REDAÇÃO E EDIÇÃO IMPRESSA
AULA 3
Prof. Mauri Konig
CONVERSA INICIAL
Nesta aula veremos que todo jornalista deve saber apurar uma
reportagem e escrever bem, principalmente se trabalha em veículos impressos.
Se apura bem, mas escreve mal, não saberá passar a sua história para os
leitores e deixará a impressão de incompetência, comprometendo a sua
credibilidade.
Se escreve bem mas apura mal, então é melhor se transferir para a
carreira literária, pois o jornalismo trabalha primordialmente com a informação.
Nesta aula, veremos um pouco sobre a importância do texto e da apuração
jornalística nas reportagens de jornal e de revista.
• O texto noticioso;
• O texto na reportagem impressa;
• O texto de revista;
• Abertura de reportagem;
• O texto romanceado.
Aproveite e vá praticando: leia e escreva muito.
CONTEXTUALIZANDO
O texto noticioso tem características próprias que o diferenciam de outros
tipos de texto, como os de ficção, os relatórios, sentenças judiciais, publicações
científicas etc. Antes de entrar na discussão sobre as técnicas, é preciso pensar
no texto em si e na substância, nos princípios éticos e morais do jornalismo.
Por mais que a estética literária valorize alguns conteúdos jornalísticos, é
sempre bom lembrar que há uma diferença no compromisso do jornalista e do
romancista com o público. Como veremos, a verdade e a imaginação demarcam
esses limites.
TEMA 1 – O TEXTO NOTICIOSO
Uma das qualidades que distingue o texto jornalístico das demais formas
de escrita é a sua capacidade de dialogar com públicos diversos. Ou seja, ser
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compreendido por todos – excetuando-se determinados veículos segmentados.
Em síntese, o texto jornalístico deve falar com todos e para todos.
O texto noticioso decodifica linguagens complexas (científica, jurídica
etc.), ou temas cotidianos (política, economia), para facilitar a compreensão.
“Mesmo tratando de assuntos que exigem certo repertório do leitor, a linguagem
é acessível, o que permite o entendimento do fato mesmo por um receptor que
não seja profundo conhecedor do tema abordado” (Rech, 2018, p. 16).
O texto eficiente é aquele que consegue equilíbrar a linguagem formal e a
coloquial, com vantagem para a segunda, como diz Nilson Lage. Isso porque ela
“é mais acessível para as pessoas de pouca escolaridade e, mesmo para as que
estudaram ou lidam constantemente com a linguagem formal, permite mais
rápida a fruição e a maior expressividade” (Lage, 2001, p. 37).
Contudo, Lage identifica uma pressão social pelo uso do registro formal,
considerando “erro” qualquer desvio. Ainda assim, há uma tentativa de combinar
as duas linguagens nos gêneros textuais mais usados no jornalismo: 1 - texto
narrativo (crônica); 2 - texto dissertativo-argumentativo (editorial jornalístico); 3 -
texto expositivo (entrevistas), 4 - reportagem; 5 - texto descritivo (notícia).
Em qualquer desses textos, o objeto da narrativa será sempre a realidade,
e é quando o gênero descritivo desponta como o mais presente nas redações.
Então, para entender o texto noticioso, é preciso entender sua manifestação
mais constante: a notícia. Como são tantas as definições de notícia,
discutiremos nesta aula apenas algumas delas.
Sodré (2009) entende que o valor da notícia está relacionado ao impacto,
atualidade, proximidade, interesse público, relevância e intensidade. Ou seja, o
texto noticioso está carregado desses valores. Sodré cita Glatung e Ruge para
ampliar essas características, incluindo imprevisibilidade, frequência, amplitude,
clareza, entre outras.
Segundo Alsina (2009, p. 14), “a notícia é uma representação social da
realidade cotidiana, gerada institucionalmente e que se manifesta na construção
de um mundo possível”. Um acontecimento só se torna notícia se alguém atribuir
algum significado a ele, e para isso o jornalista segue procedimentos.
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Como explica Sodré (2009, p. 71), “parte-se do ‘fato bruto’ [...] para
transformá-lo em ‘acontecimento’ por meio da interpretação em que implica a
notícia, esse microrrelato que, desdobrado ou ampliado, nos dará possibilidade
de acesso argumentativo ao ‘fato social’”.
Já para Lorenzo Gomis (1991), notícia é a versão jornalística de um fato
capaz de ter repercussões. Quanto mais relevante, maior a repercussão. “Um
acontecimento é algo extraordinário, ou seja, é um fato que vai além do ordinário.
