Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo
PJe - Processo Judicial Eletrônico
29/01/2025
Número: 5009972-07.2024.8.08.0021
Classe: PROCEDIMENTO DO JUIZADO ESPECIAL CÍVEL
Órgão julgador: Guarapari - Comarca da Capital - 1º Juizado Especial Cível
Última distribuição : 17/10/2024
Valor da causa: R$ 14.065,34
Assuntos: Liminar, Obrigação de Fazer / Não Fazer, Indenização por Dano Moral
Segredo de justiça? NÃO
Justiça gratuita? NÃO
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? SIM
Partes Procurador/Terceiro vinculado
DANIEL PIRES CAMPOS (REQUERENTE)
99PAY INSTITUICAO DE PAGAMENTO S.A (REQUERIDO) GUSTAVO HENRIQUE DOS SANTOS VISEU (ADVOGADO)
Documentos
Id. Data da Documento Tipo
Assinatura
56534 16/12/2024 10:57 Sentença Sentença
175
ESTADO DO ESPÍRITO SANTO
PODER JUDICIÁRIO
Juízo de Guarapari - Comarca da Capital - 1º Juizado Especial Cível
Alameda João Vieira Simões, s/nº, Fórum Desembargador Gregório Magno, Muquiçaba, GUARAPARI - ES - CEP: 29214-110
Telefone:(27) 31617007
PROCESSO Nº 5009972-07.2024.8.08.0021
PROCEDIMENTO DO JUIZADO ESPECIAL CÍVEL (436)
REQUERENTE: DANIEL PIRES CAMPOS
REQUERIDO: 99PAY INSTITUICAO DE PAGAMENTO S.A
Advogado do(a) REQUERIDO: GUSTAVO HENRIQUE DOS SANTOS VISEU - SP117417
PROJETO DE SENTENÇA
Vistos etc...
Dispensado o relatório, nos termos do artigo 38, da Lei 9.099/95. Decido.
Sustenta a parte autora que sua conta fora bloqueada indevidamente, por suspeita de
fraude. Aduz que para desbloqueio foram solicitados documentos, os quais teria
enviado, porém não obteve sucesso. Requer LIMINARMENTE o requerido seja
compelido a realizar a liberação da conta do autor, até que tenha sentença que resolva
o mérito. Ao final, pleiteia a transferência do valor de R$ 7.665,34 (mil, seiscentos e
sessenta e cinco reais e trinta e quatro centavos) para a conta do Banco do Brasil do
autor, o cancelamento da conta, o valor de R$ 3.000,00 (três mil reais), sendo R$
2.000,00 (dois mil reais) correspondentes ao boleto em atraso, e o valor remanescente
de R$ 1.000,00 (mil reais) relacionado à perda do investimento e necessidades
especiais, a título de DANOS MORAIS.
A decisão de ID 52936557 indeferiu a tutela pretendida.
A requerida apresentou defesa (ID 53735530) arguindo inépcia da inicial e
incompetência do foro. No mérito, diz que efetuou o bloqueio cautelar da conta do
autor. Após concluído o processo de avaliação pela instituição, caso seja verificado
indício de fraude, os recursos são devolvidos ao pagador, ou o bloqueio é
interrompido, podendo o titular da conta movimentar os recursos. Diz que solicitou ao
autor, que fosse encaminhado alguns dados para atualização cadastral ocorre que a
parte autora se manteve inerte quanto ao envio da documentação necessária para
desbloqueio.
As partes requereram o julgamento antecipado da lide.
DA INÉPCIA DA INICIAL
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Inicialmente, em relação à alegada preliminar de inépcia da petição inicial, não merece
guarida, eis que a simples leitura da peça inicial permite compreender de forma
coerente os fatos narrados, a causa de pedir e o pedido deduzido pela parte autora
(art. 14, §1º, da Lei 9.099/95).
DO FORO
De acordo com o Código de Defesa do Consumidor (CDC), o foro competente para
ações de consumo é o domicílio do consumidor. Essa regra é estabelecida no artigo
101, inciso I, do CDC, com o objetivo de facilitar a defesa dos direitos e interesses do
consumidor.
A competência do foro do domicílio do consumidor é absoluta, ou seja, não é possível
reconhecer de ofício um foro diferente do domicílio do consumidor. Essa regra é de
ordem pública e prevalece sobre o foro de eleição estabelecido no contrato.
Afasto.
MÉRITO
Não há dúvida sobre a natureza de consumo na relação entre a autora e o réu, haja
vista a parte autora subsumir-se ao conceito de consumidor constante do art. 2º, do
Código de Defesa do Consumidor, constante do art. 3º, do mesmo estatuto legal.
Dessa forma, a relação jurídica que se estabeleceu deve ser interpretada em
consonância com as normas consumeristas.
É direito básico do consumidor (art. 6º, inciso VIII, do CPC) a facilitação da defesa de
seus direitos, com a inversão do ônus da prova a seu favor, quando a critério do juiz,
for verossímil a alegação por ele trazida e verificar-se sua hipossuficiência na relação
de consumo, ante a constatação de sua vulnerabilidade. Desta forma, inverto o ônus
da prova.
