PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 474
TRIBUNAL DE JUSTIÇA
DÉCIMA SEGUNDA CÂMARA CÍVEL
APELAÇÃO CÍVEL N.º 0052353-05.2006.8.19.0001
APELANTE: ESTADO DO RIO DE JANEIRO
APELADO: LUCIANO SILVA BARRETO
JUÍZO DE ORIGEM: 6ª VARA DA FAZENDA PÚBLICA DA COMARCA DA CAPITAL
RELATOR: JDS. DES. ÁLVARO HENRIQUE TEIXEIRA DE ALMEIDA
APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER
FUNDADA EM ERRO MÉDICO, QUE GEROU A
AMPUTAÇÃO DE MEMBRO INFERIOR DO
DEMANDANTE. SENTENÇA DE PARCIAL
PROCEDÊNCIA. INCONFORMISMO DO ENTE ESTATAL
QUE NÃO MERECE PROSPERAR. PROVA PERICIAL
PRODUZIDA NOS AUTOS CONCLUSIVA
DEMONSTRANDO QUE A AMPUTAÇÃO DO MEMBRO
INFERIOR ESQUERDO DO AUTOR DECORREU DE
INADEQUADO ACOMPANHAMENTO MÉDICO PELOS
PROFISSIONAIS DE SAÚDE ENCARREGADOS DO
PACIENTE. APELANTE QUE NÃO LOGROU ÊXITO EM
COMPROVAR O ROMPIMENTO DO NEXO CAUSAL.
RECONHECIMENTO DA FALHA NA PRESTAÇÃO DO
SERVIÇO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. ART. 37, §6º
DA CF/88. IMPOSITIVO DEVER DE REPARAÇÃO, ANTE
A MANIFESTA NEGLIGÊNCIA MÉDICA. VERBA
INDENIZATÓRIA A TÍTULO DE DANOS MORAIS (R$
200.000,00) FIXADA EM OBSERVÂNCIA AOS
PRINCÍPIOS DA PROPORCIONALIDADE E DA
RAZOABILIDADE E EM CONSONÂNCIA COM AS
ESPECIFICIDADES DO CASO CONCRETO. FALTA DE
PROVA DA RENDA AUFERIDA PELA VÍTIMA ANTES DO
EVENTO DANOSO, QUE NÃO IMPEDE O
(S) Apelação nº 0052353-05.2006.8.19.0001
ALVARO HENRIQUE TEIXEIRA DE ALMEIDA:16081 Assinado em 07/12/2022 04:04:51
Local: GAB. JDS ALVARO HENRIQUE TEIXEIRA DE ALMEIDA
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RECONHECIMENTO DO DIREITO AO PENSIONAMENTO,
ADOTANDO-SE COMO PARÂMETRO UM SALÁRIO
MÍNIMO MENSAL, NOS TERMOS DA SÚMULA N° 215,
DO TJRJ. DESPROVIMENTO DO RECURSO.
ACÓRDÃO
Vistos, discutidos e relatados estes autos de apelação cível, processo nº
0052353-05.2006.8.19.0001, em que figura como apelante ESTADO DO RIO DE
JANEIRO e apelado LUCIANO SLVA BARRETO.
A C O R D A M os Desembargadores que integram a 12ª Câmara Cível
do Tribunal de Justiça, por unanimidade, em NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO,
nos termos do voto do Relator.
RELATÓRIO
Trata-se de apelação cível interposta pela parte ré ESTADO DO RIO DE
JANEIRO contra sentença do Juízo da 6ª Vara da Fazenda Pública que, em ação de
obrigação de fazer ajuizada por LUCIANO SILVA BARRETO, julgou parcialmente
procedentes os pedidos nos seguintes termos (índice 000368):
“Luciano Silva Barreto, já qualificado, ajuizou ação em desfavor do
Estado do Rio de Janeiro em que pretende, pelos motivos
expostos na causa de pedir (erro médico), pensionamento mensal
(medida de urgência), colocação de prótese (medida de urgência),
fornecimento de cesta básica (medida de urgência), ressarcimento
de despesas com medicamentos e o arbitramento de indenização
por danos morais. A gratuidade de justiça foi deferida à fl. 34. O
réu foi citado e apresentou defesa. O autor falou em réplica.