Uma variação pressupõe uma ruptura da normalidade, e enquanto maior for essa
ruptura, mais espetacular será o acontecimento” (Alsina, 2009, p. 141).
1.2 A voz do texto noticioso
Em geral, se usa terceira pessoa do singular no texto jornalístico, embora
outras formas sejam possíveis. No texto em segunda pessoa, o narrador se
dirige ao leitor, tratando-o por “você”. O texto em primeira pessoa funciona
quando o narrador participa do fato que relata, usando o pronome “eu”.
Como reforça Gisele Rech no livro Redação jornalística: apontamentos
para a produção de conteúdo, o uso da terceira pessoa do singular é imperioso.
“As únicas exceções passíveis de aceitação [...] são os gêneros abarcados pelo
chamado jornalismo opinativo, que inclui crônicas, artigos de opinião, colunas ou
reportagens-testemunho” (Rech, 2018, p. 17).
1.2 A importância da apuração
Marília Scalzo (2003) conta no livro Reportagem de Revista que, ao
comandar o curso Abril de Reportagem, muitos iniciantes pretendiam trabalhar
em revista para escrever um “texto mais elaborado”. Há diferenças entre o texto
de jornais e o de revistas, mas o “texto elaborado” não é só uma questão de estilo
e nem a única habilidade necessária para escrever, como ela diz:
Mesmo em jornal, alguém que escreve muitíssimo bem muitas vezes
não consegue fazer bom jornalismo. Isso porque o segredo da boa
elaboração de um texto jornalístico está na apuração. Quem tem o
maior número de informações qualificadas na mão tem muito mais
chances de escrever uma boa reportagem, um bom artigo ou mesmo
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uma boa notícia do que aquele que simplesmente “escreve bonito”.
(Scalzo, 2003, p. 56)
Todo material publicado em um jornal ou revista deve ser bem escrito. A
notícia ou uma reportagem mais curta fazem o uso técnico do lide, da pirâmide
invertida, colocando as principais informações nos primeiros parágrafos. Por
vezes, uma notícia é publicada com apenas um parágrafo. É a chamada nota.
A grande reportagem pode ter um texto mais solto, próximo do literário.
Não precisa estar presa ao lide. Mas, seja notícia ou reportagem, é fundamental
que o jornalista escreva tendo a informação como guia. O jornalista deve ser
submisso à informação. Ela é mais importante que o estilo. Casar informação
com texto agradável sempre foi o grande desafio do jornalista.
Leitura complementar
Leia mais sobre o texto noticioso da página 177 à página 183 do livro-
base desta disciplina: RECH, Gisele Krodel. Redação Jornalística:
apontamentos para a produção de conteúdo. Curitiba: InterSaberes, 2018.
TEMA 2 – O TEXTO NA REPORTAGEM IMPRESSA
Como vimos em aulas anteriores, o texto nos jornais e revistas vem sendo
modificado ao longo da história do jornalismo. De um texto mais individual e
opinativo, quase um discurso, na sua pré-história, passou a ser mais descritivo,
mais literário, mais neutro e técnico, entre outras características que marcaram
diferentes épocas.
Alguns gêneros e estilos requerem um modo próprio de fazer. O opinativo,
por exemplo, exige maneiras diferentes de se escrever entre editoriais, colunas,
blogs, críticas, resenhas e crônica. O mesmo acontece com o texto informativo:
o da editoria de política tem particularidades que não se encontra na editoria de
esportes, que poderia ser mais semelhante à editoria de cultura, que, por sua
vez, é bem diferente da editoria de economia, e assim vai.
Já o jornalismo utilitário pede um texto diferente em suas sugestões de
roteiros (cinema, teatro, música etc.), ou na maneira de ensinar a fazer um bolo.
O texto do livro-reportagem é mais solto do que o de jornal ou revista. Para cada
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ocasião, há um texto diferente, mas sempre respeitando os princípios éticos, a
busca pela informação e o indesviável caminho da busca pela verdade.
Contudo, há um padrão, uma média. A pirâmide invertida continua sendo
a técnica preferencial para notícias em jornais e revistas, no caso das notícias
curtas. E assim deve continuar, pois o pouco espaço pede que os jornalistas
sejam objetivos. Para as grandes reportagens, o leque de opções se amplia e
o lide se dissolve.
