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Responsabilidade Civil do Município RJ

O Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro decidiu em uma apelação cível que o Município do Rio de Janeiro é responsável pela morte intrauterina de um filho devido a falhas na equipe médica durante a gestação de risco da mãe, resultando em uma condenação de R$ 400.000,00 por danos morais. Ambas as partes recorreram da decisão, mas o tribunal manteve a sentença, considerando a responsabilidade civil objetiva do município e a inadequação do pedido de pensionamento mensal. A remessa necessária foi considerada impertinente, pois a condenação não ultrapassou o limite de 500 salários mínimos.

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Responsabilidade Civil do Município RJ

O Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro decidiu em uma apelação cível que o Município do Rio de Janeiro é responsável pela morte intrauterina de um filho devido a falhas na equipe médica durante a gestação de risco da mãe, resultando em uma condenação de R$ 400.000,00 por danos morais. Ambas as partes recorreram da decisão, mas o tribunal manteve a sentença, considerando a responsabilidade civil objetiva do município e a inadequação do pedido de pensionamento mensal. A remessa necessária foi considerada impertinente, pois a condenação não ultrapassou o limite de 500 salários mínimos.

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686

PRIMEIRA CÂMARA DE DIREITO PRIVADO DO TRIBUNAL DE


JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Apelação Cível e Remessa Necessária n.º 0351500-68.2016.8.19.0001

Apelante I: MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO


Apelantes II: SIMONE BÁRBARA DA SILVA PAIXÃO e AUGUSTO CESAR
RODRIGUES DOS SANTOS
Apelados: OS MESMOS

Relatora: Des. Mônica Maria Costa

APELAÇÕES CÍVEIS E REMESSA NECESSÁRIA.


RESPONSABILIDADE CIVIL DO MUNICÍPIO DO RIO DE
JANEIRO. AÇÃO DE PROCEDIMENTO COMUM. GESTAÇÃO
DE RISCO. PRÉ-ECLÂMPSIA. INTERNAÇÃO. DEMORA NA
REALIZAÇÃO DO PARTO. ÓBITO INTRAÚTERO DO FILHO
DOS AUTORES. NASCIMENTO SEM VIDA. FALHA TÉCNICA
DA EQUIPE MÉDICA DO RÉU. PEDIDO DE
PENSIONAMENTO MENSAL E COMPENSAÇÃO POR DANOS
MORAIS. SENTENÇA DE PARCIAL PROCEDÊNCIA, QUE
FIXA A VERBA COMPENSATÓRIA EM R$ 400.000,00
(QUATROCENTOS MIL REAIS). IRRESIGNAÇÕES DE
AMBAS AS PARTES LITIGANTES. IMPERTINÊNCIA DA
REMESSA NECESSÁRIA. MANUTENÇÃO DA SENTENÇA.
CONHECIMENTO E DESPROVIMENTO DE AMBOS OS
RECURSOS.
1. Trata-se de 02 (duas) apelações cíveis e remessa
necessária a que foi submetida a sentença que, nos autos
de ação de procedimento comum, com pedido de
pensionamento mensal e compensação de danos morais
(500 – quinhentos – salários mínimos), julgou-o
parcialmente procedente, para condenar o réu, ora primeiro
apelante, (I) ao pagamento de verba compensatória fixada
em R$ 400.000,00 (quatrocentos mil reais), monetariamente
corrigida e acrescida de juros moratórios desde a
publicação do julgado, na forma do art. 1º-F da Lei Federal
n.º 9.494/1997, com a redação dada pela Lei Federal n.º
11.960/2009, observada a decisão proferida no RE n.º
870.947/SE (Tema n.º 810-STF); (II) a arcar com honorários
advocatícios arbitrados em 8% (oito por cento) do montante
condenatório, na forma do art. 85, § 3º, II, do Código de
Processo Civil; e (III) a recolher a Taxa Judiciária, isentando-
o, contudo, das custas processuais.

