Estudo Florístico em Áreas Úmidas MG
Estudo Florístico em Áreas Úmidas MG
2010
ABSTRACT – (Floristic study of vascular plants associated with wetlands in the Espinhaço Range, Minas Gerais State, Brazil).
The Espinhaço Range in the Minas Gerais State comprises a group of mountains that ranges between the limits of 20°21’56” S
and 43°26’02” W (Mariana) and 14°58’54” S and 42°30’10” W (Minas Gerais/Bahia state line). We conducted a floristic survey
of vascular plant species associated with wetlands in ten areas, using a 5 × 50 m transect in each area. Fifty three families,
126 genera and 224 species were represented. Families with highest species richness were: Cyperaceae (17.86%), Poaceae
(10.27%), Asteraceae (7.14%) Eriocaulaceae (4.91%), and Melastomataceae (4.91%). Cluster analysis showed higher similarity
between environments of rivers and lakes geographically closer, but the Mantel test for all areas was not significant (P = 0.17).
The large number of unique species influenced the high value of the estimator “Jacknife” (341.9). The São Francisco River
basin was the richest in species number (116). Environments sampled showed different plant communities, which reflect their
floristic peculiarities.
Key words - aquatic macrophytes, floristic, wetlands
RESUMO – (Estudo florístico de plantas vasculares associadas às áreas úmidas na Cadeia do Espinhaço, MG). A Cadeia do
Espinhaço no Estado de Minas Gerais compreende um grupo de serras entre os limites 20°21’56” S e 43°26’02” W (Mariana)
e 14°58’54” S e 42°30’10” W (Divisa Minas Gerais/Bahia). Foi realizado um levantamento florístico das espécies vasculares
associadas a áreas úmidas em dez áreas, utilizando-se um transecto de 5 × 50 m, em cada área. Foram representadas 53 famílias,
126 gêneros e 224 espécies. As famílias com maior riqueza específica foram Cyperaceae (17,86%), Poaceae (10,27%), Asteraceae
(7,14%), Eriocaulaceae (4,91%) e Melastomataceae (4,91%). A análise de agrupamento apresentou maior similaridade entre
ambientes de rios e lagoas geograficamente mais próximas, porém o resultado do teste de Mantel para o conjunto das áreas não
foi significativo (P = 0,17). O grande número de espécies únicas influenciou o valor elevado do estimador “Jacknife” (341,9). A
insuficiência amostral indicada relaciona-se, principalmente, à grande abrangência geográfica e a heterogeneidade dos ambientes
amostrados. A Bacia do Rio São Francisco apresentou a maior riqueza em número de espécies (116). Nos ambientes amostrados
na Cadeia do Espinhaço, foram verificadas comunidades vegetais que refletem diferentes peculiaridades florísticas.
Palavras-chave - áreas úmidas, florística, macrófitas aquáticas
1998). Neste documento foi estabelecida a Cadeia corresponde de 7 a 8 meses e o período seco de 3 a 4 meses,
do Espinhaço como uma região prioritária para o que coincide com o inverno.
desenvolvimento de estudos voltados à conservação da Em termos fitogeográficos a região da Cadeia do
biodiversidade em Minas Gerais. Espinhaço localiza-se entre os Domínios da Mata Atlântica e
do Cerrado (Rizzini 1997). O tipo vegetacional predominante
A região da Cadeia do Espinhaço, cenário
na região é o campo rupestre. Essa vegetação é um tipo
histórico de inúmeros estudos botânicos, é destacada fitofisionômico predominantemente herbáceo-arbustivo, com
por sua riqueza florística e pela ocorrência de muitas a presença eventual de arvoretas pouco desenvolvidas até dois
espécies endêmicas. Entretanto, ainda são incipientes metros de altura, ocorrendo geralmente em solos litólicos ou
os levantamentos florísticos em ambientes úmidos nas frestas dos afloramentos (Ribeiro & Walter 1998).
desta Cadeia. Além disso, a crescente destruição de As áreas amostrais foram inicialmente pré estabelecidas
seus habitats, a introdução de espécies exóticas pelo tomando-se por referência as Cartas do Brasil (IBGE 1977)
aquarismo, piscicultura, jardinagem e outras atividades nas escalas 1:50.000 e 1:100.000 da região da Cadeia do
antrópicas têm causado efeitos negativos grandes sobre Espinhaço, dentro dos limites do Estado de Minas Gerais.
a biodiversidade destes ambientes úmidos. As áreas de amostragem foram definidas considerando-se
critérios como: 1) ambientes bem conservados; 2) a ocorrência
Em face do exposto, o objetivo principal deste
de comunidades de plantas associadas a ambientes úmidos;
estudo foi o levantamento florístico das plantas 3) bacias hidrográficas distintas – a fim de se obter melhor
vasculares ocorrentes em áreas úmidas da região da distribuição da diversidade ao longo da Cadeia do Espinhaço.
Cadeia do Espinhaço nos limites do Estado de Minas Dessa forma, foram selecionadas dez áreas, sendo o limite
Gerais. A incorporação de tais estudos irá suprir sul localizado no Município de Mariana e o limite norte no
algumas das lacunas apontadas e subsidiar estratégias Município de Riacho dos Machados (figura 1, tabela 1). As
para conservação das áreas úmidas e da biodiversidade áreas foram assim denominadas: Lagoa Tanque da Fazenda
vegetal em Minas Gerais. – TANQ (1), Lagoa Nascentes do Taboão – NASC (2), Lagoa
Comprida – COMPR (3), Lagoa Terra de Arroz – TERR (4),
Lagoa Arame – ARAM (5), Rio Corrento – CORR (6), Rio
Material e métodos Taquaral – TAQU (7), Lagoa Americana – AMER (8), Rio
Preto – PRET (9), Lagoa Estivinha – ESTI (10).
