por exemplo, quando uma cultura gramas de informática, produção de
está dando lucro, não é difícil para medicamentos, entre outras. E mes- IMPLICAÇÕES
outros produtores perceberem isto e mo em setores urbanos que atendem
passem a produzi-la. Os preços dos ao rural como o segmento de medi- Esta estrutura de mercado mais
produtos são o primeiro indicador da camentos e agroquímicos, nos quais próxima da concorrência perfeita
rentabilidade de uma atividade. Há as empresas detêm patentes sobre traz conseqüências importantes para
no Brasil, e também no mundo intei- os produtos que desenvolveram, ao o setor. Três merecem destaque. A
ro, fontes de informações de preços menos por algum período de tempo. primeira é que o lucro no setor ten-
agropecuários, muitos dos quais são Um produtor de soja não encontrará de a zero no longo prazo; a segunda
públicas e gratuitas, pois se tratam de grandes dificuldades em aprender a é que o maior beneficiado pelos ga-
órgãos governamentais. Assim, é rela- cultivar algodão, ou feijão, ou milho nhos de produtividade gerados pelo
tivamente fácil acompanhar os preços ou qualquer outra cultura. Não é o setor rural é o consumidor e não o
dos produtos do setor e saber quais conhecimento da tecnologia de pro- produtor e a terceira é que o setor
estão altos e quais estão baixos. Este dução que impede novos produtores tende a sofrer intervenções governa-
é um primeiro elemento para produ- de entrar em determinado mercado. mentais na grande maioria dos paí-
tores decidirem o que produzir. Ao tomar conhecimento do fato de ses do mundo.
que o preço da mandioca raiz saltou
Considera-se que são poucas as de 62 para 370 reais, o que impede O conceito de lucro em eco-
barreiras à entrada de novas empre- um agricultor de plantar mandioca nomia significa a diferença entre a
sas no setor. Nenhum produtor rural buscando obter, ele também, uma receita total (dada pelo volume pro-
tem patente sobre um produto ou maior rentabilidade de sua terra? duzido multiplicado pelo preço de
74 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
mercado) e o custo total (que signi- vertical. A oferta (O) é relacionada Anotações
fica remunerar todos os fatores de aos custos das empresas e é positiva-
produção – ou capitais, como apre- mente inclinada, indicando que os
sentado no capítulo 3 – utilizados no vendedores estão dispostos a vender
processo produtivo). Há lucro quan- quantidades maiores a preços mais
do a receita supera o custo, prejuízo altos. A demanda (D) é relacionada
quando a receita é inferior ao custo e às preferências e ao poder aquisiti-
empate quando são iguais. Empresas vo dos compradores, entre outros
com lucro podem crescer enquan- fatores, e representa as quantidades
to empresas com prejuízo tendem que estão dispostos a comprar aos
a sair da atividade e empresas com diferentes níveis de preços. Há uma
lucro zero estagnam onde estão. relação inversa entre os preços e as
Como a informação é livre, são mui- quantidades que os compradores es-
tos produtores e não há significati- tão dispostos a adquirir. O preço de
vas barreiras à entrada, preços altos mercado, ou o equilíbrio de merca-
de qualquer produto tendem a atrair do, se dá onde as curvas de oferta
novos produtores, que aumentam a e demanda se cruzam – quando as
oferta reduzindo os preços. quantidades oferecidas e procuradas
se igualam e as transações ocorrem.
O preço de mercado se forma Ao representar um mercado desta
pela interação entre oferta e deman- forma, as quantidades são totais, so-
da (ou procura) representados na fi- mando as quantidades ofertadas por
gura 4.1, na qual a quantidade está todos os vendedores e adquiridas
no eixo horizontal e o preço no eixo por todos os compradores.
Capítulo IV • Especificidades do Setor Agropecuário 75
Se o mercado é de concorrência perfeita, quem define o preço de mercado é o conjunto de vendedores e o
conjunto de compradores, uma vez que nenhum deles individualmente poderá comprar ou vender a um preço di-
ferente do preço de equilíbrio. Considere agora que o preço de equilíbrio inicial P0 proporcione lucro para os atuais
vendedores. Dada a estrutura do mercado, esta informação se dissemina e, por ter poucas barreiras à entrada de
novas firmas, mais empresas estarão dispostas a produzir. Como a oferta é a soma das quantidades de todas as fir-
mas vendedoras, se há mais empresas então as quantidades ofertadas aos diferentes níveis de preços serão maiores.
Isto se representa movendo a curva da oferta para a direita. Se as preferências e o poder aquisitivo dos compradores
não mudarem, a função de demanda ficará no mesmo lugar e o novo equilíbrio serão alcançados ao preço P1 e
quantidade Q1. O resultado final neste mercado é que a quantidade de equilíbrio aumenta e o preço cai.
O’
P0
P1
D
Q
Q0 Q1
Figura 4.1 – Oferta, demanda e equilíbrio de mercado
76 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Se o preço P1 ainda permitir lucro às empresas vendedoras, é possível Anotações
que novas empresas passem a produzir e vender, deslocando a curva de
oferta mais para a direita e reduzindo ainda mais os preços. Em algum
momento o preço será baixo o suficiente para gerar prejuízos às empresas
e diversas deixam de produzir, reduzindo a oferta e tornando a elevar os
preços. Quando se diz que a tendência do setor agropecuário é de que o
lucro tende a zero, significa que, ao longo do tempo, o preço de mercado
tende a se igualar ao custo total de produção, mas momentos de lucro e de
prejuízo irão ocorrer. Os produtores rurais sabem bem que ora têm lucro
e ora perdas e a razão é a estrutura do mercado, que ele não pode mudar,
mas compreender isto é um passo para gerir seus negócios. A figura 4.2
apresenta os preços médios mensais de milho recebido pelos produtores,
deflacionados pelo IGP-DI, de janeiro de 1992 a agosto de 2008 e exem-
plifica bem as variações de preços analisadas acima. Note que os preços da
agricultura são muito variáveis, tanto pela estrutura de mercado quanto pe-
las intempéries climáticas que afetam a oferta e por mudanças na demanda.
Mas nitidamente a tendência dos preços ao longo do tempo é decrescente.
Para qualquer produto agropecuário o comportamento é o mesmo, quando
se avaliam prazos mais longos e considerando sempre a inflação no tempo,
especialmente no caso de commodities.
Capítulo IV • Especificidades do Setor Agropecuário 77
36
34
32
30
28
Em reais por saca 26
24
22
20
18
16
14
12
Jan/92
Jan/93
Jan/94
Jan/95
Jan/96
Jan/97
Jan/98
Jan/99
Jan/00
Jan/01
Jan/02
Jan/03
Jan/04
Jan/05
Jan/06
Jan/07
Jan/08
Figura 4.2 – Evolução dos preços médios mensais deflacionados do milho ao produtor, janeiro/1992 a
agosto/2008.
Ao mesmo tempo em que os preços deflacionados são decrescentes, a vência. Quem não adotar as novas
produção, no Brasil e no mundo, é crescente ao longo dos anos. Como é tecnologias fica com custo mais alto
possível produzir mais vendendo por menos? A resposta é tecnologia – os do que os outros que adotam e aca-
produtores procuram novas tecnologias (cultivares mais produtivas, agro- bará excluído da atividade.
químicos mais eficientes, entre muitas outras opções) que lhes permitam re-
duzir o custo de produção por cada unidade produzida (saca, quilo, arroba Aqui vem a segunda implica-
etc.) de maneira que preços mais baixos não significam, necessariamente, ção mencionada. O ganhador das
lucro menor. De fato, para produtores rurais, adotar novas tecnologias que inovações tecnológicas que o setor
reduzam seu custo de produção não é uma opção. É questão de sobrevi- agropecuário gera é o consumidor.
78 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Observe que, se um produtor rural ser encontrada em diversos livros Anotações
adota uma tecnologia que reduz seu sobre teoria econômica, alguns dos
custo de cada unidade produzida, quais estão citados nas referências
ele terá lucro aos preços de mercado bibliográficas, para aqueles interes-
vigentes e poderá produzir mais por- sados em se aprofundar no assunto.
que a lucratividade da sua proprie-
dade aumenta. Como a informação Esta alta variabilidade nos pre-
flui no setor como discutido acima, ços dos produtos agropecuários, de-
outros produtores saberão que esta monstrada como no exemplo pela
tecnologia é vantajosa e tendem figura 4.2, ocorre pelas razões men-
adotá-la também. De fato, a ten- cionadas e por outra característica
dência é que a grande maioria dos relacionada ao lado da demanda
produtores adote a nova tecnologia, pelos produtos do setor. Deman-
aumentando a oferta (como na figura das denominadas “inelásticas” pela
4.1) e reduzindo preços. O principal teoria econômica são aquelas em
ganhador é o lado comprador que que variações nas quantidades são
pode adquirir mais produtos a pre- acompanhadas por variações mais
ços menores. Essa é uma das princi- que proporcionais nos preços, ou
pais razões econômicas pelas quais seja, um aumento de 1% na quan-
sociedades do mundo inteiro têm es- tidade demandada é acompanhado
truturas públicas de pesquisa tecno- por uma redução de mais de 1% nos
lógica para a agropecuária. Todos os preços (por exemplo) e vice-versa.
conceitos econômicos apresentados Este é o tipo de demanda predomi-
têm base teórica científica que pode nante para os produtos do setor, au-
Capítulo IV • Especificidades do Setor Agropecuário 79
mentando ainda mais a variabilida- razão para que o setor sofra interven- objetivos das políticas macroeconô-
de dos preços, já relativamente alta ções governamentais em quase todo micas de qualquer país envolvem,
pela instabilidade na produção, no o mundo – países ricos e pobres. por exemplo: combater a inflação,
mínimo pelo efeito climático. A figu- Ora a intervenção é para favorecer manter a economia crescendo ge-
ra 4.1 permite visualizar este efeito. o setor e ora para favorecer o con- rando emprego e renda e promover
Quando a oferta se deslocou para a sumidor. Em momentos de preços uma distribuição menos desigual
direita, a redução no preço de mer- muito baixos não é raro governos desta renda. Para atingir seus obje-
cado foi proporcionalmente maior incentivarem a produção por algum tivos os governos dispõem de instru-
do que o aumento na quantidade de meio, tentando evitar reduções de mentos denominados em geral de
equilíbrio de mercado. Saindo do oferta que levariam a preços muito políticas macroeconômicas a serem
ponto 1 para o ponto zero, verifica- maiores nos períodos à frente. Ora analisadas nos próximos módulos. O
se que uma redução na quantidade adotando políticas de contenção de importante aqui é compreender que
de equilíbrio (de Q1 para Q0) é re- alta de preços protegendo os consu- o setor agropecuário, assim como os
lativamente menor do que a alta do midores. demais setores de uma economia é
preço (de P1 para P0). Os produtos afetado por estas políticas, ora sendo
do setor agropecuário têm grande beneficiado e ora sendo penalizado.
importância nos gastos das famílias Agricultura e
urbanas – mais importante para fa- macroeconomia Ao procurar conter um processo
mílias de renda baixa e média e me- inflacionário no país o governo pode
nos naquelas de renda alta. As va- A macroeconomia trata dos intervir nos mercados agropecuários
riações nos preços do setor afetam agregados econômicos de um país que têm, como visto, grande impor-
tanto a renda dos produtores quanto tais como, renda, emprego, produ- tância nos gastos (e, portanto, na
dos consumidores. Esta é a principal ção e balanço de pagamentos. Os renda) dos consumidores, que são
80 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
majoritariamente urbanos. No passado o setor foi duramente controlado Anotações
pelo governo, tendo seus preços tabelados, congelados ou suas exportações
suspensas ou ainda gravadas por impostos de exportação. A partir dos anos
90 a abertura da economia se deu inicialmente nos produtos da agropecu-
ária, expondo o setor a concorrentes internacionais mais competitivos, que
acabaram reduzindo os preços de alguns produtos no mercado interno, via
importações mais baratas. Não deixa de ser uma maneira de controlar a
inflação comprando lá fora, a preços menores.
Se, além da possibilidade de importar, a moeda nacional está valoriza-
da (poucos reais por dólar, por euro ou outra moeda), as importações em
reais ficam mais baratas reduzindo os preços internos. O câmbio de fato é
uma variável chave no setor agropecuário e no agronegócio como um todo,
uma vez que o setor no Brasil é francamente exportador em seu conjunto,
mas sem dúvida com maior força nas commodities.
Capítulo IV • Especificidades do Setor Agropecuário 81
A tabela 4.2 apresenta os saldos da balança comercial brasileira e do O câmbio também impacta os
agronegócio de 1994 até o acumulado de janeiro a agosto de 2008. custos do setor agropecuário, pois
diversos fatores de produção têm
Tabela 4.2 – Saldos da balança
comercial, do Agronegócio, demais setores da economia seus preços baseados em dólar. Os
e total Brasil, 1994 a 2008, em US$ bilhões.
fertilizantes são um bom exemplo,
Demais uma vez que o Brasil é importador e
Ano Agronegócio Brasil
setores
1994 13,43 -2,96 10,47
o comércio internacional determina
1995 12,26 -15,72 -3,47 os preços nos diferentes países. Os
1996 12,21 -17,80 -5,60 defensivos também são influencia-
1997 15,17 -21,94 -6,76 dos pelo câmbio, uma vez que mui-
1998 13,51 -20,13 -6,62
tos princípios ativos são importados
1999 14,80 -16,09 -1,29
2000 14,84 -15,57 -0,73
ou de propriedade de empresas mul-
2001 19,06 -16,37 2,68 tinacionais que fixam seus preços de
2002 20,39 -7,20 13,20 venda em dólares.
2003 25,90 -1,02 24,88
2004 34,20 -0,36 33,84
A taxa de juros é outra variável
2005 38,51 6,42 44,93
2006 42,77 3,69 46,46 que afeta o setor, tornando mais caro
2007 49,70 -9,68 40,02 ou mais barato produzir, uma vez
2008 59,99 -35,25 24,74 que a grande maioria dos agriculto-
Fonte: SECEX e MAPA
res precisa de crédito para produzir,
Em momentos de moeda nacional valorizada, o setor agropecuário é especialmente no caso de lavouras
prejudicado, pois tem seus preços em reais reduzidos. Por outro lado, nos que tendem a envolver altos desem-
momentos de moeda desvalorizada (como em 2002 e 2003, por exemplo) bolsos no processo produtivo. Já na
o setor é beneficiado, pois os preços em reais aumentam. pecuária os desembolsos tendem a
82 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
ser relativamente menores, mas ain- rifárias e não tarifárias ao comércio Anotações
da assim, há necessidade de recursos internacional. Tais medidas podem
especialmente na formação e refor- ser tomadas pelo governo brasileiro
ma de pastagens. Juros altos elevam ou pelos governos dos outros países
os custos de produção do setor rural, do mundo, ampliando ou reduzindo
assim como impactam os demais se- o comércio internacional e afetando
tores da economia do país. Além da diretamente a produção e os preços
produção, juros altos encarecem o tanto no país exportador quanto no
armazenamento da produção, como importador. Como o setor rural bra-
poderá ser constatado no capítulo sileiro é francamente exportador,
de estratégias de comercialização. qualquer medida deste escopo afeta
Os juros têm ainda uma grande in- o setor.
fluência sobre os investimentos de
um país. Ao final do Programa Em- Esta análise pode ser feita a partir
preendedor o participante compre- da figura 4.3, que apresenta uma es-
enderá com clareza esta influência, trutura metodológica para o comér-
pois poderá medi-la em seu próprio cio entre duas regiões, que podem
projeto. Com juros altos os inves- ser dois países ou duas cidades. Para
timentos diminuem afetando direta- que haja comércio entre duas re-
mente o crescimento da economia. giões há necessidade de que:
a) haja diferenciação nos custos
Outras medidas na esfera agre- de produção, de modo que uma
gada podem influenciar o setor ru- região tenha vantagem compa-
ral. Entre elas estão as barreiras ta- rativa em relação à outra.
Capítulo IV • Especificidades do Setor Agropecuário 83
b) as diferenças de preços entre P0I gera um excesso de demanda (ED), que é a diferença entre as curvas de
ambas as regiões devem pelo demanda e oferta nesta região. Esta diferença foi transportada para o gráfico
menos cobrir os custos de do meio. O excesso de demanda vem da região importadora e começa a
transporte. existir para preços inferiores a P0I e o excesso de oferta vem da região ex-
portadora para preços superiores a P0E. O encontro das curvas de excesso
P0E é o preço que vigoraria na re- de oferta e de demanda é que determina quanto será comercializado entre
gião exportadora se toda a sua pro- as regiões.
dução fosse consumida localmen- P P P
Eo = (OE – DE) OI
PI0
te (a quantidade de equilíbrio seria oE
PI2
0E 0E
Q ). Qualquer preço superior a P P1 P1
c d
P1 a b a b
gera um excesso de oferta (EO), me-
PE2 c d
dido pela diferença entre as curvas
PE0
de oferta e demanda para preços DE ED = (DI – OI) DI
superiores a P0E. Esta diferença está QDE1 Q0E QOE1 Q Q2 Q1 Q QOI1 QIo QDI1 Q
transposta no gráfico do meio que se Região exportadora (E) Comércio entre as duas regiões Região importadora (I)
refere aos excessos de oferta da re- Figura 4.3 – Comércio entre duas regiões
gião exportadora e de demanda da
região importadora. Se o custo de transporte fosse zero, o preço em ambas as regiões de-
veria ser igual (P1). Neste nível de preço, a região exportadora produz a
P0I é o preço que vigoraria na re- quantidade QOE1 enquanto o consumo local reduz para QDE1 sobrando uma
gião importadora se o seu consumo quantidade de produto igual a QOE1 − QDE1. Para o mesmo nível de preço
fosse atendido apenas pela produção (P1), a oferta na região importadora seria de QOI1 unidades, mas a demanda
local e a quantidade de equilíbrio seria de QDI1 unidades, um excesso de demanda correspondente à diferença
seria Q0I. Qualquer preço abaixo de entre a quantidade demanda e ofertada. Neste caso, a região importadora
84 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
compraria da região exportadora a quantidade Q1, que é igual ao segmento Anotações
ab tanto no gráfico da região importadora quanto da exportadora e exata-
mente igual ao excesso de demanda existente na região importadora e ao
excesso de oferta da região exportadora ao preço P1. O resultado da possi-
bilidade de comércio é que o preço na região produtora seria maior do que
sem o comércio, o que estimularia a produção local nesta região. Na região
importadora o preço seria menor do que sem o comércio, o que significa
um desestímulo à produção local e um aumento no consumo, cujo déficit
de oferta seria complementado pela importação.
O custo de transporte é expresso em $/unidade e pode ser representado
por uma linha vertical, paralela ao eixo do preço (que também é dado em
$/unidade). O custo de transporte está representado pelo segmento tt’ no
gráfico que representa o comércio (do meio) e onde o segmento tocar as
curvas de excesso de oferta e de demanda, determinará a quantidade a ser
comercializada com este custo (Q2), menor do que no caso do custo zero
para o transporte. O preço na região exportadora passa a ser P2E e na região
importadora, P2I. O resultado do custo de transporte tt’ sobre os dois mer-
cados pode ser resumido da seguinte forma. Haverá diminuição no volume
comercializado entre as regiões (cd < ab), redução no preço na região ex-
portadora e um aumento no preço da região importadora. Portanto, quanto
maior o custo de transporte, menor o estímulo ao comércio entre regiões e
vice-versa.
Capítulo IV • Especificidades do Setor Agropecuário 85
Considere que a figura representa o comércio atual de carne suína entre o Brasil (região exportadora) e a Rús-
sia (região importadora). Unilateralmente, a Rússia decide impor um imposto de importação sobre a carne suína
brasileira. Isto significa que, para o comprador russo, a carne suína brasileira fica mais cara (pagando o imposto ao
governo russo para comprar do Brasil). O resultado desta medida pode ser visualizado na figura 4.4
P P E1 = (O1E – DE) P
OI
Eo = (OE – DE) PI0
oE
PI3
PI2 c d
P1
P1
P1
PE2 c d
PE3
P0E
DE ED = (DI – OI) DI
Q Q3 Q Q Q
QDE1 Q0E QOE1 2 QOI1 QDI1
REGIÃO EXPORTADORA (E) COMÉRCIO ENTRE AS DUAS REGIÕES REGIÃO IMPORTADORA (I)
Figura 4.4 – Comércio entre duas regiões com imposto de importação
Na figura, a imposição do imposto desloca o excesso de oferta do país exportador para a esquerda. Mantido
o custo de transporte, o novo equilíbrio se dará no ponto 3, com menos comércio, menor consumo e maior preço
no país importador; menor produção e preços menores no país exportador. O ônus desta política é repartido entre
os produtores brasileiros, que vendem menos a preços menores e pelos consumidores russos, que compram menos
a preços maiores do que na situação inicial.
86 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Anotações
Capítulo IV • Especificidades do Setor Agropecuário 87
A Família e a
Propriedade Rural
Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka
Estatuto Jurídico da os direitos de crédito; os direitos sobre um imó-
Propriedade Agrária vel etc.
TEORIA DA PROPRIEDADE
a. Necessidade de precisão conceitual • Propriedade como qualidade de direito patrimo-
nial: nesta acepção, o termo propriedade refere-
O objetivo deste capítulo é delinear o regramento jurí- se a toda sorte de direitos avaliáveis monetaria-
dico da propriedade agrária e, para tanto, é necessário ini- mente, sendo excluídos, por exemplo, os direitos
cialmente fixar o conceito de propriedade, para, depois, puramente de personalidade como o direito à
conhecer as peculiaridades da propriedade rural. identidade.
Propriedade é um termo equívoco, podendo signifi- • Propriedade como uma coisa: nesta acepção –
car, ao menos, quatro situações distintas: diga-se, a menos técnica – a propriedade é tida
como o próprio objeto do direito. Assim, por
• Propriedade como qualidade de tudo que é pró- exemplo, a propriedade seria a fazenda, e não o
prio: nesta acepção, o termo propriedade signi- direito sobre a fazenda.
fica toda e qualquer situação jurídica submetida
a um titular. Assim, são próprios os direitos de • Propriedade como direito real pleno ou domínio:
personalidade como o nome e o direito de autor; finalmente, nesta acepção, tem-se a propriedade
88 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
como o direito real pleno ou domínio, vale dizer, aquele que confere Anotações
ao seu titular as faculdades de usar, gozar, dispor e reaver o bem de
quem quer que injustamente o possua ou detenha. É nesta última
acepção que o termo propriedade será utilizado daqui por diante.
Fixada a acepção do termo propriedade1, resta esclarecer que não há
apenas um regime jurídico capaz de abranger todas as possibilidades de ma-
nifestação desse direito, ou seja, há mais de um estatuto jurídico da proprie-
dade, o que autoriza afirmar a existência de um estatuto jurídico da proprie-
dade agrária, um da propriedade urbana, um da propriedade pública etc.
Contudo, em que pese a existência de notas distintivas que não permi-
tem falar em um regime jurídico único, a propriedade possui traços que se
repetem, seja qual for seu estatuto jurídico regulador. É possível apontar
pelo menos dois traços comuns a qualquer regime jurídico de propriedade
– entendida esta, como sinônimo de domínio – a sua colocação entre os
chamados direitos reais e a existência de faculdades a ela inatas.
Assim, então, convém analisar os aspectos gerais da noção de proprie-
dade para, depois, ingressar no estatuto jurídico da propriedade rural.
1 Para uma leitura mais aprofundada sobre propriedade e seus contornos jurídicos, leia-se Direito das Coisas, de
Luciano de Camargo Penteado, ed. Revista dos Tribunais.
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 89
b. Direitos reais: noções iniciais teoria realista: é a que acredita ser
possível uma relação jurídica entre
O Código Civil trata, em seu Livro III da Parte Especial, dos Direitos a pessoa e a coisa, dispensando-se
das Coisas e, já no Título II, utiliza a nomenclatura de Direitos Reais, sen- a figura de um sujeito passivo. Para
do, portanto, importante consignar que não são expressões sinônimas. Ao esta teoria, a relação jurídica dar-
contrário, o termo Direito das Coisas é mais amplo, englobando, além dos se-ia tão-somente entre o titular do
Direitos Reais, a Posse e os Direitos de Vizinhança. direito real (o proprietário dono de
uma fazenda, por exemplo) e o ob-
Assim, é possível conceituar direitos reais como sendo o conjunto de jeto sobre o qual ele exerce seu do-
princípios e normas que regula a relação entre pessoas formada em torno mínio (a fazenda propriamente dita);
de coisas. (ii) teoria personalista: surgiu como
reação à teoria realista e entende que
Há duas principais teorias informadoras dos direitos reais, a saber: (i) não há relação jurídica entre pessoa
e coisa (ou bem), e sim entre pessoas
com vistas a bens. Os bens existem
para servir à sociedade, sendo que
todo vínculo de direito tem por pres-
suposto a pessoa humana.
Na atualidade, há uma evidente
preferência pela corrente persona-
lista, porque, afinal, não é aceitável
mesmo que possa existir contrapo-
sição de direitos e deveres (relação
Cleverson Beje
90 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
jurídica, em última palavra) entre dos’). Dito com outras palavras, ele Anotações
bem e pessoa humana. O que há, na pode exigir de quem quer que seja
verdade, é mera sujeição do bem ao que se abstenha de praticar qualquer
poder (domínio) da pessoa, que, so- ato que ameace o exercício legítimo
bre ele, então, exerce direitos. de seu direito. Assim, por exemplo,
o proprietário pode impedir que ter-
As principais características dos ceiros usem o bem que lhe pertence,
chamados direitos reais são as se- ou que invadam sua propriedade. (ii)
guintes, portanto: (i) absolutismo: seqüela: esta característica do direito
embora a força da expressão, não real significa que sua dimensão adere
significa que o titular do direito real (por assim dizer) ao bem, submeten-
(o proprietário, por exemplo) possa do-o diretamente ao domínio de seu
agir como bem quiser em relação ao titular. Como conseqüência disso, o
seu bem, mesmo porque está consti- titular do Direito Real pode buscar
tucionalmente obrigado a destiná-lo (juridicamente) o bem das mãos de
ao cumprimento de sua função so- quem quer que injustamente o pos-
cial, como veremos mais adiante. O sua ou detenha. Assim, por exemplo,
absolutismo, como característica do se João, mediante fraude, “vende” a
direito real significa que o seu titular Paulo um bem pertencente a Carlos,
tem o poder jurídico de fazer valer e Paulo de boa-fé o aliena a Maria,
seu direito contra todas as demais Carlos poderá reivindicar para si
pessoas do universo (juridicamen- (como decorrência da característica
te isso se denomina ‘oponibilidade que se examina, a seqüela) o bem
erga omnes’, e significa ‘contra to- em mãos de Maria, independente-
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 91
mente de ela estar ou não de boa-fé; cumpre anotar que os direitos re- Já na classe dos direitos reais sobre
(iii) numerus clausus: os direitos re- ais de garantia cedem passo a al- coisa alheia sofre uma divisão em três
ais – justamente porque geram aque- guns créditos com preferência legal grupos: (i) direitos reais de gozo (com-
le dever de abstenção para todas as como, por exemplo, o trabalhista e o preendem a enfiteuse, a superfície, as
demais pessoas que não sejam o seu acidentário. Assim, se certa pessoa é servidões, o usufruto, o uso e a habi-
titular – são criados pela lei e só pela credora e tem hipoteca sobre o imó- tação); (ii) direito real de aquisição (só
lei. Numerus clausus significa, então, vel, terá preferência no recebimento há um direito real de aquisição, que é
que existe um número fechado de do crédito com relação aos credores o direito do promitente comprador do
direitos reais; só a lei os cria e enu- que não têm a garantia preferencial imóvel); e (iii) direitos reais de garantia
mera. Devemos lembrar que, pelo (são chamados de quirografários); (v) (compreendem o penhor, a hipoteca,
princípio constitucional da legalida- exclusividade: sobre o mesmo bem e a anticrese).
de, ninguém é obrigado a fazer ou ao mesmo tempo, não incidem dois
deixar de fazer algo senão em virtu- direitos reais idênticos. c. Noções sobre a propriedade
de de lei; ora, se o direito real gera
aquele dever universal de absten- Os direitos reais2 são divididos em A propriedade é o direito real
ção já mencionado (ninguém pode duas grandes classes, quais sejam, a por excelência, ela é o astro princi-
atrapalhar o proprietário no uso da do direito real sobre coisa própria e a pal em torno do qual gravitam todos
coisa), tal dever só pode decorrer da dos direitos reais sobre coisas alheias. os demais direitos reais. Com efeito,
lei, sob pena de inconstitucionalida- O único direito real sobre coisa pró- é do desmembramento do direito de
de; (iv) preferência: o titular de um pria é o direito real de propriedade. propriedade que surgem todos os
direito real de garantia tem a prerro- demais direitos reais. Explica-se: a
2 Neste Programa não há a necessidade de se con-
gativa de receber seus créditos antes hecer em detalhes, esta classificação de direitos reais, propriedade é o resultado da soma
bastando menção, como se faz. Se houver interesse em
de outros credores que não possuem aprofundamento dos conceitos, recomenda-se a bus- de diversas faculdades (abaixo eluci-
ca do assunto nos sites jurídicos, como por exemplo:
essa espécie de garantia. Contudo, <[Link] dadas), sendo certo que quando uma
92 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
ou algumas delas se afastam do proprietário surgem os demais direitos reais. Anotações
Assim, quando a faculdade de usar, por exemplo, é apartada do direito real
de propriedade, pode surgir para um terceiro o direito real de uso3.
A propriedade, direito real protótipo que é, repete as características da
categoria direito real; assim, apenas cabe analisar aquelas que lhe são pe-
culiares. Vejamos:
• Exclusividade: a palavra exclusividade deriva do vocábulo excluir,
significando, neste caso, que o proprietário exerce seu direito sobre
o bem com a exclusão de qualquer outra pessoa, ou seja, não é pos-
sível que duas ou mais pessoas sejam proprietárias do mesmo bem,
na mesma proporção e ao mesmo tempo. Em que pese aparente sim-
plicidade da noção de exclusividade, há uma questão que sempre
atormenta os que têm contato com essa característica pela primeira
vez: no caso do condomínio, se duas ou mais pessoas são donas do
mesmo bem, como fica a exclusividade? A essa questão responde-se
que, de fato, no caso de condomínio, duas ou mais pessoas exerce-
rem o domínio sobre certo bem (‘co significa junto e domínio signi-
fica propriedade), sendo esse o conceito de condomínio. No entanto
– e apesar de os condôminos exercerem propriedade sobre o mesmo
bem e ao mesmo tempo – eles não o fazem na mesma proporção,
3 Diz-se que pode surgir porque nem todo destacamento das faculdades dominiais gera direito real, como por
exemplo o comodato ou a locação que são apenas contratos, mas não direitos reais.
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 93
pois só exercem suas faculdades de dono sobre fração ideal da coisa. • Elasticidade: significa que a
E, caso um dos condôminos utilize com exclusividade a coisa co- propriedade se desmembra
mum, deverá pagar aos demais uma remuneração pelo uso da parte em tantas quantas forem as
que não corresponde à sua fração ideal4. faculdades a ela inerentes,
mas a tendência é a de que
• Perpetuidade: significa que o decurso do tempo, por si só, não é a propriedade volte sempre a
capaz de retirar da esfera jurídica de alguém o direito de proprieda- ser plena.
de. Isso não quer dizer que a propriedade só sai das mãos do titular
quando ele quiser, pois há várias hipóteses em que sua vontade é Feito esse breve esclarecimento,
desprezada pelo ordenamento jurídico, como é o caso, por exem- pode-se dar o conceito de direito real
plo, da usucapião e da desapropriação. de propriedade: é o direito real que
confere ao seu titular a faculdade de
4 Fração ideal é uma ficção jurídica que serve para definir quanto caberia a cada condômino caso o bem fosse
dividido. forma funcionalizada, usar, fruir (ou
gozar) e dispor do bem, assim como
o de reavê-lo de quem quer que in-
justamente o possua ou detenha (art.
1228 do CC). Explicando cada uma
dessas quatro faculdades de que dis-
põe o titular do direito de proprieda-
de, diríamos assim:
• Usar: é a faculdade de valer-
se do bem para o fim a que
por natureza se destina. As-
Cleverson Beje
94 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
sim, por exemplo, usa a casa quem nela se abriga; o carro, quem se Anotações
locomove;
• Fruir (ou gozar): é a faculdade de tornar seus os frutos produzidos
pelo bem. Por exemplo, tem a faculdade de fruir da casa quem per-
cebe alugueres que são pagos por ela; tem a faculdade de fruir do
capital quem percebe juros que ele gera, tem a faculdade de fruir da
fábrica quem recolhe a produção que ela produz;
• Dispor: é a faculdade que tem o proprietário de alienar, ou seja,
transferir a propriedade de seu bem (gratuitamente ou onerosamen-
te); gravá-lo de ônus real, isto é, dá-lo em garantia real (como dá-lo
em hipoteca, por exemplo); bem como pode significar, ainda, a fa-
culdade de consumi-lo e mesmo a faculdade de abandoná-lo;
• Reaver: é a faculdade que tem o titular do direito real (o proprietá-
rio, por exemplo) de buscar o bem das mãos daquele que o possuir
ou detiver sem razão de direito. Portanto, vale-se da faculdade de
reaver o proprietário que tendo sido esbulhado de seu bem (ex.: sua
gleba rural foi invadida), recupera-o judicialmente das mãos do(s)
esbulhador(es). A essa faculdade dá-se o nome de direito de seqüela,
direito esse instrumentalizado pela ação reivindicatória.
Para finalizar o conceito, cumpre dizer que a propriedade será plena
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 95
quando todas essas faculdades estiverem reunidas (todas da em que busca alcançar uma dada estrutura social
elas) apenas na pessoa do proprietário. Do contrário, tida por ideal, distanciando-se da mera conservação de
ou seja, ausente alguma ou algumas dessas faculdades, um simples status quo. Nesse passo, o Direito tem que
se estará diante de uma propriedade limitada, como, agregar à sua estrutura uma função, que é justamente
por exemplo, a do proprietário do imóvel gravado com a função promocional. Por isso, praticamente todos os
cláusula de inalienabilidade (bem não pode ser doado, institutos do Direito têm uma função social que trans-
vendido ou permutado), pois ele terá as todas as facul- borda os limites do mero direito subjetivo, categoria que
dades inerentes ao domínio, com exceção da prerroga- fora, no passado, suficiente para aqueles momentos his-
tiva de dispor5. tóricos anteriores, mas que é incapaz, por si só, de pro-
porcionar a realização dos valores hoje integralmente
Também é o elemento componente do conceito de reconhecidos pela Constituição Federal.
direito de propriedade (e também seu traço caracteriza-
dor, da mais alta significação) a chamada função social, Com efeito, ao estabelecer como objetivos funda-
cujo fundamento se encontra na própria Constituição mentais da República Federativa do Brasil a construção
Federal, lei maior de nosso sistema jurídico. Para me- de uma sociedade livre, justa e solidária; a garantia do
lhor compreensão desse tema, vale uma breve aborda- desenvolvimento nacional; a erradicação da pobreza e
gem sobre a funcionalização do Direito. da marginalização, reduzindo as desigualdades sociais e
regionais; a promoção do bem de todos sem preconcei-
d. O fenômeno da funcionalização do Direito tos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras
formas de discriminação, o mandamento constitucional
O Estado Democrático de Direito pode ter um ca- fornece fundamento axiológico e dogmático para o de-
ráter intervencionista, nas relações privadas, na medi- senvolvimento do fenômeno da funcionalização das cate-
5 Aliás, a faculdade de dispor é o grande traço característico do direito de proprie- gorias jurídicas.
dade, pois é a única faculdade que, em regra, não sai das mãos do proprietário.
