Experimentos Didáticos de Cristalização
Experimentos Didáticos de Cristalização
Dissertação de Mestrado
Programa de Pós-Graduação em Mineralogia e Petrologia
(versão corrigida)
São Paulo – Brasil
2012
1
Ficha catalográfica preparada pelo Serviço de Biblioteca e Documentação do
Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo
2
Ao meu pai Seu Diocílio (in memorian)
3
Agradecimentos
Agradeço primeiramente ao Professor Dr. Fábio Ramos Dias de Andrade, meu amigo
acima de tudo, por toda dedicação, sabedoria, ensinamentos, calma e bom senso. Portador de
uma paciência infinita soube suportar meus altos e baixos nunca desistindo de me orientar,
acreditando sempre no potencial que nem eu mesmo sabia que tinha. “Quando crescer, quero
ser como ele”.
No meio da minha luta para conseguir este mestrado, conheci uma senhora que mesmo
estando comigo por pouco tempo, sempre acreditou em mim. Não me faltaram por parte dela,
palavras nem qualquer gesto de incentivo. Ela se foi no meio da luta, mas não posso deixar de
agradecer o amor e a confiança, obrigado Dona Nair.
Agradeço à minha mãe, muito obrigado por tudo, sua presença sua confiança, sua luta
e dedicação em cuidar de cada detalhe para que eu chegasse até aqui. Não vou conseguir
expressar minha gratidão...muito obrigado.
Agradeço ao meu pai, por cada palavra de incentivo, cada centavo investido, cada
oração. Veio de longe para São Paulo, se casou e teve três filhos. Mesmo sendo o primeiro
deles, não me tratou de maneira diferente dos outro dois. Para os três investiu atenção e
dinheiro da mesma forma, com a mesma dedicação, com o mesmo suor.
Trabalhou por muitos anos, até se aposentar, em um banco como escriturário. Mais
tarde eu soube que todo décimo terceiro era gasto com material escolar. Realmente, não me
lembro de ver meu pai organizando uma viagem, comprando um imóvel ou um carro. O
salário curto era para o alimento, as roupas, o aluguel da casa e o material escolar. Durante
toda a vida acadêmica nunca me faltou o uniforme novo, o par de sapatos que tinha que durar
o ano todo, lápis, livros, ou uma mala para carregá-los. Muitas vezes as coisas não eram como
queria, mas de uma certa maneira, eu sabia desde cedo que aquilo era adquirido com
sacrifício.
Mesmo com uma presença, por vezes autoritária, não me lembro de sentir medo em
mostrar-lhe uma nota baixa. Quando acontecia a resposta era imediata: estude para melhorar
na próxima. Ele repassava a responsabilidade, e a "obrigação" de se tirar uma nota boa era só
minha, e se eu tinha que melhorar, era para mim e não para ele, isso ele sempre deixou muito
claro. Conseguiu dessa maneira me fazer sentir prazer em estudar, sentimento que possuo até
hoje.
4
Estudei até o segundo grau sem nunca repetir de ano. Não era um aluno brilhante, era
dedicado, o que me ajudava muito. Terminando o segundo grau, hoje ensino médio, ficou no
meu coração a vontade de fazer faculdade. Pensei em medicina, estudei biologia marinha, mas
foi aqui na geologia que me encontrei e sou feliz. Ele não me viu terminar a graduação, nem
está aqui agora vendo me tornar um mestre, mas sinto ele perto de mim. Com certeza sem
entender muito sobre o assunto desta dissertação, mas feliz em ver que consegui. Esta era sua
frase favorita: Estude para ser alguém na vida...pois bem meu pai, hoje eu sou geólogo e
mestre, obrigado.
5
Abstract
6
Resumo
7
SUMÁRIO
1. Introdução ......................................................................................................................................... 21
2. Objetivos ........................................................................................................................................... 22
3. Materiais e métodos .......................................................................................................................... 23
4. Revisão bibliográfica......................................................................................................................... 26
[Link] .......................................................................................................................................... 67
5.1 - Acetato de Cálcio ...................................................................................................................... 67
5.2 - Fosfato monobásico de amônia ................................................................................................. 73
5.3 - Tartarato de sódio e potássio..................................................................................................... 78
5.4 - Sulfato de cobre II..................................................................................................................... 88
5.5 - Cloreto de sódio ........................................................................................................................ 97
5.6 - Cromato de sódio tetra-hidratado............................................................................................ 110
5.7 - Bromato de sódio .................................................................................................................... 114
5.8 - Acetato de cobre mono-hidratado ........................................................................................... 119
5.9 - Nitrato de sódio ....................................................................................................................... 127
5.10 - Sulfato de magnésio hepta-hidratado .................................................................................... 132
5.11 - Sulfato de níquel hexa-hidratado .......................................................................................... 137
5.12 - Sulfato de Alumínio e Potássio ............................................................................................. 147
5.13 - Ferrocianeto de potássio ....................................................................................................... 157
5.14 - Clorato de sódio .................................................................................................................... 162
5.15 - Cloreto de potássio................................................................................................................ 166
6. Experimentos e aplicações didáticas ............................................................................................... 171
7. Discussão......................................................................................................................................... 181
8. Conclusões ...................................................................................................................................... 187
8
Sumario de tabelas
Tabela 1. Sais utilizados nos experimentos de cristalização e sua solubilidade. Fonte IUPAC
(2011) ............................................................................................................................. 25
Tabela 3. Sólidos com mesmo volume e formas variadas. Fonte: Guinier (1996)......... 39
Tabela 14. – Características do Sulfato de cobre II. Fonte: IUPAC (2012) ................... 89
Tabela 15. Dados de evaporação de solução de sulfato de cobre II (área de evaporação 38,46
cm2): A – Em repouso com suporte, B – Em repouso I, C – Em repouso II. ................. 90
Tabela 16. Dados de evaporação de solução de sulfato de cobre II (área de evaporação 38,46
cm2): D – Crescimento cristalino em repouso e da água destilada. ................................ 91
9
Tabela 17. Medidas da semente e do volume da solução do experimento crescimento
cristalino em repouso do sulfato de cobre II................................................................... 93
Tabela 19. Dados de evaporação do cloreto de sódio pureza analítica (PA) (área de
evaporação 38,46 cm2): A – em repouso com suporte, B – em repouso I, C – em repouso II.
........................................................................................................................................ 99
Tabela 20. Dados de evaporação de solução de cloreto de sódio sal grosso (SG) (área de
evaporação 38,46 cm2): A – crescimento cristalino em repouso; B – Crescimento cristalino
com agitação. ................................................................................................................ 100
Tabela 21. Medidas da semente e do volume da solução do experimento com cloreto de sódio
(SG) Crescimento cristalino em repouso. ..................................................................... 103
Tabela 25. – Características do bromato de sódio. Fonte: IUPAC (2012) ................... 115
Tabela 26. - Dados de evaporação de solução de bromato de sódio (área de evaporação 38,46
cm2): A – Em repouso com suporte, B – Em repouso I, C – Em repouso II. ............... 116
Tabela 28. Dados de evaporação de solução de acetato de cobre hidratado (área de evaporação
38,46 cm2): A – em repouso com suporte, B – em repouso I, C – em repouso II. ....... 121
Tabela 29. – Características do nitrato de sódio. Fonte: IUPAC (2012) ...................... 128
Tabela 30. Dados de evaporação de solução de nitrato de sódio (área de evaporação 38,46
cm2): A – Em repouso com suporte, B – Em repouso I, C – Em repouso II. ............... 129
10
Tabela 34. Dados de evaporação de solução de sulfato de níquel hexa-hidratado (área de
evaporação 38,46 cm2): A – Em repouso com suporte, B – Em repouso I, C – Em repouso II.
...................................................................................................................................... 139
Tabela 43. Características do clorato de sódio. Fonte: IUPAC (2012) ........................ 163
Tabela 44. Dados de evaporação do clorato de sódio (área de evaporação 38,46 cm 2): A –
sementeira em repouso, B – em repouso I, C – em repouso II. .................................... 164
Tabela 45. Características do cloreto de potássio. Fonte: IUPAC (2012) .................... 167
Tabela 46. Dados de evaporação de solução de cloreto de potássio (área de evaporação 38,46
cm2): A – sementeira em repouso, B – em repouso I, C – em repouso II. ................... 168
Tabela 47. Matemática para o ensino fundamental, (MEC/SEF, 1997b, 1998). .......... 173
Tabela 48. Ciências Naturais para o ensino fundamental, (MEC/SEF, 1997b). .......... 175
Tabela 49. Química para o ensino médio, (MEC/SEF, 1997c). ................................... 177
Tabela 50. Matemática para o ensino médio, (MEC/SEF, 1997c). .............................. 179
11
Sumario de figuras
Figura 1. Arranjo dos íons na estrutura do NaCl. As dimensões e distâncias relativas não
estão em escala. Fonte: Krauskopf, (1972) .................................................................... 26
Figura 2. Arranjo dos íons na estrutura do NaCl, com dimensões desenhadas em escala.
Fonte: Krauskopf, (1972) ............................................................................................... 27
Figura 3. Raios dos íons comuns em minerais constituintes de rochas. Fonte: Krauskopf,
(1972) ............................................................................................................................. 29
Figura 4. Relação entre a razão de raio e número de coordenação em duas dimensões. Fonte:
Krauskopf (1972). ........................................................................................................... 30
Figura 6. A estratura básica de um cristal de gelo é formada por uma molécula de água
envolvida por outras quatro, situadas nos vértices de um tetraedro. Dois átomos de oxigênio
vizinhos estão ligados por pontes de hidrogênio ([Link], molécule La Merveilleuse,
Interéditions, 1979).Fonte: Guinier (1996) .................................................................... 35
Figura 8. Uma molécula é ligada a suas vizinhas por forças de Van der Waals. Quando a
molécula está na superfície, as forças têm uma resultante F perpendicular à superfície e
dirigida para o interior. Fonte: Guinier (1996) ............................................................... 39
Figura 9. Exemplos de fenômenos de capilaridade. (a). Ascensão da água num tubo fino (3
cm para a água num tubo de 1 mm de diâmetro); (b). formação da gota na saída de um conta-
gotas. Fonte: Guinier (1996) ........................................................................................... 40
Figura 10. Diagrama de equilíbrio de uma mistura água-álcool isobutílico. Um estado (T,c)
cujo ponto representativo está acima da curva é uma solução homogênea. Abaixo da curva há
separação, ou seja, coexistência de duas faces, de concentração c1 e c2, que são as soluções
homogêneas limites à temperatura T. Fonte: Guinier (1996) ......................................... 43
Figura 11. Esquema do íon Cr3+ solvatado com seis moléculas de água. Fonte: Guinier (1996)
........................................................................................................................................ 48
Figura 12. Volume de uma solução de SO4Mg em 1000cm3 de água em função da massa de
sal dissolvido (Lewis e Randall, Thermodynamique, MacGraw Hill). Fonte: Guinier (1996)
........................................................................................................................................ 49
12
Figura 13. – Diagrama esquemático mostrando a dependência da energia livre de Gibbs com
o tamanho da partícula. ∆G, energia livre; r representa o tamanho da partícula, e rc é o
tamanho crítico; ∆Gv variação de energia para o volume proporcional a r3; ∆Gs variação de
energia para a superfície porporcional a r2. Fonte: Sunagawa, (2005) ........................... 53
Figura 16. - Diagrama de fases de um sistema binário condensado com a fronteira da zona
metaestável representada. (∆W) equivale à variação de concentração, (∆T) é a variação de
temperatura e Weq é a curva de solubilidade. Fonte: Nývlt et al (2001) ........................ 58
Figura 17. – Taxas de crescimento das faces de dois cristais. Fonte: Mullin (1961) .... 62
Figura 18. – Modelo de crescimento de cristais sem deslocamentos: (a)migração para local
desejado; (b) camada completa; (c) nucleação de superfície. Fonte: Mullin (1961) ...... 63
Figura 22. Gráfico comparativo da taxa de evaporação da solução de acetato de cálcio e água
destilada. ......................................................................................................................... 69
Figura 24. Fotos do experimento em repouso com suporte do acetato de cálcio; (a) foto em
16/out/2011; (b) foto em 22/out/2011; (c) foto da parede do recipiente em 22/out/2011; (d)
sementes recolhidas das paredes do recipiente. .............................................................. 71
Figura 25. Fotos do experimento em repouso I, acetato de cálcio. (a) Sementes escolhidas e
colocadas para secar; (b) Semente amarrada com uma linha; (c) a (h) Procedimento de
mergulho da semente em solução para observação do crescimento cristalino que ao contrário
se dissolveu completamente. .......................................................................................... 72
13
Figura 28. Prisma tetragonal de base quadrada. Fonte Neves et al (2011).................... 76
Figura 30. Cristais de fosfato monobásico de amônia obtidos em experimentos aleatórios: (a)
Resultado final, cristais apresentando o sistema cristalino tetragonal, característico deste sal;
(b), (c) e (d) Faces caracterizando o sistema cristalino deste sal. ................................... 77
Figura 31. Taxas de evaporação dos experimentos de tartarato de sódio e potássio e da água
destilada. ......................................................................................................................... 79
Figura 32. Taxa de evaporação entre a água destilada e crescimento cristalino em repouso do
tartarato de sódio e potássio. .......................................................................................... 80
Figura 33. Fotos do experimento do tartarato de sódio e potássio em repouso com suporte: (a)
Cristais formados no suporte de granito; (b) Cristais no suporte e no fundo do recipiente; (c)
Cristal no fundo do recipiente; (d) Suporte com cristais retirados e secos para medidas e
encerramento do experimento; (e) Cristal geminado produzido no fundo do recipiente; (f)
Cristal com as características do sistema ortorrômbico.................................................. 82
Figura 40. Fotos de cristais idiomórficos produzidos pelo sal tartarato de sódio e potássio. (a),
(b), (c) e (d) Cristais apresentando características do sistema ortorrômbico.................. 88
Figura 41. Curva de solubilidade do sulfato de cobre II. Fonte: IUPAC (2012)........... 89
Figura 42. Gráfico comparativo entre as taxas de evaporação dos experimentos com sulfato
de cobre II e da água destilada........................................................................................ 90
14
Figura 43. Taxas de evaporação do experimento de crescimento cristalino em repouso com
sulfato de cobre II e da água destilada. ........................................................................... 91
Figura 46. Taxa de crescimento cristalino em repouso do sulfato de cobre II. ............. 94
Figura 47. Fotos do experimento de crescimento cristalino em repouso do sulfato de cobre II.
(a) e (b) detalhe do espaço vazio entre a semente e a linha, resultado de dissolução parcial; (c)
e (d) Linha completamente envolvida pelo crescimento do cristal. ............................... 95
Figura 49. (a) e (b) Faces bem formadas classificando o sulfato de cobre II como bom para
utilização como recurso didático. ................................................................................... 96
Figura 50. Curva de solubilidade do cloreto de sódio. Fonte: IUPAC (2012) .............. 97
Figura 51. Taxas de evaporação dos experimentos com cloreto de sódio pureza analítica (PA)
e da água destilada. ......................................................................................................... 99
Figura 52. Taxas de evaporação dos experimentos com cloreto de sódio comercial sal grosso
(SG) e da água destilada. .............................................................................................. 100
Figura 54. Crescimento cristalino da semente de cloreto de sódio sal grosso (SG) em
experimento de crescimento cristalino em repouso. ..................................................... 103
Figura 56. Fotos do experimento crescimento cristalino com agitação do cloreto de sódio sal
grosso (SG). (a) Semente escolhida; (b) Solução no agitador magnético isolado por placa de
isopor; (c) Dissolução parcial da semente; (d) Retirada da semente para medidas; (e) e (f)
Faces cúbicas de crescimento cristalino. ...................................................................... 105
15
Figura 57. Crescimento cristalino em experimento com agitação do cloreto de sódio sal
grosso (SG). .................................................................................................................. 106
Figura 60. (a) Uma seção através de um canto de um cristal de NaCl mostrando íons bem
ligados, densamente empacotados na parte interna do cristal e ligações químicas incompletas
nas superfícies externas do cristal (~ representa ligações incompletas e = representa
completas). (b) Uma supefície do cristal mostrando um degrau sunmicrscópico. A fixação de
íons na localização de tais degraus diminui a energia da superfície do cristal. Essa energia é o
resultado cumulativo de ligações não compeltadas. (c) Grupos submicroscópicos de átomos,
mostrados como blocos, fixados às três superfícies externas de um cristal. Tais blocos criam
degraus para a fixação de novas camadas de íons na superfície externa do cristal. Fonte:
(Kleine Dutrow, 2012).................................................................................................. 109
Figura 62. (a) e (b) Faces bem formadas do sistema cristalino cúbico, classificando o cloreto
de sódio (SG) como recomendável para utilização em experimentos didáticos de cristalização.
...................................................................................................................................... 110
Figura 64. Gráfico comparativo da taxa de evaporação da solução de cromato de sódio tetra-
hidratado e água destilada............................................................................................. 112
Figura 67. Curva de solubilidade do bromato de sódio. Fonte: IUPAC (2012) .......... 115
Figura 68. Taxas de evaporação do bromato de sódio e da água destilada. ................ 116
Figura 69. (a) Sementes produzidas pela solução de bromato de sódio; (b) Semente
mostrando seu tamanho inicial através da linha envolvida pelo cristal. ....................... 117
16
Figura 70. Cubo. Fonte: Neves et al (2011) ................................................................ 118
Figura 71. Octaedro com respectivos índices de Miller e eixos cristalográficos. Fonte:
(Klein, 2007)................................................................................................................. 118
Figura 72. Representação da forma cristalina do bromato de sódio. A face em destaque dos
dois cristais escolhidos pode ser classificada como a face (111) do índice de Miller. . 119
Figura 73. Taxas de evaporação acetato de cobre hidratado e da água destilada. ....... 121
Figura 74. (a) Micro cristais de acetato de cobre hidratado nas paredes do recipiente e na
superfície da solução; (b) Agregado de cristais recolhido 20 dias após o término do
experimento. ................................................................................................................. 122
Figura 75. Fotos de experimentos em repouso do acetato de cobre mono-hidratado. (a) Micro
cristais nas paredes do recipiente e na superfície da solução; (b) Conglomerado recolhido 20
dias após o término do experimento. ............................................................................ 123
Figura 76. Difratogramas sobrepostos dos cristais obtidos a partir da solução de acetato de
cobre hidratado. ............................................................................................................ 124
Figura 77. Difratograma do material macrocristalino prismático, indicando ser composto por
acetato de cobre hidratado. Os cristais obtidos a partir da solução de acetato de cobre
hidratado (C4H6CuO4.H2O), com a presença de uma pequena quantidade de acetato de cobre
hidróxi-hidratado (C2H6Cu2O5.H2O), cujos picos de difração se encontram indexados no
gráfico. .......................................................................................................................... 125
Figura 80. (a) Cristal pequeno de acetato de cobre; (b) faces do cristal idiomórfico de acetato
de cobre......................................................................................................................... 126
Figura 81. Curva de solubilidade do nitrato de sódio. Fonte: IUPAC (2012) ............. 128
Figura 82. Recipiente revestido por micro cristais de nitrato de sódio treze dias após o
término do período de duas semanas de observação, sem a proteção da gaze. ............ 130
Figura 83. Taxas de evaporação do nitrato de sódio e da água destilada. ................... 130
Figura 84. (a) Micro cristais de nitrato de sódio nas paredes do recipiente, três dias após o
término do período de observação; (b) Detalhe de micro cristais; (c) e (d) Revestimento
completo pelo crescimento dendrítico de micro cristais e nitrato de sódio. ................. 131
17
Figura 85. Sistema trigonal ou romboédrico. Fonte: Neves et al (2011). ................... 132
Figura 89. (a) Solução homogênea de sulfato de magnésio hepta-hidratado; (b) Experimento
em repouso com suporte, sem corpo de fundo; (c) Fina camada de sulfato de magnésio
cristalizado na superfície da solução; (d) Pequenos cristais formados dezenove dias depois; (e)
Cristais crescidos no fundo do recipiente; (f) Revestimento de micro cristais de sulfato de
magnésio hepta hidratado. ............................................................................................ 136
Figura 91. Curva de solubilidade do sulfato de níquel hexa-hidratado. Fonte: IUPAC (2012)
...................................................................................................................................... 138
Figura 92. Taxas de evaporação dos experimentos em repouso do sulfato de níquel hepta
hidratado e da água destilada. ....................................................................................... 139
Figura 94. (a) A semente escolhida m=0,72g; (b) O preparo para o início do experimento; (c)
Segunda medida do cristal; (d) Detalhe do envolvimento da linha pela semente; (e) Micro
cristais nas paredes do recipiente; (f) Terceira medida, com 232 % a mais do seu peso inicial.
...................................................................................................................................... 142
Figura 95. (a) Secagem da semente do cristal do sulfato de níquel hepta hidratado para
medidas; (b), (c) e (d) Chegada a 10,21 g em peso, sua medida maior; (e) Crescimento
cristalino na linha de sustentação; (f) Parada de crescimento cristalino nas paredes do
recipiente. ..................................................................................................................... 143
Figura 96. (a) Sétima medida, perda de 13 % em massa; (b) Perda das características iniciais
de formação. ................................................................................................................. 144
Figura 98. Taxa de crescimento do sulfato de níquel hepta hidratado em repouso. .... 145
Figura 105. Fotos do experimento de crescimento cristalino com agitação. (a) Crescimento
de sementes no fundo do recipiente. (b), (c) e (d) Semente escolhida, medida e presa à linha
de sustentação; (e) e (f) Semente inserida na solução. ................................................. 152
Figura 106. (a) Crescimento cristalino de sulfato de alumínio e potássio na linha que suporta
o cristal. (b) Presença de corpo de fundo. (c) Cristal retirado para medidas. (d) Observação da
linha que suporta o cristal, evidência de crescimento cristalino. (e) Cristal de corpo de fundo.
(f) Produto final após 2 semanas de observação e medidas. ........................................ 153
Figura 107. (a) Apresentação de face perfeita do cristal de sulfato de alumínio e potássio.
(b).Apresentação de um cubo-octaedro e uma face que desaparecerá com o crescimento
cristalino. (c) Cristal geminado com face perfeita. (d) Octaedros sobre postos. Exp. 12.8
(Agitação). .................................................................................................................... 154
Figura 109. Octaedro com respectivos índices de Miller e eixos cristalográficos. Fonte: Klein
e Dutrow (2007), .......................................................................................................... 155
Figura 114. (a) Experimento em repouso do ferrocianeto de potássio com suporte, 12 dias
depois; (b) Cristais na superfície do suporte, 21 dias depois final; (c) Solução com corpo de
fundo; (d) Cristais nas paredes internas do recipiente; (e) e (f) Detalhes dos cristais
dendríticos nas paredes do recipiente. .......................................................................... 161
Figura 118. (a) Experimento em repouso do clorato de sódio com suporte logo após o
preparo; (b), (d) e (f) Solução homogênea; (c) e (d) Solução com corpo de fundo. .... 165
Figura 119. Curva de solubilidade do cloreto de potássio (KCl). Fonte: IUPAC (2012)166
Figura 121. (a), (b), (c) e (d) Micro cristais se desenvolvendo na superfície dos experimentos
com o cloreto de potássio. ............................................................................................ 169
Figura 123. Curva de solubilidade do sal (linha contínua) e a região na qual a nucleação e o
crescimento ocorrem (Zona metaestável ou região de Miers entre a linha contínua e a linha
pontilhada). No caso de uma solução, a força motriz do crescimento corresponde à diferença
entre a concentração C∞ e a temperatura de equilíbrio TE da solução saturada, e a concentração
C à temperatura de crescimento TG. (Sunagawa, 2005) ............................................... 182
20
1. Introdução
O que é um cristal?
