Poder Judiciário 308
Estado do Rio de Janeiro
Décima Nona Câmara de Direito Privado
APELAÇÃO CÍVEL/REMESSA NECESSÁRIA Nº 0009057-33.2007.8.19.0021
APELANTE 1: MUNICIPIO DE DUQUE DE CAXIAS
APELANTE 2 : GLORIA CRISTINA PEREIRA
APELADOS: OS MESMOS
RELATOR: DESEMBARGADOR WERSON RÊGO
Juízo de Origem: 4ª Vara Cível da Comarca de Duque de Caxias
SAÚDE PÚBLICA. RESPONSABILIDADE CIVIL DO MUNICÍPIO DE DUQUE DE
CAXIAS. PRETENSÃO INDENIZATÓRIA, DECORRENTE DE MORTE DE
PACIENTE EM HOSPITAL MUNICIPAL. SENTENÇA DE PARCIAL
PROCEDÊNCIA DOS PEDIDOS. IRRESIGNAÇÃO DAS PARTES. APELAÇÃO
CÍVEL INTERPOSTA PELA MUNICIPALIDADE, VISANDO À REFORMA
INTEGRAL DO JULGADO. APELAÇÃO CÍVEL INTERPOSTA PELA AUTORA,
VISANDO À REFORMA QUANTO AOS CONSECTÁRIOS LEGAIS.
1. Recursos distribuídos antes da entrada em vigor da Resolução do Órgão
Especial nº 01/23, motivo pelo qual, nos termos do art. 2º, este Órgão
Julgador é competente para o julgamento.
2. A responsabilidade da Administração Pública é objetiva, nos termos do
artigo 37, § 6º, da Constituição Federal.
3. Para configuração da responsabilidade estatal, é dispensada a
demonstração da culpa, exigindo-se tão somente a comprovação da relação
causal entre o fato e o alegado dano.
4. Controvérsia acerca da suposta responsabilidade do ente público
municipal no falecimento do filho da Autora, e, consequentemente, de sua
condenação ao pagamento de pensionamento e de compensação dos
danos morais em R$ 50.000,00, bem assim ao termo inicial dos juros legais
e correção monetária, além dos honorários sucumbenciais arbitrados.
5. O filho da Autora, Michael Pereira Deloca, então com 16 anos, em
29/09/2006, devido a um acidente doméstico, no qual cortou o pé direito
na região do calcanhar, foi atendido no Hospital Municipal Duque de Caxias.
5.1. O paciente foi examinado, medicado e submetido à sutura, sendo
liberado em seguida. 5.2. Cinco dias após, no dia 04/10/2006, apresentando
inchaço e sangramento no local da lesão, o paciente retornou ao referido
hospital, sendo internado. 5.3. O menor apresentou considerável piora em
seu quadro clínico, evoluindo a óbito em 07/10/2006. 5.4. A certidão de
óbito aponta como causa mortis: embolia pulmonar, insuficiência venosa
profunda e septicemia.
6. O bem elaborado laudo pericial, produzido sob o crivo do contraditório e
da ampla defesa, concluiu que, em relação ao primeiro atendimento, o fato
do paciente apresentar-se com lesão no pé direito, sendo necessária a
realização de sutura, impõe pela prática médica, a prescrição de
antibioticoterapia profilática, durante o atendimento emergencial e
continuado após a alta hospitalar, vez que a referida lesão é considerada
"contaminada". Todavia, no referido atendimento, não restou demonstrada
a prescrição, o que concorreu de maneira efetiva para a má evolução clínica
do paciente.
1 (AC)
WERSON FRANCO PEREIRA REGO:16700 Assinado em 10/05/2023 13:42:14
Local: GAB. DES. WERSON FRANCO PEREIRA REGO
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7. Instadas as partes a se manifestarem sobre o laudo apresentado,
observa-se que a Municipalidade deixou de impugná-lo.
8. Quando da internação do menor, em 04/10/2006, inobstante seu grave
quadro de saúde, permaneceu aguardando vaga para o Centro de Terapia
Intensiva até a ocorrência do óbito.
9. Como bem ressaltado pela d. magistrada sentenciante, ”O nexo de
causalidade também ficou demonstrado, pois o resultado danoso decorreu
de conduta de agentes públicos.”