O lide e a pirâmide invertida estão previstos nos manuais de redação dos
principais jornais. O da Folha de S. Paulo, por exemplo, é taxativo quanto ao uso
da pirâmide invertida (Manual, 2010). O documento é bem didático sobre o seu
uso para os jornalistas da empresa e aponta dois tipos básicos de lide: “o
noticioso, que responde às questões principais em torno de um fato (o quê,
quem, quando, como, onde, por que), e o não factual, que lança mão de outros
recursos para chamar a atenção do leitor” (Manual, 2010).
O documento normatiza os padrões de escrita na Folha e indica qual deve
ser a função do lide noticioso em seus textos: “a) Sintetizar a notícia de modo
tão eficaz que o leitor se sinta informado só com a leitura do primeiro parágrafo
do texto; b) Ser tão conciso quanto possível; c) Ser redigido de preferência na
ordem direta (sujeito, verbo e predicado)” (Manual, 2010).
Além de dizer o que se deve fazer para escrever um bom lide, o manual
da Folha também diz o que se deve evitar no início de uma reportagem:
a) Esconder o fato principal em meio a informações como
localização geográfica, horário, ambientação e idade – todas elas
recomendadas neste manual, o que não quer dizer que todas devam
ser fornecidas de uma só vez;
b) Usar, sem explicar, nome, palavra ou expressão pouco familiar
à média dos leitores;
c) Começar com advérbio ou gerúndio;
d) Começar com declaração entre aspas, fórmula desgastada pelo
uso indiscriminado. Reserve-a para casos de declarações de impacto.
(Manual, 2010)
De acordo com o documento, para o segundo tipo de lide, o não-factual,
não existe receita, pois é um desafio conquistar a atenção do leitor e ao mesmo
tempo informá-lo. Já O Manual de Redação e Estilo do jornal O Estado de S.
Paulo tem uma descrição ainda mais extensa do verbete.
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Recomenda que o lide (abertura da matéria) deve incluir em duas ou três
frases as informações essenciais que deem o resumo completo do fato, e deve
responder às questões centrais do jornalismo: o que, quem, quando, onde, como
e por quê (Martins, 1997). Porém, uma ou duas dessas perguntas podem ser
esclarecidas no sublead (segundo parágrafo).
O manual recomenda um lide de no máximo de 4 a 5 linhas de 70 toques,
embora possa ser reduzido a uma ou duas linhas em casos excepcionais ou
quando se tratar de informações de impacto. “Mais que nas demais partes do
texto, o lead deve ser objetivo, completo, simples e, de preferência, redigido na
ordem direta” (Martins, 1997, p. 154).
2.1 As mudanças que chegam com a tecnologia
Vamos a uma reflexão: até que ponto o aparecimento da internet influencia
também o texto dos veículos impressos? Quem vai nos ajudar na resposta é uma
estrela do jornalismo atual, o editor-executivo do The Washington Post, Martin
Baron. Mas antes de dar palavra a ele, vamos a dois parênteses.
O primeiro parêntese é para explicar por que ele é uma estrela. Não é só
pelo cargo que ocupa e seus métodos de trabalho que transformaram o The
Washington Post em uma das publicações mais bem-sucedidas do jornalismo.
Baron é estrela também porque ganhou um Oscar. Quer dizer, não foi bem ele.
Expliquemos.
O longa-metragem Spotlight ganhou o Oscar de melhor filme de 2015. A
obra de ficção baseada em fatos trata da equipe de repórteres especiais do The
Boston Globe, que era comandado por Martin Baron e que foi responsável pela
revelação de um escândalo mundial de pedofilia envolvendo a Igreja Católica.
O segundo parêntese é para explicar o estilo de escrita desses últimos
parágrafos. Essa experiência de escrever na terceira pessoa do plural (poderia
ser na primeira pessoa do singular) e com um texto mais solto, como se estivesse
conversando com você, leitor, para dar um exemplo prático de uma mudança
que pode estar ocorrendo nesse exato momento dentro dos grandes jornais.
Essa mudança foi incentivada pela maneira de se escrever nas mídias
sociais. Quem disse isso foi o próprio Baron, em entrevista ao jornal Folha de S.
