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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
VIGÉSIMA CÂMARA DE DIREITO PRIVADO
APELAÇÃO CÍVEL Nº 0006109-07.2012.8.19.0066
APELANTE 1: BRADESCO SAÚDE S/A
APELANTE 2: ALESSANDRA PEREIRA DE MIRANDA
APELANTES 3: MARCUS VINICIUS MENEZES OLIVEIRA E OUTRA
APELANTE 4: JULIANO SOUZA LIMA VIANNA
APELADOS 1: OS MESMOS
APELADO 2: SIMONE VIEITAS
APELADO 3: HOSPITAL VITA VOLTA REDONDA S/A
RELATOR: DES. CESAR CURY
APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE REPARAÇÃO DE
DANOS MATERIAIS E MORAIS. ERRO MÉDICO.
PROFISSIONAL DE MEDICINA QUE TEM O
DEVER DE AGIR COM DILIGÊNCIA E CUIDADO
NO EXERCÍCIO DA SUA PROFISSÃO, CONDUTA
EXIGÍVEL DE ACORDO COM O ESTADO DA
CIÊNCIA E AS REGRAS CONSAGRADAS PELA
PRÁTICA MÉDICA. DOUTRINA. PROVA
PERICIAL CONCLUSIVA. RESPONSABILIDADE
CONFIGURADA. SENTENÇA DE PARCIAL
PROCEDÊNCIA MANTIDA. DESPROVIMENTO DOS
RECURSOS.
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos da Apelação
Cível nº 0006109-07.2012.8.19.0066, em que são apelantes
BRADESCO SAÚDE S/A, ALESSANDRA PEREIRA DE MIRANDA, MARCUS
VINICIUS MENEZES OLIVEIRA E JENNYFER GOMES SILVA, e JULIANO
SOUZA LIMA VIANNA, e apelados OS MESMOS, SIMONE VIEITAS e
HOSPITAL VITA VOLTA REDONDA S/A, acordam, por UNANIMIDADE de
votos, os desembargadores que compõem a Vigésima Câmara de
Direito Privado do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de
Janeiro, em NEGAR PROVIMENTO aos recursos, nos termos do voto
do Relator.
Assinado em 01/03/2023 18:15:13
CESAR FELIPE CURY:15416 Local: GAB. DES. CESAR FELIPE CURY
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VOTO
Trata-se de recurso de apelação em que se veicula
irresignação com a sentença (fls. 867/874, aditada às fls.
982/982v.) do MM. Juízo da 1ª Vara Cível da Comarca de Volta
Redonda do seguinte teor, em seu dispositivo, reconhecendo
erro médico:
Ante o exposto, JULGO PROCEDENTES EM
PARTE OS PEDIDOS formulados na petição
inicial e, em consequência, CONDENO os
1°, 2°, 3° e 5° Réus a pagarem aos
Autores, na proporção de metade para
cada um, quantia de R$ 200.000,00,
pelos danos morais sofridos, atualizada
com juros de mora de 1%, desde a
citação, e correção monetária, a partir
da sentença, bem como pensão por morte
no valor de R$ 998,00 mensais, devida
integralmente desde a data do óbito do
filho dos Autores (18/12/2011) até a
data em que a vítima completaria 24
anos e, a partir daí, pensão reduzida
em 2/3, até a idade provável da vítima,
65 anos, cujas parcelas deverão ser
atualizadas com juros de mora de 1% ao
mês, e correção monetária, desde cada
vencimento.
No tocante à 4a Ré, JULGO IMPROCEDENTES
OS PEDIDOS.
Julgo extinto o processo, com análise
do mérito análise do mérito, na forma
do artigo 487, inciso I, do Código de
Processo Civil.
Com fulcro no princípio da causalidade,
condeno 1°, 2º, 3º e 5° Réus no
pagamento das despesas processuais e de
honorários advocatícios, que arbitro em
10% sobre o valor da condenação.
P.I.
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Acórdão - p. 2
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Certificado o trânsito em julgad dê-se
baixa e arquive-se.