Na antiguidade, Pitágoras usava a palavra cristal pressupondo perfeição, harmonia e
beleza; Platão relacionava os cristais a cinco poliedros, fogo (tetraedro), terra (cubo), ar
(Octaedro), água (hexaedro) e o modelo do Universo (dodecaedro) (Sunagawa, 2007). Na
Idade Média pensava-se que o cristal fosse a forma permanente do gelo, endurecido pelo
intenso frio das montanhas; daí o nome “cristal” que provém do grego e significa gelo
transparente (Bunn, 1972). No século XVII, Steno (Niels Stensen, 1638-1686) percebeu que
os ângulos entre as faces correspondentes em cristais de uma mesma substância são iguais em
todos os cristais, estabelecendo assim a lei da constância dos ângulos interfaciais; esta foi uma
primeira constatação de que a forma externa simétrica dos cristais é uma consequência do
arranjo regular da matéria no interior dos cristais.
No século XVIII, René Hauy (1743-1822) propôs que os cristais pudessem ser
compostos por partículas (muito pequenas para serem vistas a olho nu) empilhadas de maneira
regular, sendo as várias faces de qualquer cristal expressões macroscópicas deste arranjo
ordenado.
No século XX, a ciência mostrou que esta hipótese estava correta. Novos métodos
para estudar a estrutura das substâncias, como a difração de raios X, mostraram que a ideia do
empilhamento regular era coerente com os estudos anteriores.
Com o desenvolvimento da química, nos últimos 150 anos, grande soma de evidências
foi acumulada em favor dessa hipótese. Desde então, o homem vem estudando os átomos, as
moléculas e as ligações químicas que em conjunto formam estruturas rígidas organizadas com
formas regulares e simétricas, conhecidas como cristais.
Apesar da quase totalidade dos sólidos naturais e artificiais estarem no estado
cristalino, é relativamente incomum a observação direta do crescimento cristalino, em
particular no caso dos cristais macroscópicos idiomórficos. Entretanto é possível observar a
formação de cristais em laboratório através de experimentos de sais solúveis em água em
solução supersaturada. Este trabalho procura demonstrar, a formação de cristais por
evaporação à temperatura ambiente em um período de duas semanas.
A beleza dos cristais produzidos quer na forma de cristais macroscópicos individuais,
geminados ou agregados, incentiva os alunos ou o público em geral a aprofundar os estudos,
não só em relação aos fatores que tomam parte no crescimento, mas também nas áreas
21
correlatas ao tema, seja ele por aspectos ligados à purificação, produção e caracterização do
cristal, ou ao estudo de propriedades cristalográficas, além de aplicações tecnológicas
(Teixeira et al., 2007).
2. Objetivos
Este trabalho pretende através de experimentos de cristalização a partir de soluções
saturadas em água destilada, identificar entre os quinze sais testados, quais produzem cristais
num período de duas semanas em condições naturais de temperatura e pressão.
Os objetivos deste trabalho são:
Testar substâncias (sais) solúveis em água quanto à sua capacidade de produzir cristais
macroscópicos a partir de soluções aquosas saturadas em condições normais de
temperatura e pressão;
Definir a taxa de cristalização dos sais testados e a taxa de evaporação das soluções
saturadas, buscando relacionar estas grandezas com as propriedades químicas e físicas
dos reagentes;
Descrever os experimentos de cristalização para que eles possam ser reproduzidos em
ambiente escolar, considerando sua inserção no currículo de ciências do ensino
fundamental e médio, de acordo com os parâmetros curriculares nacionais;
A partir destas atividades testadas, propor atividades práticas didáticas correlatas
envolvendo solubilidade, concentração, cristalização, simetria e propriedades ópticas,
entre outros conceitos de química, física e matemática.
Os procedimentos utilizados e os resultados obtidos servirão para incrementar
didaticamente o que é proposto pelos Parâmetros Curriculares Nacionais para os níveis de
ensino fundamental, médio e alguns cursos de nível superior.
22
3. Materiais e métodos
A aparelhagem utilizada nos experimentos realizados consiste em béqueres de vidro
de volume 250 ml marca Satelit HS 100, bastão de vidro, gaze, elástico, palitos de madeira,
balança de precisão marca Marte, modelo BL3200H de capacidade máxima 3.200 g e mínima
de 0,5 g e dois termômetros, um para temperatura ambiente e outro para a solução. Foi
utilizado também um agitador magnético de marca Fisatom com velocidade máxima de 9.000
RPM, acompanhado por uma “pílula” metálica de 1,5 cm de comprimento revestida por
plástico.
Os sais utilizados estão relacionados na tabela 1 e as soluções foram preparadas para
todos os experimentos por dissolução em 100 ml de água destilada à temperatura ambiente
(25°C) na proporção indicada pela solubilidade de cada sal (tabela 1).
Abaixo a relação do procedimento em laboratório para todos os experimentos:
Utilização de 100 ml de água destilada no preparo de todas as soluções;
Com o auxílio da curva de solubilidade, buscar a quantidade de soluto a 20°C;
Acrescentar mais 10 % do sal à solução;
Preparar a solução à temperatura ambiente;
Cobrir com gaze o experimento para reduzir a interferência de poeira, ou outros
agentes externos;
As medições foram feitas de 48 em 48 horas, durante 2 semanas;
Os experimentos foram fotografados;
Ao final de cada experimento foi confeccionado um relatório minucioso.
Para cada sal foram realizados quatro tipos de experimentos denominados, “em
repouso com suporte”, “em repouso I”, “em repouso II” e com o surgimento da semente “com
agitação”.
Nos experimentos de sementeira em repouso com suporte, um fragmento de rocha foi
introduzido nas soluções com objetivo de estimular a nucleação cristalina. Segundo Teixeira,
[Link] (2007), este procedimento acelera o processo de cristalização e produz cristais
geometricamente perfeitos que crescem agregados ao suporte cristalino. Esta técnica tenta
estabelecer quais os sais que se cristalizam com facilidade e que reações ou outros efeitos
ocorrem entre as substâncias e os suportes.
Com o surgimento das sementes, foram realizados mais três tipos de experimentos
denominados agora como crescimento cristalino em repouso, em repouso com suporte e
23
crescimento cristalino com agitação. Para o crescimento cristalino em repouso e com
agitação, as sementes de cristais foram presas por uma linha com um nó corrediço e suspensas
na própria solução por um palito de madeira, que fica atravessado na abertura do recipiente. Já
no experimento de crescimento cristalino em repouso com suporte, o crescimento da semente
ocorre no fragmento cristalino inserido no começo da preparação do experimento.
Após o preparo, os recipientes com as soluções foram cobertos por uma gaze, para
evitar qualquer interferência externa, e colocados em repouso para evaporação do solvente em
temperatura ambiente. As soluções foram monitoradas por duas semanas e as medidas de taxa
de evaporação (e de cristalização se houver) feitas de 48 em 48 horas.
Neste período as soluções foram pesadas, para medir a taxa de evaporação e os cristais
eventualmente produzidos, foram também pesados e fotografados.
No experimento de cristalização da solução de acetato de cobre observou-se a
formação de cristais com hábito e cor distintos, dos quais foram feitos difratogramas de raios
X em difratometro D5000, radiação K alfa de cobre, no intervalo angular de 3 a 65° 2 – teta,
passo 0,05° e velocidade angular 1 segundo/passo.
24
Tabela 1. Sais utilizados nos experimentos de cristalização e sua solubilidade. Fonte IUPAC (2011)
Diagrama de
Solubilidade Hommel
Sais Fórmula química Fabricante
(g/100ml)
(NFPA 704)
Acetato de Cálcio
1 (CH3COO)2Ca.H2O 34,7 Casa Americana
Hidratado
Fosfato Monobásico de
2 NH4H2PO4 35,7 Casa Americana
Amônia
3
Tartarato de Sódio e
KNaC4H4O6.4H2O 63,0
- Casa Americana
Potássio Tetrahidratado.
Cromato de Sódio
6 Na2CrO4.4H2O 84,0 Casa Americana
Tetrahidratado
10
Sulfato de Magnésio
MgSO4.7H2O 33,7
- Casa Americana
Heptahidratado
11
Sulfato de Níquel Hexa-
NiSO4.6H2O 44,4
- Casa Americana
hidratado
Sulfato de Alumínio e - Vetec Química
12 Kal(SO4)2.12H2O 12,0
Potássio Hidratado. fina
25
Na tabela de características de cada sal aparece um símbolo conhecido como diagrama
de Hommel, mundialmente conhecido pelo código NFPA 704. É uma simbologia empregada
pela Associação Nacional para Proteção contra Incêndios dos EUA (em inglês: National Fire
Protection Association). Nela, são utilizados losangos que expressam tipos de risco em graus
que variam de 0 a 4, cada qual especificado por uma cor (branco, azul, amarelo e vermelho),
que representam, respectivamente, riscos específicos, risco à saúde, reatividade e
inflamabilidade ([Link]).
4. Revisão bibliográfica
Figura 1. Arranjo dos íons na estrutura do NaCl. As dimensões e distâncias relativas não estão em escala. Fonte:
Krauskopf, (1972)
Sabemos que os íons de Na+ e Cl- não são pequenas esferas como estão representados
nos diagramas deste texto. Basicamente um íon simples consiste num núcleo positivo,
26
composto por prótons e nêutrons cercados por elétrons negativos. Tanto o núcleo quanto os
elétrons são muito pequenos em relação à distância que os separam, esta distância representa
um grande vazio (figura 1).
Figura 2. Arranjo dos íons na estrutura do NaCl, com dimensões desenhadas em escala. Fonte: Krauskopf,
(1972)
A carga positiva do sódio (Na+) significa que seu núcleo tem uma carga positiva (um
próton) a mais que os elétrons circundantes, enquanto que a carga negativa do cloro (Cl-)
demonstra que ele tem um elétron a mais (figura 2). As dificuldades aparecem quando
tentamos definir os arranjos e os movimentos dos elétrons. O comportamento dos elétrons não
permite descrever seus movimentos como minúsculas partículas realizando órbitas em torno
do núcleo, como os planetas o fazem em torno do Sol.
Para o nosso estudo, é preciso lembrar que o íon consiste essencialmente em cargas
elétricas e seus “limites” são os limites dos campos elétricos. Os íons também não se
comportam exatamente como esferas rígidas, nem nos fornecem valores precisos de seus raios
e volumes.
O tamanho de um íon é um conceito útil na discussão das estruturas cristalinas.
Podemos fazer os cálculos com o número de Avogadro (6,02 x 1023). Este número, hoje mais
conhecido como constante de Avogadro, tem esse nome em homenagem ao físico italiano que
viveu no século XVIII chamado Amadeo Avogadro. Baseando-se na hipótese sobre o número
de moléculas de uma amostra gasosa, ele conseguiu explicar por que os gases se combinam
em volumes que mantêm as mesmas proporções entre si e ainda concluiu que os gases
nitrogênio, oxigênio e hidrogênio se encontram na natureza na forma diatômica, ou seja, H2,
N2 e O2. Amadeo, utilizando-se de informações já conhecidas e dos resultados das
experiências que ele próprio realizou, formulou, no ano de 1811, uma hipótese relacionada ao
número de moléculas existentes em uma amostra de gás, a qual mais tarde ficou conhecida
27
como a Lei de Avogadro. Esta hipótese diz que volumes iguais, de gases diferentes e à mesma
temperatura e pressão, possuem o mesmo número de moléculas.
Apesar de se saber que isso era verdade, não se tinha ideia exata de quanto seria o
número de moléculas existentes em uma determinada massa gasosa. Esse número de
moléculas passou a ser chamado de número de Avogadro. No início do século XX, o
professor de físico-química da Universidade de Paris, Jean Baptiste Perrin, realizou vários
experimentos que o levaram a conclusão de que o valor do número de Avogadro estaria entre
6,5x1023 e 7,2x1023 moléculas em cada mol de substância. Tempos mais tarde, após
verificações mais precisas descobriu-se que o valor de Avogadro é igual a 6,02x1023
moléculas/mol.
Continuando com o exemplo do cloreto de sódio, se o utilizarmos como números de
cristais iônicos de NaCl ou de íons de Na+, podemos ter uma ideia da ordem de grandeza das
dimensões dos íons por um cálculo relativamente simples. O peso molecular do NaCl é de
58,5g e a densidade é de 2,6 g/cm3, o que significa que estes íons ocupam um volume de
58,5/2,16, ou seja, aproximadamente 27cm3. Se assumirmos que os dois íons têm
aproximadamente o mesmo tamanho, o volume de cada íon seria:
O diâmetro de um íon seria então a raiz cúbica deste número, ou seja, 2,8x10-8 cm e o
raio 1,4x10-8 cm (geralmente indicado por 1,4Å = 1,4 Ångstrom). Concluímos então que os
raios não são iguais, sendo o raio do Cl- igual a 1,8Å e o raio do Na+ aproximadamente 1,0Å
(Krauskopf, 1972).
A figura 3 mostra graficamente os valores dos raios de alguns dos íons mais comuns.
Estes raios foram calculados na hipótese de que o íon tem coordenação octaédrica. Para outros
tipos de coordenação (por exemplo, tetraédrica, como no diamante) os raios seriam diferentes.
No caso do alumínio, o raio “octaédrico” é 0,51Å, já o raio “tetraédrico” é aproximadamente
0,49Å. A coordenação octaédrica é mais utilizada para cátions de interesse geológico e
representa uma boa média entre os extremos encontrados nos cristais, daí serem os mais úteis.
28
Figura 3. Raios dos íons comuns em minerais constituintes de rochas. Fonte: Krauskopf, (1972)
Um arranjo como a estrutura NaCl representa o modelo mais estável, isto é, arranjo no
qual as forças entre partículas são máximas, ou a energia potencial é mínima.
As propriedades macroscópicas são consequência do arranjo interno dos íons, em
particular na simetria, na clivagem e no efeito da luz polarizada. No caso do cloreto de sódio o
formato cúbico dos cristais de halita reflete-se nos três planos de clivagem perpendiculares
entre si, e na capacidade da luz atravessar estes cristais com a mesma velocidade em todas as
direções.
Estas propriedades dos sólidos estão relacionadas ao arranjo geométrico dos íons
considerados graficamente como esferas duras e minúsculas.
A hipótese mais provável para esta afirmação é que uma dada combinação de íons
formará uma estrutura na qual os íons estão agrupados da forma mais compacta possível, pois
isto faria com que as forças de interação fossem máximas. Para ser tão compacto o arranjo do
agrupamento dependeria das dimensões relativas dos ânions e dos cátions.
29
Nesta hipótese, o problema é geométrico, ou seja, como dispor as esferas de tamanho
diferentes de tal forma que seu arranjo seja o mais compacto possível. Dois exemplos são
mostrados na (figura 4).
Figura 4. Relação entre a razão de raio e número de coordenação em duas dimensões. Fonte: Krauskopf (1972).
30
4.2. Tipos de ligações químicas
Em compostos de caráter iônico simples, a característica essencial deste tipo de
ligação é a completa remoção do elétron mais afastado de um dos átomos e sua incorporação
na estrutura do outro, provocando neste último uma carga negativa e deixando uma carga
positiva para o que completa a ligação. Há ligações, nas quais os elétrons são parcialmente
compartilhados pelos átomos em lugar de serem transferidos de um átomo para outro. Neste
caso, o par de elétrons centrais é igualmente partilhado por ambos os átomos, dando a cada
um uma camada externa estável de oito elétrons. Ligações químicas deste tipo, consistindo em
pares de elétrons pertencentes conjuntamente a átomos adjacentes, são chamadas de ligações
covalentes. Os compostos com ligações covalentes diferem dos compostos iônicos, de uma
maneira geral, por sua baixa solubilidade na água e por sua incapacidade de conduzir a
corrente elétrica quando fundidos.
Na maioria das substâncias, as ligações não são nem puramente iônicas nem
puramente covalentes, mas apresentam um caráter intermediário, ou seja, o par de elétrons
entre átomos adjacentes pode ser considerado como ligeiramente deslocado em direção a um
dos átomos, continuando, porém, ligado a ambos.
O termo polar significa que uma das extremidades da ligação é relativamente mais
positiva que a outra. A água é um caso interessante, pois a polaridade das duas ligações não
compensa uma à outra. Este fato mostra então que, a molécula de água não tem uma estrutura
linear e sim angular. Na molécula de água os quatro pares de elétrons em torno do núcleo do
oxigênio estão localizados nos vértices de um tetraedro; o ângulo entre as ligações O-H é de
104,5° valor próximo ao ângulo teórico do tetraedro, que é de 109°28’. Por conta desta não
linearidade, um lado da molécula apresenta uma carga negativa e o outro uma carga positiva
(Krauskopf, 1972).
Muitos compostos polares são solúveis na água, mas, geralmente, não tendem a se
ionizar fortemente como no caso do açúcar e do álcool. Já alguns compostos polares,
entretanto, se dissolvem na água, produzindo íons. E é com estes compostos iônicos que esta
dissertação está embasada, pois muitos sais são solúveis em água.
31
4.3. Eletronegatividade
Eletronegatividade basicamente é a capacidade que um átomo tem de atrair elétrons de
outro átomo quando os dois formam uma ligação química. Assim, um átomo que quando
isolado, possui grande potencial de ionização e grande afinidade eletrônica também
apresentará, quando ligado a outro átomo, grande atração por elétrons, ou seja, terá alta
eletronegatividade.
A eletronegatividade depende de dois fatores: tamanho do átomo e número de elétrons
na última camada. O primeiro fator demonstra que quanto menor é o átomo, maior é a sua
capacidade de atrair elétrons, já que a distância destes núcleos é menor. O segundo se deve à
tendência que os átomos possuem de se tornarem mais estáveis quando completam oito
elétrons na última camada, ou camada de valência.
Átomos com maior número de elétrons na última camada exercem maior atração sobre
os elétrons de outros átomos. É o balanço entre esses fatores que determina qual, dentre dois
átomos, é o mais eletronegativo. Por exemplo, o cloro tem sete elétrons na última camada e o
oxigênio, seis. Se fosse considerado apenas esse fator, o cloro seria mais eletronegativo que o
oxigênio por precisar de apenas um elétron para completar o octeto.
Entretanto, o átomo de oxigênio é tão menor que o de cloro que essa característica
acaba por superar o outro fator. Como resultado, o oxigênio se revela mais eletronegativo que
o cloro. De modo geral, quanto menor o átomo e maior o número de elétrons na última
camada, maior é sua eletronegatividade.
A eletronegatividade de um elemento está relacionada com o seu potencial de
ionização (para cátions) e com sua afinidade eletrônica (para ânions), mas a correlação não é
simples.
Dois exemplos de conjuntos de números indicando eletronegatividade são
apresentados na (tabela 2). Um conjunto, (na coluna “eletronegatividade”) consiste em valores
calculados por Pauling (1960 apud Krauskopf, 1972) a partir das forças de ligação medidas
pelos calores de formação com uma gama arbitrária de valores desde 0,7(menor) para o Césio
(Cs) até 4,0(maior) para o Flúor (F). O outro conjunto (“Porcentagem de caráter iônico”) é
baseado nas eletronegatividades calculadas por Povarennykh (1956 apud Krauskopf, 1972) a
partir dos potenciais de ionização e das afinidades eletrônicas; os números não representam as
eletronegatividades em si, mas porcentagem do caráter iônico das ligações com o oxigênio, a
partir das eletronegatividades calculadas por Smith (1963 apud Krauskopf, 1972).
32
Tabela 2. Raios iônicos e eletronegatividade. Fonte: Krauskopf, (1972)
Caráter
iônico
Números de
Raio para nº de aproximado
Elemento Íon coordenação Eletronegatividade
coordenação 6 da ligação
observados
com
oxigênio, %
Alumínio Al3++ 0,51 4,6 1,5 60
Antimônio Sb3+ 0,76 6 - 66
Sb5+ 0,62 4,6 1,9 48
Arsênico As3+ 0,58 4,6 - 60
As5+ 0,46 4 2,0 38
Bário Ba++ 1,34 8-12 0,9 84
Berílio Be++ 0,35 4 1,5 63
Bismuto Bi3+ 0,96 6,8 1,9 66
Boro B3+ 0,23(0,21,0,22) 3,4 2,0 43
Bromo Br- 1,96 - 2,8 -
Cádimo Cd++ 0,97 6,8 1,7 66
Cálcio Ca++ 0,99 6,8 1,0 79
Carbono C4+ 0,16(0,15) 3 2,5 23
Cério Ce3+ 1,07 6,8 1,1 74
Césio Cs+ 1,67(1,82) 12 0,7 89
Cloro Cl- 1,81 - 3,0 -
Cromo Cr3+ 0,63 6 1,6 53
Cr6+ 0,52 4 - 23
Cobalto Co++ 0,72 6 1,8 65
Cobre Cu+ 0,96 6,8 1,9 71
Cu++ 0,72 6 2,0 57
Flúor F- 1,36 - 4,0 -
Gálio Ga3+ 0,62 4,6 1,6 -
Germânio Ge4+ 0,53 4 1,8 57
Ouro Au+ 1,37 8-12 2,4 49
Háfnio Hf4+ 0,78 6 1,3 62
Índio In3+ 0,81 6 1,7 70
Iôdo I- 2,20 - 2,5 62
Através dos números de Pauling (1960) (apud Krauskopf 1972), pode-se generalizar
que uma ligação formada por dois átomos da tabela é quase que puramente covalente se as
eletronegatividades forem semelhantes e preponderantemente iônicas, e forem muito
diferentes.
33
Como os dois conjuntos de números representam duas maneiras diferentes de calcular
a eletronegatividade, a concordância está longe de ser perfeita.
Concluímos então que a eletronegatividade é um conceito útil, mas no qual não
podemos confiar integralmente para prever de forma correta o caráter das ligações e os
números de coordenação de todos os tipos de compostos (Krauskopf, 1972).
Figura 5. Estrutura da molécula da água. Em torno dos núcleos de O e H foram desenhadas esferas com os raios
de Van der Waals dos átomos. Fonte: Guinier (1996)
Na estrutura do gelo, água no estado sólido (figura 6), os átomos de oxigênio estão
dispostos, cada um com quatro vizinhos situados nos vértices de um tetraedro a uma distância
de 2,76Å. O próton está ligado ao átomo vizinho mediante uma ligação conhecida como ponte
de hidrogênio. Os átomos de hidrogênio estão situados sobre os segmentos (O-O), mas dois
deles se acham perto do átomo central; reproduzindo assim a molécula de água livre. O
ângulo H-O-H aumenta então para 110° em vez de 104,5° como na disposição do estado
líquido.
34
Figura 6. O motivo básico de um cristal de gelo é formado por uma molécula de água envolvida por outras
quatro, situadas nos vértices de um tetraedro. Dois átomos de oxigênio vizinhos estão ligados por pontes de
hidrogênio ([Link], molécule La Merveilleuse, Interéditions, 1979).Fonte: Guinier (1996)
35
4.5. A agitação térmica nos líquidos
Tanto para o líquido quanto para qualquer outro estado da matéria, não existe um
modelo estático, pois as moléculas estão submetidas à inevitável agitação térmica.
As moléculas nos líquidos, porém, estão tão comprimidas entre si que seus
movimentos não podem ser tão livres como nos gases. Muitas, “engaioladas” entre moléculas
vizinhas, só podem vibrar em torno de um centro quase fixo, pois logo que uma molécula se
afasta da posição mais favorável, considerando o seu ambiente, a ação das outras moléculas
próximas tende a fazer com que ela volte à posição anterior. Dois líquidos miscíveis, por
exemplo álcool e água mistura-se lentamente, mesmo se o líquido não for agitado. Assim se
determina que uma molécula de água a 20°C, depois de um segundo, encontra-se em média a
0,04mm da sua posição inicial; e depois de 100 segundos, a 0,4 mm. A 50°C essas distâncias
seriam respectivamente 0,08 e 0,8 mm. Apenas comparando, no ar a 20°C, a molécula se
afasta em média 6 mm em um segundo, o que revela a diferença de liberdade dos movimentos
moleculares no líquido e no gás (Guinier, 1996).
Outra manifestação, em nossa escala, da agitação térmica molecular no líquido é o
movimento browniano. É um movimento perpétuo, que acontece num sistema isolado, à
temperatura rigorosamente uniforme e constante, logo sem intervenção de energia exterior. Se
uma partícula é imersa num líquido, ela se choca continuamente com as suas moléculas.