Assinado em 29/11/2023 09:06:30


MONICA MARIA COSTA DI PIERO:29835 Local: GAB. DES(A). MONICA MARIA COSTA DI PIERO
687

2. Impertinência da Remessa Necessária (art. 496, § 3º, II, do


Código de Processo Civil). Condenação que não ultrapassa
500 (quinhentos) salários mínimos.
3. No tocante aos recursos voluntários, tem-se conhecida
matéria na órbita da responsabilidade civil dos entes
federativos, que é objetiva, em razão do art. 37, § 6º, da
Constituição da República.
4. Laudo pericial, elaborado por médico ginecologista-
obstetra e essencial em hipótese como a presente, que
sequer foi impugnado pelo demandado (primeiro apelante),
embora regularmente intimado a se manifestar, categórico
no sentido de concluir pela falha da equipe médica na
condução da gestação da 1ª autora durante sua internação,
uma vez que não foram observadas as diretrizes do
Ministério da Saúde e da FEBRASGO para atendimento da
pré-eclâmpsia grave apresentado, e que aumentou o risco
de ocorrência do quadro de descolamento prematuro da
placenta que levou ao óbito intraútero do seu filho.
5. Detalhamento da conduta inadequada dos agentes
municipais diante do sensível quadro clínico vivenciado
pela gestante (1ª demandante), que exigia cuidados médicos
já desde o pré-natal, por se tratar de gravidez de risco, e a
antecipação do parto.
6. Responsabilidade civil do Município réu (primeiro
apelante) configurada, do que exsurge a obrigação de
reparar o dano extrapatrimonial vivenciado pelos
litisconsortes ativos (segundos apelantes), que ocorre in re
ipsa.
7. Quantificação condizente com os critérios de
proporcionalidade e razoabilidade, daí porque aplicável a
Súmula n.º 343-TJRJ. Precedente desta egrégia Primeira
Câmara de Direito Privado (Apelação Cível n.º 0013382-
40.2014.8.19.0204). Rechaço da alegação de enriquecimento
sem causa (art. 884 do Código Civil), sempre lembrando que
o dano moral não se consubstancia apenas no aspecto
compensatório, mas também nos aspectos punitivo e
pedagógico, certo que condenações de pouca expressão
não contribuem para o aperfeiçoamento das relações entre
o Estado (em sentido lato) e a população, sobretudo e baixa
renda e carente de adequado e eficiente serviço público de
saúde.
8. Pensionamento mensal descabido. Fundamento em
situação incerta e futura, meramente hipotética, porque
apenas presumida a contribuição que o filho prestaria ao
sustento familiar. O ordenamento jurídico pátrio não admite
a reparação, aqui sob a ótica material, sem a caracterização
de um prejuízo econômico, em caráter puramente hipotético
688

ou presumido. Jurisprudência desta egrégia Corte de


Justiça Estadual. Inaplicabilidade da Súmula n.º 491-STF e
Súmula n.º 215-TJRJ ao caso concreto, porquanto não se
trata aqui de morte de filho adolescente, menor de idade,
com condições de exercer atividade laborativa em prol do
núcleo familiar de baixa renda, ou que teve sua capacidade
reduzida, tudo como decorrência de ato ilícito do Poder
Público, mas, sim, de feto que sequer chegou a nascer com
vida.
9. É corolário da manutenção do capítulo sentencial que
julgou improcedente o pedido de pensionamento mensal a
preservação da base de cálculo dos honorários
advocatícios, qual seja, o valor da condenação a título de
danos morais, não havendo, portanto, falar-se em incidência
sobre parcelas vencidas e vincendas.
10. Taxa Judiciária devida pelo Município. Isenção apenas
quando age na posição processual de autor, desde que
comprove que concedeu a isenção recíproca de que trata o
parágrafo único do art. 115 do Código Tributário Estadual, o
que não é a hipótese dos autos. Incidência do Enunciado n.º
42 do Fundo Especial do Tribunal de Justiça (F.E.T.J.).
Aplicação da Súmula n.º 145-TJRJ.
11. Impositivo de manutenção da sentença definitiva.
12. Remessa Necessária não conhecida. Apelações Cíveis
conhecidas e, no mérito, desprovidas.

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação Cível e


Remessa Necessária n.º 0351500-68.2016.8.19.0001, em que é primeiro
apelante MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO, figuram como segundos
apelados SIMONE BÁRBARA DA SILVA PAIXÃO e AUGUSTO CESAR
RODRIGUES DOS SANTOS, e são apelados OS MESMOS,

Acordam os Desembargadores que integram a Primeira Câmara


de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, por
unanimidade de votos, em não conhecer da remessa necessária,
conhecer de ambas as apelações e, no mérito, desprovê-las, nos termos
do voto da Relatora.

VOTO

Trata-se de 02 (duas) apelações cíveis e remessa necessária a


que foi submetida a sentença de fls. 540 a 545 (indexador n.º 540), retificada
689

pelo parcial provimento de embargos de declaração (fls. 609, mesma pasta),


que, nos autos da ação de procedimento comum, ajuizada por SIMONE BÁRBARA
DA SILVA PAIXÃO e AUGUSTO CESAR RODRIGUES DOS SANTOS, em face do
MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO, com pedido de pensionamento mensal e
compensação por danos morais (500 – quinhentos – salários mínimos), julgou-o
parcialmente procedente, para condenar o réu (I) ao pagamento de verba
compensatória fixada em R$ 400.000,00 (quatrocentos mil reais),
monetariamente corrigida e acrescida de juros moratórios desde a publicação
do julgado, na forma do art. 1º-F da Lei Federal n.º 9.494/1997, com a redação
dada pela Lei Federal n.º 11.960/2009, observada a decisão proferida no RE n.º
870.947/SE (Tema n.º 810-STF); (II) a arcar com honorários advocatícios
arbitrados em 8% (oito por cento) do montante condenatório, na forma do art.
85, § 3º, II, do Código de Processo Civil; e (III) a recolher a Taxa Judiciária,
isentando-o, contudo, das custas processuais.