Decisão de saneamento do processo no índice 83. O autor
informou não ter prova oral a produzir e apresentou quesitos
(índice 85). O réu também apresentou quesitos (índice 87). O E.
TJ-RJ manteve a decisão que homologou os honorários periciais
(índice 122). Laudo anexado no índice 139. Houve manifestações
das partes sobre o trabalho técnico. Seguiram-se tentativas de
intimação do perito para esclarecimentos. O Ministério Público
(S) Apelação nº 0052353-05.2006.8.19.0001
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requereu a substituição do perito e outras medidas (índice 184).
Determinou-se a substituição do perito (índice 196). Novas
mudanças de perito nos índices 199 e 211. Laudo às fls. 249-259.
Esclarecimentos periciais às fls. 289-290. O Ministério Público
informou que nada justifica a sua atuação no feito (fl. 297). Novos
esclarecimentos às fls. 319 e 341. Por fim, os autos foram
enviados ao grupo de sentença. É o breve relatório. Decido. A
responsabilidade civil das pessoas jurídicas de direito público
pelos danos causados por seus agentes é de natureza objetiva,
nos termos previstos no parágrafo sexto do artigo 37 da
Constituição Federal de 1988: "Artigo 37: A administração pública
direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados,
do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de
legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e,
também, ao seguinte: ... § 6º As pessoas jurídicas de direito
público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos
responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade,
causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o
responsável nos casos de dolo ou culpa. Para surgir a obrigação
de indenizar, basta à vítima, nestes casos, comprovar a violação
do direito, o dano e o nexo causal entre um e outro. No caso dos
autos, a prova pericial, em diferentes passagens e distintos
momentos, não deixa dúvida alguma de que a ausência de um
adequado atendimento e de um correto tratamento ao paciente foi
decisivo para a amputação da perna da vítima. "... É notório que a
avaliação superficial do quadro apresentado pelo Autor bem como
a alta hospitalar precoce, quando o Autor deveria ter permanecido
internado para avaliação mais detalhada e observação de
possíveis complicações previsíveis pelo tipo de lesão por
esmagamento apresentado pelo mesmo foram determinantes para
a perda do membro do Autor. Cabe ressaltar ainda que a demora
no atendimento ao paciente com hemorragia significativa poderia
ter resultado em choque hemorrágico e óbito do mesmo. Lesões
extensas ou não, de qualquer natureza, que ocasionem perda
sanguínea de grande monta devem ser abordadas e controladas o
mais rápido possível, a fim de evitar as consequências
supracitadas..." (fl. 255). ",,, O que se discute é muito mais
extenso e profundo do que, simplesmente o tipo de imobilização a
ser utilizada. Estamos falando de um caso de lesão vascular com
exposição óssea após esmagamento do membro, onde foi
realizada sutura + gesso, sem avaliação de cirurgião vascular e
alta inadvertida do paciente. Adicionalmente, estamos falando de
(S) Apelação nº 0052353-05.2006.8.19.0001
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uma lesão em membro inferior, onde não há possibilidade de uso
de tipóia..." (fl. 289). "... Do ponto de vista médico, o acidente foi
grave, com lesão vascular e esmagamento do membro. Assim, a
gravidade do acidente, por si só, poderia ter levado a perda do
membro, ainda no atendimento emergencial. No entanto, no caso
concreto, o autor recebeu alta sem perder o membro, ou seja, a
parte mais crítica do acidente foi superada. Todavia, a conduta
realizada pelo réu (sutura + gesso) no primeiro atendimento do
autor (conforme amplamente esclarecido no item 7 do Laudo
Pericial), sem avaliação de cirurgião vascular e a alta inadvertida
do paciente não encontram respaldo na Literatura Médica e, por
isso, contribuíram de forma determinante para a perda do membro
do mesmo. Esta Perita respondeu à pergunta anteriormente
informando que não poderia ser respondido do ponto de vista
técnico, pois ambos os fatos (gravidade do acidente e conduta
médica equivocada) poderiam ter contribuído para a perda do
membro do autor, já que a Medicina não é uma Ciência exata" (fl.
