Era sábado, um dia em que eu ansiava por me sentir verdadeiramente vivo.
Queria sugar todo o tutano
da vida. Enquanto alguns escolhiam descansar, eu buscava viver intensamente, experimentar o limite, ter
um encontro com o inesperado, uma experiência de prazer sem culpa, sem dor, sem responsabilidade.
Após uma entediante sessão de análise, decidi marcar um encontro com uma mulher. Como de praxe, já
conhecia o endereço. Com dinheiro no bolso e a mente aberta, aos vinte e sete anos, sou solteiro e
estou sozinho, à procura de algo que traga substância à minha vida — algo maior que um simples
orgasmo, algo que me incendiasse, que me levantasse os pés do chão.
Assim que cheguei à casa, a garota abriu a janela em frente à porta. Como emoldurado por um
retângulo, vi seu rosto aparecer, como uma foto 3x4. Ela sorriu, e eu me deliciei com a visão: um sorriso
iluminado e convidativo, lembrando uma cigana, uma índia — um enigma a ser desvendado.
Entro um pouco sem jeito; ela me recebe com um beijo na bochecha. Aos poucos, vou me soltando.
Vestida toda de preto — uma cor que lhe cai maravilhosamente bem — há algo nela que é sombrio e ao
mesmo tempo intrigante, capaz de capturar minha atenção. Paguei pelo programa antes do início; tudo
é convencional até então. Ela põe o preservativo, depois a boca e a língua, mostrando que sabe
exatamente o que está fazendo.
Chega o momento de retribuir o favor. Ela se deita, prostrando-se na cama, abre as pernas com
delicadeza. Começo a sugar, chupar, lamber e beijar. Um dos maiores prazeres do sexo reside em dar
prazer, e partindo desse princípio, vejo a mulher contorcer-se a cada movimento da minha língua. Assim,
contorço-me junto com ela. Minha masculinidade se revela neste instante, com o rosto entre as pernas
da mulher.
Depois, seguimos para a cama — uma experiência deliciosamente harmônica, ao mesmo tempo
agressiva, lúdica e tanática, em linhas gerais, ambivalente. Ela alcança o orgasmo, e eu o acompanho
nesse clímax. Pergunto se posso fumar e abro a janela. A cidade está tímida, encoberta por nuvens, sem
cor, enquanto o quarto transborda de cores e sons.
Através do Pix, descubro seu nome: Priscila. Um belo nome, de princesa, de mãe de príncipes. Uma
plebeia entre os nobres, construindo seu próprio destino. Ela sabe se portar entre os soberanos, os
carcamanos, milicianos e músicos. Já viajou pelo mundo, quase foi sequestrada; percorreu a Europa, as
Américas, a África e agora está aqui, imersa em minha terra, na minha província, em meu colo, no meu
corpo e na minha alma.
Descubro que ela gosta de rock e que levou o pai ao Rock in Rio. Uma paixão evidente, seus olhos
brilham ao falar do pai. Um bom vivant, roqueiro carioca, e, de alguma forma, algo dele está presente
nela. Seus olhos ganham vida, reluzentes, quando compartilha essas memórias.
Na cidade do rock, ela se veste de preto, como de costume, óculos de sol escurecendo um olhar que
brilha em meio ao caos. Ao seu lado, o pai, o filho e eu, todos juntos, numa composição perfeita. Az de
Aspadas, Brilho de Faca. Agora são meus olhos que brilham ao lembrar de Priscila.
Pergunto: "Vamos sair, Priscila?" Tem um bar logo ali, música boa, rock and roll... Para minha surpresa —
acreditem, surpresa de verdade — ela diz que sim, que vai sair comigo. Mas que tem alguns clientes para
atender. Eu lhe digo: "Não se preocupe, meu bem, a noite é uma criança." Um velho clichê quando se
quer convencer alguém a sair: a noite é uma criança.
"Eu desbravei a cidade, feito o passageiro do Iggy Pop, fumando maconha. Encontrei o primeiro bar que
vi pela frente. Tecer cultural, gente alternativa, algumas mulheres; nenhuma era Priscila. Não tirava os
olhos do celular. Ela visualizou a meia-noite, a uma hora, duas. Pensei comigo: Priscila não vem mais."
"Fui para o bar. Quando peguei o taco de sinuca, meu telefone ligou, meu coração acelerou; afinal, ela
vem, ela vem, meus amigos. Ela desceu do carro com classe, cheia de elegância e altivez. A mulher tem
pose, finesse. Você está cheirosa, Priscila! Que perfume é este?"
Ela usava Dior, essa fragrância não me sai da mente, assim como o seu sorriso, suas curvas, seu olhar
noturno, suas marcas, cicatrizes. Quem de nós não as tem? Priscila se senta, posturada, observadora,
enquanto eu, desajeitado, meio tosco, não sei o que dizer para aquela mulher. Nós rimos juntos, eu
prestei atenção em cada detalhe, cada palavra, cada cruzada de perna. Ela bebe duas Heinekens e eu,
um Red Bull. E diz para mim: 'Vamos para sua casa?' Era tudo o que eu queria ouvir."
"Entramos no quarto e eu comi a mulher como há muito tempo não comia ninguém; quando se come e
se deixa comer, quando se lambuza, quando se ama sem pudores. Eu digo para a moça: 'Quando quiser
que eu vá, é só falar.' A verdade é que eu não queria ir, mas não podia ficar. Ela abre a janela, aquela
mesma janela de outrora. E a minha cidade está gelada. Priscila acendeu um cigarro, e o tempo nublado
ilumina seu rosto. O mesmo rosto na janela do meio da porta, aquela janela retangular, pequena, agora
se estende, e eu vejo o rosto da mulher límpido, iluminado, cujo o único contorno era o infinito. Priscila
usava uma blusa preta tampando parte dos seios. Neste momento, o tempo parou para mim, e eu não
tive dúvidas: não quero ir embora.
Mas o tempo acabou. Fui para o centro, peguei um moto-táxi e adormeci como nunca. Quando
despertei, pensei que era um sonho; não era. Priscila existiu. Não é roteiro, nem filme conceitual, mas foi
um sonho. Em um sábado qualquer, em um inverno qualquer, a mulher fez ruir meio mundo. Me
despeço; mais uma vez eu não sei o que falar. Obrigado pelo sábado, Priscila. Se eu fosse milionário,
pagaria por mais mil sábados assim!"