96 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Mas, afinal, qual é a função so- e limite os valores consagrados pelo Anotações
cial das categorias jurídicas? É justa- constituinte.
mente servir de instrumento para o
atingimento dos valores sociais ex- Não por outra razão, José Afonso
pressos ou implícitos na Constitui- da Silva7 diz que bastaria o manda-
ção Federal. mento contido no artigo 5°, XXIII da
Constituição Federal, para que toda
A questão, portanto, enseja uma propriedade estivesse vinculada ao
forma nova de encarar os institutos cumprimento de uma função social.
jurídicos, pois, sem abandonar a vi-
são estruturalista (que responde o Porém, talvez por receio da re-
que é o Direito), busca-se uma aná- sistência de certos setores da socie-
lise funcional, isto é, busca-se saber dade à mudança de status, o legis-
para que serve o Direito6. lador constituinte buscou diminuir a
abstração da noção de função social
Por isso, não se pode pretender da propriedade, delineando certos
definir função social em abstrato, ao aspectos que, se presentes, a carac-
contrário, a função social é definida terizam.
diante do caso concreto e segundo
as peculiaridades que se apresentam, Assim, estabeleceu no artigo
mas sempre tendo como fundamento 182, parágrafo 2° que a propriedade
6 Conforme expõe, com precisão, Norberto Bobbio, 7 (Aplicabilidade das normas constitucionais. 3ª ed.
em sua obra denominada Da Estrutura à Função, Ed. rev. amp. e atual., São Paulo: Malheiros Editores, 1999.
Manole, (especialmente p.53 e seguintes). Curso de Direito Constitucional Positivo. 19ª ed. rev. e
atual., São Paulo: Malheiros Editores, 2001)
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 97
urbana cumprirá sua função social Para ampliar os estudos sobre registro do título no Cartório de Re-
quando atender às exigências fun- função social da propriedade reco- gistro de Imóveis competente; (ii)
damentais de ordenação da cidade menda-se, entre outros, o estudo pela acessão; (iii) pela usucapião;
expressas no plano diretor. de Jivago Petrucci, denominado A (iv) pelo direito hereditário.
função social da propriedade como
Já a propriedade rural cumprirá princípio jurídico8. Em razão do objeto deste capítu-
sua função social quando atender ao e. Formas de aquisição da pro- lo, analisar-se-á, com brevidade, as
disposto no artigo 186 da CF, man- priedade imóvel duas primeiras formas de aquisição e,
damento este que será objeto de aná- depois, com mais vagar, se cuidará da
lise na segunda parte deste capítulo. O atual Código Civil (promulga- usucapião, deixando-se de analisar,
do em 2002 e vigente desde janeiro aqui, a questão referente ao direito
Pode-se afirmar, então, que a de 2003), diferentemente do anterior hereditário, por ser objeto de análise
função social é o núcleo do concei- (promulgado em 1916 e vigente des- em outro capítulo, mais adiante.
to de propriedade, participa da sua de janeiro de 1917), não arrolou as
formação, o que significa que, em- formas pelas quais se adquire a pro- > Registro do título no Cartório
bora seja elemento que se perceba priedade imóvel, porém não alterou de Registro de Imóveis
mais intensamente quando do exer- a sistemática adotada pelo anterior
cício do direito de propriedade, faz Código. O registro é o ato pelo qual o
parte de sua estrutura, sendo certo agente competente recebe o título
que a ausência de função social tor- Assim, pode-se repetir o artigo translativo da propriedade e, após
na a propriedade inane, autorizan- 530 do CC/16 para dizer que se ad- examiná-lo, o reproduz em livro
do sua retirada da esfera jurídica de quire a propriedade imóvel: (i) pelo próprio.
quem, no momento, figure como
8 Pode ser encontrado no seguinte link: <[Link]
seu titular. [Link]/doutrina/[Link]?id=4868&p=2> Os principais efeitos do registro
98 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
são: (i) a transferência da titularidade acessio, que significa acréscimo, Anotações
da propriedade imóvel e (ii) a publi- aumento. Assim, pode-se definir a
cidade. É a publicidade que confere acessão como a forma originária de
ao direito real de propriedade a opo- aquisição da propriedade imóvel
nibilidade erga omnes9. que se dá pela incorporação ao solo
de um elemento que lhe é externo e
Quanto à sua classificação, o re- que lhe acarreta aumento de valor e
gistro é forma derivada e inter vivos volume. Para que haja acessão, não
de aquisição da propriedade imóvel. basta o aumento do volume do solo,
Derivada porque é ligada à titulari- é indispensável que esse acréscimo
dade do proprietário anterior, e inter de tamanho venha acompanhado da
vivos, (com vênia para tautologia) valoração do bem, pois, caso con-
porque é realizada pela vontade trário, o que haverá será um dano, e
manifestada e concretizada durante não aquisição de propriedade.
a vida dos declarantes, e não após
suas mortes. A unanimidade dos autores elen-
ca o princípio acessorium sequitur
> Acessão suum principale (o acessório segue o
principal) como informador do insti-
A palavra acessão vem do latim tuto da acessão, sendo o objeto ade-
rente considerado acessório em re-
9 Erga omnes, do latim, significa contra todos. Usado
para determinar a obrigatoriedade de uma norma ou lação ao imóvel acrescido. Assim, é
regra para todos, sem exceção. No caso, está a signifi-
car que o direito de propriedade de certa pessoa é um dono do terreno, também se é dono
direito que deve ser observado e respeitado por todas as
outras pessoas, sem exceção. da acessão. Contudo, o atual Código
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 99
Civil alterou sensivelmente esta sistemática da principalidade (que foi con- É a forma de acessão pela qual as
siderada inconteste, na legislação anterior) que considerava pertencer ao ilhas que se formarem em rios não-
bem imóvel tudo quanto a ele se juntasse. É que passou a considerar como navegáveis passam a pertencer aos
critério definidor da principalidade (ou não) de um bem, o seu valor eco- proprietários ribeirinhos fronteiros,
nômico, e não mais simplesmente a sua natureza jurídica (de bem móvel segundo o estabelecido no artigo
ou imóvel). Essa constatação se procurará demonstrar adiante, quando da 1249 do Código Civil.
análise da acessão por plantações e construções. Assim, o critério classifi-
catório atualmente utilizado é o que diferencia a acessão segundo a nature- Obs.: Em que pese o Código Ci-
za do objeto aderente. vil não fazer menção à navegabilida-
de do rio, só em rios não-navegáveis
Obs.: Assim a acessão pode ser: (i) natural: são as acessões oriundas haverá a possibilidade de aquisição
da força da natureza. São naturais as acessões por formação de ilhas, por das ilhas pelos proprietários ribeiri-
abandono de álveo, por aluvião e por avulsão, porque não há participação nhos porque se o rio for navegável
humana; (ii) industriais ou artificiais: são as acessões oriundas do engenho ele será de titularidade de algum dos
humano, da intromissão da pessoa no ambiente natural. É artificial ou in- entes federados conforme as regras
dustrial a acessão em razão de construções ou plantações. da Constituição Federal e Código de
Águas.
Na seqüência do estudo da acessão, é necessário analisar as formas pe-
las quais ela se manifesta. Como já se disse, a acessão pode se dar pela > Aluvião
formação de ilhas, por aluvião, por avulsão, por abandono de álveo e por
plantações e construções. Assim: É a acessão que se dá pelo au-
mento da margem do rio ocasionado
> Formação de ilhas pelo depósito de fragmentos natural-
mente trazidos por este. Essa é a alu-
100 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
vião própria. Conforme o rio vai cor- tário do imóvel que recebeu o peda- Anotações
rendo, ele vai trazendo, aos poucos ço de terra adquirirá a propriedade
e lentamente, fragmentos que ade- dessa terra se indenizar o dono do
rem em sua margem, aumentando-a. outro imóvel que foi desfalcado ou,
O proprietário da margem se benefi- sem ter que indenizar, se em um ano
cia porque adquire a propriedade do ninguém reclamar.
tanto aumentado.
Obs.: Se o proprietário do prédio
Obs.: Fica fácil perceber que aumentado não quiser indenizar, de-
esse é um fenômeno muito lento e, verá permitir que o pedaço de terra
por isso, imperceptível, razão pela seja removido.
qual não há lugar para indenização
de qualquer espécie àquele outro > Abandono de álveo
proprietário de quem os fragmentos
de terra foram, paulatinamente, reti- Álveo é o leito do rio. Assim, es-
rados pelas águas do rio. tabelece o 1252 do CC que se o rio
abandona seu leito, seja por ter seca-
> Avulsão do, seja por ter desviado seu curso,
os proprietários das margens adqui-
É a acessão que se dá quando rem a propriedade da terra que se
um pedaço de terra for arrancado de encontrava submersa.
um imóvel por força natural violenta
e vier a se juntar a outro. O proprie- Obs.: Se há proprietários nas duas
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 101
margens do rio, passa-se uma linha Obs.: Essa presunção é corolário da regra geral pela qual o acessório se-
imaginária no meio do leito seco, de gue o principal, e dessa regra geral decorrem várias conseqüências: (i) Se o
maneira que uma metade será dos dono do terreno semear, plantar ou construir com sementes, plantas ou ma-
proprietários localizados na margem teriais de outra pessoa, adquirirá a propriedade destes, devendo indenizar
esquerda e a outra dos proprietários o antigo dono, além de, se estiver de má-fé, responder por perdas e danos;
localizados na margem direita. (ii) Da mesma forma, aquele que semeia, planta ou constrói em terreno de
outra pessoa, perde para essa pessoa a semente, plantas e construções, ten-
> Construções e plantações do, se estava de boa-fé, direito à indenização. O Código Civil atual, nessa
questão, inovou radicalmente, pois estabeleceu que se o valor da plantação
As construções são acessões arti- ou construção exceder consideravelmente o valor do terreno, aquele que
ficiais ou industriais, porque são pro- plantou ou construiu de boa-fé adquirirá a propriedade do terreno se inde-
dutos do engenho humano, enquan- nizar seu antigo proprietário. Diz-se que houve radical inovação porque o
to as plantações são acessões mistas, Código, nesse caso específico, elegeu como critério para aferição da prin-
porque decorrem do engenho huma- cipalidade do bem seu valor econômico, e não sua mobilidade; (ii) Caso
no aliado à força da natureza. haja má-fé de ambos os lados, o dono do terreno adquirirá as sementes,
plantas e construções, devendo ressarcir aquele que semeou, plantou ou
Na linha da tradicional impor- construiu. Vê-se que a má-fé bilateral se anula, procedendo-se como se am-
tância que o Direito pátrio dá à
propriedade imóvel, o Código Civil
estabelece a presunção segundo a
qual toda construção ou plantação
pertence ao proprietário do terreno
em que foi feita, se tiverem sido rea-
lizadas à sua custa.
Cleverson Beje
102 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
bos estivessem de boa-fé. Vale con- > Usucapião Anotações
signar que o proprietário do terreno
será considerado de má-fé quando o Conceito
trabalho de plantação ou construção
se der em sua presença e ele não as É a forma originária de aquisição
impugnar. Equivale à presença física da propriedade que se dá pela exis-
do proprietário a presença de seus tência de uma posse qualificada so-
empregados ou prepostos; (iv) Se al- bre certo bem.
guém plantar ou construir em terre-
no alheio com plantas ou materiais Posse qualificada é a posse que
também alheios, deverá indenizar o tiver as seguintes características: (i)
proprietário das plantas ou materiais, mansa: é a posse sem oposição do
porém se não puder ser responsabi- proprietário ou legítimo possuidor;
lizado, caberá ao dono do imóvel (ii) contínua: é a posse exercida sem
indenizar o proprietário das plantas interrupção; (iii) prolongada: para
ou materiais, isso para que se evite que ocorra a usucapião10, a posse
o enriquecimento ilícito, afinal não sobre o bem deve ser exercida ao
seria justo que o proprietário do ter- longo de um período de tempo, que
reno adquirisse a acessão enquanto varia segundo a espécie de usuca-
10 A palavra usucapião na língua latina não era mas-
que o proprietário das plantas ou culina, nem feminina e sim neutra. As demais formas
de aquisição da propriedade (aluvião e avulsão) que,
materiais simplesmente os perdesse também eram neutras, foram trazidas para a língua por-
tuguesa na forma feminina. Já a usucapião, foi trazida
sem qualquer ressarcimento. em ambas as formas, sendo correta a masculina e a
feminina. Entretanto, o Código de 2002 uniformizou
a linguagem e se utiliza da forma feminina, razão pela
qual não falamos em “o” usucapião, mas sim em “a”
usucapião.
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 103
pião; (iv) justa: enquanto eventual vício da posse não for sanado, não será • Espécies de usucapião
possível a caracterização da usucapião.
Pode-se dividir a usucapião em
Requisitos cinco espécies, a saber:
a. Extraordinária
Para que ocorra o fenômeno da usucapião, é necessário que estejam
presentes alguns requisitos, são eles: (i) coisa hábil: para que seja possível Diz-se que é extraordinária por-
a aquisição por usucapião, é indispensável que o bem que se pretenda que independe de justo título e boa-
adquirir seja passível de ser usucapido. Destarte, não serão adquiridos por fé. O prazo para sua configuração é
usucapião os bens fora do comércio, os bens públicos e as servidões não de quinze anos. Porém, caso o pos-
aparentes; (ii) animus domini: para adquirir o bem mediante usucapião, o suidor tenha estabelecido no imóvel
usucapiente deve portar-se sobre o bem como se dono dele fosse, sendo a sua residência habitual, ou nele re-
justamente nisso que consiste o animus domini (vontade de ser dono); (iii) alizado obras e serviços de interesse
justo título: é o instrumento jurídico que, não fosse a existência de algum social, o prazo será de dez anos (art.
vício de origem, seria capaz de transferir a propriedade do bem a ser usu- 1238, caput e parágrafo único CC).
capido. Esse elemento só será requisito para a aquisição por usucapião
quando a lei expressamente o exigir; (iv) boa-fé: no caso da posse, consiste Vê-se que o legislador atribui à
na ignorância por parte do possuidor da existência de qualquer vício ou usucapião um cunho altamente so-
obstáculo que o impede de adquirir o bem. Tal e qual o justo título, a boa- cial ao permitir a redução do prazo
fé só será requisito para a usucapião quando a lei expressamente a exigir; no caso de o possuidor usar o imóvel
(v) tempo: a usucapião só se configura após o exercício da posse sobre o para morar ou para realizar obra ou
bem ter se dado por um certo tempo, que, como dito, varia conforme a serviço de caráter produtivo. Enten-
espécie de usucapião. de-se que a obra capaz de gerar a
104 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
diminuição do prazo é qualquer acessão que valorize o imóvel como, por Anotações
exemplo, um sobrado. Pode-se aproveitar o exemplo para dizer que caso o
possuidor transforme esse sobrado em uma pensão para estudantes, estará
realizando serviço produtivo apto, portanto, para gerar a redução do prazo
para usucapir.
b. Ordinária
Diz-se ordinária porque exige justo título e boa-fé. Tem prazo de dez
anos, mas esse prazo será reduzido a cinco anos se o possuidor houver ad-
quirido o imóvel onerosamente e o registro tiver sido posteriormente cance-
lado. Além desse requisito, o Código exige, para redução, que o possuidor
tenha estabelecido no imóvel sua residência ou realizado investimentos de
interesse social e econômico.
A fim de exemplificar uma possibilidade de registro posteriormente can-
celado, traz-se à baila o ensinamento de Vitor Frederico Kümpel (Direito
Civil 4: Direito das Coisas. Editora Saraiva, São Paulo: 2005, p. 99), que se
refere à possibilidade de o Ministério Público intentar ação civil pública para
cancelar loteamento irregular de pessoas que já teriam registro definitivo da
propriedade. Mais uma vez resta cristalina a preocupação do legislador em
atribuir à propriedade uma efetiva função social.
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 105
c. Urbana (constitucional urba- d. Rural (constitucional rural ou vez. Isso porque o constituinte ob-
na, pro misero ou pro morare) pro labore) jetivou criar um instrumento de re-
alização do bem-estar social, e não
É a usucapião que se dá quando É a usucapião que se dá quando o incentivar a especulação imobiliária
o possuidor exerce uma posse con- possuidor exerce uma posse contínua, por meio do reconhecimento de su-
tínua, sem oposição e com animus sem oposição e com animus domini cessivas usucapiões a alguém.
domini (isto é, com a intenção de ser sobre um imóvel de no máximo cin-
dono) sobre um imóvel de no má- qüenta hectares localizado em área e. Coletiva
ximo duzentos e cinqüenta metros rural que seja destinado à sua mo-
quadrados localizado em área urba- radia e à produção. Assim como na Essa espécie de usucapião está
na, e que seja destinado à sua resi- usucapião urbana, o único requisito é prevista no art. 10 do Estatuto da Ci-
dência ou de sua família. que o possuidor não seja proprietário dade (Lei 10.257 de 2001), que esta-
de outro imóvel, urbano ou rural. belece a possibilidade de a área com
Como se nota, o legislador não mais de duzentos e cinqüenta me-
exige justo título nem boa-fé, exi- Essa espécie de usucapião já era tros quadrados ocupada, por mais de
ge apenas que o possuidor não seja prevista na Constituição Federal, cinco anos, ininterruptamente e sem
proprietário de nenhum outro imó- tendo sido incorporada pelo atual oposição, por população de baixa
vel, seja urbano, seja rural. Essa es- Código Civil, em seu artigo 1239. renda para moradia, onde não for
pécie de usucapião já era prevista possível identificar o terreno ocupa-
na Constituição Federal, tendo sido O direito à aquisição da proprie- do por cada possuidor, ser usucapida
incorporada pelo atual Código Civil dade imóvel pela usucapião urbana coletivamente. Para tanto, os possui-
em seu artigo 1240; ou rural não poderá ser reconhecido dores não podem ser proprietários
ao mesmo possuidor mais de uma de outro imóvel urbano ou rural.
106 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
A cada um dos possuidores, a sentença que reconhecer a usucapião Anotações
coletiva atribuirá fração ideal do terreno, independentemente da área ocu-
pada de fato, criando-se um condomínio. Por essa razão, sendo possível
identificar o terreno ocupado por possuidor específico, deve ser dada pre-
ferência à usucapião individual.
PROPRIEDADE AGRÁRIA
a. Breve história da propriedade agrária no Brasil
Não é novidade que o conhecimento de fatos pretéritos é fonte útil para
a compreensão de questões sociais atuais, especialmente quando o assunto
é a política de terras no Brasil, que, em razão do tipo de colonização que
tivemos, legou uma série de problemas a serem enfrentados por todos aque-
les que lidam com a questão da terra, principalmente no que diz respeito à
reforma agrária.
O agrarista Fernando Pereira Sodero, em obra clássica11 dá conta que o
Brasil iniciou a colonização de suas terras com base na propriedade rural de
grande extensão, com cultura única (cana de açúcar), fundada no trabalho
escravo e com produção integralmente dirigida à exportação.
11 (Curso de Direito Agrário – O Estatuto da Terra, Brasília: Fundação Petrônio Portela – MJ, 1982)
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 107
O autor baseia suas ponderações e conclusões em importantes historia-
dores e pensadores brasileiros12. Segundo a visão desses pensadores (juristas,
economistas, historiadores), esse sistema de exploração, como não podia
deixar de ser, acabou formando uma mentalidade latifundista, entre nós,
com sérias conseqüências para a nação brasileira, nos séculos posteriores. A
terra foi considerada como um bem patrimonial do qual derivavam o poder
político e o prestígio econômico e social do seu detentor e, por esta razão, o
senhor de engenho, produzindo apenas para a exportação, tornou-se nobre.
Assim, mencionam os autores, esse período das sesmarias legou-nos,
entre outras, as seguintes conseqüências: (i) criação desta mentalidade lati-
fundista, ou seja, de concentrar grandes extensões de terra, mesmo que as
deixasse improdutivas ou apenas arrendadas; (ii) apropriação das melhores
terras ribeirinhas; (iii) sesmarias em comisso por falta de cumprimento de
obrigações consignadas na carta de concessão, sem qualquer interesse da
metrópole portuguesa em punir o latifundiário inadimplente das condições
12 Tais como Caio Prado Junior (História econômica do Brasil. 15ª edição. São Paulo: Editora Brasiliense e Forma-
ção do Brasil contemporâneo – colônia. 16ª edição. São Paulo: Editora Brasiliense, 1979), Celso Furtado (Formação
econômica do Brasil. 5ª edição. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1963), Roberto C. Simonsen. História Econômica
do Brasil: 1500-1820. Tomo I. São Paulo, Companhia Editora Nacional,1937. Felisbelo Freire (História territorial
do Brasil – Bahia, Sergipe e Espírito Santo. Rio de Janeiro: Tipografia do Jornal do Commércio de Rodrigues e Cia,
1906), Capistrano de Abreu (Capítulos de história colonial: 1500 – 1800. Rio de Janeiro: Edição Sociedade Capist-
rano de Abreu, 1934), Rui Cirne Lima (Pequena história territorial do Brasil: sesmarias e terras devolutas. 2ª edição.
Porto Alegre: Livraria Sulina, 1954), entre outros. A estes, acrescentamos os literatos seguintes, para um aprofun-
damento dos estudos: Manuel Correia de Andrade (A questão do território no Brasil. São Paulo. Editora Hucitec,
1995; A terra e o homem no Nordeste. São Paulo: Editora Brasiliense, 1973; O povo e o poder. Belo Horizonte:
Oficina de Livros, 1991; Latifúndio e reforma agrária no Brasil. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1980), Paulo Bessa
Antunes (A propriedade rural no Brasil. Rio de Janeiro: OAB, 1985), Emília Viotti da Costa (Da senzala à colônia.
4ª edição. São Paulo: Editora UNESP, 1998), Manoel Diegues Jr (População e propriedade da terra no Brasil. Wash-
ington DC: União Panamericana, 1959), Carlos Alberto Teixeira Serra (Contribuição ao estudo da geografia agrária
(org), Série Estudos (1), Rio de Janeiro: PUC-Rio, Departamento de Geografia, 1981), entre outros.
Cleverson Beje
108 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
de exploração efetiva; (iv) forma de pital e mão-de-obra, sua exploração se dava em pequenas glebas que fos-
produção agrícola sem os proces- sem apenas suficientes, em dimensão, para que a família ali vivesse e dali
sos de aumento da produtividade retirasse o seu sustento mínimo. A conseqüência de tal modelo, nos dias
ou melhoria técnica dos engenhos; atuais é, provavelmente, o surgimento da chamada propriedade familiar,
(v) sistema predatório de derrubadas caracterizada pela presença do animus domini (agir como se dono fosse) e
das matas e de uso do solo. também pelo fato de se ter, ali, a sua morada habitual e permanente. Con-
viveram, assim, no período histórico mencionado, tanto as glebas de grande
O período das sesmarias vigorou dimensão, que poderiam ser, segundo a visão de alguns historiadores/eco-
no Brasil de 1530 a 1822, quando nomistas, equiparadas às plantations13.
o então Príncipe Regente D. Pedro
suspendeu sua concessão, pela reso- Ocorre que quando Portugal decidiu, efetivamente, ocupar efetivamen-
lução de 17 de junho de 1823. Sus- te o Brasil – quer dizer, povoá-lo, colonizá-lo de forma mais eficiente e
pensa a concessão das sesmarias, in- racional – a opção mais destacada, na época, foi a produção de açúcar,
gressou o Brasil no chamado regime por ser produto altamente rentável e acerca do qual já se tinha uma boa
das posses. Sem uma legislação que experiência, em outros lugares de cultivo, como as ilhas do Atlântico, por
disciplinasse o problema das terras exemplo. Segundo Celso Furtado (Formação econômica do Brasil, 5ª ed.
devolutas do Império, vigorou (até a Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1963, p. 18): essa experiência resultou
promulgação de nossa primeira Lei ser de enorme importância, pois além de permitir a solução dos problemas
de Terras, em 1850), o simples apos- 13 Plantation é um tipo de sistema agrícola (uma plantação) baseado em uma monocultura de exportação me-
diante a utilização de latifúndios e mão-de-obra escrava. Foi bastante utilizado na colonização das Américas,
samento de terrenos para exploração principalmente no cultivo de gêneros tropicais e é atualmente comum a países subdesenvolvidos. É constituída de
uma grande propriedade monocultora, para produção de gêneros tropicais em sua maioria, normalmente voltada
agrícola e pecuária. O posseiro era para exportação, já que o mercado interno ficaria saturado destes gêneros. Sistema típico de Países subdesenvolvi-
dos, que fora amplamente utilizado durante a colonização européia nas Américas, e mais tarde fora levada para a
o cultivador ou criador que se man- África e Ásia. Hoje em dia alguns países subdesenvolvidos ainda usam este tipo de sistema agrícola, apesar dele ser
reconhecidamente ineficaz, para isto estes países contam com mão-de-obra assalariada ou trabalho escravo ilegal.
tinha com o seu trabalho e o de sua No Brasil, por exemplo, a plantation é usada em vastas porções do território nacional, principalmente nas áreas
de cultivo de café e cana-de-açúcar, dois dos nossos principais produtos agrícolas de exportação. (Fonte: <http://
família. Em razão da ausência de ca- [Link]/wiki/Plantation>)
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 109
técnicos relacionados com a produ- a circulação e o comércio e os lusi- moldes feudais, mesmo nos dias de
ção do açúcar, fomentou o desen- tanos, as regiões de produção (Celso hoje, quando o setor está totalmente
volvimento em Portugal da indústria Furtado, Formação econômica do Brasil, voltado à eficiência dos mercados”.
de equipamentos para os engenhos 5ª ed. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura,
açucareiros. 1963, pp. 19-22). Para efeito de se conhecer mais
aprofundadamente o pensamento do
Com a introdução desta cultura – Com opinião diametralmente Professor Fernando Curi Peres, seria
que dava ao donatário, e só a ele, o oposta a esta visão até aqui expos- útil o registro de suas conclusões
direito de instalar moendas e outros ta, relativamente à história da pro- sobre o assunto, o que se insere na
engenhos – foi que se introduziu, no priedade agrária no Brasil, Fernando nota abaixo, com recomendação de
Brasil, a propriedade trabalhada por Curi Peres – idealizador do Programa leitura.
escravos, conhecida como planta- Empreendedor Rural – PER – assina-
tion (v. Caio Prado Jr.. História econômi- la que a opinião dos historiadores, Obs.: Houve época em que
ca do Brasil, 15ª ed. São Paulo: Brasilien- juristas e economistas citados pro- investir em terra tinha, também, o
se, 1975, especialmente p. 33). duz visões distorcidas, prevalecen- sentido de proteção patrimonial, es-
tes nos meios acadêmicos do país, pecialmente quando a convivência
Os historiadores afirmam que “embora se saiba que foram forjadas com altos índices inflacionários in-
não deve ter sido simples a passa- por meio de vieses hostis à agricul- duziu os empresários a escolher apli-
gem de uma economia coletiva que tura empresarial”, diz ele. E prosse- cações em ativos reais. Em situação
tão poucos recursos exigia, para uma gue mencionando que “esta postura de alta inflação e com leis de usura
exploração ávida de investimentos, e antiempresarial e antirrural explica, que impediam o sistema bancário
que a solução foi recorrer ao capital por exemplo, a prevalência da per- de pagar taxas de juros condizentes,
internacional disponível. Por muitos cepção de que a posse da terra no restava aos poupadores a alternativa
anos os donos do capital controlaram país continua sendo organizada em de aplicar seus recursos em ativos
110 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
reais – principalmente na terra e rebanhos no meio rural e em lotes e apar-
tamentos nos meios urbanos – para manter seu valor. Para certos ideólogos, Anotações
este comportamento era visto como atitude classista de dominação. Auto-
res com visões marxistas, além dos chamados estruturalistas, estão entre os
principais historiadores que apresentavam a posse da terra como forma de
dominação de classe. Essas análises se esquecem que mesmo nas capitanias
onde se implantaram as grandes plantações capitalizadas (as plantations),
como em Pernambuco, nas terras localizadas a oeste delas foi permitida a
criação de um grande número de propriedades. Elas tiveram tamanhos vari-
áveis, condizentes com as condições de solo e clima e com sua destinação.
Além disso, não há registro de imigrantes que tenham chegado ao Brasil,
especialmente a partir do final do Século IXX, e que não tenham tido acesso
à terra. As exceções, por razões óbvias, eram as populações escravas e seus
descendentes. Assim, uma postura atrelada à essa visão prevalecente nos
meios acadêmicos nacionais acontece no capítulo dedicado ao regramento
jurídico da propriedade agrária. Serão necessárias muitas pesquisas e novas
publicações, além das visões estruturalistas que ainda prevalecem na aca-
demia, para que o viés antirrural possa ser superado.
Apesar da valoração do estilo de vida que, acredita-se, é importante
para muitas famílias rurais, existe um fenômeno típico das economias de
mercado que atua de forma divergente à manutenção daquele estilo. Trata-
se da destruição criativa proposta por Joseph Schumpeter e hoje aceita pelos
economistas de todo o mundo. Segundo essa constatação, nas economias
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 111
de mercado os padrões tecnológicos estas populações têm sérias difi- marxistas que têm, entre suas estra-
e gerenciais são substituídos através culdades de serem preparadas para tégias visando a tomada do poder e
da chamada destruição criativa. No- atender as exigências da moderna implantação do socialismo leninista
vos processos tecnológicos são subs- sociedade urbana. Na dura luta pela no Brasil, a fragilização, seguida da
tituídos por meio de mecanismos sobrevivência das empresas algumas destruição, daquelas instituições fun-
que deixam alguns perdedores, no quebram (morrem) e seus recursos damentais para a eficiência das eco-
meio da grande sociedade de ganha- ou fatores de produção são direcio- nomias de mercado. É incrível que
dores. Quando a propriedade preci- nados para outras mais dinâmicas até hoje estes órfãos do marxismo
sa se organizar de forma a aproveitar que reconhecem e incorporam as ainda acreditem e se dediquem a so-
economias de escala, por exemplo, necessárias mudanças. nhos que 70 anos de socialismo real
pode ser mais eficiente organizar a mostraram serem mais parecidos com
empresa rural com estrutura dife- Existe outro tipo de destruição, pesadelos. Inúmeras tentativas de re-
rente da empresa familiar. A subs- diferente daquela proposta por Joseph duzir os estoques de capitais sociais
tituição é penosa para aqueles que Schumpeter, que acontece em socie- ou institucionais do país estão sendo
viviam do processo anterior e que dades organizadas democraticamen- feitas, constantemente, por diferentes
devem ser re-treinados, se vão conti- te, onde alguns indivíduos ou grupos grupos políticos. Um grande número
nuar na mesma área, ou precisam se tentam fragilizar ou debilitar as insti- de projetos de lei são apresentados,
dedicar a outra área das atividades tuições para atingir certos objetivos anualmente, no Congresso Nacional,
econômicas. Com a baixa escolari- políticos. Trata-se da destruição de por deputados e senadores pertencen-
dade prevalecente nos meios rurais algumas instituições, tais como a pro- tes àqueles grupos, ou cooptados por
do país, o processo de readaptação priedade privada e a segurança jurídi- eles, destinados a fragilizar a proprie-
dessas populações pode ser muito ca dos contratos. O caso mais comum dade privada. Ao mesmo tempo, gru-
custoso. Quando saem do campo na sociedade brasileira é o de grupos pos organizados de ativistas desafiam
112 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
a lei, desrespeitando-a acintosamente diferentes ambientes, os mercados Anotações
por meio da invasão, ou tomada pela selecionam as empresas que melhor
força, seguida de sua vandalização. se adaptam às condições ambientais
Propriedades legalmente possuídas e de sua época. O termo “evolução” as-
ocupadas são tomadas à força, usan- socia a melhor adaptabilidade das es-
do, como estratégia, bandeiras de jus- pécies ao processo seletivo biológico,
tiça social. Escondidos sob o manto assim como a “maior eficiência do
de “movimentos sociais”, eles tentam mercado” seleciona as empresas que
conseguir legitimar suas ações políti- melhor cumprem seu papel social de
co-ideológicas. Esta ação tem sido al- produzir riquezas. A sociedade é a
tamente desestabilizadora do estilo de grande beneficiária desse processo, o
vida de famílias rurais do Brasil. que explica o sucesso das economias
capitalistas ou “de mercado14”.
Os mercados surgiram em todas
as sociedades que se desenvolveram b. Imóvel rural e imóvel agrário.
além da fase tribal, sem terem sido
propostos por ninguém. Embora se- A Constituição Federal ao longo
jam elementos culturais, eles podem de seu Capítulo III, que trata da polí-
ser explicados, facilmente, pela ex- tica agrícola e fundiária e da reforma
tensão do conceito de “luta das espé- agrária, refere-se sempre à proprieda-
cies pela sobrevivência”, como for- de rural, porém há um problema ter-
mulado por C. Darwin. Assim como minológico que merece atenção: para
a natureza seleciona as espécies que
14 (Fernando Curi Peres, texto escrito especialmente
têm mais aptidão para sobreviver nos para este capítulo, sem publicação anterior)
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 113
muitos, propriedade rural e proprie- Já o termo agrário, provém do latim agrarius, de ager, agri, significando
dade agrária são conceitos distintos. respectivamente (conforme o Dicionário de Latim-Português, Ed. Porto, 2
edição): agrário, terra cultivada. Em razão dessa diversidade de significa-
O termo rural vem do latim ru- dos, agraristas de escol preferem o termo propriedade agrícola ou proprie-
ralis, que é derivação de rus, ruris, dade agrária, ao termo propriedade rural. Assim, por exemplo, leia-se em
termos estes que significam (confor- Gustavo Elias Kallás Rezek15 (...) percebe-se a existência de dois conceitos
me o Grande Dicionário Etimológico fundamentais que têm sido danosamente colocados sobre a mesma rubrica
Prosódico da Língua Portuguesa, Sil- em nossa legislação: o imóvel destinado à atividade agrária e o imóvel loca-
veira Bueno, Ed. Saraiva, Volume 7): lizado na zona rural. Para solucionar o problema, cremos, com convicção,
(i) campo; (ii) rusticidade, rudeza; (iii) ser necessário, por parte da legislação e da doutrina agrária, conceber o
campos, terras, domínio rural; (iv) casa imóvel destinado à agricultura e pecuária como imóvel agrário, deixando a
de campo; (v) região, território, em expressão imóvel rural para designar o imóvel localizado no meio rural.
oposição a urbis e domus, que signifi-
cam, respectivamente, cidade e casa, c. Conceito de imóvel agrário.
Vê-se que o termo rural em nenhuma
de suas acepções refere-se à atividade O conceito de imóvel agrário é fornecido pelo Estatuto da Terra, Lei n.
desenvolvida no imóvel, limitando-se 4.504/64, em seu art. 4º, I:
a significar um dado local, de locali-
zação, isto é, o dado geográfico em Art. 4º, I: Para os efeitos desta Lei, definem-se: I – ‘Imóvel Rural ,
que a propriedade se encontra. o prédio rústico, de área contínua qualquer que seja a sua locali-
zação que se destina à exploração extrativa agrícola, pecuária ou
agro-industrial, quer através de planos públicos de valorização,
quer através de iniciativa privada; [...]
15 Imóvel Agrário, Agrariedade, Ruralidade e Rusticidade, Ed. Juruá, p. 42
114 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Note-se que o Estatuto da Terra comete a imprecisão conceitual critica- Anotações
da pela doutrina ao chamar de rural o que na verdade é agrário. Contudo,
não há prejuízo à interpretação do dispositivo, já que afirma expressamente
que o elemento que concede a natureza de “rural” ao imóvel é a atividade
nele desenvolvida, e não sua localização.
Tal conceito foi recepcionado pela Constituição Federal de 1988, que,
ao tornar insuscetível de desapropriação a propriedade produtiva, bem como
exigir para cumprimento de sua função social o aproveitamento racional e
adequado, adota a utilização do imóvel como critério definidor da agrarie-
dade16 do bem, e não sua mera localização geográfica.
d. Classificação do imóvel agrícola
A Constituição Federal de 1988 estabeleceu uma classificação diversa
daquela constante do Estatuto da Terra, porém, para fins de compreensão
da questão agrária no Brasil, há interesse em conhecer a classificação estatu-
16 A agrariedade é o denominador comum do ramo jurídico denominado Direito Agrário, ponto de contato entre
seus institutos e, acima de tudo, garantia de sua unidade. A agrariedade se define pela vinculação existente entre
pessoas, bens e atos relacionados à prática de um processo ou ciclo orgânico-biológico de criação de animais ou
de cultivo de vegetais (que se destinam ao consumo humano em sentido amplo: não somente ao alimentar) sujeito
a um risco natural correlato, não totalmente controlável pelo homem. Ou seja, a agrariedade é o atributo jurídico
que caracteriza as pessoas, os bens e os atos relacionados à atividade agrária. (Lucas de Abreu Barroso e Gustavo
Elias Kallás Resek. O Código Civil e o Direito Agrário. <[Link] Enfim, quem
organiza e dirige o processo produtivo não pode prescindir das características e mecanismos próprios da natureza,
nem pode abreviar o ciclo biológico da produção, diminuindo o tempo de espera ou violando o ritmo dos acon-
tecimentos naturais. (Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka, Atividade agrária e proteção ambiental: simbiose
possível. Editora Cultural Paulista. São Paulo: 1997, p. 36). Ou, como registrou Antonio Carrozza: La nota distintiva
fondamentale dell agrarietá consiste nello svolgimento di um ciclo biológico Che si resolve nell ottenimento di frutti
animali o vegetali, sotto l incombere di um rischio particolare, collegato agli aspetti biologici suddetti. (Problemi
generali e profili di qualificazione del diritto agrário, Milano, Giuffrè, 1975, v. 1, p.80).
