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ESTADO DO RIO DE JANEIRO
PODER JUDICIÁRIO
VIGÉSIMA SEGUNDA CÂMARA DE DIREITO PRIVADO
APELAÇÃO CÍVEL: 0109263-27.2021.8.19.0001
APELANTE: MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO
APELADOS: LUIZ CARLOS NASCIMENTO CAMPOS FERREIRA e
DESIREÉ MILENE DE SOUZA MARQUES
RELATOR: DES. MARCOS ANDRÉ CHUT
APELAÇÃO CÍVEL. DIREITO CIVIL.
RESPONSABILIDADE CIVIL. AÇÃO DE
INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS.
ALEGAÇÃO DE ERRO MÉDICO. FALECIMENTO
DO PACIENTE, MENOR DE IDADE, CONTANDO
COM 3 ANOS DE IDADE NA DATA DO ÓBITO.
SENTENÇA QUE JULGOU PARCIALMENTE
PROCEDENTE O PEDIDO, CONDENANDO O
MUNICÍPIO A PAGAR R$ 150.000,00, SENDO R$
75.000,00 PARA CADA AUTOR, PAIS DO DE
CUJUS, BEM COMO FIXANDO O TERMO INICIAL
DOS JUROS DE MORA A CONTAR DA CITAÇÃO
E A TAXA SELIC COMO ÍNDICE DE CORREÇÃO
MONETÁRIA. RECURSO DO RÉU. FALHA NA
PRESTAÇÃO DO SERVIÇO EVIDENCIADA.
LAUDO PERICIAL QUE APONTA PARA UMA
INVESTIGAÇÃO INCOMPLETA E A
OCORRÊNCIA DA PERDA DE UMA CHANCE.
SENTENÇA QUE DEVE SER REFORMADA
APENAS PARA APLICAR O ÍNDICE DE
CORREÇÃO MONETÁRIA DA LEI 9.494/1997.
QUANTO AO TERMO INICIAL DOS JUROS
MORATÓRIOS, APESAR DA DIVERGÊNCIA
SOBRE O TEMA, É NORMA DE ORDEM
PÚBLICA. SENDO ASSIM, DEVE SER FIXADO A
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APELAÇÃO CÍVEL: 0109263-27.2021.8.19.0001 (5)
Assinado em 14/11/2023 15:15:07
MARCOS ANDRE CHUT:33114 Local: GAB. DES. MARCOS ANDRE CHUT
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DATA DO EVENTO DANOSO. SÚMULA 54 STJ.
PARCIAL PROVIMENTO DO RECURSO.
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos o recurso de Apelação Cível nº 0109263-
27.2021.8.19.0001, em que figura como apelante MUNICÍPIO DO RIO DE
JANEIRO.
ACORDAM os Desembargadores que compõem a Vigésima Segunda
Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro,
por unanimidade de votos, em DAR PARCIAL PROVIMENTO ao recurso,
nos termos do voto do Relator.
RELATÓRIO
Trata-se de recurso de apelo interposto por MUNICÍPIO DO RIO DE
JANEIRO, contra decisão do juízo da 14ª VARA DA
FAZENDA PÚBLICA DO RIO DE JANEIRO. Na forma do permissivo
regimental (art. 92, §4º, do RITJERJ), adoto o relatório da sentença, nos seguintes
termos:
LUIZ CARLOS NASCIMENTO CAMPOS FERREIRA e DESIREÉ
MILENE DE SOUZA MARQUES
propuseram ação em face do MUNICÍPIO DO RIO DE
JANEIRO, alegando que seu filho, Arthur
Marques Ferreira, torceu o pé enquanto brincava no dia
19/02/2021 e foi levado à clínica da
família perto de sua residência e posteriormente encaminhado ao
Hospital Municipal Lourenço
Jorge, onde recebeu remédio para dor, possível febre e indicação
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de colocação de uma tala.