A Cadeia do Espinhaço, em Minas Gerais, compreende A comunidade estudada foi denominada como o conjunto
um grupo de serras entre os limites 20°21’56” S-43°26’02” W de plantas vasculares, arbustivas e herbáceas, associadas a
(Mariana) e 14°58’54” S-42°30’10” W Gr. (Divisa Minas ambientes úmidos. Para o desenvolvimento deste estudo,
Gerais/Bahia). Essa unidade geomorfológica, localizada no optou-se em não adotar a terminologia macrófitas aquáticas
centro norte de Minas Gerais, possui um desenvolvimento para as espécies amostradas. Apesar da maioria se enquadrar
longitudinal, com seu limite sul no Quadrilátero Ferrífero e o nesta categoria, algumas espécies amostradas não puderem
limite norte ultrapassando a divisa do Estado e prolongando‑se ser claramente incluídas no conceito de macrófitas aquáticas,
pelo interior da Bahia (Cetec 1983). A Cadeia do Espinhaço umas por serem ocasionalmente aquáticas e outras por falta
constitui o grande divisor de águas entre as drenagens das de informações sobre a sua dependência da água. Não foram
bacias do Rio São Francisco, a oeste, e do Rio Doce, Rio consideradas neste estudo as espécies arbóreas das florestas
Jequitinhonha e outras menores a leste. ciliares, apesar de algumas vezes ocorrerem dentro da área
O relevo apresenta-se dividido em dois grandes amostral. O levantamento florístico foi realizado durante
conjuntos dentro de Minas Gerais. Um localizado ao sul dois anos, com sete campanhas de amostragem, abrangendo
da Cadeia e caracterizado por superfícies aplainadas e/ou períodos de seca nos meses de setembro/2001, agosto/2002,
onduladas intercaladas com cristas e picos. Outra porção maio e julho/2003 e períodos de chuva em dezembro/2001,
inicia-se na altura do Município de Diamantina e apresenta março e dezembro/2002. Em cada área selecionada foram
predominantemente trechos de cristas e picos e superfícies coletados todos os indivíduos ao longo de um transecto de
aplainadas e/ou onduladas (Joly 1970). Apesar de situar-se 50 × 5 m (Mueller-Dombois & Ellenberg 1974, Haslam
em latitudes tropicais, a Cadeia do Espinhaço apresenta clima 1978), orientado paralelamente em seu maior comprimento
do tipo tropical de altitude (Nimer 1977), caracterizado por à linha de margem, de maneira que 2,5 metros estendiam-se
invernos secos e verões brandos e chuvosos, com temperaturas às margens das áreas úmidas e 2,5 metros na lâmina de água.
médias abaixo de 22 °C. As médias anuais de precipitação O material botânico coletado foi herborizado conforme as
para a região da Cadeia do Espinhaço sofrem variações entre técnicas usuais de herbário e identificado taxonomicamente.
trechos. A precipitação média anual varia do Quadrilátero Após identificação, foi incorporado ao Herbário e Xiloteca da
Ferrífero até Diamantina entre 1.400 a 1.450 mm, no trecho Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais (HXBH).
de Diamantina até Grão Mogol varia entre 1.000 a 1.400 mm A lista florística das dez áreas de amostragem foi
e de Grão Mogol para o norte do Estado a precipitação organizada segundo APG II (2003), por ordem alfabética de
média anual varia entre 800 a 1.000 mm. O período úmido famílias, gêneros e espécies. A partir destes dados, construiu‑se
Revista Brasil. Bot., V.33, n.4, p.677-691, out.-dec. 2010 679
Serra do Espinhaço
Capital do Estado
Município
Drenagem
Rodovias
Limite interestadual
Áreas de amostragem
01. Lagoa Tanque da Fazenda
02. Lagoa Nascentes do Taboão
03. Lagoa Comprida
04. Lagoa Terra de Arroz
05. Lagoa Arame
06. Rio Corrento
07. Rio Taquaral
08. Lagoa Americana
09. Rio Preto
10. Lagoa Estivinha
Figura 1. Mapa de localização das áreas de amostragem das plantas vasculares associadas a áreas úmidas na Cadeia do Espinhaço
(Minas Gerais, Brasil).
Figure 1. Location map of the sampled areas of vascular plants associated with wetlands in the Espinhaço Range (Minas Gerais
State, Brazil).
uma matriz binária de presença e ausência para a estimativa onde, “Sobs” é o número total de espécies observado, “Q1” é o
da riqueza e a análise aglomerativa. Nessas análises, utilizou- número de espécies encontrado em apenas uma área (espécies
se o programa BioDiversity Professional. O dendrograma foi únicas) e “m” o número total de áreas.
construído utilizando-se o índice de similaridade de Jaccard Foram testadas a significância das diferenças de
e a média de grupo (UPGMA). similaridade florística e distância geográfica entre as áreas
Foi utilizado o estimador Jackknife de primeira ordem por meio do teste de Mantel, utilizando-se o programa FSTAT
(Heltshe & Forrester 1983), para estimar a riqueza de espécies (Goudet 2002), com 20.000 permutações ao acaso. A primeira
em toda a região, diversidade gama, segundo a equação: matriz foi elaborada com os dados de similaridade de Jaccard
e a segunda matriz foi composta pelas distâncias geográficas
Sjack1 = Sobs + Q1 (m – 1 / m) em quilômetros, em linha reta, entre as áreas de amostragem.
680 S. T. Meyer & E. V. Franceschinelli: Estudo florístico na Cadeia do Espinhaço (MG)
Lagoa marginal
Lagoa marginal
Lagoa marginal
Lagoa marginal
Lagoa marginal
medir as distâncias geográficas. Os índices de similaridade de
Jaccard entre as áreas foram calculados no programa BioDap
Ambiente
(Magurran 1988).
