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Erro de Diagnóstico e Dano Moral em RJ

O documento refere-se a uma apelação cível onde o Município de São José do Vale do Rio Preto foi responsabilizado por um erro de diagnóstico que resultou em um falso positivo de HIV para a autora, Carolina Ferreira Barbosa. A decisão manteve a sentença que condenou o município ao pagamento de R$30.000,00 por danos morais devido ao sofrimento causado pelo erro e pelo vazamento de informações sigilosas. O tribunal reafirmou a responsabilidade civil do Estado em casos de erro médico em serviços prestados pelo Sistema Único de Saúde.

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Erro de Diagnóstico e Dano Moral em RJ

O documento refere-se a uma apelação cível onde o Município de São José do Vale do Rio Preto foi responsabilizado por um erro de diagnóstico que resultou em um falso positivo de HIV para a autora, Carolina Ferreira Barbosa. A decisão manteve a sentença que condenou o município ao pagamento de R$30.000,00 por danos morais devido ao sofrimento causado pelo erro e pelo vazamento de informações sigilosas. O tribunal reafirmou a responsabilidade civil do Estado em casos de erro médico em serviços prestados pelo Sistema Único de Saúde.

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Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro


Quarta Câmara de Direito Público

QUARTA CÂMARA DE DIREITO PÚBLICO


APELAÇÃO CÍVEL Nº 0001668-45.2015.8.19.0076
APELANTE: MUNICIPIO DE SÃO JOSÉ DO VALE DO RIO PRETO
APELADO: CAROLINA FERREIRA BARBOSA
RELATOR: DES. SÉRGIO SEABRA VARELLA

APELAÇÃO CÍVEL. DIREITO ADMINISTRATIVO.


RESPONSABILIDADE CIVIL DO MUNICÍPIO. ERRO DE
DIAGNÓSTICO EM EXAME DE LABORATÓRIO. PACIENTE
QUE RECEBEU RESULTADO FALSO POSITIVO DE EXAME DE
HIV. DANO MORAL. SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA.
IRRESIGNAÇÃO DA PARTE RÉ.
1. Trata-se de ação de responsabilidade civil, na qual a autora
afirma que em 29/07/2012, com quinze anos de idade, deu
entrada na Fundação Hospital Maternidade Santa Therezinha,
vinculado ao réu, em razão da ocorrência de aborto espontâneo
e, após realizar exame de sangue, foi informada ser portadora
do vírus HIV.
2. Restou incontroverso nos autos que o resultado do exame de
sangue da autora, realizado no dia 29/07/2012, teve resultado
positivo para HIV.
3. Conforme apurado no procedimento administrativo aberto junto
ao hospital, no dia 02/08/2012, a pedido da demandante, restou
consignado que “(...) a conclusão que se chega é que houve
vazamento de informação sigilosa (...)” e, muito embora tenham
concluído que não seria possível afirmar de onde teria partido o
vazamento, ressaltaram que “(...) é certo que a informação
partiu de outro setor, provavelmente o de enfermagem ou
laboratório, ou até outro, mas o fato é que a ‘rede de fofoca’ teve
início bem antes de, supostamente, chegar na citada funcionária
que trabalha na cozinha do hospital e não teria acesso a tal
informação sem que alguém lhe contasse (...)”.
4. Parte autora que, diante da ausência de realização de exames
complementares pelo hospital administrado pelo réu, por conta
própria, realizou novo exame em laboratório particular, no dia
31/07/2012, no qual obteve o resultado negativo para HIV.
5. Responsabilidade Civil do Estado. Aplicação do artigo 37, § 6.º,
da Constituição Federal.
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Assinado em 17/11/2023 19:32:35


SERGIO SEABRA VARELLA:14056 Local: GAB. DES. SERGIO SEABRA VARELLA
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Quarta Câmara de Direito Público

6. Ausência de comprovação se o exame em debate cumpriu


rigorosamente todos os procedimentos e métodos
determinados pelo Ministério da Saúde aos laboratórios para
detecção do vírus HIV, previstos na Portaria nº 59/2003. Falha
na prestação do serviço caracterizada.
7. Caberia ao Município produzir prova de fato impeditivo,
modificativo ou extintivo do direito da autora, na forma exigida
pelo art. 373, inciso II do CPC.
8. Dano moral sofrido in re ipsa. Falha inicial do primeiro resultado
do exame que obviamente causou situação de incerteza,
sofrimento e angústia à demandante, não se tratando de mero
aborrecimento o diagnóstico de ser portadora do vírus HIV, sem
atender aos procedimentos e avisos determinados na norma
atinente à espécie, em clara violação ao direito de informação
médico-paciente, sendo o nexo de causalidade no presente
caso, inquestionável, devendo ainda ser destacado o
vazamento do resultado do exame, em cidade pequena, que
expôs ainda mais a honra da demandante.
9. Manutenção do valor da indenização por dois fundamentos: erro
do laboratório no resultado do exame positivo para o vírus HIV
da autora, somado à inobservância dos procedimentos
indicados pelo Ministério da Saúde; e o segundo, consistente no
vazamento de informação sigilosa pelo hospital, agravado pelo
fato da paciente, à época, ser menor de idade.
[Link] indenizatório fixado no valor de R$30.000,00 (trinta mil
reais), em consonância com os princípios da razoabilidade e
proporcionalidade.
[Link]ção da sentença.
[Link]-SE PROVIMENTO AO RECURSO.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos da apelação cível nº


0001668-45.2015.8.19.0076, em que figuram como apelante MUNICIPIO DE SÃO
JOSÉ DO VALE DO RIO PRETO e, como apelada, CAROLINA FERREIRA
BARBOSA.

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A C O R D A M os Desembargadores que compõem Quarta Câmara de


Direito Público do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, por unanimidade, em NEGAR
PROVIMENTO AO RECURSO, nos termos do voto do Relator.