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 115
tária; assim, apresentar-se-á primeiro Do conceito legal, nota-se, com clareza, a preocupação do legislador
esta para, em seguida, cuidar-se da com a família que retira seu sustento da terra agrícola (aliás, a noção de
classificação constitucional. propriedade familiar é um dos pontos centrais de estudo e atenção dos jus-
agraristas). Note-se que propriedade familiar não é apenas a que permite
> Classificação estatutária: a subsistência da família produtora, mas, mais do que isso, ela deve per-
mitir o progresso social e econômico das pessoas que a compõem, isto é,
O Estatuto da Terra classifica o a produção deve exceder à necessidade direta dos familiares e, com sua
imóvel agrário, em seu artigo 4º, nos negociação, permitir a satisfação plena das necessidades indiretas, como,
seguintes termos: educação, saúde, lazer, cultura etc.
a. Propriedade Familiar: imó-
vel rural que, direta e pes- Com a ordem jurídica inaugurada pela Constituição Federal de 1988,
soalmente explorado pelo a propriedade familiar continuou a ser um dos pontos centrais da questão
agricultor e sua família, lhes agrária, sendo mesmo alçada ao rol dos direitos e garantias fundamentais.
absorva toda a força de traba- Confira-se, pelo art. 5º da Constituição Federal:
lho, garantindo-lhes a subsis-
tência e o progresso social e Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer na-
econômico, com área máxi- tureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no
ma fixada para cada região e País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
tipo de exploração, e eventu- segurança e à propriedade, nos termos seguintes: I [...]; [...]; XXVI - a
almente trabalho com a aju- pequena propriedade rural, assim definida em lei, desde que traba-
da de terceiros. (art. 4, II do lhada pela família, não será objeto de penhora para pagamento de
E.T) débitos decorrentes de sua atividade produtiva, dispondo a lei sobre
os meios de financiar o seu desenvolvimento.
116 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
O Estatuto da Terra utiliza a noção de propriedade familiar como cri- Anotações
tério de base para as demais classificações da propriedade agrária, o que
demonstra a importância de seu conceito para o legislador.
b. Minifúndio: o imóvel rural de área e possibilidades inferiores às da
propriedade familiar. (art. 4º, IV do E.T)
O minifúndio é uma realidade fortemente prejudicial ao desenvolvi-
mento da política agrícola, pois – segundo as conclusões de experts, pode
ser sério fator de condução à miséria no campo, o que pode produzir, con-
seqüentemente, a elevação dos níveis de êxodo para as cidades, com as
conseqüências nefastas que daí decorrem. Sob este ponto de vista e dada
a contundência do texto, pede-se licença para reproduzir as palavras do
agrarista Paulo Torminn Borges (Borges, Paulo Torminn. Institutos Básicos
do Direito Agrário. Ed. Saraiva, p. 33): Minifúndio, uma praga. É o entorpe-
cimento das forças vivas do campo. É o engodo daqueles para quem o fato
de ser proprietário significa independência. Propriedade, ainda que pura e
simplesmente, significaria, por si só, para tais pessoas, independência. No
entanto, na larga maioria das vezes (todas as regras, rigorosamente, têm
exceções), o minifundiário, porém, não é um homem independente, nem
social, nem economicamente, como prossegue analisando Paulo Torminn
Borges. Economicamente, não é independente, porque a terra, sob a for-
ma de minifúndio, não oferece condição bastante de exploração suficiente,
que garanta o sustento do proprietário com sua família, e, paralelamente,
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 117
que concorra para o progresso do Nesse sentido, Gustavo Elias Kallás Rezek (Gustavo Elias Kallás Rezek,
conjunto familiar. Socialmente, o mi- Imóvel Agrário, Agrariedade, Ruralidade e Rusticidade, Ed. Juruá, p. 69)
nifundiário não é independente por- ensina que latifúndio por dimensão é o imóvel rural que excede 600 vezes
que, se não lhe oferecem em plano a dimensão do módulo médio de área, definido pelo Instituto Nacional de
previdenciário, ou, gratuitamente, Colonização e Reforma Agrária (INCRA), ou que excede 600 vezes a área
em plano assistencial, não poderá média dos imóveis rurais de sua respectiva zona geográfica, tendo-se sem-
ter a família em níveis satisfatórios de pre em vista as condições ecológicas, os sistemas agrícolas regionais e o fim
saúde, educação e lazeres. a que a propriedade se destina (art. 4º, inc.V, “a”, combinado com o art.
46, §1º, “b” do Estatuto da Terra). E, continua, dizendo que latifúndio por
Assim, dada as características pre- exploração (art.4º, inc V, “b” do Estatuto) é o imóvel rural que, não exce-
judiciais do minifúndio, cabe ao Po- dendo o limite de área previsto para a concepção do latifúndio por dimen-
der Público instituir políticas para ex- são, e tendo área agricultável igual ou superior à definida para o módulo
tinção dessas propriedades de forma da respectiva zona, seja mantido inexplorado em relação às possibilidades
a alocar as famílias em propriedades físicas, econômicas e sociais do meio, com fins especulativos, ou seja, defi-
que atendam, no mínimo, às poten- ciente ou inadequadamente explorado, de modo a vedar-lhe a classificação
cialidades da propriedade familiar. como empresa rural ou propriedade familiar.
c. Latifúndio: o Estatuto da Terra Da mesma forma que o minifúndio, o latifúndio é uma realidade indese-
classifica o imóvel como lati- jada, pois a propriedade latifundiária, ao não realizar suas potencialidades
fúndio tendo como parâmetro de maneira aceitável, frustra a função social que deve ter. A terra agricul-
sua dimensão ou sua explora- tável não é qualquer bem, mas é bem de produção; logo se não produz,
ção. Dois critérios, portanto. produz mal ou serve como mero objeto de especulação, frustra o que dela
se espera e compromete o desenvolvimento esperado de uma nação.
118 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Questão que tem sempre inspirado grandes debates e polêmicas é a Anotações
que diz respeito ao imóvel rural classificado como latifúndio por dimensão,
mas que tem produção condizente com seu tamanho. Especialmente à luz
da classificação de imóveis rurais que foi registrada no texto constitucional
em 1988 (24 anos, portanto, após a promulgação do Estatuto da terra), que
não faz referência expressa ao assunto. Por outro lado, e no mesmo tema,
observa-se que tem sido comum a prática de os grandes proprietários rurais,
para desmancharem a pecha de latifundiários (por dimensão), parcelarem a
propriedade rural, dividindo-a especialmente entre seus próprios familiares
(por antecipação de legítima dos herdeiros, por exemplo), passando, com
isso, a serem classificados como empresários rurais, reduzindo, inclusive,
suas cotas tributárias.
d. Empresa rural: é o empreendimento de pessoa física ou jurídica,
pública ou privada, que explore econômica e racionalmente o imó-
vel rural, dentro de condição de rendimento econômico da região
em que se situe e que explore a área mínima agricultável do imóvel
segundo padrões fixados, pública e previamente, pelo Poder Execu-
tivo. Para esse fim, equiparam-se às áreas cultivadas, as pastagens,
as matas naturais e artificiais e as áreas ocupadas com benfeitorias.
(art. 4º, VI do E.T)
Pode-se dizer que a empresa rural é o objetivo a que aspira o próprio
sistema de Direito Agrário brasileiro; ela é um passo à frente da propriedade
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 119
familiar, como se costuma dizer, ou, como eu mesma costumo dizer, ela
é o menor ótimo. Com a empresa rural, se alcança, com muito maior faci-
lidade, os níveis de produção mais elevados, uma rentabilidade maior e,
conseqüentemente, uma evolução social muito mais acentuada.
> Classificação Constitucional:
A Constituição Federal, diferentemente do Estatuto da Terra, classifi-
ca a propriedade agrária em pequena, média ou grande; ou produtiva e
improdutiva. Foi a lei 8.629/93 que, neste aspecto, regulamentou a Cons-
tituição determinando que:
Art. 4º Para os efeitos desta lei, conceituam-se: I – [...]; II -
Pequena Propriedade - o imóvel rural: a) de área compreendi-
da entre 1 (um) e 4 (quatro) módulos fiscais; b) (Vetado) c)
(Vetado); III - Média Propriedade - o imóvel rural: a) de área
superior a 4 (quatro) e até 15 (quinze) módulos fiscais17; b)
(Vetado).
Por lógica, então, a grande propriedade é a que supere 15 módulos
fiscais. Já o artigo 6º da lei diz que:
17 Módulo fiscal é uma medida de área que o INCRA, mediante certos requisitos, define para cada Município.
Cleverson Beje
120 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Art. 6º. Considera-se propriedade produtiva aquela que, explora- Anotações
da econômica e racionalmente, atinge, simultaneamente, graus
de utilização da terra e de eficiência na exploração, segundo ín-
dices fixados pelo órgão federal competente18.
> Função Social da propriedade rural:
A função social, como se viu antes, não é um conceito obtido a priori, e
sim verificável diante do caso concreto. A Constituição Federal de 1988, em
seu art. 186, estabeleceu requisitos para o cumprimento da função social,
da seguinte maneira:
Art. 186. A função social é cumprida quando a propriedade rural
atende, simultaneamente, segundo critérios e graus de exigência esta-
belecidos em lei, aos seguintes requisitos: I - aproveitamento racional
e adequado; II - utilização adequada dos recursos naturais disponíveis
e preservação do meio ambiente; III - observância das disposições
que regulam as relações de trabalho; IV - exploração que favoreça o
bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores.
Aproveitar de forma racional e adequada é tornar o imóvel produtivo
sem esgotar sua força geratriz. É a consagração constitucional do chama-
do desenvolvimento sustentável. Utilizar adequadamente os recursos natu-
18 O órgão federal competente é o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 121
rais disponíveis e preservar o meio ambiente significa dades agrárias que externalizam um paradigma-pro-
que aquele que está explorando o bem agrário há de prietário desejado pelo constituinte. Isto fica evidente
ter consciência que tem em mãos um bem de natureza quando impede a desapropriação para fins de reforma
transgeracional, isto é, que deve ser preservado para as agrária da propriedade produtiva e da pequena e média
futuras gerações, na medida em que é fundamental para propriedade, desde que, neste caso, o proprietário não
a existência sadia do gênero humano. Ademais, no exer- possua outra, bem como quando obsta a penhora da pe-
cício da atividade produtiva, deverão ser respeitadas as quena propriedade agrária familiar por débitos deriva-
normas que disciplinam as relações laborais. Como piso dos da atividade produtiva, determinando, em seguida,
normativo mínimo da relação proprietário/trabalhador que a propriedade agrária familiar seja destinada meio
agrário tem-se o artigo 7º da Constituição Federal. A específico de financiamento para proporcionar seu de-
última exigência Constitucional é que a exploração da senvolvimento.
propriedade favoreça o bem estar dos proprietários e tra-
balhadores, o que restará caracterizado quando houver A função social – núcleo do direito agrário que é –
justa distribuição dos ônus e bônus da atividade agrária, dá o direcionamento para a realização da reforma agrá-
vale dizer, uma distribuição eqüitativa dos benefícios e ria, pois, esta se fará em propriedades agrárias que não
dos revezes da atividade agrária. estejam cumprindo sua função social. Porém, dada a
importância da reforma agrária para a situação da terra
Como se nota, a Constituição Federal, ao mesmo no Brasil, opta-se por tratá-la, apartadamente, no tópico
passo que garante o direito de propriedade, estabelece seguinte.
restrições ao seu exercício, o que denota uma preocu-
pação que extrapola o mero direito subjetivo proprietá- > Reforma agrária e o seu principal instrumento:
rio, que só merecerá proteção se atender às exigências
constitucionais. Com coerência, então, a Constituição O conceito de reforma agrária é muito controverti-
Federal confere uma proteção especial a certas proprie- do, e isso se explica em razão da interdisciplinaridade
122 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
inata à questão, vale dizer, a reforma agrária é objeto de reflexão do soci- Anotações
ólogo, do economista, do historiador e do jurista. O ponto de vista adota-
do neste capítulo, contudo, é o normativo. Com isso, pretende-se limitar a
abordagem da reforma agrária à sua definição e possibilidade normativa,
para, depois, analisar qual é e como atua seu principal instrumento: a de-
sapropriação.
O Estatuto da Terra define a reforma agrária nos seguintes termos:
Art. 1° Esta Lei regula os direitos e obrigações concernentes aos
bens imóveis rurais, para os fins de execução da Reforma Agrária
e promoção da Política Agrícola.
§ 1° Considera-se Reforma Agrária o conjunto de medidas que
visem a promover melhor distribuição da terra, mediante modifi-
cações no regime de sua posse e uso, a fim de atender aos princí-
pios de justiça social e ao aumento de produtividade.
O vocábulo reforma dá a idéia de formar de novo, de maneira diferente.
A reforma agrária tem por objetivo alterar a estrutura fundiária brasileira,
promovendo melhor distribuição da terra. A história da colonização brasi-
leira, com o regime das sesmarias, legou aos dias de hoje uma realidade na
qual dois extremos, igualmente prejudiciais, se apresentam: o latifúndio e o
minifúndio. Bem por isso, um dos desafios da reforma agrária será, indubi-
tavelmente, expurgar do sistema de terras brasileiro, tanto um como outro
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 123
modelo de imóvel rural. Aliás, o Estatuto da Terra, em tos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras
seu art. 16, dispõe que: formas de discriminação. Assim, e segundo entendo, a
reforma agrária não pode mais ser encarada como uma
Art. 16. A Reforma Agrária visa a estabele- mera posição ideológica, mas sim como uma determi-
cer um sistema de relações entre o homem, nação político/normativa de ordem constitucional. Des-
a propriedade rural e o uso da terra, capaz ta maneira, cabe ao interprete conciliar as normas cons-
de promover a justiça social, o progresso e o titucionais que protegem o direito de propriedade com
bem-estar do trabalhador rural e o desenvol- as que autorizam ou, mais do que isso, determinam a
vimento econômico do país, com a gradual realização da reforma agrária.
extinção do minifúndio e do latifúndio.
§ único: O Instituto Brasileiro de Reforma A Constituição, como dito, determina em seu art.
Agrária será o órgão competente para pro- 184 que compete à União desapropriar para fins de re-
mover e coordenar a execução dessa refor- forma agrária a propriedade agrária que não esteja cum-
ma, observadas as normas gerais da presen- prindo sua função social. Na seqüência, determina que
te Lei e do seu regulamento. a desapropriação será feita mediante prévia e justa in-
denização em títulos da dívida agrária, com cláusula de
A Constituição Federal de 1988 consagrou expres- preservação do valor real, resgatáveis no prazo de até
samente a necessidade de se realizar a reforma agrária vinte anos, a partir do segundo ano de sua emissão. Po-
(art.184) e o fundamento desta necessidade se encontra rém, no que toca, às benfeitorias necessárias e úteis, a
no rol dos objetivos fundamentais da República: (i) cons- Constituição determina o pagamento em dinheiro. Aqui,
truir uma sociedade livre, justa e solidária; (ii) garantir já se percebe um tratamento jurídico distinto, revelando
o desenvolvimento nacional; (iii) erradicar a pobreza e quase que uma sanção pelo fato do imóvel não estar
a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e cumprindo sua função social, porque, ao tratar da desa-
regionais; (iv) promover o bem de todos, sem preconcei- propriação por necessidade ou utilidade pública, ou por
124 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
interesse social em seu artigo 5º, XXIV, a Constituição determina a prévia Anotações
e justa indenização em dinheiro, o que é muito mais vantajoso ao proprie-
tário, nesses casos. O mesmo, então, não se dá com a desapropriação para
fins de reforma agrária.
Mas quais imóveis estariam, então, sujeitos à desapropriação? Para res-
ponder a essa questão, a Constituição adota a técnica da estipulação re-
sidual, pois se limita a arrolar quais os imóveis que não estão sujeitos à
desapropriação para fins de reforma agrária. Eis o texto constitucional do
art. 185 da CF:
Art. 185. São insuscetíveis de desapropriação para fins de refor-
ma agrária: I - a pequena e média propriedade rural, assim defi-
nida em lei, desde que seu proprietário não possua outra; II - a
propriedade produtiva.
§ único. A lei garantirá tratamento especial à propriedade produ-
tiva e fixará normas para o cumprimento dos requisitos relativos
a sua função social.
O principal instrumento para realização da reforma agrária é a desapro-
priação por interesse social, que, por mandamento constitucional, foi dis-
ciplinada pela Lei Complementar número 76/93 e pela lei 8.629/93, sendo
que a primeira revela os aspectos processuais da desapropriação; a outra, os
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 125
materiais. A competência para a desapropriação é pri- da União; II - certidões atualizadas de domí-
vativa da União, isto é, é vedado a Estados, DF e Muni- nio e de ônus real do imóvel; III - documento
cípios desapropriar para fins de reforma agrária. A ação cadastral do imóvel; IV - laudo de vistoria
de desapropriação será proposta pelo INCRA em face e avaliação administrativa, que conterá, ne-
do proprietário do imóvel, sendo certo que só haverá cessariamente: a) descrição do imóvel, por
ação judicial se for frustrada a desapropriação amigável, meio de suas plantas geral e de situação, e
na qual União e proprietário podem entrar em acordo. memorial descritivo da área objeto da ação;
O título que permite a propositura da ação é o decre- b) relação das benfeitorias úteis, necessárias
to presidencial que declare o imóvel como de interesse e voluptuárias, das culturas e pastos natu-
social para fins de reforma agrária, devendo a ação ser rais e artificiais, da cobertura florestal, seja
proposta dentro de dois anos de sua publicação. A com- natural ou decorrente de florestamento ou
petência para julgamento da desapropriação é da Justiça reflorestamento, e dos semoventes; c) dis-
Federal, que, ao receber a petição inicial, avaliará se criminadamente, os valores de avaliação da
estão presentes os requisitos do art. 282 do CPC, bem terra nua e das benfeitorias indenizáveis; V
como os requisitos especiais da Lei Complementar, que - comprovante de lançamento dos Títulos da
estabelece, em seu art. 5º: Dívida Agrária correspondente ao valor ofer-
tado para pagamento de terra nua; VI - com-
Art. 5º. A petição inicial, além dos requisitos provante de depósito em banco oficial, ou
previstos no Código de Processo Civil, con- outro estabelecimento no caso de inexistên-
terá a oferta do preço e será instruída com os cia de agência na localidade, à disposição
seguintes documentos: I - texto do decreto do juízo, correspondente ao valor ofertado
declaratório de interesse social para fins de para pagamento das benfeitorias úteis e ne-
reforma agrária, publicado no Diário Oficial cessárias.
126 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
A Lei Complementar traz limitação ao contraditório, pois veda que o juiz Anotações
aprecie qualquer questionamento sobre a declaração de interesse social. (art.
9). Mas observe-se interessante ponderação e questão que tem sido suscitada:
a declaração de interesse social para fins de reforma agrária dar-se-á sobre
imóveis que não estejam cumprindo sua função social; logo, estará limitada a
defesa do proprietário apenas as questões processuais ou relativas ao quantum
de indenização, uma vez que ele fica impedido de procurar demonstrar que
sua propriedade cumpre a função social. Esta realidade normativa, portanto,
parece restringir sobremaneira o direito constitucional ao contraditório, o que,
para muitos autores, macula a lei em comento de inconstitucional neste aspec-
to. Isso porque o contraditório e a ampla defesa são garantias do cidadão e têm
por base o princípio da igualdade. Conforme a lição de Alexandre de Moraes19,
por ampla defesa, entende-se o asseguramento que é dado ao réu de condições
que lhe permitam trazer para o processo todos os elementos que tendentes a
esclarecer a verdade ou mesmo de omitir-se ou calar-se, se entender necessá-
rio, enquanto o contraditório é a própria exteriorização da ampla defesa, impon-
do a condução dialética do processo, pois a todo ato produzido pela acusação,
caberá igual direito da defesa de opor-se-lhe ou de dar-lhe a versão que melhor
se apresente, ou, ainda, de fornecer uma interpretação jurídica diversa da que
foi dada pelo autor. Mas não apenas a doutrina constitucionalista de manifestar
neste sentido, senão também a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal,
em julgados nos quais se aplicou, concretamente, a garantia constitucional do
contraditório. Vejam-se dois exemplos, ao menos:
19 (Direito Constitucional. São Paulo, Atlas, 8ª Edição, p.117)
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 127
• Respeita-se o princípio cons- acompanhar os procedimentos preliminares para o levantamento dos
titucional do direito de defesa dados físicos objeto da pretensão desapropriatória. O conhecimen-
quando se enseja ao réu, per- to prévio que se abre ao proprietário consubstancia-se em direito
manentemente assistido por fundamental do cidadão, caracterizando-se a sua ausência patente
defensor técnico, o seu exercí- violação ao princípio do contraditório e da ampla defesa (STF, RDA
cio em plenitude, sem a ocor- 208/276)20
rência de quaisquer restrições
Relações familiares e as conseqüências
ou obstáculos “criados pelo
sucessórias causa mortis
estado” que possam afetar a
cláusula inscrita na Carta Po- ASPECTOS FUNDAMENTAIS DAS RELAÇÕES DE CONJUGALIDADE E
lítica assecuratória do contra- PARENTALIDADE.
ditório e de todos os meios e a. Abrindo o tema
conseqüências derivados do
postulado do due process of Para a finalidade de se verificar a forma pela qual se opera a sucessão
law (STF, RT 643/389). após a morte, é imprescindível saber, antes: (i) como se estabelece o paren-
tesco, pois da relação parental entre o morto e o herdeiro advêm diversas
• A propriedade selecionada conseqüências; (ii) também é necessário anotar, por antecipação, algumas
pelo órgão estatal para o fim noções acerca dos institutos do casamento e da união estável, (iii) além de
de desapropriação por inte- se buscar entender, singelamente, algumas noções e normas relativas aos
resse social visando à reforma regimes de bens previstos na legislação, que estão disponíveis para regular
agrária não dispensa a notifi- as relações patrimoniais entre cônjuges e companheiros, em cada um dos
cação prévia a que se refere o tipos de entidades familiares (casamento ou união estável). Vejamos, por-
§2º do art.2º da Lei 8629/93, tanto, estas noções preliminares, para, depois, intentarmos uma verificação
de tal modo a assegurar aos 20 (Fonte: Bruno Novaes Bezerra Cavalcanti, A garantia constitucional do contraditório, que pode ser encontrado
no seguinte link: <[Link]
seus proprietários o direito de
128 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
sobre como se processa a transmissão de bens de uma pessoa que falece, Anotações
aos seus sucessores, em razão, justamente, desse falecimento21.
b. Relações de parentesco
Inicio com este texto de Arnaldo Rizzardo (Direito de família. Rio de
Janeiro: Forense, 2004, p. 393), que é bastante esclarecedor, no sentido de
levar às primeiras apreciações sobre o tema relacionado a parentesco: Den-
tre os diversos agrupamentos sociais existentes, destaca-se o de pessoas for-
mado de parentes, cujo liame ou ponto comum da união ou aproximação
está numa das seguintes ordens: ou o vínculo conjugal, quando o casamen-
to une o homem e a mulher; ou a consangüinidade, pela qual as pessoas
possuem um ascendente comum, ou trazem elementos sanguíneos comuns,
denominado parentesco biológico ou natural; ou pela afinidade, cujo pa-
rentesco é em virtude da lei e se forma em razão do casamento, envolvendo
o marido e os familiares da mulher, ou vice-versa, isto é, a afinidade advém
do vínculo conjugal entre o marido e a mulher, e se exterioriza como a rela-
ção que liga uma pessoa aos parentes do seu cônjuge (sogro, sogra, genro,
nora, padrasto, enteado, cunhado). Há, também, o parentesco derivado,
ou parentesco civil, e que nasce da adoção, relativamente ao vínculo que
se cria entre o adotante e o adotado, mas sem qualquer distinção quanto ao
consangüíneo. Também civil é o parentesco oriundo da afinidade.
21 Para leituras complementares, acerca do direito de família, recomendam-se as seguintes obras: DIAS, Maria
Berenice. Manual de direito das famílias. São Paulo: RT, 4ª ed, 2007; DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil
brasileiro: direito de família, vol. 5. São Paulo: Saraiva, 2002; RIZZARDO, Arnaldo. Direito de família. Rio de Ja-
neiro: Forense, 2004; VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: direito de família, v. 6. São Paulo: Atlas, 2003.
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 129
O parentesco, então, é um liame (ou vínculo) que liga A relação de parentesco é extremamente importan-
as pessoas que se originam de uma ascendência comum te, sobretudo porque, como previsto nos artigos 1.521
(mesmo tronco familiar, gerando o parentesco consan- e 1.723, § 1º, do Código Civil, dela decorrem impe-
güíneo), ou que liga as pessoas com os parentes de seu dimentos para o casamento e para a constituição da
cônjuge (gerando o parentesco por afinidade), ou, ainda, união estável. Além disso, é indispensável a verificação
que liga a pessoa que adota com a pessoa do adotado da parentalidade entre as pessoas, para fins de sucessão
(gerando o chamado parentesco civil). Esta vinculação hereditária, pois ela indicará o modo de participação
parental, como descrito, produz vínculos jurídicos, esta- de cada um, na herança.
belecidos por lei, e que, por um lado, asseguram direitos
recíprocos e, por outro lado, impõem deveres também Quando se fala em parentesco, e quando se preten-
recíprocos, entre as pessoas envolvidas. de descrever o modo pelo qual ele se classifica, é ne-
cessário, primeiro, entender conceitos jurídicos simples,
Maria Berenice Dias, citando Guilherme Calmon mas essenciais para este intento, ou seja, entender o que
Nogueira da Gama (Manual de direito das famílias. São seja linha, tronco e grau:
Paulo: RT, 2007, 4ª ed., p. 308-309) anota, corretamen- • Linha é a série de pessoas provindas, por filiação,
te, que a espécie de parentesco (consangüíneo, civil ou de um antepassado, isto é, a série de pessoas que
por afinidade), bem como a maior ou menor proximida- são parentes umas das outras, por conta de um
de de graus de parentesco, entre as pessoas, acarreta re- tronco ancestralmente comum.
flexos jurídicos diversos – segundo as regras legais – que
vão depender do grau de intensidade da solidariedade • Tronco designa o ramo de origem comum entre
familiar entre eles havida. De modo geral, as regras con- as pessoas, a partir do qual se forma a árvore ge-
sagram o critério da proximidade, quer dizer: os parentes nealógica, e se começa a contagem dos graus de
mais próximos são os primeiros lembrados. parentesco, embora nem sempre descendam, es-
tas pessoas, umas das outras.
130 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
• Grau é a distância entre os parentes, contada de geração em geração Anotações
(linha reta) e através do ascendente comum (linha colateral).
Analisando, agora, especificamente a classificação do parentesco con-
sangüíneo, poderíamos dizer que esta classificação leva em consideração
o tronco do qual o parentesco provém, e que, então, pode ser parentesco
consangüíneo em linha reta e parentesco consangüíneo em linha colateral:
• Parentesco consangüíneo em linha reta, então, é aquele que vincula
os ascendentes e os descendentes entre si, sem qualquer limitação
de graus. Ou seja, é a série de pessoas que estão numa relação de
ascendência e descendência entre si, como, por exemplo, pais, avós,
filhos, netos etc. Assim, a série de pessoas (linha) desce diretamen-
te dos progenitores aos procriados (linha descendente), ou sobe dos
procriados aos progenitores (linha ascendente). O parentesco em li-
nha reta é ilimitado, sendo que as pessoas, na linha reta ascendente,
possuem duas linhas de parentesco, a materna (mãe, avó materna,
bisavó materna etc.) e a paterna (pai, avó paterna, bisavó paterna
etc.), enquanto que, na linha reta descendente, há a presença de
subgrupos, denominados estirpes (dois netos de filhos diferentes são
parentes em segundo grau de seu avô, embora provenientes de duas
estirpes).
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 131
• Parentesco consangüíneo em linha colateral, en- dores e gerados, subindo e descendo, como se
tão, é aquele que vincula as pessoas ligadas a fossem, simplesmente, os degraus de uma escada
um mesmo tronco, que não são ascendentes ou (art. 1594 do Código Civil). Assim, o pai e o filho
descendentes umas das outras. Esse é o caso, por são parentes no primeiro grau; e o avô e neto, no
exemplo, de irmãos, provenientes do mesmo pai, segundo; o bisavô e o bisneto no terceiro, pros-
mas que não são descendentes um do outro. Assim seguindo infinitamente, porque, nesta linha, não
também acontece com outros parentes, como tios, há limitações ou recortes na escala dos graus de
sobrinhos e primos, que são provenientes de um parentesco.
mesmo ancestral, sem descender uns dos outros.
A Lei limita o referido parentesco até o 4º grau, de • Na linha colateral, por sua vez, a contagem tam-
sorte que, para o mundo jurídico, este parentesco bém se faz pelo número de gerações, subindo até
transversal não se estende além deste grau. o ascendente comum (existente entre os parentes
acerca dos quais se procura a distância parental),
Quanto à contagem de graus do parentesco consan- para, em seguida, descer, lateralmente, até que se
güíneo, é útil, igualmente, entender as regras jurídicas encontre aquele cujo grau de parentesco se quer
que regulam o modo de se medir esta distância entre uma apurar. O parentesco na linha colateral vai até o
geração e outra, entre certos parentes e outros. Grau, as- quarto grau (art.1.592 do Código Civil), pois en-
sim (e como se viu, acima) é a distância que existe entre tendem os juristas (como, exemplificativamente,
dois parentes. Há dois métodos diferentes para se contar Maria Helena Diniz. Curso de direito civil brasi-
os graus do parentesco consangüíneo, conforme este pa- leiro: direito de família. São Paulo: Saraiva, 2002
rentesco seja em linha reta ou em linha colateral. Assim: – Coleção curso de direito civil: 5º v., p. 363) que,
presuntivamente, após esse limite, o afastamento
• Na linha reta, os graus do parentesco se contam é tão grande que o afeto e a solidariedade não
pelo número de gerações, compreendendo gera- mais servem de apoio às relações de direito.
132 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Revendo, para fixar: (i) para que se verifique o grau de parentesco, na Anotações
linha reta, basta contar um grau por geração, por exemplo, entre a pessoa
e seu avô, conta-se um grau até seu pai - ou mãe - e outro até o avô. Logo,
cuida-se de parentesco de segundo grau, em linha reta. (ii) já na linha colate-
ral, para que se verifique o grau de parentesco, a contagem se dará subindo
de um dos parentes até ao ascendente comum, e descendo até encontrar o
outro parente. Assim, por exemplo, se buscado o grau de parentesco entre
uma pessoa e o filho de seu irmão (sobrinho), conta-se um grau até o pai de
ambos – ascendente comum –, outro grau até o irmão, e outro até o filho
deste, tratando-se, neste caso, de parentesco de terceiro grau. Nesta linha
(colateral), não há, como se pode ver, parentesco de primeiro grau. No se-
gundo grau, estão o irmão e a irmã. No terceiro grau, o tio (irmão do pai ou
irmão da mãe), a tia (irmã do pai ou irmã da mãe), bem como, neste mesmo
grau, estão os sobrinhos (filhos do irmão ou da irmã). No quarto, estão os
primos e primas, os netos e netas do irmão ou irmã (sobrinhos-netos), os
irmãos dos avós (tios-avós).
Prosseguindo no exame do parentesco, de um modo geral, nos diz o Có-
digo Civil (art. 1593) que o parentesco é natural ou civil, conforme resulte
de consangüinidade ou outra origem, o que permite concluir que a adoção
(parentesco civil) acarreta tal relação parental, para todos os efeitos jurídi-
cos, sobretudo porque, com a adoção, extinguem-se os vínculos do adotado
com seus pais e parentes consangüíneos – exceção feita para as proibições
e impedimentos para fins de casamento, situação em que aqueles vínculos
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 133
biológicos são havidos como intactos – a ele (adotado) Quanto ao parentesco por afinidade, como já men-
sendo atribuída a situação de filho do adotante ou dos cionado, é aquele que se estabelece por determinação
adotantes. Parentesco civil, portanto, é aquele que tem legal (art. 1595 do Código Civil), sendo que o liame ju-
origem na adoção, estabelecendo vínculo parental entre rídico estabelecido entre um e outro cônjuge, ou entre
os pais adotantes e o filho adotado. um e outro companheiro, com os parentes consangüí-
neos do outro, nos limites estabelecidos pela lei (§1º do
Obs.: Vem sendo reconhecida pela jurisprudência art.1.595 do Código Civil). Referido dispositivo de lei,
(julgados proferidos pelos Tribunais, tanto Estaduais, aqui mencionado, diz exatamente o seguinte:
como o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribu-
nal Federal) a chamada parentalidade socioafetiva, que Art. 1595 – Cada cônjuge ou companheiro é
consiste no parentesco advindo de relações de afeto, aliado aos parentes do outro pelo vínculo da
como, por exemplo, crianças que são criadas por outro afinidade. § 1º - O parentesco por afinidade
homem, que contrai casamento (ou união estável) com limita-se aos ascendentes, aos descendentes
a mãe delas, que poderá ser havido como pai socioa- e aos irmãos do cônjuge ou companheiro. §
fetivo, ainda que soubesse não ser ele o pai biológico. 2º - Na linha reta, a afinidade não se extin-
Veja-se, por exemplo, o seguinte acórdão do Tribunal gue com a dissolução do casamento ou da
de Justiça do Rio Grande do Sul, sobre o assunto, uma união estável.
vez mais referindo, este vanguardeiro Tribunal, como
consta de acórdão [decisão de segundo grau] proferido A respeito deste parentesco (por afinidade), seria útil
pela 9ª Câmara Cível do TJRS, quando do julgamento registrar que a afinidade é um vínculo pessoal e esta vin-
da apelação cível nº 70011497393, que “a verdadeira culação só alcança os parentes consangüíneos do outro
paternidade é aquela que se funda no afeto, podendo cônjuge ou companheiro. As conclusões que se pode
coincidir, ou não, com a paternidade biológica”. retirar desta consideração são importantes e são as se-
guintes: (i) os parentes afins de um cônjuge ou com-
134 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
panheiro não são afins entre si (os chamados concunhados, na vida so- Anotações
cial e familiar, não são juridicamente parentes); (ii) não são afins entre si,
também, os parentes de um e de outro cônjuge ou companheiro (as duas
sogras, por exemplo, não são parentes); (iii) as segundas núpcias ou a se-
gunda união estável de uma certa pessoa não tornarão seus parentes afins
(por força do primeiro casamento ou união estável) parentes dos afins deste
segundo casamento ou união estável; (iv) a dissolução do casamento, ou da
união estável, que originou o parentesco por afinidade não o faz cessar, a
respeito dos afins em linha reta (sogro, sogra, madrasta, padrasto, enteados),
e até mesmo consiste em impedimento para matrimônio ou união estável,
mesmo que a dissolução do casamento ou união estável anteriores tenha se
dado por morte de um dos cônjuges ou de um dos companheiros; (v) mas
a dissolução do casamento ou união estável fará cessar o parentesco por
afinidade na linha colateral (cunhados), e eles até mesmo podem se casar
ou unirem-se estavelmente; (vi) o parentesco por afinidade não acarreta
conseqüências sucessórias, ou seja, não obstante considerados, por força
de lei, parentes, os afins não participam da sucessão, um do outro.
c. Filiação
Importantíssimo vínculo parental é o que liga os filhos com seus pais,
chamado filiação. Na contemporânea concepção jurídica (muito diferente
daquela outra que se conheceu antes e que apenas agora se abandona, pau-
latinamente, filiação é um conceito relacional, no claro dizer de Paulo Lôbo
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 135
(Direito Civil – Famílias, Editora Sa- o ascendente biológico será o pai
raiva, São Paulo: 2008, p. 192). E ele jurídico, pois que a paternidade ju-
expande o conceito, para explicitá- rídica não foi, nem é, forçosamente
lo e explicá-lo melhor, da seguinte determinada pela verdade biológica
maneira: É a relação de parentesco do parentesco. Tanto a Constituição
que se estabelece entre duas pesso- Federal quanto o próprio Código Ci-
as, uma das quais nascida da outra, vil recepcionaram a renovação dos
ou adotada, ou vinculada mediante paradigmas relativos à filiação e as
posse do estado de filiação, ou por odiosas discriminações a que eram
concepção derivada de inseminação submetidos os filhos de diferentes
artificial heteróloga. Quando a rela- origens, como por exemplo, a qua-
ção é considerada em face do pai, lificação deles em legítimos e ilegí-
chama-se paternidade; quando em timos. É ainda Paulo Lôbo (mesma
face da mãe, maternidade. obra mencionada, p.194) quem es-
creve, a respeito, a seguinte, bela e
Os juristas (ou familiaristas, perfeita consideração sobre o assun-
como são chamados aqueles que to, descrevendo a evolução trazida
se dedicam ao estudo das relações pela alteração da norma jurídica,
jurídicas de direito de família) têm constitucional e civilista: A norma
sido enfáticos, na atualidade (depois retrata verdadeira mudança de pa-
de longa e penosa evolução por que radigmas, envolvente da concepção
passou a filiação, ao longo do século de família. A desigualdade entre fi-
XX), ao afirmarem que nem sempre lhos, particularmente entre filhos le-
gítimos, ilegítimos e adotivos, era a
Cleverson Beje
136 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
outra e dura face da família patriarcal que perdurou no direito brasileiro Anotações
até praticamente os umbrais da Constituição de 1988, estruturada no casa-
mento, na hierarquia, no chefe de família, na redução do papel da mulher,
nos filhos legítimos, nas funções de procriação e de unidade econômica e
religiosa. A repulsa aos filhos ilegítimos e a condição subalterna dos filhos
adotivos decorriam naturalmente dessa concepção.