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Paulo, publicada em 10 de outubro de 2016. Ao ser perguntado pela jornalista
Sylvia Colombo sobre como o jornalismo tradicional está mudando o modo de
contar histórias nas reportagens, Baron respondeu:
Estamos buscando fazer com que os textos sejam mais acessíveis e
abertos à interação. Há, ainda, uma tendência de o público querer ouvir
mais a voz de quem escreve. Os leitores querem ter mais da
personalidade de quem lhes transmite uma notícia, parece que sentem
aí que o conteúdo é mais legítimo. Estamos tentando enfatizar mais
isso também. (Baron, 2016)
O jornalismo demorou a reagir à chegada da era digital. Agora, todos estão
diante de algo inevitável, que pede mudanças de comportamento, planejamento
e execução do trabalho. “Vivemos em uma sociedade que é digital e mobile, e
precisamos acolher essa mudança com entusiasmo e esforço, por mais que
sintamos saudades do antigo modo de atuar” (Baron, 2016).
Além de mudanças no modo de escrever, Baron diz que as redes sociais
também ajudam a questionar o mito da imparcialidade jornalística, pois o
prioritário é expor a verdade e chegar a uma conclusão. Para ele, se trouxer algo
novo e relevante, não importa se castigará a direita ou a esquerda, o jornalismo
cumprirá o seu papel.
Nesse ponto, ele critica algumas práticas jornalísticas. “Às vezes, a mídia
dita plural se importa demais em contemplar os dois lados de uma história e eu
creio que isso precisa continuar sendo feito. Mas, às vezes, isso chega a um
ponto em que diminui o impacto da notícia” (Baron, 2016). Ele continua para pôr
a crítica em contexto:
Temos de desenterrar e encontrar as evidências, sermos justos na
apuração e fiéis à verdade que revelarmos. Mas, ao final, temos de
chegar a uma conclusão, e essa conclusão, nesses tempos, parece-
me que tem de ser apresentada de forma mais explícita. Os jornais
precisam ter uma posição editorial mais clara com relação a cada
cobertura que fazem. (Baron, 2016)
As mídias sociais estão presentes no cotidiano das pessoas. Isso implica
mudanças de comportamento e o jornalismo deve se ajustar. Para se adaptar
aos novos tempos, os veículos impressos têm de estar na Internet e nas redes
sociais. Não apenas para distribuir o seu trabalho, mas para ouvir e conviver com
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as pessoas, saber as histórias que elas estão contando, como elas as contam e
reconhecer de que maneira elas gostam de receber as notícias.
É inevitável que o jornalismo se adapte. Contudo, em qualquer caso, em
qualquer mídia, continua valendo uma definição de García Márquez sobre
notícia: “A melhor notícia não é a que se dá primeiro, mas a que se dá melhor”.
TEMA 3 – O TEXTO DE REVISTA
Apesar de suas peculiaridades, o jornalismo de revista mantém a essência
dos demais meios. Muda o estilo, não os princípios éticos e os procedimentos de
busca pelas informações. “O desafio do jornalista é, portanto, fazer uma revista
acessível aos leitores comuns, mas seu texto deve ser preciso ao ponto de
poder ser lido, sem constrangimentos, por um especialista da área” (Scalzo,
2011, p. 57, grifo nosso).
O jornalismo de revistas tem como base de produção os temas de longa
duração (Benetti, 2013). Embora trabalhe com a atualidade, os assuntos são
tratados de forma a não se perder no interesse imediato. Para se diferenciar das
demais publicações, recursos como a interpretação e a investigação permitem
às revistas garantir a circulação de uma edição por mais tempo.
Os fatos e notícias selecionados estão ligados à tematização da revista, e
é através dela que o leitor faz suas escolhas sobre a partir de qual perspectiva
deseja se informar. Como todos os meios de comunicação, as revistas também
fazem representações e dão sentido à realidade segundo suas percepções.
“Entre os referentes e a revista que você carrega em sua mão, há uma série de
processos que transformam a realidade, e essa realidade nem sempre dever ser
confundida com verdade. A revista carrega um mundo dentro de si, e não o
mundo. Isso sim não se deve esquecer” (França, 2013, p. 105).
As revistas também sofrem com a crise do impresso, mas, por sua origem,
sua tendência à especialização e periodicidade diferenciada, têm de se adaptar
menos. Segundo Scalzo (2011), enquanto o jornal nasceu com a marca explícita
do engajamento político, a revista surgiu segmentada para complementar a
educação, aprofundar-se nos assuntos e serviços oferecidos aos leitores.