Como causa de pedir a prestação jurisdicional, alegaram os


litisconsortes ativos, em suma, que a primeira autora deu entrada no Hospital
Ronaldo Gazolla, aos 19/10/2015, com 39 (trinta e nove) semanas de gestação e
com hipertensão arterial, foi mantida em observação por 07 (sete) dias e, aos
26/10/2015, após a realização de exames de ultrassonografia, detectou-se a
ausência de batimento cardiofetal, no que foi realizada cesariana em caráter de
urgência, mas o feto foi retirado já sem vida. Imputam, pois, negligência aos
agentes públicos municipais, sobretudo porque havia quadro de pré-natal de risco,
e sustentam que o falecimento do filho é consequência da demora na realização da
cesariana.

Inconformado, apela o Município réu (razões de fls. 565 a 574,


indexador n.º 565, reiterada às fls. 616, mesma pasta), alegando ser a atividade
médica obrigação de meio, não de resultado, e que foram adotados os
procedimentos médicos pertinentes e recomendados no atendimento à gestante (1ª
demandante), inexistindo, pois, erro médico mesmo diante da perícia realizada nos
autos do processo eletrônico, cujo laudo técnico diz contrastar com o elaborado por
perita municipal e, ainda, com a prova documental produzida.

E afirma, caso mantido hígido o nexo de causalidade, que a verba


compensatória foi fixada de forma exorbitante, a favorecer o enriquecimento sem
causa, daí porque, com apoio nos arts. 884, 927 e 944, do Código Civil, defende
impositiva a redução.

Por derradeiro, advoga fazer jus à isenção do recolhimento de Taxa


Judiciária, por força da reciprocidade entre ele, Município do Rio de Janeiro, e o
Estado do Rio de Janeiro, prevista na Lei Municipal n.º 5.261/2011, da aplicação do
art. 10, X, c/c art. 17, IX, da Lei Estadual n.º 3.350/1999, bem como de precedentes
desta egrégia Corte de Justiça que entende pertinentes à hipótese.

Firme nesses argumentos, pugna pelo provimento da insurgência,


tendo como consequência a reforma da sentença, pela improcedência integral do
690

pedido ou, subsidiariamente, pela redução da verba compensatória e


reconhecimento de sua isenção no tocante ao recolhimento do tributo.

Parcialmente irresignados, apelam os demandantes (razões de fls.


619 a 625, indexador n.º 619), aduzindo, com base na Súmula n.º 491-STF, Súmula
n.º 215-TJRJ e em precedentes do colendo Superior Tribunal de Justiça, que é
devido pensionamento mensal aos pais de família de baixa renda em decorrência
da morte de filho menor, independentemente do exercício de trabalho remunerado
pela vítima, na ordem de 01 (um) salário mínimo, devendo o marco inicial ser fixado
desde a data em que o falecido completaria 14 (quatorze) anos, até a data em que
atingiria a idade de 70 (setenta) anos.

Entendem também que a verba advocatícia deve ser arbitrada com


observância dos valores fixados a título de pensionamento mensal, ou seja, sobre
as parcelas vencidas e 01 (um) ano das vincendas.

Calcados nesses argumentos, querem a reforma parcial do julgado,


com o acolhimento do que pleiteiam em grau recursal.

As contrarrazões ao primeiro apelo estão às fls. 582 a 585 (indexador


n.º 582), enquanto o segundo foi contra-arrazoado às fls. 632 a 635 (pasta n.º 632).

Ambos os recursos são tempestivos e isentos de preparo, certo que os


litisconsortes ativos são beneficiários da gratuidade judiciária (cf. certidões de fls.
575 e fls. 627, mesmos indexadores, respectivamente).

É o relatório.

De plano, ao invés do determinado pelo MM. Juiz, não há falar-se em


remessa necessária, porquanto, sob a regência do Código de Processo Civil (art.
496, § 3º, II), não se submete a tal instituto a sentença condenatória de capital de
Estado a pagar quantia inferior a 500 (quinhentos) salários mínimos, hoje
equivalentes a R$ 651.000,00 (seiscentos e cinquenta e um mil reais) e, à época de
prolação do julgado, a R$ 606.000 (seiscentos e seis mil reais).

No caso concreto, o somatório da condenação do Município do Rio de


Janeiro (danos morais e honorários advocatícios) não ultrapassa o limite
supracitado, de modo que descabe observar a condição de eficácia da sentença,
em que se erige o duplo grau obrigatório de jurisdição.

Já quanto aos recursos voluntários, ambos preenchem os requisitos


extrínsecos e intrínsecos de admissibilidade.

Circa meritis, tem-se conhecida matéria na órbita da responsabilidade


civil dos entes federativos, que é objetiva, em razão do art. 37, § 6º, da Constituição
da República, por isso que independe de investigação de culpa, importando, assim,
perquirir a existência, ou não, de ato omissivo ou comissivo praticado pela Pública
691

Administração, bem como analisar o nexo de causalidade, para se chegar à


conclusão pelo acerto, ou não, da condenação do Município.