Informam que perceberam que a criança estava com febre ao
retornarem para casa e procederam
à administração do medicamento. Narram que no dia 21/02/2021,
a criança voltou a apresentar
febre de 39,6º, que não baixava, motivo pelo qual a levaram ao
Hospital Lourenço Jorge às
01h00min, onde foi medicado com novalgina e encaminhado para
avaliação com ortopedista.
Informam que foi realizado raio x do tornozelo e, verificado que
estava tudo bem em relação à
parte ortopédica, a criança foi encaminhada para o CER Barra
da Tijuca a fim de que a febre que
persistia apesar da medicação fosse corretamente investigada.
Expõe que Arthur foi atendido no
CER às 03h32min e, sob os protestos, foi liberado para casa com
prescrição de novalgina e
determinação de observação em casa pelo período de dois dias.
Aduzem que retornaram no
mesmo dia ao Hospital Municipal Lourenço Jorge, às 23h30min,
ocasião na qual a médica relatou
que o paciente estava com febre de 39,5º há 48 horas, solicitou
hemograma e PCR, exames que
demonstraram alteração no número de leucócitos e no PCR,
indicando infecção, mas ainda assim
Arthur foi liberado sem maiores investigações acerca da origem
da infecção ou tratamento
adequado. Narram terem retornado ao nosocômio às 07h30min
do dia seguinte, após Arthur ter
passado mal durante toda a madrugada, mas, ao chegarem no
local para atendimento, seu filho
teve uma parada cardíaca e faleceu após tentativas de
reanimação por mais de 30 minutos.
Pleiteiam a condenação do réu ao pagamento de indenização por
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danos morais no valor de R$
500.000,00 (quinhentos mil reais), sendo R$ 250.000,00
(duzentos e cinquenta mil reais) para
cada autor, além de pensionamento no valor de um salário
mínimo considerando a data em que a
vítima completaria 18 anos de idade até os 70 ou o óbito dos
autores, valor a ser apurado em
liquidação de sentença.
Decisão em pdf. 95 deferindo a gratuidade de justiça e
determinando a citação.
Contestação em pdf. 109, sem documentos, alegando a ausência
do dever de indenizar, pela
inexistência de nexo de causalidade entre o óbito do filho dos
autores e o atendimento médico
prestado. Aduz que só existiria o dever de indenizar no caso de
comprovação de erro médico, por
negligência, imprudência ou imperícia. Destaca que a obrigação
do médico é de meio e não de
resultado. Requer a improcedência dos pedidos.
Em provas, o réu informou não ter mais provas a produzir (pdf.
129), enquanto a parte autora
pugnou pela produção de prova pericial (pdf. 135).
Decisão saneadora em pdf. 151 deferindo a produção de prova
pericial médica e nomeando perito.
Manifestação do réu em pdf. 167 requerendo a substituição do
perito por um especializado em
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pediatria, o que foi deferido na decisão em pdf. 171.
Manifestação do réu em pdf. 211 indicando assistente técnica e
apresentando quesitos.
Certidão em pdf. 215 de que a parte autora não apresentou
quesitos.
Manifestações do réu em pdf. 245, 245 e 255 juntando
informações aos autos, acerca das quais
se manifestaram os autores em pdf. 305.
Laudo pericial em pdf. 276, acerca do qual se manifestaram os
autores (pdf. 307) e o réu (pdf.
313).
Esclarecimentos prestados pelo Perito do Juízo em pdf. 330,
acerca dos quais se manifestaram o
réu (pdf. 346) e os autores (pdf. 348).
Parecer do Ministério Público em pdf. 357 opinando pela
procedência parcial do pedido.
A irresignação do apelante alveja a disposição do julgado de indexador
365, nos seguintes termos:
Em face do exposto, JULGO PARCIALMENTE PROCEDENTE
O PEDIDO para condenar o réu ao
pagamento de danos morais no valor de R$ 150.000,00 (cento e
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cinquenta mil reais), sendo R$75.000,00 (setenta e cinco mil
reais) para cada autor, acrescido de correção monetária a partir
desta data e dos juros de mora a contar da citação.