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Revista une e funde entretenimento, educação, serviço e interpretação
dos acontecimentos. Possui menos informação no sentido clássico (as
“notícias quentes”) e mais informação pessoal (aquela que vai ajudar
o leitor em seu cotidiano, em sua vida prática). Isso não quer dizer que
não busquem exclusividade no que vão apresentar a seus leitores, ou
que não façam jornalismo. A questão é: o que é o jornalismo de
revista?. (Scalzo, 2011, p. 14)
Ela lembra que muitas pessoas querem colecionar revistas, que recortam
artigos e guardam, que os leitores de determinadas revistas se comportam quase
como sócios de um clube exclusivo, que elas são objetos queridos, enfim, citando
o editor espanhol Juan Caño define a revista como uma publicação que mantém
uma história de amor com o leitor.
A revista funciona melhor quando sabe qual é o seu público. Isso permite
uma conversa mais direta com ele, significa que a linguagem é diferente do texto
dos jornais. Há duas regras básicas para o jornalista, em especial àquele que
escreve para revista. A primeira: “não escrever para si mesmo. Principalmente
no jornalismo de revistas, o leitor é alguém específico com cara, nome e
necessidades próprias” (Scalzo, 2011, p. 54).
A autora faz uma ressalva, na verdade uma excepcionalidade. “A não ser
que você esteja fazendo uma revista destinada a um grupo do qual você,
coincidentemente, faça parte, nem sempre o que você gostaria de ler é o que,
de fato, o leitor quer, procura e precisa” (Scalzo, 2011, p. 54).
O jornalista deve escrever para esse “alguém” que já é (ou deveria ser)
conhecido dele. A segunda regra decorre da primeira: “imagine-se como um
prestador de serviços, alguém que dá informações corretas, e não um ideólogo
ou um defensor de causas e bandeiras” (Scalzo, 2011, p. 54). O repórter dá
informações e serviços, não discursos ou literatura.
O jornalista de revista deve estar mais ligado na importância gráfica da
apresentação das reportagens. A qualidade do papel permite uma sofisticação
maior do que no jornal. Por isso, o repórter deve ter em mente as potencialidades
gráficas do levantamento jornalístico que está realizando. Deve pensar na melhor
forma de apresentar ao público o que ele tem nas mãos.
A parceria com o fotógrafo e noções básicas de infografia são de grande
valia. Não quer dizer que tenha de dominar a infografia ou a diagramação, mas
deve imaginar como ficaria a sua reportagem nas páginas e conversar com a
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equipe para descobrir a melhor forma de apresentá-la graficamente. “O texto, por
mais perfeito que seja, será sempre [mais bem] compreendido e atraente quando
acompanhado de uma boa fotografia ou de um infográfico bem feito. Assim,
dominar um pouco a linguagem visual é fundamental” (Scalzo, 2011, p. 58).
Uma das estratégias para “fisgar o leitor” é um texto bem encadeado.
“Para encadear bem um texto não há segredo: é preciso estabelecer um plano
do que se vai escrever (o que serve especialmente para matérias longas) e
depois procurar as melhores palavras, as melhores frases, reescrevendo-as
quantas vezes for necessário, ou possível” (Scalzo, 2011, p. 77).
Mas há outros conselhos, como o de evitar os lugares comuns, o de ler o
texto em voz alta para ver se está fluindo, se não há cacófatos ou períodos muito
longos que façam o leitor perder o fôlego. Sempre que possível, dê o texto para
outra pessoa ler e aceite sugestões de mudanças. Além, é claro, do sempre
presente conselho repetido por dez entre dez bons jornalistas ou escritores:
quem quer escrever deve ler bastante, principalmente os bons autores.
3.1 O estilo magazine
O estilo do texto é uma das marcas diferenciais da revista em relação aos
demais meios de comunicação. Vilas-Boas (1996) também aponta o contexto do
tema tratado como grande diferencial no texto de revista, assim como o ponto de
vista do autor. “Devemos entender o ponto de vista como primordial ao
desenvolvimento do texto” (Vilas-Boas, 1996, p. 21).
A falta de espaço e a pretensa neutralidade dos jornalistas ofusca essas
características nos jornais. Já o estilo de escrita, relacionado de forma direta ao
autor, encontra mais espaço na revista. “O estilo está vinculado ao tempo, ao
espaço, à interpretação que o autor dá às suas experiências, leituras e a toda
sua relação com o que o cerca” (Vilas-Boas, 1996, p.33).
Segundo o autor, o que caracteriza o estilo são as escolhas entre muitas
possibilidades disponíveis para a produção do texto. Daí ser comum encontrar
técnicas literárias nos textos de revista. “O texto de uma revista semanal é mais
investigativo e interpretativo, menos objetivo e mais criativo. Quanto à
criatividade, aproxima-se muito do estilo literário” (Vilas-Boas, 1996, p. 41).
