456
Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro
Segunda Câmara de Direito Privado
(Antiga 3ª Câmara Cível)
○Apelação Cível nº 0007095-80.2013.8.19.0209
Apelante 1: RYAN CARLOS DE OLIVEIRA BARBOSA DE PAULA
Apelante 2: JOSELI DE OLIVEIRA BARBOSA
Apelante 3: MARCELO ALVES DE PAULA
Apelado: AMESC - ASSOCIAÇÃO MÉDICA ESPÍRITA CRISTÃ
Relator: Des. CARLOS SANTOS DE OLIVEIRA
ACÓRDÃO
APELAÇÃO CÍVEL. INDENIZATÓRIA. ERRO MÉDICO. ATENDIMENTO
DE EMERGÊNCIA. RELAÇÃO DE CONSUMO. LAUDO PERICIAL.
SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA. MANUTENÇÃO.
1. Trata-se de ação indenizatória em que alega a parte autora ter sido o
primeiro demandante, menor de idade, atendido nas dependências do
hospital apelado de forma negligente e imperita, uma vez que após três
atendimentos de emergência, sem que sequer fossem examinadas as
narinas do autor, foi obtido diagnóstico médico incorreto de rinite, sendo a
criança submetida a inadequado tratamento com antibiótico por mais de
trinta dias. Afirmam que foi constatada a existência de corpo estranho no
nariz do menor, após consulta com otorrino em outro local.
2. Relação de consumo. Demanda proposta originalmente em face do plano
de saúde e hospital da rede privada. Homologado acordo da parte autora
com a seguradora de saúde, a primeira ré foi excluída do polo passivo.
3. O médico, atuando enquanto pessoa física, possui obrigação de meio, e
não de resultado, impondo-se valer de boa técnica para a recuperação de
seu paciente. Responsabilidade subjetiva. Art. 951 do CC e art. 14, § 4º, do
CDC. Quanto ao hospital, a responsabilidade por defeito na prestação do
serviço é objetiva, também na forma do Código de Defesa do Consumidor.
4. Contudo, no caso, se o defeito na prestação do serviço decorre
justamente da atuação profissional da equipe médica vinculada ao réu, sua
responsabilidade exige a demonstração do nexo causal, ou seja, o liame
entre o dano sofrido pelo autor e a prática médica que lhe foi despendida.
5. Realizada prova técnica, não restaram demonstrados o dano e o nexo
causal. Perito que afirma estar o atendimento médico dispensado ao autor
durante o período de internação na emergência nas dependências da
empresa ré dentro dos padrões adequados a boa prática médica.
6. Revelou ainda o ‘expert’ que o quadro clínico relatado era compatível
com a hipótese diagnóstica, para qual o autor foi medicado, sendo os
atendimentos a ele despendidos adequados. Destacou que nos
atendimentos questionados, aventou-se a possibilidade de corpo estranho
na narina do paciente, sendo-lhe indicada uma consulta ao otorrino.
7. Não restou configurada falha no serviço médico prestado. Sentença de
improcedência. Manutenção da sentença.
DESPROVIMENTO DO RECURSO.
_____________________________________________________________________________________________
Secretaria da Segunda Câmara de Direito Privado
(Antiga 3ª Câmara Cível)
Rua Dom Manuel, 37, 5º andar – Sala 512 – Lâmina III
Centro – Rio de Janeiro/RJ – CEP 20010-090
Tel.: + 55 21 3133-6003 – E-mail: 03 cciv@[Link] – PROT. 12263
1
Assinado em 28/09/2023 23:36:27
CARLOS SANTOS DE OLIVEIRA:14053 Local: GAB. DES CARLOS SANTOS DE OLIVEIRA
457
Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro
Segunda Câmara de Direito Privado
(Antiga 3ª Câmara Cível)
○Apelação Cível nº 0007095-80.2013.8.19.0209
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação Cível nº 0007095-
80.2013.8.19.0209 em que são apelantes RYAN CARLOS DE OLIVEIRA BARBOSA
DE PAULA, JOSELI DE OLIVEIRA BARBOSA e MARCELO ALVES DE PAULA e
apelado AMESC - ASSOCIAÇÃO MÉDICA ESPÍRITA CRISTÃ,
ACORDAM os Desembargadores da 2ª Câmara de Direito Privado do
Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, em conhecer do recurso e negar-
lhe provimento, nos termos do Desembargador Relator.
Rio de Janeiro, 25 de setembro de 2023.