Adota-se, na forma do permissivo regimental (art. 92, § 4º, do


Regimento Interno), o relatório da sentença que julgou procedentes os pedidos
formulados na inicial, nos seguintes termos (indexador 312):

1. Cuida-se de ação de conhecimento pelo rito comum ajuizada por Carolina Ferreira
Barbosa em face do Município de São José do Vale do Rio Preto, pelo que pretende
a Autora obter a condenação do Réu ao pagamento de indenização por dano moral,
bem como a arcar com os ônus da sucumbência. 2. Consta na inicial, em resumo, que,
em 29/07/2012, com 15 anos de idade, a Autora deu entrada no Hospital Maternidade
Santa Therezinha, atualmente administrado pelo Réu, com suspeita de aborto
espontâneo. 3. Segundo a Autora, após a confirmação do aborto e durante a sua
internação no referido nosocômio, foi submetida a diversos procedimentos e exames,
dentre os quais o exame de sangue, por meio do qual foi detectado que a demandante
era portadora do vírus HIV. 4. De acordo com a Autora, posteriormente seu namorado
foi submetido ao referido exame e foi diagnosticado também com o vírus HIV, sendo
ambos orientados a iniciar o tratamento da doença com o uso do coquetel de
medicamentos. 5. Diz que além do abalo emocional sentido com o diagnóstico da
doença, ainda sofreu constrangimentos, transtornos e aborrecimentos por ter a
funcionária do hospital (Sra. Denilde) noticiado, por telefone, a doença da demandante
a Sra. Florisbela Rodrigues Ferro Portugal, conhecida como "Belinha", que se dirigiu
transtornada a um imóvel vizinho da residência da Autora com propósito de buscar sua
filha, onde aos gritos dizia que a demandante estaria com AIDS, espalhando a notícia
rapidamente por toda a cidade. 6. Afirma a Autora que ela e seu namorado nunca
acreditaram nos resultados dos exames de sangue realizados no hospital e decidiram
realizar novos exames em instituições particulares, e todos deram resultados
negativos. 7. Alega a Autora que em razão do erro no diagnóstico da sua doença e de
seu namorado e da conduta culposa da funcionária do hospital a responsável da
Autora abriu um procedimento administrativo perante o Réu para apuração dos fatos
e com pedido de providências, no qual, em que pese ter sido reconhecida a gravidade
do vazamento indevido de informação sigilosa por parte de algum funcionário da
equipe do hospital, foi determinado o arquivamento dos autos pela ausência de prova
do autor do fato. 8. Por fim, aduz a Autora que o erro de ter sido diagnosticada como
portadora do vírus HIV e o vazamento indevido do diagnóstico errôneo por culpa
exclusiva de uma funcionária do hospital lhe causaram sérios prejuízos de ordem
moral que devem ser reparados pelo Réu. 9. A petição inicial veio acompanhada dos
documentos de fls. 17-53. 10. À fl. 55, foi deferida a gratuidade de justiça à Autora. 11.
Citado (fl. 58), o Réu ofereceu contestação (fls. 60-77), acompanhada de documentos
(fls. 78-102), na qual alega como questão preliminar a sua ilegitimidade passiva "ad
causam". Requer a denunciação da lide ao laboratório responsável pelo resultado do
exame (LABOFEL LABORATÓRIO DE ANÁLISES CLÍNICAS), com base na
conclusão obtida no processo administrativo instaurado para apuração dos fatos
narrados na peça vestibular. No mérito, afirma que a Autora não conseguiu comprovar

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quem efetivamente vazou a informação sigilosa, nem os danos morais supostamente


sofridos. Diz que a notícia de que a Autora era portadora de HIV não foi propagada
por um agente público municipal, mas pela senhora Florisbela Rodrigues Ferro
Portugal após receber notícia da Sra. Denilde, cozinheira do hospital, que não estava
agindo na qualidade de agente público ou servidora quando prestou informações a
senhora Florisbela. Na hipótese de condenação, requer a fixação da indenização de
forma razoável a fim de evitar o enriquecimento indevido da parte contrária. Espera o
acolhimento da questão preliminar arguida (ilegitimidade passiva "ad causam"), com
deferimento da denunciação da lide, ou a improcedência do pedido. 12. A Autora
replicou às fls. 105-109. 13. As partes se manifestaram em provas (fls. 111-112 e 113-
114). 14. À fl. 115, foi deferida a denunciação da lide, conforme requerido pelo Réu.
15. Citado (fl. 118), o denunciado permaneceu inerte (fl.119), sendo declarado revel
(fl. 120). 16. As partes novamente se manifestaram em provas (fls. 125-129). 17. O
processo foi saneado pela decisão de fls. 130-131, que rejeitou a questão preliminar
arguida e deferiu a produção de prova documental e oral. 18. Na audiência de
instrução e julgamento, retratada na assentada de fl. 150, nos termos de fls. 151-157
e na mídia de fl. 158, foi tomado o depoimento pessoal da Autora, inquiridas as
testemunhas arroladas pelas partes e determinada a expedição de carta precatória
para a oitiva da testemunha arrolada pelo Réu (Florisbela Rodrigues Ferro de Araújo)
após a busca de seu endereço junto aos sistemas conveniados com o Tribunal. 19. À
fl. 236, o Réu desiste da oitiva de sua testemunha após inúmeras tentativas infrutíferas
de localizá-la. 20. As partes se manifestaram em alegações finais às fls. 240-246 e
247-249, respectivamente. 21. É o relatório. Passo, pois, a decidir. 22. As questões
preliminares arguidas pelo Réu já foram decididas pela decisão saneadora de fls. 130-
131, a qual não foi objeto de qualquer impugnação pelas partes, motivo pelo qual
passo a enfrentar o mérito da causa. 23. E no tocante ao mérito, versam as questões
principais acerca de três fatos importantes, quais sejam: o erro de diagnóstico
praticado no hospital mantido atualmente pelo Réu, o vazamento indevido deste
diagnóstico por algum funcionário ou servidor do hospital, e se tais fatos foram capazes
de ter causado à Autora danos de ordem moral. 24. A meu ver, por tudo o que dos
autos consta, verifico que assiste razão à Autora quando alega que sofreu sérios
prejuízos de ordem moral em razão dos fatos narrados em sua peça vestibular. 25.
Com efeito, é fato incontroverso que o serviço médico prestado à Autora foi realizado
através do Sistema Único de Saúde (SUS), mediante convênio firmado entre o Réu e
a entidade administradora do nosocômio envolvido no atendimento médico em
questão (Fundação Hospital Maternidade Santa Theresinha). 26. Desta forma,
responde o ente federativo Réu de forma solidária pelos danos causados em
decorrência de suposto erro médico praticado por médicos e hospitais conveniados ao
Sistema Único de Saúde, conforme entendimento já pacificado pela jurisprudência
pátria. Neste sentido, trago à colação o seguinte julgado: 27. "RECURSOS
ESPECIAIS. AÇÃO DE COMPENSAÇÃO DE DANO MORAL. FUNDAMENTAÇÃO
DEFICIENTE. SÚM. 284/STF. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL.
AUSÊNCIA. MORTE DE PACIENTE ATENDIDO EM HOSPITAL PARTICULAR
CONVENIADO AO SUS. RESPONSABILIDADE CIVIL DOS MÉDICOS. PRESTAÇÃO
DE SERVIÇO PÚBLICO INDIVISÍVEL E UNIVERSAL (UTI UNIVERSI). NÃO
INCIDÊNCIA DO CDC. ART. 1º-C DA LEI 9.494/97. PRAZO PRESCRICIONAL
QUINQUENAL. ALEGADA MÁ VALORAÇÃO DA PROVA. CULPA DOS MÉDICOS E
CARACTERIZAÇÃO DO DANO MORAL. SÚMULA 07/STJ. DISSÍDIO
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JURISPRUDENCIAL NÃO DEMONSTRADO. JULGAMENTO: CPC/15. 1. Ação de


