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O Recomeço de Rodrigo e Miguel

O capítulo narra a luta de Rodrigo para se readaptar à vida após um grave acidente de carro que quase lhe custou a vida. Ele enfrenta desafios com seu filho Miguel, que se envolveu em uma briga na escola ao defender um amigo do bullying, e também lida com questões relacionadas à sua empresa e à figura enigmática de Carlos. A narrativa culmina em um pesadelo angustiante de Rodrigo, onde ele teme pela segurança de Miguel em meio a um cenário infernal.

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O Recomeço de Rodrigo e Miguel

O capítulo narra a luta de Rodrigo para se readaptar à vida após um grave acidente de carro que quase lhe custou a vida. Ele enfrenta desafios com seu filho Miguel, que se envolveu em uma briga na escola ao defender um amigo do bullying, e também lida com questões relacionadas à sua empresa e à figura enigmática de Carlos. A narrativa culmina em um pesadelo angustiante de Rodrigo, onde ele teme pela segurança de Miguel em meio a um cenário infernal.

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CAPÍTULO-2

A brisa do entardecer

Algum tempo após de tudo isso acontecer, eu me vi um tanto perdido em como


recomeçar a minha rotina. Era a minha primeira vez fora daquele hospital
depois do acidente que quase retirou minha vida naquele carro... E falando
nele, eu acho que posso explicá-lo melhor:

"Era 16 de junho, eu não me lembro ao certo onde eu estava ou o por quê de


estar alí, mas eu me lembro que eu estava apressado para sair de lá. Estava
chovendo intensamente, mal dava pra ver a estrada à minha frente.

Foi quando eu vi que a estrada estava bloqueada por uma árvore gigante e
quando eu tentei frear o carro... Simplesmente o freio não me obedeceu. Na
mesma hora que eu percebi isso, tentei jogar o carro pro lado para desviar da
árvore, mas ao invés de um impacto brutal, eu rolei ladeira abaixo por
aproximadamente 100 metros. Não me lembro de mais nada a partir daí, na
verdade, eu não me lembro sequer como eu saí vivo dessa situação."

Quem mais ficou abalado com tudo isso foi o Miguel, meu filho, pois ele não
ficou com mais ninguém a não ser o Carlos de responsável, porque por incrível
que pareça nós não temos mais nem um sequer familiar.

"Enquanto a mãe do Miguel?? Cadê ela??"

Ela... Ela sumiu por livre e espontânea vontade, sem deixar nenhum vestígio
para trás. O que sobrou foi somente eu e meu filho contra o mundo, sei que ele
estará comigo e eu jamais o abandonarei também.

Miguel está muito estressado por causa do ensino médio e meio que esse
acidente nos afastou um pouco, eu sinto saudade dele mesmo quando
estamos juntos. Eu sinto que devo dizer alguma coisa, mas eu sei que
nenhuma palavra vai adiantar, por isso que eu o trato com todo o carinho e
dedicação que um pai pode ter por um filho.

-triiim, triiim-

O meu Telefone começou a tocar, por impulso eu puxo ele do bolso para
verificar se é algum dos rapazes da coleta dos recursos.
-Alô??-

Digo com entonação de curiosidade.

-Olá, bom dia, o senhor é o Rodrigo Alencar? Aqui é a direção da escola e


pedimos encarecidamente que o senhor se faça presente aqui-.

Eu perguntei sobre o que se tratava e a mulher que me atendeu somente me


disse que ele havia se envolvido em confusão... Mais uma vez.

-Estou à caminho, bom dia-

Depois de pegar o meu carro e chegar na escola, eu abro a porta da direção e


encontro o menino Miguel sentado na frente da diretora e da sua professora
que testemunhou tudo.

Miguel me olha de baixo pra cima pelo canto do olho, eu apenas o encaro, dou
um suspiro e falo bom dia para as duas.

A diretora pediu perdão por me chamar na escola naquele horário incomum e


pediu para a professora explicar o que havia acontecido para que minha
presença fosse requerida.