Considerando a desordem desses movimentos, essas ações se compensam exatamente se um
número bastante grande desses choques acontece simultaneamente. Porém, se a partícula for
muito pequena (< 1µm), o número de moléculas vizinhas será suficientemente pequeno para
que, a cada instante, não haja exata compensação dos choques. De fato, observa-se no
microscópio a partícula sacudida de maneira totalmente irregular (figura 7).
36
Figura 7. Movimento browniano de juma partícula de 0,5µm de diâmetro, em suspensão na água. Para três
experiências sucessivas, a projeção horizontal da trajetória de uma dada partícula é marcada a cada 30 segundos
(experiências de [Link], Les Atomes, P.U.F.,1970). Fonte: Guinier (1996)
37
4.6. Coesão no líquido e tensão superficial
Uma massa líquida não tem forma própria, sua superfície exterior pode ser facilmente
deformada sob pequenas ações externas. Tentaremos entender esse comportamento a partir do
modelo de estrutura atômica.
Quando a massa do líquido se deforma, a matéria permanece coesa e seu volume
permanece constante. A força de coesão entre as moléculas do líquido as mantém em contato
e as impede de dispersar. Nos líquidos formados por moléculas de gases raros, as forças são
de Van der Waals (entre duas moléculas idênticas existe uma força atrativa que decresce
rapidamente com a distância); em outros líquidos, em particular naqueles formados por
moléculas orgânicas, as forças são as ligações hidrogênio (ligação química caracterizada por
uma ligação covalente entre hidrogênio e uma ligação covalente com o oxigênio (O),
nitrogênio (N) ou flúor (F)). Nos sais iônicos fundidos, como NaCl, ocorrem interações
eletrostáticas, porque nesse caso as “partículas” são íons Na+ e Cl-. Nos metais fundidos, do
mesmo modo que nos cristais metálicos, a ligação é feita pelos elétrons de valência que são
livres.
No estado líquido, a agitação térmica dos átomos é forte demais para que as forças de
ligação mantenham as moléculas numa estrutura permanente e regular, como seria o caso se a
temperatura fosse inferior à fusão. As forças conseguem manter as moléculas num conjunto
compacto e coeso sem, entretanto, impedir que umas deslizem sobre as outras.
Dois elementos intervêm na determinação da forma de equilíbrio de uma massa
líquida: a tensão superficial e a ação da gravidade (peso), sendo apenas o primeiro uma
propriedade intrínseca do estado líquido.
Toda molécula situada na superfície de um líquido está submetida à atração de suas
vizinhas, mas, ao contrário do que acontece com uma molécula no meio líquido, todas essas
forças estão aplicadas de um mesmo lado. Logo elas têm uma resultante que aponta para o
interior do líquido (figura 8).
38
Figura 8. Uma molécula é ligada a suas vizinhas por forças de Van der Waals. Quando a molécula está na
superfície, as forças têm uma resultante F perpendicular à superfície e dirigida para o interior. Fonte: Guinier
(1996)
Tabela 3. Sólidos com mesmo volume e formas variadas. Fonte: Guinier (1996)
39
Quando um líquido toca numa parede sólida passa a existir interações entre as duas
substâncias, ou o líquido molha a superfície ou é repelido por ela. Se a superfície sólida
estiver límpida a gota se esparrama sobre ele molhando-o, se estiver gordurosa permanece
com a sua forma original. As forças de contato são a causa do fenômeno chamado
capilaridade.
O líquido é um fluído com peso e é deformável, isto é, assume a forma de equilíbrio
de acordo com as leis as quais está associado, por isso ocupa o fundo do recipiente que o
contém limitado por uma superfície livre horizontal. Estas propriedades características do
líquido, vem da estrutura do próprio líquido (deformável), e da existência do campo
gravitacional.
Na prática a forma é determinada pelo conjunto de duas ações: do peso e das forças
superficiais (Guinier, 1996). Assim, por ser circundada na periferia por uma membrana, sua
superfície não se forma rigorosamente horizontal, apresentando-se como convexa ou côncava
de acordo com o caso.
Na figura 9 nota-se que quando um tubo de espessura capilar é mergulhado na água,
ela sobe no tubo acima do nível exterior. A formação da gota na extremidade de um conta-
gotas é o resultado das ações opostas da gravidade e da tensão superficial (Guinier, 1996).
Figura 9. Exemplos de fenômenos de capilaridade. A. Ascensão da água num tubo fino (3 cm para a água num
tubo de 1 mm de diâmetro); b. formação da gota na saída de um conta-gotas. Fonte: Guinier (1996)
4.8. Mistura
Dois gases quaisquer, que não reajam quimicamente entre si, misturam-se em qualquer
proporção relativa para formar um gás homogêneo tão logo sejam postos em contato. As
propriedades da mistura são fáceis de prever porque cada um dos gases se comporta como se
estivesse só.
Pelo contrário, dois sólidos cristalizados que não reagem quimicamente um com o
outro têm estruturas tão bem determinadas e tão rígidas que é impossível fundi-los. Eles só
podem ser justapostos, sem se penetrarem mutuamente. Existe ainda, o caso excepcional de
certos metais que são fortemente prensados um contra o outro a altas temperaturas, eles se
soldam entre si se suas superfícies são planas e muito limpas. Os átomos de um dos metais
difundem no outro e se forma, na espessura de alguns centésimos de milímetro, uma camada
intermediária de solução sólida ou de compostos intermediários.
41
Existem numerosos líquidos que se misturam entre si em qualquer proporção. Se eles
estão imóveis, a mistura acontece espontaneamente, de forma bastante lenta, se agitada a
mistura acontece mais rapidamente. O resultado é um líquido perfeitamente homogêneo,
como, por exemplo, água e álcool.
Pelo contrário, há pares de líquidos que são absolutamente imiscíveis. Se, por
exemplo, vertemos óleo em água, o óleo mais leve, flutua e forma uma camada sem água em
cima de uma camada de água sem óleo; mesmo após uma agitação violenta, essas duas
camadas se formam novamente. Se os dois líquidos têm a mesma densidade, como o óleo de
silicone em água salgada, a massa do óleo flutua na água em situação de ausência de
gravidade, já que o empuxo de Arquimedes equilibra exatamente o seu peso.
Enfim pode também ocorrer uma “separação” parcial. É o caso da mistura água-
álcool isobutílico. À temperatura de 20°C, quando se adiciona álcool na água, a mistura é
homogênea até a concentração de 4% em massa; quando se adiciona água ao álcool, o limite
para a mistura homogênea é de 11% de água. Para concentrações intermediárias, o líquido
forma duas camadas separadas, que correspondem respectivamente às duas soluções-limites
de 4% e 89%. Quando a temperatura aumenta, as concentrações limites se aproximam uma da
outra, e a partir de 130°C há miscibilidade completa entre a água e o álcool isobutílico em
qualquer proporção (figura 10).
42
Figura 10. Diagrama de equilíbrio de uma mistura água-álcool isobutílico. Um estado (T,c) cujo ponto
representativo está acima da curva é uma solução homogênea. Abaixo da curva há separação, ou seja,
coexistência de duas faces, de concentração c1 e c2, que são as soluções homogêneas limites à temperatura T.
Fonte: Guinier (1996)
43
das moléculas pode aceitar um número maior de moléculas diferentes na sua vizinhança
próxima. Em alguns casos, pode-se mesmo atingir uma miscibilidade completa acima de uma
dada temperatura.
Os átomos de mercúrio, por exemplo, com suas ligações de tipo metálica produzidas
por elétrons não localizados, e as moléculas de água, com suas ligações de tipo pontes de
hidrogênio, formam líquidos perfeitamente imiscíveis.
Ao contrário, a água, substância importante para realização dos experimentos desta
dissertação, tem afinidade pelos líquidos polares como ela mesma, ou seja, pelos líquidos
cujas moléculas contêm dipolos de cargas elétricas + e -, como radicais O-H ou C. Devido a
suas ações eletrostáticas, esses dipolos têm um papel importante nas interações entre
moléculas polares e lhes conferem uma característica comum. Assim a água se mistura em
qualquer proporção com álcool etílico. No entanto o pentanol (C4H9CH2OH) é praticamente
insolúvel. Essa diferença de solubilidade se deve à grande diferença de tamanho entre a
pequena molécula de água e a volumosa molécula de pentanol.
Há também miscibilidade completa entre moléculas não polares, como o benzeno e o
hexano (C6H14). Em contrapartida não se misturam: a água, polar, com o benzeno, não polar;
nem a água com os hidrocarbonetos, como por exemplo, a gasolina Guinier (1996).
44
Tabela 4. Limite de solubilidade de sólidos na água à temperatura ambiente (em gramas dissolvidos em 100g de
água pura). Fonte: Guinier (1996)
Considerando-se o papel desempenhado pela água na Terra, através da chuva, dos rios
e dos oceanos, o grau de solubilidade na água é uma propriedade determinante para todas as
substâncias. Assim os minerais na superfície terrestre não “desapareceram” porque são muito
pouco solúveis. Por sua vez, as águas naturais nunca são puras; elas são soluções, mais ou
menos diluídas, de substâncias com as quais estiveram em contato. Algumas águas minerais
contêm 0,3 gramas de sais dissolvidos por litro, outras são bem mais pesadas, chegam a ter de
5 a 8 gramas por litro.
45
Quando sais se dissolvem na água, eles se dissociam em ânions e cátions do ácido e da
base dos quais eles são derivados. Compostos iônicos naturais de sais podem também se
formar, mas sua abundância é baixa na maioria dos casos. Quando um sal forma uma solução
saturada, existe um estado de equilíbrio entre os íons na solução e alguns excedentes de sais
remanescentes do estado sólido. Assim, a Lei da Ação das Massas pode ser usada para
calcular as atividades dos íons numa solução saturada e deste modo, a solubilidade do sal,
Faure (1991).
Consideremos agora um líquido, como a água, em presença de um sólido solúvel em
água. Em cada uma das fases, as moléculas (ou, geralmente para o sólido, as “partículas”
constituintes) estão em estado de agitação permanente. Por conta deste estado, algumas
escapam da superfície do sólido e penetram no líquido e, ao mesmo tempo, outras abandonam
o líquido e se depositam no sólido. O equilíbrio se estabelece quando os dois fluxos se
compensam. Sendo o número de moléculas capturadas pelo sólido proporcional ao número de
choques na sua superfície, é natural admitir que o fluxo emergente do líquido seja
proporcional à concentração de moléculas dissolvidas, ou taxa de saturação. Ao contrário do
líquido, o fluxo emergente do sólido tem um valor determinado, porque a estrutura deste é
fixa, e a concentração na solução insuficientemente elevada para ter qualquer influência. Logo
um equilíbrio, determinado pelo limite de solubilidade será observado para substâncias a
temperaturas dadas, a uma concentração determinada.
Para tentar explicar as diferenças de solubilidade em função da natureza das espécies
presentes, devemos, em primeiro lugar, descrever a estrutura da solução (Guinier, 1996).
Estudaremos a solução aquosa, considerada a mais importante para a pesquisa e conclusão
deste trabalho.
46
4.11. Solubilidade dos cristais iônicos
A outra classe de sólidos é aquela que não apresenta moléculas no cristal, mas átomos
ligados entre si por ligações covalentes ou iônicas.
Os cristais covalentes são insolúveis, pois para arrancar um átomo do cristal seria
necessário romper uma ligação muito forte, despendendo uma grande quantidade de energia, a
qual não poderia ser recuperada pela ligação do átomo com a molécula da água.
Por sua vez, os cristais iônicos podem ser solúveis ou até mesmo muito solúveis. Em
contato com a água, os íons positivos e negativos, ligados ao cristal por forças eletrostáticas,
dispersam-se na água. O que chamamos de “dissociação eletrolítica” é, na realidade, uma
dispersão. Por exemplo, no cristal de cloreto de sódio a molécula de NaCl não existe, há
somente um empilhamento compacto e regular de íons Na+ e Cl- alternados. Na água, a força
de atração entre cargas de sinais opostos é consideravelmente reduzida se comparada à força
que se exerce entre as mesmas cargas à mesma distância no vácuo. Portanto os íons têm uma
tendência muito menor a se aproximar.
Entretanto, outro fato importante intervém: na água, os íons não permanecem “nus”.
Devido ao campo elétrico produzido pela carga em torno deles, os dipolos elétricos das
moléculas de água são atraídos, formando assim uma camada envolvendo os íons. Esse é o
caso de íons pequenos que, para carga equivalente, produzem um campo elétrico mais
intenso. Portanto os íons de sinais opostos, protegidos por suas camadas de moléculas de
água, estão impedidos de se aproximar o suficiente para que a atração eletrostática entre eles
se torne intensa. Dessa maneira então, eles permanecem dispersos em solução na água.
Esse fenômeno de “solvatação” ou “hidratação” dos íons é revelado através de uma
observação bastante convincente. Para arrancar do cristal de KCl (um dos sais estudados) um
par de íons isolados K+ e Cl-, é necessário fornecer uma energia igual a 685 kJ/mol. Ora a
dissolução do cristal na água não precisa de mais do que uma quantidade de calor de 12
kJ/mol. Isso significa que quase toda a energia associada à dispersão dos íons é recuperada
pela formação dos íons solvatados. Estes são, portanto, conjuntos muito estáveis, já que a
energia de coesão do íon e das moléculas de água que o envolvem é de uma ordem de
grandeza comparável à de coesão dos íons no cristal. Em geral, a estrutura dos íons solvatados
não é bem definida, salvo em alguns casos simples. Sabe-se que o íon Cr3+ é rodeado por seis
moléculas de água que formam um octaedro regular (figura 11).
47
Figura 11. Esquema do íon Cr3+ solvatado com seis moléculas de água. Fonte: Guinier (1996)
Segundo Guinier (1996), uma solução iônica não é simplesmente água contendo íons,
esses íons perturbam fortemente a estrutura da água pura por efeitos eletrostáticos, e também
geométricos, quando os íons têm um tamanho bastante diferente do de uma molécula de água.
Na primeira camada em torno do íon, as moléculas de água estão rigidamente ligadas por
forças eletrostáticas.
48
Figura 12. Volume de uma solução de SO4Mg em 1000cm3 de água em função da massa de sal dissolvido
(Lewis e Randall, Thermodynamique, MacGraw Hill). Fonte: Guinier (1996)
49
mar nas salinas, e que se produziram cristais nos experimentos de cristalização. Este
fenômeno é chamado de cristalização, ou o inverso da dissolução.
A cristalização pode ser realizada por outro método. No caso geral, a solubilidade
decresce quando a temperatura diminui, portanto, se a temperatura de uma solução saturada é
diminuída, o sólido se deposita até que a concentração da solução reencontre seu valor limite
à nova temperatura.
Por outro desses procedimentos, cria-se uma situação na qual as moléculas dissolvidas
são mais numerosas do que o líquido pode suportar. Tão logo duas delas se encontram, elas
tendem a coalescer, reduzindo as interações com as moléculas de solvente. Outras moléculas
podem, em seguida, unir-se às duas primeiras e, sempre ao acaso, o pequeno “aglomerado” ou
“cluster” de moléculas cresce, podendo assumir a configuração de um pequeno cristal da
substância dissolvida: é um embrião, ou semente de cristal.
O pequeno embrião cristalino, caso tenha-se formado, tem bastante probabilidade de
voltar a se dissolver. Porém ele pode também crescer pela adição de novas moléculas que
tomam seus lugares no edifício regular do cristal. Ao atingir um “tamanho crítico”, o embrião
se torna um germe estável: ele não desaparece e tende a crescer. Assim se formam os
pequenos cristais, cujo conjunto constitui a fase sólida nascente; sua massa aumenta até que a
concentração da solução alcance o limite de solubilidade, comprovado em alguns dos
experimentos realizados.
Numa solução existem pontos privilegiados para o aparecimento de sementes
cristalinas: irregularidades na parede do recipiente, poeira imersa no líquido etc. Para os
trabalhos realizados foram tomadas medidas para minimizar estas interferências, como
cobertura dos recipientes com gaze. Se o número de sementes que se formam
simultaneamente for muito grande, haverá muitos cristais, e o volume total que deve
depositar-se estará dividido entre um grande número de pequenos cristais, em geral separados
uns dos outros. Os cristais podem também grudar-se uns aos outros, obtendo-se assim uma
massa sólida policristalina. Se as sementes forem menos numerosas, para a mesma quantidade
de sólido depositada, os grãos serão maiores: as faces dos cristais individuais podem ser
percebidas a olho nu. Enfim, se se consegue apenas uma semente, obtém-se um cristal único
que cresce formando faces planas, devido à anisotropia das velocidades de crescimento. Nos
experimentos de crescimento cristalino estas sementes foram recolhidas, imersas na solução e
penduradas por uma linha para observação de seu crescimento.
50
Esse é um dos procedimentos a ser realizados em experimentos didáticos de
cristalização e de fabricação sintética dos cristais. Em uma solução saturada, mantida a
temperatura rigorosamente constante (dentro de variações inferiores a 1/100°C, dependendo
do soluto), evita-se a formação de sementes tomando cuidado na purificação da solução e
operando com recipientes muito limpos. Suspende-se então, um pequeno cristal da substância
dissolvida, que fará o papel de semente única ou cristal único na solução. A solução é agitada
cautelosamente para uniformizar sua concentração, e a semente, girada continuamente
(algumas revoluções por minuto). A evaporação é mantida a uma velocidade bastante lenta.
Em algumas semanas podem-se obter cristais sem defeitos de vários centímetros. Nos
experimentos de crescimento cristalino com agitação, ao invés de rotacionar a semente, a
solução foi agitada por uma “pílula” magnética inserida e rotacionada na solução. Assim se
preparam os grandes cristais de fosfato ácido de amônio, dos quais são cortadas as lentes para
aparelhos de infravermelho. Os cristais de quartzo são preparados a partir de uma solução de
sílica em água sodada, à temperatura de 500°C e sob pressão de 1000 bares. Os cristais
obtidos, mais puros e mais perfeitos que a maioria dos cristais naturais de quartzo são
utilizados na indústria eletrônica, e na relojoeira.
51
O grau de saturação, também conhecido como desvio de equilíbrio da condição
saturada, é fator primordial para controlar o processo de deposição. Sempre em diferentes
regiões de um sistema de cristalização ocorre a formação de núcleos de cristal.
O coeficiente de solubilidade (Cs), é a quantidade máxima, em gramas, de soluto que
se dissolve numa quantidade fixa de solvente, sem considerar precipitados e corpos de fundo,
a uma dada temperatura, cuja variação nos fornece a curva de solubilidade.
4.15. Nucleação
Segundo Nývlt et al (2001), antes de começar o processo de cristalização podem
existir na solução corpos sólidos muito pequenos de escala molecular conhecidos como
centros de cristalização e é a partir destes corpos que a cristalização acontece. A nucleação
pode então ocorrer espontaneamente, ou ser induzida artificialmente. Estes processos são
conhecidos como nucleação primária e secundária, respectivamente.
∆G
52
Onde (∆ ) representa a variação do potencial químico que acompanha a transferência
de uma partícula do líquido à fase sólida, (v) é o volume molar, ( ) e ( ) são, respectivamente,
os fatores de forma de volume e de superfície e í O
numerador ( da equação representa a variação da energia livre de Gibbs em função
do volume da partícula (núcleo); o denominador ( ) corresponde à variação de
energia em função da variação de área da partícula (núcleo). A dependência da energia livre
de Gibbs com o tamanho do cluster passa por um máximo (figura 13) que corresponde ao
tamanho do núcleo inicial (Nývlt et al,2001).
Figura 13. – Diagrama esquemático mostrando a dependência da energia livre de Gibbs com o tamanho da
partícula. ∆G, energia livre; r representa o tamanho da partícula, e r c é o tamanho crítico; ∆Gv variação de
energia para o volume proporcional a r3; ∆Gs variação de energia para a superfície proporcional a r2. Fonte:
Sunagawa, (2005)
54
Mecanismos do gradiente de impureza: A superfície próxima do cristal
apresenta concentrações relativas menores que a concentração da
solução e se a impureza retarda a nucleação, as condições próximas à
superfície do cristal favorecerão o surgimento de novos núcleos
cristalinos.
Segundo Nývlt et al (2001), diante de tudo isso é importante também considerar o
efeito da taxa de supersaturação na nucleação secundária:
As micro-rugosidades das sementes aumentam com a taxa de supersaturação,
aumentando assim a probabilidade de os clusters se soltarem em uma colisão.
O número de núcleos “sobreviventes”, ou que não se dissolveram, aumenta em
altas taxas de supersaturação, pois o tamanho crítico do núcleo é inversamente
proporcional à variação de concentração (∆W), ou seja, quanto maior a
supersaturação, menor é o tamanho dos núcleos que conseguem sobreviver.
Por último, taxas de supersaturação mais elevadas fazem com que as camadas
adjacentes à superfície do cristal se tornem mais espessas contendo assim um
maior número de clusters.
55
aparente de algumas misturas, devido à baixa velocidade de reação, é denominada como
metaestabilidade (Krauskopf, 1972).
Figura 14. – Diagrama de solubilidade e supersaturação As letras maiúsculas representam estados e trajetórias
possíveis – discussão no texto. Fonte: Mullin (1961)
56
Quando a temperatura e a concentração variam, a trajetória da solução sai da zona
estável, solução insaturada (A) e segue em direção a curva de saturação (B”) atingindo a
curva de nucleação (C”) realizando um desenho curvilíneo.
Os níveis de energia desses diferentes estados podem ser representados pela simples
analogia de um bloco de tijolo assentado sobre uma superfície plana, embora esse quadro
provavelmente simplifique a situação (figura 15).
Figura 15. – Demonstração dos estados de Instabilidade, Estabilidade e Metaestabilidade. Fonte: Mullin, (1961)
O nível de energia potencial em cada uma das várias posições do tijolo é representado
aqui pela altura do centro de gravidade acima de um ponto arbitrário da superfície plana.
Casos A e E representam o estado de menor energia, ou estado de máxima estabilidade, o que
pode ser comparado ao caso de uma solução saturada ou de um cristal. O caso C também é
um estado estável, mas representa um nível de energia mais elevado do que A ou E. Um tijolo
nessa posição não pode suportar qualquer grande deslocamento sem reverter para as posições
A ou E, por isso pode ser considerado metaestável. Esta condição é semelhante, por
conseguinte, ao estado de metaestabilidade de uma solução supersaturada. Casos B e D
representam estados instáveis, e também os mais altos níveis de energia do sistema. Qualquer
deslocamento faria o tijolo ajustar-se em uma posição mais estável. Estes casos podem ser
tomados para representar uma solução supersaturada instável que tenderia a nucleação
espontânea.
As diferentes situações energéticas determinam o fenômeno de nucleação espontânea.
As transformações espontâneas ocorrem quando há uma variação negativa de energia livre
(∆G), ou seja, quando os produtos têm menor energia que os reagentes.
57
Se houver condensação, o movimento das moléculas no líquido formado é menor
(mais restrito) que no gás; este excesso de energia é liberado no momento da condensação e
podemos dizer que o líquido tem menos energia interna que o gás. O caso análogo é dado na
cristalização, na transição líquido sólido (Mullin,1961).
Figura 16. - Diagrama de fases de um sistema binário condensado com a fronteira da zona metaestável
representada. ∆W equivale à variação de concentração, (∆T) é a variação de temperatura e W eq é a curva de
solubilidade. Fonte: Nývlt et al (2001)
58
fronteira da zona metaestável, quase paralela à curva de solubilidade, ultrapassa o ponto C, a
solução torna-se instável e a fase sólida imediatamente se forma.
Para qualquer grau de supersaturação, o tamanho crítico adequado ao núcleo
corresponde à igual probabilidade do núcleo crescer ou desintegrar-se. A barreira energética
correspondente à formação do núcleo depende, primeiramente, da pureza física da solução,
pois a presença de partículas sólidas catalisa a nucleação e, portanto, diminui a barreira
energética.
