157
Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro
Vigésima Sexta Câmara Cível
APELAÇÃO CÍVEL Nº 0006903-03.2016.8.19.0029
APELANTE: MUNICÍPIO DE MAGÉ
APELADO: MIRELLA CONSTANTINO RAMOS DE SOUZA
REP/P/S/GENITORA BRUNA RAMOS SILVA DE SOUZA
RELATOR: DES. FÁBIO UCHÔA PINTO DE MIRANDA
MONTENEGRO
ACÓRDÃO
APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO INDENIZATÓRIA.
MUNICÍPIO DE MAGÉ. ERRO MÉDICO. AUTORA COM
06 MESES DE VIDA. PRESCRIÇÃO DE MEDICAMENTO
CONTRAINDICADO PARA A IDADE DA AUTORA NA
ÉPOCA DOS FATOS. SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA.
IRRESIGNAÇÃO DO RÉU. Na hipótese, a prova pericial
é essencial para avaliação da questão em apreço. Sendo
assim, deveria o magistrado a quo ter se utilizado da
previsão contida no art. 370 do CPC, determinado, ainda
que de ofício, a realização da perícia, a fim de garantir
lastro probatório necessário para o deslinde da questão.
Prolação prematura da sentença. Error in procedendo.
Necessidade de produção de prova pericial médica para
apurar se houve negligência do profissional médico, e o
alegado dano sofrido pela parte autora em decorrência da
prescrição do medicamento, sendo imperativa a anulação
da sentença para a realização da perícia. ANULAÇÃO
DE OFÍCIO DA SENTENÇA RECORRIDA PARA A
REALIZAÇÃO DA PROVA PERICIAL MÉDICA,
RESTANDO PREJUDICADO O RECURSO.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação
acordam os Desembargadores que compõem a Colenda Vigésima
Sexta Câmara Cível do Egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Rio de
Janeiro, por UNANIMIDADE DE VOTOS, em anular, de ofício, a
sentença recorrida, restando PREJUDICADO o recurso, nos termos do
voto do Relator.
CC
1
FABIO UCHOA PINTO DE MIRANDA MONTENEGRO:18065 Assinado em 25/11/2021 14:48:54
Local: GAB. DES FABIO UCHOA PINTO DE MIRANDA MONTENEGRO
158
Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro
Vigésima Sexta Câmara Cível
Na forma do § 4º, do artigo 92 do Regimento Interno deste
Egrégio Tribunal, adoto o relatório do juízo sentenciante, assim redigido:
“Trata-se de ação indenizatória proposta por MIRELLA
CONSTANTINO RAMOS DE SOUZA, representada pela genitora
BRUNA RAMOS SILVA DE SOUZA em face de MUNICIPIO DE
MAGÉ em que requer a condenação do réu pelos danos morais e
materiais sofridos.
Como causa de pedir, alega, em síntese, ter a autora sido medicada
por profissional da ré e recebido a receita com medicação Abrilar
Hedera Helix L. Salienta que como a autora não melhorou após sete
dias, retornou ao Hospital, ocasião que foi atendida por outro médico
que informou que a medicação receitada anteriormente não poderia
ter sido passada a menores de 2 anos de idade, sendo que a autora
na época tinha somente 6 meses de vida.
Com a inicial vieram os documentos às fls. 10/27. Decisão às fls. 44
deferiu a JG. Emenda às fls. 51, recebida às fls. 55.
A parte ré apresentou contestação às fls. 65/72. Arguiu prejudicial de
prescrição trienal. No mérito, discorreu acerca da ausência
comprovação de qualquer consequência danosa da autora
relacionada ao uso do medicamento. Discorreu acerca dos
pressuposta a responsabilidade civil e ausência de danos sofridos e,
por fim, pugnou pela improcedência.
Manifestação da parte autora em réplica às fls. 75/77.”
A sentença (index 117) foi fundamentada nos seguintes
termos:
“Em relação ao réu, estabelece o art. 37, § 6º da Constituição
Federal que as pessoas jurídicas de direito público e as de direito
privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos
que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros,
assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de
dolo ou culpa. Logo, a responsabilidade do ente público é objetiva,
com fulcro na teoria do risco administrativo.
Ficou comprovado ter o médico receitado o remédio às fls. 26. Da
leitura da bula às fls. 10 consta expressamente que o medicamento
não pode ser utilizado por criança menor de 2 anos de idade. A
autora comprovou às fls. 22 os gastos com o medicamente, bem
como às fls. 27 consta no receituário novas medicações.