Açude
Açude
Rio
Rio
Rio
Foram consideradas espécies invasoras as plantas que
têm a capacidade de se proliferar e dispersar mantendo uma
Lagoa Tanque da Fazenda
Lagoa Americana
Lagoa Nascentes
Lagoa Comprida
Lagoa Estivinha
país (Espínola & Júlio Junior 2007). As espécies indicadas
Área (figura 1)
Lagoa Arame
Rio Corrento
Rio Taquaral
como invasoras, no presente estudo, foram as citadas por
do Taboão
Rio Preto
Leitão Filho et al. (1972; 1975), Bacchi et al. (1984), Brandão
et al. (1989) e Lorenzi (2000).
Resultados
Córrego Braço Seco
Tabela 1. Áreas de amostragem na Cadeia do Espinhaço (Minas Gerais, Brasil) e suas respectivas informações geográficas.
Ribeirão Vacaria
Córrego Mateus
Curso de água
Rio Corrento
Rio Taquaral
Rio Paraúna
Córrego das
Cachoeiras
Capitão Felizardo
Mato Dentro
Machados
Long 44°24’ Lat 17°43’ Lassance
Rio Araçuaí
Rio Vacaria
Rio Jequitinhonha
Tabela 2. Famílias e espécies de plantas vasculares associadas às áreas úmidas, na Cadeia do Espinhaço (Minas Gerais,
Brasil), com suas respectivas áreas de ocorrência. (1 = Lagoa Tanque da Fazenda; 2 = Lagoa Nascentes do Taboão; 3 = Lagoa
Comprida; 4 = Lagoa Terra de Arroz; 5 = Lagoa Arame; 6 = Rio Corrento; 7 = Rio Taquaral; 8 = Lagoa Americana; 9 = Rio
Preto; 10 = Lagoa Estivinha).
Table 2. Families and species of vascular plants associated with wetlands in the Espinhaço Range (Minas Gerais State, Brazil),
with their respective areas of occurrence. (1 = Lagoa Tanque da Fazenda; 2 = Lagoa Nascentes do Taboão; 3 = Lagoa Comprida;
4 = Lagoa Terra de Arroz; 5 = Lagoa Arame; 6 = Rio Corrento; 7 = Rio Taquaral; 8 = Lagoa Americana; 9 = Rio Preto;
10 = Lagoa Estivinha).
Família Espécie 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
ALISMATACEAE Echinodorus grandiflorus Mitch. * x x
Echinodorus lanceolatus Rataj x
Echinodorus sp. x
Echinodorus tenellus (Mart.) Buch. * x x x
Sagittaria cf. rhombifolia Cham. * x x x
Sagittaria guayanensis Kunth x x
Sagittaria sp. x
APIACEAE Centella asiatica (L.) Urb. * x
Eryngium pandanifolium Cham. & Schltdl. * x x x
Hydrocotyle leucocephala Cham. & Schltdl. x
Hydrocotyle ranunculoides L. f. x
ARACEAE Philodendron uliginosum Mayo x x
ASTERACEAE Achyrocline satureioides (Lam.) DC. * x
Ageratum fastigiata Benth. ex Baker x
Baccharis aff. martiana Barroso x
Baccharis aphylla DC. x
Baccharis tridentata Vahl x
Cyrtocymura scorpioides (Lam.) H. Rob. * x
Eclipta prostrata (L.) L. * x x
Emilia sonchifolia (L.) DC. * x
Erechtites hieraciifolia (L.) Raf. ex DC. * x
Eupatorium amygdalinum Lam. x
Gochnatia hatschbachii Cabrera x
Inulopsis scoposa O. Hoffm. x
Lychnophora trichocarpha Spreng. x
Parthenium hysterophorus L. * x
Pluchea oblonfolia DC. x
Stevia lundiana DC. x
BEGONIACEAE Begonia cucullata Willd. * x
BORAGINACEAE Cordia curassavica (Jacq.) Roem. & Schult. * x
Heliotropium indicum L. * x
Heliotropium paradoxum Gürke x
BURMANNIACEAE Burmannia bicolor Mart. x
Burmannia capitata (Walter ex J. F. Gmel.) Mart. x
CABOMBACEAE Cabomba caroliniana [Link] * x
Cabomba furcata Schult. & Schult. f. x x
CAMPANULACEAE Siphocampylus sp. x
COMMELINACEAE Commelina diffusa Burm. f. * x x
Commelina sp. x
CONVOLVULACEAE Evolvulus glomeratus Nees & Mart. x
CYPERACEAE Ascolepis brasiliensis (Kunth) Benth. ex Clarke x
Cyperus eragrostis Lam. * x x
Cyperus haspan L. x x x x x x x
continuação
682 S. T. Meyer & E. V. Franceschinelli: Estudo florístico na Cadeia do Espinhaço (MG)
continua
Família Espécie 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Cyperus lanceolatus Poir. * x x x
Cyperus luzulae (L.) Rottb. * x x x x
Cyperus megapotamicus (Spreng.) Kunth x
Cyperus meyenianus Kunth * x x x x
Cyperus mundulus Kunth x
Cyperus polystachyus Rottb. * x
Cyperus prolixus Kunth x x x x
Cyperus sesquiflorus (Torr.) Mattf. & Kük. * x
Cyperus virens Michx. x x x
Eleocharis acutangula (Roxb.) Schult. * x x x x
Eleocharis capillacea Kunth x
Eleocharis debilis Kunth x x
Eleocharis filiculmis Kunth * x x x
Eleocharis glauco-virens Boeck. x x
Eleocharis interstincta (Vahl) Roem. & Schult. * x x x
Eleocharis maculosa (Vahl) Roem. & Schult. x
Eleocharis minima Kunth x x x
Eleocharis montana (Kunth) Roem. & Schult. x x
Eleocharis nana Kunth x x x