-Bom dia Senhor Ricardo, o Miguel se envolveu numa briga com o pessoal da
sala ao lado e espancou três garotos que estavam por alí-

Eu fiquei inconformado com a constatação e pedi para que ele explicasse a


razão de ele ter feito tudo aquilo.

-...-

-Miguel, me conta o que aconteceu-

-... eles tavam fazendo bullying com um amigo meu. Eles estavam chamando
ele de coisas horríveis só por quê ele tem surdês de um lado do ouvido e tem
vitiligo no rosto e no braço.-

Nesse momento, a professora colocou junto de Miguel umas quinze bolas de


papel e pediu para a diretora desembolotar cada uma delas para lermos.

Foram tantas atrocidades que saíram daquelas folhas que não posso nem ao
menos descrevê-las aqui.

A diretora disse que o ato de Miguel foi nobre, porém seus métodos deveriam
mudar caso houvesse uma próxima vez.

-Vou chamar os responsáveis dos outros alunos, mas que isso não se repita,
ouviu Miguel?-
Miguel balançou a cabeça que sim e então saímos da sala em direção à saída
da escola, porém fomos interrompidos pela professora de Miguel que me
chamou para uma conversa em particular.

Pedi para Miguel me esperar em uma cadeira que estava perto dalí, ele,
obediente, se sentou e disse que me aguardaria.

A professora de Miguel veio conversar comigo sobre a situação do Miguel.

-Ricardo, o Miguel é um menino de ouro com um coração igualmente valioso,


ele se adaptou bem à nossa escola e já fez vários amigos por aqui. Mas ele
guarda algum rancor dentro dele que ocasiona nessas explosões de raiva
intensa e descontrolada que fazem ele fazer o que ele fez hoje, apesar de ser
um ato de intenções boas, não foi um ato bom.-

Eu tentei explicar para ela tudo o que havia acontecido, ela entendeu, mas
mesmo assim me aconselhou a ficar de olho nele para previnir outro ataque
assim.

-Olha Ricardo, amanhã vamos ter uma reunião com os pais e responsáveis e
você não pode perder. Inclusive, os alunos serão liberados amanhã, então
pode dar ao menino Miguel um dia de folga (risos)-.

Eu sorri e disse que viria amanhã no horário marcado e que ela poderia ficar
despreocupada com as questões do comportamento dele, me despedi e fui até
o Miguel para irmos pra casa.
-... Deitou três só de uma vez... Parabéns, continue a defender aqueles que
precisam mas não faz desse jeito denovo não, ok?-

Miguel deu uma risada meio desconfortável e concordou com o nosso acordo.

Entrando no carro, ele estava meio abatido e cabiz-baixo, mas parecia que
queria me pedir alguma coisa. Eu que conheço minha cria melhor que ninguém
e querendo ou não eu estava orgulhoso do ato que ele fez em defender quem
precisava, então eu dei aquele 'jeitinho de pai'.

-Filho, a professora disse que vai ter reunião com os pais amanhã e vocês vão
ser liberados-

Miguel, olhando pela janela disse:

-Eu sei pai, eu ia lhe falar, mas o senhor já tá sabendo...-

Eu continuei:
-É... Puxa vida, o que você quer fazer amanhã? Tipo, você poderia fazer
alguma coisa legal né?-

Miguel olha pra mim rindo e disse:

-Olha... O meu amigo que eu defendi hoje tava pensando em fazer um almoço
pra galera amanhã lá no sítio dos pais dele-

Eu fiquei satisfeito com a resposta, um pai nunca erra.

-Puxa filhote, que legal!! Mas onde que é o sítio deles??-

Miguel ficou no modo animado dele e começou a passar todos os tipos de


informações possíveis pra mim.

-É lá na Fazenda Bom Jardim!! Eles fizeram uma reforma na parte da casa que
deixou tudo mais areijado com um clima agradável e bacana de se estar. Tem
um rio limpo atrás da casa deles, tem um pneu pra pular na água...-
A conversa durou bastante, até chegarmos em casa, onde quando estávamos
saindo do carro ele me disse algo interessante.

