Brazilian Journal of Development 50974
ISSN: 2525-8761
Uma revisão breve sobre pressão intracraniana: um parâmetro clínico
a ser considerado
A brief review on intracranial pressure: a clinical parameter to be
considered
DOI:10.34117/bjdv7n5-478
Recebimento dos originais: 07/04/2021
Aceitação para publicação: 20/05/2021
Bruna França Bueno
Mestre em Ciências Biomédicas
Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas – Universidade Estadual de
Ponta Grossa; Avenida General Carlos Cavalcanti, 4748, Uvaranas, Ponta Grossa – PR,
Brasil, CEP: 84030-900
E-mail: bruna_fb@[Link]
Bianca Drewnowski
Mestre em Ciências Farmacêuticas
Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas – Universidade Estadual de
Ponta Grossa; Avenida General Carlos Cavalcanti, 4748, Uvaranas, Ponta Grossa – PR,
Brasil, CEP: 84030-900
E-mail: biancadrewnowski@[Link]
Emília Couto Dos Santos Miléo
Especialista em Análises Clínicas
Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas – Universidade Estadual de
Ponta Grossa; Avenida General Carlos Cavalcanti, 4748, Uvaranas, Ponta Grossa – PR,
Brasil, CEP: 84030-900
E-mail: emiliacsmileo@[Link]
Lais Daiene Cosmoski
Mestre em Ciências Farmacêuticas
Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas – Universidade Estadual de
Ponta Grossa; Avenida General Carlos Cavalcanti, 4748, Uvaranas, Ponta Grossa – PR,
Brasil, CEP: 84030-900
E-mail: [Link]@[Link]
Mariana Schechtel Koch
Mestre em Ciência Animal
Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas – Universidade Estadual de
Ponta Grossa; Avenida General Carlos Cavalcanti, 4748, Uvaranas, Ponta Grossa – PR,
Brasil, CEP: 84030-900
E-mail: mari_koch92@[Link]
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Robson Schimandeiro Novak
Mestre em Ciências Farmacêuticas
Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas – Universidade Estadual de
Ponta Grossa; Avenida General Carlos Cavalcanti, 4748, Uvaranas, Ponta Grossa – PR,
Brasil, CEP: 84030-900
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José Carlos Rebuglio Vellosa
Doutor em Análises Clínicas – Bioquímica; Pós-doutorado em Imunologia
Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas – Universidade Estadual de Ponta
Grossa; Avenida General Carlos Cavalcanti, 4748, Uvaranas, Ponta Grossa – PR,
Brasil, CEP: 84030-900
E-mail: josevellosa@[Link]
RESUMO
No presente trabalho são apresentados elementos introdutórios à compreensão da pressão
intracraniana (PIC), tais como conceitos relativos fisiologia, alterações da PIC,
metodologias de monitorização e medicamentos que podem interferir nesse parâmetro.
Considerando a evolução dos métodos e criação de metodologia não-invasiva, a avaliação
da PIC pode vir a ser uma ação importante na avaliação ambulatorial de pacientes em
diferentes situações que não são consideradas na atualidade e, portanto, deve ser um
parâmetro clínico a ser considerado.
Palavras-chave: PIC, monitorização não-invasiva, complacência cerebral, morfologia de
onda.
ABSTRACT
In the present work, introductory elements are needed to understand intracranial pressure
(ICP), such as concepts related to physiology, changes in ICP, monitoring methodologies
and drugs that can interfere in this parameter. Considering the evolution of methods and
the creation of a non-invasive methodology, the assessment of ICP may prove to be an
important action in the outpatient assessment of subjects in different situations that are
not currently considered and, therefore, should be a clinical parameter to be considered.
Keywords: ICP, non-invasive monitoring, brain compliance, wave morphology.
1 INTRODUÇÃO
1.1 FISIOLOGIA DA PIC
O crânio é composto pelo parênquima cerebral (85%), sangue arterial e venoso
(5%) e líquido cefalorraquidiano (LCR) (10%). Qualquer alteração na pulsatilidade do
tecido circundante é sentida em quase todo o crânio. A PIC (Pressão Intracraniana) é a
pressão encontrada dentro dessa caixa craniana e está diretamente relacionada a esses
componentes (Carlotti, Colli, Dias, 1998). O aumento no volume de pelo menos um destes
componentes resulta no aumento da PIC (Linninger et al, 2009; Carlotti, Colli, Dias,
1998).