Apela a seguradora de planos de saúde às fls. 888/909,
aduzindo, em síntese, que é parte ilegítima para figurar no
polo passivo, sendo responsável tão somente pelo custeio das
despesas médico-hospitalares para rede referenciada; que não
há por parte da seguradora qualquer responsabilidade por danos
físicos ou morais à saúde provocados por profissionais ou
instituições prestadores de serviços médico-hospitalares,
integrantes, ou não, de lista de referência da seguradora; que
a opção pelo hospital e/ou médico, segundo critérios
subjetivos de preferência, ficará sempre a cargo da parte
beneficiária do seguro; que os profissionais e hospitais
credenciados apresentam um vínculo de dependência e de
preposição com os planos de saúde, enquanto que os
referenciados mantêm sua autonomia; que cabe à seguradora
apenas reembolsar as despesas médico-hospitalares de seus
segurados; que não impôs que a cirurgia fosse realizada pela
referida médica, no hospital escolhido pelo beneficiário; que
os médicos e estabelecimentos referenciados não têm vínculo
empregatício com a seguradora; que não há nexo de causalidade
entre a atuação da seguradora de planos de saúde e o evento,
ocorrido por atos de terceiros; que cobriu todas as despesas;
que se algum dano moral foi causado pela conduta do
profissional responsável pela cirurgia – não podendo, contudo,
ser descartada a possibilidade dos médicos terem feito tudo o
que estava ao seu alcance -, tal dano não foi provocado pela
seguradora; que inexistem danos morais com relação à
seguradora; que o valor arbitrado foi superestimado; que O
suposto inadimplemento contratual não gera dano moral; e que
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não há como se presumir que uma criança de dois anos de idade
trabalhe e auxilie os pais com as despesas.
O apelo da terceira ré está às fls. 928/934,
sustentando, em resumo, que, não obstante o triste resultado
final, em nenhum momento omitiu qualquer tipo de assistência
junto ao seu paciente; que, após a cirurgia, deixou o paciente
sob observação e aos cuidados médicos e de enfermaria do
hospital em que foi realizada a cirurgia; que o
desencadeamento do processo de vômito (segundo relata a
inicial) não é estranho a pacientes que passam por esse tipo
de procedimento cirúrgico, sobretudo na idade do paciente; que
adotou os procedimentos necessários para fazer cessar os
vômitos do paciente; que, constatando que o mesmo evoluía para
convulsão, foi feita solicitação para encaminhamento para a
UTI; que em qualquer situação de pós-cirurgia, quando o
paciente se encontra em repouso e observação, sob os cuidados
hospitalares, e não numa clínica qualquer, todo cirurgião
segue a sua rotina, observando os cuidados auxiliares do
hospital que assiste seu paciente, pois não há como o
cirurgião estar presente em todos os leitos após as cirurgias;
que no hospital há UTI infantil; que em nenhum momento
abandonou seu paciente à própria sorte; que a evolução do
quadro do paciente se deu, conforme registra a literatura
médica e na visão e experiência de especialista que participou
com precioso depoimento (que não pode ser descartado), não por
omissão da ora apelante, mas por situação diversa de sua
conduta; e que é descabida a sua condenação.
Os autores recorrem (fls. 983/987), argumentando que,
com a manutenção dos valores e a forma de pagamento da
condenação, serão os apelados agraciados para continuar a
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brincar com as vidas alheias; que a indenização por danos
morais deve ser majorada para o patamar de R$ 761.328,00,
corrigidos e com juros de mora de 1% ao mês, desde a data do
evento; e que a pensão há de ser aumentada para três salários
mínimos.
A apelação do quinto réu está às fls. 992/1.001,
arguindo que houve a cautela médica de realizar exames pré-
operatórios, que teriam revelado anormalidade na coagulação da
criança, mas que se encontravam dentro da faixa aceitável, ou
seja, insignificante para apresentar qualquer risco; que antes
e durante o ato cirúrgico utilizou os meios necessários e
indicados pela ciência para o caso específico; que não foi
apontado nos autos que agiu de má-fé, antes e durante o ato
cirúrgico, na dosagem dos medicamentos utilizados para a
anestesia; que, após a cirurgia, foi comprovado pelo perito
que em nenhum momento no pós-operatório o recorrente foi
acionado ou informado do que estava acontecendo com o
paciente; que foram adotados os procedimentos necessários
antes da liberação do paciente da sala de cirurgia para a
enfermaria; que o expert do Juízo concluiu pela inexistência
de erro médico, entendendo que a complicação resultante do
procedimento cirúrgico, qual seja, vômitos, é relativamente
comum nas cirurgias de uma forma geral e na maioria das vezes
podem acontecer mesmo quando são observadas todas as regras da
boa prática cirúrgica ou anestésica; e que não foi constatada
qualquer imperícia, negligência ou imprudência na conduta
médica do recorrente que ensejasse reparação aos autores.