A nucleação pode ser investigada utilizando-se o método isotérmico (temperatura
constante) ou com a variação da temperatura (∆T). Com o método isotérmico, o tempo de
indução da nucleação tN é medido para a dada supersaturação da solução. A supersaturação
deve ser atingida rapidamente e o tempo tN é medido até que os primeiros cristais visíveis
apareçam. Uma definição exata desse tempo não pode ser feita, pois o tamanho das partículas
observáveis depende do método de medida adotado pelo pesquisador (pessoal, equipamento,
sistema, propriedade medida ou observada e iluminação). O resultado das medidas fornece a
dependência do período de indução tN com a variação de concentração ∆W da solução.
O método (∆T) de variação de temperatura de medida da largura da zona metaestável é
usualmente realizado de forma que, a solução saturada com concentração determinada seja
resfriada com uma velocidade ou uma taxa de resfriamento constante, até que os primeiros
cristais visíveis possam ser detectados. A supersaturação aumenta até o momento que os
cristais já formados comecem a absorver a supersaturação criada, de forma que a fronteira da
zona metaestável garante que a velocidade de supersaturação seja sempre compensada pela
massa de cristais gerada pela velocidade de nucleação.
Segundo Nývlt et al (2001), a zona metaestável é afetada por alguns fatores, sendo os
mais importantes:
1) efeito da temperatura: a largura da zona metaestável diminui com o aumento da
temperatura de saturação da solução;
2) a presença de partículas sólidas ou de poeira de cristais tem um importante efeito de
reduzir largura da zona metaestável, pois facilita significativamente a nucleação;
3) efeito da história térmica da solução: soluções mantidas por diversas horas em
temperaturas acima de suas temperaturas de equilíbrio apresentam zonas metaestáveis
mais largas, isto é, possuem velocidades de nucleação menores quando comparadas a
soluções cujas temperaturas não excedam suas temperaturas de saturação;
59
4) efeito de ação mecânica na solução: agitação, vibração, impacto e ultrassom
transferem energia mecânica à solução, diminuindo a largura da zona metaestável.
Soluções estagnadas possuem zonas metaestáveis mais largas que soluções agitadas;
5) efeito de impurezas solúveis: alguns aditivos interferem de maneira direta na largura
da zona metaestável. Se o aditivo possui um íon em comum com o soluto, a largura é
análoga ao produto de solubilidade, se não possui, a largura pode ser afetada em
ambas as direções. É bom lembrar que a atividade de um aditivo depende também de
sua concentração. Aditivos orgânicos, como os polímeros solúveis, alargam a zona
metaestável, entretanto, os surfactantes tornam a zona mais estreita. Os aditivos
inorgânicos possuem a habilidade de formar complexos fortes, alargando assim a zona
metaestável, sendo seu efeito maior quanto mais estável for o complexo.
60
Se o volume de energia livre por unidade de volume é constante durante todo o
crescimento do cristal, então:
n
1Σaigi=mínima.
Onde (ai) é a área da enésima face de um cristal delimitada por (n) faces, e (gi) é a
energia livre por unidade de área da face (Mullin, 1961). Portanto, se um cristal cresce em um
meio supersaturado este deve evoluir para uma ‘forma de equilíbrio', ou seja, o
desenvolvimento das várias faces deve garantir que todo o cristal tenha uma superfície total
de mínima energia livre para um determinado volume.
Wulff (apud Mullin 1961) mostrou que a forma de equilíbrio de um cristal está
relacionada com as energias livres das faces. Ele então sugeriu que as faces de um cristal
poderiam crescer em taxas proporcionais às suas respectivas superfícies de energia.
Laue (apud Mullin 1961) alterou a teoria de Wulff, ressaltando que todas as possíveis
combinações de faces devem ser consideradas para determinar qual a superfície total das
energias livre representa um valor mínimo. Wulff também tinha indicado, no entanto, que a
taxa de crescimento de uma face seria inversamente proporcional à densidade do reticulo
cristalino, de modo que as faces poderiam crescer rapidamente e posteriormente desaparecer.
A velocidade de crescimento de uma face de cristal é medida pela taxa de movimento
em uma direção perpendicular à face. A fim de manter constantes os ângulos interfaciais no
cristal (lei de Hauy), os deslocamentos sucessivos de uma face durante o crescimento ou a
dissolução devem ser paralelos entre si. Exceto para o caso especial de um cristal
geometricamente regular, a velocidade de crescimento vai variar de face para face. A figura
17(a) mostra o caso ideal de um cristal que mantém seu padrão geométrico à medida que
cresce. As três faces iguais A crescem a uma taxa idêntica, a face menor B cresce mais
rapidamente, enquanto a menor face, C, cresce numa taxa ainda maior. Quando um cristal
deste tipo se dissolve em uma solução, a face C se dissolve em uma velocidade maior que as
demais. A Figura 17(b) mostra as várias fases de crescimento de um cristal. A face menor B,
que cresce muito mais rápido do que a face A, vai desaparecer progressivamente do cristal.
Nos primeiros experimentos já realizados no Laboratório Interativo de Cristalização
(L.I.C) do Museu de Geociências IGc/USP, relacionados ao tema desta dissertação de
mestrado, pode-se observar o que foi descrito na Figura 17, em solução supersaturada de
tartarato de sódio e potássio, sulfato de cobre, sulfato de níquel e sulfato de alumínio e
61
potássio todos com graus de pureza analítica, apenas com o cloreto de sódio comercial se
obteve o resultado esperado. Foram preparadas soluções supersaturadas em temperatura
ambiente. As soluções então foram colocadas em recipientes para o desenvolvimento de
cristais (nucleação primária), que depois de recolhidos e secos, foram imersos nas mesmas
soluções em outro recipiente, suspensos por uma linha. Após todo esse procedimento a
solução foi colocada em repouso para evaporação natural e consequente crescimento do
cristal. Pode-se observar neste segundo momento o crescimento de outros cristais no fundo do
recipiente constatando assim um processo de (nucleação secundária).
Figura 17. – Taxas de crescimento das faces de dois cristais. Fonte: Mullin (1961)
62
Figura 18. – Modelo de crescimento de cristais sem deslocamentos: (a)migração para local desejado; (b) camada
completa; (c) nucleação de superfície. Fonte: Mullin (1961)
63
para o crescimento espontâneo bidimensional. Na Figura 19 o esquema indica as fases
sucessivas no desenvolvimento de uma espiral de crescimento a partir de um deslocamento
em parafuso. A curvatura da espiral não pode exceder um valor máximo, determinado pelo
raio de cristal.
Figura 19. – Desenvolvimento de uma espiral de crescimento a partir de um deslocamento do tipo parafuso.
Fonte: Mullin (1961)
Noyes e Whitney (apud Mullin, 1961) consideram que a deposição de resíduos sólidos na
face de um cristal de crescimento é essencialmente um processo de difusão. Eles também
assumem que a cristalização é o inverso da dissolução, e que as taxas de ambos os processos
são regidos pela diferença entre a concentração na superfície sólida e a concentração de
grande parte da solução. Uma equação para a este tipo de cristalização foi proposta na forma:
= km.A(c-c*)
Onde:
m=massa do sólido depositado no tempo (t)
A=área da face do cristal
c=soluto em solução concentrada (supersaturada)
c*=equilíbrio entre concentração e saturação
km=coeficiente de massa transferida
Partindo então do pressuposto de que haveria uma película fina de líquido laminar
adjacente à face de crescimento de cristal, através da qual as moléculas do soluto seriam
64
difusas, Nernst (apud Mullin, 1961) modificou a equação (3) pela equação (4) para incorporar
o efeito da difusão:
= .A(c-c*)
Onde:
D=coeficiente de difusão do soluto
x=espessura do filme laminar
A espessura do filme laminar, depende da velocidade relativa sólido-líquido, ou seja,
do grau de agitação da solução. Uma película de espessura variando de 20 a 150μ foi medida
em cristais estacionários em solução aquosa estagnada (Mullin, 1961), entretanto Marc (apud
Mullin, 1961) constatou em seus experimentos que a espessura do filme foi praticamente zero
em soluções agitadas. Enquanto este fato implicaria numa taxa quase infinita de crescimento
em soluções agitadas, apenas o conceito de filme laminar de difusão não é suficiente para
explicar o mecanismo de crescimento de cristais.
Também foi demonstrada nos experimentos de Marc (apud Mullin, 1961), uma
cristalização que não é necessariamente o inverso da dissolução. Constatou-se que o soluto
dissolve-se geralmente a uma taxa mais rápida do que se cristaliza, sob as mesmas condições
de temperatura e concentração.
Outra descoberta importante foi feita por Miers (apud Mullin, 1961), que determinou,
por meio de medições do índice de refração, as concentrações de solução próximas das faces
dos cristais de cloreto de sódio crescendo em solução aquosa supersaturada. Ele demonstrou
que a solução em contato com uma face de cristal em crescimento não está saturada, mas
supersaturada.
Em um processo de difusão, as moléculas do soluto são transportadas através da
solução para a superfície do cristal acontecendo uma reação e organizando assim, as
moléculas do soluto na estrutura cristalina. A representação desse processo é mostrada na
figura 20, onde as forças motrizes raramente serão de igual magnitude, e a queda de
concentração em toda a película laminar não é necessariamente linear.
65
Figura 20. – Forças de concentração dirigida em cristalização a partir de solução supersaturada. Fonte: Mullin
(1961)
66
[Link]
5.1 - Acetato de Cálcio
38
Concentração (g/100 ml de H2O)
37
36
35
34
33
32
0 10 20 30 40 50 60 70
Temperatura (°Celsius)
67
Tabela 5. – Características do Acetato de Cálcio. Fonte: IUPAC (2012)
68
Tabela 6. Dados de evaporação de solução de acetato de cálcio (área de evaporação 38,46 cm2): A – Em repouso
com suporte; B – em repouso I; C – em repouso II.
H2O
A B C
Destilada
Tempo T
Taxa de Taxa de Taxa de
(dias) (°C) Massa Massa Massa Taxa *
Evaporação Evaporação Evaporação
(g) (g) (g) (g/dia)
(g/dia) (g/dia) (g/dia)
0 22 138,70 - 138,42 - 138,71 - -
2 25 136,52 1,09 136,39 1,02 136,91 0,90 1,97
4 24 134,91 0,95 134,42 1,00 135,11 0,90 1,85
6 23 133,18 0,92 132,27 1,03 133,50 0,87 1,52
8 24 131,91 0,85 131,13 0,91 132,35 0,80 1,49
10 22 130,85 0,78 130,02 0,84 131,30 0,74 1,37
12 21 128,96 0,81 127,79 0,89 129,30 0,78 1,27
14 22 126,49 0,87 125,12 0,95 126,82 0,85 1,25
Média - 0,95 0,90 - 0,83 1,53
2,5
Taxa de evaporação (g/dia)
2
Em repouso com
suporte
1,5
Em repouso I
1
Em repouso II
0,5
Água destilada
0
0 5 10 15
Tempo (dias)
Figura 22. Gráfico comparativo da taxa de evaporação da solução de acetato de cálcio e água destilada.
69
Apesar de não ter produzido cristais idiomórficos, este sal pertence ao sistema
cristalino tetragonal (tabela 5).
Os cristais tetragonais apresentam duas constantes paramétricas idênticas entre si e
uma diferente (a=b≠c) e constantes angulares iguais ao ângulo reto ( = =γ=90°).
(Apresentam como forma fundamental o prisma reto de base quadrada (figura 23), da qual
deriva uma série de formas, escalenoedro, trapezoedro, pirâmide, pinacoide, doma, pédion e
biesfenoide).
O experimento com este sal não resultou em cristais macroscópicos com faces visíveis
e bem definidas (figura 24). A fase sólida precipitada se caracteriza por agregados
microcristalinos formados nas bordas do béquer em função da evaporação. Alguns cristais
foram retirados com cuidado (figura 24(d)), mas por serem muito frágeis, não se conseguiu
manuseá-los para qualquer tipo de procedimento.
A taxa de evaporação média da solução com acetato de cálcio é de 0,89 ml/dia,
significativamente menor que a da água para as mesmas condições 1,53 ml/dia.
70
(a) (b)
(c) (d)
Figura 24. Fotos do experimento 1.3 em repouso com suporte do acetato de cálcio; (a) foto em 16/out/2011; (b)
foto em 22/out/2011; (c) foto da parede do recipiente em 22/out/2011; (d) sementes recolhidas das paredes do
recipiente.
71
(a)
(b)
(c) (d)
(e) (f)
(g) (h)
Figura 25. Fotos do experimento 1.5 em repouso I, acetato de cálcio. (a) Sementes escolhidas e colocadas para
secar; (b) Semente amarrada com uma linha; (c) a (h) Procedimento de mergulho da semente em solução para
observação do crescimento cristalino que ao contrário se dissolveu completamente.
72
Alguns cristais, que no caso deste sal são na verdade agregados microcristalinos que
cresceram naturalmente nas paredes do recipiente foram recolhidos cuidadosamente e secos
em papel toalha para dar prosseguimento ao experimento de crescimento cristalino em
repouso (figura 25 (a)). A solução é a mesma do experimento de onde foram retiradas as
sementes. O agregado de aproximadamente um centímetro foi amarrado por uma linha e
mergulhado em solução (figura 25 (c)). Num período de vinte e um minutos o agregado se
dissolveu não dando nenhuma possibilidade de crescimento (figura 25 (d) a (h)). Este sal não
produz cristais e sim agregados microcristalino que não se desenvolvem quando mergulhados
em solução.
Por ser atóxico este sal é recomendável para experimentos didáticos com o objetivo de
se medir e comparar as taxas de evaporação e não para observação do crescimento cristalino.
73
250
150
100
50
0
0 20 40 60 80 100 120
Temperatura (°Celsius)
Figura 26. Curva de solubilidade do fosfato monobásico de amônia, NH 4H2PO4. Fonte: IUPAC (2012)
Diidrogeno fosfato de
Nome IUPAC
amônio
Fosfato monobásico de
Outros nomes
amônia
Identificadores
Número CAS (Chemical 7722-76-1
Abstracts Service)
Propriedades
Fórmula Química NH4H2PO4
Massa Molar 115,03 g/mol -1
Cristais brancos
Aparência
tetragonais
74
A média da taxa de evaporação foi praticamente a mesma, como pode ser observados
na tabela 8 colunas A, B, C, de onde se concluiu que o sal nos experimentos em repouso
interferiu num aumento de apenas 13% na taxa de evaporação. Por conta do fenômeno da
solvatação, moléculas do soluto envolvidas pelas moléculas do solvente, a solução apresenta
taxa de evaporação menor que a da água destilada.
Tabela 8. Dados de evaporação de solução do fosfato monobásico de amônia (área de evaporação 38,46 cm2): A
– Em repouso com suporte, B – Em repouso I, C – Em repouso II.
H2O
A B C
Destilada
Tempo T
Taxa de Taxa de Taxa de
(dias) (°C) Massa Massa Massa Taxa *
Evaporação Evaporação Evaporação
(g) (g) (g) (ml/dia)
(ml/dia) (ml/dia) (ml/dia)
0 23 139,79 - 140,11 - 140,13 - -
2 26 137,48 1,16 138,03 1,04 137,77 1,18 1,20
4 24 134,38 1,35 135,12 1,25 135,12 1,25 1,44
6 23 131,75 1,34 132,50 1,27 132,51 1,27 1,50
8 24 128,17 1,45 129,41 1,34 129,30 1,35 1,61
10 22 125,37 1,44 126,63 1,35 126,60 1,35 1,63
12 21 122,58 1,43 123,85 1,36 123,71 1,37 1,67
14 23 119,84 1,43 121,19 1,35 121,04 1,36 1,63
Média - 1,28 1,37 - 1,31 1,52
1,80
1,60
Taxa de evaporação (g/dia)
1,40
Em repouso com
1,20 suporte
1,00
Em repouso I
0,80
0,60 Em repouso II
0,40
0,20 Água destilada
0,00
0 5 10 15
Tempo (dias)
Figura 27. Taxas de evaporação dos experimentos de Fosfato monobásico de amônia e da água destilada.
75
Tanto os experimentos em repouso I e II, quanto o experimento em repouso com
suporte não produziram sementes no período programado de duas semanas.
De acordo com a tabela 7, este sal pertence ao sistema cristalino tetragonal. Os cristais
quadráticos apresentam duas constantes paramétricas idênticas entre si e uma diferente
(a=b≠c) e constantes angulares iguais ao ângulo reto ( = =γ=90°). (Apresentam como forma
fundamental o prisma reto de base quadrada (figura 28), da qual deriva uma série de formas,
escalenoedro, trapezoedro, pirâmide, pinacoide, doma, pédion e biesfenoide). Este sal produz
cristais típicos desse sistema cristalino (figura 29), se submetidos ao período maior que duas
semanas de observação.
Figura 29. Representação da forma cristalina de um prisma tetragonal bipiramidal de base quadrada produzida
pelo fosfato monobásico de amônia.
76
No caso dos experimentos citados acima, observou-se que duas semanas não foram
suficientes para evaporar o solvente e atingir o grau de concentração de sal necessária para
obtenção de um cristal idiomórfico. As fotos incluídas a seguir são de experimentos com o
mesmo sal em condições semelhantes quanto ao preparo do experimento, mas sem o limite de
duas semanas, e a proteção do recipiente com gaze (figura 30). Por não controlar o registro
dos experimentos, a taxa de crescimento e a taxa de evaporação não foram medidas.
(b)
(a)
(d)
(c)
Figura 30. Cristais de fosfato monobásico de amônia obtidos em experimentos aleatórios: (a) Resultado final,
cristais apresentando o sistema cristalino tetragonal, característico deste sal; (b), (c) e (d) Faces caracterizando o
sistema cristalino deste sal.
77
5.3 Tartarato de sódio e potássio
Tartarato de sódio e potássio é um sal duplo preparado pela primeira vez em 1675 por
um farmacêutico chamado, Pierre Seignette, de La Rochelle, uma cidade da França. Como
resultado o sal ficou também conhecido como sal de Seignette ou sal de La Rochelle.
É um sal atóxico incolor a branco azulado cristalizando no sistema ortorrômbico. Sua
fórmula é KNaC4H4O6.4H2O, é levemente solúvel em álcool, e completamente solúvel em
água. Tem sido usado medicinalmente como um purgativo, mas nos anos atuais, suas
propriedades piezelétricas tem sido mais importante na fabricação de equipamentos com
componentes na qual seja necessário uma sensibilidade a pressão. Em síntese orgânica, é
usado em trabalhos em meios aquosos para romper emulsões, particularmente nas quais um
reagente hidreto baseado em alumínio foi usado.
Tartarato de sódio e
Nome IUPAC
potássio
Sal de Rochelle ou
Outros nomes
Signete
Identificadores
Número CAS (Chemical 304-59-6
Abstracts Service)
Propriedades
Fórmula Química KNaC4H4O6.4H2O
78
A média total da taxa de evaporação entre os experimentos em repouso é de 1,18
ml/dia apresentado nas colunas A, B e C, da tabela 10. Já a taxa de evaporação do
experimento de crescimento cristalino em repouso diminuiu 33%, coluna D da tabela 11. A
água destilada apresentou uma taxa de evaporação maior causada pela ausência do sal.
Tabela 10. Dados de evaporação de solução de Tartarato de sódio e potássio (área de evaporação 38,46 cm 2): A –
Em repouso com suporte, B – Em repouso I, C – Em repouso II.
H2O
A B C
Destilada
Tempo T
Taxa de Taxa de Taxa de
(dias) (°C) Massa Massa Massa Taxa *
Evaporação Evaporação Evaporação
(g) (g) (g) (ml/dia)
(ml/dia) (ml/dia) (ml/dia)
0 22 169,64 - 169,83 - 169,63 - -
2 25 167,56 1,04 167,93 0,95 167,69 0,97 1,20
4 24 164,64 1,25 165,28 1,14 165,08 1,14 1,44
6 23 162,36 1,21 163,05 1,13 162,70 1,16 1,50
8 24 159,27 1,30 160,18 1,21 159,97 1,21 1,61
10 22 156,58 1,31 157,70 1,21 157,77 1,19 1,63
12 21 154,25 1,28 154,98 1,24 155,33 1,19 1,67
14 22 152,17 1,25 152,52 1,24 153,07 1,18 1,63
Média - 1,23 - 1,16 - 1,15 1,52
1,80
1,60
Taxa de evaporação (g/dia)
1,40
Em repouso com
1,20
suporte
1,00
Em repouso I
0,80
0,60 Em repouso II
0,40
Água destilada
0,20
0,00
0 5 10 15
Tempo (dias)
79
Tabela 11. Dados de evaporação de solução de Tartarato de sódio e potássio (área de evaporação 38,46 cm 2): D –
Experimento de crescimento cristalino em repouso.
H2O
D
Destilada
Massa Taxa de
Taxa * (g/dia)
(g) Evaporação (ml/dia)
126,75 - -
121,75 0,50 1,20
120,29 0,61 1,44
116,63 1,02 1,50
112,71 1,26 1,61
110,65 1,21 1,63
107,02 1,31 1,67
105,10 1,26 1,63
- 1,02 1,52
1,8
1,6
Taxa de evaporação (g/dia)
1,4
1,2
1
Água destilada
0,8
0,6 Crescimento cristalino
0,4 em repouso
0,2
0
0 5 10 15
Tempo (dias)
Figura 32. Taxa de evaporação entre a água destilada e crescimento cristalino em repouso.
80
Entretanto no experimento em repouso com suporte, alguns cristais cresceram no
suporte e no fundo do recipiente (tabela 11 e figura 33). Mesmo sem acompanhar de 48 em 48
horas como no início, pois já havia completado o período de duas semanas, o experimento não
foi desfeito e continuou da mesma forma por mais 13 dias como da maneira inicial, em
repouso, a temperatura ambiente e com o recipiente coberto por uma gaze. A média da taxa de
evaporação aumentou 33% nos 13 dias a mais do período de observação passando de 1,23
g/dia para 1,83 g/dia.
Tabela 12. Resultado da observação final do experimento de crescimento cristalino em repouso com suporte,
treze dias a mais do que há duas semanas programadas de observação.
81
(a) (b)
(c)
(d)
(e) (f)
Figura 33. Fotos do experimento em repouso com suporte: (a) Cristais formados no suporte de granito; (b)
Cristais no suporte e no fundo do recipiente; (c) Cristal no fundo do recipiente; (d) Suporte com cristais retirados
e secos para medidas e encerramento do experimento; (e) Cristal geminado produzido no fundo do recipiente; (f)
Cristal com as características do sistema ortorrômbico.
82
Crescimento cristalino em repouso
Foi escolhido um cristal de massa 3,18 g, o maior entre todos os formados no fundo do
recipiente do experimento em repouso (figura 35 (a)). Este cristal foi preso a uma linha e
imerso na solução (figura 35 (b)). Dois dias depois aumentou o número de cristais “bem
formados” como corpo de fundo (figura 35 (c)) e uma fina camada de micro cristais também
cresceu nas paredes do recipiente.
Na primeira medida (figura 34), já se observa o crescimento da semente, pois a linha
que o sustenta já foi envolvida pelo cristal (figura 35 (d)). Entretanto, apenas três dias depois
do início do experimento, na segunda medida (figura 34), foi observada uma pequena
dissolução da semente em crescimento. É possível que tenha havido uma disputa de íons entre
a semente e os cristais do fundo do recipiente, causando a dissolução do cristal suspenso na
solução (figura 35 (e)).
Na terceira medida (figura 34) a semente continuou dissolvendo até cair da linha. Esta
semente foi deixada no fundo do recipiente (figura 35 (f)).
Medidas Solução
Semente (g)
(dias). (ml)
0 126,75 3,18
2 121,75 5,45
4 120,29 3,08
6 116,63 2,27
8 112,71 1,57
10 110,65 2,14
12 107,02 2,33
14 105,10 0,86
∆ 21,65 2,32
83
6
Massa (g) 4
0
0 2 4 6 8 10 12 14
Tempo (dias)
Figura 34. Crescimento da semente gerada pelo experimento crescimento cristalino em repouso.