10. Correta a condenação ao pensionamento em favor da Autora, mãe da
vítima, na esteira da orientação firmada pelo c. Superior Tribunal de Justiça,
no sentido de ser devido aos genitores de menor falecido, na proporção de
2/3 do salário mínimo nacional até quando completasse 25 anos de idade e,
a partir daí, reduzida para 1/3, pelo período de sobrevida provável,
estabelecido com base na expectativa de vida oficial do brasileiro publicada
pelo IBGE (no caso dos autos, 65 anos) ou, ainda, até a data do falecimento
da beneficiária.
11. Verba compensatória arbitrada em R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais),
em consonância com os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade.
12. No tocante aos acréscimos incidentes sobre a indenização por danos
morais, a correção monetária deverá incidir a partir da sentença que
arbitrou a indenização (Súmula 97 do TJRJ), conforme determinado na r.
sentença.
13. O entendimento do Superior Tribunal de Justiça é no sentido de que no
caso de compensação por dano moral puro decorrente de ato ilícito, na
relação extracontratual, os juros moratórios legais fluem a partir do evento
danoso, conforme estabelece a Súmula nº 54.
14. RECURSO DA MUNICIPALIDADE A QUE SE NEGA PROVIMENTO.
RECURSO DA PARTE AUTORA PARCIALMENTE PROVIDO, MANTENDO-SE A
SENTENÇA EM SEUS DEMAIS TERMOS, EM REEXAME NECESSÁRIO.
Vistos, relatados e discutidos estes recursos de apelação cível/remessa
necessária nº 0009057-33.2007.8.19.0021, em que figuram como Apelantes MUNICIPIO DE
DUQUE DE CAXIAS e GLORIA CRISTINA PEREIRA e Apelados OS MESMOS,
A C O R D A M os Desembargadores que integram a Décima Nona Câmara de
Direito Privado do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, por unanimidade de
votos, em negar provimento ao recurso da parte Ré e em dar parcial provimento ao recurso
da parte Autora, mantendo-se a sentença em seus demais termos, em remessa necessária,
nos termos do voto do Desembargador Relator.
Rio de Janeiro, 10 de maio de 2023.
WERSON RÊGO
Desembargador Relator
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RELATÓRIO
Recursos de apelação cível interpostos contra a r. sentença de e-fls. 202/205, da
lavra da eminente Juíza de Direito Rachel Assad da Cunha que, em ação ajuizada por GLORIA
CRISTINA PEREIRA em face de MUNICIPIO DE DUQUE DE CAXIAS, julgou parcialmente
procedentes os pedidos, nos seguintes termos:
“Trata-se de ação de indenização proposta por GLÓRIA CRISTINA PEREIRA em face de
MUNICÍPIO DE DUQUE DE CAXIAS, alegando, em síntese, que, no dia 29/09/2006, a autora
levou seu filho MICHAEL para ser atendido no Hospital Municipal de Duque de Caxias, por
ter sofrido um corte no calcanhar do pé direito, sendo realizada sutura e ministrado
antibiótico, antes de ser liberado. Descreve que, no dia seguinte, seu filho apresentou
inchaço e teve hemorragia, então a autora o levou ao mesmo hospital onde o menor ficou
internado, porém, por falta de leito, ficou aguardando no corredor. Aduz que, no dia
06/10/2006 o menor teve dores na região do coração, recebeu oxigênio e apresentou
desmaio, falecendo em seguida devido à embolia pulmonar. Por fim, requer a reparação
pelos danos morais sofridos e pagamento de pensão mensal. Com a inicial de fls. 2/6 vieram
os documentos de fls. 7/24. O despacho de fls. 26 deferiu a gratuidade de justiça à parte
autora. Regularmente citado, o réu ofereceu a contestação de fls. 31/49, descrevendo, em
síntese, que houve regular atendimento ao filho da autora e que foi constatado que o
acidente com o menor ocorreu 5 dias antes do atendimento, comparecendo o menor já com
a região posterior do tornozelo infectada e com presença de flictena. Afirma que o paciente
em nenhum momento deixou de ser assistido pelo município, não ocorrendo qualquer
negligência médica, decorrendo a causa da morte da gravidade da lesão, destacando que os
profissionais da área de saúde não estão obrigados a garantir a vida de seus pacientes, mas
sim adotar todas as providências médicas existentes e disponíveis. Aduz a ausência de nexo
de causalidade, por falta de prova de erro médico. Defende a ocorrência de
responsabilidade subjetiva e a inexistência de danos morais, bem como a falta de direito a
pagamento de pensão. Por fim, requer a improcedência do pedido autoral. Réplica às fls.