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Em alguma medida, esse estilo dependerá do intervalo entre uma edição
e outra, tendo em vista que ela poderá ser semana, quinzenal, mensal, semestral
ou anual. Assim, “a periodicidade é um fator determinante do estilo de texto de
uma revista” (Vilas-Boas, 1996, p. 101). Esse intervalo ajudará na seleção dos
assuntos a serem publicados e na definição dos enfoques dos temas.
TEMA 4 – ABERTURA DE REPORTAGEM
A abertura de uma reportagem é um dos pontos principais do jornalismo
impresso. De nada adiantará uma boa história se, na hora de escrever, o repórter
falhar no português, errar as concordâncias verbais, trocar nomes e funções de
pessoas ou simplesmente escrever de uma maneira tão chata que o leitor perca
o interesse logo nas primeiras frases.
Se o jornalista não cativar o leitor, ele não lerá nem uma nota inteira,
quanto mais uma grande reportagem. O jornalista não é um artista. Trabalha em
função da informação, é um prestador de serviços, no máximo um artesão, mas
se não souber o que e como escrever, o jornalista pode sentir a angústia de um
escritor com bloqueio criativo diante de uma página em branco.
Antes de escrever, o repórter deve cumprir todas as etapas de produção
da reportagem, ou seja, conferir a pauta e suas possibilidades, levantar a história
com documentos e testemunhos, checar tudo e ouvir os envolvidos. Enfim, tem
de fazer um bom trabalho para que no planejamento gráfico haja um melhor
aproveitamento de texto, imagens e infográficos.
Então, chega a hora de escrever. É preciso uma boa narrativa que atraia
e prenda o leitor do começo ao fim do texto. O repórter tem de decidir qual é a
melhor maneira de começar a contar essa história.
Basicamente, há duas maneiras de se começar uma reportagem: a
primeira é usando a técnica do lide e da pirâmide invertida, a segunda é de
qualquer outro jeito. Essa amplitude de possibilidades da segunda opção torna
mais livre a abertura de um texto, mas, ao mesmo tempo, mais difícil.
Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari analisaram várias formas de abertura
de textos jornalísticos e resumiram num capítulo do livro Técnica de Reportagem
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(1986). Eles apontam seis principais maneiras de abertura de reportagem que se
aproximam de um estilo mais literário:
• Realçar a visão (abertura fotográfica, cinematográfica ou descritiva) –
Realça dados visuais no começo de uma reportagem, como a descrição
de um local ou de uma pessoa.
• Realçar a audição (citação-declaração, real ou imaginária) – Frase dita
por alguém, com impacto suficiente para surpreender e atrair a leitura.
• Realçar a imaginação (abertura comparativa ou imaginativa) – Tenta
fazer o leitor imaginar uma situação.
• Realçar a pessoa (contar a história pessoal, colocando-se em causa ou
pondo em cena o leitor) – Muito usado em perfis e matérias de
comportamento.
• Jogar com fórmulas (frases feitas ou clichês, retendo-os tal e qual ou
alterando-os) – É mais recomendável quando se altera, parafraseia, para
o lado divertido.
• Jogar com as palavras (trocadilhos, paradoxos, anedotas etc.) –
Assemelha-se com o uso das fórmulas, mas maneira mais anedótica.
Sodré e Ferrari (1986) já haviam se debruçado sobre o que caracteriza
uma reportagem, chegando a quatro principais características:
• Predominância da forma narrativa;
• Humanização do relato;
• Texto de natureza impressionista;
• Objetividade dos fatos narrados.
Os autores explicam que, na composição de qualquer reportagem, uma
dessas características pode sobressair, mas uma delas é essencial: a narrativa
(ainda que de forma variada), pois sem ela um texto jornalístico não poderá ser
chamado de reportagem. Sobre as aberturas, aconselham que elas se adaptem
às características de cada tipo de reportagem, conforme estas dicas:
• Na entrevista, uma citação;
• Na de fatos, a principal sequência narrativa (em forma de notícia);
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• A documental permite (e talvez exija) maior originalidade nas aberturas.
No mesmo livro, os autores citam uma estratégia narrativa do premiado
jornalista José Hamilton Ribeiro, que elaborou até uma fórmula para se chegar a
um bom texto jornalístico. Veja:
A interpretação da fórmula de José Hamilton Ribeiro é simples: Grande
Reportagem (GR) é igual a um Bom Começo (BC) mais Bom Final (BF), sobre
Trabalho (T) multiplicado por Talento (T), elevados à enésima potência.