Contrarrazões às fls. 1.006/1.017, 1.020/1.023 e
1.024/1.051.
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Brevemente relatados, passa-se ao julgamento.
Encontram-se presentes os requisitos de admissibilidade
do recurso, que deve ser, por conseguinte, conhecido.
O laudo pericial encontra-se fundamentado, não
suscitando quaisquer dúvidas quanto às conclusões nele
contidas, além do que o expert que realizou a prova técnica
possui a habilitação necessária para a avaliação médica.
Quanto ao tema de fundo, o hospital responde de forma
solidária e objetiva por defeitos na prestação de serviço
médico por profissionais a ele vinculados, desde que apurada a
culpa do profissional (AgInt no AREsp 1581823/DF, Rel.
Ministro MARCO BUZZI, QUARTA TURMA, julgado em 23/03/2020, DJe
25/03/2020).
No mesmo norte: (i) as obrigações assumidas diretamente
pelo complexo hospitalar limitam-se ao fornecimento de
recursos materiais e humanos auxiliares adequados à prestação
dos serviços médicos e à supervisão do paciente, hipótese em
que a responsabilidade objetiva da instituição (por ato
próprio) exsurge somente em decorrência de defeito no serviço
prestado (artigo 14, caput, do CDC); (ii) os atos técnicos
praticados pelos médicos, sem vínculo de emprego ou
subordinação com o hospital, são imputados ao profissional
pessoalmente, eximindo-se a entidade hospitalar de qualquer
responsabilidade (artigo 14, § 4º, do CDC); e (iii) quanto aos
atos técnicos praticados de forma defeituosa pelos
profissionais da saúde vinculados de alguma forma ao hospital,
respondem solidariamente a instituição hospitalar e o
profissional responsável, apurada a sua culpa profissional
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(AgInt no AREsp 1532855/SP, Rel. Ministro RAUL ARAÚJO, QUARTA
TURMA, julgado em 21/11/2019, DJe 19/12/2019).
Sobre operadora de plano de saúde, reconhecida a
responsabilidade do médico pelos danos causados, a empresa à
qual era conveniado o profissional, na condição de fornecedora
de serviço, responde solidariamente perante o consumidor
(AgInt no AgInt no AREsp 998.394/SP, Rel. Ministro MARCO
BUZZI, QUARTA TURMA, julgado em 26/10/2020, DJe 29/10/2020),
sendo certo que responde ela objetivamente (AgInt no AREsp
1561095/SP, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA,
julgado em 24/08/2020, DJe 26/08/2020).
No sistema judicial brasileiro, as Cortes Superiores
têm dentre suas atribuições a uniformização da jurisprudência,
o que indica que os tribunais estaduais e regionais devem
seguir seus precedentes, ainda que emitidos em caráter formal
não vinculativo. Com isso, se pretende assegurar a integridade
da interpretação e conferir segurança ao sistema jurídico.
A responsabilidade das operadoras de planos de saúde
independe de os médicos serem credenciados ou referenciados,
na forma de precedentes desta Corte de Justiça:
Direito da Saúde. Responsabilidade
Civil. Falha na prestação do serviço
médico-hospitalar. Falhas do hospital
comprovadas por laudo pericial.
Responsabilidade objetiva e solidária
da operadora do plano.
A negligência e imperícia dos médicos
cooperados restaram constatadas pela
perícia técnica, a qual esclareceu que
o diagnóstico de displasia congénita
deveria ter sido feito ainda na sala de
parto.
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As seguradoras ou operadoras de plano
de saúde que oferecem médicos
credenciados ou referenciados se
responsabilizam pelos danos decorrentes
do profissional indicado que atuar com
culpa e da má prestação do serviço
hospitalar. Dano moral e material
configurados.