Há, no direito brasileiro (assim como no direito estrangeiro, e desde
sempre), o sistema das presunções (as ilações que se tiram de um fato co-
nhecido para provar a existência de outro desconhecido) para a atribuição
do vínculo paterno-filial, embora os desafios que hoje sofrem, tais presun-
ções, pelo incrível avanço da biotecnologia e pela disseminação do exame
de DNA. Entre nós, então, presumem-se filhos concebidos durante o casa-
mento, segundo o art. 1.597 do Código Civil: (i) os nascidos cento e oitenta
dias, pelo menos, depois de estabelecida a convivência conjugal; (ii) os
nascidos nos trezentos dias subseqüentes à dissolução da sociedade conju-
gal, por morte, separação judicial, nulidade e anulação do casamento; (iii)
os havidos por fecundação homóloga, isto é, aquela que é promovida com
material genético da própria mulher (óvulos) e do próprio marido (sêmen),
mesmo que falecido este; (iv) os havidos, a qualquer tempo, quando se tra-
tar de embriões excedentários, decorrentes de concepção artificial homólo-
ga, isto é, por fertilização in vitro; (v) os havidos por inseminação artificial
heteróloga, desde que tenha prévia autorização do marido.
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 137
Mas, a presunção de paternidade é relativa, admitindo prova em con- interesse tenha (art.1.615 do Código
trário. Todavia, é direito exclusivo e imprescritível do marido contestar a Civil).
paternidade dos filhos nascidos de sua esposa, estando legitimados os seus
herdeiros a prosseguirem na ação, caso ocorra o falecimento do marido, Para o reconhecimento de filho
autor da demanda, após a respectiva propositura da ação. Assim, pode o maior é necessária a respectiva con-
pai impugnar a paternidade que lhe é atribuída, provando, por exemplo, a cordância do filho a ser reconheci-
impotência (...) para gerar, à época da concepção (art.1.599, Código Civil) do. No entanto, se for o caso de re-
– estando excluídos, como é certo, os casos em que tenha havido insemi- conhecimento de filho menor, este
nação artificial heteróloga –, e que o adultério da esposa resultou na efetiva também poderá impugnar este reco-
concepção de filho com outro homem. nhecimento, no prazo de 4 (quatro)
anos a contar de sua maioridade ou
Relativamente, agora, aos casos de reconhecimento de filhos nascidos emancipação (art.1.614 do Código
fora do casamento, anote-se que este reconhecimento pode ser efetivado Civil).
tanto pela forma voluntária como pela forma judicial. A primeira das for-
mas, a voluntária, consiste na manifestação livre daquele que reconhece, Estas noções básicas a respeito
no próprio registro de nascimento, por escritura pública ou por escrito de filiação são importantes para se
particular, a ser arquivado em cartório, ou por testamento, ou, ainda, por compreender, adiante, as questões
manifestação direta e expressa perante o juiz. Tal reconhecimento pode se sucessórias, em razão da morte de
dar a qualquer momento, inclusive anterior ao nascimento, ou posterior certa pessoa, tendo em vista que os
falecimento, do filho. A segunda forma, a judicial, se dará por sentença filhos são os primeiros a serem cha-
proferida em ação de investigação de paternidade ou de maternidade. A mados a suceder, se o falecido os ti-
ação de reconhecimento tem caráter pessoal e é de legitimidade do filho, nha. Também é importante lembrar
embora seus herdeiros o sucedam caso venha a falecer antes da sentença, que é absolutamente proibida qual-
podendo haver a apresentação de defesa por qualquer pessoa que justo quer discriminação entre os filhos,
138 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
independentemente de sua origem, parcial de bens, em que, basicamen- Anotações
isto é, não importando se são filhos te, se excluem da comunhão os bens
de união matrimonial, ou união está- que os cônjuges/companheiros já
vel, ou mesmo se são filhos havidos possuíam ao casarem-se ou unirem-
fora destas duas situações. Quais- se, bem como aqueles que adquiri-
quer filhos são igualmente filhos, ram depois, mas por razão anterior
para os efeitos de sucederem o seu ao casamento, como as doações e
falecido pai. as heranças; entram na comunhão,
portanto, apenas os bens adquiridos
d. Normas a reger as relações na constância do casamento ou da
patrimoniais no casamento e união estável; (ii) regime da comu-
na união estável nhão universal de bens, em que o pa-
trimônio dos cônjuges/companheiros
Regime de bens é o conjunto de se comunica na respectiva totalida-
normas legais que disciplinam as re- de, isto é, todos os bens entram na
lações patrimoniais entre os cônjuges comunhão, quer os presentes, quer
(pessoas que se casam) ou entre os os futuros, bem como as dívidas de
companheiros (pessoas que optam ambos, com raras exceções; (iii) regi-
por viver em união estável). me da separação (total) de bens, no
qual nada se comunica entre os côn-
São quatro os regimes de bens juges/companheiros, isto é, os bens
admitidos pelo legislador brasileiro que cada um traz para o casamento
(artigos 1.639 a 1.693 do Código Ci- ou para a união estável, bem como
vil), a saber: (i) regime da comunhão os bens que cada um adquirirá pos-
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 139
teriormente, permanecem de sua ex- regência de seus patrimônios (depois É importante anotar que o regime de
clusiva propriedade, administração e do casamento ou da união estável), bens que vai reger a vida patrimonial
livre disposição, salvo poucas e raras o regime que lhes será atribuído (por dos que se casam, ou dos que esco-
exceções; (iv) regime da participação lei) será este, o da comunhão parcial lhem viver em união estável, refletirá
final nos aqüestos, em que, durante de bens, cujo perfil, em duas pala- diretamente, depois, no direito suces-
a vigência do casamento/união está- vras é o seguinte: a) separação dos sório dos cônjuges/companheiros.
vel, os bens de cada um permanece bens adquiridos antes do casamen-
em seus próprios nomes (de cada um to, ou por causa que lhe é anterior, Por fim, é útil também que se
dos cônjuges/companheiros), man- e b) comunhão dos bens adquiridos faça, aqui, alguns comentários sobre
tendo-os como propriedade exclusi- na constância do casamento/união o regime da separação obrigatória de
va; e, mais tarde, ocorrendo a dis- estável. Denominam-se bens parti- bens. Este regime é uma das duas es-
solução do casamento ou da união culares os bens que não entram na pécies do gênero regime da separa-
estável, se apura o patrimônio que comunhão com o outro cônjuge/ ção (total) de bens; a outra espécie é
foi adquirido, onerosamente, para companheiro. o regime da separação convencional
fins de divisão. O percentual de bra- de bens, o qual pode ser escolhido
sileiros casados neste regime é insig- Se as pessoas preferirem outro pelas pessoas, que o celebrarão por
nificante. regime de bens (que não este, o da meio de pacto antenupcial ou por
comunhão parcial de bens), deverão meio de contrato de convivência,
O regime da comunhão parcial então produzir um pacto antenupcial conforme seja o caso de casamen-
de bens é o regime legal, ou o regi- (se a hipótese for a de casamento), to ou união estável, respectivamen-
me da opção simples. Quer dizer: se ou um contrato de convivência (se a te. Trata-se – o regime da separação
os futuros cônjuges/companheiros hipótese for a de união estável), por obrigatória de bens – e como o nome
nada convencionarem, no sentido meio dos quais apontarão, então, indica, de regime imposto pela lei,
de escolherem outras regras para a qual o regime de bens que preferem. em situações que o legislador enten-
140 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
deu serem perigosas para os futuros Obs.: As causas suspensivas aci- Anotações
cônjuges, não permitindo, por isso, ma referidas são aquelas que cons-
que eles escolham livremente o re- tam do art. 1.523 do Código Civil, a
gime patrimonial de seu casamento, saber: “Não devem casar: I - o viúvo
mas, ao contrário, impondo o regime ou viúva que tiver filho do cônjuge
de separação absoluta de bens, obri- falecido, enquanto não fizer inventá-
gatoriamente. E assim, o art. 1.641 rio dos bens do casal e der partilha
do Código Civil prescreve quais as aos herdeiros; II - a viúva, ou mulher
circunstâncias que obrigarão os nu- cujo casamento se desfez por ser nulo
bentes a este regime de separação ou ter sido anulado, até dez meses
de bens: (i) para pessoas que contra- depois do começo da viuvez, ou da
írem matrimônio com inobservância dissolução da sociedade conjugal; III
das chamadas causas suspensivas; - o divorciado, enquanto não houver
(ii) para pessoas maiores de sessenta sido homologada ou decidida a par-
anos; (iii) para pessoas que depen- tilha dos bens do casal; IV - o tutor
derem, para casar, de suprimento ou curador e os seus descendentes,
judicial22. ascendentes, irmãos, cunhados ou
22 Suprimento judicial é a autorização que o juiz con-
sobrinhos, com a pessoa tutelada ou
cede para que pessoas se casem, em certos casos. As-
sim, se aqueles que desejam se casar (ou apenas um de- curatelada, enquanto não cessar a
les) tiverem idade entre 16 e 18 anos, e se seus pais ou
representantes legais lhes negar a devida autorização, o respectiva tutela ou curatela, e não
juiz poderá suprir esta ausência, se a negativa for injusta
(art. 1.519 do Código Civil). Ou, ainda, se aqueles que estiverem saldadas as respectivas
pretendem se casar (ou apenas um deles) contarem com
menos de 16 anos, o casamento poderá ser autorizado contas.”
judicialmente para evitar imposição ou cumprimento de
pena criminal, ou em caso de gravidez (art. 1.520 do
Código Civil). No entanto, se houver autorização de am-
bos os pais, o(s) menor(es) poderá(ão) casar, optando
por qualquer dos regimes, não ficando adstrito(s) ao re-
gime obrigatório da separação de bens.
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 141
Assim, se o regime de bens for o da separação obrigatória, nada se co- a. Primeiras palavras23
municará entre os cônjuges; no entanto, sempre será possível a mudança de
regime de bens (art. 1639, § 2º do Código Civil), depois do casamento, se a O ato de alguém suceder a
situação que determinou a separação patrimonial desaparecer (excepciona- outrem, em razão da morte deste
se desta possibilidade, portanto, o regime de separação obrigatória para os último (isto é, a sucessão mortis
sexagenários). causa) se opera – por força de
uma ficção jurídica – no mesmo
Obs.: a doutrina jurídica encontra-se dividida, atualmente, no que diz exato momento que aquele falece,
respeito a permanecer aplicável, ou não, uma antiga Súmula do STF (Súmula fazendo nascer o direito hereditário e
377), editada na vigência do anterior Código, no tempo em que o regime operando a substituição do falecido
legal era o da comunhão universal de bens. Segundo esta Súmula (pequena por seus sucessores (ou herdeiros).
síntese que registra a interpretação pacífica ou majoritária adotada por um A morte, portanto, é o antecedente
Tribunal a respeito de um tema específico, com a dupla finalidade de tornar lógico, é pressuposto e é causa desta
pública a jurisprudência para a sociedade bem como de promover a uni- transmissão, a qual, por sua vez, é
formidade entre as decisões), no regime da separação obrigatória de bens, a conseqüência ou o efeito jurídico
comunicam-se os adquiridos na constância do casamento. Em seus efeitos da morte. Por força daquela ficção
práticos, esta Súmula acaba por converter o regime da separação obrigatória 23 Para leitura complementar, acerca de direito suc-
essório, recomenda-se as seguintes obras: AMORIM, Se-
em regime de comunhão parcial. bastião, e OLIVEIRA, Euclides. Inventários e Partilhas. São
Paulo: Leud, 15ª ed., 2003; HIRONAKA, Giselda Maria
Fernandes Novaes. “Direito das Sucessões: sucessão em
geral e sucessão legítima”, vol. 20 da coleção denomi-
CONSEQÜÊNCIAS SUCESSÓRIAS EM RAZÃO DA MORTE DO nada Comentários ao novo Código Civil, coordenação
de Antonio Junqueira Azevedo, da Editora Saraiva, 2ª
PROPRIETÁRIO OU EMPRESÁRIO RURAL. edição, São Paulo: 2007; CAHALI, Francisco José e HI-
RONAKA, Giselda Maria Fernandes Novaes. Direito das
Sucessões. Editora RT, 3ª edição, São Paulo, 2008.
142 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
legal, construída pelo legislador, zido número daquelas que testam, Anotações
coincidirão os dois momentos: o o faz porque não tiveram filhos, ou
da morte e o da transmissão aos porque desejam beneficiar alguma
herdeiros. outra pessoa (ou mesmo alguém que
já é herdeiro) em desfavorecimento
No Brasil, conhecemos dois ti- de outros que, se não fosse o testa-
pos de sucessão mortis causa (em ra- mento, receberiam cotas hereditárias
zão da morte de alguém): (i) a suces- maiores, ou, simplesmente, porque
são legítima e (ii) a testamentária. A desejam reconhecer filhos havidos
primeira das formas é rigorosamente fora do casamento. São poucos os
a mais difundida no país, pelo fato, que, possuindo herdeiros necessá-
talvez, de sermos uma jovem cultu- rios (isto é, descendentes, ascenden-
ra, ainda (500 anos, apenas, desde tes e cônjuge/companheiro), testam
o descobrimento), razão que justifi- relativamente à parte disponível de
caria a falta de costume de fazermos seu patrimônio, quer dizer, a parte
testamentos. Já tive ocasião de escre- equivalente a 50%, pois a outra me-
ver, antes24, que: Normalmente, en- tade não pode ser objeto de dispo-
tre nós, as pessoas passam pela vida sição testamentária. Essa espécie de
e dela se vão, intestadas (quer dizer, aversão à prática de testar, entre nós,
sem terem feito testamento); o redu- é devida, certamente, a razões de or-
dem cultural, ou costumeira, ou fol-
24 (Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka, “Dire-
ito das Sucessões: sucessão em geral e sucessão legíti- clórica, algumas vezes, psicológica,
ma”, vol. 20 da coleção denominada Comentários ao
novo Código Civil, coordenação de Antonio Junqueira entre outras tantas. O brasileiro não
Azevedo, da Editora Saraiva, 2ª edição revista, São Pau-
lo: 2007, ps. 33-34) gosta, em princípio, de falar a respei-
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 143
to da morte, e sua circunstância é ainda bastante mistificada e resguardada, como se isso servisse para ‘afastar
maus fluídos e más agruras... . Assim como, por exemplo, não se encontra arraigado em nossos costumes o hábito
de adquirir, por antecipação, o lugar destinado ao nosso túmulo ou sepultura, bem como não temos, de modo
mais amplamente difundido, o hábito de contratar seguro de vida, assim como, ainda, não praticamos, em escala
significativa, a doação de órgãos para serem utilizados após a morte. Parece que estas atitudes, no dito popular,
‘atraem o azar... .
Os herdeiros necessários (descendentes, ascendentes e cônjuge do falecido), segundo a lei, são aqueles cuja
existência teria impedido que o autor da herança (isto é, o que agora faleceu), enquanto vivo, fizesse testamento a
respeito de todo o seu patrimônio. Se quisesse fazê-lo, então, deveria guardar a metade de seus bens (chamada le-
gítima dos herdeiros necessários) para que fossem entregues a esta categoria de herdeiros (os herdeiros necessários),
depois de sua morte, enquanto que a outra metade (chamada de cota disponível) seria entregue às demais pessoas
por ele indicadas, em vida, no testamento que fizera. Eis os dispositivos legais, do Código Civil, correspondentes:
Art. 1.845. São herdeiros necessários os descendentes, os ascendentes e o cônjuge.
Art. 1.846. Pertence aos herdeiros necessários, de pleno direito, a metade dos bens da herança, constituindo
a legítima.
Já os chamados parentes colaterais (v. art. 1829, IV, do Código Civil), também poderão ser chamados a her-
dar, se o morto não deixou parentes descendentes ou ascendentes, e também não deixou cônjuge sobrevivo. Este
parentesco, diferentemente do parentesco em linha reta (como já se viu, antes), sofre limitações, isto é, segue
(juridicamente) apenas até o quarto grau. Mas, observe-se: os colaterais não estão elencados entre os herdeiros
necessários, razão pela qual poderá certa pessoa, que apenas tenha parentes colaterais, fazer um testamento que
144 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
alcance todos os seus bens, deixando estes parentes (os colaterais), sem Anotações
direito à herança, se assim desejar, conforme o previsto no art. 1.850 do
Código Civil:
Art. 1850. Para excluir da sucessão os herdeiros colaterais, basta
que o testador disponha de seu patrimônio sem os contemplar.
Para excluir da sucessão os herdeiros colaterais, portanto, basta que o
testador faça o seu testamento sem os contemplar.
A sucessão legítima, portanto, consiste na sucessão que está prevista
em lei (o legislador é que define para quem, entre os prováveis sucessores
do falecido, é que será deferida a herança), enquanto que a sucessão testa-
mentária consiste na sucessão levada a efeito com base em manifestação da
vontade do falecido, por meio de testamento, respeitada a reserva obrigato-
riamente feita em favor dos herdeiros necessários. Vendo, um pouco mais
detalhadamente, cada uma das formas:
b. Sucessão legítima
Como se disse, então, esta é a forma de sucessão mais aplicada, no Bra-
sil, para operar a transmissão de bens deixados por alguém, no momento de
seu falecimento, sendo certo que esta pessoa não optou, em vida, pela fac-
ção de um testamento, por meio do qual pudesse – se tivesse querido – al-
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 145
terar o endereçamento normal (definido pela lei) de seu acervo patrimonial. tes (de qualquer grau), serão então
Se é nesta condição que alguém falece, o legislador passa então a dizer para chamados os ascendentes (também
qual(is) pessoa(s) será deferida (entregue) a herança deixada pelo morto. A aqui todos os ascendentes que hou-
lei prepara uma lista dessas pessoas e estabelece uma ordem preferencial ver), mas sempre preferindo-se os
pela qual elas serão chamadas, cada uma por sua vez, para herdar, se for o de grau mais próximo e afastando
caso. Esta lista assim ordenada de pessoas se denomina ordem da vocação os de grau mais remoto. Se o faleci-
hereditária, e está consagrada no art. 1829 e seus incisos, do Código Civil: do, no entanto, não possuir descen-
dentes e nem ascendentes, então
Art. 1.829. A sucessão legítima defere-se na ordem seguinte: será chamado a sucedê-lo, segundo
I – aos descendentes, em concorrência com o cônjuge sobre- o art. 1829, III do Código Civil, o
vivente, salvo se casado este com o falecido no regime da co- seu cônjuge sobrevivente. Infeliz-
munhão universal, ou no da separação obrigatória de bens (art. mente o Código Civil deu tratamen-
1.640, parágrafo único); ou se, no regime da comunhão parcial, to diferente à sucessão do cônjuge
o autor da herança não houver deixado bens particulares. sobrevivente (aquele que havia sido
II – aos ascendentes, em concorrência com o cônjuge; casado com o agora falecido) e à
III – ao cônjuge sobrevivente; sucessão do companheiro sobrevi-
IV – aos colaterais. vente (aquele que havia vivido em
união estável com o agora falecido).
De acordo com esta ordem preferencial, então, ao falecer alguém, serão Conviria, nestes apontamentos, exa-
chamados a herdar, primeiramente, seus descendentes, quer dizer, todos minar brevemente estas regras:
os descendentes que houver, mas preferindo-se antes os de grau mais pró-
ximo e afastando-se os de grau mais remoto (v. as lições sobre parentesco > Sucessão no casamento
no subitem b) do item 1) do inciso II – relações familiares e conseqüências
sucessórias causa mortis – deste capítulo 5). Na ausência de descenden- O cônjuge que sobrevive partici-
146 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
pa da herança deixada pelo cônjuge falecido nas seguintes proporções: (i) Anotações
quando concorrer com descendentes, caber-lhe-á quinhão igual ao desses
herdeiros, não podendo sua quota ser inferior à quarta parte da herança,
se ele (cônjuge sobrevivo) for ascendente dos mesmos (os descendentes do
falecido). Inexiste previsão para o caso de o falecido possuir descendentes
oriundos do casamento e também descendentes oriundos de outros rela-
cionamentos, fora do casamento; uma situação assim (aliás muito comum,
entre nós), por falta de previsão legal específica, deverá ser objeto de de-
cisão judicial em cada caso concreto; (ii) se concorrer com ascendentes,
sobrevivendo ambos os pais do falecido, caber-lhe-á uma terça parte da
herança, enquanto que, se houver apenas um dos pais do falecido, ou
mesmo outro(s) ascendente(s) em grau mais remoto, (por exemplo: avós), ao
cônjuge sobrevivo caberá metade da herança (art. 1.836 do Código Civil).
Mas, para o cônjuge ser chamado a herdar, é imprescindível que o ca-
sal, no momento do óbito, não esteja separado judicialmente e nem mesmo
separado de fato há mais de dois anos (art. 1.830 do Código Civil). Con-
tudo, o próprio legislador permitiu que, em casos de separação fática por
prazo superior a dois anos, poderá o cônjuge sobrevivente ser chamado à
sucessão, como herdeiro necessário, se comprovar que não deu causa à
ruptura da vida em comum (art. 1.830 do Código Civil, in fine).
Esta última previsão legal (art. 1.830 do Código Civil, in fine) não se
mostra nem um pouco razoável, pois não é concebível imaginar a produ-
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 147
ção de prova de culpa de pessoa falecida, pela ruptu- bens adquiridos onerosamente na vigência da
ra da vida em comum, sem que possa, ela própria, se união estável, nas condições seguintes:
defender (eis que já morta)! O tema (e a discussão que I - se concorrer com filhos comuns, terá direi-
enseja) tem sido objeto de grandes divergências entre os to a uma quota equivalente à que por lei for
juristas, encontrando também divergentes decisões ju- atribuída aos filhos;
diciais para casos assemelhados, o que é sempre muito II - se concorrer com descendentes só do autor
temerário, certamente. da herança [o próprio falecido], tocar-lhe-á a
metade do que couber a cada um daqueles;
> Sucessão na união estável III - se concorrer com outros parentes suces-
síveis [parentes na linha reta ascendente, ou
No item anterior vimos, ainda que em breves pin- parentes na linha colateral] terá direito a um
celadas, como se processa a sucessão de alguém que terço da herança;
havia falecido no estado de casado (casamento). Veja- IV - não havendo parentes sucessíveis, terá
mos, agora, como se processará a sucessão de alguém direito à totalidade da herança.
que venha a falecer no estado de companheiro (união
estável). Obs.: é interessante anotar que, se ocorrer a situação
prevista no inc. IV do art. 1790 do Código Civil (não ha-
O dispositivo legal que regulamenta a sucessão dos vendo parentes sucessíveis, [o companheiro sobrevivo]
companheiros, é o art. 1790 do Código Civil: terá direito à totalidade da herança), o companheiro-
herdeiro terá direito a toda a herança do companheiro-
Art. 1.790. A companheira ou companheiro falecido, e não apenas àquela cota de bens que ambos
participará da sucessão do outro, quanto aos amealharam durante a vigência de sua união estável.
148 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Se acontecer de falecer alguém sem ter deixado nem parentes (descen- Anotações
dentes, ascendentes, colaterais até o 4º grau, ou cônjuge sobrevivente, ou
companheiro sobrevivente), então o acervo patrimonial por ele deixado
(sua herança), será deferida (entregue) ao Município, ou ao Distrito Fede-
ral, ou à União (conforme o caso), de acordo com a regra do art. 1844 do
Código Civil:
Art. 1.844. Não sobrevivendo cônjuge, ou companheiro, nem pa-
rente algum sucessível, ou tendo eles renunciado a herança, esta
se devolve ao Município ou ao Distrito Federal, se localizada nas
respectivas circunscrições, ou à União, quando situada em terri-
tório federal.
> Meação e herança
É muito comum, entre os leigos, se fazer grande confusão entre os con-
ceitos jurídicos de meação e de herança. Mas – atenção – essa confusão
deve ser afastada, pois ela ocasiona, como conseqüência, grandes erros de
interpretação das regras do direito sucessório entre nós. Bem por isso, então,
é importante separar e esclarecer ambos os conceitos:
> Meação é o direito de cada sócio da sociedade conjugal, consistente
na metade dos bens que integram o patrimônio comum do casal. Esta
metade ideal já pertencia a cada um deles, mesmo antes do faleci-
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 149
mento do autor da herança. A metade que per- Como se vê, não há razão para confundir os con-
tencia ao sobrevivente continua lhe pertencen- ceitos jurídicos de meação e de herança. Ao direito su-
do, mas não por força do deferimento sucessório. cessório, pertence apenas o conceito de herança. Desta
É errado dizer, então, que por conseqüência da maneira, então, se houver um caso em que o cônjuge ou
morte do marido, por exemplo, a mulher “ficou o companheiro forem chamados para herdar (hipóteses
com metade de seus bens”! Esta metade, na ver- legais do art. 1829, III e do art. 1790, IV, respectivamen-
dade, já lhe pertencia mesmo antes da morte de te), receberão, pela via sucessória, bens que pertençam
seu marido, razão pela qual continua a lhe per- à herança do falecido, uma vez que, quanto à meação,
tencer. Quer dizer: ela não “herdou” a metade esta já lhes pertencia.
do patrimônio comum do casal. Não se trata de
herança, enfim. > Direito real de habitação
> Herança é o patrimônio deixado pelo falecido.
Pode consistir na sua própria meação (metade do O chamado direito real de habitação caracteriza-se
patrimônio comum do casal) que lhe pertencia pela ocupação de casa alheia, realizada pelo titular des-
em vida, somada a outros bens (bens particulares) se direito, com finalidade de ali residir com sua família.
que não integravam o patrimônio comum. Heran-
ça, enfim, é aquele conjunto de bens que perten- No que diz respeito ao direito sucessório, esse di-
ciam ao falecido e que agora, com sua morte, pas- reito real de habitação está previsto no art. 1.831 do
sarão a pertencer a outras pessoas, seus herdeiros. Código Civil, dispondo o seguinte:
Os bens que integram a herança são aqueles que,
por assim dizer, “ficaram sem dono”, em razão Art. 1.831. Ao cônjuge sobrevivente, qual-
da morte de seu antigo titular. quer que seja o regime de bens, será assegu-
rado sem prejuízo da participação que lhe
150 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
caiba na herança, o direito real de habitação relativamente ao
imóvel destinado à residência da família, desde que seja o único Anotações
daquela natureza a inventariar.
Assim, fica assegurado, ao cônjuge sobrevivente, por força de lei, o di-
reito constitucional à moradia (art. 6º da Constituição Federal), sendo que
o beneficiado (o cônjuge sobrevivente) deverá exercer esse direito pessoal-
mente, ficando proibido, aos demais herdeiros, cobrarem quaisquer aluguel
pelo uso do imóvel. Este direito de habitação independe de qualquer outro
direito sucessório que exista, ou não, para o cônjuge sobrevivo, bem como
independe do fato de ele ter meação (aquela metade resultante da divisão
do patrimônio comum com o outro cônjuge, agora falecido). Mas não terá
esse direito o cônjuge sobrevivente que estivesse separado judicialmente,
ou separado de fato há mais de dois anos. O cônjuge que lá habitar estará
responsável pelo pagamento de todos os impostos que digam respeito ao
imóvel e, além disso, deverá conservá-lo como se fosse seu, para devolvê-lo
em ordem, quando esta ocasião chegar.
Um assunto que não ficou resolvido pelo Código Civil, acerca do direi-
to real de habitação derivado de direito sucessório, foi o fato de não ter, a
lei, feito qualquer referência ao mesmo direito concedido ao companheiro
sobrevivente, uma vez que o dispositivo legal só menciona o cônjuge sobre-
vivente. Além dessa dúvida fundamental, outras questões também ficaram
pendentes, a respeito desse direito. Enumerando-as, então, são as seguintes:
(i) se existe direito real de habitação concedido também ao companheiro
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 151
sobrevivente; (ii) se não haverá esse direito quando existir outro imóvel da no imóvel rural apenas a casa-sede
mesma natureza a ser inventariado; (iii) se a constituição de nova família, será considerada imóvel residencial,
por intermédio do cônjuge sobrevivente, quer por união estável, quer por para a finalidade de habitação; b) o
novo casamento, produz a extinção do seu direito real de habitação; (iv) e, exercício desse direito pelo cônjuge
finalmente, se há, ou não, a possibilidade de instituição do direito real de sobrevive não dispensa os proprietá-
habitação sobre imóvel rural. rios (os herdeiros que o receberam)
de atender aos ditames constitucio-
Quanto ao primeiro questionamento, divide-se muito a doutrina, alguns nais relativamente ao cumprimento
interpretando que não há tal direito para os que viveram em união estável, da função social, fazendo-o produ-
e outros ponderando em sentido contrário. Certamente é muito injusto que zir, como determina a lei.
aos companheiros não seja assegurado tal direito, pois é difícil imaginar a
razão pela qual o legislador tenha garantido direito aos que se casaram e > Diferenciações entre cônjuges
tenha retirado o mesmo direito aos que preferiram viver em união estável, e companheiros para fins su-
uma vez que casar ou viver junto, apenas, é um opção constitucionalmente cessórios.
permitida às pessoas. Quanto ao segundo questionamento, a resposta é posi-
tiva: o direito de habitação deixará de existir se houver outro(s) imóvel(veis) Para efeito de revisão e memo-
da mesma natureza a ser(em) inventariado(s). Quanto ao terceiro questio- rização dos aspectos até aqui men-
namento, a legislação atual não opõe qualquer restrição à continuidade do cionados, a respeito das diferenças
direito real de habitação se, por acaso, o cônjuge-viúvo e titular desse direito de regras, no direito sucessório, para
contrair novo relacionamento, seja por meio de novo casamento, ou seja por pessoas que foram casadas ou para
meio de união estável. E, finalmente, quanto ao último questionamento, a pessoas que foram unidas estavel-
resposta é positiva, ocorrendo, sim, a instituição de direito real de habitação mente, consideremos o seguinte
sobre imóvel rural. No entanto, dois pontos devem ser bem realçados: a) quadro comparativo:
152 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
CASAMENTO UNIÃO ESTÁVEL
Anotações
O cônjuge sobrevivo é considerado herdei- O companheiro sobrevivo não consta do
ro necessário. elenco legal que enumera os herdeiros ne-
cessários, o que tem causado discussões dou-
trinárias e judiciais, diante da lacuna da lei.
O cônjuge sobrevivo – dependendo do re- O companheiro sobrevivo concorrerá com
gime de bens que regia o seu casamento descendentes e com ascendentes, sem limi-
– concorrerá com os descendentes do fa- tação de grau, bem como com colaterais,
lecido, herdando uma parcela da herança. até o 4º grau, herdando parcela da herança
Concorrerá também com os ascendentes deixada pelo falecido.
do falecido, independentemente do regime
de bens que regia o seu casamento com o
agora falecido. E será herdeiro universal, se
inexistirem descendentes e ascendentes.
O cônjuge sobrevivo, quando for chamado O companheiro sobrevivo, quando for
a herdar diretamente (e não concorrente- chamado a herdar diretamente (e não
mente), por inexistirem descendentes e as- concorrentemente), por inexistirem pa-
cendentes, ele herdará todo o acervo patri- rentes sucessíveis (descendentes, ascen-
monial deixado pelo falecido. dentes e colaterais), ele herdará apenas
aqueles bens que foram adquiridos, one-
rosamente, durante a vigência da união
estável.
Ao cônjuge sobrevivo é garantido, pouco Ao companheiro sobrevivo, para que lhe
importando o regime de bens, o direito real seja, eventualmente, reconhecido o direito
de habitação no imóvel da família, desde real de habitação no imóvel da família (já
que se trate do único de tal espécie a in- que a lei não previu este direito a ele), e
ventariar. desde que se trate do único de tal espécie
a inventariar, terá que ingressar em juízo,
alegando analogia constitucional com o
mesmo direito que a lei concede ao côn-
juge sobrevivo.
Quadro 5.1
Obs.: Merece registro que as diferenciações em questão, produzidas
pelo Código Civil, violam a previsão contida no art. 5º da Constituição
Federal, que prevê que todos são iguais perante a lei, sem distinção de
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 153
Cleverson Beje
qualquer natureza[...], mas este assunto (inconstitucionalidade) será objeto
de discussões judiciais, em cada caso concreto.
Para efeito de revisão do tema até aqui exposto, é útil analisar, exempli-
ficativamente, casos simulados, mas que poderiam ser reais:
(i) Empresário rural que falece, casado no regime da comunhão parcial
de bens, deixando cinco filhos, todos da esposa (agora viúva), caso
em que (aplicando-se o art. 1829 e o art. 1832, ambos do Código
Civil) a ela caberá ¼ (uma quarta) parte dos bens particulares do
falecido, dividindo-se o restante destes bens particulares pelos cinco
herdeiros; já quanto à outra parte da herança (meação do faleci-
do), só entre os 5 herdeiros se a dividiria. Assim, se a herança fosse
constituída de $400.000,00 (bens particulares do marido falecido)
+ $600.000,00 (metade do patrimônio comum = meação do faleci-
do), fazendo um total de $1.000.000,00 (total da herança), assim se
dividiria: a) quanto aos bens particulares do falecido ($400.000,00),
destinar-se-ia ¼ à viúva, isto é, $100.000,00, e o restante desses
bens particulares se dividiria entre os 5 filhos-herdeiros (300.000,00
: 5), a cada um cabendo, portanto, $60.000,00; b) quanto à mea-
ção do falecido, esta se dividiria apenas entre os 5 filhos-herdeiros
(600.000,00 : 5), a cada um cabendo, portanto, $120.000,00. Ao
final da partilha, a cada filho caberia o quinhão hereditário equi-
valente a $180.000,00, e à viúva-concorrente caberia o quinhão
hereditário equivalente a $100.000,00.
154 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Anotações
(ii) Empresário rural, casado em segundas núpcias sob o regime da se-
paração convencional (e total) de bens. Ele tem três filhos: um com
a primeira esposa (de quem é divorciado) e dois com a segunda.
Quando da morte desse empresário (aplicando-se o art. 1829 e o art.
1832, ambos do Código Civil), serão chamados a herdar os seus três
descendentes (1º grau), seus filhos; com eles concorrerá a viúva (as-
cendente de dois dos herdeiros e madrasta do outro). A maneira de
se dividir a herança é muito discutível, pois a lei não previu hipótese,
como esta, em que a viúva concorre com filhos que teve em comum
com o falecido (ela é ascendente deles dois) e com filho exclusivo
do falecido, havido em outro leito. No entanto, parece que o mais
comum, nos julgamentos, tem sido a partilha que trata todos como
se fossem comuns, aplicando a regra do art. 1832. No caso desse
empresário – e supondo que a herança fosse de $1.000.000,00, en-
tão, se dividiria o acervo em 4 partes, a cada qual (3 filhos e viúva)
cabendo o quinhão de $250.000,00. Anote-se, contudo, que por
falta de regra num caso como esse (concorrência com filhos comuns
e com filhos exclusivos), há julgados que partilham de outro modo,
conforme seja a interpretação do julgador, relativamente à lacuna
legal existente (ou entendem que, nesses casos se deve considerar
todos como se fossem exclusivos, ou, ainda, os que tentam aplicar a
regra da proporcionalidade para resolver a divisão).