(b) (c)
(a)
(e) (f)
(d)
Figura 35. Fotos do experimento de crescimento cristalino em repouso. (a) Semente escolhida no mesmo
experimento; (b) Semente imersa na solução; (c) Corpo de fundo com sementes bem formadas; (d) Semente em
crescimento; (e) Semente dissolvida 3 dias depois; (f) Semente caída da linha onde estava presa e depositada no
fundo do recipiente.
84
A semente não foi recolhida, no sexto dia de observação, e a linha permaneceu imersa
na solução. Este procedimento foi tomado para observar o comportamento da semente quanto
a possibilidade de sua dissolução ou não. Observa-se também o crescimento de cristais bem
formados na linha que o sustentava e ainda mergulhada na solução (figura 36 (a)).
Na figura 36 (b), se pode observar a dissolução de uma das faces do cristal, oito dias
depois do início do experimento. O cristal não se dissolveu inteiramente sendo então
recolhido, pendurado novamente e imerso na solução (figura 36 (c)).
Depois de pendurada a semente dissolveu novamente caindo no fundo do recipiente, o
experimento foi observado por duas semanas como foi previsto, e foi encerrado em seguida
sendo recolhida a solução e as sementes (figura 36 (d)). A solução produziu uma quantidade
grande de cristais no fundo do recipiente e nas paredes do recipiente como pode ser observado
na figura 36 (e) e (f).
(b) (c)
(a)
Figura 36. Fotos do experimento de crescimento cristalino em repouso (a) Linha presa naturalmente na semente;
(b) Detalhe das imperfeições em uma das faces do cristal causado pela sua dissolução; (c) Cristal amarrado para
novo procedimento; (d) Dissolução do cristal preso a linha; (e) Cristal caído no fundo do recipiente; (f) Detalhe
do crescimento do corpo de fundo e de cristais nas paredes do recipiente.
85
Os cristais ortorrômbicos apresentam constantes paramétricas diferentes entre si
(a≠b≠c) e constantes angulares idênticas ( = =γ=90°). Têm como forma fundamental o
paralelepípedo rômbico (figura 37), da qual deriva uma série de formas (bipirâmide, pirâmide,
escalenoedro, biesfenoide, prisma, pinacoide, doma e pédion). O sal produziu cristais que
demonstraram ser deste sistema cristalino, como demonstrado na figura 38, observa-se no
detalhe o quanto o cristal cresceu envolto à linha de sustentação.
86
1,4
Taxa de crescimento (g/dia)
1,2
1,0
0,8 Tart. de sódio e
0,6 potássio (repouso)
0,4
0,2
0,0
-0,2
-0,4
0 2 4 6 8 10 12 14 16
Tempo (dias)
A taxa de crescimento é muito variável não mantendo um padrão definido (figura 39).
Dissolveu e cresceu de maneira aleatória durante o período programado de observação. Por
ser atóxico e produzir cristais idiomórficos (figura 40), este sal é classificado como
recomendável para experimentos didáticos de cristalização, desde que se estenda para mais de
duas semanas o período de observação.
O sal tartarato de sódio e potássio tetra-hidratado produz cristais que apresentam
características do sistema cristalino ortorrômbico (figura 37).
87
(a) (b)
(c) (d)
Figura 40. Fotos de cristais idiomórficos produzidos pelo sal tartarato de sódio e potássio. (a), (b), (c) e (d)
Cristais apresentando características do sistema ortorrômbico.
88
120
100
Concentração (g/ 100ml H2O )
80
60
40
20
0
0 20 40 60 80 100 120
Temperatura (°Celsius)
Figura 41. Curva de solubilidade do sulfato de cobre II. Fonte: IUPAC (2012)
89
A taxa de evaporação foi praticamente a mesma para todos os experimentos (tabela
15) exceto para o experimento de crescimento cristalino em repouso, representado pela coluna
D da tabela 16. Na figura 43 pode-se observar que a taxa de evaporação começou pequena, se
igualando ao longo do tempo com os outros experimentos e mantendo aproximadamente a
mesma média do experimento em repouso representado pela coluna B da tabela 15. A taxa de
evaporação da água destilada foi maior, mantendo o pressuposto de que a água evapora mais
que qualquer solução salina, estando no mesmo estado de repouso e nas mesmas condições
ambientais.
Tabela 15. Dados de evaporação de solução de sulfato de cobre II (área de evaporação 38,46 cm2): A – Em
repouso com suporte, B – Em repouso I, C – Em repouso II.
H2O
A B C
Destilada
Tempo T
Taxa de Taxa de Taxa de
(dias) (°C) Massa Massa Massa Taxa *
Evaporação Evaporação Evaporação
(g) (g) (g) (ml/dia)
(g/dia) (g/dia) (g/dia)
0 22 135,61 - 135,68 - 136,15 - -
2 25 132,36 1,63 132,66 1,51 132,91 1,62 1,62
4 24 128,16 1,86 128,84 1,71 129,06 1,77 1,92
6 23 124,91 1,78 125,67 1,67 125,74 1,74 1,84
8 24 121,94 1,71 122,95 1,59 122,82 1,67 1,76
10 22 118,33 1,73 119,15 1,65 119,06 1,71 1,83
12 21 113,61 1,83 113,97 1,81 113,58 1,88 1,98
14 22 111,19 1,74 111,62 1,72 110,66 1,82 1,89
Média - 1,76 - 1,67 - 1,74 1,83
2,50
Taxa de evaporação (g/dia)
1,00
Em repouso II
0,50
Água destilada
0,00
0 5 10 15
Tempo (dias)
Figura 42. Gráfico comparativo entre as taxas de evaporação dos experimentos com sulfato de cobre II e da
água destilada.
90
Tabela 16. Dados de evaporação de solução de sulfato de cobre II (área de evaporação 38,46 cm2): D –
Crescimento cristalino em repouso e da água destilada.
H2O
D
Destilada
Massa Taxa de
Taxa * (g/dia)
(g) Evaporação (g/dia)
128,17 - -
126,36 0,90 1,62
123,31 1,22 1,92
119,58 1,43 1,84
113,93 1,78 1,76
111,10 1,71 1,83
107,68 1,71 1,98
104,09 1,72 1,89
- 1,52 1,83
2,50
Taxa de evaporação (g/dia)
2,00
1,50 Crescimento
cristalino em
1,00 repouso
Água destilada
0,50
0,00
0 5 10 15
Tempo (dias)
Figura 43. Taxas de evaporação do experimento de crescimento cristalino em repouso e da água destilada.
91
(a) (b)
(c) (d)
(e) (f)
Figura 44. – Fotos do experimento de crescimento cristalino em repouso do sulfato de cobre II (a) Semente
pesando 0,33g, primeira tentativa; (b) Semente pesando 0,38g, segunda tentativa; (c) Semente pesando 0,54g,
terceira tentativa; (d) Semente pesando 1,17g, quarta tentativa; (e) Cristal caído no fundo do recipiente, quinta
tentativa; (f) Cristal recolhido e preparado para dar prosseguimento ao experimento.
92
Tabela 17. Medidas da semente e do volume da solução do experimento crescimento cristalino em repouso.
Medidas
Solução (ml) Semente (g)
(dias).
0 128,17 0,72
2 126,36 0,76
4 123,31 0,57
6 119,58 0,54
8 113,93 0,82
10 111,10 0,96
12 107,68 1,14
14 104,09 1,35
∆ 24,08 0,63
1,6
1,4
1,2
Massa (g/dia)
1
0,8
0,6
0,4
0,2
0
0 2 4 6 8 10 12 14
Tempo (dias)
93
0,06
0,04
Taxa de crescimento (g/dia)
0,02
0 Crescimento cristalino
2 4 6 8 10 12 14 em repouso
-0,02
-0,04
-0,06
Tempo (dias)
94
(a) (b)
(c) (d)
Figura 47. Fotos do experimento de crescimento cristalino em repouso do sulfato de cobre II. (a) e (b) detalhe
do espaço vazio entre a semente e a linha, resultado de dissolução parcial; (c) e (d) Linha completamente
envolvida pelo crescimento do cristal.
95
Figura 48. Pinacóide triclínico. Fonte: Neves et al (2011)
(b)
(a)
Figura 49. (a) e (b) Faces bem formadas classificando o sal como bom para utilização como recurso didático.
Constata-se que através dos dados apresentados pela tabela 15, a taxa de evaporação
das soluções deste experimento, apresenta-se relativamente menor que a taxa de evaporação
de água destilada. Nas condições em que foram realizados conclui-se que o aumento da
salinidade afeta o processo de evaporação, em relação à água destilada, resultado da
influência da solvatação.
No experimento de crescimento cristalino em repouso, apesar da leve dissolução da
semente, o cristal retomou seu crescimento normal como era esperado.
Apesar da toxidade baixa, recomendando a utilização de luvas para o manuseio dos
cristais, este sal produziu cristais idiomórficos num período relativamente curto,
classificando-o assim como recomendável para realização de experimentos didáticos de
cristalização.
96
5.5 – Cloreto de sódio
39,5
Concentração (g/100ml de H2O)
39
38,5
38
37,5
37
36,5
36
35,5
35
0 20 40 60 80 100 120
Temperatura (°Celsius)
Figura 50. Curva de solubilidade do cloreto de sódio (NaCl). Fonte: IUPAC (2012)
97
Tabela 18. – Características do cloreto de sódio. Fonte: IUPAC (2012)
98
Tabela 19. Dados de evaporação do cloreto de sódio pureza analítica (PA) (área de evaporação 38,46 cm 2): A –
em repouso com suporte, B – em repouso I, C – em repouso II.
H2O
A B C
Destilada
Tempo T
Taxa de Taxa de Taxa de
(dias) (°C) Massa Massa Massa Taxa *
Evaporação Evaporação Evaporação
(g) (g) (g) (g/dia)
(g/dia) (g/dia) (g/dia)
0 23 139,77 - 139,63 - 139,59 - -
2 26 138,41 0,68 138,32 0,66 138,26 0,67 1,97
4 24 137,27 0,63 137,15 0,62 137,19 0,60 1,85
6 23 136,86 0,48 136,78 0,47 136,85 0,46 1,52
8 24 136,57 0,40 136,53 0,39 136,57 0,38 1,49
10 22 136,23 0,35 136,24 0,34 136,26 0,33 1,37
12 21 136,38 0,28 136,44 0,27 136,42 0,26 1,27
14 23 136,32 0,25 136,4 0,23 136,37 0,23 1,25
Média - 0,44 0,42 - 0,42 1,53
2,50
Taxa de evaporação (g/dia)
2,00
Em repouso com
suporte
1,50
Em repouso I
1,00
Em repouso II
0,50
Água destilada
0,00
0 5 10 15
Tempo (dias)
Figura 51. Taxas de evaporação dos experimentos com cloreto de sódio pureza analítica (PA) e da água
destilada.
Tabela 20. Dados de evaporação de solução de cloreto de sódio sal grosso (SG) (área de evaporação 38,46 cm2):
A – crescimento cristalino em repouso; B – Crescimento cristalino com agitação.
H2O
A B
Destilada
Tempo T
Taxa de Taxa de
(dias) (°C) Massa Massa Taxa *
Evaporação Evaporação
(g) (g) (g/dia)
(g/dia) (g/dia)
0 23 118,23 - 299,37 - -
2 26 117,18 0,52 289,92 4,72 1,97
4 24 115,77 0,62 284,16 3,80 1,85
6 23 114,58 0,61 279,03 3,39 1,52
8 24 112,85 0,67 273,32 3,26 1,49
10 22 109,91 0,83 269,24 3,01 1,37
12 21 109,15 0,76 267,14 2,69 1,27
14 23 108,20 0,52 263,54 2,56 1,25
Média - 0,68 - 3,35 1,53
5,00
Taxa de evaporação (g/dia)
4,50
4,00
3,50
3,00 Crescimento cristalino
2,50 com agitação (SG)
2,00 Crescimento cristalino
1,50 em repouso (SG)
1,00
Água destilada
0,50
0,00
0 5 10 15
Tempo (dias)
Figura 52. Taxas de evaporação dos experimentos com cloreto de sódio comercial sal grosso (SG) e da água
destilada.
100
Crescimento cristalino em repouso sal grosso (SG)
Para este experimento foi escolhida semente já formada na própria solução. Entre as
que foram retiradas, foi escolhido a que estava mais bem formada sem geminações, as outras
sementes foram recolocadas na solução para continuidade do experimento (figura 53 (a), (b) e
(c)). A semente não dissolveu e ainda produziu micro cristais no fundo do recipiente, dois dias
após o início do experimento (figura 53 (d)).
No oitavo dia, quinta medida, o cristal já tomou a forma de um cubo comprovando o
sistema cristalino característico deste sal (tabela 18). Nota-se a linha sendo envolvida pelo
crescimento da semente (figura 53 (e)).
No final do experimento observa-se o crescimento intenso de cristais na linha, e nas paredes
do recipiente, além da boa formação do cristal que cresceu 74 % do seu tamanho inicial em
duas semanas de observação (figura 53 (f)).
Na tabela 21 observa-se o decréscimo de 8,5 % em volume de solução, causado pela
evaporação natural e o aumento da massa da semente, comprovado pelo crescimento
cristalino (figura 54).
101
(a) (b)
(d)
(c)
(e) (f)
Figura 53. – Fotos do experimento de crescimento cristalino em repouso (SG), (a) Semente pesando 0,12g,
escolhida por ser mais bem formada; (b) Detalhes da semente antes de ser inserida na solução; (c) Início do
experimento com a presença de corpos de fundo; (d) Crescimento de micro cristais no fundo do recipiente na
segunda medida; (e) Detalhe do envolvimento da linha pelo crescimento do cristal; (f) Cristal recolhido com 74
% a mais que o peso inicial.
102
Tabela 21. Medidas da semente e do volume da solução do experimento com cloreto de sódio (SG) (Crescimento
cristalino em repouso).
Medidas
Solução (ml) Semente (g)
(dias)
0 118,23 0,12
2 117,18 0,19
4 115,77 0,21
6 114,58 0,27
8 112,85 0,30
10 109,91 0,41
12 109,15 0,45
14 108,20 0,47
∆ 10,03 0,35
0,5
0,45
0,4
0,35
0,3
Massa (g)
0,25
0,2
0,15
0,1
0,05
0
0 2 4 6 8 10 12 14
Tíempo (dias)
Figura 54. Crescimento cristalino da semente de cloreto de sódio sal grosso (SG) em experimento de
crescimento cristalino em repouso.
103
0,4
0,3
Taxa de crescimento (g/dia) 0,2
0,1
0
-0,1
-0,2
-0,3
-0,4
0 2 4 6 8 10 12 14 16
Tempo (dias)
Figura 55. Taxa de crescimento cristalino do experimento em repouso do cloreto de sódio (SG).
104
(a) (b)
(c) (d)
(e) (f)
Figura 56. Fotos do experimento crescimento cristalino com agitação sal grosso (SG). (a) Semente escolhida;
(b) Solução no agitador magnético isolado por placa de isopor; (c) Dissolução parcial da semente; (d) Retirada
da semente para medidas; (e) e (f) Faces cúbicas de crescimento cristalino.
105
Na tabela 22 observa-se a perda de 12 % da solução por evaporação natural, 3,5 % a mais do
que o experimento em repouso nas mesmas condições de pressão e temperatura.
Tabela 22. Medidas da semente e do volume da solução do experimento crescimento cristalino com agitação
(SG).
Medidas
Solução (ml) Semente (g)
(dias)
299,37 5,62
2 289,92 5,62
4 284,16 5,74
6 279,03 5,65
8 273,32 5,56
10 269,24 5,82
12 267,14 6,07
14 263,54 6,13
∆ 35,83 0,51
6,2
6,1
6
Massa (g)
5,9
5,8
5,7
5,6
5,5
0 2 4 6 8 10 12 14
Tempo (dias)
Figura 57. Crescimento cristalino em experimento com agitação e sal grosso (SG).
106
0,4
0,3
Figura 58. Taxa de crescimento do experimento de crescimento cristalino com agitação mecânica do cloreto de
sódio (SG).
107
Os experimentos demonstraram que o sal grosso comercial (SG) é recomendável para
os experimentos didáticos de cristalização (figura 62).
O crescimento cristalino obtido pelos experimentos com este tipo de sal é representado
pelo esquema que mostra a formação de núcleos de cloreto de sódio, NaCl, dissolvido em
água (figura 59).
Figura 59. Representação esquemática de um núcleo de NaCl em um lago salino em evaporação. Os núcleos,
como desenhado, consistem apenas em 125 íons (Na + e Cl-) regularmente empacotados. Íons adicionais serão
acrescentados, em um arranjo ordenado, no exterior do cubo nuclear, permitindo-o, assim, que cresça até formar
um cristal maior. A escala usada para o tamanho iônico é a unidade angstrom (1Å = 10-8 cm). Um cristal cúbico
de NaCl, 1cm ao longo de cada aresta, contém aproximadamente 10 23 átomos. Fonte (Klein e Dutrow, 2012)
À medida que a solução evapora, ela passa a conter cada vez mais Na+ e Cl- por
unidade de volume. Por fim a água não pode mais reter todo o Na+ e o Cl- em solução, e o
NaCl sólido começa a se precipitar. Se a evaporação da solução for muito lenta, os íons de
sódio e de cloro irão agrupar-se para formar um ou mais cristais com formas características,
comumente compartilhando uma orientação cristalográfica. Por outro lado, se a evaporação
for rápida, muitos núcleos se formam resultando em cristais pequenos, aleatoriamente
orientados (e.g. Klein e Dutrow, 2012)
108
Abaixo esquema apresentando as várias estruturas de um crescimento cristalino (figura
60), e uma foto de um dos experimentos comprovando tais estruturas de crescimento em
escala macroscópica (figura 61).
Figura 60. (a) Uma seção através de um canto de um cristal de NaCl mostrando íons bem ligados, densamente
empacotados na parte interna do cristal e ligações químicas incompletas nas superfícies externas do cristal
(representa ligações incompletas e = representa completas). (b) Uma superfície do cristal mostrando um degrau
microscópico. A fixação de íons na localização de tais degraus diminui a energia da superfície do cristal. Essa
energia é o resultado cumulativo de ligações não completadas. (c) Grupos submicroscópicos de átomos,
mostrados como blocos, fixados às três superfícies externas de um cristal. Tais blocos criam degraus para a
fixação de novas camadas de íons na superfície externa do cristal. Fonte: (Klein e Dutrow, 2012)
109
Os cristais isométricos apresentam igualdade em suas constantes lineares (a=b=c) e
angulares ( = =γ=90°), e tem como forma fundamental o cubo.
As faces bem formadas dos cristais desenvolvidos por estes experimentos também
foram comprovada pelo trabalho de Aquilano et. al.(2009), onde é comparada a rica
morfologia obtida pelo crescimento de microcristais de halita através de soluções aquosas.
(a) (b)
Figura 62. (a) e (b) Faces bem formadas do sistema cristalino cúbico, classificando o cloreto de sódio (SG) como
recomendável para utilização em experimentos didáticos de cristalização.
110
140
Concentração (g/100 ml de
120
100
80
H2O) 60
40
20
0
0 20 40 60 80 100 120
Temperatura (°Celsius)
Figura 63. Curva de solubilidade do cromato de sódio tetra-hidratado, Na2CrO4.4H2O . Fonte: IUPAC (2012)
Cromato de sódio
Nome IUPAC
tetra-hidratado
Identificadores
Número CAS (Chemical 7775-11-3
Abstracts Service)
Propriedades
Fórmula Química Na2CrO4.4H2O
111
Nenhum dos três experimentos produziu semente cristalina. O experimento se resumiu
em apenas observar e medir a taxa de evaporação das soluções e da água destilada (tabela 24).
A água destilada evaporou 28% a mais comparada aos outros experimentos. A taxa de
evaporação foi a mesma das soluções na primeira medida, oscilou nas próximas três
aumentando em seguida e chegando próxima a média ao final da observação no período de
duas semanas (figura 64).
Tabela 24. Dados de evaporação de solução de cromato de sódio tetra-hidratado (área de evaporação 38,46 cm2):
A – Em repouso com suporte; B – Em repouso I; C – Em repouso II.
H2O
A B C
Tempo T Destilada
(dias) (°C) Taxa de Taxa de Taxa de
Massa Massa Massa Taxa *
Evaporação Evaporação Evaporação
(g) (g) (g) (g/dia)
(g/dia) (g/dia) (g/dia)
0 23 193,11 - 192,96 - 194,01 - -
2 26 189,53 1,79 189,57 1,70 190,72 1,65 1,62
4 24 187,21 1,48 187,41 1,39 188,43 1,40 1,92
6 23 185,17 1,32 184,99 1,33 186,35 1,28 1,84
8 24 183,18 1,24 183,21 1,22 184,59 1,18 1,76
10 22 180,96 1,22 181,15 1,18 182,53 1,15 1,83
12 21 177,24 1,32 178,02 1,25 179,53 1,21 1,98
14 23 175,29 1,27 176,33 1,19 178,00 1,14 1,89
Média - 1,38 1,32 - 1,28 1,83
2,50
Taxa de evaporação (ml/dia)
2,00
Em repouso com
suporte
1,50
Em repouso I
1,00
Em repouso II
0,50
Água destilada
0,00
0 5 10 15
Tempo (dias)
Figura 64. Gráfico comparativo da taxa de evaporação da solução de cromato de sódio tetra-hidratado e água
destilada.
112
Figura 65. Fotografias representativas do experimento com cromato de sódio tetra-hidratado. Onde se nota que
nenhum cristal foi formado.
O sistema cristalino deste sal é ortorrômbico. Nenhum cristal foi produzido para
comprovar esta definição, mesmo assim, seguem abaixo as características deste sistema
cristalino.
113
O experimento com este sal não resultou em cristais nem microscópicos, geralmente
se desenvolvendo nas paredes do recipiente, nem macroscópicos com faces visíveis e bem
definidas no período de duas semanas de observação (figura 65 (a) e (b)).
De acordo com as características do cromato de sódio, tanto este como outros
compostos de cromo hexavalente, pode ser carcinogênico, se inalado. O que não é o caso
deste experimento, pois o sal é dissolvido em água destilada, à temperatura ambiente, sem em
nenhum momento ser submetido a qualquer ação de fogo ou calor.
Mesmo assim conclui-se que este sal, por não produzir cristais e não oferecer
segurança quanto ao seu manuseio (tabela 23), não é recomendável para experimentos
didáticos de cristalização.
114
100
90
concentração (g/100 ml de H2O)
80
70
60
50
40
30
20
10
0
0 20 40 60 80 100 120
Temperatura (°Celsius)
115
Este sal não produziu sementes nem nas paredes nem no fundo do recipiente, no
período de duas semanas programadas. Em comparação, a água destilada evaporou 10% a
mais que a solução no mesmo período e nas mesmas condições ambientais. Nas primeiras
medidas, a água evaporou numa taxa menor aumentando em seguida e mantendo-se maior
durante todo o tempo de observação (figura 68).
Tabela 26. - Dados de evaporação de solução de bromato de sódio (área de evaporação 38,46 cm2): A – Em
repouso com suporte, B – Em repouso I, C – Em repouso II.
H2O
A B C
Destilada
Tempo T
Taxa de Taxa de Taxa de
(dias) (°C) Massa Massa Massa Taxa *
Evaporação Evaporação Evaporação
(g) (g) (g) (g/dia)
(g/dia) (g/dia) (g/dia)
0 22 140,41 - 140,78 - 140,20 - -
2 25 136,44 1,99 137,01 1,89 136,44 1,88 1,62
4 24 133,39 1,76 134,20 1,65 133,57 1,66 1,92
6 23 130,16 1,71 131,19 1,60 130,64 1,59 1,84
8 24 127,46 1,62 128,73 1,51 128,08 1,52 1,76
10 22 124,47 1,59 125,87 1,49 125,14 1,51 1,83
12 21 120,55 1,66 121,65 1,59 120,93 1,61 1,98
14 22 117,77 1,62 119,10 1,55 118,31 1,56 1,89
Média - 1,70 - 1,61 - 1,62 1,83
2,50
Taxa de evaporação (ml/dia)
Em repouso com
2,00 suporte
Em repouso I
1,50
1,00 Em repouso II
0,00
0 5 10 15
Tempo (dias)
116
Crescimento cristalino em repouso
No começo dos trabalhos desta dissertação foram realizados alguns experimentos com
este sal sem critérios de observação, por um tempo mais longo e sem a proteção de gaze.