66/67. Manifestação do Ministério Público às fls. 71 (verso) requerendo a produção de
prova pericial. A decisão de fls. 78 deu por saneado o feito, deferiu a produção de prova
documental superveniente e pericial, indeferindo o depoimento pessoal da autora. A
decisão de fls. 115 rejeitou a impugnação ao valor da causa. Laudo pericial às fls. 140/150,
acerca do qual se manifestou a parte autora ás fls. 161 e a parte ré às fls. 162/163. O
despacho de fls. 164 remeteu os autos ao Grupo de Sentença. É O RELATÓRIO. DECIDO.
Cuida-se de ação de responsabilidade civil por meio da qual a parte autora pretende a
condenação do réu ao pagamento de indenização por danos morais e materiais
supostamente sofridos em decorrência de erro médico que ocasionou falecimento de seu
filho. Com efeito, dispõe o art. 37, §6º da CRFB/1988 que: "As pessoas jurídicas de direito
público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos
que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso
contra o responsável nos casos de dolo ou culpa." Revela-se, pois, que o Estado só responde
objetivamente pelos danos que os "seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros". A
expressão "seus agentes, nessa qualidade", está a evidenciar que a Carta Magna adotou
expressamente a teoria do risco administrativo como fundamento da responsabilidade da
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Administração Pública, porquanto condicionou a responsabilidade objetiva do Poder Público
ao dano decorrente da sua atividade administrativa, isto é, aos casos em que houver
relação de causa e efeito entre a atuação do agente público e o dano. Sem essa relação de
causalidade não há como e nem porque responsabilizá-lo objetivamente. Descarta-se,
portanto, qualquer indagação em torno da culpa do funcionário causador do dano, ou,
mesmo, sobre a falta do serviço ou culpa anônima da Administração, devendo o Estado
responder porque causou o dano ao seu administrado, simplesmente porque há relação de
causalidade entre a atividade administrativa e o dano sofrido pelo particular. Da análise dos
autos, verifica-se que a certidão de óbito, as informações e os laudos médicos, juntados às
fls. 11/24, confirmam que a autora era mãe do menor MICHEL PEREIRA DELOCA, o qual
faleceu no interior do Hospital Municipal de Duque de Caxias. Ressalta-se, ainda, que o
ilustre perito nomeado nos autos assinalou em seu laudo que as informações trazidas na
inicial e os dados descritos nos documentos médicos chancelam a dinâmica fática
delineada. A prova técnica produzida por perito de confiança do Juízo às fls. 140/150 é clara
ao concluir que: "...entende este Perito face as informações contidas no BAM, que o fato do
paciente apresentar-se com lesão no pé direito em razão de trauma ocorrido na porta de
casa e que dessa lesão foi necessário a realização de Sutura, se impõe pela prática médica,
a prescrição de antibióticoterapia profilática vez que a referida lesão é considerada
"contaminada", razão pela qual, reiteramos, a aplicação de antibióticos durante o
atendimento emergencial e continuado após a alta hospitalar não pode ser desconsiderado
o que no referido atendimento não restou demonstrado que teria sido aplicado, conforme
informações colhidas no documentos juntados aos Autos. Face ao exposto, opina este
signatário que tal situação concorreu de maneira efetiva para a má evolução clínica do
paciente." O nexo de causalidade também ficou demonstrado, pois o resultado danoso
decorreu de conduta de agentes públicos. A doutrina ensina que para que haja nexo causal
é necessária a existência de uma relação de causa e efeito entre a conduta (ação ou
omissão) e o resultado, vínculo que ficou comprovado neste caso concreto. Destaca-se que
os eventos narrados na peça inicial decorreram do próprio fato que deu origem à lide, e são