Em que pesem os esforços argumentativos do réu, ora primeiro


apelante, no sentido de que a atividade médica não é obrigação de resultado, mas
de meio, e que adotou todos os procedimentos médicos pertinentes e
recomendados no atendimento à gestante (1ª autora), a reanálise do conjunto
probatório leva a mesma conclusão de que houve erro médico, que poderia ter sido
evitado para garantir o nascimento com vida do filho dos litisconsortes passivos, ora
segundos apelantes.

O laudo pericial (fls. 496 a 510, indexador n.º 496), elaborado por
médico ginecologista-obstetra e essencial em hipóteses como a presente, que
sequer foi impugnado pelo demandado (v. certidão de fls. 521, mesma pasta),
embora regularmente intimado a se manifestar (v. certidão de fls. 515, mesmo
índice eletrônico), é categórico ao concluir que:

“Houve falha técnica da equipe médica do réu na condução a


gestação da autora durante a sua internação, uma vez que não foram
observadas as diretrizes do Ministério da Saúde e da FEBRASGO para
atendimento da pré-eclâmpsia grave, quadro apresentado pela autora,
e que aumentou o risco de ocorrência do quadro de descolamento
prematuro da placenta que levou ao óbito intraútero do seu filho.”
(literalmente, fls. 504, indexador n.º 496)

Confiram-se, ainda, os seguintes excertos desse mesmo laudo


técnico, com destaque para a documentação existente nos autos do processo
eletrônico, onde salta aos olhos o detalhamento da conduta inadequada dos
agentes municipais diante do sensível quadro clínico vivenciado pela gestante (1ª
demandante), que exigia cuidados médicos já desde o pré-natal e a antecipação do
parto:

“Da leitura da documentação médica acostada aos autos, temos


que a autora, que se encontrava em sua 1ª gestação, já apresentava,
desde a sua 1ª consulta de pré-natal realizada na primeira metade de
sua gravidez, elevação dos níveis tensionais. Portanto, a autora era
uma paciente portadora de Hipertensão Arterial Crônica (HAC). Por
conta disso, foi prescrito o anti-hipertensivo Metildopa no pré-natal,
que evolui sem alterações.
No dia 19/10/2015, a autora deu entrada no Hospital Municipal
Ronaldo Gazolla, com elevação da pressão arterial (150 x 90 mmHg), e
fora do trabalho de parto. Contava naquela data com 37 semanas e 6
dias de idade gestacional, calculada com base na 1ª ultrassonografia
obstétrica, realizada em 14/04/21015, que evidenciou gestação com 11
semanas de evolução.
Durante sua internação, restou comprovada a elevação persistente
da pressão arterial da autora. Considerando que a autora era portadora
de HAC e que o exame de proteinúria de 24 horas evidenciou
proteinúria de 510 mg em 24 horas, temos que o diagnóstico era de
Hipertensão Arterial Crônica com Pré-eclâmpsia Sobreposta.
A pré-eclâmpsia pode ser dividida em leve e grave, e o seu
tratamento definitivo é o parto. Saber a hora de indicar a antecipação
692