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 155
(iii) O empresário rural falece, tendo mantido união (iv) O empresário rural falece, tendo mantido união
estável durante os vinte anos que antecederam o estável durante os doze anos que antecederam
óbito, deixando cinco filhos, todos havidos com o óbito, deixando quatro filhos, três com a com-
a companheira sobrevivente. Por ocasião do fa- panheira, e um outro, fruto de relacionamento
lecimento desse empresário (aplicando-se o art. extraconjugal. Neste caso, a disposição legal
1790 do Código Civil), serão chamados a herdar aplicável será o art. 1970 do Código Civil, e a
os 5 filhos do falecido, e com eles concorrerá a hipótese será a de companheira concorrendo
companheira (mãe de todos eles). Assim, se a he- com descendentes comuns e com descendente
rança fosse de $1.400.000,00, e se, dentro deste exclusivo (também não prevista explicitamen-
acervo, $600.000,00 correspondessem à meação te na lei), relativamente à meação do falecido
do falecido, e se $800.000,00 correspondessem apenas (como no exemplo anterior, esta concor-
aos bens particulares do falecido, a herança seria rência não se dará sobre os bens particulares do
partilhada assim: a) quanto à meação do com- companheiro falecido). Assim, no acervo corres-
panheiro falecido: será dividida entre os herdei- pondente à meação do falecido, a companheira
ros (5 filhos) + 1 (a companheira concorrente), concorrerá com os filhos-herdeiros e a divisão
a cada qual cabendo uma igual fração, isto é, dos quinhões deverá obedecer à regra matemáti-
$600.000,00 : 6 = $100.000,00; b) quanto aos ca que está norteada pelo princípio da pondera-
bens particulares do falecido, divide-se apenas pe- ção, aplicando-se a regra do item I do art. 1790
los 5 filhos-herdeiros, sem concorrência da com- para calcular as cotas na concorrência com os
panheira, isto é, $800.000,00 : 5 = $160.000,00. filhos comuns, e aplicando-se a regra do item II
Ao final da partilha, a cada filho caberia o qui- do mesmo artigo para calcular as cotas na con-
nhão hereditário equivalente a $260.000,00, e corrência com o filho exclusivo do falecido.
à companheira-concorrente caberia o quinhão
hereditário equivalente a $100.000,00.
156 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Havendo necessidade de maiores esclarecimentos a respeito da divisão Anotações
de heranças, nos casos em que houver concorrência de cônjuge ou de com-
panheiro sobrevivos, recomenda-se a leitura da obra específica, de autoria
da autora deste capítulo25
c. Sucessão testamentária
> Introdução
Como já foi mencionado antes, é importante lembrar que as pessoas
que têm herdeiros necessários – descendentes, ascendentes e cônjuge –
só podem dispor, por testamento (dando-lhes o destino que desejarem) de
50% de seus bens, uma vez que deve ser guardada, para aqueles herdeiros,
a outra metade, denominada legítima dos herdeiros necessários (art. 1.857,
§ 1º do Código Civil). Na inexistência de tal categoria de herdeiros, o testa-
dor poderá deixar a totalidade de seu patrimônio para quem desejar.
Há situações que devem ser bem observadas, no entanto. Assim, o testa-
dor que desejar, em vida, tomar providências para evitar conflitos ou litígios
futuros (para depois de sua morte), como, por exemplo, poderá (i) determinar o
quinhão/legado de cada herdeiro/legatário; (ii) gravar os bens por eles recebi-
dos com cláusulas de incomunicabilidade (quer dizer, o bem não se comunica
25 HIRONAKA, Giselda Maria Fernandes Novaes. Direito das Sucessões: sucessão em geral e sucessão legítima
– 20º vol. coleção “Comentários ao novo Código Civil”, coordenação de Antonio Junqueira Azevedo, 2ª edição
revista, Editora Saraiva, São Paulo: 2007.
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 157
ao cônjuge/companheiro), impenhorabilidade (quer dizer, No Brasil, podem testar as pessoas maiores de 16
o bem não pode ser penhorado em execuções); ou, ainda, (dezesseis) anos, desde que sejam capazes de exprimir
inalienabilidade (quer dizer, o bem não pode ser vendido); sua vontade. O testamento poderá conter disposições
(iii) nomear tutor para os filhos menores (caso o respectivo outras, que não apenas patrimoniais, como, por exem-
falecimento se dê antes, ou concomitantemente, ao outro plo, reconhecimento de um filho havido fora do casa-
genitor, ou caso o outro não detenha o poder familiar – mento (art. 1.857, § 2º, do Código Civil). São proibidos
art. 1.729 do Código Civil); (iv) nomear curador especial os chamados testamentos simultâneos, recíprocos ou
(pessoa que fica responsável por gerir o patrimônio rece- correspectivos, tal como se daria no caso de marido e
bido por herdeiros/legatários menores – artigo 1.733, § 2º, mulher se valerem do mesmo instrumento para dispor
do Código Civil); (v) instituir usufruto sobre algum de seus de seu(s) patrimônio(s) para depois de suas mortes. Um
bens e assim por diante. testamento só pode cuidar da vontade manifestada por
uma só pessoa (art. 1.863 do Código Civil), quer dizer,
Obs.: Observe-se que, para gravar com cláusulas de aquele marido deverá fazer o seu testamento, e a sua
incomunicabilidade, impenhorabilidade e/ou incomu- mulher deverá fazer um outro testamento.
nicabilidade, os bens que integram a legítima (porção
pertencente aos herdeiros necessários), deverá ser decla- O testamento, enfim, poderá ser feito ou por meio
rada, no testamento, a justa causa que justifique a deci- de escritura pública, ou por meio de testamento públi-
são de fazê-lo (art. 1.848 do Código Civil ), sendo que o co, ou ainda, pode ser testamento cerrado ou, por fim,
mesmo já não ocorrerá (necessidade de registrar a justa por instrumento particular. Vejamos, ainda que rapida-
causa) se os bens a serem gravados estiverem contidos mente, cada um dos tipos de instrumentos que podem
na porção disponível do patrimônio do testador, porque, abrigar o testamento, as disposições de última vontade.
a respeito desde acervo de bens, as cláusulas podem ser
impostas sem qualquer justificativa.
158 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
> Testamentos ordinários: público, cerrado e particular Anotações
Testamento público
No testamento público, a vontade do testador constará de escritura pú-
blica, que a ele – e a duas testemunhas – será lida, em voz alta, e, após
isso, por todos será assinada (art. 1.864 do Código Civil). A lavratura do
testamento pode se dar no próprio tabelionato ou em local para o qual for
chamado o tabelião. O testador é livre para a prática do ato no local que
melhor lhe aprouver, sem ter que ficar adstrito a fazê-lo no local em que
reside, por exemplo.
Se o testador não souber ou não puder assinar, o tabelião (ou o seu
substituto legal) assim o declarará, assinando pelo testador (e a seu rogo)
uma das testemunhas (art. 1.865 do Código Civil). O testador surdo alfabe-
tizado lerá seu testamento, enquanto que, o testador analfabeto designará
quem leia em seu lugar (art. 1.866 do Código Civil); mas, em se tratando de
testador cego, o testamento será lido, em voz alta, duas vezes – uma pelo
tabelião ou seu substituto legal, e outra por uma das testemunhas, designa-
da pelo próprio testador (art. 1.867 do Código Civil). As pessoas que forem
beneficiadas pelo testamento não poderão participar de sua respectiva la-
vratura (art. do Código Civil).
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 159
Embora se trate de testamento la- o testamento será aprovado e auten- em mãos do testador ou de pessoa de
vrado por escritura pública, nada justi- ticado pelo tabelião, que terminará sua confiança, mas se por acaso for
fica ou admite que pudesse ser obtida por cerrá-lo e costurá-lo. aberto ou dilacerado, será conside-
qualquer cópia desse documento por rado revogado (art. 1.972 do Código
terceiros, uma vez que o instrumento Tal testamento pode ser escrito de Civil), regra que não se aplicará em
somente surtirá efeito após a morte do próprio punho ou por meio mecânico, caso de rompimento cujos motivos
testador. sendo que todas as páginas devem ser não sejam atribuíveis ao testador ou
numeradas e assinadas pelo testador a pessoa por ele autorizada.
Testamento cerrado (art. 1.868, § único, do Código Civil).
A pessoa que escrever o testamento a É comum que testamentos cerrados
Essa espécie de testamento (tam- pedido do testador não pode ser be- sejam feitos por homens casados que
bém chamado de secreto) é: (i) escri- neficiada, assim como também não desejam reconhecer filhos extrama-
to pelo testador, ou por alguém a seu podem ser beneficiados o cônjuge, o trimoniais e têm receio de fazê-lo em
pedido/rogo; (ii) entregue, pelo pró- companheiro ou os ascendentes e os vida, deixando, então, para que este re-
prio testador, ao tabelionato, decla- irmãos do testador (art. 1.801, inciso conhecimento ocorra após sua morte.
rando seu desejo de que seja apro- I, do Código Civil). Mas o redator do
vado; (iii) objeto de lavratura de um testamento pode ser o testamenteiro, Testamento particular
auto de aprovação, do qual consta- isto é, aquela pessoa responsável pelo
rá data e local da solenidade, e que cumprimento da disposição de última Já o testamento particular consis-
será o único documento a ser lido vontade do testador (art. 1.976 do Có- te em instrumento simples (não pú-
na presença de duas testemunhas. digo Civil) ou o próprio tabelião (art. blico), que pode ser escrito de pró-
Estas testemunhas desconhecem 1.870 do Código Civil). prio punho ou mediante processo
o conteúdo do testamento, mas o mecânico; no primeiro caso deverá
subscreverão: após estas assinaturas, O testamento cerrado permanece ser lido e assinado por quem o escre-
160 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
veu, na presença de pelo menos três do testador, mas é vedado que haja Anotações
testemunhas que o subscreverão; e, rasuras e espaços em branco.
no segundo caso, não poderá con-
ter rasuras ou espaços em branco, O testamento particular, a exem-
devendo ser assinado pelo testador, plo do que ocorre com o cerrado,
depois de ou ter lido na presença não se mostra totalmente seguro,
de, igualmente, pelo menos três tes- pois pode se perder e a disposição
temunhas, que o subscreverão (art. de última vontade do testador corre
1.876 do Código Civil). grande risco de não ser cumprida.
O testador deverá ser alfabetiza- > Testamentos especiais
do, sendo que se o instrumento for
feito por meio de escrito manual, Prevê a legislação brasileira, ain-
quem escreverá deverá ser o pró- da, o chamado testamento marítimo,
prio, não podendo, pois, ser elabo- quando, em situação de emergência,
rado a pedido ou rogo, sendo que qualquer pessoa a bordo pode tes-
eventuais rasuras e acréscimos (des- tar, incluindo o comandante, sendo
de que reconhecidos no próprio ato) que a este (o comandante) compe-
não o invalidam. Em caso de escrito te elaborar ou receber o documen-
mecânico, como pode ocorrer de o to, que deve ser registrado no diário
testador não ter habilidade com os de bordo e que perderá a eficácia se
respectivos meios, pode, então, ser o testador não morrer na viagem, e
redigido por outra pessoa, a pedido nem no prazo de 90 (noventa) dias
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 161
após o desembarque. Contudo, se > Conclusões
dentro de tal prazo, o testador não
conseguir refazer o testamento, após É possível concluir que o direito sucessório, a partir da vigência do Có-
o desembarque, por motivo alheio à digo Civil atual, sofreu substancial alteração com relação ao que vigia no
sua vontade (como por exemplo, por anterior Código Civil, o de 1916.
seu estado de saúde ter se agravado)
o testamento valerá. Também se en- Por isso, e nas especificidades dos casos da vida real, deverá o proprie-
contra previsto em lei o chamado tário ou empresário rural se preocupar com sua sucessão, sobretudo porque
testamento aeronáutico, que é aque- (e a grande maioria das pessoas, no Brasil, não sabe bem as novas regras
le que se fará em casos de emergên- legais) o cônjuge passou a ser herdeiro necessário, não podendo, tal como
cia aérea, com a diferença de não antes podia, ser afastado da sucessão por meio de disposição testamentária.
ser o comandante que o elabora, Além disso, o cônjuge, dependendo do regime de bens adotado por ocasião
mas este apenas indica a pessoa que da celebração do casamento, poderá concorrer sucessoriamente com os
o fará. Há, ainda, o chamado testa- descendentes do falecido (coisa que pouquíssimas pessoas, no país, sabem
mento militar, para pessoas que este- o que é e como se processa).
jam a serviço das Forças Armadas, e
o testamento chamado nuncupativo, Para prevenir litígios futuros, então, convém que o proprietário ou em-
para pessoas a serviço das Forças Ar- presário rural, analisando sua situação atual, estude a forma que lhe parecer
madas, mas em situação de risco de mais justa para a sua própria sucessão, levando em conta, inclusive, a per-
[Link] estas formas especiais petuação do negócio, pois, como tão bem se sabe, em sucessões conflituo-
de testamento são de uso bastante sas pode acontecer a ocorrência de prejuízos irreparáveis.
raro, contudo.
162 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Nos dias de hoje, a sucessão sem dado, com a participação direta dos Anotações
testamento – especialmente em fa- integrantes do núcleo familiar, pode
mílias nas quais os conflitos são co- realmente funcionar como um futuro
muns e constantes – poderá ser da- instrumento de pacificação e de ma-
nosa, ainda mais quando se institui nutenção das condições econômicas
condomínio entre herdeiros advin- mais favoráveis, tendo em vista a su-
dos de vários relacionamentos afeti- cessão patrimonial ocorrida, por for-
vos e/ou conjugais do testador. ça da morte do proprietário original.
Normalmente, a família participativa
d. Noções de planejamento su- tende a aceitar muito bem, no futuro,
cessório. as decisões registradas pelo proprie-
tário que agora falece.
> Introdução
As principais vantagens poderiam
A leitura dos capítulos anteriores ser alinhadas assim: (i) minimizar os
permite concluir que a melhor forma riscos que podem atingir o patrimô-
de se evitar litígio entre os herdeiros, nio do empresário rural, garantindo a
por vezes parentes muito próximos, perpetuidade de sua obra, de seu em-
tais como irmãos – litígios estes que preendimento, de seus resultados e de
podem ocasionar a desvalorização suas expectativas; (ii) transferir, para os
ou mesmo a perda do patrimônio – é herdeiros, uma situação melhor plane-
planejar a sucessão, utilizando-se dos jada e mais protegida; (iii) implemen-
meios que a legislação coloca à dis- tar, por fim, a possibilidade de um fu-
posição para tanto. Um tal planeja- turo mais seguro e menos conflituoso.
mento, quando bem feito e bem cui-
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 163
Quais seriam os meios jurídicos colocados à disposição de quem pre- é pertencente das crias dos animais,
tender fazer o seu próprio planejamento sucessório? São, principalmente deduzidas quantas bastem para intei-
estes: doação, testamento e constituição de pessoa jurídica. Vejamos, ainda rar as cabeças de gado existentes ao
que rapidamente, cada um desses modos de se operacionalizar um plane- começar o usufruto.
jamento sucessório:
Pode o usufrutuário, enfim, pra-
> Doação ticar todos os atos relativos ao patri-
mônio sobre o qual recai o usufruto,
Pode o empresário ou proprietário rural – assim como qualquer ci- inclusive recebendo, com exclusi-
dadão que pretenda planejar sua sucessão – doar seus bens para futuros vidade, os respectivos frutos, não
herdeiros, preservando, no entanto, para si mesmo, o direito de continuar podendo, entretanto, praticar atos
usar, gozar e administrar o patrimônio, por meio do instituto conhecido de alienação do bem, pois não mais
por usufruto, previsto, no Código Civil, nos artigos 1.390 ao 1.411. detém a plena propriedade, sendo-
lhe permitido, contudo, proceder à
Assim, procede-se à doação da nua-propriedade do patrimônio, ou de cessão dos seus direitos, por título
parte dele, com a reserva, a favor do doador, do respectivo usufruto. oneroso ou gratuito.
Por força da instituição do usufruto, o usufrutuário (i) tem direito à pos- Por seu turno, a propriedade so-
se, ao uso, à administração e à percepção dos frutos advindos do bem. (ii) mente se consolidará na pessoa do
quando o usufruto recai em títulos de crédito, o usufrutuário tem direito a nu-proprietário – ou seja, aquela pes-
perceber os frutos e a cobrar as respectivas dívidas, com aplicação, do valor soa que recebeu a doação – quando
recebido, de imediato, em títulos da mesma natureza, ou em títulos da dívida extinto o usufruto, que pode ser ins-
pública federal, com cláusula de atualização monetária segundo índices ofi- tituído para viger por certo período,
ciais regularmente estabelecidos; (iii) faz seus os frutos advindos do bem; (iv) até que certa situação ocorra ou,
ainda, até a morte do usufrutuário.
164 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Ao usufrutuário são carreados deiros necessários – descendentes, Anotações
deveres, tais como pagamento de (i) ascendentes ou cônjuge/ compa-
despesas ordinárias de conservação nheiro –, ele poderá doar o que, no
dos bens no estado em que os rece- momento da doação, poderia testar,
beu; (ii) prestações e tributos devidos isto é, a metade de seu patrimônio,
pela posse ou rendimento da coisa sob pena de nulidade (art. 548 do
usufruída; (iii) juros da dívida que Código Civil). Também será nula a
onerar o patrimônio ou parte dele; doação se o doador não reservar,
(iv) contribuições de seguro, se o para si, parte dos bens, que gerem
bem estiver segurado. Além disso, o renda suficiente para o seu próprio
usufrutuário é obrigado a dar ciência sustento (art. 549 do Código Civil).
ao dono (isto é, o nu-proprietário)
de qualquer lesão contra a posse da Obs.: Art. 1.857. Toda pessoa
coisa, ou os direitos deste. capaz pode dispor, por testamento,
da totalidade dos seus bens, ou de
Por meio da doação, então, uma parte deles, para depois de sua mor-
pessoa (o proprietário rural, por te. § 1o A legítima dos herdeiros ne-
exemplo), por liberalidade, transfere cessários não poderá ser incluída no
do seu patrimônio bens ou vantagens testamento.[...]”
para o de outra (art. 538 do Código
Civil). É ato gratuito, mas subordina- A doação é instrumento de gran-
do à manifestação de aceitação do de valia para o planejamento suces-
donatário (art. 539 do Código Civil). sório, sobretudo diante da possibi-
Na hipótese de o doador possuir her- lidade de se estipular o retorno dos
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 165
bens ao patrimônio do doador, em de doação que a liberalidade se dá, cônjuge/companheiro a pessoa com
caso de o donatário falecer antes do com exclusividade, a favor de ape- quem tenha mantido relação extra-
próprio testador. Como exemplo: do- nas um dos cônjuges/companheiros. conjugal, durante a vigência do ca-
ação de pai para filho, casado sob o Se assim não for, a conseqüência será samento/união estável.
regime da comunhão parcial – em (como previsto no art. 551 do Código
que não se comunicam as doações –, Civil), que a doação subsistirá na to- Assim, uma das formas de plane-
sem descendentes, com cláusula de talidade – em caso de falecimento de jamento sucessório é promover-se,
o patrimônio retornar ao doador, em um deles – em favor do outro dona- em vida, à doação do patrimônio, ou
caso de óbito do donatário. Em tal tário. Isso porque, salvo declaração parte dele, destinando-o a cada um
hipótese, na inexistência da cláusula, em contrário, a doação em comum a dos herdeiros, na forma que o doa-
herdariam a nora e o sogro (concor- mais de uma pessoa se entende dis- dor entender melhor – o que, comu-
rência entre cônjuge e ascendente), tribuída entre elas por igual. mente, dá-se de acordo com as habi-
mas, se houver a mencionada previ- lidades de cada um –, reservando-se,
são, os bens estarão excluídos da su- O Código Civil traz, por outro a seu favor, o respectivo usufruto,
cessão do donatário, pois é como se lado, previsão sobre a anulabilidade o que permitirá o uso e o gozo dos
a doação não tivesse existido. da doação do cônjuge adúltero ao bens, o que importa no recebimento
cúmplice (o outro envolvido na re- dos respectivos frutos.
Caso se cuide de doação a favor lação afetiva paralela e adulterina).
de pessoas casadas ou que vivam em Há de se considerar, todavia, que, > Testamento
união estável – com relações patri- com a descriminalização do adulté-
moniais regidas pelas normas que rio, parece inviável falar em cúmpli- Como antes mencionado, qual-
não as da separação total de bens –, ce. Ajustada a redação às mudanças quer pessoa pode testar acerca da
é muito importante que conste, ex- no Direito, o que se pode imaginar é forma pela qual serão seus bens des-
pressamente, do respectivo contrato a anulabilidade de doação feita por tinados após sua morte. Lembremo-
166 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
nos que aqueles que têm herdeiros Ainda por meio de testamento, Anotações
necessários podem destinar, por tes- poderá o testador, na hipótese de
tamento, e a quem desejarem, apenas sucessão legítima, deixar definidos
metade do respectivo patrimônio. quais os bens que comporão cada
um dos quinhões a serem entregues
Primeiramente, é importante aos herdeiros. Se esta definição pré-
anotar que, caso alguém lavre um via estiver interligada à observância
testamento que supere a metade de das habilidades específicas de cada
seus bens (esta parte que é conhecida herdeiro, muito provavelmente a
como cota disponível), isso não anu- melhor conseqüência será a de se
lará a disposição de última vontade garantir e preservação do patrimônio
do testador, pois o Poder Judiciário e a vocação especial de cada um dos
reduzirá a cota, até que se retorne bens. Assim, por exemplo, o pai que,
àquela metade mencionada. Assim, em testamento, deixa a propriedade
por testamento, a parte disponível rural para os dois filhos que com ele
do patrimônio pode ser deixada para sempre trabalharam e são vocaciona-
quem o testador quiser, sendo cer- dos para a lida agrária (de pecuária
to também (no que diz respeito a tal ou de agricultura), deixando para os
porção) que a aposição de cláusulas outros filhos bens que não necessi-
de incomunicabilidade, impenho- tam, para a manutenção do respecti-
rabilidade e/ou inalienabilidade se vo valor, de cuidados tão específicos
dará sem que haja a necessidade de como este imóvel rural. Se o testa-
indicação de justa causa. dor quiser gravar – com cláusulas
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 167
de incomunicabilidade, impenhora- res, sejam destinados ao sustento e muito bem as conseqüências tributá-
bilidade e/ou inalienabilidade – os educação deles, mantendo-se o pa- rias, para bem operar a desejada dis-
bens que compõem a parte que, por drão sócio-econômico que já existia tribuição das respectivas quotas e/ou
lei cabe aos herdeiros necessários (a quando ainda estava vivo, e aplican- ações. Esta distribuição de quotas e/
parte chamada legítima dos herdei- do-se o que restar em instituição fi- ou ações poderá se dar por ato gratuito
ros necessários), ele deverá consig- nanceira de reconhecida solidez, em (doação), ou por ato oneroso (compra).
nar, expressamente, as razões pelas investimentos de menor risco. No primeiro caso, se deve verificar o
quais ele quer praticar tais atos (que limite do que pode dispor o doador
são restritivos de direitos), isto é, de- Pelo testamento, enfim, é possível (metade de seu patrimônio, quando ti-
verá ter uma justa causa para querer definir muito bem como se proces- ver herdeiros necessários); no segundo
fazê-lo. sará a sucessão do testador, até para caso, caso se trate de venda e compra
o caso de haver algum descendente de ascendente para descendente, de-
Afora isso, e como antes mencio- falecido antes dele, quando então verão com isso concordar os demais
nado, no testamento também pode- poderá deixar consignado o modo descendentes não agraciados pela do-
rá ser nomeado um curador especial pelo qual deverá ser feita a divisão ação, bem como deverá concordar o
que se encarregará da administração e a administração do patrimônio por cônjuge do alienante.
do patrimônio de herdeiros, até que aqueles que recebem a herança em
atinjam a maioridade. O testador nome do outro herdeiro, pré-morto. A constituição de pessoa jurí-
poderá prever, expressamente, a for- dica, como forma de planejamento
ma pela qual a administração dos > Constituição de pessoa jurídica sucessório, permite maior flexibili-
bens dos menores se dará; assim, dade de negociações se houver ne-
por exemplo, poderá decidir que os Será possível, ainda, se planejar a cessidade, por exemplo, de limitar
lucros advindos da atividade rural sucessão por meio da constituição de os poderes dos herdeiros para uma
e que cabem aos seus filhos meno- pessoa jurídica, sempre verificando futura e eventual venda do negócio
168 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
da família a terceiros que não sejam parentes, uma vez que é possível, por Anotações
meio dos acordos de quotistas/acionistas, prever a forma como esta venda
se dará. Um acordo de quotistas/acionistas ainda permite a estipulação da
maneira pela qual será o negócio administrado.
> Conclusões
Por qualquer prisma que se examine a questão, parece ficar claro que a
melhor forma de se evitar quaisquer litígios ou conflitos que possam envol-
ver os herdeiros de uma determinada pessoa, depois de sua morte, é mesmo
a elaboração de um bom planejamento sucessório, quando ainda o dono
do negócio (o produtor rural, por exemplo), estiver vivo. Estas atitudes cor-
rem em favor, não apenas da pacificação familiar (tão rara nos dias atuais),
mas também em favor da melhor possibilidade de se evitar a desvalorização
ou a perda do próprio negócio.
Capítulo V • A Família e a Propriedade Rural 169
Desenvolvimento Humano
e Organizacional
Marina de Magalhães Carneiro de Oliveira
Refletir sobre o nosso próprio processo de desenvolvimento, as fases de
nossa vida pelas quais passamos e vamos passar pode nos ajudar a pensar
no que fazer no presente para termos o futuro que queremos. Do mesmo
modo, podemos pensar nas empresas como organismos vivos, que passam
também por fases de desenvolvimento em seu ciclo de vida.
É nesse sentido que, no presente capítulo, serão trazidos conceitos sobre
as fases de vida pelas quais passamos como indivíduos e também as fases de
uma organização. Entendemos que o momento em que o empresário e sua
organização vivem pode interferir na sua tomada de decisões. E mais que
isso, tomar consciência disso, pode ajudar a todos os envolvidos a compre-
ender e apoiar essas decisões.
Aprender é um processo contínuo e a melhor escola é viver. É disso que
tratamos neste capítulo!
170 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
As Fases do Desenvolvimento Humano1
Anotações
Herwig Haetinger
AS FASES DO DESENVOLVIMENTO DO HOMEM
Para podermos discutir a questão do desenvolvimento humano e descre-
ver certos fenômenos regulares como pertencendo as fases definidas de sua
vida, é necessário haver consciência da imagem básica do homem que se
tem em mente. E, hoje em dia, temos diversos conceitos básicos do homem
que podemos levar em consideração. Assim, por exemplo, temos que:
O Homem é determinado pelas forças genéticas
Pressupõe-se, aqui, que a conduta do homem se define pelas qualidades
físicas, psíquicas e espirituais que lhe foram ‘impregnadas’ pelos genes, no
nascimento. A vida do homem é vista como seqüência ‘cronológica’ de fato-
res que determinam sua vida. Assim, se ele nascer com os dotes de um grande
músico, é isto que deverá ser, e se uma linha de descendência infeliz o levar a
1 Material baseado nas publicações internas do NPI – Nederlands Pedagogisch Institut, de Zeist, Holanda – com-
pilado por diversos colaboradores e orientado pelo Dr. Bernard Lievegoed. Este material foi compilado, traduzido
e apresentado neste resumo por Herwig Haetinger, do Instituto Christophorus. Recomenda-se a leitura do livro
“Fases da Vida” de Bernard Lievegoed publicado pela Editora Antroposófica, de São Paulo.
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 171
ter características que o conduzam ao crime, então será criminoso, seja como
‘trombadinha’ ou ostentando posto de destaque, como ‘colarinho branco’.
Nesta imagem, o efeito da educação e do ambiente consideram-se como
de pouca influência, mesmo que se conceda que mudanças de comporta-
mento sejam possíveis pelo condicionamento sistemático. A idéia de que o
homem é possuidor de uma vontade própria e livre é considerada ilusão.
O homem é o produto do meio que o cerca
Neste caso, assume-se que o que acontece ao homem, na primeira in-
fância, determina sua conduta futura. O ambiente familiar, as relações com
os pais e irmãos, podem não ser conscientemente lembrados, mas criam
um padrão de reações e comportamento na alma da criança com os quais
permanecerá por toda a vida. Somente revivendo-se o passado (como por
exemplo, pela psicanálise, análise transacional etc.), é que se poderá apa-
gar alguns destes antigos padrões e chegar a uma nova conduta que melhor
se adapte às condições atuais.
172 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Esta idéia, de dependência do meio-ambiente, persiste em nós de diver- Anotações
sas maneiras: o homem parece estar sempre esforçando-se por ser aceito,
por ser respeitado e benquisto por aqueles que o cercam – com o que, estes,
por sua vez, o influenciam e moldam.
O homem como um ser dotado de um ego
Esta imagem do homem inclui, com certas modificações, as duas an-
teriores, mas acrescenta um terceiro denominador – o 'ego' humano. O
curso da vida não é determinado somente pelos agentes externos, como
a hereditariedade e as forças ambientais. O ser humano também tem uma
identidade interna, a dar um rumo a sua vida.
É a individualidade humana – com sua consciência de si própria,
com sua necessidade de reconhecimento e amor, mas também com neces-
sidade de desafios e condições de desenvolvimento – que leva cada homem
a se tornar um ser único, com uma biografia própria a ser desenvolvida.
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 173
Desta imagem se nos apresenta um homem “trimembrado”:
Campo cultural
ral e Homem consciente
c
espirituall Individualidade
Individu
Potencial
Poten do 'ego'
Personalidade
Per
Ambiente Homem
Ho social
social Caráter
Pensar
Sentir
Querer
Potencial
Poten genético
Mundo
físico
Homem físico
Temperamento
Instintos
Figura 6.1- Homem “trimembrado”
174 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
A personalidade do homem, em um dado momento, é o resultado do Anotações
potencial do seu ego, atuando com o seu potencial genético da interação
com as forças do ambiente que o cercam.
Na medida em que o homem cresce, ele se desenvolve física, psíquica e
espiritualmente; como o desenvolvimento não se dá por igual nos três cam-
pos, podemos distinguir 'fases' distintas, em que um ou outro predominam.
Com isto, em cada nova 'fase' que o homem entra, assume novas caracterís-
ticas. É claro que se tem consciência de que se está generalizando, ao tentar
descrever características das fases do desenvolvimento do ser humano, ou
mencionando condições favoráveis ou prejudiciais ao seu desenvolvimento.
Mas pela experiência, mesmo um exame geral das 'leis do desenvolvi-
mento humano' pode ser de utilidade para quem se interessa em atender
fenômenos de sua própria biografia, ou da de pessoas de seu convívio, su-
periores ou mesmo seus funcionários.
É surpreendente o que se descobre quando se olha deste ponto de vis-
ta para uma organização – apesar de ser de domínio público que existem
muitas diferenças qualitativas entre jovens e pessoas mais idosas, raramente
encontramos políticas, numa organização, que levem em conta a idade e
o desenvolvimento humano. No entanto, levadas em conta as leis que os
regem, certamente teriam se mudanças significativas no campo dos recursos
humanos.
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 175
Os três períodos básicos:
Mesmo que a psicologia do desenvolvimento seja um campo relativa-
mente novo, descobre-se que na antiga China já se lhe conheciam as carac-
terísticas. Dizia a sabedoria popular da época:
“O homem na vida tem um tempo para aprender, um tempo para
lutar, e um tempo para se tornar sábio”.
Numa formulação mais abstrata destas fases, que hoje se reconhecem
da mesma forma que antigamente, denominamo-las:
> a fase receptiva;
> a fase expansiva;
> e a fase social.
Além disto, e baseados numa observação que já data desde os romanos,
divide-se cada uma destas fases básicas em três períodos de 7 anos. No
caso, períodos de 7 anos parecem ser mais relevantes do que períodos de
10 anos, por exemplo, tanto do ponto de vista físico, como do psicológico.
Mesmo assim, estas divisões devem ser encaradas como uma base média, e
não como pontos de referência absolutos.
176 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
FASE RECEPTIVA Anotações
Do nascimento aos 7 anos
A vida começa com uma pequena crise: a criança começa a chorar e
a respirar depois do choque com o súbito resfriamento, com a luz que a
cerca, com os ruídos que lhe assombram após abandonar a proteção envol-
vente e aconchegante do ventre materno.
Nos primeiros meses há pouca consciência (dormir – comer – dormir),
mas mesmo assim, as forças do crescimento são enormes. Pode-se dizer
que há um grande excesso de forças vitais. A criança vive num estado de
confiança, de uma proximidade confiante junto à mãe.
Precisa aprender a relacionar-se fisicamente com o mundo, aprender a
levantar-se, orientar-se nas três dimensões do mundo físico.
Também o corpo, o cérebro, os nervos e os sistemas glandulares ainda
estão em formação e não completos, nos três primeiros anos de vida.
Este primeiro período de 7 anos se encerra com a mudança da dentição,
no que as últimas células, as mais duras da estrutura celular do corpo, são
substituídas por outras próprias.
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 177
NECESSIDADES – A criança aprende, neste período, através da imita-
ção dos pais, ou do que a cerca. Ela age como um espelho para o seu meio
ambiente. Com isto, para tornar-se humana ela precisa de um ambiente
humano, no qual os elementos de segurança, afeto, carinho, amor e certo
entusiasmo pela vida estejam presentes. Precisa poder desenvolver o sen-
timento básico de confiança na vida. Ela o consegue, se estas condições
estiverem mais ou menos presentes. Mas ela terá dificuldades em desen-
volvê-lo, se o amor dos pais for excessivamente protetor (o que denuncia
e é expressão de ansiedade), ou por demais frio e intelectual, o que dá a
criança o sentimento de não ser realmente desejada.
Dos 7 aos 14 anos
Neste período a criança tem a oportunidade de se desprender do que
até agora foi seu ambiente mais próximo. Ela agora tem condições de pen-
sar a respeito do que a cerca e não somente conviver com seu meio (deixa
o Paraíso). Em si está madura para entrar num ambiente maior, com o qual
possa se relacionar de forma harmoniosa. Em geral, este ambiente ampliado
inclui a escola e novos amigos. Com isto, tem condições de desenvolver sua
vida intelectual. É o período onde ela lança suas bases para o seu desen-
volvimento social e moral, quando aprende coisas novas sobre valores e a
interação entre as pessoas.
178 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
NECESSIDADES – A criança nesta idade aprende, antes de mais nada, Anotações
da autoridade real do adulto (ou dos maiores). Destes, quer saber (e devem
lhe contar) tudo sobre o mundo. Isto podemos observar, principalmente,
nas relações que se estabelecem entre a criança e um professor a quem po-
dem admirar. Nesta relação, é importante que os conhecimentos cheguem
à criança de uma maneira artística, criativa e imaginativa: “Acender uma
fogueira e não encher um balde!”, deveria ser o lema da educação nestes
anos. Fazendo vivenciar o valor e as qualidades intrínsecas das cores na
arte, capacitá-la a desenvolver o sentido para os valores em outras áreas etc.
Dar-lhe oportunidade de ouvir pessoas contando histórias da carochinha,
de vivenciar e compreender o valor do bem e do mal, em nível do que lhe
estiver ao alcance da compreensão. Brincando com outras crianças, apren-
de a discernir o justo e o injusto, desfrutar os prazeres da movimentação,
conhecer o que é ferir e ser ferido, magoar ou ser magoado. No lar, a neces-
sidade de amor e segurança continua, mas a criança gradualmente deseja
ter um pequeno lugar próprio. Também precisa de maior reconhecimento,
pelos adultos, de sua personalidade, de poder participar de discussões mais
adultas.