A correção monetária e os juros de mora deverão observar o art.
3º da Emenda Constitucional nº
113/2021, que entrou em vigor em 09/12/2021: haverá a
incidência, uma única vez, do índice da
taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia
(Selic), acumulado mensalmente
- vedada a incidência de juros compostos, bem como a incidência
de qualquer outro índice.
Considerando a sucumbência recíproca, despesas processuais
rateadas igualmente entre as
partes, observada a gratuidade de justiça concedida aos autores.
Condeno os autores ao pagamento de honorários advocatícios em
favor do patrono do réu que
fixo em 10% (dez por cento) do valor atualizado da causa, na
forma do art. 85, §2º, do NCPC,
observado o disposto no art. 98, §3º, do NCPC.
Condeno o réu ao pagamento de honorários advocatícios que fixo
em 10% sobre o valor da
condenação, na forma do artigo 85, § 3º, I e §1º.
Cientifique-se o Ministério Público.
Deixo de submeter a sentença ao duplo grau de jurisdição, com
fulcro no art. 496, §3º, III, do
NCPC.
Após o trânsito em julgado, dê-se baixa e arquive-se
P.I.
Inconformada, o réu interpôs o Recurso de Apelação de indexador 458,
requerendo a reforma da sentença. Afirma que não há nexo de causalidade entre
o óbito do menor e o atendimento médico conferido pelo Município, haja vista
que se prestou obediência a literatura médica. Ademais, alega que, ainda que
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houvesse responsabilização do ente, o valor da indenização por danos morais
fixado em sentença se mostra desarrazoado. Por fim, questiona o índice adotado
na correção monetária e o termo inicial dos juros de mora, entendendo que o
correto seria, quanto ao primeiro, a aplicação do índice específico da Lei nº.
9.494/1997 e não a taxa SELIC, ao passo que, no segundo, os juros de mora
devem ter como termo inicial a data do arbitramento da indenização, e não a
citação, como posto em sentença.
Contrarrazões de indexador 481.
Parecer do Ministério Público, de indexador 509, pelo conhecimento e
parcial provimento do recurso.
É o breve relatório. Passo ao voto.
O recurso é tempestivo e estão presentes os demais pressupostos
processuais, motivos pelos quais dele conheço.
Na exordial, os autores alegaram que, em razão de inúmeras falhas na
prestação dos serviços médicos ofertados pelo ente réu, seu filho, de 3 anos, veio
a óbito, conforme certidão de indexador 80.
Para tanto, narram uma série de atendimentos feitos ao menor, juntando
aos autos o boletim de emergência médica do Hospital Municipal Lourenço Jorge
(indexador 72), o prontuário eletrônico emitido pela mesma instituição
(indexador 78), o exame de sangue feito pela criança (indexador 81 e 83) e, por
fim, o receituário médico (indexador 85).
É notório que a saúde é um direito fundamental constitucionalmente
previsto no art. 6º. Conforme dispõe o art. 196 da Carta Magna, a “saúde é direito
de todos e dever do Estado”, de tal maneira que cabe a União, aos Estados, aos
Municípios e ao DF atuarem sempre em prol de fornecer um serviço de saúde
digno a todos os usuários que dele necessitam.
No caso dos autos, os atendimentos médicos foram prestados em unidades
de saúde pertencentes à rede municipal. Não há dúvidas de que o ente federativo
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é responsável pela atuação dos seus prepostos. Nesse sentido, restando
comprovado o erro médico, cabe responsabilização objetiva do Município, na
forma do art. 37, §6º CRFB/88, fazendo incidir, na hipótese, a teoria do risco
administrativo.
Nesse sentido, a responsabilidade civil será objetiva extracontratual, o que
implica dizer que prescinde da demonstração do dolo ou da culpa, bastando
comprovar a existência do dano, da conduta e do nexo de causalidade entre eles.
A conduta restou demonstrada pelas provas documentais juntadas aos autos
que elucidam o atuar médico na condução do tratamento ofertado ao menor,
conforme já listada em alude.