compensação de dano moral ajuizada em 06/09/2011, da qual foram extraídos os
presentes recursos especiais, interpostos em 16/03/2018, 10/04/2018 e 13/04/2018, e
atribuídos ao gabinete em 25/10/2018. 2. O propósito recursal consiste em decidir
sobre: (i) a prescrição da pretensão deduzida, relativa à responsabilidade civil dos
médicos pela morte do paciente, em atendimento custeado pelo SUS; (ii) a valoração
da prova quanto à culpa dos médicos e à caracterização do dano moral; (iii) o valor
arbitrado a título de compensação do dano moral. 3. Os argumentos invocados pela
recorrente não demonstram como o Tribunal de origem ofendeu os dispositivos legais
indicados, o que importa na inviabilidade do recurso especial (súm. 284/STF). 4. É
inviável o recurso especial em que não se aponta violação de qualquer dispositivo
infraconstitucional (súm. 284/STF). 5. A mera referência à ocorrência de omissão e
contradição, sem demonstrar, concreta e efetivamente, em que consistiriam tais vícios,
não é apta a anulação do acórdão por negativa de prestação jurisdicional. 6. Segundo
estabelecem os arts. 196 e seguintes da CF/1988, a saúde, enquanto direito
fundamental de todos, é dever do Estado, cabendo à iniciativa privada participar, em
caráter complementar (art. 4º, § 2º, da Lei 8.080/1990), do conjunto de ações e
serviços que visa a favorecer o acesso universal e igualitário às atividades voltadas a
sua promoção, proteção e recuperação, assim constituindo um sistema único - o SUS
-, o qual é financiado com recursos do orçamento dos entes federativos. 7. A
participação complementar da iniciativa privada na execução de ações e serviços de
saúde se formaliza mediante contrato ou convênio com a administração pública
(parágrafo único do art. 24 da Lei 8.080/1990), nos termos da Lei 8.666/1990 (art. 5º
da Portaria nº 2.657/2016 do Ministério da Saúde), utilizando-se como referência, para
efeito de remuneração, a Tabela de Procedimentos do SUS (§ 6º do art. 3º da Portaria
nº 2.657/2016 do Ministério da Saúde). 8. Quando prestado diretamente pelo Estado,
no âmbito de seus hospitais ou postos de saúde, ou quando delegado à iniciativa
privada, por convênio ou contrato com a administração pública, para prestá-lo às
expensas do SUS, o serviço de saúde constitui serviço público social. 9. A participação
complementar da iniciativa privada - seja das pessoas jurídicas, seja dos respectivos
profissionais - na execução de atividades de saúde caracteriza-se como serviço
público indivisível e universal (uti universi), o que afasta, por conseguinte, a incidência
das regras do CDC. 10. Hipótese em que tem aplicação o art. 1º-C da Lei 9.494/97,
segundo o qual prescreverá em cinco anos o direito de obter indenização dos danos
causados por agentes de pessoas jurídicas de direito privado prestadoras de serviços
públicos. 11. Não há como alterar as conclusões do Tribunal de origem, relativas à
configuração da conduta culposa dos médicos e à caracterização do dano moral, sem
o vedado reexame de fatos e provas (súmula 07/STJ). 12. As circunstâncias que levam
o Tribunal de origem a fixar o valor da condenação a título de compensação por dano
moral são de caráter personalíssimo, de modo que, ainda que haja grande semelhança
nas características externas e objetivas, no aspecto subjetivo, os acórdãos serão
sempre distintos, o que impossibilita a comparação para efeito de configuração da
divergência, com outras decisões assemelhadas. Precedentes. 13. Entre os acórdãos
trazidos à colação, não há o necessário cotejo analítico nem a comprovação da
similitude fática, elementos indispensáveis à demonstração da divergência (arts.
1.029, § 1º, do CPC/15 e 255, § 1º, do RISTJ). 14. Recurso especial de JOSÉ
ARNALDO DE SOUZA e RITA DE CASSIA MORAIS DE MENDONÇA não
conhecidos. Recurso especial de RODRIGO HENRIQUE CANABARRO FERNANDES
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conhecido e desprovido". (RECURSO ESPECIAL Nº 1.771.169 - SC (2018/0258615-