Dos 14 aos 21 anos
Nesta idade, a puberdade entra em cena e, atualmente, cada vez mais
cedo. Esta idade é aquela em que a criança, o jovem agora, precisa poder
desenvolver suas próprias idéias e valores sobre as pessoas e o mundo, para
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 179
poder, assim, construir sua própria personalidade. Para que possa fazer isto,
precisa desvencilhar-se da autoridade externa e do adulto. Passa a precisar
aprender do que vem do seu próprio íntimo, de compreender as coisas por
sua própria introspecção.
Se de um lado temos esta necessidade de emancipação, de outro ela
ainda tem grande necessidade de amor, o que conflita com sua crescente
necessidade de independência. Em geral, é difícil para crianças nesta idade
manobrar adequadamente estes conflitos íntimos; começam a agir ataba-
lhoadamente, muitas vezes com rudeza e magoando pessoas próximas na
sua vida diária.
Com o aumento da conscientização, há também um aumento do co-
nhecimento da sexualidade. Imaturidade emocional não permitirá uma ex-
periência sexual harmoniosa e, juntando-se a isto a percepção generalizada
de ser diferente e mal-entendida, ela, por vezes, sente-se passar por perío-
dos de intensa solidão.
NECESSIDADES – O que o adolescente necessita é, em primeiro lugar,
de um interesse desprendido, despreconceituoso e compreensão dos que o
cercam. Precisa de oportunidades para desenvolver seus próprios valores e
idéias, que precisam chegar mesmo a adquirir características e qualidade
de ideais. Se os adultos que cercam o jovem dispuserem-se a conceder que
também têm dúvidas e receios na vida, mas que mesmo assim continuam
180 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
a se empenhar por objetivos que acham valiosos estarão contribuindo para Anotações
que o adolescente se sinta menos isolado e mais esperançoso.
PERIGOS – Muitos jovens, nesta idade, já entram no seu primeiro em-
prego. Isto, em geral, significa que estarão num ambiente em que não exis-
tem estímulos para o desenvolvimento de idéias próprias e que também
não reconhece a vulnerabilidade desta idade. Como conseqüência, muitas
vezes os jovens fecham-se em si mesmos, apresentam para fora uma con-
duta de “adultos” e abandonam o que dentro de si tinham de 'sementes de
ideais' mais criativos, para substituí-los por outros mais materiais, de garan-
tia de bom emprego, 'boa vida'. De outro lado, caso estejam nesta idade
em escolas de caráter altamente competitivo, terão poucas oportunidades
e espaço para o que lhes venha do interior, para aprender a conviver em
outro estilo, que não seja o de ver, nos companheiros, um competidor. Isto
pode conduzir a um subdesenvolvimento emocional ou a uma desistência
prematura de continuar com a vida. Conhecemo-los hoje pelo termo de
'drop-outs'.
FASE EXPANSIVA
Dos 21 aos 28 anos
O adolescente tornou-se um jovem adulto, adquiriu identidade própria,
passou a ser responsável por todos os seus atos, perante a sociedade e pe-
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 181
rante a lei. E o jovem adulto sente necessidade de adquirir conhecimentos
próprios, ter suas próprias experiências, enfrentar o mundo sozinho, conhe-
cer outros lugares, pessoas, hábitos e costumes.
Quer sair de casa. Quer saber do mundo quem ele é, que lhe seja um
espelho de suas qualidades e insuficiências. Tem necessidade de sentir o
mundo, ambiciona conquistá-lo. Muitas vezes, isto vem vinculado com
uma certa rudeza no trato com os outros, com uma crueldade, um egoísmo
que, literalmente, deixa pouco espaço para os demais. Com isto, o jovem
adulto não expressa nada mais que sua necessidade premente de sensações
fortes, de experiências profundas, abundantes e variadas, que lhe dêem re-
torno imediato de sua qualidade e de sua atuação.
NECESSIDADES – O jovem precisa de uma liderança que lhe compre-
enda as necessidades de saber quem é e o que vale. Desafios profissionais,
atribuições que o coloquem em diferentes situações de tempos em tempos,
diálogos que lhe digam o que é e vale, expectativas expressas com serieda-
de, mas também com simpatia, fazem dele uma pessoa que constantemente
adiciona conhecimentos e qualidades ao que supõe ser sua personalidade.
O jovem nesta idade cria sua própria família, assume as primeiras res-
ponsabilidades, gosta de estar na moda e “in”, tem energias ilimitadas para o
trabalho e para as atividades que o entusiasmam, seja no trabalho, seja com
seus 'hobbies' e passatempos. Procura o convívio e gosta de se medir e ser
182 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
admirado pelo que faz e realiza. Tem seus ídolos, que imita e que o orientam Anotações
na sua conquista do mundo, e que troca quando a ocasião o exigir.
PERIGOS – Muitos jovens são colocados em funções que exigem o mí-
nimo de suas capacidades, fáceis e rotineiras. Com isso, eles descobrem o
mínimo de seu potencial e perdem o interesse pelo crescimento logo de iní-
cio. Mais tarde, com isso, podem se tornar 'rígidos' e renitentes a mudanças
em seu meio. O mesmo ocorre com os que se especializam prematuramen-
te: aprofundam-se intelectualmente num setor específico, desenvolvem ali
todo o seu intelecto e permanecem emocionalmente imaturos e socialmen-
te desajeitados, sem prática de vida e de convívio.
Outro perigo é o de adotarem um estilo de vida isolado nesta idade, ou,
então, o anonimato a que forçam a maioria dos sistemas organizacionais,
que dão pouco incentivo à integração e ao contato pessoal e direto com os
outros. Isto pode levar a sentimentos de alienação e desorientação, com o
que pessoas se retraem em si e na sua atividade no trabalho.
Dos 28 aos 35 anos
Ao redor dos 30, a pessoa começa a procurar ser parte de um mundo
maior que o anterior, de expandir seus relacionamentos, de aumentar seus
conhecimentos sobre o mundo e suas interrelações, E, principalmente, sobre
suas possibilidades. Toma consciência de que quer mais do que os outros se
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 183
dispõem a lhe ceder. Também é o tempo em que se torna socialmente mais
ativo, que assume responsabilidades na sociedade, em que quer tornar-se
um membro consciente dentro da comunidade.
No campo do trabalho, este é o momento da especialização, de real-
mente solidificar certas áreas de habilidades e de conhecimentos. As pesso-
as, agora, estão menos envolvidas consigo próprias e encontram um meio e
uma maneira mais descontraída de relacionarem-se com o mundo.
Algumas vezes, também 'o mundo vem ao seu encontro', oferecendo-
lhe cursos no exterior, novos cargos de responsabilidade, novas oportu-
nidades em locais distantes etc. Nesta idade, também já se sentem mais
seguros de seus fortes e fracos, desenvolvendo maior consideração com
as qualidades dos outros. Nos diálogos, têm condições de apresentarem
ponderadamente seus argumentos, ao invés de discutirem para se impor.
Geralmente, tornam-se melhores nas atividades racionais, como no plane-
jamento, organização, estruturação etc.
NECESSIDADES – Têm necessidades de cargos de responsabilidade
maiores que seus limites. Sua capacidade organizacional, sua maior racio-
nalidade os fazem candidatos a promoções, que devem levá-los até o limite
de seu nível de eficiência. Têm experiência própria e sabem o que querem.
Sua necessidade de expansão os leva a novos horizontes, que nem sempre
avaliam corretamente.
184 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
PERIGOS – O indivíduo na década dos trinta pode ter aprendido, por Anotações
experiência própria, que não há muita vantagem em se usar os cotovelos
para conseguir-se o que se quer; que é mais prudente usar a cabeça. Com
isto, pode ser tentado a começar a manipular. Isto é facilitado principal-
mente em grandes organizações, onde se geram grandes quantidades de
informações com a finalidade de ofuscar a origem das decisões; isto, de
certa maneira, favorece um clima de manipulação.
Dos 35 aos 42 anos
Aproximando-se dos 40, muitos indivíduos experimentam uma profun-
da dúvida e crise, que pode ser uma reminiscência, por assim dizer, da
puberdade.
As perguntas, no entanto, que agora aparecem em indivíduos desta ida-
de, são de natureza diferente. Até aqui a pessoa adquiriu experiência de
vida suficiente para conhecer-se a si mesma e ter uma boa noção do mun-
do; o que não quer dizer que se conheça o suficiente acerca do relaciona-
mento entre os dois.
De repente, surgem perguntas, que surgem de dentro da pessoa. O con-
fronto com elas pode ser extremamente penoso e delicado. Constata-se que
a idade avançou inexoralvemente, vislumbra-se que se está ficando idoso,
vivencia-se que a morte é um fato e que existe! Disto surgem perguntas,
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 185
muitas vezes insistentes, sobre nossa vida passada, nossa vida presente e
nossa vida futura:
> “O que fizemos até aqui?”
> “O que significam para mim a vida atual e as pessoas que me cercam
neste momento?”
> “Por que estou aqui?”
> “Quero continuar nisto?”
São perguntas que têm caráter essencial e que, ao menos por algum tem-
po, nos inclinamos a ignorar ou abafar. Pode-se notar isto quando pessoas,
nesta idade, repentinamente começam a acelerar o seu ritmo de vida, apre-
sentar um dinamismo mais para impressionar do que para realizar algo. Di-
ficuldades em delegar, serviço que se leva para casa, questão que se faz em
ter sua contribuição devidamente reconhecida acima de seus subordinados,
são sintomas que também evidenciam alguma preocupação neste sentido.
Uma outra alternativa para a situação se apresenta pela força do ego que se
encontra, para encarar estas perguntas – neste sentido servirá de preparativo
para uma nova fase de ampliação de consciência e da criatividade.
186 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
NECESSIDADE – Oportunidades para reavaliar seu programa de vida, Anotações
sem pressões de tempo e de cargo. Oportunidade de usufruir um período
“sabático”, de “licença remunerada” ou “licença prêmio”, para uma pes-
quisa por alternativas de vida, novas oportunidades e horizontes. O que se
precisa é ter confirmado o rumo que se deu à própria vida, ou em encontrar
o fio de sua própria biografia.
O ambiente em que nos movemos também pode auxiliar, provendo-nos
de parceiros e interlocutores que possam ajudar neste processo de auto-
avaliação. Talvez nos mostrem ou tragam novas oportunidades para expe-
riências com novas formas de comportamento. Grupos onde os membros
têm interesse em ajudarem-se mutuamente com perguntas mais fundamen-
tais, também podem ser de grande valor.
PERIGOS – Além do que já foi dito, parece haver entre as pessoas uma
tendência em negar a real existência de possibilidades de desenvolvimento,
com o que se aceita que a vida não tem significado além do rotineiro. Que
a vida declina, com o declínio do homem biológico. Isto cria um desespero
“cinzento” nas pessoas, que só pode ser superado pelo interesse humano e
afeto que lhes dedicam seus companheiros e outros seres humanos.
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 187
PERÍODO DE MATURIDADE SOCIAL
Dos 42 aos 49 anos
Caso as perguntas que assomaram no período anterior tenham sido en-
caradas até, pelo menos, certo grau, é provável que vejamos indivíduos ao
redor dos quarenta, procurando uma nova qualidade de vida. A necessida-
de de aplausos, de sucesso pessoal não são mais os predominantes, mas sim
um anseio:
> de poder voltar a ver o mundo e se sentir maravilhado;
> de encontrar objetivos novos que o motivem;
> surge mais forte uma necessidade de dar uma contribuição real para
as necessidades de outros.
Também pode ser o caso de vermos indivíduos que se desencaminham
na busca de algo diferente, somente trocando de emprego, ou trocando o
parceiro de vida, ou voltando a repetir fórmulas de sucesso do passado. Isto,
no entanto, não promove a descoberta de novas qualidades pessoais ou ín-
timas, mas é, provavelmente, uma deformação que lhes pesa nos ombros,
pelo seu passado.
188 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Assim como o homem pode estar a caminho de encontrar novos ideais Anotações
realistas, ou de tomar iniciativas que possam ser de significado para outros,
ele também poder ser confrontado com os fracassos e falhas de seu pró-
prio passado. É perfeitamente imaginável o esforço que isto exige do “ego”
da pessoa, para aceitar estas realidades do seu passado e, ao mesmo tem-
po, assim mesmo, ter coragem de se propor novos objetivos para o futuro.
Quando as pessoas conseguem, vemo-las desabrocharem novamente, num
entusiasmo vivo pelas novas tarefas, cujos frutos serão benéficos aos outros
ou à organização a que pertencem.
NECESSIDADES – Quase que idênticas às da fase anterior. Oportunida-
de em procurar novos caminhos, apoio de profissionais ou amigos para es-
clarecer seus motivos e suas intenções, fé e confiança do parceiro de vida.
Necessidade de se terem os fenômenos desta idade claros aos familiares,
que podem se ressentir e frear seu impulso, por terem dúvidas quanto ao
novo caminho, sentirem-se inseguros quanto ao que representará para suas
relações, terem medo de não estar à altura nas novas condições.
PERIGOS – Apesar de mudanças hoje serem aceitas com maior natura-
lidade do que antes, ainda vemos que a própria sociedade, e mesmo muitas
organizações, caracterizam-se por certo imobilismo e por terem estruturas
rígidas de comportamento e funcionalidade que se esperam dos indivíduos.
São normas e diretrizes que deixam pouco espaço para o desenvolvimento
criativo pessoal. Regras são impostas, muitas vezes, e também se espera um
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 189
comportamento determinado para cada ocasião, que de maneira alguma
estão alinhados com as necessidades pessoais de nosso desenvolvimento.
Frustrante é ter pouco ou nenhum campo para tentar novo comporta-
mento (na sociedade competitiva não temos liberdade para sermos “fra-
cos”). Nestes casos, a adaptação à velha situação é só o que se apresenta
como alternativa ou caminho, até que se apresente uma oportunidade.
Dos 45 aos 56 anos
Pessoas que foram afortunadas o suficiente para encontrarem novos ob-
jetivos de valor, nesta fase anterior da vida, sentirão agora a necessidade de
ajudar outros a realizarem seus próprios objetivos.
O homem nesta idade pode desenvolver reais qualidades sociais: a qua-
lidade de ouvir e de sentir o que a situação exige. Também qualidades
conceituais, a habilidade em mostrar uma parte do todo em um quadro da
situação global, ou as interdependências de uma realidade complexa, ou a
capacidade de fixar políticas e objetivos de uma maneira inspiradora – tudo
isto pode ser encontrado neste grupo etário.
Agora o homem é capaz de olhar o mundo com empatia, e se esta se
aliar à sua experiência e inteligência, então ele oferece sabedoria.
190 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
NECESSIDADES – É preciso que tenha conseguido estabelecer-se já ma- Anotações
terialmente, mesmo na fase anterior. Ter que lutar ainda pelo patrimônio,
para ter sua casa própria, seu seguro de vida, certamente não contribuirá
para a sua tranqüilidade interna. Também as atividades que executa de-
vem ser coerentes com o declínio de sua força física, e mais adequadas à
sua capacidade de resistir mais tempo a tensões, de se impor em situações
conflitantes, e manter a calma em situações de perigo. Sua função deve se
adaptar às suas condições psicossomáticas e espirituais.
PERIGOS – Quando pessoas trazem consigo das fases anteriores, muitas
perguntas que não resolveram, podem se inclinar a procurar compensações.
Podemos ver pessoas fugindo de seus problemas tornando-se escravas do
seu trabalho, do excesso de bebidas ou da perversão sexual. Para o teatro,
isto oferece vasto material cênico e de roteiro, mas o limite entre a comédia
e a tragédia é uma linha tênue, extremamente fina.
Nas organizações encontramos pouca consideração, na direção, para
o declínio físico de seus homens com esta idade. Podemos ver pessoas de
idade desempenhando serviço físico idêntico ao de jovens de 20 a 30 anos,
sem se levar em conta que nos 50 o mesmo serviço exige muito mais ener-
gia de suas forças restantes, do que dos jovens.
Também as qualidades da visão geral, ou das habilidades sociais do
indivíduo não são amplamente reconhecidas pela direção. A inteligência
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 191
racional e a habilidade em dirigir de forma autoritária têm mais apreço. Isto
conduz, por vezes, a uma renegação prematura a um segundo plano, dos
cinqüentões, e com isto, a um enrijecimento da organização.
Dos 56 aos 63 anos
É uma época em que as pessoas começam gradualmente a olhar seu
passado na vida de trabalho e familiar, em que começam a somar e a avaliar
o custo do curso de sua vida. E isto pode trazer frutos bons, como pode ser
decepcionante, se ainda sobrarem muitos obstáculos a superar. Mas pode
ser que o saldo faça nascer uma nova iniciativa, que a pessoa se pergunte;
“Se assim for, o que posso passar a fazer agora? Que condições
eu tenho de remediar? De consertar? De inovar?”
Ele lança o olhar à sua volta de uma maneira consciente, olha em segui-
da para sua vida e procura chegar à essência do que ainda está incompleto,
do que lhe falta fazer. E isto pode se dispor a alcançar.
NECESSIDADES – Como nesta idade também se insinua a decadência
dos sentidos, a dificuldade em encontrar ânimo para novas iniciativas se tor-
na cada vez maior. Carece de apoio, de compreensão, de serem levados a sé-
rio, de serem entendidos no que lhes faz sentido, pois têm muito pela frente.
192 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
PERIGOS – Serem esmagados pela compreensão do que deixaram ina- Anotações
cabado. Voltar-se para as pessoas que o cercam pode lhe ajudar a erguer o
fardo.
Dos 63 aos 70 anos
É tempo em que a maioria das pessoas se desliga gradualmente de suas
atividades normais. A direção de uma organização pode ajudar as pessoas
para a vida sem a organização, sem um trabalho regular e sem o “status”
que as acompanha.
Freqüentemente, é só após a morte que o tema vida de uma pessoa
torna realmente visível aos que lhe eram caros. Quem sabe se reconhece
inata uma vida com uma totalidade, como uma melodia que era específica
daquela personalidade.
O respeito, que podemos sentir pelo que uma pessoa procurou ser em
toda a sua vida, não é diferente do respeito com o qual olhamos o começo
da vida de uma criança recém-nascida.
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 193
As fases de desenvolvimento das
empresas rurais2
Marina de Magalhães Carneiro de Oliveira
Já vimos no texto As Fases do Desenvolvimento Humano que os seres
humanos passam por mudanças de crescimento e de desenvolvimento ao
longo de suas vidas, e que estas fases são características presentes em to-
dos nós: infância, adolescência, maturidade, envelhecimento etc. Sabemos
também que as transições entre estas fases são marcadas por crises, em que
o organismo requer transformações para lidar com as mudanças que estão
ocorrendo. Assim ocorre com as trocas de dentes, com o desenvolvimento
das características sexuais, o crescimento de pêlos no corpo, as dúvidas
existenciais dos jovens, as crises de meia idade, a perda de elasticidade da
pele, a atrofia dos músculos e assim por diante. O ser humano se desen-
volve quando reconhece estas fases e seus processos de transição como
naturais, tornando-se capaz de lidar com elas de forma mais consciente.
De acordo com Schaeffer3, as organizações, tanto empresariais como
sociais são criadas por seres humanos. Vivemos em um mundo criado pela
natureza e estamos imersos num enorme mundo institucional criado por
pessoas.
2 Baseado em OLIVEIRA, M. M. C. As fases de desenvolvimento de organizações. Texto publicado no portal Risoli-
daria: [Link], 2004.
3 SCHAEFER, C. & VOORS, T. Desenvolvimento de iniciativas sociais: da visão inspiradora à ação transformadora.
Editora Antroposófica/ Instituto Fonte, 2ª edição, 2005.
194 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Da mesma maneira que os seres humanos, as organizações passam
por mudanças. Dependendo da dimensão de tempo que usamos Anotações
para observá-las, estas mudanças podem ou não ser perceptíveis.
Mudanças perceptíveis podem ser quantitativas ou qualitativas.
As mudanças quantitativas envolvem crescimento ou diminuição
de estruturas, mas o nível de complexidade da organização se
mantém o mesmo.
Há momentos na vida da organização em que o crescimento das
estruturas existentes não mais é suficiente para responder aos es-
tímulos e demandas dos meios: externo e interno. Mesmo expan-
dindo sua estrutura, a organização não consegue resolver seus
problemas e entra em crise.
Nestes momentos, tornam-se necessárias mudanças qualitativas,
que envolvem a formação de novas capacidades, novas estrutu-
ras, de novos órgãos, até a integração das partes num novo sis-
tema mais complexo. Não é possível voltar ao que se era antes.
Assim, mudanças qualitativas são respostas a situações de crise.
Desta maneira, assim como os seres humanos, as organizações
também passam por diferentes fases de desenvolvimento, fases
estas que são demarcadas por crises. As crises podem ser supera-
das, levando a organização a outro estágio de desenvolvimento,
ou não, o que pode levar a organização à morte ou ao seu fecha-
mento.
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 195
Ainda na década de 70, Bernard Lievegoed descreveu, no livro The
Developing Organization4, as fases no desenvolvimento de organizações.
Diversos outros autores também se dedicaram a caracterizar os ciclos de
vida das organizações, com o intuito de ajudar os líderes empresariais a se
manterem atentos às mudanças que ocorrem em suas empresas, a fim de
terem agilidade para responder às demandas que cada fase traz.
Para atender a este objetivo, o presente texto traz uma caracterização
das fases de desenvolvimento das empresas do meio rural, bem como as
crises pelas quais passam estas empresas nos processos de transição.
Apresentamos aqui a descrição de três fases:
1. Fase pioneira;
2. Fase de diferenciação ou Fase administrativa;
3. Fase de integração.
FASE PIONEIRA
Enquanto a empresa é pequena e a produção é doméstica, o produtor
4. LIEVEGOED, B.C.J. The Developing Organization. London: Tavistock, 1973.
196 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
produz sozinho, com a família ou com um pequeno grupo de colaborado- Anotações
res. Conhece profundamente seu negócio: suas lavouras, seus equipamen-
tos, todos os seus animais, acompanha o desenvolvimento da produção
diretamente, no dia a dia.
A pessoa fundadora, também chamada pioneira, é quem traz a visão
para o grupo. Reconhecido como quem conhece o negócio, costuma infor-
mar diretamente os demais sobre os rumos que deseja dar à empresa. Os
valores, os princípios que orientam as ações da empresa são os dos pionei-
ros e estão implícitos, imersos na prática do negócio.
Nesta fase, a comunicação é simples e direta. Todos sabem tudo o que
acontece na empresa. A interação com o mercado também é direta. A ven-
da também é realizada diretamente pelo proprietário.
A ênfase está no âmbito econômico: o desafio é manter o negócio vi-
ável, garantindo a sua sobrevivência. Normalmente, nesta fase os recur-
sos são escassos. Os primeiros recursos para a iniciativa, quando não vêm
do próprio bolso do fundador, vêm do apoio de pessoas próximas, que o
conhecem. Costumamos dizer que este é um “dinheiro quente”, que vem
através do calor das relações que o pioneiro estabelece.
Os processos de trabalho são geralmente simples. As pessoas da empre-
sa fazem muitas coisas diferentes, todo mundo faz um pouco de tudo. Ge-
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 197
neralistas, estão prontas para fazer o que for preciso. Também pode ocorrer
certa personificação de algumas ações na empresa: as contas são com a
Maria. Os problemas são resolvidos por todos de modo ágil, com criativi-
dade e improvisação.
Os processos produtivos ocorrem empiricamente e são registrados “de
cabeça”: quando tal vaca foi inseminada, quando foi feita a vacinação, qual
foi o esquema de adubação utilizado, quanto custou determinada cerca
etc.
Normalmente, a fase de início de uma empresa é um processo que en-
volve grandes desafios, é uma luta vibrante colocar uma empresa no mun-
do. Demanda muito esforço, mas também traz muita satisfação para quem
dela participa. Quem inicia o empreendimento junto ao pioneiro sente or-
gulho da iniciativa e forte vínculo ao que está sendo construído.
Mesmo diante das dificuldades, a conexão direta com produção e ven-
da traz uma forte conexão com a razão de ser da empresa, o que gera en-
tusiasmo e satisfação nas pessoas ao redor da empresa. Conseqüentemente,
também as relações interpessoais são vivas e significativas.
Nesta fase, a hierarquia da organização é muito simples, com poucos
níveis hierárquicos, quando não apenas dois: o fundador e os demais.
198 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
A liderança neste estágio é autocrática, centrada no proprietário, que a Anotações
exerce de modo pessoal e direto, ou seja, delega diretamente e a qualquer
hora a todos de sua equipe. Vemos isto ocorrer mesmo em empresas gran-
des, com centenas de colaboradores, que ainda estão na fase pioneira.
Nesta fase, o pioneiro normalmente escolhe as pessoas para com ele
trabalhar de acordo com critérios subjetivos: pela confiança que inspiram,
pela afinidade de idéias, de temperamentos, disposição para o trabalho etc.
Normalmente, é o próprio pioneiro quem ensina aos demais as tarefas da
empresa, e também por isto, é reconhecido pelo grupo como autoridade.
As relações entre as pessoas são próximas, todos se conhecem. O pro-
prietário conhece cada uma das pessoas que com ele trabalham, bem como
suas famílias. Com freqüência, existe certo paternalismo entre o fundador
e os demais: ele ajuda diretamente os colaboradores em suas necessidades
familiares, apoiando os estudos do filho de um, comprando o enxoval de
outro, batizando outro, ajudando na compra de uma televisão. As relações
entre proprietário e colaboradores muitas vezes são quase familiares e, não
raro, os vínculos trabalhistas não são formais.
Diante de resultados satisfatórios de produção, é comum haver recom-
pensas distribuídas de maneira também informal: algumas sacas, um di-
nheirinho extra, um animal para o churrasco.
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 199
A Crise da Fase Pioneira
As dificuldades na fase pioneira começam a surgir à medida que a pro-
dução aumenta ou se diversifica e conseqüentemente se torna mais com-
plexa.
Os processos iniciais já não são suficientes para as necessidades atuais:
conforme as atividades se intensificam e passam a exigir mais dos cola-
boradores, estes começam a se queixar de dificuldades: há confusão de
papéis e funções. Começam a acontecer erros, perdas, há sobreposição de
trabalhos, algo deveria ser feito por alguém, mas ninguém fez. De repente
as responsabilidades começam a não ficarem claras, as pessoas começam
a se questionar sobre quem é responsável pelo quê, podem surgir conflitos
entre as pessoas em torno do trabalho.
Simultaneamente, as informações sobre os detalhes de produção se
avolumam e já são tantas que não cabem na cabeça das pessoas. A falta de
controles impede de se conhecer a situação real da organização. As comu-
nicações informais não são suficientes para deixar todos informados do que
é necessário.
Também os usos do dinheiro passam a ser mais diversificados, fica mais
difícil controlá-lo de modo informal.
200 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
O proprietário passa a se irritar ao perceber os erros e os retrabalhos. Anotações
Passa a pensar na mecanização e na informatização de certas atividades,
para dar conta das demandas. Com a implementação de processos mais
complexos, é possível que algumas pessoas precisem ser substituídas, pois
não estão capacitadas a lidar com os novos processos. Torna-se necessário
buscar mão-de-obra qualificada para as novas tarefas. Os novos colabo-
radores não têm a mesma relação com a empresa do que aqueles que a
iniciaram. Questionam as práticas adotadas, questionam as competências
dos mais antigos.
É possível que o próprio papel da liderança pioneira seja questionado
por aqueles que estão mais próximos: seu empirismo, seu modo improvisa-
do e intuitivo de resolver os problemas talvez já não sejam suficientes para
responder às demandas crescentes da empresa.
A empresa vive tensões e conflitos. A fase pioneira encontra seus limi-
tes. A crise que se instala exige transformação. Esta crise é especialmente
dolorosa para o pioneiro. Intimamente vinculado com a iniciativa, é comum
sentir a crise como se fosse em seu próprio corpo, e não raro, adoecer neste
momento. É preciso enfrentar este momento e ir em busca de mudanças no
modo de lidar com a empresa. Inicia-se o desafio da profissionalização.
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 201
FASE DE DIFERENCIAÇÃO OU FASE ADMINISTRATIVA
A crise da fase pioneira leva à busca pela competência organizacional.
A empresa centra a sua atenção na profissionalização.
Se o grupo de colaboradores cresceu para responder à crescente pro-
dução, é possível que o organograma se torne mais complexo, com mais
níveis hierárquicos. Vai-se fazendo uma diferenciação de cargos e funções,
com chefias. Pessoas se tornam responsáveis pelo trabalho de outras, o pro-
prietário já não lida diretamente com todos os colaboradores.
É preciso criar regras e procedimentos para que todos trabalhem de
modo mais organizado. A empresa se ocupa de organizar os seus processos,
gerenciar suas atividades.
A necessidade da profissionalização também propicia a chegada de
pessoas mais qualificadas para trabalhar na empresa, pessoas com mais
formação técnica. Aos poucos, o conhecimento técnico vai perfundindo a
prática da empresa.
Os novos procedimentos, mais complexos, também exigem registros,
desenvolvem-se controles para os processos. É possível que diferentes pes-
soas cuidem de diferentes etapas do processo produtivo ou que algumas
pessoas façam as atividades e outros façam o controle do trabalho dos pri-
202 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
meiros. Torna-se necessário garantir a comunicação entre elas. Como con- Anotações
seqüência, aumenta o volume de papéis utilizados na prática diária: regis-
tros, controles, comunicações internas. Busca-se explicitar, tornar claro o
que antes era implícito, empírico.
Em essência, a fase de diferenciação caracteriza-se por um grande mo-
vimento voltado para dentro da empresa, com a intenção de organizá-la.
Há a preocupação com a padronização dos trabalhos, surgem as rotinas na
empresa e a identificação de responsáveis para cada atividade. Deseja-se
otimizar o uso de recursos e os tempos das pessoas; busca-se aprimorar a
produção, reduzir perdas. Há um aumento na qualidade dos processos, de
modo geral.
Crescem de importância as atividades meio, ou seja, as atividades que
dão suporte à produção: finanças, contabilidade, informática etc. Esta é
uma fase de grandes investimentos internos: investe-se na ampliação da
estrutura, em sua profissionalização e estruturação, através de programas de
computador, equipamentos especiais, divisórias para o escritório etc.
As contratações de funcionários passam a considerar a competência
técnica das pessoas. Quando alguém chega para trabalhar na propriedade,
sabe pelo quê será responsável, a quem deverá prestar contas etc. As pesso-
as se motivam por “crescer” na empresa, sonham em escalar posições ou se
motivam por salário, poder ou pela especialização que a posição oferece.
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 203
A diferenciação dos papéis faz com que as pessoas se tornem mais es-
pecialistas no que fazem: há quem se dedique à produção, há quem cuide
dos aspectos da venda, de finanças etc. Também são estabelecidos critérios
mais claros de remuneração, de bonificação.
A liderança é formal, existe uma coordenação, gerência, ou outro nome
dado à linha de comando. As decisões são tomadas de cima para baixo, de
modo racional e analítico.
Normalmente, existe maior preocupação com os aspectos jurídicos e as
relações trabalhistas são mais formais. Também é possível que, nesta fase, a em-
presa se preocupe com sua comunicação visual (logomarca, nome comercial).
Caso a empresa seja familiar, pode acontecer que cada membro da fa-
mília queira assumir uma área ou departamento específico da empresa. Ou
o proprietário e seus principais líderes buscarem se capacitar em assuntos
técnicos orientados à administração, ao marketing, às vendas, melhoramen-
to genético etc.
204 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
A crise da fase de diferenciação Anotações
As dificuldades da fase de diferenciação se iniciam quando há um ex-
cesso de racionalização e de normatização e os processos ficam pesados,
tornando a rotina da empresa burocrática.
As pessoas se dedicam de tal modo às questões internas que pode ocor-
rer um distanciamento das necessidades e desejos do mercado.
A profissionalização torna as relações mais impessoais, os processos de
trabalho se distanciam dos valores e princípios dos fundadores. Este distan-
ciamento também se reflete na qualidade dos relacionamentos entre os fun-
cionários e a empresa. É comum ocorrerem desligamentos desarmoniosos
seguidos de queixas trabalhistas.
Os processos internos tornam-se lentos e pouco flexíveis. A rigidez dos
procedimentos faz com que a capacidade de adaptação diminua. Somado
a isto, a departamentalização gera fragmentação e divisão entre as pessoas
de diferentes áreas: surgem competições, conflitos, fofocas. “São sempre os
outros (pessoas, setor, departamento) os responsáveis pelo problema”.
Percebe-se na empresa uma perda de vitalidade e de motivação, com
conseqüente queda na produtividade.
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 205
“Cheguei outro dia a uma loja de produtos agropecuários. Três
funcionários atendentes conversavam alto, atrás do balcão, em
tom de reclamação. Após alguns minutos de espera, uma aten-
dente veio me atender: escutou meu pedido e, enquanto me
atendia, continuava a conversar em tom queixoso com os cole-
gas – agora eu podia escutar a conversa – sem olhar para mim.
Quando eu lhe perguntei: As coisas não estão boas por aqui, não
é?, a funcionária se surpreendeu e pela primeira vez olhou-me
nos olhos. Sem graça, comentou que estavam tratando de um
problema interno da loja.”
Este exemplo relata o que chamamos de “internismo”, ou o excesso de
atenção aos assuntos internos da empresa, com conseqüente desequilíbrio
em relação aos assuntos externos ao negócio: a leitura do mercado, o diá-
logo com consumidores, concorrentes e parceiros.
FASE DE INTEGRAÇÃO
Na crise da fase de diferenciação, os líderes sentem que é preciso res-
gatar a chama, a razão pela qual a empresa foi criada. É preciso reconectar
cada colaborador à missão da empresa e reavivar as relações em torno da
iniciativa.
206 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Do mesmo modo, percebe-se que cada colaborador ou grupo de cola- Anotações
boradores deve ser capaz de lidar de forma mais autônoma com os desafios
de sua responsabilidade, para tornar a gestão mais leve, ágil e dinâmica.
Equipes semiautônomas adquirem a capacidade de planejar, executar e
controlar seu próprio trabalho, dentro de parâmetros gerais.1
Para garantir a autonomia dos grupos, os líderes se preocupam em criar
visão e valores compartilhados com todos. Com isto, busca-se dinamizar os
processos, mantendo uma integração entre as áreas.
O amadurecimento da empresa se reflete no amadurecimento das re-
lações entre ela e seus colaboradores. Isto pode ser observado em diversas
características:
> As políticas da empresa tornam-se mais transparentes para todos;
> Valoriza-se a gestão participativa, onde objetivos e metas são com-
partilhados. Do mesmo modo, são criadas políticas de premiação
através de metas de desempenho.
> A empresa encoraja a tomada de iniciativa e investe em treinamento
e desenvolvimento de pessoas.5 Valoriza a educação continuada, a
5. MORGENSZTERN, V. Administração Antroposófica: uma ampliação da arte de administrar. São Paulo: Editora
Gente, 1999.
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 207
aprendizagem individual e em grupos. Como exemplos, toda a equipe
responsável por determinado cultivo participa de cursos sobre o tema.
A empresa abre políticas de incentivo para quem deseja estudar.
> Busca-se desenvolver as formas de tomada de decisão entre os gru-
pos da empresa e as decisões passam a ser mais compartilhadas, pois
deseja-se que as pessoas assumam juntas a responsabilidade pelo
sucesso da empresa. Podem surgir equipes em torno de projetos,
forças-tarefa inter-equipes para a resolução de problemas etc.
A fase de integração também se caracteriza por um incremento no diá-
logo da empresa com o mundo externo. Em realidade, busca-se um equilí-
brio dinâmico de atenção às questões internas e externas ao negócio.
A empresa se reconhece como parte de uma rede interdependente de
organizações nas áreas de negócio em que participa, da qual é influencia-
da e sobre a qual exerce influência. Nesta fase, a empresa intensifica suas
ações nesta rede. Une-se a outras organizações similares para realizar ações
conjuntas de interesse mútuo: brigam juntas por melhores preços de com-
pra e de venda, compartilham recursos, constroem benfeitorias comuns.
Passa a intencionalmente estabelecer relações construtivas com outros
atores: os vizinhos, os fornecedores, as associações, os serviços públicos,
parceiros etc.
208 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Intensifica sua atuação em associações de caráter comercial, trabalhista Anotações
ou geográfico, por reconhecer que a ação entre pares é sinérgica, isto é, a atu-
ação de um grupo integrado é mais eficaz que a soma das ações individuais.
Pode ainda apoiar uma ou mais associações de cunho assistencial, seja
através de doação financeira, doação de produtos ou abrindo a propriedade
rural para ações recreativas e educativas. Por exemplo, conheço uma em-
presa que produz caquis que um dia por ano abre a propriedade para ações
recreativas da escola do bairro.