-Ah, pai, ele também me disse que o pai dele trabalha pra nossa empresa... Ele
não disse com o que, mas disse que trabalhava aqui-

Eu falei que achei legal, mas eu confesso que fiquei intrigado : Ninguém da
Fazenda Bom Jardim trabalha aqui... Estranho, muito estranho.

Chegando na casa me deparo com o Carlos mexendo em um laptop em cima


da mesa. Quando ele me vê, ele exclama sorridente :

-Patrão! Bem vindo de volta-

Eu sorrio e digo que é bom vê-lo alí.

-O grande escalão está vindo pra cá, com caminhões e mão de obra o
suficiente para derrubar uma boa parte de árvores e coletar o máximo de
recursos requeridos, só temos que esperar mais dois dias para que seja
consumado.

Mais uma coisa, eu observei os papéis melhor e notei que o senhor deixou de
me falar que o terreno era logo aqui atrás da sua residência.-

Miguel ficou confuso e indagou sobre o que o Carlos acabara de falar.

-Papéis? Grande escalão? O que isso tudo significa, pai?? Não vai me dizer
que tá pegando mais que o necessário das florestas.-

Logo que ele disse isso eu respondi que não era nada e o mandei ir para seu
quarto passar algum tempo esfriando a cabeça.
Carlos me indagou o por quê de eu ainda não ter o informado sobre a nossa
quase falência, eu o respondi que não queria o preocupar com isso, pois ele já
tem muitas coisas na cabeça pra por mais uma assim e que também não tinha
necessidade pois nós já tinhamos encontrados a válvula de escape para isso.
Carlos balançou a cabeça e disse que entendia a minha preocupação e me deu
um conselho :

-Sabe, você tem o jeito do seu pai. Sempre se importando com tudo e todos,
ajudando quem precisa e sempre sendo mais recluso para ninguém se
preocupar com você. Admiro isso em você, admiro demais-

Eu fiquei sem jeito e agradeci, apesar de ser repentino, o Carlos é um ótimo


bajulador quando quer.

-Carlos, eu não curto muito essa ideia de esconder algo do meu filho, mas ele
não entenderia que essa coleta mais avantajada de materiais é para o bem da
empresa, que vai ajudar muita gente ainda a ter uma chance para fazer muitas
pessoas mudarem de vida algum dia.-

Carlos sorri, dá uma inspirada apoiando os braços na mesa, tira seus óculos e
me olha no fundo dos meus olhos dizendo:

-Olha senhor Ricardo, as pessoas as vezes vão lhe apontar o dedo dizendo
que o que fazem é errado, mas nunca se dão a duvida de se o que dizem é
realmente o correto. Seu pai é a prova disso, ele alavancou tantas coisas
nessa empresa ao meu lado e eu sou grato de dizer que aprendi cada coisa
que ele tinha a ensinar, inclusive seus bordões hehe. Ele dizia : "a empresa é
como uma fogueira, se tiver bastante lenha pra jogar nela a chama nunca vai
apagar, então deixa queimar!"-

Eu ri e disse que me lembrava de quando ele disse isso num jantar em família
enquanto todos brindavam em comemoração ao natal.

Eu então indaguei ao Carlos:

-Carlos, se você e meu pai trabalharam juntos e tem uma boa parte do seu
trabalho aqui na veia da empresa bombeando pra todos os lados, por que que
você não está na liderança ao invés de mim?-

Carlos fica um momento em silêncio e me diz

-Então, ao mesmo tempo que eu cresci junto de seu pai e fui considerado filho
dessa casa também, eu não sou parte de sua linhagem e eu não queria
impactar nessa sagrada tradição. Seu pai antes de morrer quis me passar o
poder da empresa, mas eu disse que isso seria um trabalho seu e então ele
ficou mais aliviado em saber que isso não importava pra mim.

Eu sei que de onde ele estiver, ele está feliz em ver que você está mandando
bem, apesar dos altos e baixos.

Enquanto a mim, prefiro ficar do jeito que estou, minha aposentadoria já já está
chegando e eu quero estar nos trinques para ela hehe-

Eu ri junto dele e disse que meu pai nunca tinha me explicado da relação deles
dois, ele ficou meio tenso e expressou uma certa repulsa ao assunto, então eu
decidi deixar como estava e o permitir fazer suas obrigações na empresa.