Precedente: "Direito do Consumidor.
Ação indenizatória. Plano de saúde.
Erro médico. Diagnóstico incorreto.
Sentença de parcial procedência do
pedido inicial. Aplicação das normas do
Código de Defesa do Consumidor.
Responsabilidade objetiva da operadora
de plano de saúde. Laudo pericial a
fls. 208/227, conclusivo no sentido de
que o caso clínico foi malconduzido
pelos prepostos da ré. O expert foi
enfático em afirmar que os sintomas
apresentados pela Autora ensejariam
procedimento mais cauteloso,
consignando tratar-se de diagnóstico de
baixa dificuldade, se devidamente
conduzido e investigado. Dano material
e moral caracterizados. Manutenção da
verba compensatória, arbitrada segundo
os princípios constitucionais da
proporcionalidade e da razoabilidade,
nos termos do enunciado nº 343 da
Súmula desta Corte Estadual.
Precedentes deste TJRJ. Fixação dos
honorários recursais. Inteligência do §
11, do art. 85, do Código de Processo
Civil. Recurso que se nega provimento.
". (0254588-53.2009.8.19.0001 -
Apelação Des(A). Denise Levy Tredler -
Julgamento: 15/10/2019 - Vigésima
Primeira Câmara Cível).
Desprovimento do recurso.
(0046184-12.2011.8.19.0038 - APELAÇÃO.
Des(a). NAGIB SLAIBI FILHO -
Julgamento: 11/03/2020 - SEXTA CÂMARA
CÍVEL)
Apelação Civel. Relação de consumo.
Responsabilidade Civil. Ação
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indenizatória por danos materiais e
morais.
Reparação decorrente de erro médico
cometido durante o ato cirúrgico, que
causou o pinçamento do nervo da perna
esquerda, acarretando a perda total dos
movimentos do membro inferior.
A empresa prestadora do plano de
assistência à saúde é parte legitimada
passivamente para ação indenizatória
proposta pelo associado em decorrência
de erro médico por profissional por ela
credenciado.
A responsabilidade do plano de saúde é
solidária e objetiva, uma vez que
indica a rede credenciada e médicos
referenciados fazendo o consumidor se
submeter aos seus serviços.
Precedentes. Superior Tribunal de
Justiça.
Perícia médica que concluiu que houve
erro médico causando lesão permanente e
definitiva em membro inferior esquerdo,
o que se enquadra como doença
incapacitante, já que não mais poderá
exercer a sua profissão de motorista de
carga e/ou ónibus.
Falha na prestação do serviço que impõe
o dever de indenizar os danos materiais
(lucros cessantes e pensão vitalícia),
danos morais e danos estéticos.
Sentença de procedência.
Apelação de ré alegando cerceamento de
defesa face ao indeferido da
denunciação à lide e ilegitimidade
passiva. Aplicação das súmulas 92 e 240
do TJERJ.
Recurso adesivo do autor para majorar
os danos morais, Verba indenizatória
que não se adequa a repercussão dos
fatos, merecendo contundente majoração
para R$ 60.000,00, em razão da lesão
permanente e definitiva da perna
esquerda, que o tornou incapaz para
exercer seu ofício, causando sofrimento
de quem passará o resto da vida com
essa deformidade.
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NEGA-SE PROVIMENTO À APELAÇÃO DO RÉU E
DÁ-SE PROVIMENTO AO RECURSO ADESIVO DO
AUTOR
(0025106-02.2014.8.19.0023 - APELAÇÃO.
Des(a). JDS. ANA CÉLIA MONTEMOR SOARES
RIOS GONÇALVES - Julgamento: 24/01/2018
- VIGÉSIMA QUARTA CÂMARA CÍVEL)
No curso da instrução, procedeu-se à prova técnica,
assim consignando o expert do Juízo (fls. 649/672):
(...).
Entendemos que a indicação de
realização da cirurgia (...) foi
correta e precisa, principalmente
levando-se em consideração a idade do
menor, o relato de roncos noturnos
frequentes e o exame de fls. 24, que
relata: “hipertrofia de partes moles
que revestem a parede posterior do
rinofaringe com características de
vegetações adenoides promovendo redução
da coluna aérea do cavum”. Trata-se de
cirurgia eletiva, porém necessária para
o bem estar físico do paciente.