ensejadores do dever do réu em indenizar a parte autora pelo dano moral que suportou,
uma vez que restou demonstrado a dor e o sofrimento suportados, causando-lhe angústia e
aflição decorrentes da perda do filho. Comprovados, então, os pressupostos da
responsabilidade civil, passo à análise do pleito indenizatório. Dessa forma, reconhecido o
dano moral, a fixação do valor indenizatório sujeita-se à ponderação do magistrado, uma
vez que a legislação brasileira não fixa valores ou critérios para a quantificação do dano
moral. O valor deve ser arbitrado levando-se em consideração as peculiaridades do caso
concreto e sua fixação deve ser arbitrada em montante que desestimule o ofensor a repetir
a falta, sem constituir, de outro lado, enriquecimento sem causa daquele que irá ser
beneficiado. Com esses fundamentos, fixo o dano moral em R$ 50.000,00 (cinquenta mil
reais), que entendo adequado e razoável para a compensação. Com relação ao pedido de
recebimento de pensão mensal, a jurisprudência do C. STJ é firme no sentido de que é
devido o pensionamento aos genitores de família de baixa renda, caso dos autos, diante da
morte de filho menor de idade. O termo inicial do pensionamento, conforme entendimento
jurisprudencial, é a data em que o filho menor completaria 14 anos de idade, e o termo final
é a data correspondente à expectativa média de vida da vítima segundo tabela do IBGE na
data do óbito, ou até o falecimento dos beneficiários. No caso em exame, adstrita ao pedido
deduzido na inicial pela autora/genitora, o termo final da pensão em discussão é a data em
que a vítima completaria 65 anos de idade, destacando-se que na data do óbito a vítima
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contava com 16 anos de idade. Assim, de acordo com os precedentes do C. STJ, é devida
pensão a genitores desde a data em que a vítima menor viesse a completar 14 anos de
idade até a data que completaria 25 anos de idade, no valor correspondente a 2/3 do
salário mínimo nacional por mês, e, a partir de então, reduzido para 1/3 do salário mínimo
nacional, até a data em que a vítima completaria 65 anos de idade ou até o falecimento dos
beneficiários. Por esses fundamentos, JULGO PROCEDENTE EM PARTE o pedido, nos termos
do artigo 487, I, do CPC, para condenar o réu ao pagamento de: 1- Indenização por danos
morais no valor de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais), acrescidos de correção monetária
calculada com base no IPCA, a partir desta sentença e juros de mora a contar da citação,
calculados com base no índice oficial de remuneração básica e juros aplicados à caderneta
de poupança, nos termos do art. 1º-F, da Lei nº 9.494/1997; 2- Pensão à parte autora até a
data em que a vítima completaria 25 anos de idade, no valor correspondente a 2/3 do
salário mínimo nacional por mês, e, a partir de então, reduzido para 1/3 do salário mínimo
nacional, até a data em que a vítima completaria 65 anos de idade ou até o falecimento da
beneficiária. Condeno, ainda, a parte ré ao pagamento da taxa judiciária, dispensado ao
pagamento das custas judiciais ante a isenção estabelecida pela Lei nº 3.350/1999, bem
como ao pagamento de honorários advocatícios, que fixo em 10% do valor da condenação.
Sentença sujeita ao duplo grau de jurisdição obrigatório na forma do artigo 496, I, do CPC.
Transitado em julgado, remetam-se os autos à Central de Arquivamento desta Comarca,
nos termos do disposto no artigo 229-A, §1º, inciso I, da CNCGJ, para baixa e arquivamento.
Publique-se e intimem-se.”
Adoto, na forma do permissivo regimental (art. 92, § 4º, do RITJERJ), o relatório
acima reproduzido, aduzindo o que ora segue.
Não resignadas com o resultado da demanda, ambas as partes recorreram.
A parte Ré, MUNICÍPIO DE DUQUE DE CAXIAS, a e-fls. 209/222, requerendo a
reforma integral do julgado.