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A produção do fluído cérebro-espinhal está relacionada pelo plexo coroide nos
ventrículos cerebrais. Este fluído circula e escoa no espaço subaracnóideo em volta do
cérebro, sendo reabsorvido pelo sistema venoso (Zhang et al, 2017). Caso o fluido não
seja drenado ou reabsorvido, a PIC aumenta, podendo resultar em complicações cerebrais
ou morte.
A elevação da PIC pode vir acompanhada da dilatação dos ventrículos cerebrais
(hidrocefalia), em que não há o aumento dos vasos e pode ser definida como hipertensão
intracraniana idiopática (Zhang et al, 2017).
A variação da PIC está relacionada com a idade e seu valor é influenciado pelo
equilíbrio do volume cerebral (1100−1300cm3), LCR (30−150cm3) e sangue no interior
dos vasos intracranianos (60−80cm3). Sabemos que o volume do cérebro é fixo, LCR e
sangue são os componentes que mais variam e interferem na PIC (Zhang et al, 2017;
Giugno et al, 2003).
O encéfalo é um órgão elástico e pode modificar o seu volume discreta e
rapidamente pela alteração do LCR e/ou de sangue. Dessa forma, pode assim, alterar a
PIC, dependendo da complacência cerebral, a qual se pode definir biologicamente como
a capacidade de compensar o aumento volumétrico dentro do crânio, uma característica
que pode ser útil em determinados eventos patológicos, como acidente vascular
encefálico (AVE), trauma encefálico e tumores cerebrais. (Mizumoto, Tango, Pagnocca,
2005).
Na UTI, têm-se como objetivo os cuidados com pacientes em estados graves a fim
de se evitar a injúria secundária, e promover estabilidade (hemodinâmica, metabólica e
respiratória). Uma das maneiras de avaliar a gravidade da lesão cerebral é por meio da
monitorização da PIC, que reflete a relação entre o conteúdo da caixa craniana e o volume
do crânio, sabendo que a alteração do volume de um desses conteúdos pode causar a HIC.
Elevações da PIC podem resultar em diminuição da pressão de perfusão cerebral e
prejuízo circulatório com hipóxia cerebral (Ferreira; Valenti; Vanderlei, 2013).
Os valores de manutenção do volume desses componentes são essenciais para a
preservação da PIC nos valores normais e, qualquer alteração em algum desses
parâmetros, faz com que outros componentes diminuam para que não ocorra o aumento
da PIC. (Giugno et al., 2003). A pressão de perfusão cerebral (PPC) é definida como
pressão do sangue dentro do cérebro e geralmente têm os valores mantidos constantes.
Quando a PIC aumenta, a PPC diminui. Por essa razão, quando existe um controle da
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PIC, a manutenção da PPC é um parâmetro que deve ser avaliado e mantido (Mascarenhas
et al, 2012).
Variações na PIC ocorrem em condições fisiológicas e a manutenção deve ser
mantida para a prevenção de complicações. Elevações sustentadas acima de 22 mmHg
por mais de 5 min são consideradas quadros de HIC (Cadena; Shoykhet; Ratcliff, 2017).
A base da Doutrina Monroe–Kellie relata que a caixa craniana é composta de
sangue, LCR e parênquima cerebral. Sabe-se que as fontanelas são fechadas durante a
infância e, portanto, não existe a possibilidade de expansão do seu conteúdo
(Mascarenhas et al, 2012; Carlotti, Colli, Dias, 1998).
2 MONITORIZAÇÃO DA PIC
A monitorização da PIC é importante em várias condições clínicas onde há a
hipertensão intracraniana (HIC), sendo uma importante ferramenta na prática clínica para
monitorar a pressão e a complacência intracraniana (Zhang et al, 2017).
Atualmente, existem vários métodos para monitorização da PIC e estes podem
ser invasivos ou não-invasivos. Visto que nenhuma das metodologias é considerada
“padrão ideal”, é importante conhecer a aplicabilidade e as vantagens e desvantagens de
cada uma, para utilizar a que mais se adequa ao paciente (Raboel et al, 2012). Os sistemas
para monitorização da PIC mais utilizados atualmente na prática clínica são invasivos,
geralmente por meio do implante de sensores intracerebrais (em porções como o
ventrículo, parênquima ou espaço subaracnóide subdural/epidural) que estão conectados
a monitores externos (Morgado, 2011).