O laudo pericial de indexador 276 foi cirúrgico ao considerar a existência
do erro médico que levou ao óbito do menor, de modo que destaco, para tanto, a
conclusão do perito:
“O “de cujus” culminou com óbito por pneumonia, septicemia e
consequentemente coagulação intravascular disseminada, sendo
a pneumonia uma das cinco causas
prevalentes em crianças abaixo de cinco anos.1 A despeito de ser
realizado exames de
sangue (Hemograma, Plaquetas, PCR), há que se ponderar que
não houve realização de
radiografia de tórax, exame preponderante e de fácil acesso em
qualquer serviço de
emergência ainda muito útil em diagnósticos de patologias
respiratórias. Sobre a
radiografia de tórax é importante gizar que faz parte do
“screening” investigativo de
processos febris em crianças abaixo de cinco anos, justamente
por que em alguns casos
de pneumonias comunitárias não há, inicialmente, os sintomas
clínicos clássicos de
pneumonia com tosse, febre e dificuldade respiratória. Na
suspeita clínica de
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pneumonia, chamamos a atenção da necessidade da maior
utilização da radiografia de
tórax, que pode confirmar o diagnóstico e melhorar a decisão de
tratamento. (6–10)
Durante aproximadamente 48 horas o “de cujus” peregrinou por
instituições de saúde, sem nenhuma delas ocorrer a confirmação
diagnóstica, muito por uma investigação
incompleta, e até mesmo a ausência de indicação de internação
hospitalar para manejo
cínico mais adequado ao caso e cuidados de suporte adequados.
Importante lembrar que
em crianças pequenas, lactentes e pré-escolares, nos processos
infecciosos a condição
de piora do quadro clínico se processa em poucas horas. Por fim,
ante a investigação
incompleta pode-se inferir a perda de uma chance. No caso em
tela não há relação direta
do evento ortopédico com a patologia clínica que culminou em
óbito.
Nesse sentido, conforme se pode depreender da leitura dessa conclusão do
laudo, somada as demais provas dos autos, a não realização do exame de
radiografia do tórax pela equipe de médicos é capaz de comprovar a ocorrência
de falha na prestação dos serviços, haja vista que esse exame é indicado pela
literatura médica para o quadro clínico do menor, principalmente em razão da sua
idade, vez que todos os sintomas que ele apresentava seriam suficientes para que
se pesquisasse um quadro de pneumonia.
Somado a esse fator, o erro médico ainda se mostra evidente em razão da
ausência de indicação de internação hospitalar, mesmo diante da evolução
constante dos sintomas. O laudo afirma que que foi feita uma “investigação
incompleta”, acabando por resultar na “perda de uma chance” pois, se os
profissionais atuassem conforme a boa técnica, o menor poderia ter tido um
tratamento mais eficaz contra a doença que o acometia, ainda que seu futuro fosse
incerto.
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Cabe ressaltar, ainda, que não há nos autos nenhuma menção de
impugnação ao laudo pericial por parte do Município, bem como nenhum
questionamento em relação aos critérios da perícia e métodos usados para a
obtenção da conclusão.
Sendo assim, uma vez configurado todos os elementos da responsabilidade
civil objetiva, não há dúvidas quanto ao dever de indenizar.