Nestas condições foram produzidas algumas sementes cristalinas idiomórficas e de tamanhos
variados (figura 69 (a)). Um destes cristais foi pendurado por uma linha e inserido em solução
para continuidade de crescimento cristalino. O resultado foi satisfatório, pois o cristal
praticamente dobrou de tamanho, como pode ser concluído pela linha que antes envolvia o
cristal e agora se encontra no interior do mesmo (figura 69 (b)).
(a) (b)
Figura 69. (a) Sementes produzidas pela solução; (b) Semente mostrando seu tamanho inicial através da linha
envolvida pelo cristal.
117
Figura 70. Cubo. Fonte: Neves et al (2011)
Figura 71. Octaedro com respectivos índices de Miller e eixos cristalográficos. Fonte: (Klein, 2007)
118
Figura 72. Representação da forma cristalina. A face em destaque dos dois cristais escolhidos pode ser
classificada como a face (111) do índice de Miller.
Acetato de cobre (II), também referido como acetato cúprico, é o composto químico
com a fórmula Cu2(OAc)4 onde AcO- é acetato (CH3CO2-). O derivado hidratado, o qual
contém uma molécula de água para cada átomo de carbono, é disponível comercialmente.
Cu2(OAc)4 é um sólido cristalino verde escuro, enquanto o Cu2(OAc)4(H2O)2 é mais verde-
azulado. Desde a antiguidade, acetato de cobre de alguma forma tem sido usado como
fungicidas e pigmentos verdes. Hoje, Cu2(OAc)4 é usado como uma fonte de cobre (II) em
síntese inorgânica e como um catalisador ou um agente oxidante e síntese orgânica. Acetato
de cobre, como todos os compostos de cobre, emite um fulgor verde-azulado em chama.
De acordo com o diagrama de Hommel (tabela 27), este sal oferece médio risco à
saúde, pois a exposição prolongada ou persistente pode causar incapacidade temporária com
possíveis danos residuais, não é inflamável e não é reativo. Estas características classificam
este sal como não recomendável para experimentos didáticos de cristalização com a
participação de crianças, entretanto é recomendável para experimentos com o público jovem e
adulto.
119
Tabela 27. – Características do acetato de cobre mono-hidratado. Fonte: IUPAC (2012)
120
Tabela 28. Dados de evaporação de solução de acetato de cobre II (área de evaporação 38,46 cm2): A – em
repouso com suporte, B – em repouso I, C – em repouso II.
H2O
A B C
Destilada
Tempo T
Taxa de Taxa de Taxa de
(dias) (°C) Massa Massa Massa Taxa *
Evaporação Evaporação Evaporação
(g) (g) (g) (g/dia)
(g/dia) (g/dia) (g/dia)
0 23 109,63 - 109,61 - 110,37 - -
2 26 106,26 1,69 106,13 1,74 106,83 1,77 1,97
4 24 103,05 1,65 102,95 1,67 103,56 1,70 1,85
6 23 101,54 1,35 101,47 1,36 101,99 1,40 1,52
8 24 98,95 1,34 99,17 1,31 99,47 1,36 1,49
10 22 97,37 1,23 97,59 1,20 97,81 1,26 1,37
12 21 96,10 1,13 96,28 1,11 96,53 1,15 1,27
14 23 93,84 1,13 93,99 1,12 94,21 1,15 1,25
Média - 1,36 - 1,36 - 1,40 1,53
2,50
Taxa de evaporação (g/dia)
2,00
Em repouso com
1,50 suporte
Em repouso I
1,00
Em repouso II
0,50
Água destilada
0,00
0 5 10 15
Tempo (dias)
121
(a) (b)
Figura 74. (a) Micro cristais nas paredes do recipiente e na superfície da solução; (b) Agregado de cristais
recolhido 20 dias após o término do experimento.
Num outro procedimento uma gota de solução foi colocada em uma placa de vidro e
exposta à evaporação sem proteção. Após algumas horas, a solução evaporou completamente
produzindo micro cristais idiomórficos de acetato de cobre, como se pode observar na figura
75 (a).
Outras soluções foram preparadas da mesma maneira e colocadas para evaporar
indefinidamente, para se observar o comportamento do sal em processo de cristalização.
Após a evaporação total obteve-se dois tipos de crescimento cristalino: pequenos
cristais idiomórficos no fundo e cristais dendríticos revestindo toda a parede do recipiente
(figura 75 (b)). Os cristais do fundo, apesar de serem muito pequenos, foram recolhidos, para
serem utilizados em outros procedimentos (figura 75 (c)).
Não se conseguiu recolher quaisquer dos cristais dendríticos, por serem muito
delicados, sem consistência sólida, parecendo-se muito com uma espécie de talco, se
desfazendo com qualquer tipo de contato (figura 75 (d)).
Os cristais dendríticos continuaram a crescer até o final da solução revestindo toda
parte interna das paredes do recipiente (figura 75 (e) e (f)).
122
(b)
(a)
(c) (d)
(e)
(f)
Figura 75. Fotos de experimentos em repouso do acetato de cobre mono-hidratado. (a) Micro cristais nas
paredes do recipiente e na superfície da solução; (b) Precipitado recolhido 20 dias após o término do
experimento.
123
Neste experimento de cristalização observou-se a formação de cristais com hábito e
cor distintos (figura 75 (b)), cristais azuis claros frágeis como o talco (microcristais) e cristais
azuis escuros mais compactos com sistema cristalino definido (macrocristais prismáticos)
(figura 75 (c)), dos quais foram feitos difratogramas de raios X.
Os resultados indicam que o material fino cristalizado azul claro em volta dos cristais
prismáticos de acetato de cobre é bastante hidratado. Trata-se provavelmente de um precursor
da cristalização do acetato de cobre. Parece que há sulfato em um dos compostos, fonte de
enxofre pode ser da atmosfera ou alguma impureza no reagente (figura 76).
Os macrocristais prismáticos são de acetato de cobre (figura 77) e os microcristais são
uma mistura de acetatos e carbonatos de cobre (figura 78).
Figura 76. Difratogramas sobrepostos dos cristais obtidos a partir da solução de acetato de cobre.
124
Figura 77. Difratograma do material macrocristalino prismático, indicando ser composto por acetato de cobre.
Os cristais obtidos a partir da solução de acetato de cobre hidratado (C4H6CuO4.H2O), com a presença de uma
pequena quantidade de acetato de cobre hidróxi-hidratado (C2H6Cu2O5.H2O), cujos picos de difração se
encontram indexados no gráfico.
Figura 78. Difratograma do material microcristalino associado ao acetato de cobre hidratado. O material é uma
mistura com predominância de acetato de cobre hidróxi-hidratado (C2H6Cu2O5.H2O), com acetato de cobre
hidratado (C4H6CuO4.H2O) e uma quantidade subordinada de carbonato-sulfato de cobre hidróxi-hidratado
(Cu8(SO4)4(CO3)(OH)6.48H2O), cujos picos de difração se encontram indexados no gráfico.
125
Os cristais monoclínicos apresentam constantes paramétricas diferentes entre si
(a≠b≠c); quanto às constantes angulares, duas são iguais entre si e diferentes de uma terceira
( =γ=90°; ≠90°). Têm como forma fundamental o paralelepípedo monoclínico (figura 79),
da qual deriva uma série de formas (prisma, doma, pinacóide e esfenóide).
(a) (b)
Figura 80. (a) Cristal pequeno de acetato de cobre; (b) faces do cristal idiomórfico de acetato de cobre.
126
De acordo com os experimentos realizados, conclui-se que este sal não é
recomendável para uso em experimentos didáticos de cristalização para o público infantil,
pois além de não produzir cristais idiomórficos num tamanho suficientemente bom para dar
prosseguimento aos procedimentos de crescimento cristalino num período de duas semanas,
está classificada como médio no quesito riscos a saúde no diagrama de Hommel. Entretanto,
para o público jovem e adulto, este experimento pode ser recomendado, pois permite observar
a formação de mais de um tipo de cristal, visíveis com a utilização de uma lupa e ou mesmo à
vista desarmada; o material deve ser manuseado com luvas de proteção e com o devido
cuidado.
127
200,0
128
Este sal não produziu nenhum cristal grande o suficiente para dar prosseguimento aos
experimentos de crescimento cristalino, durante as duas semanas de observação. O sal
produziu apenas micro cristais dendríticos que revestiu totalmente as paredes do recipiente,
treze dias após o período de observação (figura 82).
Importante salientar que o corpo de fundo não se dissolveu durante o período de
programação proposto. Como não se obteve o resultado desejado, estes experimentos foram
utilizados para medir a taxa de evaporação da solução (tabela 30), que em comparação com a
taxa da água destilada demonstrou ser menor em 72%, mantendo praticamente o mesmo
comportamento durante as duas semanas de observação, nas mesmas condições ambientais
(figura 83).
Tabela 30. Dados de evaporação de solução de nitrato de sódio (área de evaporação 38,46 cm2): A – Em repouso
com suporte, B – Em repouso I, C – Em repouso II.
H2O
A B C
Destilada
Tempo T
Taxa de Taxa de Taxa de
(dias) (°C) Massa Massa Massa Taxa *
Evaporação Evaporação Evaporação
(g) (g) (g) (g/dia)
(g/dia) (g/dia) (g/dia)
0 23 196,30 - 197,20 - 197,02 - -
2 26 194,64 0,83 195,94 0,63 195,53 0,75 1,97
4 24 193,69 0,65 194,90 0,57 194,53 0,62 1,85
6 23 193,47 0,47 194,71 0,41 194,31 0,45 1,52
8 24 192,90 0,43 194,13 0,38 193,71 0,41 1,49
10 22 192,92 0,34 194,27 0,29 193,80 0,32 1,37
12 21 193,02 0,27 194,35 0,24 193,84 0,27 1,27
14 23 192,54 0,27 193,93 0,23 193,41 0,26 1,25
Média - 0,47 - 0,40 - 0,44 1,53
129
Figura 82. Recipiente revestido por microcristais de nitrato de sódio treze dias após o término do período de
duas semanas de observação, sem a proteção da gaze.
2,50
Taxa de evaporação (g/dia)
2,00
Em repouso com
suporte
1,50
Em repouso I
1,00
Em repouso II
0,50
Água destilada
0,00
0 5 10 15
Tempo (dias)
130
Após o término do período programado a solução permaneceu no recipiente por mais
treze (13) dias sem a proteção da gaze e sem critério de obtenção de dados, com o objetivo de
observar a possibilidade de crescimento de cristais (figura 82). Após três dias, o corpo de
fundo não dissolve e micros cristais cresceram na parede interna do recipiente (figura 84 (a)).
Estes cristais se desenvolveram, mas não com o tamanho suficiente para serem recolhidos e
utilizados em outros procedimentos.
Com o corpo de fundo ainda presente, os micros cristais dendríticos revestem todo o
recipiente, tanto interna quanto externamente após o período de treze dias a mais que as duas
semanas previstas (figura 84 (b), (c) e (d)).
(b)
(a)
(d)
(c)
Figura 84. (a) Microcristais nas paredes do recipiente, três dias após o término do período de observação; (b)
Detalhe de microcristais; (c) e (d) Revestimento completo pelo crescimento dendrítico de microcristais e nitrato
de sódio.
131
Este sal não produziu cristais idiomórficos para ilustrar o sistema cristalino trigonal ao
qual pertence (figura 85).
132
60,0
50,0
Concentração (g/ 100 ml H2O)
40,0
30,0
20,0
10,0
0,0
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90
Temperatura (°Celsius)
Figura 86. Curva de solubilidade do sulfato de magnésio hepta-hidratado. Fonte: IUPAC (2012)
Sulfato de magnésio
Nome IUPAC
heptahidratado
Outros nomes Sal de Epsom
Identificadores
Número CAS (Chemical 7487-88-9
Abstracts Service)
Propriedades
133
Apenas para análise do comportamento do sal quanto à produção de cristais, foi
preparado um experimento em um recipiente do tipo pirex de 70 cm2 de área de evaporação,
com 168,5 g de sulfato de magnésio hepta-hidratado em 500 ml de água destilada a
temperatura ambiente sem proteção de gaze ou previsão de tempo para início e término de
observação. Quando toda a solução evaporou obteve-se no fundo do recipiente uma camada
de cristais compacta e aderente, impossibilitando a retirada de qualquer cristal para dar
prosseguimento aos experimentos de crescimento cristalino (figura 88).
Tabela 32. Dados de evaporação de solução de sulfato de magnésio hepta-hidratado (área de evaporação 38,46
cm2): A – em repouso com suporte, B – em repouso I, C – em repouso II.
H2O
A B C
Destilada
Tempo T
Taxa de Taxa de Taxa de
(dias) (°C) Massa Massa Massa Taxa *
Evaporação Evaporação Evaporação
(g) (g) (g) (g/dia)
(g/dia) (g/dia) (g/dia)
0 23 137,24 - 137,70 - 137,57 - -
2 26 133,88 1,68 134,36 1,67 134,31 1,63 1,97
4 24 131,86 1,35 132,42 1,32 132,21 1,34 1,85
6 23 129,99 1,21 130,62 1,18 130,19 1,23 1,52
8 24 127,90 1,17 128,89 1,10 128,26 1,16 1,49
10 22 126,40 1,08 127,31 1,04 126,97 1,06 1,37
12 21 125,08 1,01 126,09 0,97 125,85 0,98 1,27
14 23 122,71 1,04 123,65 1,00 123,48 1,01 1,25
Média - 1,20 - 1,18 - 1,20 1,53
2,50
Taxa de evaporação (g/dia)
Em repouso com
2,00 suporte
1,50 Em repouso I
1,00 Em repouso II
0,50
Água destilada
0,00
0 5 10 15
Tempo (dias)
134
Figura 88. Camada de cristais acicularesde sulfato de magnésio hepta-hidratado formada no fundo do recipiente.
Na preparação das soluções para experimentos em repouso e com suporte o sal foi
totalmente dissolvido não deixando corpo de fundo (figura 89 (a) e (b)). Dezenove dias após o
término do experimento em repouso com suporte, sem a proteção da gaze ou qualquer outro
tipo de procedimento, uma fina camada de cristais revestiu a superfície da solução,
aprisionando até pequena quantidade de ar (figura 89 (c)). Não se obteve nenhum cristal
idiomórfico, apenas esta fina camada. Em outros experimentos, também dezenove dias após
as duas semanas previstas pra observação, alguns pequenos cristais se formaram no fundo do
recipiente (figura 89 (d)). Sem que fossem retirados estes cristais foram deixados em repouso
por mais dez dias, quando se observou um crescimento de um agregado cristalino, enquanto
micro cristais revestiam as paredes do recipiente (figura 89 (e) e (f)).
135
(a) (b)
(d)
(c)
(f)
(e)
Figura 89. (a) Solução homogênea de sulfato de magnésio hepta-hidratado; (b) Experimento em repouso com
suporte, sem corpo de fundo; (c) Fina camada de sulfato de magnésio cristalizado na superfície da solução; (d)
Pequenos cristais formados dezenove dias depois; (e) Cristais crescidos no fundo do recipiente; (f) Revestimento
de micro cristais de sulfato de magnésio hepta hidratado.
136
Os cristais monoclínicos apresentam constantes paramétricas diferentes entre si
(a≠b≠c); quanto às constantes angulares, duas são ortogonais e diferentes de uma terceira
( =γ=90°; ≠90°). Têm como forma fundamental o paralelepípedo monoclínico (figura 90),
da qual deriva uma série de formas (prisma, doma, pinacóide e esfenóide).
137
Diante de todas estas informações, é importante citar que os experimentos foram
preparados com a utilização de luvas, avental e mascaras de proteção evitando qualquer tipo
de contato ou inalação. Por ser então classificado como de alto risco à saúde, independente de
se produzir cristais idiomórficos ou não, este sal não é recomendável para utilização em
experimentos didáticos de cristalização.
90
Concentração (g/100ml de H2O)
80
70
60
50
40
30
20
10
0
20 40 60 80 100 120
Temperatura (°Celsius)
Figura 91. Curva de solubilidade do sulfato de níquel hexa-hidratado. Fonte: IUPAC (2012)
Tabela 33. – Características do Sulfato de níquel hexa-hidratado. Fonte: IUPAC (2012)
138
Não se obteve nenhum cristal idiomórfico nas duas semanas de observação em
nenhum dos experimentos. Quanto à taxa de evaporação, constatou-se que a água evaporou 39
% a mais que a média da solução nas mesmas condições ambientais (tabela 34).
Tabela 34. Dados de evaporação de solução de sulfato de níquel hexa-hidratado (área de evaporação 38,46 cm2):
A – Em repouso com suporte, B – Em repouso I, C – Em repouso II.
H2O
A B C
Destilada
Tempo T
Taxa de Taxa de Taxa de
(dias) (°C) Massa Massa Massa Taxa *
Evaporação Evaporação Evaporação
(g) (g) (g) (g/dia)
(g/dia) (g/dia) (g/dia)
0 25 149,17 - 149,86 - 148,99 - -
2 25 145,84 1,66 146,60 1,63 145,64 1,68 2,07
4 25 143,95 1,31 144,39 1,37 143,58 1,35 2,37
6 24 142,10 1,18 142,52 1,22 141,52 1,25 2,18
8 22 140,20 1,12 140,24 1,20 139,68 1,16 1,93
10 21 138,79 1,04 138,84 1,10 138,31 1,07 1,78
12 26 137,58 0,97 137,50 1,03 136,98 1,00 1,77
14 26 135,48 0,98 135,43 1,03 134,70 1,02 1,73
Média - 1,18 - 1,23 - 1,22 1,98
2,50
Taxa de evaporação (ml/dia)
2,00
Em repouso com
suporte
1,50
Em repouso I
1,00
Em repouso II
0,50
Água destilada
0,00
0 5 10 15
Tempo (dias)
Figura 92. Taxas de evaporação dos experimentos de sulfato de níquel hepta hidratado em repouso e da água
destilada.
139
Crescimento cristalino em repouso
Foi realizado um experimento para análise do crescimento cristalino com o mesmo
período de duas semanas de observação, mas sem os mesmos critérios de preparação.
Uma semente foi implantada em uma solução para observação do crescimento
cristalino, sem a proteção da gaze nas mesmas condições ambientais. Os dados na tabela e no
gráfico indicam claramente que a solução tem uma maior taxa de evaporação que a água
destilada (tabela 35).
Tabela 35. Dados de evaporação de solução de sulfato de níquel hexa-hidratado (área de evaporação 38,46 cm2):
D – Crescimento cristalino em repouso.
H2O
D
Destilada
Tempo T
Taxa de
(dias) (°C) Massa Massa Taxa *
Evaporação
(g) (g) (g/dia)
(g/dia)
0 25 275,66 - 100,15 -
2 25 271,29 2,19 96,01 2,07
4 25 265,68 2,50 90,66 2,37
6 24 258,94 2,79 87,05 2,18
8 22 252,83 2,85 84,68 1,93
10 21 249,85 2,58 82,31 1,78
12 26 247,99 2,31 78,97 1,77
14 26 245,90 2,13 75,91 1,73
Média - 2,48 1,98
3,5
3
Taxa de evaporação (g/dia)
2,5
2
Água destilada
1,5
Crescimento cristalino
1 em repouso
0,5
0
0 5 10 15
Tempo (dias)
Figura 93. Taxas de evaporação do experimento de crescimento cristalino do sulfato de níquel hepta hidratado e
da água destilada.
140
A solução utilizada não foi inicialmente preparada e sim obtida através de soluções de
outros experimentos realizados anteriormente, e colocadas num mesmo recipiente. A semente
também não foi produzida pelo mesmo experimento e sim escolhida entre as muitas obtidas
anteriormente e recolhidas para este fim (figura 94 (a) e (b)).
O primeiro desafio foi esperar que a semente não se dissolvesse, acontecimento
comum entre os muitos experimentos preparados com este tipo de procedimento.
Geralmente as sementes produzidas e colocadas na mesma solução de origem não se
dissolvem e mantém o crescimento normal, enquanto que sementes produzidas em outros
experimentos muitas vezes não se comportam da mesma maneira quando inseridas em outras
soluções, dissolvendo-se. Neste caso a semente não se dissolveu e o experimento prosseguiu
sem problemas.
Na segunda medida, dois dias após o início do experimento a semente já pesava 125 %
a mais do que seu peso inicial, já envolvendo a linha que a sustentava (figura 94 (c) e (d)).
Na terceira medida observou-se o crescimento de microcristais nas paredes do
recipiente, e a formação de uma camada que avança em direção ao centro do recipiente, com a
tendência de encobrir a solução. A semente na terceira medida já pesava 232 % a mais que o
seu peso inicial (figura 94 (e) e (f)).
141
(a)
(b)
(d)
(c)
(e)
(f)
Figura 94. (a) A semente escolhida m=0,72g; (b) O preparo para o início do experimento; (c) Segunda medida
do cristal; (d) Detalhe do envolvimento da linha pela semente; (e) Micro cristais nas paredes do recipiente; (f)
Terceira medida, com 232 % a mais do seu peso inicial.
142
A semente foi seca delicadamente com papel toalha antes de ser pesada. Nesta medida, a
quarta num total de oito, a semente já pesava 688 % a mais do seu peso inicial (figura 95 (a)).
A partir desta medida a semente cresceu 1.318 %, chegando ao seu maior tamanho em peso
com 10,21 g (figura 95 (b), (c) e (d)).
Alguns cristais idomórficos cresceram na linha que sustenta a semente. Para medir o
peso da semente principal (maior), estes pequenos cristais eram retirados delicadamente por
dissolução com água destilada (figura 95 (e)).
O crescimento de micro cristais não continuou, estacionando em parte da parede interna do
recipiente não chegando até a borda (figura 95 (f)).
(a) (b)
(d)
(c)
(e) (f)
Figura 95. (a) Secagem da semente para medidas; (b), (c) e (d) Chegada a 10,21 g em peso, sua medida maior;
(e) Crescimento cristalino na linha de sustentação; (f) Parada de crescimento cristalino nas paredes do recipiente.
143
Na sétima medida a semente perdeu 13 % do seu peso em gramas, e na oitava e última
53 %. Observa-se que na quinta medida (figura 96 (a)), as faces estão lisas e bem formadas. Já
na figura 96 (b) o detalhe mostra as ranhuras resultantes da perda de massa por dissolução.
Este decréscimo em massa da semente cristalina está representado na figura 97, onde se
observa bem o declínio repentino da massa cristalina.
(a) (b)
Figura 96. (a) Sétima medida, perda de 13 % em massa; (b) Perda das características iniciais de formação.
Tabela 36. Medidas da semente e do volume da solução do experimento de crescimento cristalino em repouso.
Medidas
Solução (ml) Semente (g)
(dias).
0 275,66 0,72
2 271,29 1,62
4 265,68 2,39
6 258,94 5,67
8 252,83 9,51
10 249,85 10,21
12 247,99 8,85
14 245,90 4,14
∆ 29,76 3,42
144
12
10
Massa (g) 8
0
0 2 4 6 8 10 12 14
Tempo (dias)
Figura 97. Crescimento cristalino da semente gerada pelo experimento de crescimento cristalino em repouso.
1,2
Taxa de crescimento (g/dia)
1,0
0,8
0,6
0,4
0,2
0,0
0 2 4 6 8 10 12 14
Tempo (dias)
145
Os cristais tetragonais apresentam duas constantes paramétricas idênticas entre si e
uma diferente (a=b≠c) e constantes angulares iguais ao ângulo reto ( = =γ=90°).