Alega a ré que não restou caracterizado defeito na prestação do serviço, tampouco
dano moral suportado pela parte autora, alegando que “Após efetuada análise, foi
constatado que o bloqueio da conta do usuário se deu a um dispositivo preventivo de
monitoramento . Esse procedimento está em conformidade com o que prevê a
Resolução BCB nº 96 de 19/05/2021, em especial no artigo 4º parágrafo 4º e artigo 6º,
sendo um dispositivo de segurança constante no Termos e Condições de Uso de
Conta de Pagamento Pré-Paga – 99Pay.”
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No entanto, a ré, por sua vez, não afirmou que foi constatado qualquer indício de
fraude, portanto, o valor do saldo do autor deveria ter sido prontamente liberado.
O banco responde objetivamente pelos danos causados, em razão de defeitos no
serviço prestado e de fatos com relação com os próprios riscos da atividade bancária,
em razão do disposto no art. 14, do CDC.
Reconhece-se o ato ilícito e defeito de serviço da parte ré, consistente no bloqueio da
conta corrente da parte autora, sem motivo justificado, uma vez que a justificativa
apresentada é inconsistente.
Restou demonstrado, portanto, a privação do autor, de acesso ao seu saldo financeiro.
Assim, a instituição financeira não está obrigada a manter aberta conta bancária de
cliente que não deseja. Porém, não pode impedir o acesso à conta, sem motivo
justificado.
Afinal, percebe-se que o banco não comprovou, documentalmente, as razões para o
bloqueio na conta do autor, ônus que lhe incumbia nos termos do art. 373 , inciso II ,
do CPC.
Conforme se verifica do extrato de ID 52899226, o autor possuía e saldo de R$
7.665,34 (sete mil seiscentos e sessenta e cinco reais e trinta e quatro centavos) em
sua conta.
O ato ilícito e defeito de serviço da parte ré, consistente no bloqueio da conta corrente
do autor, sem motivo justificado, uma vez que nenhuma fraude foi demonstrada,
privando, indevidamente, o correntista de movimentá-la livremente, inclusive com
realização de saques e pagamentos, constitui, por si só, fato ensejador de dano moral.
A situação vivenciada pelo consumidor caracteriza-se como ato ilícito por parte da
fornecedora de serviços, uma vez que o autor teve a totalidade de seu saldo
bloqueado, ficando impossibilitado de sacar valores e quitar débitos cotidianos. Além
disso, percebe-se que o bloqueio na conta se manteve até mesmo com o ingresso da
presente ação.
Quanto à quantificação da indenização por danos morais, adota-se a seguinte
orientação: (a) o arbitramento de indenização por dano moral reconhecido deve
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considerar a condição pessoal e econômica do autor, a potencialidade do patrimônio
do réu, bem como as finalidades sancionadora e reparadora da indenização,
mostrando-se justa e equilibrada a compensação pelo dano experimentado, sem
implicar em enriquecimento sem causa do lesado.
Atendidas tais moduladoras, tenho que a importância de R$ 3.000,00 (três mil reais)
mostra-se adequada à causa.
Dispositivo
Por tais razões, JULGO PROCEDENTES em parte OS PEDIDOS, para:
a) DETERMINAR que o banco réu promova o cancelamento da conta do autor;
b) CONDENAR o banco demandado a pagar à parte autora R$ 3.000,00 (três mil
reais) a título de danos morais, acrescido o valor de juros de mora de acordo
com a taxa SELIC, deduzido o índice de atualização monetária de que trata o
parágrafo único do art. 389 do Código Civil, no período compreendido entre a
citação e até a presente data, sendo que a partir do arbitramento a quantia
deverá ser atualizada pela taxa SELIC(taxa que engloba juros e correção);
c) condenar o demandado autor ao pagamento do valor de R$ 7.665,34 (sete mil
seiscentos e sessenta e cinco reais e trinta e quatro centavos) ao autor, a título de
danos materiais, com correção segundo índice da Tabela da Corregedoria de Justiça
do TJES desde 14/10/2024 até a citação, e após, até o efetivo pagamento, através da
SELIC.
Via de consequência, JULGO EXTINTO O PROCESSO, com resolução do mérito,
na forma do artigo 487, inciso I, do Código de Processo Civil.
Sem custas e honorários por expressa disposição legal.
P. R. I.
Após o trânsito em julgado, intime-se o devedor para pagamento da condenação no
prazo de 15 (quinze) dias a contar do trânsito em julgado, sob pena de aplicação de
multa de 10%, nos termos do artigo 523, § 1º do CPC, bem como, para comprovar o
depósito no mesmo prazo, sob pena de deferimento de pedido de execução de
sentença.
Registro, que o pagamento do débito exequendo deverá ser realizando em conta
judicial do Banco BANESTES S.A., nos termos das Leis Estaduais 4.569/91 e
8.386/06, para os fins do Ato Normativo Conjunto 036/2018, do ETJES, sob pena de o
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pagamento realizado em desacordo com tais atos normativos, em instituição financeira
diversa, ser considerado ato atentatório à Justiça
Decorrido o prazo para o pagamento espontâneo, em nada sendo requerido pela parte
autora, arquivem-se os autos com as cautelas de estilo.
Submeto o presente à homologação, nos termos do artigo 40, da Lei 9.099/95.
Guarapari-ES, 15 de dezembro de 2024.
Kristiny de Vasconcelos Concha
Juíza Leiga
SENTENÇA
Homologo o projeto de sentença acima, para que produza seus legais efeitos, nos
termos do artigo 40, da Lei 9.099/95.
DÉIA ADRIANA DUTRA BRAGANÇA
Juíza de Direito
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