341). Não há dúvida alguma, portanto, de que não houve um
adequado atendimento e um correto tratamento por parte da
equipe médica, o que foi decisivo para a amputação da perna da
vítima. Em relação aos danos, a perícia esclareceu que: "O Autor
desenvolveu, após o acidente e posterior perda do membro,
quadro psíquico compatível com transtorno de estresse pós-
traumático, que agravou-se após a perda de seu pai. Realizou
acompanhamento psicológico na ABBR por 4 a 5 meses após o
ocorrido, estando sem acompanhamento psicológico no momento.
7.15 A Incapacidade Parcial Permanente (IPP) de membro inferior
esquerdo a ser considerada é de 75%, segundo BAREMO
Europeu - 2004. A IPP para transtorno de estresse pós-traumático
a ser considerado é de 12%, segundo BAREMO Europeu - 2004.
7.16 Atualmente, existe incapacidade laborativa para atividades
que requeiram deambulação e uso dos membros inferiores. Para
ganho laborativo, o Autor precisa de uma prótese adequada ao
formato do coto de amputação, que além de ser triangular não
apresenta coxim adiposo, causando muita dor ao se apoiar na
prótese. Mesmo com prótese adequada, o Autor ainda
apresentará incapacidade laborativa para atividades que
requeiram tempo prolongado em ortostase ou esforço físico
moderado a intenso. 7.17 O dano estético derivado da lesão em
membro inferior esquerdo é grave...". Enfim, configurada a
responsabilidade civil do Estado do Rio de Janeiro, demonstrada a
obrigação de indenizar e comprovados os danos sofridos pela
(S) Apelação nº 0052353-05.2006.8.19.0001
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vítima, determino, em primeiro lugar, que o réu seja condenado a
pagar pensão mensal vitalícia ao autor no valor equivalente a 87%
de um salário mínimo, pois provada a incapacidade laborativa
definitiva. Neste ponto, inexiste prova de eventual ganho maior da
vítima à época dos fatos ou em qualquer outro momento.
Determino, também, que, no prazo de sessenta dias, o Estado do
Rio de Janeiro providencie a substituição da prótese por uma
outra nas condições indicadas na perícia. Nestes dois pontos,
defiro a medida de urgência, pois o direito material foi reconhecido
e há perigo de dano irreparável ou de difícil reparação.
Reconheço, também, que o fato (perda definitiva de uma perna)
acarretou inegáveis constrangimentos, substancial insegurança,
abalo psicológico e o descrito dano estético, o que autoriza o
arbitramento da postulada indenização por danos morais. Quanto
ao valor da indenização e atento a critérios como culpabilidade,
condições econômicas dos envolvidos, razoabilidade e caráter
pedagógico-punitivo da verba e consequência do ato ou fato,
arbitro o montante indenizatório em R$ 200.000,00 (duzentos mil
reais). Por outro lado, não há comprovação de despesas com
medicamentos e inexiste amparo normativo para a condenação do
réu na entrega de cestas básicas de forma cumulada ao
pensionamento mensal. Ante o exposto, com fundamento no
inciso I do artigo 487 do CPC, acolho, em parte, os pedidos para
condenar o réu a pagar ao autor a quantia de R$ 200.000,00
(duzentos mil reais), por danos morais, com correção monetária a
partir da sentença e juros de mora a contar da citação. Condeno o
réu, ainda, a pagar pensão correspondente a 87% de um salário
mínimo ao autor de forma vitalícia. Determino, também, que, no
prazo de sessenta dias, o Estado do Rio de Janeiro providencie a
substituição da prótese por uma outra nas condições indicadas na
perícia. Defiro a medida de urgência nestes dois pontos, pois
demonstrados os requisitos legais. Em relação aos juros
moratórios e à correção monetária devem ser observados os
parâmetros fixados no Tema 810 do STF: "1) O art. 1º-F da Lei nº
9.494/97, com a redação dada pela Lei nº 11.960/09, na parte em
que disciplina os juros moratórios aplicáveis a condenações da
Fazenda Pública, é inconstitucional ao incidir sobre débitos
oriundos de relação jurídico-tributária, aos quais devem ser
aplicados os mesmos juros de mora pelos quais a Fazenda