TEMA 5 – O TEXTO ROMANCEADO
A palavra é o instrumento de trabalho tanto do jornalista quanto do
escritor de ficção. A ambos têm como finalidade contar uma história, embora o
jornalista seja guiado pela realidade e temas factuais e o escritor ficcional, pela
sua imaginação e capacidade criativa.
O jornalista e escritor Gabriel García Márquez não via diferenças entre o
romance e o jornalismo: “as fontes são as mesmas, o material é o mesmo, os
recursos e a linguagem são os mesmos” (Márquez, 1989, p. 327). Contudo, a
verdade e a imaginação demarcam os limites da responsabilidade do jornalista
e do autor de ficção.
García Márquez diz que um único fato falso pode pôr em xeque o trabalho
jornalístico. “Já em ficção, um único fato verdadeiro dá legitimidade ao trabalho
inteiro. Esta é a única diferença e ela repousa no compromisso do escritor. Um
romancista pode fazer qualquer coisa que queira, contanto que faça com que as
pessoas acreditem” (Márquez, 1989, p. 327).
Vimos nas aulas anteriores que jornalismo e literatura sempre estiveram
próximos, sobretudo no jornalismo literário, que empresta fórmulas da literatura
de ficção para textos informativos. Dessa fusão surgem o romance-reportagem,
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o conto-reportagem e a crônica-reportagem. Vamos a uma síntese de cada
um, para depois buscar os pontos em comum.
• Romance: pertence ao gênero narrativo na forma literária, que apresenta
uma história completa, com enredo, marcação do tempo, ambientação e
personagens bem definidos.
• Crônica: gênero textual curto, escrito em prosa com linguagem simples e
coloquial, apresenta poucos personagens (se houver) e aborda
acontecimentos do cotidiano.
• Conto: texto curto cuja história se desenvolve em torno de um enredo, a
partir de um evento que dá origem aos acontecimentos da narrativa. Tem
a presença do narrador, poucos personagens e tempo delimitado.
• Reportagem: gênero textual jornalístico, não literário, produzido a partir
de fatos comprováveis, de forma objetiva ou subjetiva, discurso direto ou
indireto, linguagem simples, clara e dinâmica.
A junção do gênero reportagem a qualquer dos outros três precisa
considerar que o objetivo é contar histórias verdadeiras, acontecimentos
comprováveis. O que se busca é um bom texto. Sodré e Ferrari (1986, p. 75)
citam o russo Tchekhov e o americano Edgar Allan Poe para exemplificar o que
pode ser considerado uma boa escrita e transportar isso para o texto jornalístico:
“Tchekhov, contista e jornalista russo, dizia que um bom conto deveria ter: força,
clareza, condensação e novidade. Edgar Allan Põe exigia que a história curta
tivesse uma ‘unidade de efeito’, que consiste na dosagem de tensão em relação
ao tamanho do conto”.
A seguir, passam a explicar cada uma dessas “exigências” que um bom
texto deve conter, e que serviria tanto para a literatura quanto para o jornalismo.
Aqui vai um resumo desses pontos aplicados ao jornalismo, tomando por base a
obra de Sodré e Ferrari (1986, p. 75-76):
• Força – o texto que tem força arrebata o leitor e o segura até o fim da
narrativa. Isso depende da seleção de elementos (isto é, omissão ou
expansão de pontos) que produzem um efeito ao serem combinados em
sequência. Esse efeito pode ser de ordem emotiva ou racional. Uma obra
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pode “fisgar” o receptor pela emoção ou pela razão. A força da obra está
nesta capacidade de “captura”.
• Clareza – é indispensável ao jornalismo, trata da objetividade narrativa,
para a compreensão imediata. O excesso de detalhes pode obscurecer a
história ao invés de enriquecê-la. No conto, objetividade e economia são
necessários devido ao tamanho e unidade de efeito; na reportagem, além
de exigência do “médium”, são vitais para não perder a força do texto e
manter o leitor interessado na história.
• Condensação – ou compactação de elementos. Diz respeito não apenas
ao acúmulo, mas à concentração e síntese com que se manipulam os
recursos narrativos e descritivos. Aqui, outra vez, o exagero do
detalhamento é mortal. Condensar ou compactar significa criar
aproximação de elementos no segmento narrativo, através da supressão
de aspectos intermediários supérfluos.