(...).
A cirurgia de Adenoamigdalectomia foi
realizada em 14/12/2011 (folhas 44).
Apresentou complicação previsível,
porém não desejável de vômitos. Tal
complicação tem relação de causalidade
com o ato cirúrgico e anestésico.
(...).
Os vômitos são relativamente comuns nas
cirurgias de uma forma geral e na
maioria das vezes podem acontecer mesmo
quando são observadas todas as regras
da boa prática cirúrgica ou anestésica.
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Conforme os diferentes relatos do
prontuário médico, a criança apresentou
diversos episódios de vômitos.
(...).
Não encontramos nos autos nenhuma
comprovação de avaliação médica
presencial da criança no período entre
12:00 e 20:00.
Não encontramos nos autos nenhuma
comprovação de avaliação médica da
criança no período entre 16:00 e 20:00.
Em nosso entendimento, esse atraso na
avaliação médica da criança contribuiu
para a instalação do quadro de
hiponatremia.
A hiponatremia era evento previsível
após o relato dos episódios de vômitos
recorrentes e refratários. Sua suspeita
torna-se ainda maior com os relatos de
convulsões.
Não encontramos nos autos
justificativas para esse lapso temporal
entre as queixas e sintomas relatados e
as medidas que se faziam necessárias.
O primeiro exame de sangue para se
avaliar o sódio da criança consta nos
autos como tendo sido realizado às
01:35 horas, somente após a sua chegada
em outra unidade.
Após a transferência realizada nela
parte Ré, a criança começou a per
submetida a Tratamento Intensivo. Para
tal, em nosso entendimento, foram
realizados todos os meios disponíveis
na tentativa de recuperação da criança.
Tais procedimentos rotineiramente
usados certamente contribuíram na
tentativa de afastar o resultado
indesejável.
Apelação Cível nº 0006109-07.2012.8.19.0066 5
Acórdão - p. 11
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Apesar de todo o tratamento instituído,
a CAUSA MORTIS foi HIPONATREMIA e EDEMA
CEREBRAL.
Portanto, podemos concluir que o óbito
tem relação causal com a hiponatremia e
edema cerebral apresentado e, portanto,
com o atraso na avaliação médica e nas
medidas que se faziam necessárias.
(...).
O perito anotou, ainda, que há nexo de causalidade
entre as lesões apresentadas e o evento narrado (fl. 669).
Além disso, indagado se não houvesse a demora no
atendimento, a criança não chegaria a óbito, o perito
respondeu que, certamente, as chances de óbito seriam
reduzidas, proporcionalmente à redução do atraso, concluindo
que os episódios de vômitos e a consequente hiponatremia foram
a causa determinante do óbito, associados à demora no
atendimento, que contribuiu como concausa superveniente para o
óbito (fl. 664).
Assim, diante da prova produzida, os réus não lograram
êxito em afastar a sua responsabilidade no lamentabilíssimo
evento, ressaltando-se que não foi apresentado no recurso
argumento que desqualificasse o resultado da prova produzida
em juízo, nem a expertise e a idoneidade do perito, que
apontou que a complicação tem relação de causalidade com o ato
cirúrgico e anestésico.
O anestesista, segundo João Monteiro de Castro, tem sua
atuação estratificada em fases, sendo a de recuperação
anestésica aquela que consiste em trazer o paciente às
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condições prévias à anestesia. O paciente, paulatinamente, vai
readquirindo seus reflexos, apresentando com muita frequência,
náusea e vômito. (...). A preocupação com o paciente é tão
grande na fase que se instalou sala de recuperação anestésica,
em que vários doentes são monitorados permanentemente por
anestesiologistas e enfermagem especializada (Responsabilidade
Civil do Médico. São Paulo: Editora Método, 2005, p. 163).
Gustavo Tepedino também leciona a respeito das fases,
classificando-as como: pré-operatória, quando procede seu
diagnóstico, em que avalia o risco anestésico, em face dos
exames clínicos do paciente; operatória, em que ministra os
anestésicos e controla os seus efeitos, de acordo com a
evolução da intervenção cirúrgica; e pós-operatória, momento
em que deve monitorar a recuperação dos sentidos do paciente,
verificando a temperatura, oxigenação, pressão arterial, etc
(A responsabilidade médica na experiência brasileira
contemporânea. In Arruda Alvim et al (Coordenadores).