Pública remunera seu crédito tributário, em respeito ao princípio
constitucional da isonomia (CRFB, art. 5º, caput); quanto às
condenações oriundas de relação jurídica não-tributária, a fixação
(S) Apelação nº 0052353-05.2006.8.19.0001
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dos juros moratórios segundo o índice de remuneração da
caderneta de poupança é constitucional, permanecendo hígido,
nesta extensão, o disposto no art. 1º-F da Lei nº 9.494/97 com a
redação dada pela Lei nº 11.960/09; 2) O art. 1º-F da Lei nº
9.494/97, com a redação dada pela Lei nº 11.960/09, na parte em
que disciplina a atualização monetária das condenações impostas
à Fazenda Pública segundo a remuneração oficial da caderneta
de poupança, revela-se inconstitucional ao impor restrição
desproporcional ao direito de propriedade (CRFB, art. 5º, XXII),
uma vez que não se qualifica como medida adequada a capturar a
variação de preços da economia, sendo inidônea a promover os
fins a que se destina. Condeno o réu, por fim, no pagamento dos
honorários advocatícios, que arbitro no mínimo legal, em atenção
aos requisitos do parágrafo segundo do artigo 85 do CPC, cuja
porcentagem, no entanto, deverá ser estabelecida na fase de
liquidação do julgado, nos termos do inciso II do parágrafo quarto
do mesmo artigo, já que o autor decaiu de parte mínima dos
pedidos. Encaminhe-se em remessa necessária diante da iliquidez
da condenação. Com o trânsito em julgado da sentença e não
havendo qualquer pendência, óbice ou custas a pagar, dê-se
baixa e arquivem-se os autos em respeito aos atos normativos.
Ciência ao Ministério Público. PRI.”
Opostos embargos de declaração pela parte autora (índice 000393), a
sentença foi integrada pela decisão constante do índice 000417, nos seguintes termos:
“Recebo os embargos de declaração por serem tempestivos e dou
provimento ao recurso para fixar multa diária de R$ 200,00
(duzentos reais) em caso de descumprimento da obrigação de
fazer (substituição da prótese), a contar da intimação desta
decisão, que passa a integrar a sentença. Intimem-se.”
Apelação do réu (índice 000424), alegando em síntese, que, em se
tratando de atuação técnico-profissional dos profissionais da saúde, a
responsabilidade é subjetiva, ou seja, depende de comprovação de culpa que, o que
não ocorreu na hipótese dos autos.
Acrescenta que a prova pericial produzida no processo não comprova a
ocorrência de qualquer falha nos serviços médicos prestados ao autor.
(S) Apelação nº 0052353-05.2006.8.19.0001
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DÉCIMA SEGUNDA CÂMARA CÍVEL
Afirma que a indenização a título de dano moral fixada na sentença é
excessiva.
Defende, ainda, a impossibilidade de pagamento de pensionamento
mensal ao autor, diante da ausência de prova de eventual renda auferida pelo mesmo.
Requer, a reforma da sentença julgando improcedente a pretensão
autoral, ou subsidiariamente, pugna pela redução do dano moral e do percentual fixado
a título de pensionamento.
Contrarrazões (índice 000442) pelo desprovimento do recurso.
Parecer da D. Procuradoria de Justiça (índice 000461), no sentido de não
possuir interesse em intervir no feito.
VOTO
Em juízo de admissibilidade, reconheço a presença dos requisitos
intrínsecos e extrínsecos, imprescindíveis à interposição do recurso, pelo que merece
ser conhecido.
Trata-se de ação de responsabilidade civil fundada em danos morais
decorrentes de erro médico atribuído ao Estado réu e que gerou a amputação do
membro inferior esquerdo do autor.
Com efeito, cumpre assinalar que na condição jurídica de direito público,
a edilidade tem o limite de sua responsabilidade civil estabelecido no art. 37, § 6º, da
Constituição da República, segundo o qual, verbis:
“As pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado
prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que
seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado
o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou
culpa.”