Eleocharis sellowiana Kunth * x x x x x
Eleocharis sp. x
Fimbristylis autumnalis (L.) Roem. & Schult. * x x x
Fuirena umbellata Rottb. * x x x
Lagenocarpus sp. x
Lipocarpha sellowiana Kunth x x
Pleurostachys sp. x
Rhynchospora cf. legrandii Kük. x
Rhynchospora corymbosa (L.) Britton * x x x x x x
Rhynchospora emaciata (Nees) Boeck. x
Rhynchospora globosa Roem. & Schult. x
Rhynchospora marisculus Lindl. & Nees x x x
Rhynchospora nervosa (Vahl) Boeck. * x
Rhynchospora rugosa (Vahl) Gale x
Rhynchospora sp. x x
Scleria hirtella Sw. x x
Scleria mitis Berg. x
Scleria sp. x
DROSERACEAE Drosera communis A. St.-Hil. x x
Drosera montana A. St.-Hil. x x
ERIOCAULACEAE Eriocaulon aquatile Koern. x x
Eriocaulon elichrysoides Kunth x
Leiothrix flavescens (Bong.) Ruhland x
Leiothrix fluitans (Mart.) Ruhland x x
Leiothrix sp1. x
Leiothrix sp2. x
Paepalanthus flaccidus (Bong.) Kunth x
Paepalanthus sp. x
Syngonanthus caulescens (Poir.) Ruhland x x x x
Syngonanthus gracilis Ruhland x
Syngonanthus hygrotrichus Ruhland x
EUPHORBIACEAE Chamaesyce hyssopifolia (L.) Small x
continuação
Revista Brasil. Bot., V.33, n.4, p.677-691, out.-dec. 2010 683
continua
Família Espécie 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Croton glandulosus L. * x
Sapium glandulatum (Vell.) Pax x
FABACEAE Aeschynomene paniculata Willd. ex Vogel * x
Calliandra fasciculata Benth. x x x
Calliandra parviflora Benth. x
Chamaecrista nictitans subsp. pattelaria (Collad.)
H. S. Irwin & Barneby x
Collaea cf. cipoensis R. Fortunato x
Crotalaria foliolosa Benth. x
Desmodium incanum DC. * x
Stylosanthes guianensis (Aubl.) Sw. * x
GENTIANACEAE Curtia tenuifolia (Aubl.) Knobl. x
Schultesia angustifolia Griseb. x
GESNERIACEAE Sinningia sp. x
GLEICHENIAEAE Sticherus penniger (Mart.) T. Moore x
HALORAGACEAE Myriophyllum aquaticum (Vell.) Verdc. * x
HYDROCHARITACEAE Apalanthe granatensis (Humb. & Bonpl.) Planch. x x
HYDROLEACEAE Hydrolea spinosa L. * x x
HYPERICACEAE Hypericum brasiliense Choisy x x
IRIDACEAE Sisyrinchium avenaceum Klatt x
Trimezia juncifolia (Klatt) Benth. x
JUNCACEAE Juncus densiflorus Kunth x
Juncus sellowianus Kunth * x
LAMIACEAE Hyptis brevipes Poit. * x x x
Hyptis sp. x
LENTIBULARIACEAE Genlisea pygmaca A. St.-Hil.
Utricularia amethystina Salzm. ex A. St.-Hil. & Girard x
Utricularia breviscapa Wright ex Griseb. x x
Utricularia gibba L. * x x x x x x
Utricularia neottioides A. St.-Hil. & Girard x x
Utricularia nervosa G. Weber & Benj. x x x
Utricularia praelonga A. St.-Hil. & Girard x
Utricularia sp. x
LYCOPODIACEAE Lycopodiella alopecuriodes (L.) Cranfill x
Lycopodiella cernua (L.) Pic. Serm. x
LYTHRACEAE Cuphea cf. sessilifolia Mart. x
Cuphea fuscinervis Koehne x x
Cuphea ingrata Cham. & Schltdl. x
Cuphea repens Koehne x
Cuphea sp.1 x
Cuphea sp.2 x
MALPIGHIACEAE Camarea affinis [Link].-Hil. x
MALVACEAE Sida ciliaris L. x
Melochia villosa (Mill.) Fawc. & Rendle. x x
MAYACACEAE Mayaca fluviatilis Aubl. x x x x x x
Mayaca sellowiana Kunth x x x x
MELASTOMATACEAE Acisanthera alsinaefolia (DC.) Triana x x x x
Lavoisiera bergii Cong. x x
Macairea radula (Bonpl.) DC. x x
Microlicia confertiflora Naudin x
Microlicia isophylla DC. x x x
continuação
684 S. T. Meyer & E. V. Franceschinelli: Estudo florístico na Cadeia do Espinhaço (MG)
continua
Família Espécie 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Pterolepis glomerata Miq. x
Rhynchanthera cordata DC. x x x
Rhynchanthera grandiflora (Aubl.) DC. x x x x
Siphanthera cordata Pohl x
Tibouchina gracilis (Bonpl.) Cogn. * x x
Trembleya phlogiformis DC. x
MENYANTHACEAE Nymphoides indica (L.) Kuntze * x x x x x
NAJADACEAE Najas microcarpa K. Schum. x x x
NYMPHAEACEAE Nymphaea ampla (Salisb.) DC. * x x x
OCHNACEAE Sauvagesia erecta L. x x x
Sauvagesia racemosa A. St.-Hil. x x
ONAGRACEAE Ludwigia brachyphylla (Micheli) H. Hara x
Ludwigia laruotteana (Cambess.) H. Hara * x
Ludwigia leptocarpa (Nutt.) H. Hara * x x x
Ludwigia myrtifolia (Cambess.) H. Hara x x x x
Ludwigia nervosa (Poir.) H. Hara x x x x x
Ludwigia octovalvis (Jacq.) P. H. Raven * x x
Ludwigia peploides (Kunth) P. H. Raven x
Ludwigia tomentosa (Cambess.) H. Hara * x x
ORCHIDACEAE Habenaria parviflora Lindl. x
Oncidium barbaceniae Lindl. x