(Apresentam como forma fundamental o prisma reto de base quadrada (figura 99), da qual
deriva uma série de formas, escalenoedro, trapezoedro, pirâmide, pédion e biesfenoide). Este
sal produz cristais típicos desse sistema cristalino, como pode ser observado na figura 100.
146
Além de não produzir cristais idiomórficos no período programado, este sal não é
recomendável para experimentos didáticos de cristalização, principalmente por ser tóxico, de
acordo com o diagrama de MSDS (em inglês: Material Safety Data Sheets). Todos os
experimentos foram feitos em um laboratório apropriado e com todos os cuidados para não se
ter qualquer tipo de contato ou ser inalado. OBS: o fato de não obtermos cristais bonitos em
duas semanas não é grave, porque este prazo foi estipulado de modo totalmente arbitrário, não
havendo nenhum motivo para usarmos duas semanas de prazo.
200
Concentração ( g/100 ml de H2O)
150
100
50
0
0 20 40 60 80 100
Temperatura (°C)
Figura 101. Curva de solubilidade do sulfato de alumínio e potássio, KAl(SO 4)2.12H2O. fonte: IUPAC (2012).
147
Tabela 37. Características do Sulfato de alumínio e potássio dodeca-hidratado. Fonte: IUPAC (2012)
Sulfato de alumínio e
Nome IUPAC
potássio
Outros nomes Alumen de potássio
Identificadores
Número CAS (Chemical
7784-24-9
Abstracts Service)
Propriedades
Fórmula Química KAl (SO4)2.12H2O
Massa Molar 258,21 g/mol -1
Aparência Pó branco cristalino
Densidade 1,76 g/cm3
Ponto de fusão 92-93°C
Ponto de ebulição 200°C
Solubilidade em água 12,0 g/100ml (20°C)
Solubilidade Insolúvel em acetona
Estrutura
Estrutura cristalina Cúbico
A média da taxa de evaporação foi praticamente a mesma, como pode ser observadas
na tabela 38 colunas A, B, C e H2O destilada, de onde se concluiu que o sal nos experimentos
em repouso não interferiu significativamente na taxa de evaporação. O experimento de
crescimento cristalino com agitação apresentou o dobro de evaporação (tabela 39, coluna D)
comparado a média das outras taxas (figura 102).
148
Tabela 38. Dados de evaporação de solução de sulfato de alumínio e potássio (área de evaporação 38,46 cm2): A
– Em repouso com suporte, B – Em repouso I, C – Em repouso II.
H2O
A B C
Destilada
Tempo T
Taxa de Taxa de Taxa de
(dias) (°C) Massa Massa Massa Taxa *
Evaporação Evaporação Evaporação
(g) (g) (g) (g/dia)
(g/dia) (g/dia) (g/dia)
0 25 112,64 - 112,30 - 112,46 - -
2 25 109,98 1,33 109,11 1,60 109,57 1,45 2,43
4 25 106,44 1,55 105,60 1,68 106,72 1,44 2,28
6 24 103,14 1,58 102,46 1,64 103,50 1,49 2,28
8 25 100,07 1,57 99,43 1,61 100,53 1,49 2,10
10 25 97,46 1,52 96,75 1,56 96,49 1,60 1,89
12 26 94,47 1,51 94,08 1,52 94,34 1,51 1,83
14 26 92,50 1,44 92,23 1,43 92,09 1,46 1,93
Média - 1,50 - 1,58 - 1,49 1,53
Tabela 39. Dados de evaporação do experimento de crescimento cristalino com agitação de sulfato de níquel
hexa-hidratado (área de evaporação 38,46 cm2): D – Crescimento cristalino com agitação.
H2O
D
Destilada
Tempo T
Taxa de
(dias) (°C) Massa Taxa *
Evaporação
(g) (g/dia)
(ml/dia)
0 25 129,63 - -
2 25 115,75 6,87 1,97
4 25 108,88 5,19 1,85
6 24 100,43 4,87 1,52
8 22 92,19 4,68 1,49
10 21 84,92 4,47 1,37
12 26 75,65 4,50 1,27
14 26 67,21 4,46 1,25
Média - 5,00 1,53
149
2,50
Taxa de evaporação (g/dia)
2,00
Em repouso com
suporte
1,50
Em repouso I
1,00
Em repouso II
0,50
Água destilada
0,00
0 5 10 15
Tempo (dias)
Tabela 40. Medidas da semente e do volume da solução do experimento de crescimento cristalino com agitação.
150
0,3
0,2
0,15
0,1
0,05
0
0 2 4 6 8 10 12 14
Tempo (dias)
Figura 103. Taxa de crescimento cristalino da semente gerada no experimento 12.8 (Agitação).
4,5
4
3,5
3
Massa (g)
2,5
2
1,5
1
0,5
0
0 2 4 6 8 10 12 14
Tempo (dias)
Figura 104. Gráfico do crescimento cristalino do sulfato de alumínio e potássio em experimento com agitação.
151
Crescimento cristalino com agitação
Foi escolhida uma semente de sulfato de alumínio e potássio de massa igual a 0,67g,
obtida em outro experimento, e inserida na solução (Tabela 39, coluna D) para que fosse
observado o crescimento cristalino com agitação. Entre o béquer e o aparelho de agitação
mecânica foi colocada uma placa de isopor com espessura de 4 cm, para que o temperatura
não interferisse na solução.
Vinte e quatro horas depois, a semente, com o agitador mecânico ligado, se
desprendeu da linha na qual estava presa e caiu no fundo do recipiente se dissolvendo.
O experimento não foi abortado, apenas o agitador mecânico foi desligado. A solução ficou
então em repouso por nove dias, fazendo com que outro cristal crescesse no fundo do
recipiente, recolhido e preso à linha para dar prosseguimento ao experimento (figura 105).
Figura 105. Fotos do experimento de crescimento cristalino com agitação do sulfato de alumínio e potássio. (a)
Crescimento de sementes no fundo do recipiente. (b), (c) e (d) Semente escolhida, medida e presa à linha de
sustentação; (e) e (f) Semente inserida na solução.
152
Esta semente foi retirada da solução, pesada (Tabela 40) e pendurada por uma linha na
própria solução (figura 105 (e), (f)). Com o agitador ligado, as medidas de crescimento
cristalino e da taxa de evaporação da solução foram feitas no período de duas semanas de 48
em 48 horas, como já foi descrito.
A semente recolhida da solução e presa pela linha não se dissolveu, mesmo com o
agitador mecânico ligado. No período de observação surgiu pequena quantidade de corpo de
fundo (figura 106 (e)). Observou-se também a ocorrência de um pequeno crescimento
cristalino na linha que sustentava a semente (figura 106 (a)).
(a) (c)
(b)
Figura 106. (a) Crescimento cristalino na linha que suporta o cristal. (b) Presença de corpo de fundo. (c) Cristal
retirado para medidas. (d) Observação da linha que suporta o cristal, evidência de crescimento cristalino. (e)
Cristal de corpo de fundo. (f) Produto final após 2 semanas de observação e medidas.
153
Após a segunda medida, quando a taxa de crescimento foi a mais baixa, o cristal
continuou seu crescimento a uma taxa média de 0,22 g/dia (Figura 103). Ao final das duas
semanas previstas o cristal e a solução foram recolhidos (figura 106 (f)).
Por produzir cristais idiomórficos, este sal foi classificado como bom para ser
utilizado em experimentos didáticos de cristalização. O curto espaço de tempo para obtenção
dos cristais e o fato de ser atóxico, são aspectos muito favoráveis para esta classificação.
(a) (b)
(c) (d)
Figura 107. (a) Apresentação de face perfeita do cristal. (b).Apresentação de um cubo-octaedro. (c) Cristal
geminado com face perfeita. (d) Octaedros sobre postos. Exp. 12.8 (Agitação).
Através da figura 107 pode-se notar que o cristal formado pelo sulfato de alumínio de
potássio pertence ao sistema cúbico ou isométrico, pois se trata de um cubo-octaedro regular
de oito faces representado na figura 107 (c). Nesta foto quatro das oito faces estão bem
representadas.
Os cristais isométricos apresentam igualdade em suas constantes paramétricas (a=b=c)
e angulares ( = =γ=90°). Tem como forma fundamental o cubo figura 108, da qual deriva
uma série de formas, entre elas o cubo - octaedro.
154
Figura 108. Cubo-octaedro. Fonte: Neves et al (2011).
A figura 107 (c) representa a face (111) do octaedro representado na figura 109.
Figura 109. Octaedro com respectivos índices de Miller e eixos cristalográficos. Fonte: Klein e Dutrow (2007),
No caso do octaedro regular (figura 109), o plano que intercepta os três eixos nos
vértices da célula (a=b=c) terá os índices (111), representado também na figura 111.
Na figura 110, pode-se notar os sucessivos estágios de crescimento num cristal
imaginário de duas dimensões. O crescimento mais rápido de um cristal em uma dada direção
pode causar o desaparecimento de algumas faces, como no caso da face y indicada na figura
110. A taxa de crescimento é indicada pelas setas (vetores) normais às faces do cristal. Como
o crescimento é mais rápido na direção normal à face y, esta tende a desaparecer.
155
Figura 110. Sucessivos estágios de crescimento de um cristal imaginário de duas dimensões. Fonte: (Holden e
Morrison (1982).
Figura 111. Representação da forma cristalina. A face em destaque pode ser classificada como a face de índice
de Miller (111) forma {111}.
156
No caso dos experimentos em repouso, e em repouso com suporte, observou-se que
duas semanas não foram suficientes para evaporar o solvente e atingir o grau de concentração
de sal necessária para obtenção de um cristal.
80
70
Concentração (g/100 ml de H2O)
60
50
40
30
20
10
0
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100
Temperatura (°Celsius)
Figura 112. Curva de solubilidade do ferrocianeto de potássio (K4[Fe(CN)6].3H2O) . Fonte: IUPAC (2012)
157
Tabela 41. Características do ferrocianeto de potássio. Fonte: IUPAC (2012)
Hexacianoferrato (II)
Nome IUPAC
de potássio
Ferrocianeto de
Outros nomes tetrapotássio, tri-
hidratado
Identificadores
Número CAS (Chemical 14459-95-1
Abstracts Service)
Propriedades
Fórmula Química (K4[Fe(CN)6].3H2O)
Comparada às taxas de evaporação das soluções, a taxa da água destilada foi em média
6,5 % maior, mantendo praticamente o mesmo comportamento durante o tempo programado
de duas semanas (figura 113).
Neste período foram realizadas apenas as medidas das taxas de evaporação, pois
nenhum experimento produziu cristais idiomórficos com tamanho suficientemente grande
para dar prosseguimento aos experimentos para observação do crescimento cristalino (tabela
42).
Em outros experimentos sem o cuidado da proteção da gaze e sem o critério de
medidas de 48 em 48 horas, realizados apenas para analisar o comportamento do sal em
solução, alguns cristais dendríticos cresceram nas paredes do recipiente.
158
Tabela 42. Dados dos experimentos em repouso de evaporação de solução de ferrocianeto de potássio (área de
evaporação 38,46 cm2): A – sementeira em repouso, B – em repouso I, C – em repouso II.
H2O
A B C
Destilada
Tempo T
Taxa de Taxa de Taxa de
(dias) (°C) Massa Massa Massa Taxa *
Evaporação Evaporação Evaporação
(g) (g) (g) (g/dia)
(g/dia) (g/dia) (g/dia)
0 22 131,02 - 131,61 - 131,31 - -
2 25 126,69 2,17 126,61 2,50 126,68 2,32 2,43
4 24 123,07 1,99 122,71 2,23 122,70 2,15 2,28
6 23 119,02 2,00 118,62 2,17 118,91 2,07 2,28
8 24 116,19 1,85 115,57 2,01 115,92 1,92 2,10
10 22 114,27 1,68 113,46 1,82 113,78 1,75 1,89
12 21 111,13 1,66 109,86 1,81 110,19 1,76 1,83
14 22 106,23 1,77 104,67 1,92 105,06 1,88 1,93
Média - 1,87 2,06 - 1,98 2,10
3,00
2,50
Taxa de evaporação (g/dia)
Em repouso com
2,00
suporte
1,50 Em repouso I
1,00 Em repouso II
0,00
0 5 10 15
Tempo (dias)
Figura 113. Gráfico comparativo da taxa de evaporação do ferrocianeto de potássio e da água destilada.
159
A solução foi preparada de acordo com a curva de solubilidade do ferrocianeto de
potássio (figura 112), à temperatura ambiente, aproximadamente 20°C, sem proteção de gaze
e sem as duas semanas previstas para observação. Foram preparadas três soluções para
experimentos em repouso com suporte, em repouso I e em repouso II, que duraram 21 dias.
Para o experimento em repouso foi introduzido na solução um fragmento de feldspato. Doze
dias depois se observou o crescimento de cristais dendríticos nas paredes do recipiente, e
nenhum cristal no suporte (figura 114 (a)). Nove dias após esta medida, o suporte de feldspato
foi removido com micro-cristais crescidos em sua superfície superior (figura 114 (b)). Os
cristais formados são pequenos, chegando a ser milimétricos.
No experimento em repouso I, o sal também não foi completamente dissolvido,
deixando um corpo de fundo que persistiu até o final do experimento (figura 114 (c)). Vinte e
um dias depois, os cristais dendríticos das paredes do recipiente quase atingiram a borda
superior do recipiente (figura 114 (d)). Estes cristais demonstraram ser muito frágeis,
impedindo qualquer possibilidade de recolhimento para utilização com semente em
experimento de crescimento cristalino.
Detalhes dos cristais dendríticos crescidos nas paredes internas do recipiente do
experimento em repouso II (figura 114 (e) e (f)).
160
(a) (b)
(c) (d)
(e) (f)
Figura 114. (a) Experimento em repouso com suporte, 12 dias depois; (b) Cristais na superfície do suporte, 21
dias depois final; (c) Solução com corpo de fundo; (d) Cristais nas paredes internas do recipiente; (e) e (f)
Detalhes dos cristais dendríticos nas paredes do recipiente.
161
Os experimentos não produziram cristais idiomórficos, mas pertencem ao sistema
monoclínico. Este sistema apresenta constantes paramétricas diferentes entre si (a≠b≠c);
quanto às constantes angulares, duas são iguais entre si e diferentes de uma terceira ( =γ=90°;
≠90°) como pode ser observado na figura 115.
Apesar de ser um sal apenas levemente tóxico, de acordo com o diagrama de Hommel
(tabela 41), este não é recomendável para utilização em experimentos didáticos de
cristalização, por não produzir cristais idiomórficos com nenhum período de observação.
162
250
Concentração (g/ 100ml de H2O)
200
150
100
50
0
0 20 40 60 80 100 120
Temperatura (°Celsius)
Figura 116. Curva de solubilidade do clorato de sódio NaClO3 . Fonte: IUPAC (2012)
Tabela 43. Características do clorato de sódio. Fonte: IUPAC (2012)
163
Os experimentos não produziram nenhum tipo de cristal, nas duas semanas de
observação, sendo efetuadas apenas as medidas das taxas de evaporação (tabela 44).
As taxas de evaporação foram diferentes para cada tipo de experimento de acordo com as
colunas A, B e C da tabela 44, apresentando ao final uma média de 0,91 ml/dia. A taxa de
evaporação da água destilada nas mesmas condições foi maior em 57% (figura 117).
Tabela 44. Dados de evaporação do clorato de sódio (área de evaporação 38,46 cm2): A – sementeira em
repouso, B – em repouso I, C – em repouso II.
H2O
A B C
Destilada
Tempo T
Taxa de Taxa de Taxa de
(dias) (°C) Massa Massa Massa Taxa *
Evaporação Evaporação Evaporação
(g) (g) (g) (g/dia)
(g/dia) (g/dia) (g/dia)
0 25 205,78 - 205,93 - 206,03 - -
2 26 204,24 0,77 202,49 1,72 203,20 1,42 2,43
4 26 202,49 0,82 200,30 1,41 201,40 1,16 2,28
6 25 201,08 0,78 198,40 1,26 200,15 0,98 2,28
8 23 200,42 0,67 197,51 1,05 199,42 0,83 2,10
10 20 200,21 0,56 197,18 0,88 197,37 0,87 1,89
12 23 199,40 0,53 196,35 0,80 198,69 0,61 1,83
14 26 198,06 0,55 195,00 0,78 196,05 0,71 1,93
Média - 0,67 1,13 - 0,94 2,10
3,00
Taxa de evaporação (ml/dia)
2,50
Em respoudo com
2,00
suporte
1,50 Em repouso I
1,00 Em repouso II
0,00
0 5 10 15
Tempo (dias)
Figura 117. Gráfico comparativo da taxa de evaporação do clorato de sódio e da água destilada.
164
Para o experimento em repouso com suporte, foi escolhido um fragmento do mineral
feldspato. No momento inicial de preparo não se conseguiu dissolver todo o sal, ficando como
corpo de fundo na solução dos três experimentos (figura 118 (a), (c) e (e)). Onze dias depois
na sexta medida, o sal estava completamente dissolvido, tornando as soluções homogêneas
(figura 118 (b), (d) e (f)). A partir desta medida até o final, nenhum cristal se desenvolveu na
solução.
(a) (b)
(c) (d)
(e) (f)
Figura 118. (a) Experimento em repouso com suporte logo após o preparo; (b), (d) e (f) Solução homogênea; (c)
e (d) Solução com corpo de fundo.
165
Apesar de ser apenas levemente tóxico, de acordo com o diagrama de Hommel (tabela
43), este sal não é recomendável para utilização em experimentos didáticos de cristalização,
por não produzir cristais idiomórficos durante as duas semanas de observação. O fato de ser
também higroscópico, absorvendo a umidade do ar, o exclui de qualquer possibilidade de
utilização para este fim. Este detalhe pode explicar o comportamento diferenciado para cada
tipo de solução (figura 117). A umidade do ar durante as duas semanas de observação pode ter
interferido na taxa de evaporação, causando este comportamento observado.
O cloreto de potássio (KCl) é um sal metal haleto formado pelo íon cloreto e o íon
potássio. Seu uso é amplamente difundido no meio médico, como repositor do potássio no
organismo. Também usado na culinária com o cloreto de sódio é vendido comercialmente
como sal light, com baixo teor de sódio.
Este sal não oferece risco à saúde pois pode ser utilizado na culinária e apenas o seu
excesso pode causar danos residuais leves, de acordo com o diagrama de Hommel (tabela 45).
60,0
50,0
Concentração (g/ml)
40,0
30,0
20,0
10,0
0,0
0 20 40 60 80 100 120
Temperatura (°Celsius)
Figura 119. Curva de solubilidade do cloreto de potássio (KCl). Fonte: IUPAC (2012)
166
Tabela 45. Características do cloreto de potássio. Fonte: IUPAC (2012)
167
Tabela 46. Dados de evaporação de solução de cloreto de potássio (área de evaporação 38,46 cm2): A –
sementeira em repouso, B – em repouso I, C – em repouso II.
H2O
A B C
Destilada
Tempo T
Taxa de Taxa de Taxa de
(dias) (°C) Massa Massa Massa Taxa *
Evaporação Evaporação Evaporação
(g) (g) (g) (g/dia)
(g/dia) (g/dia) (g/dia)
0 25 138,32 - 138,30 - 138,42 - -
2 25 135,67 1,33 135,36 1,47 135,44 1,49 2,07
4 25 132,33 1,50 131,66 1,66 132,02 1,60 2,37
6 24 130,20 1,35 129,43 1,48 129,51 1,49 2,18
8 22 129,10 1,15 128,26 1,26 128,38 1,26 1,93
10 21 127,76 1,06 126,98 1,13 127,03 1,14 1,78
12 26 125,81 1,04 124,89 1,12 124,88 1,13 1,77
14 26 123,93 1,03 123,15 1,08 123,11 1,09 1,73
Média - 1,21 1,31 - 1,31 1,98
2,50
Taxa de evaporação (g/dia)
2,00
Em repouso com
suporte
1,50
Em repouso I
1,00
Em repouso II
0,50
Água destilada
0,00
0 5 10 15
Tempo (dias)
Figura 120. Gráfico comparativo da taxa de evaporação do cloreto de potássio e da água destilada.
168
Na preparação dos experimentos o sal não se dissolveu completamente, formando um
corpo de fundo que durou todo o período de duas semanas de observação. Nove dias depois,
na quinta medida das oito programadas, constatou-se o crescimento de micro cristais na
superfície dos três tipos de experimento (figura 121). Os cristais maiores se depositam no
fundo do recipiente, dando início ao crescimento da semente. Este processo não pode ser
observado, pois o experimento foi encerrado sem que o corpo de fundo dissolvesse,
dificultando a observação do crescimento.
(b)
(a)
(c)
(d)
Figura 121. (a), (b), (c) e (d) Micro cristais se desenvolvendo na superfície dos experimentos com o cloreto de
potássio.
169
Os cristais deste sal estão classificados como pertencentes ao sistema cristalino cúbico
ou isométrico. Os cristais do sistema isométricos apresentam igualdade em suas constantes
paramétricas (a=b=c) e angulares ( = =γ=90°). Tem como forma fundamental o cubo figura
122, da qual deriva uma série de formas.
Apesar de ser atóxico, este sal não é recomendável para ser utilizado em experimentos
didáticos de cristalização, pelo período de observação por duas semanas. Se for adotado um
tempo maior de observação, este sal poderá produzir os cristais necessários para ser utilizado.
Yamaguchi et al (1998) conseguiram produzir cristais idiomórficos num período de 32
dias, com concentração de 0-1/2000 em fração molar, numa temperatura de 40°C, com
utilização de chumbo para reduzir a formação de cristais secundários (corpo de fundo), pH
entre 2,0 – 4,0 e com taxa de evaporação variando entre 04, - 1,1 g/dia.
Nos experimentos desta dissertação a temperatura foi ambiente (de 20 a 25°C), não foi
utilizada nenhuma substância além do sal, não medimos o pH e a taxa de evaporação atingiu
uma média de 1,28 g/dia, fatores que influenciaram no resultado dos experimentos.
170
6. Experimentos e aplicações didáticas
Nos EUA muitos professores notaram que existiam alunos interessados em cristais. Há
muitas razões para os professores encorajarem este interesse. Estudando os cristais os alunos
podem realizar experimentos simples e assim ter a sensação de fazer ciência e serem
cientistas, podendo assim viver a experiência de assistir algo acontecer com seus próprios
experimentos. Cristais são assuntos interessantes para químicos, físicos, geólogos, biólogos e
matemáticos. O estudo dos cristais faz parte de todos estes campos e trás a consciência de que
a natureza não é separada da química, física, geologia, biologia e matemática (Wood, 1972).
No Brasil os professores não tratam do assunto relacionado aos cristais, enquanto
lecionam nas escolas ou faculdades, muitas vezes por não conhecerem para divulgar ou por
falta de oportunidade de aprender para ensinar. A proposta deste trabalho é fornecer alguns
fundamentos para entender como os cristais se formam e como é fácil trabalhar com os alunos
os experimentos relacionados, suprindo assim esta deficiência.
O estudo dos cristais, como Wood (1972) destacou, traz à luz o conhecimento de
diversas disciplinas, tornando este assunto interessante para qualquer aluno de qualquer nível
de ensino, ou público leigo, fazendo com que a ciência fique mais perto da sociedade dando
oportunidade para qualquer um praticar.
Em seu trabalho, Wood escolheu algumas substâncias para realização de experimentos
que tratam de crescimentos cristalinos de maneira simples e didática.
Com o mesmo objetivo esta dissertação foi preparada para identificar dentre os quinze
sais estudados quais, através de experimentos com soluções supersaturadas a temperatura
ambiente, produzem cristais em um período programado de duas semanas.
Os procedimentos para preparação destas soluções com sais solúveis em água e a
obtenção destes cristais contribuem para ilustrar e enriquecer o que é proposto pelos
Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) de ensino fundamental e médio e pela grade
curricular de alguns cursos de nível superior (tais como os cursos de Bacharelado em
Geologia e Licenciatura em Geociências e Educação Ambiental, LIGEA), e assim auxiliar os
professores interessados em enriquecer suas aulas com este assunto interessante.