4) - Relatora MINISTRA NANCY ANDRIGHI - Julgado em 26 de maio de 2020) 28. É
fato incontroverso também que a Autora foi diagnosticada erroneamente com o vírus
do HIV, com base em exame realizado pelo Denunciado Laboratório, durante sua
internação no hospital atualmente mantido pelo Réu/denunciante. 29. Notem que os
resultados dos exames particulares dão conta de que a Autora não é portadora do
vírus HIV (fls. 24-25), indo de encontro ao resultado do exame realizado pelo
laboratório (Denunciado) contratado pelo Réu (Denunciante) (fl. 23). 30. E nem o
Réu/denunciante nem o Denunciado se insurgiram contra tal fato, em que pese terem
tido ampla oportunidade para impugnar os resultados dos exames particulares, ou
seja, tiveram oportunidade de comprovar que realmente a Autora é portadora do vírus
HIV; porém, em que pese tal oportunidade, preferiram permanecer inertes. 31. Do
mesmo modo, é fato notório que houve vazamento do resultado do exame de HIV
realizado pela Autora no hospital. O próprio Réu reconhece a gravidade desse
vazamento quando apurou o fato nos autos do processo administrativo instaurado pela
representante legal da Autora na época dos fatos. 32. Entretanto, as provas produzidas
nos autos não capazes de revelar o autor do referido do vazamento. Há indícios de
que alguém do hospital comunicou o fato de a Autora estar com o vírus HIV a senhora
Florisbela Rodrigues Ferro de Araújo, conhecida como "Belinha", cujo paradeiro atual
é desconhecido. 33. Portanto, não há como afirmar com convicção, com certeza, que
o vazamento partiu realmente de uma pessoa do hospital. Há indícios fortes, mas não
há como imputar a autoria do fato a alguém do hospital ou do laboratório que fez o
exame de sangue da Autora. 34. No entanto, é certo afirmar que o hospital não prestou
atendimento médico satisfatório à Autora, existindo, portanto, prova da existência de
falha no serviço médico prestado no Hospital atualmente mantido pelo Réu (erro de
diagnóstico). 35. É necessário destacar que, conforme jurisprudência pacífica de
nossos tribunais, o serviço prestado por hospitais conveniados ao Sistema Único de
Saúde atrai a responsabilidade civil solidária do ente federativo contratante do serviço.
36. Por se tratar se serviço social de saúde, a responsabilidade civil deverá ser
analisada com base nos mesmos critérios da responsabilidade da administração
pública, afastando-se a aplicação das regras protetivas do Código de Defesa do
Consumidor. 37. Com efeito, a Teoria do Risco Administrativo se fez presente na atual
Constituição Federal (artigo 37, §6º) e consagra o sistema de responsabilização
objetiva, pois estabelece, de forma indireta, que o dever de indenizar do Estado se
subordina a uma ação administrativa que cause danos a terceiros, independentemente
de culpa de seu agente. 38. O art. 37, §6º, da Constituição Federal estende a
responsabilidade objetiva às pessoas jurídicas de direito privado prestadoras de
serviços públicos, como no caso da Fundação Hospital Maternidade Santa
Therezinha. 39. É certo que o Estado não pode ser o segurador geral de todos os
acontecimentos e, em se tratando de imputação de omissão genérica, a
responsabilidade ocorrerá somente se o lesado comprovar a inobservância de uma
conduta do agente estatal medianamente exigível para aquele caso concreto, à luz da
regra do artigo 159, do Código Civil de 1916, e artigo 186, do atual Código Civil. 40.
Entretanto, se a omissão for específica ou decorrer de conduta comissiva, tanto o
Estado como a empresa privada prestadora de serviço público terão o dever de
indenizar, com base no sistema de responsabilização objetiva, desde que fique
comprovada a existência de ato ou fato administrativo, o dano, o nexo de causalidade
e a ausência de culpa da vítima e força maior. 41. A propósito, trago à colação os
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seguintes julgados proferidos por este Egrégio Tribunal de Justiça sobre o tema: 42.
"ADMINISTRATIVO. RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA DO ESTADO. AÇÃO
DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. ATENDIMENTO MÉDICO EM REDE
PÚBLICA MUNICIPAL. ERRO MÉDICO ENSEJANDO A MORTE DO PACIENTE.
INDENIZAÇÃO NO VALOR DE R$ 50.000,00 (CINQUENTA MIL REAIS). RECURSO
DE AMBAS AS PARTES. AUTORA QUE BUSCA MAJORAÇÃO DA INDENIZAÇÃO.
RÉU QUE BUSCA A REFORMA TOTAL DO JULGADO OU, ALTERNATIVAMENTE,
A REDUÇÃO DA CONDENAÇÃO. A CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA IMPUTOU ÀS
PESSOAS JURÍDICAS DE DIREITO PÚBLICO RESPONSABILIDADE OBJETIVA,
ATRAVÉS DA TEORIA DO RISCO ADMINISTRATIVO, PARA OS DANOS QUE SEUS
AGENTES, NESTA QUALIDADE, CAUSAREM A TERCEIROS (ART. 37, § 6°, CR/88).
PARA QUE DESPONTE O DEVER DE INDENIZAR DO ESTADO, BASTA QUE SE
COMPROVE O FATO, O DANO E O NEXO DE CAUSALIDADE. LAUDO PERICIAL
QUE CONFIRMA O ERRO NO ATENDIMENTO MÉDICO NO HOSPITAL DO
MUNICÍPIO DE CABO FRIO. A INDENIZAÇÃO DEVE OBSERVAR OS PRINCÍPIOS
DA RAZOABILIDADE E DA PROPORCIONALIDADE. ENTENDIMENTO DESTE E.
TRIBUNAL ACERCA DO TEMA. SENTENÇA QUE SE MANTÉM. RECURSOS
MANIFESTAMENTE IMPROCEDENTES. APLICAÇÃO DO ARTIGO 557, DO CPC
C/C ART. 31, INCISO VIII DO REGIMENTO INTERNO DESTE E. TRIBUNAL".
(APELAÇÃO / REEXAME NECESSÁRIO nº 0005861-85.2007.8.19.0011 - Rel.
CLEBER GHELFENSTEIN - DÉCIMA QUARTA CÂMARA CÍVEL - Data de
julgamento: 01/12/2010 - Data de publicação: 03/12/2010). 43. "INDENIZATÓRIA.
MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO. ERRO MÉDICO. RESPONSABILIDADE CIVIL
OBJETIVA DO ENTE FEDERATIVO. ART. 37, § 6º, DA CONSTITUIÇÃO DA
REPÚBLICA. NEXO DE CAUSALIDADE DEMONSTRADO. LAUDO PERICIAL
MÉDICO QUE DESTACA A OCORRÊNCIA DE DESCUIDO, MENOSPREZO DOS
PRECEITOS DE ORDEM E DESCASO NO TRATAMENTO DA PACIENTE.
HONORÁRIOS DE SUCUMBÊNCIA CORRETAMENTE ARBITRADOS NA FORMA
DO ART. 20, § 3º DO CPC. SENTENÇA DE PARCIAL PROCEDÊNCIA MANTIDA.
RECURSO AO QUAL SE NEGA PROVIMENTO. - Autora que recebeu alta no Hospital
Souza Aguiar, não obstante estar com os mesmos sintomas de fortes dores de cabeça
e expelindo líquido das narinas. - Quadro clínico que evidenciava a existência de fistula
liquórica craniana, cujo tratamento seria cirúrgico. - Laudo pericial que foi conclusivo
quanto à ocorrência de falha na prestação dos serviços de saúde. - Indenização por
danos morais arbitrada no valor de R$ 10.000,00 (dez mil Reais) que observa os
princípios da proporcionalidade e razoabilidade. - Sentença que se mantém. Recurso
ao qual se nega provimento." (APELAÇÃO / REEXAME NECESSÁRIO nº 0002270-
82.2006.8.19.0001 - Rel. Des. FLAVIA ROMANO DE REZENDE - VIGÉSIMA
CÂMARA CÍVEL - Data de julgamento: 20/03/2013 - Data de publicação: 01/04/2013).
44. Deste modo, ao contrário do alegado pelo Município, a sua responsabilidade é de
natureza objetiva, já que as provas produzidas nos autos demonstram de modo
irrefutável a atuação lesiva dos agentes a serviço da administração pública, que
cometeram evidente erro de diagnóstico e contribuíram para os inegáveis danos
morais suportados pela Autora. 45. Restou, portanto, evidenciada a existência de erro
de diagnóstico que resultou no dano moral suportado pela paciente, estando
caracterizada a culpa do funcionário do laboratório, ora denunciado, que prestava
serviço ao hospital conveniado ao Réu. 46. A responsabilidade do laboratório
Denunciado restou caracterizada, portanto, pelo erro no resultado do exame de
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sangue da Autora, já que o serviço prestado de forma indevida contribuiu