De modo geral, as metodologias invasivas de monitorização da PIC consistem na
inserção de um cateter, que varia na localização intracraniana e no método de transdução
de pressão. Com relação às localizações anatômicas, os dispositivos podem ser inseridos
nas regiões: intraventricular, intraparenquimatosa, epidural, subdural e subaracnoide.
Quanto aos métodos de transdução de pressão, os cateteres podem ser de drenagem
ventricular externa (DVE) ou com microtransdutor (de fibra óptica, pneumático ou strain-
gauge) (Abraham, Singhal, 2015).
Considerado “padrão ouro” dentre os métodos, a avaliação intraventricular, utiliza
um cateter DVE que é inserido em um dos ventrículos laterais, por meio de uma
trepanação craniana. É o método mais utilizado, pois é de baixo custo e, além de
monitorar, permite o controle da PIC através da drenagem do LCR. Este método ainda,
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possibilita a administração de medicamentos (como antibióticos e trombolíticos) pela via
intratecal (Muralidharan, 2015) e é bastante utilizado em pacientes com hemorragia
subaracnoide (Liu et al, 2020). O método possibilita uma boa resolução da curva de PIC
e fornece leituras confiáveis, mas é um sistema caro, frágil e descartável (Liu et al, 2020;
Abraham, Singhal, 2015; Raboel et al, 2012). Além disso, este é o método mais invasivo
de todos, pois o procedimento envolve a penetração do cateter nas meninges e no cérebro,
aumentando consideravelmente a possibilidade de infecção bacteriana e hemorragia
intracraniana (Abraham, Singhal, 2015). É importante que neste caso, os cateteres sejam
removidos o mais breve possível, pois existe uma forte relação entre a duração da
drenagem ventricular externa e o surgimento de infecções (Hoefnagel et al, 2008).
O uso de catéter intraparenquimatoso é o segundo método mais utilizado e mede
a PIC por meio do contato direto com o tecido, utilizando cateteres com
microtransdutores. O cateter é geralmente inserido na região frontal direita, na substância
branca. Por não ser acoplado a fluidos, possui um baixo risco de complicações (como
hemorragia e infecções), mas impossibilita a drenagem do LCR e a administração de
medicamentos (Hawthorne, Piper, 2014; Zhang et al, 2017). Este método possui
vantagens com relação ao intraventricular, incluindo maior facilidade de colocação e a
possibilidade de monitoramento contínuo de PIC (Roh, Park, 2016).
Dispositivos epidurais e subdurais são considerados os menos invasivos e suas
inserções são relativamente fáceis e rápidas de serem realizadas. Os sensores epidurais
são encaixados entre a dura-máter e o crânio, voltados para o cérebro e a dura-máter. Já
os sensores subdurais são colocados sob a dura-máter, voltados para o cérebro. Apesar de
mais seguros, possuem baixa precisão (muitas vezes superestimados), apresentando
valores questionáveis (Zhang et al, 2017; Robba, 2018).
O dispositivo subaracnóideo consiste num parafuso acoplado ao crânio, por meio
de trepanação craniana, próximo à dura-máter. Esta é perfurada e o parafuso é preenchido
por LCR e conectado a um tubo com um transdutor de pressão. Sua inserção é considerada
rápida e fácil, mas não apresenta resultados confiáveis, geralmente com subestimação de
PIC. Embora seja baseado em fluido, este dispositivo não pode drenar o LCR (Harary,
Dolmans, Gormley, 2018).
Os problemas trazidos com a monitorização da PIC, por meio das metodologias
tradicionais, incluem a desconexão do sensor, falha no dispositivo, infecções e
hemorragia. Infecções relacionadas ao cateter ventricular e que podem variar em 10% e
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estão relacionados com o tempo de duração do cateter implantado. O uso de antibiótico,
administrado e impregnado no cateter, reduz potencialmente o risco de infecção,
aumentando o tempo médio para a instalação da mesma. As hemorragias relacionadas à
monitorização variam de 0,7 a 2,4% (Zhang et al, 2017). Sabe-se também, que há
necessidade desses sensores serem trocados com freqüência devido à descalibração,
potencializando, assim, a manipulação do paciente e conseqüentemente o seu risco
(Gomiero, Guerreiro, 2013).