Desembargador CARLOS SANTOS DE OLIVEIRA
Relator
_____________________________________________________________________________________________
Secretaria da Segunda Câmara de Direito Privado
(Antiga 3ª Câmara Cível)
Rua Dom Manuel, 37, 5º andar – Sala 512 – Lâmina III
Centro – Rio de Janeiro/RJ – CEP 20010-090
Tel.: + 55 21 3133-6003 – E-mail: 03 cciv@[Link] – PROT. 12263
2
458
Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro
Segunda Câmara de Direito Privado
(Antiga 3ª Câmara Cível)
○Apelação Cível nº 0007095-80.2013.8.19.0209
VOTO
Trata-se de ação indenizatória por danos morais por alegado erro médico.
Narram os autores que o menor Ryan foi levado para atendimento médico no dia
02/07/2012 no Hospital Cemeru, integrante da rede credenciada da Amil, por
apresentar secreção na narina direita com mau cheiro. Alegam que na oportunidade, a
criança foi diagnosticada com sinusite e medicada com antibiótico e analgésico.
Contudo, após mais de 20 (vinte) dias o quadro não apresentou melhora, sendo o
menor levado à Unidade Médica Avançada da Amil em Campo Grande e diagnosticada
uma inflamação na face, com a prescrição de mais antibióticos e orientado o
encaminhamento a uma otorrinolaringologista. Apenas no dia 04/08/2012, ao ser
levado ao serviço de Otorrino da Policlínica de Botafogo foi constatado e retirado um
corpo estranho (um pedaço de espuma) da fossa nasal do autor Ryan, sendo resolvido
o problema.
A gratuidade de justiça foi deferida no ind. 38.
Contestação da AMESC no ind. 45 destacando a correção do
procedimento médico adotado, inclusive com a realização de raio-x, inexistindo ação ou
omissão voluntária, negligência, imprudência ou imperícia.
A Amil também apresentou contestação (ind. 101) suscitando a preliminar
de ilegitimidade passiva e ilegitimidade ativa dos genitores do menor. Defende que
todos os procedimentos pleiteados foram autorizados, inexistindo conduta ilícita por
parte do plano de saúde.
Réplica no ind. 195.
As partes se manifestaram em provas na audiência de conciliação (ind.
217), sendo proferida decisão saneadora no ind. 226 que rejeitou as preliminares e
deferiu a produção de prova documental, pericial e oral com depoimento pessoal da
parte autora.
A Amil interpôs agravo retido quanto a rejeição das preliminares no ind.
230.
Laudo pericial no ind. 264, com esclarecimentos no ind. 287.
As partes se manifestaram sobre o laudo no ind. 276/284, 290/297.
Decretada a perda da prova oral pela parte ré no ind. 286.
_____________________________________________________________________________________________
Secretaria da Segunda Câmara de Direito Privado
(Antiga 3ª Câmara Cível)
Rua Dom Manuel, 37, 5º andar – Sala 512 – Lâmina III
Centro – Rio de Janeiro/RJ – CEP 20010-090
Tel.: + 55 21 3133-6003 – E-mail: 03 cciv@[Link] – PROT. 12263
3
459
Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro
Segunda Câmara de Direito Privado
(Antiga 3ª Câmara Cível)
○Apelação Cível nº 0007095-80.2013.8.19.0209
O prontuário médico foi acostado no ind. 309 e 327.
O perito se manifestou sobre os novos documentos acostados no ind.
365.
Os autores e a AMIL firmaram acordo no ind. 312/353. A parte autora
informou que o feito prossegue apenas em relação a segunda ré no ind. 385.
A Policlínica de Botafogo encaminhou o prontuário de atendimento do
menor no ind. 392, tendo se manifestado a perita nomeada pelo juízo no ind. 397.
Sentença que homologou o acordo firmado com a primeira ré, AMIL,
extinguindo o feito com resolução do mérito no ind. 403.
Sentença jugando improcedente o pedido indenizatório, condenando os
autores ao pagamento das despesas processuais e de honorários advocatícios,
observada a gratuidade de justiça (ind. 407).
Apelação interposta pelos autores no ind. 411 ratificando as alegações
trazidas na inicial. Destacam que houve negligência e imperícia do corpo médico da
apelada no atendimento do autor nos dias 02/07/2012, 24/07/2012 e 03/08/2012, uma
vez que seu nariz sequer foi examinado.
Certidão de tempestividade da apelação e isenção do preparo (ind. 416).
O réu não apresentou contrarrazões, conforme certificado no ind. 429.
O Ministério Público opinou pelo conhecimento e desprovimento do
recurso no ind. 436.
É o relatório.
Presentes os pressupostos de admissibilidade, passo a apreciar o
recurso.