(S) Apelação nº 0052353-05.2006.8.19.0001
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Trata-se, pois, da chamada responsabilidade objetiva atribuível às
pessoas jurídicas de direito público, que devem responder pelos danos causados a
terceiros independentemente da prova de culpa no evento danoso.
A atividade administrativa a que se refere o dispositivo constitucional
engloba, não apenas a conduta comissiva do ente federativo, mas também a omissa,
valendo trazer o seguinte ensinamento doutrinário:
“Em nosso entender, o art. 37,§ 6º, da Constituição, não se refere
apenas à atividade comissiva do Estado; pelo contrário, a ação a
que alude engloba tanto a conduta comissiva como omissiva. (...)
É preciso, ainda, distinguir omissão genérica do Estado (item 77)
e omissão específica. (...) Haverá omissão específica quando o
Estado, por omissão sua, crie a situação propícia para a
ocorrência do evento em situação em que tinha o dever de agir
para impedi-lo. (...) Os nossos Tribunais têm reconhecido a
omissão específica do estado quando a inércia administrativa é a
causa direta e imediata do não impedimento do evento, como nos
casos de morte de detento em penitenciária e acidente com aluno
de colégio público durante o período de aula.”(Sergio Cavalieri,
Programa de responsabilidade Civil, 8ª edição, Editora Atlas,
p.239-241”
Compulsando os autos, verifica-se que, não obstante alegue o apelante
ausência de falha nos serviços médicos prestados ao apelado, a prova pericial
produzida (índice 000249) com esclarecimentos no índice 000289, foi conclusiva no
sentido de demonstrar que a amputação do membro inferior do apelado decorreu de
inadequado acompanhamento médico pelos profissionais de saúde encarregados do
paciente, conforme se observa do seguinte trecho extraído do laudo pericial em
questão:
“(...) É notório que a avaliação superficial do quadro apresentado
pelo Autor bem como a alta hospitalar precoce, quando o
Autor deveria ter permanecido internado para avaliação mais
detalhada e observação de possíveis complicações previsíveis
pelo tipo de lesão por esmagamento apresentado pelo mesmo
foram determinantes para a perda do membro do Autor. Cabe
ressaltar ainda que a demora no atendimento ao paciente com
(S) Apelação nº 0052353-05.2006.8.19.0001
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hemorragia significativa poderia ter resultado em choque
hemorrágico e óbito do mesmo. Lesões extensas ou não, de
qualquer natureza, que ocasionem perda sanguínea de grande
monta devem ser abordadas e controladas o mais rápido possível,
a fim de evitar as consequências supracitadas. 7.14 O Autor
desenvolveu, após o acidente e posterior perda do membro,
quadro psíquico compatível com transtorno de estresse pós-
traumático, que agravou-se após a perda de seu pai. Realizou
acompanhamento psicológico na ABBR por 4 a 5 meses após o
ocorrido, estando sem acompanhamento psicológico no momento.
7.15 A Incapacidade Parcial Permanente (IPP) de membro
inferior esquerdo a ser considerada é de 75%, segundo
BAREMO Europeu – 2004. A IPP para transtorno de estresse pós-
traumático a ser considerado é de 12%, segundo BAREMO
Europeu – 2004. 7.16 Atualmente, existe incapacidade laborativa
para atividades que requeiram deambulação e uso dos
membros inferiores. Para ganho laborativo, o Autor precisa
de uma prótese adequada ao formato do coto de amputação,
que além de ser triangular não apresenta coxim adiposo,
causando muita dor ao se apoiar na prótese. Mesmo com prótese
adequada, o Autor ainda apresentará incapacidade laborativa
para atividades que requeiram tempo prolongado em ortostase
ou esforço físico moderado a intenso. 7.17 O dano estético
derivado da lesão em membro inferior esquerdo é grave.
O apelante, por sua vez, não apresentou qualquer prova capaz de afastar
as conclusões a que chegou o profissional responsável pela elaboração do laudo
pericial, na forma do que estabelece o previsto no art. 373, II, do Código de Processo
Civil.
