Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro 961
Nona Câmara de Direito Privado
APELAÇÃO nº 0143495-37.2013.8.19.0004
APELANTES: ELIZANGELA OLIVEIRA PANTOJA E OUTRO
APELADOS: FUNDAÇÃO MUNICIPAL DE SAÚDE DE SÃO GONÇALO E OUTRO
RELATOR: DESEMBARGADOR ALEXANDRE FREITAS CÂMARA
Direito Administrativo. Responsabilidade Civil do Estado.
Perícia que concluiu pela inexistência de nexo de causalidade
entre a conduta dos recorridos e os danos alegados pelos
recorrentes no nascimento dos gemelares, não havendo
imperícia ou imprudência. Falecimento dos gemelares que
decorreu de prematuridade e sepse neonatal. Ausência dos
requisitos para a configuração da responsabilidade civil do
Estado. Recurso desprovido.
VISTOS, relatados e discutidos estes autos da Apelação em epígrafe.
ACORDAM, por unanimidade de votos, os Desembargadores que
compõem a Nona Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Estado do Rio
de Janeiro, em NEGAR PROVIMENTO À APELAÇÃO.
Des. ALEXANDRE FREITAS CÂMARA
Relator
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ALEXANDRE ANTONIO FRANCO FREITAS CAMARA:30745 Assinado em 03/04/2023 16:06:47
Local: GAB. DES ALEXANDRE FREITAS CAMARA
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Trata-se de apelação contra sentença que julgou improcedente demanda
de reparação de danos proposta pelos apelantes em face dos apelados, considerando
demonstrado pela prova pericial que não houve falha no atendimento médico prestado,
não havendo, portanto, nexo de causalidade necessário para a responsabilização dos
réus. Por fim, condenou a parte autora ao pagamento das despesas processuais e
honorários de sucumbência, observada a gratuidade de justiça que lhe foi concedida.
Os apelantes alegam que a demandante teve gestação gemelar
considerada normal, conforme exames solicitados durante o pré-natal. Argumentam
que o último exame de ultrassonografia foi realizado em 22 de maio de 2012, com vinte
e oito semanas de geração e as crianças já se encontravam “maduras”. Aduzem que
em 1º de junho de 2012, às 4h, com sete meses de gestação, sentiu contrações e foi
para a Casa de Saúde São Silvestre, onde realizava o seu pré-natal tendo o médico
plantonista determinado que ela procurasse a Maternidade Municipal do apelado por
possuir UTI NEONATAL, já que ela estava em trabalho de parto. Afirmam que ela
chegou à maternidade às 5h20min, com dilatação de 5cm, e o boletim de atendimento
só ocorreu às 6h38min, tendo sido internada às 7h05min. Sustentam que ela só foi
efetivamente atendida às 8h e que esta demora causou a morte dos recém-nascidos,
ante a gravidade da situação. Alegam que ela estava com dores e sangramento.
Aduzem que em 02 de junho de 2012, às 7h40min, foi examinada e o médico informou
que a paciente estava com o colo do útero apagado 100% (um dos principais sinais de
que o parto está se aproximando) e 10cm de dilatação, mantendo-a em dieta zero.
Asseveram, ainda, que ele relatou no boletim não haver aparelho de ultrassonografia
no hospital, não havendo como saber por meio de exame de imagem o real estado da
paciente. Sustentam que a ausência deste aparelho de ultrassonografia é um absurdo,
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bem como a conjugação da negligência e a demora na prestação de efetivo socorro à
paciente e aos seus filhos. Ressaltam que o parto foi realizado às 15h21min do dia 2
de junho de 2012, ou seja, 48 horas depois de sua chegada ao nosocômio. Aduzem ser
evidentes as falhas médicas, tendo os recém-nascidos sido encaminhados para CTI e
a apelante recebido alta apenas com a receita de paracetamol e dimeticona, isto é, sem
qualquer antibiótico para a suposta infecção urinária que atestaram no prontuário.
Alegam que nos prontuários dos recém-nascidos constam a suspeita de sepse somente
quando eles faleceram. Defendem haver várias denúncias da morte de 10 bebês no
ano de 2012, tendo o CREMERJ constatado diversas irregularidades na maternidade
em questão. Ressaltam que os gêmeos eram univitelinos, ou seja, ocupavam a mesma
placenta, tendo um nascido com uma circular justa de cordão e o outro com líquido
meconial (fezes), de acordo com o médico auditor. Asseveram que a liberação do
líquido meconial ocorre quando o recém-nascido está em sacrifício fetal, o que teria
ocorrido devido à demora em realizar o parto. Sustentam que o exame de
ultrassonografia poderia ter verificado se os recém-nascidos estavam em sacrifício fetal.