• Tensão – Está ligada à dosagem com que os elementos são dispostos
em sequência (levando em conta a condensação), fazendo com que essa
dosagem sirva a um clímax, isto é, vá em direção a um ponto máximo
dentro da história. É um retardamento proposital da narrativa, que cria o
"suspense" necessário à manutenção da curiosidade do leitor.
• Novidade – pode estar ligada a um acontecimento inédito (uma história
surpreendente), mas também se refere a uma observação diferente de
assuntos, fatos, pessoas. Não significa romper com as estruturas formais
(embora isso possa ocorrer devido ao conteúdo), mas sobretudo uma
abordagem original. Refere-se ao caráter de imprevisibilidade que um
texto possa conter, tanto no conteúdo quanto na forma.
As três últimas características – tensão, condensação e novidade – são
fundamentais para instaurar a primeira: força. Quanto à clareza, é necessária
em todo o texto, ainda que seja fraco (Sodré; Ferrari, 1986, p. 76).
Tendo em vista essas características, a reportagem-conto se diferencia
da reportagem-crônica por dar mais destaque à ação. Escolhe um ou mais
personagens para humanizar o tema e conduzir o texto. Os dados documentais
entram “dissimuladamente na história” (Sodré; Ferrari, 1986, p. 76).
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A reportagem-crônica tem caráter impressionista, com o narrador
conduzindo suas reflexões sobre determinado assunto (como se verifica nas
reportagens de João do Rio). Há poucos ou nenhum personagem e quando
existe é o narrador que flagra suas atitudes e comportamentos e passa a falar
sobre eles.
Na reportagem-crônica, não se tem o personagem agindo e conduzindo a
reportagem, como no conto. Por não ser factual, não é caracterizada como
notícia, embora possa usar alguns recursos da fact-story, action-story ou quote
story. Trata mais de assuntos do cotidiano, sem um fato ou ação que o provoque.
É mais circunstancial e ambiental.
O que distingue a reportagem-crônica da crônica em si, segundo Sodré e
Ferrari, é que para ser reportagem, necessita-se de um fato não inventado e de
alguém testemunhando o fato. O narrador escreve como se tivesse presenciado,
como se fosse uma testemunha, mesmo que isso não tenha acontecido e só
reproduza o que colheu em pesquisa e entrevistas.
Saiba mais
A International Journalists Net (IJNet) traz 5 dicas do jornalista Alberto
Saucedo Ramos sobre como escrever uma boa narrativa jornalística. Leia neste
link: <[Link]
jornal%C3%ADstica>.
TROCANDO IDEIAS
Uma das características centrais do texto noticioso é a sua capacidade de
se fazer entender por todos os públicos. Para isso, se diferencia de outros tipos
de linguagens, de forma a ser mais claro e objetivo. Assim, nasceram as fórmulas
do lide e da pirâmide invertida.
Além dessas fórmulas, há muitas outras formas de se expressar no texto
jornalístico, como as variações do jornalismo literário, a exemplo da reportagem-
romance, da reportagem-conto e da reportagem-crônica. Em todos os casos, é
necessária uma abertura forte o suficiente para segurar o leitor na história.
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Mas, ainda que a estética do texto predomine, ela não poderá prescindir
da apuração sustentada em fatos, condição básica para que qualquer texto seja
considerado jornalismo.
NA PRÁTICA
Que tal você ver na prática como são as aberturas de reportagens? Pegue
seu jornal ou revista preferida e dê uma olhada nas reportagens. Veja como elas
são escritas e tente ver quais são as técnicas utilizadas na abertura. Compare
os resultados com as definições de Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari que
vimos nesta aula.
FINALIZANDO
Nesta aula, falamos sobre textos jornalísticos de jornais e revistas. Vimos
que saber o português e escrever bem é essencial para uma reportagem, mas
também uma boa apuração. Todo jornalista tem de saber apurar e escrever,
mesmo quem trabalha em rádio ou televisão. Também vimos a presença da
internet está fazendo com que a mídia impressa repense suas fórmulas.
Até o texto impresso passa por transformações com a chegada da
Internet. Ainda não sabemos até que ponto isso vai influenciar o jornalismo, pois
estamos no meio desse processo. Mas já há mudanças. Analisamos também as
possibilidades de abertura de reportagens, além do lide e da pirâmide invertida,
e então voltamos a falar da aproximação do jornalismo e da literatura.
Espero que tenha gostado e que chegue à conclusão de que é preciso ler
e escrever bastante para ter um bom texto.
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REFERÊNCIAS
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BARON, M. As pessoas esperam que as notícias venham até elas, diz editor
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