Nesse passo, há que se concluir a falha no atendimento médico e, por
conseguinte, responsabilização do ente federativo, impondo-se o dever de indenizar,
sendo o dano moral incontroverso nos autos.
A indenização, em tais casos, além de servir como compensação pelo
sofrimento experimentado, deve também ter caráter pedagógico-punitivo de modo a
desestimular condutas semelhantes.
(S) Apelação nº 0052353-05.2006.8.19.0001
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O douto magistrado sentenciante, por atuar em esfera mais próxima das
circunstâncias de tempo e espaço na análise dos fatos, possui melhores condições de
fixar verba compensatória em harmonia com os princípios da razoabilidade e
proporcionalidade, como se exige para casos tais.
Assim, considerando-se os parâmetros supramencionados, além das
peculiaridades do caso (perda de membro inferior), afigura-se adequado manter o valor
fixado pelo juiz a quo, de R$ 200.000,00, quantia que atende aos princípios da
proporcionalidade e da razoabilidade, não merecendo, portanto, qualquer reparo.
Vejamos a jurisprudência desta Câmara:
APELAÇÕES CÍVEIS. DIREITO À SAÚDE. REDE PÚBLICA
DE ATENDIMENTO. ERRO MÉDICO. PACIENTE QUE DEU
ENTRADA EM HOSPITAL MUNICIPAL COM QUADRO DE
HEMORRAGIA INTERNA, ROTURA DE BAÇO E FRATURA NA
BACIA, PORÉM, EM RAZÃO DA AUSÊNCIA DE DIAGNÓSTICO
CORRETO, ASSOCIADO À DEMORA DE MAIS DE SETE DIAS
PARA A PRESTAÇÃO DO TRATAMENTO ADEQUADO,
EVOLUIU PARA ÓBITO. LAUDO PERICIAL CONCLUSIVO.
RECONHECIMENTO DO ERRO MÉDICO. VALOR DA
INDENIZAÇÃO. PENSIONAMENTO. Marido da autora sofreu
acidente de trânsito e foi levado ao atendimento do Hospital réu,
tendo sido diagnosticado com fratura na bacia. Permaneceu
alocado nos corredores por 7 dias aguardando a realização da
cirurgia. Grave erro no diagnóstico que não verificou a rotura
do baço e a hemorragia interna. Demora na prestação do
tratamento adequado que foi determinante para o resultado
morte. Sentença que julgou parcialmente procedentes os pedidos
para condenar o réu ao pagamento de R$ 100.000,00 (cem
mil reais) por danos morais e improcedente o pedido de danos
materiais. Condenou as partes ao rateio das despesas
processuais e ao pagamento de honorários advocatícios que
fixou em 10%, na forma do artigo 85 do Código de Processo
Civil. Responsabilidade civil do estado. Matéria regulada
pelo artigo 37, § 6º, da Constituição Federal. Ao analisar a
documentação médica, a expert do juízo asseverou que houve
avaliação incorreta da lesão, foi contundente ao explanar a falta
de acurácia quando do diagnóstico e destacou que a demora
(S) Apelação nº 0052353-05.2006.8.19.0001
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para diagnosticar e tratar o problema foram determinantes para a
queda do estado geral do paciente. Ocorrência do erro médico
cabalmente demonstrada. Dano moral igualmente caracterizado,
tendo em conta a evidente violação de direitos da
personalidade de vítimas indiretas do evento. Perda de um ente
querido que, indiscutivelmente, gera abalo moral avassalador
e incomensurável, sobretudo quando ocorre em circunstâncias
tão repudiáveis. Quantum Reparatório. Utilização de método
bifásico para arbitramento do dano. Valorização do interesse
jurídico lesado e das circunstâncias do caso concreto. Verba
reparatória majorada para R$ 190.000,00 (cento e noventa mil
reais). Pensionamento à apelante-autora que também é devido.
De fato, a jurisprudência deste Tribunal Estadual e do Superior
Tribunal de Justiça é pacífica no sentido de que há presunção
relativa de dependência econômica entre os membros de
famílias de baixa renda, ainda que a vítima não exercesse
trabalho remunerado. Majoração de honorários advocatícios, na
forma do artigo 85, §11º do Código de Processo Civil.