do parto é crucial para o obstetra, que deve levar em conta fatores


maternos, tais como a gravidade de hipertensão arterial, alteração dos
exames laboratoriais, presença ou não de sintomas etc., e/ou fetais,
principalmente a idade gestacional e a presença ou não de indicadores
de sofrimento fetal crônico. Um dos sinais de pré-eclâmpsia grave é a
elevação da pressão arterial a níveis iguais ou superiores a 160 x 110
mmHg. Caso se diagnostique pré-eclâmpsia grave e a idade
gestacional seja superior a 34 semanas, está indicada a antecipação
do parto.
No caso em apreciação, temos que a autora se encontrava com uma
gestação a termo (acima de 37 semanas) e que a elevação dos seus
níveis tensionais, por diversas vezes atingiu os valores iguais ou
superiores a 160 x 110 mmHg, sendo este um dos critérios de
gravidade para pré-eclâmpsia. Frente a uma gestação a termo com
diagnóstico de pré-eclâmpsia grave, se impõe a antecipação do parto,
que deverá ser realizado por cesariana, caso haja contraindicações
para o parto vaginal. Essa é a recomendação não somente do
Ministério da Saúde, mas também da Federação Brasileira das
Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO).
Apesar de já apresentar indicação para antecipação do parto no dia
20/10/2015, quando a autora teve a pressão arterial aferida em 160 x
120 mmHg, a cesariana só ocorreu em 26/10/2010, após a constatação
do óbito fetal. A autora chegou a ter a pressão arterial aferida em 190 x
130 mmHg em 23/10/2015, sem que nada fosse feito.
O feto da autora nasceu morto, macerado e banhado em mecônio
espesso, sinais que a morte teria ocorrido há pelo menos de 48 horas,
o que se coaduna com o fato de que, no dia 25/10/2015 a médica não
ter conseguido auscultar os batimentos cardiofetais (BCF). Embora
haja uma ressalva no prontuário dizendo que ela conseguiu auscultar
os BCF posteriormente, provavelmente, ela se enganou. Em todo caso,
tal fato tem pouca importância no caso ora em análise.
Na face materna da placenta foi encontrado um hematoma, ou seja,
houve um descolamento placentário, quadro associado às síndromes
hipertensivas na gravidez.
Quando a placenta de descola do útero, as trocas gasosas que
ocorrem entre a mãe e o feto são prejudicadas e, em alguns casos,
ocorre o óbito fetal por anóxia intrauterina, ou seja, falta de oxigênio
dentro do útero. Foi o que ocorreu com o filho da autora.
Embora não haja descrição do tamanho do hematoma, tampouco a
autora tenha apresentado sinais clínicos de descolamento prematuro
da placenta, certamente foi este a causa do óbito fetal intraútero. Ao
que tudo indica, deveria ser pequeno para não dar sintomas e deve ter
surgido durante um dos vários picos hipertensivos apresentados da
autora. Os achados no exame histopatológico mostram que o óbito
não se deu de forma aguda, mas lenta, com o feto submetido à hipóxia
persistente.
Dessa forma, não encontro nenhuma justificativa para a não
interrupção da gestação da autora, seja por parto normal induzido ou
por cesariana, quando do seu primeiro pico hipertensivo de 160 x 120
mmHg em 20/10/2015. O feto já estava a termo e uma doença materna
já se mostrava presente. A autora ficou dias internada, fazendo picos
hipertensivos, o que aumentou o risco de ocorrência do descolamento
da placenta, o que acabou acontecendo.
Se o parto da autora tivesse sido induzido no dia 20/10/2015 ou
tivesse sido realizada uma cesariana naquela data, o óbito fetal poderia
ter sido evitado.” (literalmente, fls. 501 a 504, indexador n.º 496)
693

Sob tais aspectos, acertadamente decidida a responsabilidade civil do


Município, ora primeiro apelante, do que exsurge a obrigação de compensar o dano
extrapatrimonial vivenciado pelos litisconsortes ativos, ora segundos apelantes, que
ocorre in re ipsa, ou seja, prescinde de toda e qualquer comprovação, despiciendo
qualquer esforço cognitivo para reconhecer o sofrimento dos pais diante do
nascimento de filho vítima de óbito fetal intraútero.

No tocante à verba compensatória, tem-se a sua quantificação (R$


400.000,00 – quatrocentos mil reais) condizente com os critérios de
proporcionalidade e razoabilidade, daí porque aplicável a com a Súmula n.º 343-
TJRJ, cujo Verbete é no seguinte estilo:

“A verba indenizatória do dano moral somente será modificada se


não atendidos pela sentença os princípios da proporcionalidade e da
razoabilidade na fixação do valor da condenação.”

Ademais, tal cifra é exatamente igual ao quantitativo fixado por esta


este egrégio Colegiado quando do julgamento da Apelação Cível n.º 0013382-
40.2014.8.19.0204, aos 26/10/2021, e não se caracteriza como “fonte de lucro” para
os segundos apelantes (autores), porquanto o erro médico não pode gerar lucro
para o Estado (em sentido lato), que nada quer compensar ou que pretende reduzir
para expressão irrisória a verba arbitrada.

Rechaça-se a alegação de enriquecimento sem causa (art. 884 do


Código Civil), sempre lembrando que o dano moral não se consubstancia apenas
no aspecto compensatório, mas também nos aspectos punitivo e pedagógico, certo
que condenações de pouca expressão não contribuem para o aperfeiçoamento das
relações entre o Estado (novamente, em sentido lato) e a população, sobretudo de
baixa renda e carente de adequado e eficiente serviço público de saúde.

Passando-se ao pensionamento mensal, cuja pretensão autoral foi


julgada improcedente, cumpre corroborar a sentença na qual consta consignado
que “(...) os autores possuem meras expectativas, sendo certo que não é
possível supor que quando maior, o natimorto iria auferir renda ou mesmo
ajudar no sustento da família, sendo certo que até lá, os gastos seriam dos
pais, ora Autores.” (literalmente, fls. 544, indexador n.º 540).

Com efeito, esse pensionamento tem por fundamento situação incerta


e futura, meramente hipotética, porque apenas presumida a contribuição que o filho
prestaria ao sustento familiar. O ordenamento jurídico pátrio não admite a
reparação, aqui sob a ótica material, sem a caracterização de um prejuízo
econômico, em caráter puramente hipotético ou presumido.