OROBANCHACEAE Esterhazya macrodonta Cham. & Schltdl. x
OSMUNDACEAE Osmunda regalis L. x
PIPERACEAE Piper sp. x
PLANTAGINACEAE Bacopa salzmannii Wettst. ex Edwall x x x
Mecardonia serpylloides (Cham. & Schltdl.) Pennell x
POACEAE Andropogon bicornis L. * x
Andropogon virgatus Desv. x x x
Arundinella hispida (Willd.) Kuntze x
Axonopus aureus P. Beauv. x
Briza calotheca (Trin.) Hack. x
Eriochrysis cayennensis P. Beauv. x x
Ichnanthus procurrens (Nees ex Trin.) Swallen x
Loudetia flammida (Trin.) C. E. Hubb. x x
Luziola bahiensis (Steud.) Hitchc. x
Otachyrium aquaticum Send. & Soderstr. x x
Otachyrium versicolor (Döll) Henrard x
Panicum aquaticum Poir. x
Panicum cf. schwackeanum Mez x x
Panicum laxum Swartz x x x
Panicum parvifolium Lam. * x x x
Panicum pernambucense (Spreng.) Mez ex Pilg. x x
Panicum sp.1 x
Panicum sp.2 x
Panicum sp.3 x
Sacciolepis vilvoides (Trin.) Chase x x x
Steinchisma decipiens (Nees) W. V. Brown x x x x
Steinchisma hians (Elliott) Nash x
Thrasya cf. thrasyoides (Trin.) Chase x
PODOSTEMACEAE Cipoia ramosa Bove & C. T. Philbrick x
Diamantina lombardii Novello C. T. Philbrick & Irgang x
continuação
Revista Brasil. Bot., V.33, n.4, p.677-691, out.-dec. 2010 685
continua
Família Espécie 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
POLYGALACEAE Bredemeyera martiana A. W. Benn. x
Monnina stenophylla A. St.-Hil. x
Polygala paniculata L. * x x
POLYGONACEAE Polygonum acuminatum Kunth * x x x x
Polygonum ferrugineum Wedd. x x
Polygonum hydropiperoides Michx. * x x x
Polygonum meissnerianum Cham. & Schltdl. x x x x x
PONTEDERIACEAE Eichhornia azurea (Sw.) Kunth * x x
Eichhornia crassipes (Mart.) Solms * x
Heteranthera reniformis Ruiz & Pavón * x
Pontederia cordata L. * x
Pontederia parviflora Alexander x x x
RUBIACEAE Augusta longifolia (Spreng.) Rehder x x
Diodia alata Nees &t Mart. * x x x
Hedyotis thesiifolia A. St.-Hil. x x
Mitracarpus brasiliensis M. L. Porto & Waechter x
Perama hirsuta Aubl. x
Spermacoce verticillata L. x
SOLANACEAE Schwenckia curviflora Benth. x
THELYPTERIDACEAE Thelypteris rivularioides (Fée) Abbiatti x
Thelypteris salzmannii (Fée) C.V. Morton x
TYPHACEAE Typha domingensis Pers. * x x x
XYRIDACEAE Xyris cf. diaphanobracteata Kral & Wand. x
Xyris jupicai Rich. x
Xyris laxifolia Mart. x x x x x x
Xyris savannensis Miq. x x x x
Xyris schizachne Mart. x x
Xyris aff. tenella Kunth x
Xyris sp. x x x x
= Espécies endêmicas do Estado de Minas Gerais / Endemic species of Minas Gerais State; * = Espécies invasoras / Invasive species.
barbaceniae para a bacia do Rio Doce e Cipoia ramosa, 72 espécies, o que correspondeu a aproximadamente
Pontederia cordata, Pontederia parviflora, Eichhornia 32,58% do total de espécies amostradas. As famílias
azurea e Eichhornia crassipes para a bacia do Rio São Podostemaceae e Burmanniaceae tiveram sua
Francisco. ocorrência registrada somente nos rios e 40 espécies
As áreas com maior riqueza em número de espécies foram exclusivas desses ambientes. Podem ser citadas
foram: Lagoa Nascentes do Taboão (60), Lagoa Tanque as seguintes espécies Eriocaulon aquatile, Leiothrix
da Fazenda (53), Lagoa Comprida (49) e Lagoa Arame fluitans, Utricularia neottioides, Diamantina lombardii,
(42). Burmannia bicolor, Burmannia capitata, Genlisea
Os valores do índice de similaridade florística de pygmaea, Otachyrium aquaticum, Loudetia flammida,
Jaccard variaram entre 0 e 0,2570 (tabela 3), o que Steinchisma hians e Augusta longifolia, dentre outras
demonstrou, no geral, uma baixa similaridade florística (tabela 2). Cabe ressaltar que a Asteraceae Gochnatia
entre as áreas. As áreas com maiores valores de similaridade hatschbachii está presente na lista de espécies ameaçadas
entre elas foram: Lagoa Arame e Lagoa Terra de Arroz de extinção da Flora de Minas Gerais, citada na categoria
(0,2570), e os Açudes Americana e Estivinha (0,2370). de vulnerável (Mendonça & Lins 2000) e no Rio
Três pares de comparações não apresentaram similaridade Corrento foi amostrada a espécie nova Cipoia ramosa,
florística: (a) Rio Corrento e Estivinha, (b) Rio Preto e cujo material foi descrito a partir desse estudo (Bove &
Estivinha e (c) Rio Preto e Lagoa Terra de Arroz. Philbrick 2006).