decisivamente para o diagnóstico errôneo da paciente no hospital mantido atualmente
pelo Réu. 47. Ultrapassada a questão sobre a responsabilidade civil do Réu
(Denunciante) e do Denunciado, passo a analisar os danos suportados pela Autora.
48. Com efeito, a Autora pretende obter indenização pelo dano moral que lhe foi
causado pelo erro de diagnóstico quando estava internada no nosocômio conveniado
ao Réu. 49. A indenização mede-se pela extensão do dano (art. 944, do Código Civil
de 2002). E não se pode negar que a Autora sofreu muito por ter sido diagnostica com
HIV, quando, na verdade, nunca esteve acometida desta grave doença. 50. É evidente
o abalo moral sofrido pela Autora, tendo em vista a dor que decorre naturalmente de
um diagnóstico errôneo, sofrimento que deverá acompanhá-la por muitos anos,
sobretudo porque era apenas uma adolescente e tinha acabado de sofrer um aborto
espontâneo quando soube que estava com vírus HIV, sem nunca ter estado, não
olvidando que sua imagem foi exposta negativamente, ainda que por terceira pessoa
estranha ao hospital, com reflexos até os dias atuais, devido a um erro do exame
laboratorial feito no hospital mantido pelo Réu. 51. No entanto, a quantificação da
indenização por dano moral tem o condão de amenizar o sofrimento do lesado e não
se admite que enseje um enriquecimento sem causa. Deve produzir um impacto
sancionador ao causador do mal, com o propósito de evitar que ele pratique
novamente aquela conduta. 52. Em sendo assim, dentro de critérios doutrinários e
jurisprudenciais, bem como com prudência e equidade, como justo valor da
indenização a quantia de R$ 30.000,00 (trinta mil reais). 53. Posto isso, JULGO
PROCEDENTE o pedido, para condenar o Réu/Denunciante ao pagamento da
quantia de R$ 30.000,00 (trinta mil reais) para a Autora, a título de indenização
por dano moral, corrigida monetariamente, pelo IPCA-E, a partir da data da
sentença (Súmula 97 do TJRJ), e acrescida de juros de mora, a contar da data
do evento danoso (Súmula 54, do STJ), pelo índice da remuneração básica e
juros da caderneta de poupança, conforme determinado pelo art. 1º-F da Lei
9.494/97, com a redação que lhe foi dada pela Lei 11.960/09 (Tema Repetitivo nº
810 do STF). 54. Condeno o Réu ao pagamento de honorários advocatícios de
sucumbência, devendo ser arbitrado na fase de liquidação de sentença, devendo
ser observado que o Município é isento do pagamento das custas e despesas
processuais, nos termos do art. 17, IX, da Lei Estadual nº. 3.350/99, bem como
da taxa judiciária, em razão da reciprocidade de isenção de tributos, nos termos
da Lei Complementar Municipal nº. 62 de 5/4/2005. 55. Condeno o Réu
(Denunciado) a ressarcir o Município-Réu (denunciante) pelo pagamento da
indenização e dos honorários de sucumbência devidos à Autora. 56. Condeno o
Réu/Denunciado ainda ao pagamento de honorários advocatícios de
sucumbência da lide secundária, no percentual de 10% sobre o valor da
indenização a ser ressarcida, além das custas e despesas processuais da
denunciação da lide. 57. Em consequência, JULGO EXTINTO O PROCESSO com
resolução do mérito, com fulcro no artigo 487, I, do CPC. 58. Publique-se e
intimem-se. (Grifou-se)

Embargos de declaração opostos pela autora (indexador 321),


acolhidos pelo juízo de primeira instância, da seguinte forma (indexador 821):

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“Acolho os Embargos firmados e, diante do que dispõe o art. 85 e seguintes, do CPC,


promovo a fixação de honorários em 10 % sobre o valor da condenação.
Anote-se.
Mantenho os demais termos do julgado. Intimem-se.”

Inconformada, a parte ré interpôs recurso de apelação (indexador 330),


requerendo a reforma da sentença, para que sejam julgados improcedentes os pedidos
autorais. Subsidiariamente, caso assim não se entenda, pugna pela redução do valor
arbitrado para a condenação por danos morais, assim como a redução do percentual
fixado para os honorários advocatícios ao patamar mínimo.

Certidão cartorária sobre a tempestividade e preparo do recurso


(indexador 336).

A autora apresentou contrarrazões, tempestivamente, conforme a


certidão de indexador 347.

O Ministério Público informou não ter interesse em oficiar no feito


(indexador 359).

É O RELATÓRIO

O recurso deve ser recebido e conhecido, eis que preenchidos os


requisitos de admissibilidade.