PROVIMENTO DO 1º RECURSO E DESPROVIMENTO DO 2º
RECURSO. (Apelação nº 0017137-45.2007.8.19.0066-Des.
Alcides da Fonseca Neto- julgamento:12/04/2022- Décima
Segunda Câmara Cível)
APELAÇÃO CÍVEL. REMESSA NECESSÁRIA. AÇÃO
INDENIZATÓRIA AJUIZADA CONTRA O MUNICÍPIO. ERRO
MÉDICO. ASFIXIA NO PARTO. RESPONSABILIDADE
OBJETIVA. SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA. APELO DO
MUNICÍPIO. Para a configuração da responsabilidade objetiva do
Estado é necessário a existência do nexo causal, ou seja, que a
ação ou omissão do agente tenha relação direta com o evento
danoso. autora foi admitida no hospital as 09:00h em trabalho de
parto, com dores e perda de líquido. Entretanto, o parto foi
realizado somente às 13:02h. O ilustre perito afirmou que houve
dano permanente à criança e que a provável causa de anóxia é
a compressão do cordão umbilical intra útero, depois da perda
de líquidos, pois havia bolsa rota. Réu não forneceu o prontuário
médico completo, não se desincumbindo do ônus de
comprovar fato modificativo, impeditivo ou extintivo do direito
dos autores. Dano moral configurado. Os pais tinham a
expectativa de ter uma filha saudável, mas em razão da
conduta do réu tiveram que compartilhar do sofrimento da
menor com paralisia cerebral
(S) Apelação nº 0052353-05.2006.8.19.0001
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ao longo dos seus 6 anos de vida. Verba indenizatória fixada
em 200 salários mínimos que deve ser mantida. Nulidade da
sentença que se rejeita. O pedido foi de condenação de 200
salários mínimos, exatamente o concedido. Sentença que se
mantém. Recurso conhecido e improvido, nos termos do voto do
Desembargador Relator. (Apelação nº 0011049-
62.2009.8.19.0052-Des. Cherubin Schwartz-
julgamento:08/10/2021- Décima Segunda Câmara Cível)
Acresce que não sendo manifestamente desarrazoado o valor
arbitrado e não demonstrada objetivamente sua exasperação ou exiguidade, deve
a decisão do juízo a quo ser prestigiada, conforme entendimento jurisprudencial
dominante nesta Corte, sintetizado na Súmula 343, com a seguinte redação: “a verba
indenizatória do dano moral somente será modificada se não atendidos pela
sentença os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade na fixação do valor da
condenação.”
No que toca à obrigação de pagamento pensionamento ao apelado, o
mesmo comprovou que exercia, antes do acidente, atividade laborativa de motorista
(fls. 28-índice 000011), sendo certo que a amputação de seu membro inferior
certamente afetou tal atividade, tornando o seu exercício inviável, o que justifica a
concessão da referida verba.
Registre-se, ademais, que, nos termos do enunciado n° 215 deste
Tribunal de Justiça, "a falta de prova da renda auferida pela vítima antes do evento
danoso não impede o reconhecimento do direito ao pensionamento, adotando-se como
parâmetro um salário mínimo mensal."
Por força de tais fundamentos, voto no sentido de NEGAR
PROVIMENTO AO RECURSO e, por consequência, com fulcro no §11 do art.85 do
CPC, majorar a verba honorária decorrente da sucumbência em 1% do valor apontado
na origem, a ser apurado na fase de liquidação, manendo-se, no mais, a sentença tal
como lançada.
(S) Apelação nº 0052353-05.2006.8.19.0001
PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 486
TRIBUNAL DE JUSTIÇA
DÉCIMA SEGUNDA CÂMARA CÍVEL
Rio de Janeiro, 01 de dezembro de 2022.
JDS. DES. ÁLVARO HENRIQUE TEIXEIRA DE ALMEIDA
Relator
(S) Apelação nº 0052353-05.2006.8.19.0001