Portanto, comprovado que a autora, com 6 meses, recebeu receita
de medicamente inadequada a menor de 2 anos, o que comprova a
falha na prestação dos serviços, decorrente da falha de diagnóstico.
Assim, assiste razão à autora ao imputar ao réu demandado a
responsabilidade pelo evento danoso, na medida em que restou
CC
2
159
Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro
Vigésima Sexta Câmara Cível
evidenciado nos autos que não foram adotadas todas as cautelas
para resguardar a vida e saúde da paciente, ou seja, o serviço
prestado não foi adequado as condições de saúde da paciente.
Caracterizada a conduta ilícita passo a análise das verbas
pretendidas.
Com relação ao dano moral assiste razão a parte autora, pois o
medicamente inadequado colocou em risco a vida da autora.
Ademais, desnecessário, no caso de dano moral, a comprovação
específica do prejuízo, pois o dano se extrai pela simples verificação
da conduta, ocorrendo o chamado dano "in re ipsa".
Concernente à quantificação do dano moral, há que se levar em
contra os critérios da razoabilidade, proporcionalidade e equidade,
sem olvidar a extensão do dano, bem como a necessidade de
efetiva punição do ofensor, a fim de evitar que reincida na sua
conduta lesiva. Calha trazer a colação a lição do acatado doutrinador
Des. Rui Stoco ("in" Tratado de Responsabilidade Civil, Ed. Revista
dos Tribunais, SP, 2004, 6ª ed., p. 1709), ao discorrer sobre a
matéria, nestes precisos termos, "verbis":
"Segundo nosso entendimento a indenização da dor moral, sem
descurar desses critérios e circunstâncias que o caso concreto
exigir, há de buscar, como regra, duplo objetivo: caráter
compensatório e função punitiva da sanção (prevenção e
repressão), ou seja: a) condenar o agente causador do dano ao
pagamento de certa importância em dinheiro, de modo a puni-lo e
desestimulá-lo da prática futura de atos semelhantes; b) compensar
a vítima com uma importância mais ou menos aleatória, em valor
fixo e pago de uma só vez, pela perda que se mostrar irreparável, ou
pela dor e humilhação impostas."
Sopesados tais vetores, considerando a gravidade da conduta ilícita
e a extensão dos prejuízos causados ao sujeito lesado, reputo
adequado o valor de R$ 5.000,00, para cumprir a função punitiva e
dissuasória do instituto diante a lamentável conduta do réu latente
nos autos.”
O Juízo a quo, na sentença (index 117), julgou a lide nos
seguintes termos:
“Isso posto, JULGO PROCEDENTE o pedido de MIRELLA
CONSTANTINO RAMOS DE SOUZA, representada pela genitora
BRUNA RAMOS SILVA DE SOUZA em face de MUNICIPIO DE
MAGÉ na forma do artigo 487, I do CPC, para:
CC
3
160
Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro
Vigésima Sexta Câmara Cível
1 - condenar o réu a restituir o valor de R$ 49,00 (quarenta e nove
reais), corrigido desde o desembolso e acrescido de juros a contar
da citação;
2 - condeno o réu a pagar a autora a quantia de R$ 5.000,00 (cinco
mil reais) acrescido de juro de 0,5% ao mês (art.1º-F da lei 9494/97)
a contar da data da citação e correção monetária a contar da data da
publicação desta sentença.
Isento o réu do pagamento de custas por imposição legal, mas o
condeno ao pagamento de honorários advocatícios que fixo em 10%
(dez por cento) do total da condenação.”
O Município réu apresentou recurso de apelação, tendo
pugnado, em suas razões (index 127), seja o presente recurso
conhecido e provido, reformando in totum a sentença alvejada, julgando
improcedente os pedidos constantes da peça vestibular, impondo à
parte apelada as penas da sucumbência.
Foram apresentadas contrarrazões (index 133), em
prestígio à sentença.
Parecer do Ministério Público (index 142) pelo
conhecimento e desprovimento do recurso de apelação interposto, com
a consequente manutenção da sentença vergastada.
É o relatório.
Examinados, passo a proferir o voto:
O recurso deve ser recebido e conhecido, visto que
preenchidos os requisitos de admissibilidade.