São no mesmo sentido os ilustrativos precedentes desta egrégia Corte


de Justiça Estadual, a saber:
694

“DIREITO ADMINISTRATIVO. RESPONSABILIDADE CIVIL. FALHA NA


PRESTAÇÃO DE SERVIÇO MÉDICO. GRAVIDEZ DE RISCO. ÓBITO DO
FETO. Ação indenizatória proposta em razão de falha no atendimento
médico. Sentença de parcial procedência. Apelo de ambas as partes. 1.
Hipótese de responsabilidade civil objetiva, baseada na Teoria do
Risco Administrativo, atraindo a aplicação da norma contida no artigo
37, § 6º, da Constituição da República. 2. Para que se configure o dever
de indenizar, é preciso que haja conduta ilícita de quem se imputa
responsabilidade, sem o que não se estabelece o nexo causal. 3.
Constatação de falha na prestação de serviço. Laudo pericial
conclusivo no sentido de que deveria ter sido realizado exame
fundamental para análise da saúde fetal, bem como encaminhada a
autora para hospital com melhor estrutura. 4. Verba indenizatória que,
fixada em valor próximo ao que a jurisprudência comina para casos
semelhantes, não deve ser modificada. 5. Dano material em razão do
sepultamento que, embora não tenha sido comprovado nos autos, se
presume, visto que ninguém fica insepulto. Enunciado nº 107 do Aviso
TJ/RJ n° 52/11. 6. Tratando-se de relação extracontratual, os juros de
mora devem incidir a partir da data do evento danoso (verbete sumular
nº 54 do STJ). 7. Pensionamento indevido, visto que se trata de mera
expectativa acerca da contribuição financeira que a criança prestaria à
família. Dano hipotético. 8. Honorários sucumbenciais que foram
corretamente fixados, eis que se trata de verba indenizatória em
parcela única. 9. Primeiro recurso parcialmente provido. Negado
provimento ao segundo.” (Apelação Cível n.º 0258955-
42.2017.8.19.0001. Quinta Câmara Cível. Rel. Des. PAULO WUNDER DE
ALENCAR. Julgado em 05/07/2022. Publicado em 08/07/2022)

“APELAÇÃO CÍVEL. DIREITO CIVIL. RESPONSABILIDADE CIVIL.


PERDA DE UMA CHANCE. DEMORA NA AUTORIZAÇÃO PARA
CIRURGIA. ÓBITO DA MENOR. DANO MORAL CONFIGURADO. 1.
Inexistência de vício na sentença, considerando que admitido pelo
Código de Processo Civil de 1973 o pedido genérico de dano moral.
Alteração legislativa superveniente que não pode atingir os autores. 2.
Nulidade da sentença inocorrente, eis que não se pode confundir o
pedido de indenização por dano moral com o valor atribuído à causa.
Não ocorrência de julgamento ultra petita. 3. Parto realizado sendo que
a neonata sofria de hipoplasia de cavidade esquerda. Necessidade de
se submeter a cirurgia de "Norwood". Prova pericial que atestou a
necessidade da cirurgia em até 7 dias após o nascimento. Ausência de
autorização do plano de saúde. Perda de uma chance caracterizada. 4.
Elementos da responsabilidade presentes, considerando os
documentos carreados aos autos, eis que solicitada a transferência
para nosocômio apto a realização da cirurgia. Inteligência dos verbetes
sumulares 211 e 339do TJRJ. 5. Procedimento de urgência que é
coberto nos termos da Lei, não podendo se falar em ausência de
cobertura. 6. Ausência de responsabilidade do nosocômio,
considerando que o mesmo adotou todos os procedimentos
necessários a transferência da menor. 7. Dano moral configurado e
verba fixada de forma razoável e proporcional, inclusive com
precedentes do E. STJ. 8. Pensionamento que não se mostra devido.
Entendimento jurisprudencial acerca da impossibilidade de arcar com
o pagamento de pensão quando se trata de vítima menor que não
exercia atividade laboral. Dano hipotético. 8. Despesas com funeral
que não exige comprovação, diante da certeza do sepultamento. 9.
Termo inicial dos juros que é a contar da citação, eis que se trata de
695

responsabilidade contratual, nos termos do artigo 405 do CC/2002.


Correção monetária que deve incidir a contar do arbitramento, nos
termos do verbete sumular 362 do STJ. Recursos conhecidos, sendo
improvido o primeiro, provido parcialmente o segundo e provido o
terceiro, nos termos do voto do Desembargador Relator.” (Apelação
Cível n.º 0399282-13.2012.8.19.0001. Décima Segunda Câmara Cível.
Rel. Des. CHERUBIN HELCIAS SCHWARTZ JÚNIOR. Julgado
12/04/2022. Publicado em 19/04/2022)