Em 2012, foi publicado um trabalho que relata que, ao contrário do que a
Doutrina de Monroe-Kellie defende, o crânio apresenta certa elasticidade e não é
totalmente rígido. Os pesquisadores comprovaram que, mesmo em adultos, existem
alteraçõesvolumétricas do crânio levando a variações da pressão (Mascarenhas et al,
2012). Em 2012, então, foi desenvolvida metodologia não invasiva pela equipe do
professor Dr. Sérgio Mascarenhas e Dr. Gustavo Henrique Frigieri Vilela, do Instituto de
Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC/USP) que se baseia em um
sistema externo de chips que transmitem, em tempo real, sinais elétricos de deformação
craniana a um monitor (Mascarenhas, Vilela, 2013).
O sistema Brain4Care® é formado por um sensor de deformação, fixado a um
suporte que por sua vez é fixado no couro cabeludo, nas porções da região parietal e
lateralmente à sutura sagital dispositivo monitora quaisquer variações do crânio sem a
necessidade de haver incisões cirúrgicas (Mascarenhas, Vilela, 2013). Esta metodologia
vem sendo aplicada em pesquisas sobre diferentes condições clínicas, tais como no
monitoramento não-invasivo da pressão intracraniana durante endoscopia digestiva alta
com sedação moderada induzida por midazolam (Drewnoski et al, 2021) para na
avaliação de idosos (Bueno et al, 2021) e de pacientes que realizam hemodiálise (Rickli
et al, 2021).
A morfologia da onda da PIC apresenta três picos principais: P1, P2 e P3 (figura
1). O pico P1 relaciona-se com a transmissão e dissipação da onda dentro do crânio. Em
condições normais, P1 possui maior amplitude que a P2 e a P3, e estes estão relacionados
à elasticidade do cérebro e correspondem, respectivamente, à propagação e à reverberação
da onda (Harary et al, 2018; Avezaat, 1979). Assim, os picos P1, P2 e P3 quando
apresentados de forma decrescente tem significado de cérebros complacentes (figura 1).
Nos casos em que P2 é superior a P1, observa-se complacência inadequada (Harary et al,
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2018; Avezaat, 1979). Nestes, um pequeno aumento do fluxo sanguíneo cerebral refletirá
no aumento da PIC (Citerio, Andrews, 2004).
Figura 1: Ilustração esquemática da Morfologia das ondas de PIC normal e alterada (Harary et al, 2018).
3 ALTERAÇÕES DA PIC
Partimos do princípio que um cérebro saudável precisa estar em equilíbrio, ser
complacente. A complacência cerebral leva em consideração três aspectos fisiológicos: a
massa encefálica, o volume de líquido cefalorraquidiano e o volume de sangue circulante.
Quando um desses se altera o organismo tende a uma autorregulação e se essa mudança
é muito intensa, a PIC se altera. Uma causa de preocupação em internamentos,
especialmente aqueles em leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), são elevações da
PIC, pois alteram o fluxo sanguíneo cerebral (Carlotti, Colli, Dias, 1998).
A monitorização da PIC é importante para acompanhamento que possibilite
manter as taxas de perfusão cerebral normais enquanto o cérebro se recupera. Vários
estudos relacionam a PIC elevada com um mau prognóstico dos pacientes (Gomiero,
Guerreiro, 2013). Em condições anormais a densidade cerebral aumenta e o pico P2 tem
amplitude maior do que o pico P1(Avezaat, 1979).
Existem muitas condições em que há alteração da PIC. Desta forma, diferentes
condições interferem diretamente na PIC à medida que alteram um dos parâmetros
considerados para a complacência intracraniana ou a alteram de forma indireta (Carlotti,
Colli, Dias, 1998). Dentre os sintomas relatados podemos citar dor de cabeça, alterações
visuais, náuseas e vômitos, ainda outros, como alterações nos sinais vitais, distúrbios
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psíquicos, tonturas, alterações na habilidade de concentração e memória (Bueno et al,
2021).
Ainda, além das patologias, podemos citar algumas condições fisiológicas que
alteram a PIC, como é o caso do envelhecimento, estudos recentes demonstram que em
cérebro senis o aumento da PIC pode promover distúrbios neurológicos e
neuropsicológicos com manifestações clínicas que variam de déficits cognitivos, como
por exemplo, disfunção executiva, comprometimento leve a moderado de memória e de
atenção, confusão mental e desorientação podendo chegar até a transtornos psiquiátricos,
como ansiedade e depressão (Moura et al, 2020; Bueno et al, 2021).