Trata-se de ação de responsabilidade civil, na qual a autora pretende a


condenação do réu no pagamento de verba indenizatória por dano moral, em razão do
erro de diagnóstico no seu exame de sangue, cujo resultado foi positivo para o vírus
HIV.

A matéria controvertida objeto do recurso, devolvida ao Tribunal para


conhecimento, cinge-se em verificar: (i) se houve falha na prestação de serviços pelo
hospital administrado pelo Município réu; (ii) dever de indenizar; (iii) quantum
indenizatório.

Segundo a narrativa da exordial, a autora afirma que em 29/07/2012,


com quinze anos de idade, deu entrada na Fundação Hospital Maternidade Santa
Therezinha, vinculado ao réu, em razão da ocorrência de aborto espontâneo,
permanecendo internada no hospital por três dias, para realização de exames e
permanência em observação médica.

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Prossegue afirmando que, após realizar exame de sangue, foi


informada pela enfermeira do hospital que era portadora do vírus HIV, tendo seu então
namorado, Igor, sido convocado para realizar o mesmo exame, que também teve
resultado positivo. Alega que, após os diagnósticos, foram orientados a iniciar o
tratamento com coquetel de medicamentos.

Aduz que procurou outro laboratório particular na cidade vizinha para


realizar novo exame de sangue, no qual o resultado foi negativo para HIV.

Aponta que, por negligência do réu, os resultados dos exames foram


divulgados, difundindo por toda a cidade a notícia de que a menor estava com o vírus
da AIDS.

Esclarece que, em razão do vazamento do diagnóstico do seu exame


de sangue, deu início a um procedimento administrativo junto ao réu, realizando uma
ficha de reclamação no dia 02/08/2012, protocolado sob o n° 00073412012, relatando o
ocorrido, cobrando do órgão a apuração do fato e providências.

Argumenta que o réu deixou de observar os protocolos e regras técnicas


exigidas pelo Ministério da Saúde para os casos de diagnóstico positivo para HIV, à
medida que “somente fora entregue pela Ré o resultado do exame anexo (LABOFEL
LABORATÓRIO DE ANÁLISES CLÍNICAS), realizado pelo laboratório conveniado à
instituição, no qual apenas consta "HIV POSITIVO", com a assinatura do responsável,
sem qualquer identificação ou informação mais detalhada. Porém os prepostos da Ré
foram categóricos ao afirmar que a Autora estaria infectada pelo vírus HIV.”

Finaliza apontando que “se a Ré tivesse adotado todos os Passos


obrigatórios, incluindo-se o Fluxograma, certamente, teria constatado, como
constataram os outros laboratórios, que a Autora não Possui o vírus HIV.”, restando
caracterizado os danos morais, não apenas pelo erro do diagnóstico, mas também pelo
vazamento das informações sigilosas, à medida que a parte ré não teria adotado as
determinações impostas pelo Ministério da Saúde.

OS pedidos autorais foram julgados procedentes, constando na


fundamentação da sentença, o seguinte:

“(...)

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É fato incontroverso também que a Autora foi diagnosticada erroneamente com o vírus
do HIV, com base em exame realizado pelo Denunciado Laboratório, durante sua
internação no hospital atualmente mantido pelo Réu/denunciante.
(...)
O próprio Réu reconhece a gravidade desse vazamento quando apurou o fato nos
autos do processo administrativo instaurado pela representante legal da Autora na
época dos fatos.
32. Entretanto, as provas produzidas nos autos não capazes de revelar o autor do
referido do vazamento. Há indícios de que alguém do hospital comunicou o fato de a
Autora estar com o vírus HIV a senhora Florisbela Rodrigues Ferro de Araújo,
conhecida como "Belinha", cujo paradeiro atual é desconhecido.
33. Portanto, não há como afirmar com convicção, com certeza, que o vazamento
partiu realmente de uma pessoa do hospital. Há indícios fortes, mas não há como
imputar a autoria do fato a alguém do hospital ou do laboratório que fez o exame de
sangue da Autora.
34. No entanto, é certo afirmar que o hospital não prestou atendimento médico
satisfatório à Autora, existindo, portanto, prova da existência de falha no serviço
médico prestado no Hospital atualmente mantido pelo Réu (erro de diagnóstico).
(...)
A responsabilidade do laboratório Denunciado restou caracterizada, portanto, pelo erro
no resultado do exame de sangue da Autora, já que o serviço prestado de forma
indevida contribuiu decisivamente para o diagnóstico errôneo da paciente no hospital
mantido atualmente pelo Réu.
(...)
50. É evidente o abalo moral sofrido pela Autora, tendo em vista a dor que decorre
naturalmente de um diagnóstico errôneo, sofrimento que deverá acompanhá-la por
muitos anos, sobretudo porque era apenas uma adolescente e tinha acabado de sofrer
um aborto espontâneo quando soube que estava com vírus HIV, sem nunca ter estado,
não olvidando que sua imagem foi exposta negativamente, ainda que por terceira
pessoa estranha ao hospital, com reflexos até os dias atuais, devido a um erro do
exame laboratorial feito no hospital mantido pelo Réu. 5
(...)
53. Posto isso, JULGO PROCEDENTE o pedido, para condenar o
Réu/Denunciante ao pagamento da quantia de R$ 30.000,00 (trinta mil reais) para
a Autora, a título de indenização por dano moral,
(...)”

Em suas razões de apelação, o Município réu afirma que não há nos


autos provas de atendimentos psicológicos da autora durante o período alegado, que
justifiquem o alegado dano moral.

Aduz que não restou demonstrado que o vazamento da informação


sobre o resultado do exame de sangue da autora efetivamente saiu do hospital,
afirmando que “não constam dos autos, elementos convincentes de que houve
realmente vazamento de informação sigilosa por parte de servidor ou de Preposto do
Laboratório contratado pela extinta FHMST.”
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Por fim, requer a redução do quantum indenizatório, para que seja fixado
segundos os critérios da razoabilidade e proporcionalidade.