Os ambientes lóticos estiveram representados por A análise aglomerativa (figura 2) distinguiu o grupo
três áreas de amostragem, apresentando uma riqueza de composto pelos Rios Corrento e Rio Preto das demais
686 S. T. Meyer & E. V. Franceschinelli: Estudo florístico na Cadeia do Espinhaço (MG)
Tabela 3. Índice de Jaccard entre dez áreas em ambientes úmidos na Cadeia do Espinhaço (Minas Gerais, Brasil).
Table 3. Jaccard indices among ten areas of wetlands in Espinhaço Range (Minas Gerais State, Brazil).
TANQ NASC COMP TERR ARAM CORR TAQU AMER PRET ESTI
TANQ * 0,1270 0,1370 0,1120 0,1700 0,0540 0,1510 0,0450 0,0320 0,0800
NASC * 0,0830 0,1120 0,0760 0,0490 0,0930 0,0100 0,0380 0,0300
COMP * 0,1630 0,1410 0,0580 0,0860 0,1600 0,0110 0,1730
TERR * 0,2570 0,0790 0,0950 0,1300 0,0000 0,1970
ARAM * 0,0890 0,0910 0,1390 0,0240 0,1530
CORR * 0,0980 0,0130 0,1700 0,0000
TAQU * 0,0890 0,1520 0,0480
AMER * 0,0270 0,2370
PRET * 0,0000
ESTI *
As áreas com os maiores números de ocorrência de como a ocorrência de espécies invasoras. Devido a
espécies invasoras foram Lagoa Terra de Arroz (22), vulnerabilidade dos ecossistemas aquáticos à ação
Açude Americana (21), Açude Estivinha (19) e Lagoa antrópica (Scremin-Dias 2000), muitos corredores
Arame (19). Entre os rios a ocorrência de espécies ripários têm sido invadidos por espécies exóticas (Pollock
invasoras foi menor em relação aos ambientes lacustres. et al. 1998). Estas evidências são apontadas no estudo de
No Rio Taquaral foram registradas oito espécies e no Pedralli & Gonçalves (1997) que discutiram o efeito das
Rio Corrento apenas três. Nenhuma espécie amostrada perturbações ocorridas nas lagoas que amostraram, em
foi indicada como invasora no Rio Preto. relação ao incremento do número de espécies invasoras e
concluíram que a riqueza aumenta em áreas perturbadas.
Discussão Estudo de Brandão et al. (1989) indicaram que 113
espécies palustres e aquáticas do Estado de Minas Gerais
Em estudos que abordam levantamentos em são invasoras.
ecossistemas aquáticos realizados no Brasil foram Nos ambientes amostrados na Cadeia do Espinhaço,
registrados números inferiores de espécies em relação verificou-se uma importante soma de espécies
ao observado para as áreas úmidas amostradas na Cadeia potencialmente invasoras. Nas Lagoas Terra de Arroz
do Espinhaço (tabela 4). Contudo, os estudos realizados e Arame e nos Açudes Americana e Estivinha, nos
por Matias et al. (2003) e Henriques et al. (1988), que quais foram registradas maiores ocorrências de plantas
abrangeram somente o ambiente lacustre, se comparados invasoras, foram também os ambientes com maiores
àqueles das lagoas da Cadeia do Espinhaço apresentaram incidências de fatores antrópicos. Em oposição, o Rio
um número de espécies semelhante à média de riqueza Preto, onde não foi amostrada nenhuma espécie invasora,
de espécies nesses ambientes. Já a inclusão de ambientes correspondeu ao ecossistema mais conservado dentre as
como de florestas de galeria elevaram a riqueza nos áreas de estudo. Contudo, não se pode concluir que a
estudos de Pedralli et al. (1993a), Pedralli et al. (1993b) riqueza de espécies nos ambientes amostrados na Cadeia
e Pedralli & Meyer (1996), bem como as áreas ecotonais de Espinhaço foi incrementada em função da ocorrência
no estudo de Pedralli & Gonçalves (1997). de espécies invasoras, pois entre os ambientes lênticos,
As diferenças em relação à riqueza de espécies aqueles que apresentaram menor riqueza, também foram
em áreas úmidas podem ser atribuídas à diversidade de as que apresentam maiores interferências antrópicas.
ambientes amostrados, ao tamanho das áreas amostradas Conforme discutiram Pollock et al. (1998), os distúrbios
e aos critérios de inclusão considerados nos métodos ou a heterogeneidade espacial são fatores que regulam a
empregados para os levantamentos. Bini et al. (2001) riqueza de espécies em comunidades vegetais.
considera o tamanho da área amostrada a variável Embora os ambientes lóticos abriguem, de maneira
independente que mais influencia na riqueza de espécies geral, um número menor de macrófitas aquáticas (Thomaz
de plantas aquáticas. & Bini 2003), muitas espécies são endêmicas a eles. Os
A disponibilidade de habitats colonizáveis por rios constituem habitats complexos influenciados por
macrófitas aquáticas também pode estar relacionada uma série de variáveis físicas, tais como: a vazão, o
à riqueza florística (Espíndola et al. 2003), assim substrato, a largura, a profundidade, o tipo de margem,
Table 4. Other studies developed in Brazilian wetlands, locations and species richness.
a sua posição no sistema hídrico (Haslam 1978). Além preocupação que se torna crescente, uma vez que, muitas
disso, as irregularidades geológicas e os obstáculos espécies de macrófitas aquáticas apresentam adaptações
artificiais podem progressivamente modificar o seu curso a ambientes de corredeiras e substratos rochosos, e as
e a sua composição química (Sculthorpe 1967). Toda essa alterações no habitat podem determinar a extinção da
multiplicidade de ambientes pode refletir na composição espécie naquele local. Os trechos de rios que possuem
florística (Sculthorpe 1967, Haslam 1978). O movimento estas características, além da beleza cênica que atrai
das águas constitui um dos fatores mais importantes na atividades antrópicas das mais variadas, constituem
determinação das espécies e os cursos de água, com fluxos freqüentemente locais preferenciais para a instalação
similares, apresentam padrões florísticos semelhantes de usinas hidrelétricas.