Sabe-se que o dano moral, no caso, é in re ipsa. Sendo assim, conforme
jurisprudência predominante deste tribunal, não se exige prova específica para
sua demonstração, já que não resta dúvidas da dor e angústia provocada nos pais
diante da morte de um filho, uma vez que esse evento inverte a ordem natural das
coisas, ainda mais quando o menor possuía somente 3 anos. Sobre o tema, seguem
alguns julgados:
APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL. ALEGAÇÃO
DE NEGLIGÊNCIA E FALHA NA PRESTAÇÃO DE SERVIÇO
MÉDICO HOSPITALAR. SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA,
CONDENANDO O MUNICÍPIO RÉU AO PAGAMENTO DE R$
100.000,00 EM DANO MORAL. ELABORAÇÃO DE LAUDO
PERICIAL QUE CONCLUIU QUE A CONDUTA ADOTADA
PELOS PREPOSTOS DO MUNICÍPIO DEMANDADO FOI
OMISSA AO NÃO PROMOVER A CORREÇÃO DA
DESIDRATAÇÃO E O ATRASO NO INÍCIO DE UM
ANTIBIÓTICO QUE CONCORRESSE PARA CONTROLE DA
INFECÇÃO GENERALIZADA DIANTE DIAGNÓSTICO
ELABORADO PELO MÉDICO EFETUOU O PRIMEIRO
ATENDIMENTO DA CRIANÇA QUE APRESENTAVA
"QUADRO CLÍNICO DE GASTROENTERITE AGUDA". A
EVOLUÇÃO PARA O ÓBITO DA CRIANÇA SE ENCONTRA
CORRELACIONADO À CONDUTA OMISSA E NEGLIGENTE
DA EQUIPE MÉDICA DO RÉU, QUE DEIXOU DE MINISTRAR
A PRESCRIÇÃO MÉDICA E ADOTAR AS PROVIDÊNCIAS
NECESSÁRIAS PARA SALVAGUARDAR A BOA SAÚDE DA
CRIANÇA, DE MODO A IMPEDIR O AGRAVAMENTO DO SEU
QUADRO CLÍNICO, OCASIONANDO O TRISTE E INFELIZ
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PASSAMENTO DO INFANTE. NEXO CAUSAL
DEMONSTRADO. DANO MORAL CONFIGURADO DO
PRÓPRIO DO PRÓPRIO FATO (IN RE IPSA), POIS É
ÓBVIO QUE O FALECIMENTO DE UM FILHO DECORRE
SEQUELAS IRREVERSÍVEIS PROVOCA DOR E
SOFRIMENTO INTENSOS QUE CONFIGURAM POR SI SÓ
O DANO MORAL, PASSÍVEL DE COMPENSAÇÃO
PECUNIÁRIA PARA A VÍTIMA E SEUS FAMILIARES.
VALOR FIXADO QUE SE MANTÉM, REGISTRANDO-SE QUE
NÃO SE PRETENDE REPARAR INTEGRALMENTE DA PARTE
AUTORA, MAS ARBITRAR UM VALOR DIANTE DO
SENTIMENTO DE TRISTEZA E SOFRIMENTO A QUE FOI
SUBMETIDA, EM DECORRÊNCIA DO EVENTO QUE
VITIMOU FATALMENTE O FILHO. PRECEDENTES
JURISPRUDENCIAIS DESTE TRIBUNAL DE JUSTIÇA.
HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS QUE SE ALTERA, APÓS
OPORTUNIZAR AS PARTES A REGULAR MANIFESTAÇÃO,
AO TEOR DO ARTIGO 10 DO CPC, PARA FIXAR EM 12%
SOBRE O VALOR DA CONDENAÇÃO, NA FORMA DO
ARTIGO 85 § 2º E JÁ COM A MAJORAÇÃO INDICADA NO §
11 REFERIDO DISPOSITIVO PROCESSUAL CIVIL.
CONHECIMENTO E NÃO PROVIMENTO DO RECURSO.
(0002238-98.2008.8.19.0036 - APELACAO / REMESSA
NECESSARIA. DES(A). RICARDO ALBERTO PEREIRA -
JULGAMENTO: 08/09/2022 - VIGÉSIMA CÂMARA CÍVEL)
APELAÇÕES CÍVEIS. DIREITO ADMINISTRATIVO. ERRO
MÉDICO. NEGLIGÊNCIA NO ATENDIMENTO MÉDICO EM
UNIDADE DE SAÚDE DO MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO.
ÓBITO DO FILHO RECÉM-NASCIDO DA AUTORA.
SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA. INCONFORMISMO DA
MUNICIPALIDADE. APLICAÇÃO DA TEORIA DA
RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA DA
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA (ART. 37, § 6º, DA
CONSTITUIÇÃO FEDERAL). UMA VEZ DEMONSTRADOS O
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DANO E A CONDUTA ESTATAL, COMPETE AO ENTE
PÚBLICO COMPROVAR O ROMPIMENTO DO NEXO
CAUSAL ENTRE AMBOS PARA AFASTAR O SEU DEVER DE
INDENIZAR, O QUE NÃO OCORREU NO CASO DOS AUTOS.
PERÍCIA TÉCNICA CONCLUSIVA NO SENTIDO DA
EXISTÊNCIA DE NEXO DE CAUSALIDADE ENTRE A
CONDUTA NEGLIGENTE DA UNIDADE DE SAÚDE E O
DANO SOFRIDO PELA PACIENTE. DEMORA EXCESSIVA NA
REALIZAÇÃO DE EXAMES E DA CESARIANA E QUE, CASO
REALIZADOS A TEMPO, PODERIAM TER EVITADO O
LAMENTÁVEL DESFECHO. DANO MORAL
CONFIGURADO IN RE IPSA, DECORRENDO DO
SOFRIMENTO E DA ANGÚSTIA EXPERIMENTADOS
PELA AUTORA PELO FALECIMENTO DE SEU FILHO EM
RAZÃO DE NEGLIGÊNCIA MÉDICA DISPENSADA NO
ATENDIMENTO MÉDICO DO NOSOCÔMIO MUNICIPAL.
QUANTUM FIXADO NA SENTENÇA EM R$ 100.000,00
(CENTO MIL REAIS) QUE SE AFIGURA ADEQUADO E EM
CONSONÂNCIA COM OS PRINCÍPIOS DA RAZOABILIDADE
E DA PROPORCIONALIDADE, MERECENDO, POIS, SER
MANTIDO. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO.
(TJRJ. APELAÇÃO Nº 0122704-17.2017.8.19.0001.
RELATORA: DESEMBARGADORA LÍDIA MARIA SODRÉ DE
MORAES. SEXTA CÂMARA DE DIREITO PRIVADO. DATA DE
JULGAMENTO: 07/06/2023).
Logo, nos resta discutir somente o quantum de indenização a título de
danos morais deve ser atribuído a hipótese. Em sentença, o magistrado a quo
fixou a indenização em R$ 150.000,00 (cento e cinquenta mil reais), sendo
R$75.000,00 (setenta e cinco mil reais) para cada autor.
Em outros casos semelhantes envolvendo erro médico e óbito de crianças
menores de 5 anos, o TJRJ possui o entendimento de que esse valor fixado pelo
juízo em sentença é compatível com a gravidade do caso e não atenta contra a
vedação ao enriquecimento sem causa. Nesse sentido, in verbis:
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APELAÇÕES CÍVEIS. ERRO MÉDICO. NEGLIGÊNCIA NO
ATENDIMENTO MÉDICO EM UNIDADES DE SAÚDE DO
MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO E DO ESTADO DO RIO DE
JANEIRO. ÓBITO DE MENOR DE TENRA
IDADE. DANO MORAL CONFIGURADO. SENTENÇA DE
PROCEDÊNCIA. MANUTENÇÃO. 1. Trata-se de demanda
ajuizada em face do Estado do Rio de Janeiro e do Município do
Rio de Janeiro, pretendendo a parte autora a condenação dos
réus ao pagamento de indenização por danos morais em razão
do óbito do seu filho por suposto erro médico, decorrente de
negligência no atendimento nas unidades de saúde dos réus. 2.
A sentença julgou procedente o pedido, para condenar os réus,
solidariamente, ao pagamento de verba indenizatória a título
de dano moral, fixada em R$150.000,00 (cento e cinquenta mil
reais), ensejando o inconformismo de ambos os réus. 3. Rejeição
da preliminar de ilegitimidade passiva arguida pelo Estado do
Rio de Janeiro. Contrato de gestão celebrado com terceiros que
não afasta a responsabilidade objetiva do poder público e a sua
atribuição constitucional de prestar devidamente o serviço de
saúde, nos termos do que dispõe o art. 37, §6º da Constituição
Federal, sendo certo que a Administração Pública mantém a
titularidade do serviço público, delegando ao terceiro tão
somente a execução do serviço, cabendo-lhe o direito de
ressarcir-se regressivamente em face da empresa contratada.