De início, importante consignar que restou incontroverso nos autos que


o resultado do exame de sangue da autora, realizado no dia 29/07/2012, teve resultado
positivo para HIV, conforme abaixo demonstrado (indexador 22 – fl. 23):

Também incontroverso a ocorrência do vazamento das informações ora


sigilosas, conforme apurado no procedimento administrativo aberto junto ao hospital no
dia 02/08/2012, a pedido da demandante, onde restou consignado que “(...) a conclusão
que se chega é que houve vazamento de informação sigilosa (...)” e, muito embora
tenham concluído que não seria possível afirmar de onde teria partido o vazamento,
ressaltaram que “(...) é certo que a informação partiu de outro setor, provavelmente o de
enfermagem ou laboratório, ou até outro, mas o fato é que a ‘rede de fofoca’ teve início
bem antes de, supostamente, chegar na citada funcionária que trabalha na cozinha do
hospital e não teria acesso a tal informação sem que alguém lhe contasse (...)”, conforme
consta no indexador 22 – fls. 29 e 32 do referido procedimento, veja-se:

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No entanto, no que diz respeito ao vazamento do resultado do exame


de sangue da autora, apesar do Magistrado de primeiro grau ter afastado a
responsabilidade do hospital sobre esse fato, concluindo na sentença que “(...) Portanto,
não há como afirmar com convicção, com certeza, que o vazamento partiu realmente de
uma pessoa do hospital. (...)”, tal fundamento contradiz o que restou concluído no próprio
procedimento administrativo interno, que apenas entendeu que não ser possível afirmar
sobre a autoria da cozinheira, Sra. Denilde, deixando claro, contudo, que houve
vazamento de informação, partindo de algum setor, do próprio hospital.

Prosseguindo, em razão do resultado falso-positivo em seu primeiro


exame de sangue e, pela ausência de realização de exames complementares pelo
hospital administrado pelo réu, a demandante acreditou ser portadora de doença
incurável, situação que trouxe diversos transtornos, inclusive a seus familiares, até que
fosse feito novo exame que, destaque-se, somente foi realizado por conta própria, em
laboratório particular, no dia 31/07/2012, no qual obteve o resultado “não reagente” para
HIV, senão, vejamos (indexador 22 – fl. 24):

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Como se sabe, a responsabilidade civil é regida, in casu, pelo artigo 37,


§ 6º da CRFB, de modo que, em se tratando de responsabilidade objetiva, fica a parte
autora dispensada da comprovação da culpa, bastando trazer aos autos prova do dano
sofrido, da conduta comissiva/omissiva e do nexo de causalidade entre estes.

Logo, a sua responsabilidade apenas é afastada quando não se


vislumbra nexo de causalidade entre o prejuízo e a atividade, fato exclusivo da vítima,
de terceiro, caso fortuito ou força maior.

Ressalta-se, o esclarecimento da doutrina acerca do tema:

Em circunstâncias como tais, dispensa-se a demonstração do elemento subjetivo da


responsabilidade civil (culpa), impondo-se, tão somente, a prova do fato, do dano e do
nexo de causalidade entre aqueles, como esclarece Carvalho Filho: “A norma reforça
a sujeição do Poder Público à responsabilidade objetiva, tendo como fundamento a
teoria do risco administrativo, de modo que, se a União ou outra pessoa de sua
administração causarem qualquer tipo de dano no desempenho de tais atividades,
estarão inevitavelmente sujeitas ao dever de reparar os respectivos prejuízos através
de indenização, sem que possam trazer em sua defesa o argumento de que não houve
culpa no exercício da atividade. Haverá, pois, risco administrativo natural nas referidas
tarefas, assim, que o lesado comprove o fato, o dano e o nexo causal entre o fato e o
dano que sofreu” (Carvalho Filho, José dos Santos. Direito Administrativo).

Com efeito, com a finalidade de aumentar o grau de confiabilidade dos


resultados dos testes utilizados para a detecção de anticorpos Anti-HIV, por conta da
possibilidade da ocorrência de resultados falso-positivos ou falso-negativos, foi editada
pelo Ministério da Saúde a Portaria nº 488/1998, não se constatando das provas
coligidas nos autos, se houve o cumprimento pelo hospital administrado pelo réu de
todas as fases determinadas aos laboratórios, previstas na Portaria nº 59/2003 do MS.

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Registre-se, por oportuno que, de acordo com o protocolo definido na


referida Portaria, quando em um primeiro exame forem detectados anticorpos anti-HIV,
deverá o laboratório tomar uma das seguintes medidas: fazer um segundo exame, em
paralelo ao teste de Imunofluorescência ou confirmação através do teste de ‘Western
Blot’, o que não restou demonstrado no caso em análise. Veja-se (anexo II -
PROCEDIMENTOS SEQÜENCIADOS PARA DETECÇÃO DE ANTICORPOS ANTI-HIV
EM INDIVÍDUOS COM IDADE ACIMA DE DOIS ANOS)1:

“Todos os laboratórios que realizam testes para detecção de anticorpos anti-HIV para
o diagnóstico laboratorial deverão adotar, obrigatoriamente, a realização de um
imunoensaio, nesta primeira etapa de testes de qualquer amostra de soro ou plasma.
O imunoensaio utilizado não poderá ser de avaliação rápida (teste rápido) e deverá
ser capaz de detectar anticorpos anti-HIV-1 e antiHIV-2. A) as amostras não-
reagentes, terão seu resultado definido como “Amostra Negativa para HIV “; B) as
amostras reagentes ou inconclusivas devem ser submetidas: B.1) ao segundo
imunoensaio em paralelo ao teste de Imunofluorescência Indireta para HIV-1 ou ao
teste de Imunoblot para HIV. O segundo imunoensaio deverá ter princípio
metodológico e/ou antígenos distintos do primeiro imunoensaio utilizado. B.2)
diretamente ao teste de Western blot”

Desse modo, conclui-se que restou cabalmente comprovado que houve


um erro no primeiro exame de sangue realizado pela autora/apelada, com resultado
positivo para HIV, causando grande angústia e sofrimento, equívoco que somente se
desfez após a realização de outro exame, frise-se, por iniciativa e conta da própria
demandante.

Observe-se, ainda, que em razão da situação perpetrada, a autora teve


seu estado emocional alterado, já que a doença diagnosticada é grave e contagiosa,
sendo doença sexualmente transmissível.

Destarte, restou configurada a falha na prestação do serviço da parte


ré, não demonstrando que seus prepostos agiram de acordo com o protocolo definido
na referida Portaria do Ministério da Saúde, ônus que lhe cabia, a fim de afastar o nexo
de causalidade entre o dano experimentado pela autora e sua conduta.