Alega, em síntese, não ter praticado qualquer ato ilícito. Sustenta que, em razão do
BAM nº 140.552 (fls. 70 e 113) não estar legível, o perito do juízo teria se baseado única e
exclusivamente no depoimento da Autora. Afirma que, na ausência de documentação, não
haveria como inferir que os procedimentos médicos não teriam sido corretamente
aplicados. Salienta que teria ficado impossibilitada de produzir prova em sentido contrário,
considerando o que teria sido relatado no Ofício 562/2014/DEJUR/SAGP/SMS (fls. 104-109).
Argumenta que não teria restado comprovado se o paciente efetivamente tomou
todos os cuidados necessários ao seu restabelecimento e se, de alguma forma, a falta deles
poderia influenciar o quadro de inflamatório apresentado no segundo atendimento. Aduz
que nenhum medicamento ou antibiótico seria capaz de evitar um processo infeccioso grave
se os cuidados com relação à limpeza e o curativo da lesão não são feitos de forma correta.
5 (AC)
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Assevera não haver dúvidas de que resultado morte não decorreu por falha na
assistência médica prestada e sim, em razão de um quadro clínico decorrente de alterações
decorrentes do próprio organismo do adolescente.
Subsidiariamente, requer a exclusão ou a redução dos valores arbitrados a título
de dano moral, bem assim do pensionamento, além dos honorários de sucumbência.
A parte Autora, GLORIA CRISTINA PEREIRA, a e-fls. 242/246, requerendo a reforma
parcial do julgado. Defende, em síntese, a incidência de juros moratórios a partir do evento
danoso, bem assim de correção monetária a partir da data do ato ilícito, nos termos dos
enunciados das Súmulas 54 e 43, do STJ, respectivamente.
Contrarrazões da Municipalidade, a e-fls. 248/252, e da Autora, a e-fls. 273/278.
Manifestação da d. Procuradoria de Justiça, a e-fls. 285/297, opinando pelo não
provimento do recurso do Município e pelo parcial provimento do recurso da Autora. De
ofício, requer a majoração do valor dos danos morais para R$ 80.000,00.
Os recursos são tempestivos, o 1º recurso é isento do pagamento de custas e a
Autora é beneficiária da gratuidade de justiça, estando os Recorrentes devidamente
representados.
É o breve relatório do essencial.
6 (AC)
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VOTO
Satisfeitos os pressupostos intrínsecos e extrínsecos de admissibilidade, ambos os
recursos devem ser conhecidos.
Recursos distribuídos antes da entrada em vigor da Resolução do Órgão Especial nº
01/23, motivo pelo qual, nos termos do art. 2º, este Órgão Julgador é competente para o
julgamento.
A Constituição da República, adotando a Teoria do Risco Administrativo, atribui
responsabilidade objetiva às pessoas jurídicas de direito público pelos danos que seus
agentes causarem a terceiros no exercício da atividade estatal, conforme o disposto no § 6º
do artigo 37 da Carta Magna.
Por outro lado, a natureza objetiva da responsabilidade civil da Administração
Pública não importa responsabilidade integral por todo e qualquer evento danoso causado
por agente público, podendo ser ilidida mediante rompimento do nexo causal.
Com efeito, a responsabilidade civil da Administração Pública pressupõe que a
conduta do agente estatal (comissiva ou omissa) seja apta a gerar os danos que o
administrado alega ter sofrido, cabendo a este, por sua vez, comprovar, independentemente
da aferição de culpa, o nexo de causalidade entre a conduta e o dano sofrido.
Em outras palavras, para a aferição da responsabilidade civil do Estado e o
consequente reconhecimento do direito à reparação pelos prejuízos causados, é suficiente
que se prove o dano sofrido e o nexo de causalidade entre a omissão/conduta atribuíveis ao
Poder Público, ou aos que agem em seu nome, por delegação, e o aludido dano. De todo
modo, é permitido ao Estado afastar a sua responsabilidade nos casos de exclusão do nexo
causal - fato exclusivo da vítima, caso fortuito, força maior e fato exclusivo de terceiro.
Nesse particular, doutrina e jurisprudência diferenciam a omissão genérica da
específica, configurando esta última quando a inércia administrativa é a causa direta e
imediata do não-impedimento do evento, respondendo o ente público objetivamente por
não ter obtido a eficácia que lhe seria exigida em obstar o resultado danoso. Considera-se
omissão genérica àquelas situações em que não se pode exigir do Estado uma atuação
específica.