“APELAÇÃO CÍVEL. APELAÇÃO/REEXAME NECESSÁRIO. ALEGAÇÃO


DE ERRO MÉDICO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. ÓBITO DE
NASCITURO NAS DEPENDÊNCIAS DE HOSPITAL PÚBLICO.
COMPROVAÇÃO DO NEXO CAUSAL ENTRE A CONDUTA DOS
PROFISISONAIS E O DANO SUPORTADO. DANO MORAL. VALOR
MANTIDO. PENSIONAMENTO DEVIDO. Ação indenizatória de danos
materiais e morais decorrentes de defeito no atendimento médico-
hospitalar prestado à autora, o que resultou no óbito do feto que
esperava. Na seara da responsabilidade civil relacionada à
Administração Pública, prevalece em nosso ordenamento jurídico, por
força da norma constitucional prevista no art.37, §6º, a teoria objetiva,
consoante a qual basta simples comprovação do fato administrativo
(conduta comissiva ou omissiva) e da relação de causalidade entre
esse e o dano suportado para que se configure a responsabilidade dos
entes. Prova pericial conclusiva no sentido da existência de falha no
atendimento médico prestado à autora, vez que a demora na decisão
de intervir e realizar o parto cesariana, aliado à ausência de
monitoração contínua da gestante, influenciaram e contribuíram para o
óbito do feto ainda no ventre materno. Município réu, que não se
desincumbiu de seu ônus probatório, deixando de demonstrar a
ocorrência de causas excludentes de sua responsabilidade, razão por
que não há como afastar a conclusão a que chegou o laudo pericial
realizado por médico de confiança do juízo e sob o crivo do
contraditório. Dano moral plenamente configurado na espécie, haja
vista o abalo psicológico decorrente da angústia e sofrimento
experimentados pela mãe, em razão da morte de seu filho, inclusive da
frustação de sua expectativa de dar à luz uma criança saudável.
Majoração da verba compensatória dos danos morais, segundo os
princípios constitucionais da proporcionalidade e da razoabilidade.
Manutenção da improcedência do pedido de pensionamento. Sem a
caracterização de um prejuízo econômico, tampouco expectativa de
futura contribuição de renda no sustento da família, considerado
tratar-se de natimorto. Sucumbência do demandado, em sede recursal,
que impõe a majoração dos honorários advocatícios, na forma do §11,
do artigo 85, do Código de Processo Civil, de 2015. Parcial provimento
do recurso da autora e desprovimento do apelo do réu.” (Apelação
Cível n.º 0251812-36.2016.8.19.0001. Vigésima Primeira Câmara Cível.
Rel. Des. DENISE LEVY TREDLER. Julgado em 23/10/2018. Publicado
em 26/11/2018)

“APELAÇÃO CÍVEL. INDENIZATÓRIA. MORTE DE FETO EM CIRURGIA


CESARIANA. CAUSA MORTIS NÃO ESCLARECIDA. CERCEAMENTO
DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. RESPONSABILIDADE DA POLICLÍNICA
RÉ AFASTADA. RESPONSABILIDADE CIVIL DO ENTE MUNICIPAL.
FALHA NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO. TRATAMENTO INADEQUADO.
DESÍDIA. COMPROVAÇÃO. DESPESAS MÉDICAS NÃO
DEMONSTRADAS. PENSIONAMENTO MENSAL. DESCABIMENTO.
696

DANO MORAL CONFIGURADO. PROVIMENTO PARCIAL DO


RECURSO. 1. Trata-se de ação de responsabilidade civil objetivando
os autores a condenação dos réus à indenização por danos materiais e
morais diante da desídia no atendimento médico prestado quando da
realização de parto, que resultou na morte de feto, sem que tenha sido
esclarecida a causa do óbito. 2. Preliminar de cerceamento de defesa
rejeitada, uma vez configurado o fenômeno da preclusão, por ausência
de recurso em face da decisão saneadora. 3. Responsabilidade da
segunda ré afastada por estar enquadrada no Nível I de atendimento,
destinando-se apenas ao atendimento a paciente de baixo risco,
procedendo, assim, corretamente ao encaminhar a segunda autora à
unidade hospitalar municipal adequada. 4. Em que pese o laudo
pericial inconclusivo no tocante a causa mortis, as provas colhidas
nos autos evidenciam a desídia no serviço prestado à segunda autora
pelo hospital público municipal, já que apresentava quadro clínico com
risco elevado de parto prematuro, não recebendo atendimento
compatível com tal risco. 5. Conjunto probatório que evidencia falha na
prestação do serviço pelo município réu, notadamente pela ausência
de informações devidas sobre o diagnóstico da causa mortis do feto e
em razão da negligência em realizar exames necessários para a
avaliação correta do estado de saúde da gestante e do feto. 6. A
constatação pericial de informações médicas conflitantes, de um lado
indicando feto com maceração, que evidencia óbito 48 horas antes do
parto, e, do outro, a realização de manobras de reanimação do feto,
que portanto teria nascido com vida, o que é compatível com os
batimentos e movimentos fetais verificados no último exame antes do
parto, faz pressupor o propósito de ocultar a verdadeira causa do óbito
e robustece a ideia de que, no mínimo, ocorreu grave desídia por parte
dos médicos da unidade hospitalar municipal. 7. Uma vez configurados
o fato, o evento danoso e o nexo de causalidade, bem como o atuar
negligente dos agentes públicos de saúde, ocorre a obrigação de
indenizar. 8. Despesas médicas não comprovadas. 9. Não é possível
acolher a pretensão quanto aos lucros cessantes, na modalidade de
pensionamento mensal, por não ser possível que o feto, se viável,
contribuiria para a composição da renda familiar. 10. Dano moral
configurado, tendo em vista a dor imensurável e a tristeza dos pais,
que após meses de gestação, deixam de vivenciar o nascimento do
filho, ensejando, assim, a responsabilidade indenizatória do município
réu. 11. Incidência de juros de mora no percentual de 1% ao mês, a
contar da citação até a vigência da Lei nº 11.960/09, que alterou a
redação do art. 1º-F da Lei nº 9.494/97. 12. A correção monetária deve
incidir a contar do presente julgado, de acordo com a Súmula 97 deste
Tribunal e da Súmula 362 do Superior Tribunal de Justiça. 13.
Sucumbência recíproca induvidosa. 14. Provimento parcial do
recurso.” (Apelação Cível n.º 0142522-82.1999.8.19.0001. Décima
Sétima Câmara Cível. Rel. Des. ELTON MARTINEZ CARVALHO LEME.
Julgado em 08/10/2014. Publicado em 13/10/2014)