Aspectos Controvertidos do Novo Código Civil. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2002, p. 301).
Como se verifica, o médico anestesista deve assistir o
paciente até que se afastem os riscos de eventuais efeitos da
anestesia, e bem assim, realizar a avaliação de reação às
drogas anestésicas e a estabilização hemodinâmica do paciente,
observando a recuperação da consciência e a estabilidade dos
sinais vitais.
No caso em liça, o término da anestesia se deu às 10:20
horas, do dia 14/12/2011 (fl. 42), vindo o paciente a
apresentar quatro episódios de vômito de conteúdo
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sanguinolento às 12:00 horas (fl. 38), após “alta para quarto”
(fl. 46).
Ou seja, em apenas uma hora e quarenta minutos após o
término da anestesia o paciente começou a apresentar
intercorrências, circunstância que atrai a responsabilidade do
médico anestesista.
O quadro do paciente se agravou e deveria ter sido
prontamente tratado, mas permaneceu sem visita médica por
longo período.
A progressão do estado do paciente deveu-se
principalmente à falta de oportuno diagnóstico, que não
poderia sobrevir sem o acompanhamento devido no pós-
operatório.
Inafastável, portanto, o reconhecimento da
responsabilidade médica pelo infausto evento, porque patente a
omissão no dever de vigilância, faltando-se com os cuidados
que haviam de ser dispensados a quem sofrera a intervenção
cirúrgica.
O médico tem o dever de agir com diligência e cuidado
no exercício da sua profissão, conduta exigível de acordo com
o estado da ciência e as regras consagradas pela prática
médica, conforme o escólio de Ruy Rosado de Aguiar Júnior
(Responsabilidade Civil do Médico. Revista dos Tribunais, v.
84, nº 718, pp. 33-53).
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Logo, caracterizada a ilicitude da conduta dos
envolvidos e presente o nexo causal, exsurge o dever de
reparar os danos infligidos.
No que concerne ao quantum indenizatório, o juiz, ao
arbitrá-lo, deve estimar uma quantia que, de acordo com o seu
prudente arbítrio, seja compatível com a reprovabilidade da
conduta ilícita, a intensidade e duração do sofrimento
experimentado pela vítima, a capacidade econômica do causador
do dano, além de outras circunstâncias peculiares a cada caso
concreto.
A verba indenizatória não visa apenas a reparar a dor
subjetiva, mas também coibir que tais atos equivocados se
repitam, sem, contudo, caracterizar o enriquecimento ilícito
do ofendido.
Assim, observados os parâmetros acima delineados, bem
como os casos análogos julgados por esta Corte, tem-se que a
verba indenizatória foi judiciosamente fixada, incidindo
correção monetária a partir do arbitramento e juros legais
desde a citação, eis que se trata de responsabilidade
contratual.
Em hipótese análoga, confira-se: o valor arbitrado
pelas instâncias ordinárias a título de danos morais somente
pode ser revisado em sede de recurso especial quando irrisório
ou exorbitante. No caso, o montante fixado em R$ 100.000, 00
(cem mil reais), para cada genitor da vítima, não se mostra
irrisório nem desproporcional em razão do falecimento de filho
em acidente de trânsito (AgInt no AREsp 1679394/MG, Rel.
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Ministro RAUL ARAÚJO, QUARTA TURMA, julgado em 30/11/2020, DJe
18/12/2020).
Quanto ao pensionamento, em se tratando de família de
baixa renda, se presume a existência de ajuda mútua entre os
integrantes da família, de modo que não é exigida prova
material para a comprovação da dependência econômica do filho
(AgInt no REsp n. 1.934.869/RJ, relator Ministro Mauro
Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 9/11/2021, DJe de
11/11/2021).
Isso posto, voto pelo DESPROVIMENTO DOS RECURSOS,
majorada a verba honorária para 15% do valor da condenação,
nos termos do art. 85, §11, do CPC/2015.
Rio de Janeiro, na data da assinatura digital.
CESAR CURY
Desembargador Relator
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