Em maior ou menor grau, estas são relações de destinos com-
partilhados: caracterizam-se por ter certa permanência, requerem
uma atitude de responsabilidade, e talvez o principal, são rela-
ções que evoluem ao longo do tempo e com isso transformam
seus envolvidos.6
Com uma compreensão mais abrangente de seu papel, a empresa passa
a considerar, em suas decisões, os impactos sociais, ambientais, políticos e
econômicos.
Schaefer afirma:
Quando a instituição passa de pioneira – passando por diferen-
6. SCHAEFER, C. & VOORS, T. Desenvolvimento de iniciativas sociais: da visão inspiradora à ação transforma-
dora. Editora Antroposófica/ Instituto Fonte, 2ª edição, 2005.
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 209
ciação – à maturidade, mais do que nunca é preciso atentar |...|
para que a organização continue a ser criativa e não recorra so-
mente a encontrar significado nas fatias de mercado, no retorno
financeiro e nos números alcançados. Renovação contínua deste
tipo implica num comprometimento real com a revisão e o apren-
dizado dos sucessos e erros, e em monitorar a saúde de toda a
organização. Este é um dos desafios principais da liderança orga-
nizacional.
Vale lembrar que estas fases podem ocorrer em maior ou menor grau
em cada empresa e aspectos de diferentes fases podem estar presentes numa
mesma empresa, em unidades produtivas diferentes, por exemplo.
Finalmente, a caracterização destas fases de desenvolvimento tem um
caráter didático, com o objetivo de propiciar ao produtor rural um olhar
vivo e abrangente aos movimentos que ocorrem em sua empresa, capaci-
tando-o a reconhecê-los e a responder de forma consciente às necessidades
decorrentes destes movimentos. É óbvio que cada empresa é única em sua
biografia, especificidade, portanto, não cabe aqui a apresentação de solu-
ções genéricas. Este texto teve um caráter descritivo, e não prescritivo.
210 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
O ciclo de vida da empresa rural
Anotações
e o seu processo de planejamento7
José Roberto Canziani
É possível que exista alguma relação, entre os objetivos e estratégias
comumente adotadas pelos empresários rurais em seus processos de plane-
jamento, com o estágio ou fase do ciclo de vida em que se encontram as
empresas e/ou os empresários em um determinado momento.
O quadro 6.1 apresenta as fases ou estágios do ciclo de vida das empre-
sas (introdução ou infância, crescimento, maturidade ou estabilidade e, de-
clínio ou velhice); alguns aspectos relacionados aos objetivos dos empresá-
rios rurais (sobrevivência, manutenção, crescimento, ou desenvolvimento)
e algumas filosofias presentes nas estratégias por eles utilizadas (satisfação,
adaptação e otimização).
Quadro 6.1. Estágios do ciclo de vida das empresas e aspectos relacionados
a objetivos e estratégias de empresas rurais.
Estágios do ciclo de vida Objetivos Estratégias
Introdução ou infância Sobrevivência Satisfação
Crescimento Manutenção Adaptação com postura passiva
Maturidade ou estabilidade Crescimento Adaptação com postura adaptiva
Adaptação com postura
Declínio ou Velhice Desenvolvimento
antecipatória
Adaptação com postura
autoestimulada
Otimização
7 Baseado em Canziani, J.R. Assessoria administrativa a produtores rurais no Brasil. ESALQ/USP, Piracicaba – SP,
2001. Tese de doutorado.
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 211
Na definição de estratégias8 ba- sentido de realizar algo “tão bem quanto possível” e não apenas “suficien-
seada na filosofia da satisfação, o temente bem”; (2) os objetivos são formulados apenas em termos quantitati-
processo de planejamento tem as vos, procurando maximizar o processo decisório das variáveis presentes no
seguintes características básicas: (a) modelo. Por fim, com a filosofia da adaptação, o empresário considera que
geralmente considera um número as mudanças no ambiente externo são as principais responsáveis por seus
pequeno de objetivos quantitativos e problemas internos. Nesse caso a empresa necessita estar, constantemente,
qualitativos factíveis; (b) os objetivos se adequando às mudanças externas, e o processo de planejamento varia
implicam em fazer “suficientemen- conforme as diferentes posturas (passiva, adaptativa, antecipatória, ou auto-
te bem”, mas não necessariamente estimulada) que a empresa adota frente aos estímulos externos. Na postura
“tão bem quanto possível”; e (c) os passiva, a empresa muda seu comportamento de forma defasada aos estímu-
objetivos definidos pelo empresário los externos. Na postura adaptativa a empresa procura adaptar-se, em tem-
geralmente são próximos das práti- po oportuno, aos novos estados do ambiente. Na antecipatória a empresa
cas correntes da empresa e levam procura se antecipar às mudanças do meio. E na postura autoestimulada, há
em conta, principalmente, restrições constante busca de novas oportunidades para crescimento e/ou expansão
de ordem financeira e a preocupa- da empresa, à medida que ocorrem as mudanças no meio ambiente.
ção com a sobrevivência ou manu-
tenção da empresa. Com relação a essas filosofias do processo de planejamento, a filosofia
ou estratégia de adaptação parece ser a mais comumente utilizada pelas
Já com a filosofia da otimização, empresas agropecuárias, pois as constantes transformações nas variáveis do
o processo de planejamento tem as ambiente externo são comuns e muito significativas para o setor agropecuá-
seguintes características básicas: (1) rio. Além disso, vale ressaltar, que o tratamento de múltiplos objetivos, que
utilizam modelos de simulação, no é fato comum nas empresas agropecuárias, dificulta a utilização de mode-
8 Na orientação do processo de planejamento para los de otimização pelos produtores rurais, e o correspondente uso do pla-
atingir os objetivos empresariais, Ackoff, 1974 (citado
por Oliveira, 1999) distingue estas três filosofias. nejamento da empresa como um todo baseado na filosofia da otimização.
212 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Na prática, as principais limitações so da empresa agropecuária, como Anotações
ao uso de modelos de otimização no aquelas que produzem grãos, carne
planejamento estratégico de empre- de frango ou outras “commodities”.
sas agropecuárias estão relaciona- Em um outro extremo, é possível que
das, principalmente, a dificuldades algumas empresas agropecuárias
na quantificação de certos objetivos adotem o planejamento de alguma
do empresário rural e na escolha de área empresarial (comercialização,
uma ou mais variáveis que possam por exemplo) baseado na filosofia da
ser representativas dos múltiplos ob- satisfação. Isso normalmente ocorre,
jetivos gerais da empresa. quando os preços recebidos pelos
produtores representam uma média
Não obstante, no caso do pla- ponderada, definida pela indústria,
nejamento ser direcionado apenas a como é o caso da comercialização
determinadas áreas ou subsistemas do leite, do frango no sistema inte-
da empresa agropecuária, os mode- grado ou da cana-de-açúcar, entre
los de otimização podem se mostrar outros.
úteis ao empresário rural. É comum,
por exemplo, que o planejamento Quanto ao estágio ou fase do
operacional da produção em algu- ciclo de vida é possível que uma
mas empresas agropecuárias seja empresa em fase de declínio ou ve-
baseado na filosofia da otimização. lhice, provavelmente considere em
Isso normalmente ocorre quando a seus objetivos, questões de sobrevi-
obtenção de altos índices de produ- vência ou manutenção e, para tan-
tividade é fundamental para o suces- to, adote estratégias baseadas na fi-
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 213
losofia da satisfação ou na filosofia de-obra e serviços) e de despesas de rem quando a empresa identifica
da adaptação com postura passiva manutenção dos ativos fixos; aban- um ambiente com predominância
ou adaptativa. Já uma outra empresa dono de atividades com alto risco de de ameaças e adota uma postura de-
agropecuária em fase de crescimen- produção e de mercado ou que exi- fensiva. No entanto, os pontos fortes
to, provavelmente terá objetivos de jam grandes desembolsos; adoção da empresa, acumulados ao longo
crescimento ou desenvolvimento e de postura extrativista no caso de do tempo, possibilitam a ela manter
estratégias baseadas na filosofia da culturas perenes; forte redução dos a situação competitiva conquistada
otimização ou na filosofia da adap- gastos familiares; entre outras. Se for até o momento. Nessa situação, uma
tação com postura antecipatória ou considerado, por exemplo, que uma empresa agropecuária poderia tomar
autoestimulada. pequena propriedade rural familiar as seguintes decisões: manter baixo
tem por objetivo a sobrevivência ela o nível de investimentos; focar seus
Objetivos de sobrevivência nor- poderia tomar, especificamente, as negócios em atividades de baixo ris-
malmente ocorrem em situações seguintes decisões: deslocar parte da co de produção e de mercado; redu-
quando, tanto a empresa, como o mão-de-obra familiar para trabalhar zir um pouco as despesas de custeio,
ambiente, estão em situação inade- fora da propriedade, dar preferência de manutenção de ativos e dos gastos
quada, ou seja, quando predomi- ao cultivo de lavouras de menor ris- familiares; entre outras. Neste caso,
nam os pontos fracos na empresa co econômico para ela, adotar pos- uma empresa de pecuária de corte,
e as ameaças do ambiente. Nessa tura extrativista na tentativa de re- por exemplo, que tem objetivos de
situação, uma empresa agropecuá- duzir (criteriosamente) despesas de manutenção poderia tomar, especifi-
ria poderia tomar as seguintes deci- custeio das suas atividades, arrendar camente, as seguintes decisões: adiar
sões: paralisação de investimentos; parte das terras a terceiros, adiar no- a reforma de pastagens, adiar a re-
venda ou aluguel para terceiros de vos investimentos, entre outras. cuperação de benfeitorias e a reali-
ativos fixos; corte generalizado de zação de novos investimentos; equi-
despesas de custeio (insumos, mão- Objetivos de manutenção ocor- librar os gastos da propriedade e da
214 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
família às rendas geradas pelo cres- existentes; investir em benfeitorias e ceiros, mercadológicos e humanos;
cimento e engorda do rebanho de na correção do solo; ampliar a área conquistar diferenciações de marca
forma a mantê-lo pelo menos estável de cultivo por meio de parcerias ou e qualidade de sua produção (para
ao longo do tempo; arrendar pastos arrendamento de novas áreas; alme- não commodities); consolidar alian-
ociosos a terceiros, entre outras. jar níveis máximos de produtividade ças com clientes e fornecedores que
pela adoção integral da tecnologia proporcionem vantagem competi-
Objetivos de crescimento nor- disponível; entre outras. tiva ou efeitos sinérgicos positivos;
malmente ocorrem quando há pre- entre outras. Se for considerado, por
dominância dos pontos fortes da em- Objetivos de desenvolvimen- exemplo, uma empresa produtora
presa e ela consegue se beneficiar de to da empresa normalmente ocor- de hortaliças orgânicas que tem por
algumas oportunidades do ambiente. rem em situações onde há forte objetivo o desenvolvimento, ela po-
Nessa situação, uma empresa agro- predominância dos pontos fortes deria tomar, especificamente, as se-
pecuária poderia tomar as seguintes da empresa e de oportunidades no guintes decisões: adquirir máquinas
decisões: ampliar investimentos na ambiente. Nessa situação, uma em- e equipamentos mais sofisticados;
produção; ampliar o volume dos ne- presa agropecuária poderia tomar melhorar a qualidade da produção;
gócios existentes; adquirir ou arren- as seguintes decisões, além das já otimizar o resultado econômico
dar novas áreas; melhorar o padrão relacionadas para situações de cres- (maximizar lucro), conquistar novos
de vida familiar; entre outras. Se cimento: ampliar investimentos em clientes; entre outras.
considerado, por exemplo, que uma ativos fixos (infra-estrutura); iniciar
empresa produtora de grãos tem por novas atividades produtivas (diver-
objetivo o crescimento ela poderia sificação); perseguir níveis máxi-
tomar, especificamente, as seguin- mos de produtividade e qualidade
tes decisões: adquirir novas máqui- no processo produtivo; otimizar a
nas e equipamentos ou reformar as alocação de recursos físicos, finan-
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 215
As escolas do adulto rem desenvolvidos num determina- quanto cada um é capaz ou está pre-
Antonio Luiz de Paula e Silva do tempo. Os responsáveis por isso parado para fazer.
são professores, educadores, peda-
gogos, mestres, doutores, instrutores Há um segundo tipo de escola
“Você se considera um – pessoas consideradas qualificadas à disposição do adulto, conhecida
aprendiz?“ para exercer esse papel. Nas escolas popularmente como escola da vida.
da sociedade os objetivos são sem- Essa escola se dá no local em que
Cada adulto tem à sua disposi- pre pré-determinados – seja uma se vive, trabalha, com aqueles com
ção pelo menos três tipos de escolas, formação geral ou a transmissão de quem se convive – ao contrário da
descritas a seguir. conhecimentos técnicos específicos, escola da sociedade, a escola da
isso é definido a priori – o propósito vida é composta por situações “de-
O primeiro tipo pode ser chama- geral, entretanto, é preparar o adul- sorganizadas” e “acidentais”, resul-
do de escola da sociedade. Escolas to para enfrentar o mundo “lá fora”. tante das contingências, reações e
deste tipo se encontram nas univer- Na escola da sociedade o aprendiz escolhas individuais. O “currícu-
sidades, escolas técnicas, públicas é aquele que se matricula e inscre- lo” ou “programa” varia e consiste
e privadas, palestras, cursos, grupos ve oficialmente; cada um aprende na história de vida ou biografia in-
de estudo etc. Elas compreendem o que outros ensinam ou ajudam a dividual, sendo determinado pelas
situações formalmente organizadas aprender – esta escola é, simbolica- circunstâncias ou pelo jeito de ser,
para a aprendizagem, podendo ter mente falando, “trazida de fora”. As dons, caráter, personalidade e tem-
diferentes formatos. Seus currículos provas mais comuns deste tipo de peramento da pessoa. Na escola
certamente podem ser bastante dife- escola são testes, exames, vestibula- da vida os professores são bastan-
rentes de uma situação para outra, res, bancas, trabalhos escritos, entre te diversificados, se estiver aberto
mas têm em comum o fato de serem outras. Nas escolas da sociedade, a eles. Os acontecimentos da vida,
estruturados e planejados para se- porém, a regra é outros dizerem o as pessoas com quem se encontra
216 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
(imagine a importância de um sim- mano e o mundo em que vive. fessor. Com quê objetivo? Tornar-se
ples encontro na vida da gente...), as um ser humano melhor... para a Hu-
conseqüências do que se faz – sim- O terceiro tipo de escola pode manidade, desenvolver uma cons-
bolicamente, na escola da vida as ser denominado escola interior. ciência universal, tornar-se sábio
forças do destino e das experiências Esta escola está dentro de cada um: ou simplesmente desenvolver uma
passadas são professores. Qual o ob- ela acontece interiormente, no es- qualidade que não se tinha. Apren-
jetivo desta escola? Possivelmente a paço íntimo da pessoa, nos momen- diz nesta escola é quem se decide a
resposta específica é diferente para tos de concentração em si próprio, sê-lo, uma vez que o aprendizado
cada pessoa, mas pode-se dizer que no silêncio pessoal. O programa ou ocorre de dentro para fora, a partir
a escola da vida contribui para o currículo desta escola é autocriado da auto-observação e conhecimen-
amadurecimento pessoal, para pre- e individual: cada pessoa determina, to. Nesta escola para a avaliação
parar para viver melhor a própria em função do seu grau de autoco- existem os limites pessoais, mas as
vida e também para despertar “algo nhecimento, seus erros, suas carac- provas cada um é que coloca para
superior” no ser individual, ajudan- terísticas pessoais, daquilo que acei- si: cada um deve dizer a si mesmo
do a alcançar patamares maiores no ta ou rejeita, da imagem que faz de quando está ou não satisfeito com o
caminho de desenvolvimento. Nesta si próprio. Os professores desta esco- que se tornou ou mudou em si pró-
escola todos são aprendizes, volun- la podem ser pessoas que se admira prio.
tária ou involuntariamente – nela há e escolhe como fonte de inspiração,
o confronto com diferentes tipos de mas o aprendizado se dá mesmo
provas, as quais, se não superadas pela força de vontade, pois cada um
adequadamente, são oferecidas em é seu próprio professor. Visto de ou-
uma forma diferente no futuro. Na tra forma, o lado negativo ou desco-
escola da vida o aprendizado se dá nhecido em cada um também pode
pelo intercâmbio entre cada ser hu- ser considerado um importante pro-
Capítulo VI • Desenvolvimento Humano e Organizacional 217
Planejamento
Participativo
Fernando Curi Peres
Foi dito, no final do capítulo O empresário e suas competências, que: Por outro lado, também foi dito que
[...] o setor perdeu, durante muitas dé-
“acredita-se, na administração moderna, que um elemento fun- cadas, uma excelente parte de seu
damental na motivação das pessoas para terem desempenhos sa- capital humano. De fato, pelo avan-
tisfatórios na empresa é a sua participação na gestão estratégica ço da ciência e, conseqüentemente,
da instituição. Quando as decisões estratégicas são tomadas com pela incorporação de novas tecnolo-
a aquiescência dos executores, os processos produtivos fluem gias, o setor continua perdendo par-
com muito mais eficiência e com menores custos. Por que as pes- te de seus recursos humanos, mes-
soas querem conhecer e aferir os riscos associados aos processos mo quando as políticas destinadas
em que estão envolvidos, elas podem colaborar para aumentar a a extrair excedentes do setor já não
eficiência das empresas quando, efetivamente, “vestem a cami- estão em vigor. Como proceder para
sa” da mesma. De fato, uma empresa bem administrada é a que conseguir o envolvimento e a con-
consegue cooptar todos os seus recursos humanos no sentido da seqüente motivação dos recursos
sua colaboração para que os objetivos estratégicos sejam atingi- humanos que continuam associados
dos. Isto, necessariamente, só pode ser conseguido quando há com a empresa? A resposta natural a
transparência de metas e objetivos gerais, com a correspondente esta questão é que isto pode ser atin-
delegação de decisões. Ora, só se pode delegar quando se acre- gido por sua participação no plane-
dita na competência daqueles a quem se delega ou se outorga a jamento estratégico. Agora é a hora
responsabilidade por algum processo”. do participante do Programa Empre-
endedor Rural trazer um conjunto de
218 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
pessoas relevantes para participar na mários de produção fundamentais Anotações
elaboração dos planos da empresa. para a eficiência da agricultura que
se implantou: os recursos humanos
Antes de indicar quem deve par- de melhor qualidade e, especialmen-
ticipar, diretamente, no planejamen- te, um excelente capital empresarial.
to estratégico da empresa, vale a Foi a qualidade superior daquele
pena recordar um aspecto histórico recurso humano que criou um em-
muito relevante no desenvolvimen- presariado rural do mais alto nível
to da agricultura brasileira. Trata-se e uma mão-de-obra incomparavel-
da incorporação da Região Centro- mente superior à existente na região.
Oeste – especialmente dos solos de Esta combinação permitiu diminuir
cerrado – à agricultura comercial e as limitações que a pouca escolari-
competitiva do país. Até a década dade das pessoas da região tinham
dos sessenta do século passado, o e que lhes impedia aproveitar as ex-
cerrado da região era utilizado com celentes possibilidades tecnológicas
tecnologia extrativista, principal- que a pesquisa estava desenvolven-
mente com a pecuária extensiva e de do para o uso eficiente dos recur-
baixa densidade. Que fatores contri- sos naturais do cerrado. Juntamente
buíram para que sua incorporação à com a disponibilidade de créditos
agricultura moderna se desse com o a custos razoáveis, a combinação
sucesso reconhecido do processo? A permitiu ao país desenvolver uma
qualidade do recurso humano que agricultura altamente competitiva e
se deslocou do Sul do Brasil pôde que tem sua expansão atualmente
prover a região de dois fatores pri- limitada principalmente pelos subsí-
Capítulo VII • Planejamento Participativo 219
dios dados pelos países desenvolvi- mais eficiente. Infelizmente, os testes Foi dito que o participante do
dos a suas agriculturas, reduzindo a que introduziram elementos de verifi- Programa Empreendedor Rural está,
demanda pelos produtos do cerrado cação objetiva da qualidade dos siste- agora, na fase em que precisa ex-
brasileiro. mas educacionais do país estão mos- plicitar os planos para a empresa.
trando que ela ainda é baixa, quando Quem deve participar desse planeja-
O excelente estoque de recursos comparada a de outros países. O mento? Quem é o público relevante
humanos que veio do sul do país per- teste PISA, por exemplo, feito regu- neste processo? Além de elementos
mitiu, pelo fato dele trabalhar junto larmente pela OCDE (organização do público interno – o empresário
com os habitantes da região, que que reúne os países desenvolvidos e e funcionários com maiores res-
certas atividades requeridas pelas os chamados emergentes) mostra os ponsabilidades na implantação dos
tecnologias mais sofisticadas fossem resultados do sistema educacional do planos – alguns outros indivídu-
incorporadas à “cultura” das em- Brasil entre os piores do grupo. Por- os precisam participar. Em inglês,
presas rurais do cerrado. O sistema tanto, os responsáveis políticos pela eles são chamados de stakeholders
educacional rural do Sul do Brasil foi eficiência do setor e, principalmente, termo para o qual não existe uma
muito melhor do que o do Centro- os empresários rurais necessitam usar boa tradução. Tradicionalmente, os
Oeste, gerando estoques superiores processos andragógicos para suprir empresários rurais fazem, eles pró-
de recursos humanos. Desta forma, as deficiências da baixa qualidade prios, os planos para a empresa, sem
o aprimoramento do capital humano educacional da mão-de-obra rural de se preocupar em comunicá-lo aos
do Centro-Oeste se deu via proces- algumas regiões do país. O efeito de- seus familiares e, menos ainda, aos
sos andragógicos, complementando monstração que acompanha os pro- funcionários da empresa. Com isso,
a deficiente educação formal local. É cessos do aprender fazendo (learning eles perdem a melhor oportunidade
claro que o dinamismo do processo by doing) certamente deverá ter um que a ciência da administração iden-
deve ter levado ao aumento na de- papel fundamental na melhoria desta tifica como elemento motivador do
manda por um sistema educacional qualidade. trabalho. Assim, pelo menos familia-
220 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
res do empresário, direta ou indire- plantadas de forma eficiente. Quem Anotações
tamente, envolvidos com a empresa, participa do processo decisório sobre
já que seu funcionamento alterna- os planos para a empresa pode, com
tivo pode significar mais ou menos maior fluência e motivação, traba-
renda e/ou segurança para a família, lhar para que sua implantação tenha
devem participar do processo. É co- o sucesso esperado. Idealmente de-
mum ver empresários rurais recla- veriam participar da elaboração do
mando de seus filhos pelo fato deles plano estratégico e, posteriormente,
não se envolverem com a empresa, do operacional, os stakeholders mais
ao mesmo tempo que negam a eles diretamente envolvidos com o fun-
qualquer possibilidade de sua parti- cionamento da empresa, além dos
cipação no planejamento e, conse- familiares. É lógico que em empresas
qüentemente, nas decisões relevan- maiores seria muito caro e difícil ter
tes sobre ela. Quando se considera muitos funcionários participando no
que a sucessão é um processo sem- processo. Desta forma, o bom senso
pre presente na vida do empresário do empresário e eventuais consultas
rural, o envolvimento dos familiares aos outros trabalhadores da empresa
fica, ainda, mais importante. podem permitir que um número pe-
queno de pessoas chaves participem.
Além dos familiares, a parti- Uma vez decidido expandir o núme-
cipação de funcionários chave na ro de participantes no planejamento
elaboração do plano estratégico da estratégico, o empresário não terá
empresa é fundamental para que as dificuldade em identificar as pessoas
decisões correspondentes sejam im- que dele deverão participar.
Capítulo VII • Planejamento Participativo 221
Deve-se notar que a incorpora- de stakeholders relevantes no plane- legação para fazer. Assim, a dele-
ção dos stakeholders relevantes no jamento estratégico da empresa. gação do poder de realizar determi-
processo de elaboração e revisão pe- nadas decisões é um imperativo de
riódica do plano estratégico implica O moderno empresário rural uma administração eficiente. Para
numa mudança profunda de atitude precisa usar muito de seu tempo em os administradores excessivamen-
de empresários centralizadores. Esses atividades fora de onde a produção te centralizadores esta é uma hora
querem manter todo o poder de deci- se dá, ou fora da porteira, no caso apropriada para melhorar sua ca-
são e reagem às modernas exigências da produção agropecuária. Aqueles pacidade gerencial e inaugurar, via
administrativas de uma gerência efi- que delegam pouco têm que deixar convite para participar do plano es-
ciente. Quebrar essas resistências é, ordens explícitas para a execução de tratégico, uma nova fase da condu-
portanto, uma necessidade gerencial todas as tarefas imagináveis que po- ção dos negócios da empresa.
que, se não for conseguida, pode sig- dem surgir durante os processos pro-
nificar a perda do poder competitivo dutivos. Ora, não há super-homem
da empresa. Funcionários desmotiva- capaz de prever todos os eventos Planejamento e missão
dos têm custo alto de administração de que podem requerer decisão nas ati- Antonio Luiz de Paula e Silva
seu trabalho uma vez que requerem vidades produtivas, exceto naque-
a existência de recursos de capatazia las relativas a simples repetições. E CONCEITOS CHAVE
para monitorar sua performance. A estas são, exatamente, as atividades
incorporação de novas tecnologias, mais fáceis de serem substituídas Vários conceitos podem ser usa-
processo cada vez mais requerido no pelas máquinas. Mesmo as ativida- dos em planejamento, especialmente
mundo moderno, fica dificultada e des de rotina podem requerer deci- em processos que têm forte impacto
ineficiente, se feita com mão-de-obra sões de melhoramento que quem as sobre a identidade e o futuro da or-
desmotivada. Existem, ainda, outras está executando deve, na moderna ganização. É necessário que você e
razões que justificam a participação gestão de qualidade (kaizen), ter de- seu grupo definam quais os concei-
222 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
tos a serem (ou sendo) aplicados no que se possa trabalhar com ele de Anotações
caso de vocês. Para cada momento, modo significativo.
circunstância, local, organização
ou grupo pode haver uma ou mais
questões centrais a serem respondi- Missão
das e é a partir delas que devem ser O conceito de missão vem sen-
definidos os conceitos mais relevan- do bem discutido nos dias de hoje,
tes a serem abordados. Os conceitos sendo considerado fundamental no
em geral não se substituem entre si, meio do Terceiro Setor. Porém, te-
mas se complementam. Pode ser que nho visto várias organizações com
no seu caso seja importante definir missões pobres e pouco úteis, razão
a missão da organização ou revisar pela qual quero explorar mais esta
a leitura da realidade feita há vários idéia.
anos; pode ser porém, que, por ou-
tro lado, seja o caso agora que vocês Um dos grandes desafios não é
julguem mais importante definir, a criar uma boa missão, mas sim tomar
partir da missão e prioridades exis- maior consciência dela. Segundo o
tentes, uma nova linha programática experiente consultor holandês que
ou remodelar o conjunto de projetos vive em São Paulo, Jacques Uljeé,
para os próximos anos. “Uma missão não deve ser inventa-
da, mas percebida naquilo que esta-
O texto a seguir procura esclare- mos fazendo”.
cer o conceito de missão, de modo
Capítulo VII • Planejamento Participativo 223
Eu não as sinto como perguntas
Exercício: Missão
fáceis de responder; ao contrário, são
Procure responder às perguntas abaixo antes de ler toda esta sessão
bastante sérias e profundas. Parece-
sobre missão. Ao final da leitura, releia o que escreveu e discuta o que
me que pessoas que levam a vida a
pode ser aprimorado. O ideal é que você faça isso com um grupo de sua
confiança. sério são as pessoas que se fazem
a. Escreva sua missão de vida num pequeno papel e guarde para si. estes tipos de perguntas. Algumas
b. Escreva a missão da sua organização, como você a entende, num pessoas expressam esta dificulda-
outro pedaço de papel. Evite consultar documentos ou registros, de dizendo “Não consigo te dizer”,
faça isso de cabeça. quando pergunto qual a missão de
c. Se você estiver num grupo, compartilhe os resultados e discuta vida deles.
como vocês entendem missão e quais as diferenças ao escrevê-las.
Prestem atenção ao clima que isso gera entre vocês.
Provavelmente a maioria de nós,
d. Guardem os papéis com as missões da organização numa caixa
adultos, já devemos ter tentado al-
separada e leiam o texto ao lado inteiro sobre missão.
guma vez definir a “missão de vida”,
e. Reabram a caixa e reflitam sobre o que pode mudar nas missões
escritas. ou pelo menos buscar um propósi-
O que vocês apreenderam nesse caminho? to maior para dar sentido à própria
existência. Nesse momento, refleti-
O que nós, pessoalmente, temos que ver com missão? mos sobre nossa história, nossa fa-
– Você já deve ter parado para pensar em questões do tipo: mília, nossos objetivos, nossas qua-
– “Por que eu nasci neste país, nesta época, no meio destas pessoas?” lidades e defeitos, o local em que
– “Eu morreria satisfeito se...” vivemos, quem está ao nosso redor,
– “Qual é minha tarefa principal nesta vida?” o que pode acontecer no futuro, o
– “Qual é o meu papel no mundo?” que aconteceria se continuássemos
da mesma maneira e daí por diante.
224 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Quando eu penso neste assunto, também percebo que minha idéia da Anotações
minha missão tem evoluído com o passar do tempo. E quando pergunto
para grupos obtenho a concordância quanto a isso: nossa missão muda com
o passar do tempo. Grupos jovens tendem a responder simplesmente: “ser
feliz”, enquanto grupos mais maduros apresentam as respostas mais diver-
sas, mas já incluindo outros em seus propósitos.
Faço estes comentários para reforçar que a idéia de missão precisa ser
tratada como algo intrínseco à vida, ou melhor, àquelas pessoas que procu-
ram um sentido maior no que fazem e são. Esta idéia não deve ser tratada
como algo que vem de fora para dentro, mas que naturalmente surge como
pergunta em nós. É possível vivenciar este conceito no dia-a-dia.
O que uma organização tem a ver com missão?
Para explorar a idéia de missão é importante considerarmos algumas
características das organizações:
a. A organização pode ser imortal: caso processos de sucessão e crises
sejam adequadamente conduzidos e superados, toda organização
tem o potencial de sobreviver por muito tempo. Sem dúvida, po-
rém, ela tem que transformar-se para isso, pois o mundo ao seu redor
muda.
b. Toda organização surge para atender a necessidade de outros: ne-
nhuma organização sobrevive em função de si própria. Esta é uma
Capítulo VII • Planejamento Participativo 225
idéia bastante filosófica, mas fundamental. Nem d. As pessoas esperam que ela cumpra seu papel:
mesmo a organização do empresário que diz “eu todas as pessoas têm necessidades e expectativas
só estou interessado no lucro” sobrevive se ape- diversas; quando procuram uma organização,
nas isso estiver acontecendo. Não há lucro para sempre esperam que ela cumpra seu papel es-
o empresário se ele não estiver atendendo ne- sencial, para si próprias ou para terceiros.
cessidades de outros. A organização não pode e. Toda organização implica assumir uma respon-
desvincular-se do seu ambiente externo e deve sabilidade: na medida em que toda instituição
preocupar-se em servi-lo, isso garante sua sobre- existe em função de outras pessoas, que seu pa-
vivência no longo prazo. Explicando de outra pel está relacionado a fazer algo de relevante
forma, as pessoas só se interessam por organiza- para essas pessoas, criar ou dirigir uma institui-
ções que façam algo de útil, seja para elas (numa ção significa tornar-se responsável por algo no
relação de troca ou empréstimo), seja para ter- mundo. Ter consciência de qual responsabili-
ceiros (numa relação de doação). dade está se assumindo é um grande passo em
c. Cada organização tem um papel essencial no direção a uma organização sustentável (e, quem
mundo: porque no momento em que ela deixa sabe, sociedade).
de ter um papel importante ela começa a mor-
rer, pois ninguém se interessa mais por ela. Seja Todas essas imagens ou conceitos permeiam a idéia
uma empresa ou entidade sem fins lucrativos ou de missão. Com ela assume-se que toda organização é
cooperativa ou qualquer outro tipo, ela tem que algo vivo, dinâmico, que pode desenvolver-se com o
estar atenta à sua própria contribuição relevante passar do tempo e que mantém estreita relação com o
para o mundo. Seja uma fábrica de automóveis mundo ao seu redor. A missão relaciona a organização
ou uma escola, toda organização tem um papel ao seu destino e ao de outros, dando um sentido profun-
essencial a cumprir na sociedade. do à sua existência.
226 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
O conceito e a idéia de missão Anotações
Missão no dicionário1 quer dizer “função ou poder que se confere a
alguém para fazer algo; encargo, incumbência... obrigação, compromisso,
dever a cumprir: missão de pai.”
O melhor conceito de missão que encontrei até agora foi-me dado por
um padre de nome Henrique, durante um seminário de desenvolvimento
institucional em 1997. Segundo ele, a palavra missão tem como origem o
vocábulo “mitere”, que significa “a quê foi enviado”.
Uma boa imagem para ajudar a entender a idéia de missão é a da estre-
la-guia, utilizada por navegadores para cruzar o oceano. A estrela-guia é algo
inalcançável, porém presente e útil em cada momento da viagem. Ela ajuda a
manter o rumo, a direção, desde que se saiba por ela orientar-se.
De forma geral, missão:
– É a razão-de-ser da organização;
– Implica em conhecer seus clientes, seu público-alvo;
– Implica em saber o que se quer;
– Significa assumir passado, presente e futuro;
– Fortalece a identidade;
– Participa de todas as reuniões;
1“Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa”, de Aurélio Buarque de Holanda, Editora Nova Fronteira,
1986.
Capítulo VII • Planejamento Participativo 227
– É compartilhada; Vantagens de ter uma missão na vida das pessoas
– Precisa ser construída.
Quando uma organização consegue ter uma missão
Este último tópico merece destaque: a missão é, ge- bem definida, ela pode esperar alguns efeitos do tipo:
ralmente, algo difícil de ser definido ou formulado. Exi-
ge reflexões profundas e muitas vezes prolongadas; exi- – “Aqui é o meu lugar”: as pessoas se identificam
ge contrapor aquilo que se faz àquilo que se consegue; mais facilmente com os propósitos da entidade.
exige analisar diferentes pontos de vista, enfim, pode – Quem está fora quer entrar: uma boa missão ex-
levar tempo para se chegar a uma boa missão, por isso pressa com tanta simplicidade e essência o pa-
ela deve ser construída com o passar do tempo. pel da organização que serve de estímulo, para
aqueles que têm motivos semelhantes, se aproxi-
marem mais rapidamente.
e
on Beg
Clevers
228 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
– Dá sentido ao sacrifício: as pessoas precisam, em geral, ver um sentido maior em tudo que fazem, ver este
sentido ajuda a suportar maiores sacrifícios e fazer maiores esforços.
– Facilita suportar tensões e atritos: as pessoas suportam mais tempo situações difíceis quando vêem maior
importância naquilo que estão fazendo.
– Eleva as aspirações: uma boa missão deve inspirar as pessoas, motivando-as para além de “cumprir sua
tarefa”.
– Todo mundo fala a mesma língua: uma boa missão – clara, concisa, simples – facilita o diálogo entre as
pessoas, ajudando-as a partir do mesmo princípio.
– Permite dizer: “Esta é minha contribuição!”: uma missão com as qualidades acima ajuda cada pessoa a ter
maior clareza a perceber qual é sua contribuição para ela.
– Cada um se sente responsável: se a missão da organização encontra “eco” nas pessoas e em suas missões
pessoais é maior a possibilidade delas sentirem-se co-responsáveis pela tarefa da organização.
– Gera a ação correta: uma boa missão sempre é prática, podendo ser útil em quase todos os momentos,
dessa forma, expressam o que e como deve ser feito algo.
Vantagens de ter uma missão na vida da organização
Pelo menos as seguintes vantagens são observáveis para organizações que têm boas missões:
– Mantém na direção certa;
– Determina a competência, ou seja, a missão expressa em que campo ou área a organização é ou precisa
expressar sua competência;
– Mantém ligada aos clientes: uma boa missão deve ajudar a organização a não se distanciar das necessida-
des que tem que atender;
– Concentra os esforços: porque torna explícitos aquilo que efetivamente tem que ser realizado;
Capítulo VII • Planejamento Participativo 229
– Define o papel no futuro: ex- No meu entendimento, uma boa zação; e) a missão é a mesma para
pressa o que a organização missão deve responder bem às se- todos os clientes; f) a missão sempre
tem que assumir durante o guintes questões: está voltada a satisfazer determina-
resto de sua existência; I. É o que os clientes realmente das necessidades ou ideais.