(Haslam 1978). Provavelmente, esse aspecto influenciou Apesar de ser verificada a ocorrência de espécies
a maior similaridade entre as áreas do Rio Corrento e comuns entre os Rios Corrento, Preto e Taquaral, neste
do Rio Preto, indicadas na análise aglomerativa. Foram último houve semelhança florística maior com as áreas
encontradas seis espécies em comum nesses ambientes, de lagoas, localizadas na bacia do Rio Doce. Muitas
podendo-se destacar: Eriocaulon aquatile, Leiothrix espécies de Poaceae e Cyperaceae foram comuns entre
fluitans e Utricularia neottioides. Essa última ocorre as áreas do Rio Taquaral e as Lagoas Tanque da Fazenda
fixa nos leitos de córregos rochosos, encachoeirados e Nascentes do Taboão, destacando Steinschisma
ou poças de água sobre rochas (Fromm-Trinta 1996). decipiens, ocorrente em margens de lagoas e córregos
As espécies de Eriocaulaceae, por sua vez, são citadas (Longhi-Wagner et al. 2001) e presente nas três áreas.
como ocorrentes em córregos do Brasil, apresentando O trecho amostrado do Rio Taquaral caracterizou-
forma biológica emergente ou sazonalmente submersa se por apresentar uma área maior de remanso e o fluxo
(Cook 1996). As características físicas desses rios são de água não era tão intenso como observado nos outros
semelhantes, o substrato é rochoso em alguns trechos e ambientes lóticos. Ocorreram também micro habitats
ocorrem áreas de correnteza mais acentuada e zonas de de solos bastante úmidos entre pedras, constituindo
remanso. As espécies citadas acima caracteristicamente ambientes propícios à colonização de espécies como
foram encontradas habitando os locais de correntezas Andropogon virgatus, Loudetia flammida e Panicum
e entre rochas. parvifolium, citadas como ocorrentes em áreas úmidas
Os gêneros de Podostemaceae amostrados no e margens de riachos (Longhi-Wagner et al. 2001);
estudo são endêmicos do Estado de Minas Gerais e Cyperus lanceolatus, Cyperus megapotamicus,
foram descritos recentemente (Philbrick et al. 2004). Eleocharis nana, Eleocharis sellowiana, Fimbristylis
Diamantina lombardii é conhecida em apenas duas autumnalis, presentes em locais úmidos e pantanosos
localidades, Parque Estadual do Rio Preto e Rio do Peixe, (Irgang & Gastal Junior 1996) e Mayaca fluviatilis, cuja
e Cipoia ramosa, conhecida na APA da Serra do Cabral forma biológica pode variar desde submersa, flutuante
(Bove & Philbrick 2006). Essa família é citada como rica até terrestre em ambientes bastante úmidos (Pott &
em endemismos e muitas espécies são de distribuição Pott 2000). Na área do Rio Taquaral, essa espécie foi
extremamente restrita, apresentando habitat específico observada colonizando solos encharcados, entre pedras,
e poucas adaptações significativas para a dispersão nas margens do rio. Várias dessas espécies tiveram
(Sculthorpe 1967, Cook 1996). A grande maioria das ocorrência também nas lagoas da Bacia do Rio Doce.
espécies de Podostemaceae ocorre fixada às pedras, em A influência da vegetação adjacente pode ter
locais de cachoeiras ou corredeiras (Hoehne 1979). contribuído com a maior similaridade entre as áreas
As outras ocorrências registradas como espécies Tanque da Fazenda e Nascentes do Taboão. Nessas
endêmicas do Estado de Minas Gerais são Leiothrix lagoas foram observadas algumas espécies comuns
fluitans e Syngonanthus hygrotrichus (P.T. Sano, dados que ocorrem nas formações dos campos vizinhos. As
não publicados) ambas características de riachos, seguintes espécies foram observadas tanto nos campos
Oncidium barbaceniae (R. Mota, com. pess.), Gochnatia úmidos quanto nos campos cerrados adjacentes:
hatschbachii (J. Nakajima, com. pess.) e Lychnophora Fimbristylis autumnalis, Cyperus haspan, Rhynchospora
trichocarpha (Nesom 1994), que ocorrem em áreas de marisculus, Scleria hirtella e Eriochrysis cayennensis.
campo rupestre e bordas de rios e córregos. De maneira A ocorrência de espécies campestres que chegam às
geral, as espécies endêmicas registradas estavam margens de áreas úmidas pode também ter contribuído
presentes em margens de rios. para o maior incremento no número de espécies nessas
Cabe salientar que existem poucas informações áreas, que foram responsáveis pelos maiores valores de
sobre a florística dos rios (Thomaz & Bini 2003), riqueza florística dentre os ambientes estudados.