Como referência de qualidade de ensino, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN)
tem a função de garantir a coerência dos investimentos no sistema educacional brasileiro. Este
documento possui uma natureza aberta, configurando uma proposta flexível, deixando para as
escolas e os professores a tarefa de decidir como transformar a realidade educacional
171
estabelecida pelas autoridades governamentais. Não é um modelo curricular homogêneo e
nem impositivo, ficando aberto para qualquer proposta pedagógica desde que se respeite a
diversidade sociocultural das diferentes regiões do País.
É embasado neste contexto que notamos a possibilidade de se utilizar e/ ou incluir este
trabalho de dissertação de mestrado nos programas curriculares, tanto do Ensino Fundamental
quanto do Ensino Médio e Superior em alguns cursos, com o objetivo de complementar e
incrementar o que é proposto nas escolas e universidades pelos educadores.
172
Tabela 47. Matemática para o ensino fundamental, (MEC/SEF, 1997b, 1998).
- Comparação entre objetos do espaço físico e - A obtenção do cristal, sendo uma figura
objetos geométricos (sem o uso obrigatório da geométrica, auxiliará neste processo de
nomenclatura). comparação.
- Reconhecimento de semelhanças e diferenças - Neste ponto cada sal produzirá um cristal com
entre poliedros; percepção de elementos formas geométricas distintas, facilitando o
geométricos nas formas da natureza; identificação reconhecimento de diferenças e semelhanças entre
de figuras geométricas. os poliedros.
- Percepção de semelhanças e diferenças entre - Aqui fica clara a possibilidade de distinguir o que
cubos e quadrados, paralelepípedos e retângulos, é plano do que é tridimensional, através da
pirâmides e triângulos, esferas e círculos. observação dos cristais obtidos.
173
Tabela 47. Matemática para o ensino fundamental, (MEC/SEF, 1997b, 1998) (continuação).
- Reconhecimento e utilização de unidades usuais - Centímetro para medidas dos cristais, gramas
de medida como metro, centímetro, quilometro, para quantidade de sal e mililitros para quantidade
grama, miligrama, quilograma, litro, mililitro, de solvente e solução. São utilizados balanças e
metro quadrado, alqueire, etc. recipientes graduados.
- Coleta, organização e descrição dos dados. - Organização dos resultados em tabelas e gráficos.
174
O ensino de Ciências Naturais deverá então se organizar de forma que, ao final do
ensino fundamental, os alunos tenham as seguintes capacidades enriquecidas com a proposta
didática deste trabalho de dissertação (tabela 48):
Capacidades enriquecidas
- Saber combinar leituras, observações, - Registros diários durante duas semanas, coleta de
experimentações, registros, tec., para coleta, dados de evaporação do solvente da solução,
organização, comunicação e discussão de fatos e descrição dos acontecimentos em relatórios
informações. simples e posterior discussão dos dados.
- Valorizar o trabalho em grupo, sendo capaz de - Estes experimentos podem ser executados de
ação crítica e cooperativa para a construção maneira individual ou em grupo, suscitando a
coletiva do conhecimento; construção coletiva do conhecimento.
175
É importante lembrar que a iniciativa de realizar este trabalho junto à grade curricular
de ensino fundamental, insere não só assuntos que serão estudados detalhadamente a partir do
ensino médio, como a disciplina de química, por exemplo, como também assuntos, que não
são nem serão abordados em nenhum nível de ensino fundamental e médio, tais como
cristalografia, mineralogia e geologia, e que podem ser introduzidos através desses
experimentos de cristalização de maneira ilustrativa e didática.
Ensino Médio
Os PCN para o Ensino Médio têm por objetivo auxiliar os educadores na reflexão
sobre a prática diária em sala de aula e servir de apoio ao planejamento de aulas e ao
desenvolvimento do currículo da escola. Os documentos são divididos em quatro partes e
estão assim apresentados:
Parte I - Bases Legais,
Parte II - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias,
Parte III - Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias,
Parte IV - Ciências Humanas e suas Tecnologias.
Os experimentos de cristalização tratam de temas relacionados à Matemática, Física
(introdutória) e Química, e de acordo com o que foi proposto ele pode ser incluído como
atividade pedagógica na parte III, Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias.
A preparação dos experimentos desta dissertação de mestrado necessita de
conhecimentos relacionados à matemática e química, principalmente, matérias pertencentes à
grade curricular do ensino médio.
Com a obtenção de cristais, a matemática pode ser introduzida e estudada através da
álgebra e da geometria e estes temas podem ser explorados em todo o ensino médio. Nesta
disciplina, os experimentos de cristalização se baseiam em proporções entre substâncias,
assim como a evolução dos sistemas ao longo do tempo.
Na química, além do conhecimento de técnicas de laboratório, necessário para
preparação dos experimentos, no primeiro ano aborda-se temas relacionados à estrutura
atômica, periodicidade química, ligações químicas, e polaridade das moléculas, pontes
importantes para se entender e trabalhar com sais solúveis em água.
No segundo ano, este trabalho contribui para estudar, as substâncias e as misturas,
equações químicas, funções da química inorgânica, soluções e termoquímica, enquanto que
no terceiro e último ano, fica reservado o estudo da química orgânica, assunto não tratado
176
nesta dissertação. Neste contexto, conclui-se que a aplicação dos experimentos de
cristalização se restringe aos dois primeiros anos do ensino médio.
Nas tabelas a seguir (tabelas 47 e 48) são apresentados os principais objetivos
formativos, denominados competências e habilidades, que se relacionam com a proposta
pedagógica deste trabalho, apontando os esforços formativos das três partes, excluindo a parte
I que trata das bases legais. Dessa forma, as competências e habilidades subdivididas em
representação e comunicação, investigação e compreensão e contextualização sócio cultural,
uniformizam o ensino das disciplinas de química e matemática, relacionada a parte III,
Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias.
Representação e comunicação
177
Tabela 4950. Química para o ensino médio, (MEC/SEF, 1997c) (continuação).
Investigação e compreensão
Contextualização sociocultural
178
Tabela 510. Matemática para o ensino médio, (MEC/SEF, 1997c).
Representação e comunicação
- Ler, interpretar e utilizar representações - Todos os dados obtidos em laboratório são tratados
matemáticas (tabelas, gráficos, expressões, etc.). em tabelas, gráficos, equações, expressões, etc.
Investigação e compreensão
Contextualização sociocultural
179
Ensino Superior
180
7. Discussão
O primeiro estágio no crescimento do cristal é o da nucleação, indicando que o
crescimento só começa após um núcleo (ou semente) ter se formado (e.g. Klein e Dutrow,
2012).
O processo de nucleação tipicamente requer que algum grau de supersaturação seja
atingido na solução. Neste caso a supersaturação é alcançada pelo aumento de concentração,
através da evaporação. A formação de um monocristal de halita (NaCl), por exemplo, é
geralmente precedida pela formação aleatória de grande número de núcleos potenciais e
muitos destes núcleos não se desenvolve em cristais maiores, pois em uma solução saturada
em íons existe também a tendência de núcleos serem redissolvidos, pois a própria formação
destes núcleos reduz a concentração da solução e promove a dissolução.
Apenas após transpor certo grau de supersaturação, conhecido como zona metaestável,
os núcleos formados não são dissolvidos e os cristais podem crescer. Para um núcleo
sobreviver, ele deve crescer rápido o suficiente para reduzir sua energia superficial (expressa
como a razão entre a área superficial e o volume) e, consequentemente, sua solubilidade.
Quando um núcleo atinge um tamanho crítico por meio da rápida deposição de camadas
adicionais de íons, ele tem alta chance de sobreviver e crescer até tornar-se um cristal grande
(e.g. Klein e Dutrow, 2012).
Segundo Sunagawa (2005), os processos de crescimento cristalino são divididos em
três etapas:
1) Obtenção de uma solução no estado supersaturado;
2) Partículas menores que um tamanho crítico, chamados "clusters", são formadas na solução.
Estas partículas, muitas vezes se unem, ao acaso, para crescer além do tamanho crítico, e o
processo que descreve esta situação é chamado de nucleação;
3) Uma vez que o tamanho crítico é atingido, a partícula pode crescer mais; este fato
corresponde à fase de crescimento cristalino no seu sentido mais estrito.
Entre as sementes cristalinas que são formadas, aquelas que ultrapassam o tamanho
crítico não se dissolvem e podem crescer mais. Como mostrado esquematicamente na fig. 13,
isto acontece porque a densidade de ligação entre as partículas por unidade de área na
superfície diminui com o aumento do tamanho do cristal, eventualmente atingindo um valor
crítico. A figura 13 mostra essa relação em termos de variações de energia livre. A energia de
nucleação é a soma da energia gasta na formação de uma partícula por coalescência atômica, -
181
ΔGv, que é proporcional a r3, e da energia adquirida através da criação de superfície, +ΔGs,
que é proporcional a r2, ou seja, ∆G=ΔGv+ΔGs. Como pode ser visto nesta figura, a energia
necessária para a ocorrência de nucleação aumenta à medida que aumenta o raio (r), atingindo
um máximo em rc que diminui depois por dissolução. O núcleo, que alcança a posição rc é
chamado de núcleo crítico, e rc representa o raio do núcleo crítico, a partir do qual o
crescimento cristalino é favorecido.
Uma vez que seja atingido um valor crítico para a ocorrência de nucleação e
consequente crescimento cristalino, estes eventos dificilmente ocorrem, exceto em uma
estreita região de distância indefinida limitada pela curva de solubilidade. Esta região
localizada ao longo da curva de solubilidade é chamada de região de Miers ou zona
metaestável (Figura 123).
Figura 123. Curva de solubilidade do sal (linha contínua) e a região na qual a nucleação e o crescimento
ocorrem (Zona metaestável ou região de Miers entre a linha contínua e a linha pontilhada). No caso de uma
solução, a força motriz do crescimento corresponde à diferença entre a concentração C ∞ e a temperatura de
equilíbrio TE da solução saturada, e a concentração C à temperatura de crescimento T G. (Sunagawa, 2005)
183
a) O tempo: O período de duas semanas, em alguns casos, demonstrou ser curto demais
para obtenção de cristais. Após este período algumas soluções apresentaram resultados
positivos. Segundo Bordui (1987), concomitante com o desejo de se obter cristais
grandes de soluções aquosas vem a necessidade de que eles cresçam idiomórficos e
com uma relativa taxa de crescimento linear. A menos que a taxa de crescimento se
mantenha em um nível adequado para alcançar o objetivo desejado, o tempo é o
inimigo, pois pode interferir no resultado dos experimentos dependendo do sal, das
condições ambientais e da solução com que se trabalhe. No caso destes experimentos,
as duas semanas programadas demonstraram ser um tempo relativamente curto
comparado ao período necessário para a produção de cristais. Para alguns destes sais,
ficou claro que um tempo mais longo proporcionaria condições para a formação das
sementes, pois em alguns destes experimentos os cristais surgiram depois das duas
semanas estabelecidas para observação. Mesmo assim, os resultados foram
considerados positivos, já que se pôde medir a taxa de crescimento de alguns dos sais
e comparar a taxa de evaporação de todos os experimentos com a taxa da água
destilada.
b) A umidade relativa (muito variável nos trabalhos desta dissertação, devido às
condições ambientais): Segundo Navarro e Doehne. (1999), a baixa umidade relativa
promove rápida evaporação de soluções salinas e aumento do nível de supersaturação.
Considerando que as soluções foram preparadas com sais puros (pureza analítica) e
água destilada, salvo exceção do cloreto de sódio onde foi utilizado também com sal
grosso comercial, as variações na taxa de evaporação e cristalização ao longo dos
experimentos devem ser devidas aos efeitos externos, ou seja, à temperatura e
umidade relativa do ar. Cabe ressaltar que as variações de temperatura ambiente no
laboratório foram pequenas, com mínima de 21°C e máxima de 26°C, durante as duas
semanas programadas para observação, não sendo medidas as variações da umidade
relativa. A umidade relativa do ar tem amplas variações em São Paulo (entre 30% e
100%), o que provavelmente influenciou os resultados. O controle da umidade relativa
contribuiria para a obtenção de cristais, já que a umidade interfere significativamente
no nível de supersaturação chegando a provocar a dissolução de cristais (taxa negativa
de crescimento cristalino) em alguns casos, onde pode ter havido um comportamento
higroscópico da solução. Se o nível de umidade é alto, a evaporação é baixa (Fakir e
Toerien, 2009). Quando certo material é exposto à umidade, neste caso os
184
experimentos didáticos de cristalização, ele perde ou ganha água para ajustar sua
própria umidade a uma condição de equilíbrio com o ambiente. Isso ocorre quando a
pressão de vapor da superfície do material se iguala a pressão de vapor de água do ar
que o envolve. Esta variação de pressões de vapor não foram medidas, dificultando
assim estabelecer o quanto de umidade relativa o ambiente apresentava nos períodos
de observação e o quanto esta variação afetou os experimentos didáticos.
c) A taxa de evaporação: O procedimento de colocar uma gaze para evitar interferências
externas (como grãos de poeira, por exemplo), pode ter reduzido a taxa de evaporação
dificultando a produção de cristais em alguns experimentos. Segundo Fakir e Toerien
(2009) e Kokya e Kokya, (2008), a alta salinidade da água resulta no decréscimo da
taxa de evaporação, concluindo que a taxa de evaporação depende do nível de
concentração e do tipo de sal presente na água. Estes experimentos didáticos de
cristalização dependem exclusivamente da taxa de evaporação. Ainda segundo Fakir e
Toerien (2009), o sal dissolvido na água resulta em baixa pressão de vapor e no
decréscimo do potencial químico da água. Esta característica faz com que a taxa de
evaporação decresça exponencialmente com o acréscimo da salinidade. Salinidade à
parte, outros fatores climáticos influenciam na taxa de evaporação, a temperatura, a
umidade, a radiação solar e os ventos, sendo que os experimentos foram preservados
destes dois últimos fatores.
Mesmo com todas estas limitações, cristais foram obtidos de experimentos em repouso
de soluções de tartarato de sódio e potássio, sulfato de cobre II, cloreto de sódio, sulfato de
níquel e sulfato de alumínio e potássio. Com o recurso da agitação mecânica, foram obtidos
cristais apenas das soluções de cloreto de sódio e de sulfato de alumínio e potássio.
Segundo Wilcox (1983), a agitação de cristais suspensos em solução pode causar um
aumento na taxa de formação de novos cristais, chamado de "nucleação secundária”. Este
procedimento auxilia no crescimento cristalino, pois a agitação não deixa que um conjunto de
microcristais flutue na solução, e a convecção gerada pela agitação influencia na cinética de
crescimento, na estabilidade morfológica e na nucleação.
A agitação ou convecção mecânica pode ser introduzida na solução por bombeamento
ou, rotacionando o aparelho no qual o cristal é seguro. Geralmente o cristal é rotacionado em
torno do próprio eixo, próximo a superfície da solução, com movimentos do cristal no mesmo
plano (Wilcox, 1983). No caso dos trabalhos desta dissertação, foi utilizado um agitador
185
magnético que movimenta a solução e não a semente, produzindo o mesmo efeito que o
sugerido por Wilcox.
Na ausência de agitação mecânica e da gravidade, o crescimento cristalino por si só
gera convecção. A superfície do cristal se move naturalmente, incorporando parte da solução
(soluto) e rejeitando parte da solução (solvente), este movimento modifica as propriedades
volumétricas da solução e do cristal, podendo assim, com esta diferença, alterar a composição
da solução. Esta composição alterada pode redissolver a semente, como pôde ser comprovado
nestes experimentos.
Ainda segundo Wilcox (1983), existe uma relação entre o crescimento cristalino e o
processo de convecção. E aqui as afirmações são tomadas através da utilização da convecção
mecânica e não da convecção natural. Alguns pontos mencionados pelo autor são:
A relação entre a homogeneidade composicional e o processo de convecção é
intrínseca;
A convecção influencia muito na incorporação de impurezas e na composição do
cristal, e o mesmo acontece com a taxa de crescimento, especialmente quando a
convecção é fraca;
A técnica da rotação acelerada do béquer, ou da solução pode ser usada para reduzir
estrias e aumentar a homogeneidade do cristal em crescimento;
Manter a supersaturação constante e aumentar a convecção faz com que a taxa de
crescimento aumente;
Foi demonstrado também que a agitação mecânica aumenta a taxa de evaporação
significativamente, acelerando o processo de evaporação e consequente nucleação e
possível crescimento cristalino.
Alguns materiais cristalinos não se precipitam diretamente a partir de soluções
saturadas aquosas, como no caso da dolomita. Nos experimentos realizados observa-se um
possível exemplo de situação deste fenômeno, na solução saturada de acetato de cobre
hidratado, onde os cristais macroscópicos idiomórficos, de cor azul escura, são envoltos por
um agregado microcristalino de cor azul clara (figura 75 (b)). A análise por difração de raios
X (figuras 76, 77 e 78) confirmou a identificação dos cristais macroscópicos como sendo de
acetato de cobre hidratado (C4H6CuO4.H2O), e o agregado microcristalino como sendo uma
mistura de dois tipos de acetato de cobre com grãos distintos de hidratação, um deles é uma
mistura com predominância de acetato de cobre hidróxi-hidratado (C2H6Cu2O5.H2O), e o
outro uma quantidade subordinada de carbonato sulfato de cobre hidróxi-hidratado
186
(Cu8(SO4)4(CO3)(OH)6.48H2O), cujos picos de difração se encontram indexados no gráfico da
figura 78 A posição dos cristais macroscópicos no centro da massa micro-cristalina sugere
que esta seja a precursora da cristalização do acetato de cobre hidratado.
8. Conclusões
Os quinze sais escolhidos foram testados, de acordo com o coeficiente de solubilidade,
em soluções preparadas com água destilada, à temperatura ambiente, por duas semanas, para
identificar quais destes sais são recomendáveis para experimentos didáticos de cristalização.
Sendo identificados, estes sais podem ser utilizados por professores dos diversos níveis de
ensino em ambiente escolar e cumprir com o intuito de divulgar os vários temas científicos
relacionados a esta atividade pedagógica.
Levando em conta o público alvo e o aspecto didático, foram escolhidas algumas
características importantes e estabelecidas algumas regras para que o objetivo deste trabalho
fosse atingido, sem que a segurança e a saúde dos alunos fossem comprometidas.
Conclui-se que os experimentos são de simples confecção, não exigindo instrumentos
específicos nem um espaço próprio para isso, basta um local arejado, uma pia com água e um
mínimo de critério e conhecimento para preparar os experimentos e tratar os dados.
Laboratório e instrumentos
A instrumentação é simples, sendo necessário apenas recipientes pequenos de no
máximo 500 ml (béqueres de vidro ou de plástico), água destilada, uma balança de precisão
em gramas, um termômetro e alguns outros objetos de fácil aquisição e manuseio, como
elástico, palitos de sorvete, linha de costura e gaze. O espaço utilizado não precisa ser um
laboratório, mas sim um espaço escolhido para preparação e observação dos experimentos. O
único aparelho específico é o agitador mecânico para os experimentos de crescimento
cristalino com agitação.
Sal
A toxicidade é um fator importante, já que estes experimentos destinam-se
principalmente ao público estudantil, sendo então necessário que não se ofereça risco algum.
Levando em consideração a toxicidade apresentada por todos os sais estudados, apenas o
sulfato de níquel foi considerado tóxico de acordo com a MSDS (Material Safety Data
187
Sheets) (tabela 32), enquanto que os outros quatorze foram classificados como atóxicos ou de
toxicidade baixa, desde que tomados alguns cuidados em seu manuseio.
Todos os sais testados são solúveis em água, à temperatura ambiente, precisando
apenas que se saiba o coeficiente de solubilidade de cada um para a realização dos
experimentos.
Água
O melhor tipo de água a ser utilizada é a água destilada, para evitar qualquer outro tipo
de interferência salina, e para comparação das taxas de evaporação.
Temperatura
O recurso de se realizar os experimentos à temperatura ambiente evita qualquer tipo de
acidente causado, por exemplo, quando da necessidade de se aquecer a água. A temperatura é
controlada por termômetro de parede e outro simples para determinar a temperatura da
solução.
Tempo
O tempo estabelecido para duas semanas demonstrou ser curto para alguns dos
experimentos realizados. Conclui-se que um tempo maior pode produzir os cristais desejados
para observação do crescimento cristalino, enquanto que as medidas de 48 em 48 horas foram
muito produtivas para obtenção dos resultados e a consequente produção dos gráficos para
análise do crescimento cristalino e da taxa de evaporação.
Taxa de evaporação
Na comparação entre a taxa de evaporação da água destilada e das soluções, em todas
as observações, concluiu-se que a taxa de evaporação da água destilada se demonstrou maior.
Devido ao fenômeno da solvatação, e a características higroscópicas de alguns sais, as
soluções demonstraram ser mais resistente em deixar a água evaporar.
Mesmo assim, com o sal cloreto de sódio como sal grosso comercial (SG), a taxa de
evaporação do experimento de crescimento cristalino com agitação se demonstrou muito
maior, devido provavelmente ao movimento contínuo na solução causado pelo agitador
mecânico, facilitando a liberação da água da solução.
Com o sulfato de níquel, a taxa de evaporação do experimento em repouso foi maior
do que a taxa da água destilada, chegando a quase se igualar no final do período de
188
observação. Não se pode deixar de levar em consideração a umidade relativa, e a quantidade
de cristais produzidos pelo experimento, fatores que poderiam afetar a taxa de evaporação.
Com o sulfato de alumínio e potássio, pode-se observar que a taxa de evaporação da
água começa naturalmente maior e se iguala chegando ao final do período a apresentar uma
taxa menor por três medidas. A presença de uma quantidade maior de água pode ter
equiparado o comportamento relacionado à evaporação, provocando excepcionalmente uma
taxa maior que a taxa da água. Não se deve esquecer das condições ambientais no que diz
respeito à umidade relativa do ar.
Crescimento cristalino
O objetivo foi atingir a supersaturação através da evaporação natural da solução e
consequente formação de sementes para observação do crescimento cristalino, em
experimentos em repouso e com agitação mecânica. Durante o período estabelecido, concluiu-
se que apenas seis dos quinze sais estudados produziram sementes sendo cinco utilizados para
experimentos de crescimento cristalino e um tóxico:
1) Tartarato de sódio e potássio (atóxico);
2) Sulfato de cobre II (baixa toxicidade);
3) Cloreto de sódio tipo comercial sal grosso (atóxico);
4) Sultato de níquel (tóxico);
5) Sulfato de alumínio e potássio (atóxico);
6) Acetato de cobre hidratado (atóxico).
O acetato de cobre hidratado produziu dois tipos de sementes que não foram grandes o
suficiente para dar continuidade aos experimentos de crescimento cristalino, mas foram
analisadas por difratogramas de raios X.
Destes sais, o sulfato de cobre II, o cloreto de sódio tipo comercial sal grosso, e o
sulfato de alumínio e potássio apresentaram taxas de crescimento praticamente contínuas
durante o período de observação, tanto para os experimentos em repouso quanto para os
experimentos com agitação mecânica. Apenas o tartarato de sódio e potássio e o sulfato de
níquel, se comportaram de maneira diferente, com variação na taxa de crescimento, e
dissolução da semente no decorrer do experimento.
189
Simetria e formas cristalinas
Dos quinze estudados, os seis tipos de sais produziram cristais que apresentaram
simetria e formas cristalinas correspondentes aos seus respectivos sistemas cristalinos. Este
resultado fornece instrumentos geométricos e insere uma ciência experimental que tem como
objeto de estudo a disposição dos átomos em um sólido e estuda os cristais, a cristalografia.
No final deste trabalho conclui-se que estes experimentos podem ser realizados por
qualquer tipo de público interessado e contribui muito para o enriquecimento dos recursos
didáticos e para a divulgação das ciências.
190
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