– Facilita fazer escolhas e de- precisam?
finir prioridades: na medida II. Alcança todos os clientes? Alguns exemplos de missão, me-
em que fornece “um norte”, III. Reflete o que acreditamos, lhores ou piores:
a missão facilita a escolher as nossa filosofia? 1. Alcoólicos Anônimos: “Man-
metas e objetivos a serem al- IV. É onde nós podemos ser mais termo-nos sóbrios e ajudar
cançados; competentes? outros alcoólicos a alcança-
– Ajuda a dizer “não”; V. Dá para guardar na cabeça? rem a sobriedade”.
– Fortalece a identidade. VI. É aplicável todo dia? 2. Um pronto-socorro2: “Trans-
VII. É válida para os próximos 50 mitir confiança aos aflitos”.
O que é uma boa missão? anos? 3. Centro Paulus: “Propiciar
acolhimento e aconchego
Laurie Jones, em seu livro “The Estas perguntas pressupõem que: para favorecer o encontro, o
Path”, coloca 3 qualidades necessá- a) a missão é tão essencial que dura convívio e o aprendizado”.
rias a uma boa missão: muitos anos; b) a missão é uma coisa 4. Doutores da Alegria: “Levar
I. Nunca ser maior do que uma prática, podendo ser checada a cada alegria a crianças hospitaliza-
sentença; trabalho que fazemos; c) a missão das, seus pais e profissionais
II. Ser entendida facilmente por tem um foco bem definido e dá idéia 2 Em seu livro “Administração de Organizações
um jovem de 12 anos; do talento principal da organização; Sem Fins Lucrativos”, Peter Drucker explica que
“para grande surpresa dos médicos e enfermei-
III. Ser recitada de cabeça mes- d) a missão não é impessoal, mas re- ras, constatou-se que em um bom pronto-socor-
ro, a função em oito de cada dez casos é dizer
mo sob pressão. flete as crenças principais da organi- às pessoas que elas não têm nada que não seja
curado por uma boa noite de sono. Os médicos e
enfermeiras transmitem confiança.”
230 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
de saúde, através da arte do 8. Fundação Kellogg: “Ajudar pode adotar diversas estratégias para
Teatro Clown, nutrindo esta as pessoas a se ajudarem, cumprir sua missão.
forma de expressão como através da aplicação prática
meio de enriquecimento da de conhecimentos e recursos Para construir uma boa missão...
experiência humana”. para melhorar sua qualidade
5. Fundação Abrinq: “Sensibili- de vida e a de futuras gera- Já foi dito que uma missão de
zar e mobilizar a sociedade ções”. qualidade não é fácil de ser constru-
sobre as questões da infân- ída. Facilita o processo se estivermos
cia, promovendo o engaja- Podemos ainda imaginar dois bem conscientes daquilo a ser utili-
mento social e empresarial exemplos hipotéticos e discuti-los: um zado nessa construção. Assim, para
em propostas para a solução barbeiro e uma empresa (!) de máqui- construir uma boa missão é preciso:
dos problemas da criança”. nas de fotografia. A missão do barbei- a. Conhecer muito bem o públi-
6. GIFE: “Aperfeiçoar e difun- ro pode ser “Deixar as pessoas com a co-alvo da entidade: seus pro-
dir os conceitos e práticas do aparência que querem ter”; e a missão blemas, necessidades, anseios,
uso de recursos privados para da empresa de fotografia pode ser “Re- pontos fortes, disposições, ex-
o desenvolvimento do bem ter a memória da forma mais viva pos- pectativas, história, fatores de
comum”. sível”. O importante nestes exemplos serem como são etc.
7. WWF: “Conservar a nature- é perceber como a missão pode ser b. Informações do passado e do
za e os processos ecológicos prática, aplicável ao dia-a-dia, e como presente: como a missão não
por meio da preservação da deixa muito claros resultados! Repare pode ser inventada, é impor-
diversidade, da promoção do como o barbeiro pode, orientado por tante saber aquilo que foi e é
uso sustentável dos recursos ela, perguntar a cada cliente como se feito e seus resultados, bem
naturais e do combate à po- sente durante e ao final do trabalho. E como o que as pessoas dizem
luição e ao desperdício”. também como a empresa de fotografia do sentido de seu trabalho.
Capítulo VII • Planejamento Participativo 231
Se a missão expressa contiver
c. Visão do futuro: uma imagem do que queremos que aconteça ou do que
o compromisso que a organização
pode acontecer se nada for feito, ajuda muito a ter clareza da essência está assumindo perante a sociedade,
do papel da instituição no mundo. a competência que tem para isso e
d. Autoconhecimento: saber o que se é e não é capaz de fazer. sua visão das necessidades e oportu-
e. Suor: a boa missão não é descoberta sem esforço, pode ser necessário nidades principais, poderá ser uma
muito tempo e “fosfato” para isso. boa missão.
f. Intuição: a missão é tão essencial – e simples – que é preciso às PERGUNTAS QUE PODEM
vezes utilizar qualidades que vão além da linguagem e da racionali- AJUDAR A DEFINIR UMA BOA
dade. MISSÃO
g. Equipe: a missão para ser realmente institucional precisa ser constru-
ída em grupo. Dentro do espírito provocado
pelas considerações acima, aí vão
Conceitualmente falando, pelo menos três ingredientes devem estar in- algumas idéias de perguntas que po-
corporados à missão: dem ajudá-lo a trabalhar com sua
equipe na definição da missão da
sua organização:
Compromisso
a. Que imagem cada um faz da
Oportunidades/
Necessidades organização? Quais as quali-
dades da organização nesta
imagem? O que a imagem re-
vela de princípios? Qual seu
Competência
papel no mundo?
232 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
b. O que cada um conta quando k. Quais foram as coisas mais importantes que fizemos? E as menos
apresenta a organização? O importantes? Para quem?
que é fácil? O que é difícil? l. Quais foram nossas prioridades? O que ficou em segundo plano?
c. O que a organização faz m. Onde somos realmente bons? O que sabemos fazer bem? Quais são
ou oferece para as pessoas? nossos talentos e dons? Como isso pode ser simbolizado? Quais nós
Como ela as beneficia? temos usado? Como?
d. O que nos torna únicos? n. Quais necessidades existem em nossa área hoje? O que indica isso?
e. Onde é que “desfrutamos”, Quais destas necessidades procuramos atender hoje?
temos mais prazer em traba- o. Como foi nossa história/biografia até aqui? Por quais fases passa-
lhar? mos?
f. O que as pessoas dizem desta p. Como nossas qualidades evoluíram? Como nosso papel evoluiu?
organização? Como a orga- q. Como eram nossas relações internas e externas em cada fase?
nização está posicionada na r. Quais eram os sonhos dos fundadores? E os motivos? Quais neces-
cabeça das pessoas? Como sidades eles percebiam? Que profecias eles faziam? O que isso nos
foi no passado? Como deve- diz hoje?
ria ser? s. Que profecias positivas podemos fazer do futuro da organização?
g. O que os outros esperam que Quais profecias são feitas por outros? Quem são?
sejamos? t. Com que organização sonhamos? Em que mundo ela estará?
h. Qual foi a missão da organi- u. Se a organização fosse um profissional, qual seria?
zação até agora? v. O que não é nossa missão?
i. O que fizemos bem até aqui? w. Qual é a nossa causa? Por qual causa as pessoas nos procuram?
O que não fizemos tão bem? x. O que caracteriza nossa filosofia?
j. O que poderíamos ter feito e y. Se a organização deixasse de existir, o que ficaria faltando no
recusamos? O que gostaríamos mundo?
de ter feito e não pudemos?
Capítulo VII • Planejamento Participativo 233
Globalização e Políticas
Econômicas
Vania Di Addario Guimarães
Globalização
sas. Já existiam empresas multinacio- Se, até então, as chaves do desenvol-
O mundo ficou menor e, as dis- nais, produzindo e comercializando vimento de um país estavam calca-
tâncias, mais curtas no final do sécu- seus produtos e serviços em diversos das na quantidade e qualidade dos
lo XX. E isto ocorreu pela evolução países, buscando menores custos e estoques de capitais que possuía, a
tecnológica da comunicação e da in- mais vendas. Mas esta comunicação chave agora é a tecnologia.
formática. É possível visitar qualquer intensificou esta prática no segmento
lugar do mundo sem sair de casa, produtivo e se expandiu rapidamente O segmento no qual a globali-
por meio da internet. Ter notícias em para o sistema financeiro e contribuiu zação ocorreu de forma mais rápida
tempo real, conversar com um ami- de forma crucial para a ampliação do e intensa foi o financeiro, por meio
go que está na Índia ou na Austrália, comércio mundial. da “internacionalização do capital –
acompanhar ao vivo pregões em bol- uma condição de negócios caracte-
sas, fazer uma aplicação financeira, A globalização produtiva signifi- rizada por uma enorme acumulação
comprar ou vender produtos e servi- ca que a produção de bens e serviços de dólares “apátridas” (dólares em
ços e tantas outras possibilidades que é realizada em escala mundial o que poder de bancos e países fora dos
eram impensáveis para a maioria da aumenta de forma expressiva a con- Estados Unidos) que não estão sujei-
população mundial no começo do corrência entre as empresas, notada- tos à regulamentação financeira dos
século passado. A comunicação mais mente as multinacionais. Aos poucos EUA” (MENDES, 2003)1. Este capital
rápida, fácil e barata neste começo vão diminuindo as barreiras dos pa- flui livremente entre países, sem que
do século XXI mexeu com a vida de íses e blocos ao comércio mundial, os governos possam controlá-los. O
todos, tanto indivíduos como empre- que se amplia a cada ano que passa.
1 MENDES, J. T. G. Globalização e Política Agrícola.
Livro Programa Empreendedor Rural, 2003.
234 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
autor citado já alertava para o ris- dos países se tornam refém deste Anotações
co que esta situação continha – ris- capital, sujeitas a ataques especula-
co este que se tornou em problema tivos às suas moedas ou suas taxas
concreto a partir da crise imobiliária de juros. É importante separar dois
nos Estados Unidos que deflagrou a tipos de investimento que estrangei-
maior crise econômica do planeta ros podem fazer num país. O capi-
a partir de 2008. Sem o controle de tal de investimento produtivo que
nenhuma autoridade monetária, este é benéfico ao país, pois significa
capital transita de um país para ou- crescimento e o capital especulativo
tro em busca das maiores remunera- (ou chamado hot money) que corre
ções. Os investidores, donos destes atrás da maior rentabilidade possível
capitais, são bancos, fundos de pen- e, em geral, de curto prazo. É este
são, companhias de seguros, agên- capital especulativo que deixa os
cias governamentais, entre outros. países vulneráveis, pela possibilida-
O volume financeiro transacionado de de fuga de capitais. Para enten-
anualmente supera em muito o valor der a razão, Imagine um investidor
do comércio mundial e, como se viu que aplicou US$ 1.000,00 no Brasil.
no início da crise, tinha elevado em Para fazer isto ele trocou os dólares
muito o nível sustentável de alavan- por reais pela taxa de câmbio do dia
cagem financeira dos negócios. – de R$ 2,50/US$, por exemplo. Es-
tes mil dólares se transformaram em
Outra implicação importante R$ 2.500,00 aplicados no mercado
deste grande volume de capital é financeiro brasileiro a uma taxa de
que as políticas macroeconômicas juros de 20% ao ano. Após um ano
Capítulo VIII • Globalização e políticas econômicas 235
o investidor resgataria seu investi- uma moeda para outra. A crise tor- dos dos anos 2000 se tornou o maior
mento (acrescido de 20% de juros) nou clara a necessidade de algum exportador do mundo. O Brasil é
de R$ 3.000,00. Se a taxa de câmbio controle deste capital em escala competitivo, mas a França não. Em
fosse a mesma da data da aplicação mundial bem como uma maior apro- tudo que um país consegue expor-
(R$ 2,50/US$), este investidor trans- ximação entre o valor deste capital e tar, sem se valer de subsídio, é por-
formaria os R$ 3.000,00 do resgate dos ativos reais dos países. que tem competitividade.
do investimento em dólares, o que
daria US$ 1.200,00. No entanto, A globalização traz conseqüên- A abertura dos mercados produz
se a taxa de câmbio tivesse subido cias importantes para todos. Uma ganhadores e perdedores. Ganham
(o mesmo que dizer que o Real se delas é o aumento da concorrência, os produtores do país mais compe-
desvaloriza frente ao dólar) para R$ agora em escala mundial, e sobrevi- titivos que produzem mais e preços
3,00/US$ este investidor tiraria do vem os mais competitivos. Ser mais maiores e perdem os produtores do
país apenas US$ 1.000,00 – o mes- competitivo significa produzir com país importador, que produzem me-
mo que investiu, sem rendimento qualidade no mínimo semelhante e nos e preços mais baixos (isto pode
nenhum de fato. Se a taxa de câmbio custo no máximo semelhante à con- facilmente ser constatado observan-
subisse ainda mais ele poderia tirar corrência. Cresce quem produzir do a figura 4.3 do capítulo 4). Inca-
do país (em dólares), menos do que mais barato e um produto melhor. pazes de enfrentar a concorrência
investiu. É por isso que a possibilida- Um exemplo clássico na agropecu- (algumas vezes desleal, baseada
de de desvalorização da moeda leva ária brasileira é o frango. Até o final em subsídios), os diversos países do
à fuga dos capitais especulativos in- dos anos 90 a França era a maior mundo mantêm barreiras ao comér-
vestidos no país. Da mesma forma, o exportadora de carne de frango do cio apesar do processo de globaliza-
movimento de entrada e saída destes mundo, mas ao ter que enfrentar a ção, inclusive o Brasil. Barreiras tari-
capitais afeta a taxa de câmbio, pois concorrência internacional, perdeu fárias (por meio de impostos e taxas)
os valores precisam ser trocados de feio para o Brasil que, a partir mea- e não tarifárias (como barreiras sa-
236 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
nitárias, cujo exemplo mais flagran- manter-se no mercado, a redução de Anotações
te para o Brasil é a aftosa na carne custo é crucial.
bovina). Se por um lado os países do
mundo se abrem mais ao comércio, A informação mais rápida, bara-
de outro fecham em blocos, privile- ta e acessível que é a base do pro-
giando o comércio com seus pares, cesso também aumenta as deman-
como é o caso da União Européia, das sociais em todos os países. Ao
ALCA (Área de Livre Comércio das saber como se vive tanto em termos
Américas), NAFTA (Acordo de Livre de renda, de emprego, dos diferen-
Comércio do Norte), APEC (Coope- tes graus de democracia, as popula-
ração Econômica da Ásia e do Pací- ções passam a desejar maiores níveis
fico), por exemplo. de bem estar e tendem a pressionar
seus governos na busca de desenvol-
Outra conseqüência da globali- vimento. É muito mais difícil agora
zação é a necessidade de escala, pois esconder a realidade das popula-
não se produz apenas para o merca- ções do que nas décadas passadas.
do interno, mas para todo o mundo. Da mesma forma, os governos têm
O aumento da escala também visa muito mais dificuldade em esconder
reduzir custos para se manter com- suas ineficiências do que antes.
petitivo e isto vale inclusive para o
setor agropecuário. O aumento da Diante desta realidade, o que fa-
concorrência entre as empresas em zer? Para aqueles que estão nos mer-
termos mundiais também reduz a cados de commodities, a resposta é:
rentabilidade das atividades e, para
Capítulo VIII • Globalização e políticas econômicas 237
eficiência, mais e mais. Para quem humanos preservando o planeta é croeconômicos. Em outras palavras
não está, uma das alternativas é bus- outra questão em debate. Se o de- ele é o agente encarregado de zelar
car nichos de mercado com produ- semprego já é um problema nos pa- pelo grande ambiente econômico
tos diferenciados. íses desenvolvidos, o que fazer com no qual todos os atores econômicos
os milhões de jovens que a cada ano atuam. Isto significa preocupar-se
O mundo tem desafios impor- chegam ao mercado de trabalho é com: a) a inflação (aumento genera-
tantes a enfrentar agora e no futuro, outro desafio. O mundo está mudan- lizado de preços na economia); b) o
além do aspecto financeiro já men- do, mas o ser humano está longe de crescimento da economia e da ren-
cionado. MENDES (2003), relacio- alcançar uma forma mais digna de da; c) o nível de emprego; d) a distri-
na ainda: a fome, o desemprego, o viver para todos os indivíduos. buição da renda entre os indivíduos
meio ambiente, a distribuição de e regiões do país. Esta preocupação
riqueza, o crescimento demográfico tem por objetivo maior a melhoria
e a questão etária. A fome ainda é Políticas econômicas da qualidade de vida e o bem-estar
um problema no Século XXI e está Um agente muito importante da população.
intimamente ligado à distribuição de do sistema econômico é o governo,
renda. A produção tende a crescer como apresentado no capítulo 3. O governo dispõe de alguns ins-
se há consumo e, para haver consu- Suas receitas provêm dos impostos e trumentos para alcançar estes ob-
mo, é preciso renda. Os países mais taxas que arrecada dos demais agen- jetivos, denominados de políticas
ricos precisam pensar seriamente so- tes do sistema e seus gastos envol- macroeconômicas. De fato, são 4
bre o que farão para auxiliar os paí- vem a remuneração dos fatores de políticas: monetária, fiscal, cambial
ses mais pobres, nos quais a taxa de produção que utiliza para produzir e de rendas. A política monetária
crescimento da população é maior. bens e serviços públicos. Além disso, consiste no controle da oferta de
Como crescer a produção, o consu- o governo é o único agente que con- moeda na economia, que é emitida
mo e o bem estar de bilhões de seres trola e interfere nos agregados ma- apenas pelo governo. A política fis-
238 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
cal trata das receitas e gastos do go- por exemplo), tem efeito nas outras Anotações
verno. A política cambial afeta as re- áreas, efeitos esses que podem ser
lações com o resto do mundo, tanto indesejados.
nas relações comerciais quanto nas
financeiras. A política de rendas en- Retomando, do capítulo 3, a ex-
volve controles de preços e salários, pressão que apresenta o PIB do lado
entre outras ações. Por meio destas da utilização dos bens e serviços fi-
políticas os governos podem: ace- nais de uma economia:
lerar ou desacelerar o crescimento
Y = C + G + I + (X – M)
da economia; conter ou impulsionar
a inflação; aumentar ou diminuir o onde:
nível de emprego, estimular ou de- Y = produto total de uma economia
sestimular as transações com o ex- (ou PIB)
terior e melhorar ou piorar a distri- C = consumo das famílias
buição da renda entre os indivíduos.
G = gastos do governo
Grosso modo, as políticas têm os
I = investimento privado
efeitos mencionados, mas o mun-
do é complexo e uma determinada X = exportações
política, afeta toda a economia. Ou M = importações
seja, não é tão simples como pare-
ce, pelo contrário. De fato, todas as Note que Y é igual à soma do
variáveis econômicas são interliga- consumo das famílias, dos gastos
das. Qualquer medida econômica do governo, do investimento priva-
em uma determinada área (moeda, do e do saldo em contas correntes
Capítulo VIII • Globalização e políticas econômicas 239
(exportação menos importação). Um variável que vem à mente é a renda, da das famílias, automaticamente au-
objetivo claro do governo é fazer a não é mesmo? Cada indivíduo ou fa- menta a renda disponível, o consumo
economia crescer, que é o mesmo mília consome de acordo com a ren- das famílias e o PIB. Ocorre o inverso
que aumentar o PIB, representado da que tem. E não é qualquer renda, quando há aumento na carga tribu-
pela variável Y na equação. Como é a renda disponível para consumo, tária. Os juros da economia também
Y é uma soma, aumentar Y significa pois os indivíduos pagam impostos influenciam o consumo, de duas ma-
aumentar o consumo das famílias e/ ao governo. A renda disponível (Yd) é neiras. A primeira é reduzindo o con-
ou os gastos do governo e/ou o in- função da renda da família (que vem sumo de bens duráveis (automóveis e
vestimento privado e/ou o saldo da da remuneração aos capitais que ela eletrodomésticos, por exemplo), que
balança comercial (exportar mais do possui) menos os impostos (T) pagos são comprados à prazo pela maioria
que importar). ao governo: das famílias. Juros mais altos signifi-
cam prestações mais caras reduzindo
É exatamente sobre estas variá- Yd = Y - T as compras. A segunda forma é in-
veis que o governo tem influência fluenciar a decisão de consumir ou
por meio das políticas macroeco- Assim o consumo das famílias poupar. Quando os juros são altos
nômicas. Para melhor compreender (C) é função da renda disponível: os consumidores tendem a consumir
esta influência, é preciso detalhar menos e poupar mais, pelo rendi-
C = C (Yd)
melhor o que interfere em cada vari- mento que a poupança proporciona2.
ável. Começando pelo consumo das Poupar é adiar consumo.
famílias. A relação entre o consumo das fa-
mílias e a renda disponível é positiva, Em suma: o governo pode alterar
CONSUMO DAS FAMÍLIAS ou seja, quanto maior a renda, maior o nível de consumo por meio da carga
o consumo. Portanto, se o governo
2 O termo poupança aqui utilizado é genérico, referin-
O que influencia o seu consumo diminui a carga tributária sobre a ren- do-se a qualquer tipo de aplicação financeira tal como
CDB, fundos de renda fixa, entre outros e não exclusi-
a cada dia, mês ou ano? A primeira vamente caderneta de poupança.
240 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
tributária, do próprio crescimento da Esta divisão é relevante, como Anotações
economia (renda) e da taxa de juros. demonstrado no capítulo 3. Investi-
mentos públicos são muito mais im-
GASTOS DO GOVERNO portantes para o país do que gastos
correntes do governo, porque im-
Teoricamente os gastos do go- plicam em ampliação de meios de
verno dependem de sua receita (ar- transporte, escolas, hospitais, presí-
recadação de impostos), assim como dios e tantos outros serviços públi-
o consumo das famílias depende de cos cruciais para o desenvolvimento
sua renda. De fato não é assim. Os e o bem-estar da nação. Gastos em
gastos do governo são exógenos, o propagandas das administrações Fe-
que significa que o governo decide deral, Estadual ou Municipal, por
quanto vai gastar, porque ele pode, exemplo, não tem qualquer impac-
sozinho impulsionar a economia. to na capacidade de crescimento de
Quando o governo aumenta seus um país. Os gastos com a folha de
gastos, aumenta o PIB e vice-versa, pagamento estão incluídos nos gas-
mas há implicações como será dis- tos correntes e são importantes, des-
cutido ao longo do capítulo. de que o serviço prestado atenda às
necessidades da população. Por isso
Os gastos governamentais po- a importância da busca da eficiência
dem ser divididos entre gastos cor- do serviço e do servidor público.
rentes (Gc) e investimentos públicos
(Gi), ou:
G = Gc + Gi
Capítulo VIII • Globalização e políticas econômicas 241
INVESTIMENTO PRIVADO visão) muitos empresários reclaman- necessários muitos reais para com-
do das altas taxas de juros no país. prar um dólar (Ex.: R$ 2,50/US$).
Você, participante do Programa É porque impede investimentos, que
Empreendedor Rural, saberá, mais são chave no crescimento do país. Real valorizado desestimula a
do que a grande maioria das pesso- exportação e estimula a importa-
as, o que influencia o investimento SALDO EM CONTAS CORRENTES ção – porque o preço em dólar do
privado: é a taxa de juros. Porque produto fica barato em reais e os
quanto maior a taxa de juros, menor A balança comercial, já defini- exportadores recebem menos reais
o valor presente líquido dos inves- da no capítulo 3, é o resultado das e os importadores pagam menos re-
timentos planejados, muitas vezes exportações e importações do país. ais por unidade. Real desvalorizado
tornando-os inviáveis. Se isto lhe pa- Estas transações comerciais são in- estimula a exportação e desestimula
rece incompreensível neste momen- fluenciadas diretamente pela taxa de a importação – porque o preço em
to, volte a este capítulo quando fizer câmbio. A análise será feita conside- dólar do produto fica caro em reais e
a análise de viabilidade econômica rando a taxa de câmbio do Real fren- os exportadores recebem mais reais
de seu projeto! te ao Dólar americano – principal e os importadores pagam mais reais
moeda das transações comerciais e por unidade. O governo pode optar
Há uma relação inversa entre financeiras em escala mundial – ex- por ter um maior ou menor contro-
o nível de investimento e a taxa de pressa em R$/US$. Quando o Real le sobre o câmbio, de acordo com a
juros da economia. Quanto mais al- está valorizado frente ao Dólar é o política cambial adotada.
tos os juros, menor o investimento. mesmo que dizer que são necessá-
E quem controla a taxa de juros da rios poucos reais para comprar um O mesmo se aplica aos serviços
economia? O governo, por meio da dólar (Ex.: R$ 0,80/US$). Quando que também compõem o saldo em
política monetária. Você provavel- o Real está desvalorizado frente ao contas correntes.
mente já leu ou ouviu (rádio ou tele- Dólar é o mesmo que dizer que são
242 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
Definidas as variáveis e como governo de duas formas. A primei- Anotações
são influenciadas, fica mais fácil ra é a quantidade de moeda emitida
compreender o papel das políticas pelo governo (Casa da Moeda). A se-
econômicas. gunda é que o governo pode reduzir
ou aumentar diretamente esta quan-
POLÍTICA MONETÁRIA tidade de moeda já emitida que efeti-
vamente circula na economia. Isto é
A política monetária é operada feito por meio do mercado de títulos.
por meio do controle da oferta de Para reduzir a oferta de moeda, o go-
moeda nacional na economia, que verno oferece títulos ao mercado por
cabe exclusivamente ao governo. uma determinada taxa de juros. Em
Moeda também tem preço: é o juro. termos práticos, pense em uma nota
E este preço será definido pela oferta promissória. É um papel que repre-
e demanda de moeda. Por oferta de senta um valor de dívida a ser paga
moeda entende-se: a) a quantidade numa data futura e pela qual, é pago
de moeda (cédulas e moedas) circu- à vista um valor menor do que o va-
lando na economia do país e b) os lor à vista. Exemplo: um pecuarista
empréstimos, pois o governo deter- vende uma carga de boi gordo para o
mina quanto os bancos podem em- frigorífico por R$ 28.284,30 à prazo,
prestar, por meio do depósito com- para recebimento em 35 dias. O fri-
pulsório. gorífico emite uma nota promissória
rural (NPR) para o produtor no valor
A quantidade de moeda circulan- de R$ 28.284,30 a ser resgatada em
do na economia é controlada pelo 35 dias. O produtor vai a um ban-
Capítulo VIII • Globalização e políticas econômicas 243
co e desconta a NPR para receber Substituindo os valores na fór- tre o valor do título no vencimento e
à vista. O agente financeiro paga, à mula: no pagamento à vista é o juro, pago
vista, R$ 27.555,00 ao produtor, fica pelo governo ao comprador do títu-
com a NPR e, em 35 dias receberá 28.284,30 = 27,555,00 (1+i)35 lo. Perceba que quando o governo
R$ 28.284,30 do frigorífico. Qual o vende o título, entrega um papel ao
juro cobrado pela instituição finan- Resolvendo: comprador e recebe, em troca, mo-
ceira (ou o juro da NPR?). O cálculo eda. Assim o governo tira moeda
28.284,30
é o mesmo do valor presente que o (1+i)35 = de circulação (o dinheiro vai para
27.555,00
participante fará em seu projeto: o Banco Central e não retorna para
(1+i) = 1,026467(1/35)
a economia). Desta forma o gover-
VF = VP*(1+i)n (1+i) = 1,0007466
no reduz a oferta monetária. Se, ao
i = 1,0007466 – 1 invés de vender títulos, o governo
VF = valor futuro, ou seja, o valor
da nota promissória no vencimento i = 0,0007466 *100 = 0,07466% ao comprá-los do mercado, o efeito é
(R$ 28.284,30). dia ou 2,2644% ao mês ou 30,83% inverso, de aumento da oferta mo-
ao ano netária, porque o governo fica com
VP = valor presente, ou seja,
quanto o agente financeiro pagou, à papéis e dá moeda ao mercado.
vista, pela NPR (R$ 27.555,00). Da mesma maneira se estabele-
i = taxa de juros cobrada pelo cem os juros que o governo se dis- Como o preço da moeda é o juro
agente financeiro para pagar, à vista, põe a pagar pelos títulos. Usando o e preço é determinado por oferta
um montante com vencimento em exemplo: o vendedor do título é o e demanda, quando o governo tira
35 dias (que é a incógnita da equa- governo (como o frigorífico), o com- moeda da economia o seu preço
ção). prador é o agente financeiro (bancos sobe (juros maiores) e cai (juros me-
n = número de dias de prazo de compram ou intermediam compras nores) quando o governo aumenta
pagamento pelo frigorífico (35 dias). para pessoas físicas). A diferença en- a oferta de moeda. Este é o meca-
244 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
nismo normal da política monetária, vilégio de autoridade monetária para Anotações
mas diversos governos no Brasil e emitir moeda. Era tão simples como
em outros países do mundo usaram isto: ao final do mês (como faz qual-
ou usam uma forma nefasta de polí- quer pessoa) o governo fazia o ba-
tica monetária que é a emissão sem lanço de quanto arrecadou e quanto
controle de moeda. O resultado des- gastou. Se o gasto foi maior (e era
ta escolha é gerar inflação, como ve- sistematicamente maior) do que a
remos na análise de política fiscal. receita, o governo imprimia dinheiro
para cobrir a diferença. É como se
Os juros da economia afetam os você pudesse, a cada mês fabricar,
investimentos e o consumo das fa- em casa, as cédulas que faltam para
mílias. A política monetária é, por- pagar suas contas. Este procedimen-
tanto, um instrumento importante to era a causa principal da inflação.
para conter a inflação. No entanto, o Se o volume de moeda circulando
Brasil manteve juros altos também a aumenta mais do que o valor da pro-
partir de 1994 com o fim do proces- dução real de bens e serviços, a úni-
so inflacionário que castigou o país ca maneira de absorver este dinheiro
por décadas. Isto foi necessário por- a mais é aumentando preços. Com
que o governo brasileiro acumulava o fim da inflação esta alternativa do
uma enorme dívida tanto com seus governo acabou e a dívida real apa-
residentes (dívida interna) quanto receu. Sem poder fabricar dinheiro, o
com estrangeiros (dívida externa). O governo teve que fazer a mesma coi-
tamanho desta dívida ficava oculta sa que precisam fazer os endivida-
porque o governo usava de seu pri- dos: emprestar dinheiro de alguém.
Capítulo VIII • Globalização e políticas econômicas 245
Este alguém são os brasileiros e os retos são aqueles que incidem sobre e, portanto, o consumo das famílias
estrangeiros. Pense em um amigo a renda (como o imposto de renda) e o PIB. No entanto, o aumento de
que lhe pediu R$ 10,00 emprestados e a propriedade (como o ITR – Im- impostos no Brasil depende de apro-
para pagar no próximo mês. No mês posto Territorial Rural) enquanto os vação do legislativo – uma medida
seguinte, além de não devolver os indiretos são aqueles embutidos nos prudente, não deixando esta decisão
R$ 10 ele lhe pede mais 10. O risco preços dos bens e serviços transacio- apenas ao poder executivo.
de você não receber nem os 10 nem nados na economia (como o ICMS –
os 20 vai aumentando quanto mais Imposto sobre a Circulação de Mer- O governo pode aumentar seus
dinheiro ele lhe pede. Um endivida- cadorias e Serviços). No Brasil, em gastos para elevar o PIB. De prefe-
do representa um risco ao seu em- particular, os impostos indiretos são rência estes gastos devem ser de in-
prestador e, para conseguir mais em- muito superiores aos diretos o que é vestimento e não gastos correntes.
préstimos ele precisa oferecer juros considerado por muitos como uma Gastar mais significa que o governo
maiores. Assim, juros altos tanto po- grande distorção, pois ao comprar vai comprar bens e serviços da eco-
dem ser necessários para evitar infla- um quilo de arroz uma pessoa com nomia, cuja produção vai aumentar
ção como, às vezes, são necessários renda mensal de 30 mil reais paga elevando emprego e renda. Quando
se a dívida pública é muito alta. o mesmo imposto no produto que a receita do governo supera os gas-
uma pessoa cuja renda é de um salá- tos, ele tem superávit orçamentário
POLÍTICA FISCAL rio mínimo. Impostos diretos sobre a e quando o gasto supera a receita
renda dos indivíduos são considera- gera-se um déficit que deverá ser
Como mencionado, a política dos mais justos do que os indiretos. financiado ou emitindo moeda ou
fiscal envolve os gastos e receitas O governo, ao aumentar a carga tri- vendendo títulos públicos, por meio
do governo. A principal fonte de re- butária (uma possibilidade de políti- da política monetária.
ceita são os impostos, divididos em ca fiscal), reduz a renda disponível
diretos e indiretos. Os impostos di-
246 Programa Empreendedor Rural • Volume 1
POLÍTICA CAMBIAL exportadores que têm dólares prove- Anotações
nientes de suas exportações e preci-
A política cambial é a adminis- sam trocá-los por reais para utilizar
tração da taxa de câmbio e o con- em seu próprio país. São também os
trole das operações cambiais e está investidores estrangeiros que pos-
indiretamente ligada à política mo- suem dólares e querem trocar por
netária. Taxa de câmbio é o valor reais para aplicar no Brasil (merca-
de uma moeda em relação à outra. do financeiro ou investimento). Os
É um preço relativo, fruto da oferta agentes que ofertam reais são, por
e demanda de uma moeda e outra. exemplo, os importadores brasileiros
Existem taxas de câmbio entre todas que precisam de dólares para realizar
as moedas do mundo, direta ou indi- suas compras externas, além dos in-
retamente. A taxa de câmbio do Real vestidores que querem trocar seus re-
frente ao dólar é determinada pela ais investidos no país (sejam eles na-
oferta e a demanda de dólares para cionais ou estrangeiros) por dólares
serem trocados por reais. Ou então para investir em outros mercados.
(o que é o mesmo) a demanda e a
oferta por reais para serem trocados A determinação da taxa de câm-
por dólares. Destas forças de oferta e bio pode ocorrer por interferência
demanda, se define o preço relativo direta das autoridades econômicas
entre estas duas moedas. ou não. No primeiro caso, elas tan-
to podem ter um poder absoluto ao
Os agentes econômicos que de- fixar a taxa de câmbio, sem qualquer
mandam reais são, por exemplo, os consulta ao mercado, ou podem ter
Capítulo VIII • Globalização e políticas econômicas 247
uma interferência relativa, ao permi- de 1999 o regime passou a ser de
tir a flutuação da taxa, mas dentro de câmbio livre (flexível). Anotações
certos limites determinados por essas
autoridades. Já no terceiro caso, sem A taxa de câmbio afeta os preços de
qualquer interferência, o câmbio flu- toda a economia, não apenas dos pro-
tua livremente. Há basicamente três dutos e serviços transacionados com o
regimes cambiais: o de taxas fixas exterior. Note que, além do fluxo de
(previamente determinada pelas au- comércio de bens e serviços (balança
toridades monetárias, havendo, in- comercial), há também o fluxo finan-
clusive, possibilidades de pequenos ceiro. É esta a relação entre política
ajustes); o de taxas flexíveis (formadas cambial e montaria. Ao querer investir
em mercados totalmente livres com no Brasil o estrangeiro oferta dólares e
taxas flutuantes); e o de taxas admi- demanda reais – se o fluxo do capital é
nistradas (ou seja, com a adoção de para dentro do país, o Real se valoriza,
bandas de flutuação cambial). a taxa de câmbio diminui, o governo
dá moeda em reais ao investidor que
O governo brasileiro adotou os é o mesmo que aumentar o volume
três regimes cambiais ao longo da de moeda na economia. Em algumas
história. A política de câmbio fixo situações, para impedir uma expansão
vigorou até 1994; quando adotou o maior na quantidade de moeda, o go-
regime de bandas, quando o Ban- verno aumenta os juros para enxugar
co Central fixava o limite superior e este excesso. Se o fluxo é de saída, o
inferior (que são as bandas), dentro Real tende a desvalorizar porque au-
das quais a taxa de câmbio podia (li- menta a oferta de reais e a demanda
vremente) flutuar. A partir de janeiro por dólares.
Capítulo VIII • Globalização e políticas econômicas 248