Algum tempo depois...

Passei toda a tarde cuidando de obrigações da empresa e ajudando meu filho


a se arrumar para ir na casa de seu colega na manhã seguinte.

Eu estava bem cansado e já era noite, então jantamos todos juntos e nos
preparamos para ir aos nossos quartos dormir. Senti bastante sede e decidi
descer para a cozinha a fim de tomar um copo de água.

Miguel já estava dormindo e tudo estava silencioso na casa, eu desci fazendo o


mínimo de barulho possível e quando cheguei na cozinha me deparei com uma
cena incomum : Carlos estava perambulando enquanto falava com alguém no
telefone, cochichando e acertando algo. Ele começou a falar mais alto num
certo momento

-O senhor Ricardo quer tratores e não machados... Não não não, vocês tem
que me garantir que vão fazer o mínimo de sujeira possível... Essa mata é
sagrada, ouviu?-

então eu o indaguei.

- Carlos? O que faz por aqui essas horas da noite?-


Ele se vira pra mim e dispensa a chamada.
-Senhor Ricardo, não se assuste. Eu vim pegar uma pasta que eu deixei por
aqui e o pessoal das máquinas me ligaram, então eu resolvi logo tudo por aqui.
Perdão ao incomodo, eu lhe acordei?-

Eu abro a geladeira para pegar a garrafa e lhe digo

-De forma alguma, eu vim pegar um gole de água, só fiquei assustado em você
não ter ido ainda para a sua casa.-

Carlos diz que era isso o que ele ia fazer agora e continua a se desculpar para
mim, mesmo eu já tendo dito que estava tudo bem. Ele pega a pasta em cima
da mesa e sai meio apressado em direção ao seu carro, deixando cair um
pequeno papelzinho.
Antes que eu pudesse avisá-lo para voltar e pegar o papel, ele alavanca o
carro e vai embora no mesmo momento, então eu peguei o papelzinho do chão
e dei uma melhor olhada nele.

-Um comprovante de compras... 10 Galões de água com 20L cada, 5


desinfetantes, 5 alvejantes e 10 garrafas de álcool.-

Fiquei espantado com tudo aquilo, isso tudo era só pra ele ou ia ser distribuído
pra alguém?

De qualquer forma, eu guardei o papel no meu bolso para que eu pudesse


perguntá-lo sutilmente no outro dia.

Voltei para meu quarto, encostei a cabeça no travesseiro e dormi.

Sinto meu corpo se despedaçando aos poucos, como se eu estivesse caindo


em queda livre por um bom tempo... Até que eu atinjo o chão.

Eu caí de algum lugar e quando abro os olhos eu estou naquela mesma


floresta de sempre, mas tinha alguma coisa errada, algo estava acontecendo
naquele momento e isso era comprovado pelo céu vermelho em que se
encontrava tudo.

O sol não conseguia irradiar sua luz em meio aquele banho carmesim do céu,
parecia que as nuvens e estrelas estavam sangrando e derramando sua ira
sobre tudo. Eu abaixei minha cabeça e olhei ao redor e tudo o que eu vi foram
chamas, incessantes e violentas chamas.

-E-eu tô no inferno? Não pode ser...-

Uma voz ecoa por todo o local


-Você não está... Ainda, mas o inferno vai chegar por meio de você-

Eu fiquei desesperado e gritei por ajuda, comecei a tremer de medo e não


sentir as minhas pernas. Foi quando eu ouvi a voz de Miguel vindo em meio ao
fogo

-Pai!! Pai!! Socorro!!-

Eu começo a correr e atravessar as chamas, sentindo cada vez mais minha


pele queimar e borbulhar à cada paredão de fogo que eu atravessava.
Consegui enfim ver o Miguel, que estava cercado pelo fogo também.

Tentei correr para salvá-lo e comecei a gritar o seu nome, mas eu não
conseguia sair do lugar, algo estava me puxando para trás e fez com que eu
caísse no chão me arrastando para tentar chegar no meu filho. Ele começou a
gritar cada vez mais por mim

-Paaaai!! Paaaaaaai!!! Paaaaaaai!!!!-

E de repente...