Incidência das Súmulas 50 e 240 deste Tribunal de Justiça, 4. No
mérito, cinge-se o inconformismo a se apurar se o óbito do
paciente - filho da autora, à época com dois anos de idade - pode
ser atribuído à suposta negligência e imperícia médica de
unidades de saúde do Município e do Rio de Janeiro e do Estado
do Rio de Janeiro em diagnosticar a enfermidade que acometia
o menor (Meningite), circunstâncias que, segundo alega a parte
autora, teriam contribuído ao agravamento do seu quadro de
saúde e posterior falecimento. 5. Na seara da responsabilidade
civil relacionada à Administração Pública, prevalece em nosso
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ordenamento jurídico, por força da norma constitucional prevista
no art. 37, § 6º, a teoria objetiva, consoante a qual basta simples
comprovação do fato administrativo (conduta comissiva ou
omissiva) e da relação de causalidade entre esse e
o dano suportado para que se configure a responsabilidade dos
entes públicos e das pessoas jurídicas de direito privado
prestadoras de serviços públicos. 6. Uma vez demonstrados
o dano e a conduta estatal, compete ao ente público comprovar o
rompimento do nexo causal entre ambos para afastar o seu dever
de indenizar, o que não ocorreu no caso dos autos. 7. Tratando-
se de erro médico decorrente de uma suposta negligência no
atendimento prestado ao paciente, a configuração da
responsabilidade civil passa necessariamente pelo
reconhecimento da conduta do profissional médico eivada de
negligência ou imperícia. 8. In casu, o laudo pericial produzido
nos autos é conclusivo no sentido de que houve falha nos
atendimentos médicos prestados ao paciente que deu entrada nas
unidades de saúde com quadro de síndrome infecciosa. Expert
que consignou que a investigação da infecção deve se dar com o
paciente internado na emergência, através da realização de
exames complementares que se afiguram fundamentais para
diagnosticar a síndrome infecciosa e de onde provém o foco
infeccioso para um tratamento mais tempestivo e eficaz. 9. Nessa
toada, restou evidenciado, através da perícia técnica, o nexo de
causalidade entre a conduta negligente das unidades de saúde e
o dano sofrido pelo paciente, em razão da caracterização da
falha no atendimento médico, diante da ausência de pronta
internação do menor na emergência para a realização de
exames complementares, os quais poderiam elucidar a origem
do quadro infeccioso do paciente e, assim, lhe ser oportunizado
um tratamento médico adequado, a fim de remediar o
lamentável óbito da criança. 10. Na espécie, o dano moral é
inconteste e se configura in re ipsa, pois decorre do sofrimento e
da angústia experimentados pela autora em razão do falecimento
do seu filho de tenra idade em razão de negligência médica
dispensada no atendimento médico das unidades de saúde dos
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réus. 11. A indenização por dano extrapatrimonial a ser fixada
deve ser compatível com a reprovabilidade da conduta do agente
sem que, no entanto, represente enriquecimento sem causa para
a vítima, atentando, ainda, à finalidade preventivo-pedagógico
da indenização, de molde a coibir a reiteração de determinadas
condutas. 12. Quantum fixado na sentença em R$ 150.000,00
(cento e cinquenta mil reais) que se afigura adequado e em
consonância com os princípios da razoabilidade e da
proporcionalidade, merecendo, pois, ser mantido. 13. Juros de
mora incidentes sobre a condenação que foram corretamente
fixados na sentença, a partir da citação, na forma do art. 405 do
Código Civil. 14. Recursos desprovidos.
(TJRJ. APELAÇÃO Nº 0227296-78.2018.8.19.0001.
RELATORA: DES(A). MÔNICA MARIA COSTA DI PIERO.