Na precisa lição de José dos Santos Carvalho Filho, in Manual de Direito
Administrativo, 12ª ed., p. 498, Ed. Lumen Juris:
7 (AC)
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“... para que se tenha uma análise absolutamente consentânea com o
mandamento constitucional, é necessário que se verifique se realmente
houve um fato administrativo (ou seja, um fato imputável à
Administração), o dano da vítima e a certeza de que o dano proveio
efetivamente daquele fato. Essa é a razão por que os estudiosos têm
consignado, com inteira dose de certo, que ‘a responsabilidade objetiva
fixada pelo texto constitucional exige, como requisito para que o Estado
responda pelo dano que lhe for imputado, a fixação do nexo causal entre
o dano produzido e a atividade funcional desempenhada pelo agente
estatal”. (grifei)
Cinge-se a controvérsia acerca da suposta responsabilidade do ente público
municipal no falecimento do filho da Autora, e, consequentemente, de sua condenação ao
pagamento de pensionamento e de compensação dos danos morais em R$ 50.000,00, bem
assim ao termo inicial dos juros legais e correção monetária, além dos honorários
sucumbenciais arbitrados.
No caso concreto, restou comprovado que o filho da Autora, Michael Pereira
Deloca, então com 16 anos, em 29/09/2006, devido a um acidente doméstico, no qual
cortou o pé direito na região do calcanhar, foi atendido no Hospital Municipal Duque de
Caxias.
Na ocasião, o paciente foi examinado, medicado e submetido à sutura, sendo
liberado em seguida. Ocorre que cinco dias após, no dia 04/10/2006, apresentando inchaço
e sangramento no local da lesão, o paciente retornou ao referido hospital, sendo internado.
No entanto, o menor apresentou considerável piora em seu quadro clínico,
evoluindo a óbito em 07/10/2006.
A certidão de óbito, a e-fls. 11, aponta como causa mortis: embolia pulmonar,
insuficiência venosa profunda e septicemia.
A fim de dirimir a controvérsia, foi deferida a produção da prova pericial médica.
O bem elaborado laudo pericial, a e-fls. 168/179, produzido sob o crivo do
contraditório e da ampla defesa, concluiu que, em relação ao primeiro atendimento, o fato
do paciente apresentar-se com lesão no pé direito, sendo necessária a realização de sutura,
impõe pela prática médica, a prescrição de antibioticoterapia profilática, durante o
atendimento emergencial e continuado após a alta hospitalar, vez que a referida lesão é
considerada "contaminada". Todavia, no referido atendimento, não restou demonstrada a
prescrição, o que concorreu de maneira efetiva para a má evolução clínica do paciente.
Confira-se:
8 (AC)
Poder Judiciário 316
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Instadas as partes a se manifestarem sobre o laudo apresentado, observa-se que a
Municipalidade deixou de impugná-lo.
9 (AC)
Poder Judiciário 317
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Ademais disso, depreende-se dos autos que, quando da internação do paciente, em
04/10/2006, inobstante seu grave quadro de saúde, permaneceu aguardando vaga para o
Centro de Terapia Intensiva até a ocorrência do óbito. Senão, vejamos:
10 (AC)
Poder Judiciário 318
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Outrossim, não há como prosperar a pretensão do Recorrente de se eximir de
produzir prova em sentido contrário, considerando o que teria sido relatado no Ofício de e-
fls. 124/129, com informações de perda de diversos documentos que estavam alocados em
uma sala durante obras no nosocômio em questão. Isso porque, o dever de guarda e
manutenção dos referidos documentos é do ente público municipal e de seus prepostos.
Como bem ressaltado pela d. magistrada sentenciante, “O nexo de causalidade
também ficou demonstrado, pois o resultado danoso decorreu de conduta de agentes
públicos.
(...) Destaca-se que os eventos narrados na peça inicial decorreram do próprio fato
que deu origem à lide, e são ensejadores do dever do réu em indenizar a parte autora pelo
dano moral que suportou, uma vez que restou demonstrado a dor e o sofrimento
suportados, causando-lhe angústia e aflição decorrentes da perda do filho.