Trata-se de ação indenizatória em que alega a parte autora ter sido o
primeiro demandante, menor de idade, atendido nas dependências do hospital apelado
de forma negligente e imperita, uma vez que após três atendimentos de emergência,
sem que sequer fossem examinadas as narinas do autor, foi obtido diagnóstico médico
incorreto de rinite, sendo a criança submetida a inadequado tratamento com antibiótico
_____________________________________________________________________________________________
Secretaria da Segunda Câmara de Direito Privado
(Antiga 3ª Câmara Cível)
Rua Dom Manuel, 37, 5º andar – Sala 512 – Lâmina III
Centro – Rio de Janeiro/RJ – CEP 20010-090
Tel.: + 55 21 3133-6003 – E-mail: 03 cciv@[Link] – PROT. 12263
4
460
Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro
Segunda Câmara de Direito Privado
(Antiga 3ª Câmara Cível)
○Apelação Cível nº 0007095-80.2013.8.19.0209
por mais de trinta dias. Afirmam que foi constatada a existência de corpo estranho no
nariz do menor, após consulta com otorrino em outro local.
Inicialmente, é sabido que o médico, atuando enquanto pessoa física,
possui obrigação de meio, e não de resultado, impondo-se valer de boa técnica para a
recuperação de seu paciente. Sua responsabilidade é subjetiva, conforme artigos 951
do Código Civil, e artigo 14, § 4º, do estatuto consumerista.
Quanto ao hospital, a responsabilidade por defeito na prestação do
serviço é objetiva, na forma do Código de Defesa do Consumidor.
Mas in casu, por óbvio, se o defeito na prestação do serviço decorre
justamente da atuação profissional da equipe médica vinculada ao réu, sua
responsabilidade exige a demonstração do nexo causal, ou seja, o liame entre o dano
sofrido pelo autor e a prática médica que lhe foi despendida.
Ora, trata-se de questão eminentemente técnica, na qual o exame do
expert do juízo assume especial relevância para deslindar a controvérsia.
Válida a transcrição da conclusão do laudo pericial (ind. 956):
Da análise dos documentos acostados aos autos e do exame médico
pericial realizado, conclui-se que:
1 – O atendimento médico dispensado ao Autor durante o período de
internação na emergência nas dependências da empresa ré (02/07/12 e
03/08/12) encontram-se dentro dos padrões adequados a boa prática
médica, com profissionais devidamente registrados no órgão de
classe, desta forma habilitados para o exercício da profissão.
2 — Não há como precisar o momento em que o corpo estranho foi
introduzido na narina do Autor, uma vez que somente existem nos autos
referência ao mesmo as fls.31 e 47 e que não existem dados suficientes
que permitam a esta perita chegar a essa conclusão.
3 — Não existem nos autos documentos que comprovem gastos/despesas
médicas.
4 – A estimativa de sobrevida do Periciado é estimada em 74, 1.
5 — Não há sequelas, não há incapacidade total/parcial permanente.
6 — O Autor Ryan encontra-se em condições de exercer as atividades
habituais da vida diária sem quaisquer restrições (em relação ao evento
relatado).
Revelou ainda o expert que o quadro clínico relatado era compatível com
a hipótese diagnóstica de rinossinusite, para qual o autor foi medicado, sendo os
atendimentos a ele despendidos adequados. Destacou ainda que nos atendimentos
_____________________________________________________________________________________________
Secretaria da Segunda Câmara de Direito Privado
(Antiga 3ª Câmara Cível)
Rua Dom Manuel, 37, 5º andar – Sala 512 – Lâmina III
Centro – Rio de Janeiro/RJ – CEP 20010-090
Tel.: + 55 21 3133-6003 – E-mail: 03 cciv@[Link] – PROT. 12263
5
461
Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro
Segunda Câmara de Direito Privado
(Antiga 3ª Câmara Cível)
○Apelação Cível nº 0007095-80.2013.8.19.0209
aqui questionados, aventou-se a possibilidade de corpo estranho na narina do
paciente, sendo-lhe indicada uma consulta ao otorrino (fl. 258).
Assim, não restou configurada falha no serviço médico prestado, devendo
ser mantida a sentença de improcedência.
À conta de tais fundamentos, voto no sentido de conhecer do recurso,
negando-lhe provimento para manter, na íntegra, a sentença guerreada.
Fixo honorários recursais, na forma do artigo 85, § 11 do Código de
Processo Civil, em 2% (dois por cento) sobre o valor da causa, observada a gratuidade
de justiça.
Rio de Janeiro, 25 de setembro de 2023.
Desembargador CARLOS SANTOS DE OLIVEIRA
Relator
_____________________________________________________________________________________________
Secretaria da Segunda Câmara de Direito Privado
(Antiga 3ª Câmara Cível)
Rua Dom Manuel, 37, 5º andar – Sala 512 – Lâmina III
Centro – Rio de Janeiro/RJ – CEP 20010-090
Tel.: + 55 21 3133-6003 – E-mail: 03 cciv@[Link] – PROT. 12263
6