O método não invasivo, desenvolvido pela Brain4care®, vem sendo utilizado para
avaliação e monitoramento de pacientes com suspeita de hipertensão intracraniana, por
exemplo, em doenças neurológicas hipertensivas, eclâmpsia e pré-eclâmpsia e doenças
infecciosas que levam ao sistema nervoso central hipertensão do sistema. O sistema foi
também aplicado em um paciente com diagnóstico confirmado de meningite criptocócica
associada ao vírus da imunodeficiência humana (HIV-CM) e hipertensão intracraniana
grave, antes e após a punção lombar terapêutica, onde detectou as alterações a partir das
alterações na morfologia da onda apresentada (Bollela et al, 2017).
Foi citada anteriormente a importância do líquido cefalorraquidiano (LCR), para
a manutenção do equilíbrio cerebral. Em algumas doenças neurológicas esse equilíbrio
pode ser interrompido. Uma interrupção significativa da circulação normal do LCR pode
ser fatal, levando ao aumento da PIC e está relacionada aos casos de hidrocefalia,
hipertensão intracraniana idiopática, trauma cerebral, tumores cerebrais e acidente
vascular cerebral. No entanto, os mecanismos celulares, moleculares e fisiológicos exatos
que contribuem para as vias hidrodinâmicas alteradas nessas doenças são ainda abstratos
e estão em discussão e constante estudo. As visões e conceitos tradicionais de secreção,
fluxo e drenagem do LCR foram incitados, também devido a descobertas recentes que
sugerem mecanismos mais complexos da dinâmica do fluido cerebral do que os propostos
anteriormente (Bothwell, Janigro, Patabendije, 2019).
A hipertensão intra-abdominal (HIA) é definida como elevação da pressão intra-
abdominal (PIA) classificada em grau I, II ou III de acordo com esta elevação. Os efeitos
negativos da elevação da PIA não se resumem ao abdômen, mas acabam por interferir no
equilíbrio de outros sistemas como respiratório, cardiovascular e cerebral (Rizoli et al,
2010). No crânio, a HIA leva ao aumento da pressão intracraniana e redução da pressão
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de perfusão cerebral (PPC).O aumento da PIC é atribuído ao aumento da pressão venosa
central, redução da drenagem venosa cerebral e redução da drenagem venosa pelo plexo
lombar com concomitante desequilíbrio do conteúdo intracraniano (Falcao, Oliveira,
2011).
A doença renal terminal (DRCT) é tratada principalmente por hemodiálise, a qual
está associada a complicações frequentes e algumas delas envolvem o aumento da PIC.
O monitoramento da PIC demonstra que o comportamento da morfologia da onda da
pressão intracraniana varia com a hemodiálise. Os parâmetros de pressão intracraniana
mostram que, quando comparados os dados pré-diálise à pós-diálise das três sessões
semanais, existe uma melhora geral na conformidade cerebral após a hemodiálise
(Barbosa et al, 2020).
Além de apresentar grande importância para os seres humanos, a PIC é o principal
parâmetro neurológico em animais também. As epilepsias são um conjunto de doenças
do sistema nervoso central decorrentes de descargas neuronais anormais e excessivas,
geralmente associadas a hipersincronismo e/ou hiperexcitabilidade. A epilepsia do lobo
temporal (ELT) é uma das formas mais comuns de epilepsia e também é refratária à
medicação. As características da PIC de indivíduos com epilepsia não foram elucidadas
porque existem poucos estudos associando esses dois importantes fatores neurológicos,
mas a relação entre elas estão sendo debatidas a partir de cobaias e apresentam resultados
parciais promissores (Cardim et al, 2016).
4 MEDICAMENTOS E PIC
Existem muitos medicamentos que podem interferir diretamente ou indiretamente
na PIC. Chamam atenção medicamentos que possam alterar a pressão arterial e
indiretamente interferir na PIC. Também é importante destacar que existem
medicamentos indicados para o tratamento de condições em que devem promover
alteração da pressão arterial sem interferir na. Alguns poucos exemplos da interferência
por medicamentos na PIC serão aqui considerados, a título de introdução ao tema.
Os medicamentos usados para o tratamento da Acne vulgaris são comumente
associados a hipertensão intracraniana idiopática, como é o caso dos antibióticos da classe
das tetraciclinas, contraceptivos orais, corticoides sistêmicos, e derivados da vitamina A
(Tan et al, 2020).