-Pai, acorda... O senhor tá suando muito!!-

Eu me sentei da cama e segurei Miguel com todas as minhas forças, o que fez
com que ele se assustasse e perguntasse se eu estava bem. Eu balancei a
cabeça que sim enquanto meus olhos corriam por toda o quarto onde eu
estava e eu o abracei fortemente.

Ele ficou assustado e perguntou para mim se eu estava bem, eu apenas


respondi que sim e que eu iria tomar um banho para me acalmar e poder
começar o dia.

Após ter tomado o banho e bebido o meu café, Carlos chega em casa e me
comprimenta com um grande sorriso no rosto, ele me deseja bom dia e ia me
dizer mais alguma coisa, mas quando ele percebe o Miguel, fecha a boca antes
de completar a frase ou sequer começar ela.

-Tá tudo bem Carlos?-

Miguel o questiona
-Ah, tudo bem sim patrãozinho! E com o senhor?-
Miguel responde que está bem e que iria para a casa do colega hoje. Carlos diz
que está feliz por Miguel passar um tempo socializando longe de telas por um
dia e que a fazenda Bom Jardim era um ótimo lugar para se ficar e aproveitar a
vida. Miguel sorri e diz que vai aproveitar muito o dia de hoje, ele dá um tchau
pro Carlos e entra no carro com a sua mochila e tudo o que precisava.

Carlos vem até mim e diz:


-Oi Patrão, eu posso levar o menino para a casa do colega se o senhor me
permitir, aí o senhor poderia aproveitar e ir na tal reunião da escola-

Eu então digo para ele se despreocupar pois eu sabia onde era o local e que
ainda demorava para a reunião começar.

Dou uns tapinhas na costa do Carlos e agradeço pela preocupação dele, mas
eu também precisava conhecer os pais do amigo dele.

Carlos deu um suspiro e disse com um sorriso :

-Ah, claro claro Senhor, fique à vontade para fazer o que bem entender-.

Eu apertei a mão do Carlos e me dirigi até o carro onde o Miguel estava me


esperando.

Na estrada, estávamos tendo uma conversa normal e de repente o Miguel me


faz uma pergunta curiosa :

-Pai... O senhor disse pro Carlos onde era o local?-

Eu então respondi :

-Não filho, por quê?-

Ele apenas me balançou a cabeça e disse :

-Nada não, só curiosidade mesmo...-.

Eu desconfiei ele ter ficado tão recluso assim, talvez estivesse ligado ao fato do
Carlos saber onde era o local... Mas ele não tinha como saber, talvez ele só
ouviu eu e o Miguel conversando pela casa sobre isso e ficou quieto... Mas
mesmo assim, isso é muito estranho.

Quando me deparei, estávamos vendo a placa da fazenda à alguns metros de


distância.
-Olha filho, já estamos chegando-

Miguel ficou alegre e avistou o seu amigo esperando ele no portão do terreno.

Logo quando o carro encostou, os dois fizeram um "toca-aqui" e foram


entrando enquanto conversavam. O amigo dele olha pra trás e diz pra mim :

-Oi tio, pode vir entrando que a gente tem café-

Eu sorri e aceitei o convite, fui andando logo atrás deles e perguntei para o
menino quem eram seus pais, mas antes que ele pudesse responder...

-Ooláaaa, bom dia haha, você deve ser o Senhor Ricardo, não é?-

Uma mulher estava abraçada à um homem bem na entrada da casa, eu aceno


e digo que sou sim, também pergunto a eles quem eles eram.

Eles me responderam que eram pais do garoto e que estavam felizes em


recebe-lo em sua casa.

-Ah mas que falta de modos a minha, meu nome é Vera Martins e esse aqui é o
meu marido, Gustavo Martins-.

Eles apertam minha mão e o Gustavo me comprimenta com um sorriso meio


frouxo dizendo "bom dia", eu apenas aperto e digo bom dia também.