Trata-se de ação indenizatória na qual a parte autora,
representada pela genitora, requer a condenação do réu pelos danos
morais e materiais sofridos decorrentes da prescrição de medicamento
contraindicado para a idade que a autora possuía à época dos fatos.
Julgados procedentes os pedidos autorais, apela o
Município réu (index 127), alegando, em suma, que errou o Juízo a quo,
CC
4
161
Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro
Vigésima Sexta Câmara Cível
uma vez que o remédio ministrado em questão não causou qualquer
dano ou efeito colateral, não havendo que se falar em erro médico, não
configurando, portanto, culpa de agente público ou da Administração
Pública.
Compulsando os autos, inobstante o Juízo a quo ter
considerado que restou evidenciado que não foram adotadas todas as
cautelas para resguardar a vida e saúde da paciente, e pela
Procuradoria de Justiça (index 142) que “a prova documental não deixa
dúvidas quanto à ocorrência da conduta atribuída ao preposto da ré”,
bem como apesar da dispensa pelas partes da produção de outras
provas, às fls. 106 e 111, tem-se que o feito não se encontra
suficientemente maduro para prolação da sentença.
Isso porque a questão de fundo – erro médico – não é
matéria de direito, mas matéria de fato, com cunho técnico, e que
depende de elucidação por prova pericial.
Com efeito, a realização de instrução probatória
possibilitaria esclarecer a existência ou não de erro médico, e melhor
elucidar os fatos quanto à demonstração da suposta negligência do
profissional médico e eventual dano sofrido pela parte autora em
decorrência da prescrição do medicamento.
Assim, faz-se imprescindível a realização de prova pericial
na hipótese sob exame, em prestígio aos princípios do devido processo
legal, do contraditório e da ampla defesa, insertos no art. 5°, LIV e LV,
da Constituição da República.
Logo, como a prolação prematura de sentença configura
error in procedendo, imperiosa a sua anulação, de forma a ser dado
regular prosseguimento ao processo com a realização de perícia,
ressaltando-se que, para a descoberta da verdade material, é cabível a
determinação da produção de provas de ofício, nos termos do Art. 370
do Código de Processo Civil:
“Caberá ao juiz, de ofício ou a requerimento da parte,
determinar as provas necessárias ao julgamento do mérito”.
CC
5
162
Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro
Vigésima Sexta Câmara Cível
Em que pese o princípio do livre convencimento do
magistrado, podendo este exercer juízo de conveniência e
discricionariedade em relação aos meios de prova requeridos pelos
litigantes, tomando como critério a sua relevância para o deslinde da
causa, não pode ele simplesmente deixar de produzir prova tida como
imprescindível ao adequado deslinde da questão.
Neste sentido, vale a pena trazer à colação julgados deste
Egrégio Tribunal de Justiça que seguem este entendimento, a saber:
“APELAÇÃO CÍVEL. INDENIZATÓRIA. PROCEDIMENTO
CIRURGICO. ALEGAÇÃO DE ERRO MÉDICO. REALIZAÇÃO
DE PERICIA. LAUDO INCONCLUSIVO. NECESSIDADE DE
NOVA PERICIA. 1. Ação indenizatória por danos morais
ajuizada em razão de erro médico na realização de cirurgia de
laqueadura de trompas da autora. Sentença de improcedência.
Insurgência da autora. 2. Tratando-se de alegação de erro
médico, para a aferição da suposta falta médica, faz-se
necessária a realização de perícia por profissional de
medicina, devido à enorme tecnicidade que escapa aos
conhecimentos do magistrado. 3. Houve realização de
perícia médica, a qual o magistrado a quo entendeu suficiente
para a formação do convencimento do juízo. 4. No entanto, a
perícia não atingiu seus objetivos. 5. O laudo não se mostrou
conclusivo quanto à existência ou não de conduta imperita do
médico, deixando, ainda, de fornecer respostas conclusivas
aos quesitos da parte autora, bem como deixou de responder
ao quesito formulado pelo magistrado, além de não ter
expressamente consignado eventual observância a
documentos médicos constantes dos autos. 6. O artigo 473,
CPC, estabelece diretrizes a serem observadas pelo perito
quando da elaboração do laudo, possibilitando, inclusive que o
expert solicite documentos que estejam em poder de outra
parte e terceiros. 7. Matéria que não está suficientemente
esclarecida. Necessidade de nova perícia. Sentença que se
anula. 8. Provimento do recurso”.