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A associação das tetraciclinas ao aumento da PIC foi primeiramente observada
em bebês em meados de 1960, a partir da observação do abaulamento da fontanela após
12h ou quatro dias do início do tratamento, feita por pediatras. O mecanismo pelo qual as
tetraciclinas afetam a PIC ainda não é completamente entendido, mas existem algumas
hipóteses como a inibição da formação de AMPc (adenosina monofosfato cíclico) nas
vilosidades aracnóides. Outros autores apontam a possibilidade de as tetraciclinas
bloquearem a absorção do líquido cerebroespinal nos seios venosos por atravessarem a
barreira hematoencefálica e alguns autores apontam que o mecanismo responsável ocorre
através da direta interferência no metabolismo do ácido retinóico (Orme et al, 2020).
A ingestão excessiva de vitamina A e retinóides e a ingestão crônica de baixas
doses de vitamina A induzem a HIC secundária (Toscano et al, 2020). Um dos
mecanismos pelo qual isso pode ocorrer é através do ácido trans retinóico (AATR),
produto do metabolismo do retinol após a absorção no interior da célula, o AATR é uma
peça chave para a regulação da expressão de mais de 500 genes, de modo que acredita-se
haver um aumento na expressão de moléculas que aumentam a resistência a absorção do
LCR (Libien et al, 2017).
A relação entre os contraceptivos orais e o aumento da PIC já foi foco de estudo
do nosso grupo de pesquisa, mas sem demonstração estatística para essa relação (Ferreira,
2019).
Alguns medicamentos da classe dos anti-hipertensivos, principalmente dos
vasodilatadores periféricos, como a Hidralazina, Nitroprussiato e Nitroglicerina são
capazes de alterar a pressão intracraniana. Por se tratarem de fármacos que possuem
facilidade para de atravessar a barreira hematoencefálica e agirem no sistema nervoso
central, eles acabam gerando vasodilatação cerebral e consequentemente, alteram a PIC
(Tietjen et al, 1996).
O Nicardipino está contra-indicado nos casos de edema cerebral generalizado ou
de nítido aumento da PIC e deve ser utilizado com o cuidado necessário, pois ele aumenta
o fluxo sanguíneo cerebral em pacientes com HAS e AVC agudo (Feitosa-Filho et al,
2008; Malachias et al, 2016).
O Nitroprussiato tende a vasodilatar as artérias e veias cerebrais diretamente, além
de inibir a resposta vasoconstritora normal à hipocapnia (diminuição de dióxido de
carbono no sangue), aumentando, consequentemente, a PIC (Lucchese et al, 1998). A
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Nitroglicerina causa vasodilatação cerebral direta prejudicando, também, a resposta
vasodilatadora à hipercapnia, fazendo com que a PIC aumente (Pesaro et al, 2004).
A Hidralazina possui maior capacidade de vasodilatar as artérias cerebrais e
menor capacidade de dilatar as veias cerebrais, prejudicando, assim, a autorregulação
cerebral e fazendo com que a PIC seja alterada (Mocco et al, 2006).
Em pacientes com acidente vascular cerebral isquêmico ou patologia
intracerebral, o labetalol ou o esmolol podem ser usados para baixar a pressão arterial
sem aumentar a PIC (Noronha Neto et al, 2010). Se o paciente não tiver anormalidades
estruturais, mas tiver encefalopatia hipertensiva, nitroglicerina, nitroprussiato, labetalol,
esmolol ou nicardipina podem ser usados (Adams, Powers, 1997).
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente artigo reúne informações sobre a fisiologia e fatores interferentes da
pressão intracraniana. Este trabalho possibilita a introdução de conceitos e informações
relativas a um universo que se abre em uma interessante área de pesquisa com potencial
aplicação em diferentes aspectos da vida dos seres humanos à medida que passamos a
considerar o desenvolvimento de metodologia não invasiva de monitorização da PIC por
pesquisadores da área. É importante destacar que as informações aqui apresentadas estão
longe de representar todo o conteúdo conhecido sobre o assunto, mas possibilitam a
introdução a esta área do conhecimento e uma base para aprofundamento na mesma com
o intuito de estimular a possível aplicação ambulatorial da avaliação deste parâmetro
fisiológico no futuro.
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