Nesse passo, a conduta do réu ocasionou à autora inegável abalo,


sofrimento e apreensão, e a mera possibilidade de que o resultado do exame não
estabelece diagnóstico definitivo, não pode ser considerada idônea a afastar o nexo de
causalidade e atender aos procedimentos contidos na Portaria do Ministério da Saúde.

[Link]
0%C3%A1rea%20competente,no%20Anexo%20I%20desta%20Portaria.
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Nesse sentido, é o entendimento desta Corte sobre o tema:

APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO INDENIZATÓRIA - EXAME DE HIV - FALSO POSITIVO


- NECESSIDADE DE REALIZAR SEGUNDO EXAME PARA CONFIRMAÇÃO DO
RESULTADO - AUSÊNCIA DE INFORMAÇÃO CLARA E ADEQUADA AO
PACIENTE - ENCAMINHAMENTO EQUIVOCADO PARA TRATAMENTO SEM A
REALIZAÇÃO DE SEGUNDO EXAME - DESCUMPRIMENTO DO PROCEDIMENTO
OBRIGATÓRIO DETERMINADO PELO MINISTÉRIO DA SÁUDE - DANO MORAL
CONFIGURADO. - Para amostras com resultado definido como positivo o
Ministério da Saúde determina a obrigatoriedade em proceder a coleta de uma
segunda amostra e repetir a etapa de triagem sorológica, a fim de confirmar a
positividade da primeira amostra, preferencialmente em um intervalo de até 30
dias após a emissão do resultado referente à primeira amostra. - O laboratório
que emitiu o primeiro laudo deverá realizar a análise da segunda amostra para a
confirmação da positividade da primeira amostra. - Resultado da primeira amostra
liberado sem a ressalva, por escrito, de se tratar de resultado parcial. Paciente que ao
receber o primeiro laudo com falso positivo foi diretamente encaminhado para setor de
tratamento ao invés de ser orientado, esclarecido e encaminhado a fazer um segundo
exame.- Dano moral configurado. Conhecimento e provimento do recurso de apelação
para julgar procedente o pedido e fixar verba de dano moral. (AP 0071841-
30.2012.0002 - Des(a). CAETANO ERNESTO DA FONSECA COSTA - Julgamento:
19/09/2018 - SÉTIMA CÂMARA CÍVEL)

Quanto aos danos morais, no caso, estes não exsurgem apenas do erro
no resultado positivo para HIV, pois é possível a ocorrência de falso positivo, mas pela
omissão na informação e na ausência de procedimentos obrigatórios para confirmar a
positividade do exame, devendo ainda ser destacado o vazamento de informação
sigilosa, em cidade pequena, que expôs ainda mais a honra da demandante, que tinha
quinze anos à época dos fatos.

O dano moral, portanto, ocorreu in re ipsa, já que a falha inicial do


primeiro resultado causou obviamente situação de incerteza, sofrimento e angústia à
demandante, não se tratando de mero aborrecimento o diagnóstico de ser portadora do
vírus HIV, sem atender aos procedimentos e avisos determinados na norma atinente a
espécie, em clara violação ao direito de informação médico-paciente, sendo o nexo de
causalidade no presente caso, inquestionável.

Com relação ao quantum indenizatório, o juiz, ao arbitrá-lo, deve estimar


uma quantia que, de acordo com o seu prudente arbítrio, seja compatível com a
reprovabilidade da conduta ilícita, a intensidade e duração do sofrimento experimentado
pela vítima, dentre outras circunstâncias mais que se fizerem presentes.

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A matéria relativa à fixação da indenização por danos morais sujeita-se


à ponderação do magistrado, que deve avaliar as peculiaridades de cada caso concreto
e observar os critérios acima elencados.

O Superior Tribunal de Justiça bem ilustrou essa questão, quando do


julgamento do REsp 435119, assim:

Indenização. Danos morais. Critérios para indenização. Não há critérios


determinados para a quantificação do dano moral. Recomendável que o
arbitramento seja feito com moderação e atendendo às peculiaridades do caso
concreto. A indenização como tenho enfatizado em precedentes, deve ser
arbitrada em termos razoáveis, não se justificando que a reparação venha a
constituir-se em enriquecimento indevido, com manifestos abusos e exageros,
devendo o arbitramento operar-se com moderação, proporcionalmente ao grau
de culpa e à gravidade da lesão. A par destas considerações, tenho que a quantia
encontrada pelo acórdão impugnado não se mostra irrisória. (in RESP 435119 - Min.
Sálvio de Figueiredo Teixeira - DJ 29/10/2002). Grifou-se.

Nesse contexto, o valor da indenização deve ser mantido por dois


fundamentos: o primeiro, em razão do erro do laboratório no resultado do exame positivo
para o vírus HIV da autora, somado à inobservância dos procedimentos indicados pelo
Ministério da Saúde, conforme já reconhecido na sentença; e o segundo fundamento,
consistente no vazamento de informação sigilosa pelo hospital, agravado pelo fato da
paciente, à época, ser menor de idade.

Assim, a verba indenizatória a título de danos morais arbitrada pelo juízo


de primeiro grau em R$30.000,00 não merece ser modificada, eis que fixada em
consonância com os princípios da razoabilidade e proporcionalidade.

Quanto aos honorários advocatícios, a irresignação do município não


merece prosperar, eis que o percentual já foi fixado no patamar mínimo de 10%.

Por fim, tendo em vista o desprovimento do recurso da parte ré, nos


termos do art. 85, § 11, do CPC, o percentual dos honorários sucumbenciais devidos
em grau recursal ao advogado da parte autora deve ser majorado no percentual de 2%
(dois por cento) sobre o valor da condenação, que somados aos honorários fixados na
primeira instância, totalizam 12% (doze por cento) sobre a mesma base de cálculo.

Por tais razões e fundamentos, NEGA-SE PROVIMENTO AO


RECURSO, mantendo-se a sentença na sua integralidade, majorando-se os honorários
sucumbenciais devidos, em grau recursal, ao advogado da parte autora, no percentual
de 2% (dois por cento) sobre o valor da condenação.
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Rio de Janeiro, na data da assinatura digital.

Desembargador SÉRGIO SEABRA VARELLA


Relator

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