(TJ-RJ - APL: 00115210620068190008 RIO DE JANEIRO
BELFORD ROXO 2 VARA CIVEL, Relator: MÔNICA MARIA
COSTA DI PIERO, Data de Julgamento: 20/03/2018, OITAVA
CÂMARA CÍVEL, Data de Publicação: 23/03/2018)
CC
6
163
Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro
Vigésima Sexta Câmara Cível
“CIVIL. PROCESSUAL CIVIL E CONSUMIDOR. APELAÇÃO.
OBRIGAÇÃO DE FAZER C/C INDENIZATÓRIA. RELAÇÃO DE
CONSUMO. PEDIDO DE TRATAMENTO DE FISIOTERAPIA
DOMICILIAR. SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA. PROVA
PERICIAL REQUERIDA PELA AUTORA INDEFERIDA.
PROVA PERICIAL NECESSÁRIA. ANULAÇÃO, DE OFÍCIO,
DA SENTENÇA POR ERRO DE PROCEDIMENTO. Pedido
médico carreado aos autos pela autora que menciona a
necessidade de fisioterapia, e esclarecendo ser a mesma
imprescindível em domicílio. Autora que teve o pedido de
produção de prova pericial indeferido pelo juiz de primeiro grau.
Ausência de fundamentação na decisão. É nula a sentença se
o juiz indefere o pedido de prova pericial imprescindível à
comprovação da necessidade de fisioterapia domiciliar.
Matéria técnica que foge ao conhecimento jurídico do
magistrado. Flagrante inobservância dos princípios do
contraditório, da ampla defesa e do devido processo legal a
ensejar a anulação da sentença por erro de procedimento.
Sentença que se anula de ofício. Prosseguimento do feito, com
a realização de perícia médica. Prejudicado o recurso
interposto”.
(TJ-RJ - APL: 00607892720188190002, Relator: Des(a).
LINDOLPHO MORAIS MARINHO, Data de Julgamento:
27/05/2021, DÉCIMA SEXTA CÂMARA CÍVEL)
“APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. CIRURGIA
REPARADORA E ESTÉTICA ALEGAÇÃO DE ERRO MÉDICO
NECESSIDADE DE REALIZAÇÃO DE PERÍCIA MÉDICA.
JULGAMENTO ANTECIPADO DA LIDE. CONFIGURADO
CERCEAMENTO DE DEFESA. SENTENÇA DE
PROCEDÊNCIA. ANULAÇÃO. 1. Cuida-se de ação
indenizatória, na qual a autora pretende indenização por danos
materiais, morais e estéticos em virtude de realização de
procedimentos cirúrgicos mal sucedidos. 2. A sentença julgou
antecipadamente a lide, entendendo pela procedência do
pedido formulado pela parte autora. 3. Conquanto as partes
tenham requerido a produção de provas, promoveu o
magistrado o julgamento antecipado da lide, obstando a
elucidação das questões imprescindíveis ao deslinde da
causa, tendo em vista que a matéria baseia-se em fatos, e
não somente em direito. 4. Sendo assim, violado preceito
constitucional que garante às partes o contraditório e a ampla
defesa como corolários do devido processo legal, inviável a
manutenção da sentença recorrida. 5. Necessidade de abertura
CC
7
164
Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro
Vigésima Sexta Câmara Cível
da instrução probatória. Precedentes desta E. Corte de Justiça.
6. Provimento dos recursos para anular a sentença”
(TJ-RJ - APL: 00124213920188190211, Relator: Des(a).
MÔNICA MARIA COSTA DI PIERO, Data de Julgamento:
03/02/2021, OITAVA CÂMARA CÍVEL)
Desse modo, como a prolação prematura de sentença
configura error in procedendo, imperiosa a sua anulação, de forma a ser
dado regular prosseguimento ao processo com a realização de perícia
médica.
Pelo exposto, o voto no sentido de ANULAR, de ofício, a
sentença, determinando o retorno dos autos ao Juízo de origem para a
realização da prova pericial médica e o regular prosseguimento do feito,
e, consequentemente, JULGAR PREJUDICADO o recurso, de acordo
com as razões acima expostas.
Rio de Janeiro, na data da assinatura digital.
DES. FÁBIO UCHOA PINTO DE MIRANDA MONTENEGRO
RELATOR
CC
8