Eles me convidam para entrar na casa e conhece-los melhor, eu agradeço e


digo que adoraria ficar, mas eu estava meio apressado para a reunião que ia
ter no colégio do Miguel e que eu já estava praticamente de saída. Vera então
me diz que vai também, mas vai deixar o marido em casa supervisionando os
dois, ela me questiona se a minha esposa está doente para que ela não me
acompanhe lá, eu apenas digo para ela que eu não tenho esposa e que sou
divorciado, ela me pede perdão pois não sabia de nada e diz que podiamos ir
acompanhados até lá.

-Oh senhor Ricardo, não se preocupe com meios, eu tenho uma moto e posso
ir até lá sozinha-.
Eu ri e disse que tudo bem (até parece que eu ia te dar uma carona), então eu
me despedi do Miguel e disse para ele se comportar.

-Se tú chegar em casa com uma parte do corpo à menos, vai se ver comigo-

Miguel ri e diz que tá tudo bem e que eu podia confiar nele.

Eu abraço ele e digo para ele se cuidar, acenamos já longe um do outro e eu


estou indo agora à caminho da escola para essa tal reunião.

Depois de um chão corrido, cheguei na escola com sucesso e entrei pelos


portões até chegar na sala onde estava acontecendo a reunião.
A sala estava lotada e pelo visto a diretora já estava falando quando eu
cheguei, dei bom dia e pedi perdão à todos, quando procurei um lugar pra
sentar só tinha um livre do lado da professora do Miguel.

Fui até lá e me sentei do seu lado, ela se inclinou e disse pra mim :

-Tá atrasado...-

Eu me enclinei pra ela e disse :

-... Eu sei...-

Ela cochichou no meu ouvido que queria falar comigo depois que a reunião
acabasse sobre uns assuntos importantes, eu digo que aceitava o momento da
conversa à sós, ela me deu um cutucão na costela e eu fingi naturalidade.

Uma longa reunião depois...

Depois que tudo passou e a diretora falou sobre o que ela queria falar e os pais
começaram a ir embora, a professora do Miguel veio até mim e me disse para
irmos a um lugar mais reservado para conversarmos.

Eu pensei comigo mesmo:

-Ih rapaz, será que ela ta afim de mim? Eu nem passei um perfume hoje-.

As minhas mãos estavam tremulas e eu tava com o coração disparando, eu


tava andando com ela até a sala da coordenação que tava vazia, a cada passo
que eu dava eu tinha um pensamento diferente e quando chegamos lá ela
fechou a porta e desceu as cortinas.

-Muito bem Senhor Ricardo o senhor se lembr-

Eu achei que fosse acontecer algo e peguei no seu braço puxando-a pra perto,
apenas pra ser surpreendido por uma bela porrada de choque.

-TÁ MALUCO RICARDO?? Cara, tu não se lembra de nada mesmo...-.

Confuso, pedi perdão por ter feito aquilo, ela me levantou e disse que tava tudo
bem e que era natural eu estar tão cunfuso depois daquele acidente.
-Me desculpa, mas o que você quer comigo? Já não falamos do Miguel?-.

Ela se vira pra mim e diz:


-Ricardo, se senta aí e deixa eu explicar-
(Eu simplesmente a obedeço)

-Olha, você não deve se lembrar, mas você estava me ajudando numa
investigação...-

Ela se senta na minha frente no lado oposto da mesa, colocando um distintivo


de policial na mesa enquanto completa a frase.

-Meu nome é Rebeca da Silva, sou investigadora criminal da 3ª divisão do


batalhão de choque, e a sua empresa está sendo investigada por
desmatamento e destruição do território nacional.-

Eu arregalei os olhos e tentei entender a situação que estava acontecendo, eu


então a perguntei se eu seria preso e ela começou a rir.

-Não Ricardo, você na verdade iria, mas eu descobri que isso não tem nada a
ver com você.-

Eu me inclinei na cadeira e disse:

-Como assim?? Eu sou o dono da empresa, não é querendo ser preso nem
nada mas esse assunto tem tudo a ver comigo!-

Ela balançou a cabeça e disse que eu tinha razão, mas que antes do meu
apagão eu já tinha provado a minha inocência de maneira privada e sem alarte.

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