Afirmam que, ao aspirarem o mecônio, os recém-nascidos contraíram a bactéria que
deu causa ao quadro infeccioso respiratório com a consequente pneumonia. Aduzem
que o médico auditor não constatou que a infecção apresentada foi causada pela mãe,
pois não há tal informação no prontuário. Argumentam que a perita do juízo foi a única
que verificou no prontuário a infecção no trato materno. Sustentam que a mãe não pode
ter sido a responsável pela infecção dos recém-nascidos, pois recebeu ampicilina para
tratar qualquer infeção materna por bactérias. Aduzem que a perita informou que os
médicos não sabiam a causa da infecção e apesar de terem feito exame específico e
de ter trocado de antibióticos, não ficaram sabendo a razão da infecção. Alegam que os
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recém-nascidos ficaram vinte dias internados e morreram sem saber o resultado do
exame de hemocultura, apenas tendo sido trocado o antibiótico sem saber se era o
correto para a infeção dos bebês. Sustentam que um exame de hemocultura sai em
cinco dias. Destacam que a perita sequer mencionou que os recém-nascidos nasceram
com mecônio no líquido amniótico. Defendem que não há como saber se o tratamento
médico foi o correto, pois os médicos sequer sabiam a bactéria que estavam
combatendo. Argumentam haver contradição entre o motivo e a conclusão no laudo
pericial. Os apelantes requerem a realização de perícia com especialidade em
obstetrícia para que se apure as condições em que o parto foi realizado. Pede a reforma
da sentença para julgar o os pedidos dos demandantes procedentes.
Ambos os réus apresentaram contrarrazões recursais prestigiando o
julgado.
Determinou-se que as partes se manifestassem sobre a possibilidade de
se anular a sentença por não terem os autos sido remetidos à perita para prestar
esclarecimentos, eis que os demandantes impugnaram o laudo pericial, na forma do
art. 477, § 2º, I, do CPC. Os apelantes concordaram com a anulação da sentença e os
apelados discordaram.
A Procuradoria de Justiça informou não haver interesse público que
justifique a sua intervenção.
É o relatório. Passa-se ao voto.
Inicialmente, cabe analisar a hipótese suscitada de ofício a respeito da
possibilidade de se anular a sentença por não observância do disposto no art. 477, §
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2º, I, do CPC, que determina a remessa dos autos ao perito para prestar
esclarecimentos sobre a impugnação ao laudo pericial pelas partes. Os apelantes
impugnaram o laudo pericial e o juízo de origem proferiu decisão dispensando a
remessa dos autos à perita por ser o laudo pericial claro, além disso indeferiu a
realização da nova perícia, sob o fundamento de a perita ter especialização em pediatria
neonatal (pasta eletrônica nº 762).
Tal decisão foi objeto de agravo de instrumento, processo nº 0003480-
83.2020.8.19.0000, que foi distribuído para o Des. Jessé Torres, tendo considerada
correta a decisão agravada, indeferindo a produção de prova pericial complementar.
Confira-se a ementa do voto vencedor:
Agravo de Instrumento. Ação de responsabilidade civil (erro médico).
Impugnação ao laudo pericial, com requerimento de nomeação de novo
expert e a realização de segunda perícia. Interlocutória que a indeferiu, ao
entendimento de que o laudo apresentado se mostra claro e completo.
Irresignação que não aponta motivos aptos a afastar o balizamento dos
artigos 370 e 470 do CPC/15. Recurso a que se nega provimento, por
maioria.
Portanto, não se trata de hipótese de realização de nova perícia, já que a
questão já foi examinada por este Colegiado. Do mesmo modo, afasta-se a hipótese de
anulação da sentença nos termos do art. 477, § 2º, I, do CPC, pois o juízo de origem
indeferiu expressamente tal possibilidade, e não ficou demonstrado qualquer prejuízo
pela não manifestação da perita.
De acordo com a perícia, a genitora demandante entrou em trabalho de
parto prematuro gemelar, sendo imediatamente internada em 1º de junho de 2012 e
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recebendo medicações para adiar o trabalho de parto a fim de fazer maturação
pulmonar dos fetos prematuros e tentar evitar a infecção por possível colonização
bacteriana. Consta que os gêmeos Raone e Ryan nasceram em 2 de junho de 2012 de
parto cesáreo, com índice de Apgar 6/7 e 7/7, respectivamente.