Não se desconhece das orientações jurisprudenciais sedimentadas na


Súmula n.º 491-STF (“É indenizável o acidente que cause a morte de filho
menor, ainda que não exerça trabalho remunerado.”) e na Súmula n.º 215-TJRJ
(“A falta de prova da renda auferida pela vítima antes do evento danoso não
impede o reconhecimento do direito a pensionamento, adotando-se como
parâmetro um salário mínimo mensal.”), mas deixa-se de aplicá-las ao caso
concreto, pois aqui não se trata de morte de filho adolescente, menor de idade, com
697

condições de exercer atividade laborativa em prol do núcleo familiar de baixa renda,


ou que teve sua capacidade reduzida, tudo como decorrência de ato ilícito do Poder
Público, mas, sim, de bebê natimorto, de feto que sequer chegou a nascer com
vida.

É corolário da manutenção do capítulo sentencial que julgou


improcedente o pedido de pensionamento mensal a preservação da base de cálculo
dos honorários advocatícios, qual seja, o valor da condenação a título de danos
morais, não havendo, portanto, falar-se em incidência sobre parcelas vencidas e
vincendas.

Por derradeiro, no que se refere à Taxa Judiciária, cumpre consignar


que a isenção das custas processuais, prevista no art. 17, IX, da Lei Estadual n.º
3.350/1999, não inclui o tributo, por serem de naturezas jurídica distintas, como
assevera o Enunciado n.º 45 do F.E.T.J., segundo o qual “as custas processuais
encontram-se disciplinadas na Lei n.º 3.350/99, em seu artigo 1º, primeira
parte, enquanto que a taxa judiciária está insculpida no artigo 112 do Código
Tributário Estadual (Decreto-Lei n.º 05/75), seguindo-se que taxa e custas
possuem natureza jurídica distintas, haja vista apresentarem definições
diversas em nosso ordenamento jurídico.”.

Destarte, o art. 114 do Código Tributário Estadual, que enumera as


hipóteses de não incidência de tal tributo, não traz em seu rol a hipótese de isenção
do pagamento da Taxa Judiciária no caso em que o ente público ficar vencido e a
parte autora for beneficiária da gratuidade de justiça.

A propósito, veja-se o Enunciado n.º 42 do Fundo Especial do Tribunal


de Justiça:

“A isenção estabelecida no art. 115, caput, do Código Tributário do


Estado do Rio de Janeiro, beneficia os entes públicos quando agem na
posição processual de autores, porém, na qualidade de réus, devem,
por força do art. 111, II, do Código Tributário Nacional e do verbete n.º
145 da Súmula do TJRJ, recolher a taxa judiciária devida ao FETJ,
quando sucumbirem na demanda e a parte autora não houver
antecipado o recolhimento do tributo.” (Grifamos)

No mesmo sentido, a Súmula n.º 145-TJRJ, cujo Verbete é no


seguinte estilo:

“Se for o Município autor estará isento da taxa judiciária desde que
se comprove que concedeu a isenção de que trata o parágrafo único
do artigo 115 do CTE, mas deverá pagá-la se for o réu e tiver sido
condenado nos ônus sucumbenciais.” (Grifamos)

Logo, o Município é isento da Taxa Judiciária apenas quando age na


posição processual de autor, comprovando também que concedeu a isenção de
que trata o parágrafo único do art. 115 do Código Tributário Estadual, o que não é o
caso dos autos, daí porque deve arcar com o tributo.
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Pelo exposto, voto por não conhecer da Remessa Necessária,


conhecer de ambas as Apelações Cíveis e, no mérito, desprovê-las, fixando, a
seguir, honorários advocatícios recursais de 2% (dois por cento) do montante
condenatório, com apoio no art. 85, § 11, do Código de Processo Civil, totalizando a
verba advocatícia sucumbencial em 10% (dez por cento) dessa mesma base de
cálculo.

Rio de Janeiro, ____ de ____________ de 2023.

MÔNICA MARIA COSTA


Desembargadora Relatora

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