Revista Brasil. Bot., V.33, n.4, p.677-691, out.-dec. 2010 689
A similaridade florística verificada entre os Açudes apontam para uma importante diversidade de espécies
Americana e Estivinha, únicos ambientes lênticos associadas a ambientes úmidos existentes na Cadeia do
amostrados na bacia do rio Jequitinhonha, relaciona-se Espinhaço. Deve-se considerar que a diferença indicada
provavelmente a proximidade entre eles. Também, essas neste estudo relaciona-se principalmente à grande
áreas são freqüentadas pelas populações do entorno, para abrangência geográfica, bem como à heterogeneidade
utilização doméstica, lazer e dessedentação de animais, o dos ambientes amostrados.
que vem gerando diversas alterações nas suas condições As áreas amostradas na Cadeia do Espinhaço
ambientais. Na Lagoa Comprida, localizada no Parque mostraram-se bastante distintas em relação à composição
Nacional da Serra do Cipó, observou-se similaridade florística, sendo verificadas comunidades vegetais que
florística com as lagoas citadas acima, apesar da Lagoa refletem as diferentes peculiaridades de cada ambiente
Terra de Arroz ser bem próxima, geograficamente, amostrado. Grande parte das plantas associadas a ambientes
apenas cinco quilômetros de distância. Entretanto, ao úmidos é citada como de ampla distribuição fitogeográfica
longo do estudo, foram observadas interferências que (Sculthorpe 1967, Esteves 1998, Irgang & Gastal Jr. 1996,
podem ter colaborado para a ocorrência de espécies Pott & Pott 2000). Alguns aspectos relacionados a essa
invasoras, aumentando assim as similaridades entre áreas expansão podem ser atribuídos a uma menor variação
distantes. Aparecem em comum, nessas áreas: Cyperus de temperatura e dos fatores edáficos encontrados nos
haspan, Cyperus lanceolatus, Cyperus luzulae, Hyptis ambientes aquáticos, além do fato de um grande número
brevipes e Rhynchospora corymbosa, citadas por Pott de espécies apresentarem disseminação de sementes e
& Pott (2000) e Lorenzi (2000) como plantas invasoras propágulos vegetativos por pássaros (Sculthorpe 1967).
e ocasionalmente aquáticas. Além dessas espécies, No entanto, espécies dominantes ou abundantes
observou-se também a presença de Typha domingensis podem representar apenas uma pequena fração do
nos Açudes Americana e Estivinha e Nymphoides indica, total da riqueza em muitas comunidades, as raras ou
nos três ambientes. Nymphoides indica e T. domingensis incomuns, por sua vez, podem desempenhar importante
também ocorrem em locais de perturbação antrópica papel na preservação da sua integridade (Capers 2000).
(Pott & Pott 2000, Lorenzi 2000). Outra característica Por essa razão, para a manutenção da biodiversidade
marcante é a presença de Eleocharis interstincta que, é necessário considerar os fatores que controlam os
segundo Pott & Pott (2000), pode indicar uma fase ecossistemas, sobretudo naqueles onde existem espécies
intermediária de sucessão, às vezes, podendo tornar- raras (Zedler 1997). No presente estudo, por exemplo,
se dominante nas margens da lagoa até o centro. Esta algumas espécies raras foram encontradas nos Rios
espécie foi observada nas três áreas, porém ocorre uma Corrento, Preto e na Lagoa Nascentes do Taboão. Os
população bastante expressiva na área Estivinha. trechos estudados dos Rios Corrento e Preto constituem
As Lagoas Terra de Arroz e Arame, pertencentes à Unidades de Conservação, entretanto a Lagoa Nascentes
bacia do Rio São Francisco, apresentaram o maior valor do Taboão é ainda uma área que carece de proteção.
de similaridade (0,26), apesar de não se situarem muito Os levantamentos da diversidade florística e
próximas. Somente três espécies estiveram presentes a análise dos padrões de distribuição das espécies
exclusivamente nestas áreas: Echinodorus grandiflorus, oferecem importantes subsídios para o estabelecimento
Hydrolea spinosa e Eichhornia azurea. Todas elas de prioridades de conservação das comunidades vegetais
citadas como ocorrentes em solos férteis (Pott & Pott e das espécies (Bini et al. 2001). Dessa forma, torna-
2000). Uma característica evidenciada nesses locais é se fundamental o incremento de estudos de padrões de
a presença de áreas cultivadas. distribuição mais completos e que abordem aspectos
Os baixos valores de similaridade florística entre ecológicos e da dinâmica das espécies que integram
as áreas amostradas podem estar associados ao grande os ecossistemas úmidos, sobretudo aqueles mais
número de espécies que apareceram em apenas uma área. ameaçados.
Este fato, também foi determinante para o elevado valor
verificado para o estimador “Jackknife”. Cabe ressaltar Agradecimentos – Ao Fundo Nacional do Meio Ambiente
(FNMA) pelo apoio financeiro. Aos colegas do Setor de
que o cálculo de estimadores de riqueza constitui uma
Recursos da Terra/Cetec pelo apoio logístico. A Edna Bueno
importante ferramenta para se avaliar a diversidade pela confecção do mapa. Aos especialistas: Alexandre Salino,
gama, em virtude da dificuldade de se amostrar todas André Bragança Gil, Aristônio Magalhães Telles, Cláudia
as espécies ocorrentes em uma região, como sugeriram Bove, Paulo Takeo Sano, Pedro Viana Lage, Rubens Mota,
Bini et al. (2001). A diferença entre os valores de Rosana Romero e Jimi Nakajima que contribuíram para as
riqueza observados e o cálculo do estimador “Jackknife” identificações taxonômicas.
690 S. T. Meyer & E. V. Franceschinelli: Estudo florístico na Cadeia do Espinhaço (MG)
Pedralli, G., Meyer, S.T., Teixeira, M.C.B., & Scremin-Dias, E. 2000. A plasticidade fenotípica das
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