A perita apresentou doutrina indicando a correção no procedimento de se
adiar o trabalho de parto (tocólise) por 48 horas. Em seguida, discriminou os
procedimentos realizados em cada um dos gemelares. Ela destacou que em ambos os
casos [o]s procedimentos realizados pela equipe médica, de enfermagem e fisioterapia
foram corretos, não havendo negligência ou imperícia. Destacou que os gemelares
prematuros foram acometidos de um importante e grave quadro infeccioso (sepse).
Ela ressaltou que os sinais clínicos da sepse são variados e apontou tais
sinais nos exames laboratoriais realizados nos gemelares. Frisou, ainda, de acordo com
a doutrina, a dificuldade de um diagnóstico precoce da sepse neonatal precoce.
Ressaltou, assim, a correção no tratamento iniciado com antibiótico até a identificação
do germe na hemocultura. Afirmou que a perícia indireta realizada por médico auditor
discorre de forma correta e detalhada sobre o parto prematuro, prematuridade, feto de
baixo peso e infecção neonatal. Salientou que [a]s anotações do prontuário são
extremamente detalhadas quanto ao acompanhamento dos menores.
Dessa forma, concluiu pela ausência de nexo de causalidade, verbis:
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Por fim, respondeu a setenta e cinco quesitos suscitados pelas partes.
Nestas respostas, a perita esclareceu que não houve demora na prestação de socorro,
pois a genitora deu entrada no nosocômio e foi internada. Ressaltou que o trabalho de
parto foi adiado por meio de medicação para tentar evitar o parto prematuro e dar tempo
de o corticoide fazer efeito para reduzir a intensidade dos problemas respiratórios
prematuros. Afirmou que os recém-nascidos não estavam em sofrimento devido à
demora no parto. Consta que o nascimento deles ocorreu com vinte e nove semanas e
que é considerado prematuro todo recém-nascido abaixo de trinta e sete semanas de
gestação.
Dessa forma, verifica-se que a alegação dos apelantes de que a sepse só
foi constatada na data do óbito está em consonância com as observações do laudo
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pericial, com referência doutrinária, sobre a dificuldade de se diagnosticar
precocemente a sepse neonatal precoce.
Os recorrentes alegaram que a perita foi a única que constatou a infecção
no trato materno e que a mãe não pode ter sido responsável pela infecção dos recém-
nascidos, pois recebeu ampicilina para tratar qualquer infecção materna por bactérias.
No laudo pericial consta que a genitora negou a infecção urinária; que da certidão de
óbito de Raone consta sepse neonatal por infecção urinária materna, além de
prematuridade (“pneumosuridade”); que no prontuário de Raone, na primeira ficha
médica do RN há referência à infecção urinária.
Constata-se que, embora a perita tenha relatado a presença da infecção
urinária materna em documentos, concluiu que o falecimento decorreu da
prematuridade e da sepse neonatal, que possui vários fatores de risco e que destes, no
caso concreto, encontrou-se a prematuridade com o baixo peso e baixo estado
imunológico. Observa-se que em momento algum a perita concluiu que a sepse
decorreu da infecção urinária materna.
Além disso, os recorrentes alegaram que a ausência do aparelho de
ultrassonografia no hospital deu ensejo ao nexo de causalidade em questão, eis que
seria possível aferir o sofrimento fetal. Eles também alegaram que o fato de haver
líquido meconial na placenta indica que os recém-nascidos estavam em sofrimento
fetal. Apesar de tais alegações, no laudo pericial não há relato de que a aspiração de
líquido meconial contido na placenta foi a causa da infecção. Por outro lado, consta
expressamente que os gemelares não estavam em sofrimento fetal, bem como que os
procedimentos realizados pela equipe médica, de enfermagem e fisioterapia foram
corretos, não havendo negligência ou imperícia. Assim, tais alegações não restaram
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comprovadas. Lembra-se, ainda, que a questão relativa à remessa dos autos à perita
para prestar esclarecimentos está superada, devendo o julgamento se pautar nas
provas produzidas no presente feito.
Portanto, pelo conjunto probatório à disposição nos autos, não se pode
concluir pela responsabilidade dos apelados, motivo pelo qual deve ser mantida a
sentença de improcedência, já que ausente o nexo causal entre a conduta dos
recorridos e os danos alegados pelos recorrentes.
Por todo o exposto, vota-se no sentido de se NEGAR PROVIMENTO ao
recurso, majorados os honorários de sucumbência para 15% sobre o valor da causa,
na forma prevista no art. 85, § 11, do CPC, observada a gratuidade de justiça concedida
aos recorrentes.
Rio de Janeiro, na data da assinatura eletrônica.
Des. ALEXANDRE FREITAS CÂMARA
Relator
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