(...) Com relação ao pedido de recebimento de pensão mensal, a jurisprudência do
C. STJ é firme no sentido de que é devido o pensionamento aos genitores de família de baixa
renda, caso dos autos, diante da morte de filho menor de idade.”
Nesta esteira, é o i. parecer ministerial, “Restou demonstrado nos autos, por prova
documental e pericial, que o atendimento médico prestado ao filho da autora pelos
prepostos do réu não teria sido adequado.
O laudo pericial de Id 168 concluiu que a causa mortis do menor teve ligação direta
e inequívoca com a falha médica dos agentes públicos, que não teriam ministrado
antibiótico ao paciente no primeiro atendimento o que teria levado a má evolução do seu
quadro clínico. (...)”
Outrossim, correta a condenação ao pensionamento em favor da Autora, mãe da
vítima, na esteira da orientação firmada pelo c. Superior Tribunal de Justiça, no sentido
de ser devido aos genitores de menor falecido, na proporção de 2/3 do salário mínimo
nacional até quando completasse 25 anos de idade e, a partir daí, reduzida para 1/3, pelo
período de sobrevida provável, estabelecido com base na expectativa de vida oficial do
brasileiro publicada pelo IBGE (no caso dos autos, 65 anos) ou, ainda, até a data do
falecimento da beneficiária.
Passo à análise da verba compensatória.
É sabido que não deve constituir a compensação meio de locupletamento indevido
do lesado e, assim, deve ser arbitrada com moderação e prudência pelo julgador. Por outro
lado, não deve ser insignificante, eis que não pode constituir estímulo à manutenção de
práticas que agridam e violem direitos fundamentais dos cidadãos.
11 (AC)
Poder Judiciário 319
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Observa-se que o i. representante do Parquet requereu a majoração do valor
arbitrado dos danos morais para R$ 80.000,00. No entanto, o pleito não merece prosperar.
A uma, porque não houve irresignação da Autora neste ponto. A duas, porque o
reexame necessário da sentença, nos termos do art. 496, do Código de Processo Civil, não
pode ocorrer em prejuízo da Fazenda Pública, salvo nos casos de matérias apreciáveis de
ofício pelo magistrado, nos termos da Súmula nº 161 desta e. Corte, tais como juros legais,
correção monetária, prestações vincendas e condenação nas despesas processuais.
Penso que, no particular, houve-se com inegável acerto a MM. Juíza Rachel Assad
da Cunha, que, atento às particularidades do caso concreto, arbitrou a verba compensatória
com moderação e prudência (R$ 50.000,00), razão pela qual deve ser mantida.
Desta feita, mantém-se a quantia fixada na r. sentença, em consonância ao verbete
nº 343, da Súmula da Jurisprudência deste e. Tribunal de Justiça : “A verba indenizatória do
dano moral somente será modificada se não atendidos pela sentença os princípios da
proporcionalidade e da razoabilidade na fixação do valor da condenação”.
No mais, o entendimento do Superior Tribunal de Justiça é no sentido de que no
caso de compensação por dano moral puro decorrente de ato ilícito, na relação
extracontratual, os juros moratórios legais fluem a partir do evento danoso, conforme
estabelece a Súmula nº 54:
Súmula nº 54, STJ: “Os juros moratórios fluem a partir do evento danoso,
em caso de responsabilidade extracontratual.”
No tocante aos acréscimos incidentes sobre a indenização por danos morais, a
correção monetária deverá incidir a partir da sentença que arbitrou a indenização (Súmula
97 do TJRJ), conforme determinado na r. sentença.
Por fim, correta a fixação dos honorários advocatícios em 10% sobre o valor da
condenação, nos termos do art. 85, parágrafo 3ª, inciso I, do CPC.
À conta de tais fundamentos, voto no sentido de se negar provimento ao recurso
da parte Ré e, pelos mesmos fundamentos, de se dar parcial provimento ao recurso da parte
Autora para determinar que os juros legais incidam a partir do evento danoso, mantendo-se
a r. sentença nos demais termos, em reexame necessário.
Rio de Janeiro, 10 de maio de 2023.
Werson Rêgo
Desembargador Relator
12 (AC)