OITAVA CÂMARA CÍVEL. DATA DE JULGAMENTO:
08/11/2022).
Portanto, adequada a condenação em danos morais no patamar fixado na
sentença.
Em sede recursal, o Município ainda sustentou a necessidade de reforma
da sentença quanto ao índice de correção monetária adotado e o termo inicial dos
juros de mora.
No tocante a correção monetária, o índice fixado pelo juízo a quo foi a taxa
SELIC, tendo por base a Emenda Constitucional 113/2021. Ocorre que, no caso
concreto, a citação se deu antes do início da vigência dessa Emenda, de tal
maneira que a taxa SELIC deve incidir apenas nos processos judiciais dessa
natureza posteriores ao dia 09/12/2021, o que não é o caso. Sendo assim, o correto
é aplicar o índice de atualização previsto na Lei 9.494/1997. Nesse sentido,
acolhendo o parecer do MP, de indexador 509, entendemos pela reforma da
sentença.
Entretanto, no que tange ao termo inicial dos juros moratórios, houve um
equívoco na sentença ao determinar que os juros de mora deveriam ser contados
a partir da citação.
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Isso porque, o STJ fixou entendimento de que os juros e a correção, no caso
de dano moral, devem fluir da data do arbitramento, em vista do art. 407 do
Código Civil. Vide:
RECURSO ESPECIAL. RESPONSABILIDADE
CIVIL. INFECÇÃO HOSPITALAR. SEQÜELAS
IRREVERSÍVEIS. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. CULPA
CONTRATUAL. SÚMULA 7. DENUNCIAÇÃO DA LIDE.
DANO MORAL. REVISÃO DO VALOR. JUROS DE
MORA. CORREÇÃO MONETÁRIA. TERMO INICIAL.
DATA DO ARBITRAMENTO. REDUÇÃO DA CAPACIDADE
PARA O TRABALHO. PENSÃO MENSAL DEVIDA (...) 7.
No caso de responsabilidade contratual, os juros de mora
incidentes sobre a indenização por danos materiais, mesmo
ilíquida, fluem a partir da citação. 8. A indenização por
dano moral puro (prejuízo, por definição,
extrapatrimonial) somente passa a ter expressão em
dinheiro a partir da decisão judicial que a arbitrou. O pedido
do autor é considerado, pela jurisprudência do STJ, mera
estimativa, que não lhe acarretará ônus de sucumbência, caso
o valor da indenização seja bastante inferior ao pedido
(Súmula 326). Assim, a ausência de seu pagamento desde a
data do ilícito não pode ser considerada como omissão
imputável ao devedor, para o efeito de tê-lo em mora, pois,
mesmo que o quisesse, não teria como satisfazer obrigação
decorrente de dano moral, sem base de cálculo, não
traduzida em dinheiro por sentença judicial, arbitramento ou
acordo (CC/1916, art. 1064). Os juros moratórios devem,
pois, fluir, no caso de indenização por dano moral, assim
como a correção monetária, a partir da data do julgamento
em que foi arbitrada a indenização, tendo presente o
magistrado, no momento da mensuração do valor, também
o período, maior ou menor, decorrido desde o fato causador
do sofrimento infligido ao autor e as consequências, em
seu estado emocional, desta demora. 9. Recurso especial do
réu conhecido, em parte, e nela não provido. Recurso
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especial do autor conhecido e parcialmente provido. (REsp
903.258)
Ante o exposto, voto no sentido de DAR PARCIAL PROVIMENTO ao
recurso, reformando pontualmente a sentença guerreada, a fim de aplicar, para a
correção monetária, o índice de atualização previsto na Lei 9.494/1997, em vez
da taxa SELIC, prevista na Emenda Constitucional 113/2021 e fixar, a título de
juros moratórios, o termo inicial na data do evento danoso. No mais, mantenho a
sentença como lançada.
Rio de Janeiro, na data da assinatura digital.
DESEMBARGADOR MARCOS ANDRÉ CHUT
RELATOR
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