Terça-feira, 4 de Abril de 2023 bom entendimento que havia entre ele e João.
Je-
Semana Santa sus revela a infinita delicadeza que O distingue:
Leituras: enquanto indica o traidor, oferece-lhe um bocado
Is 49,1-6 de pão envolvido em molho, sinal de honra e dis-
Sl 70(71),1-2.3-4a.5-6ab.15.17 (R. 15) tinção entre comensais. Uma última e amorosa
Jo 13,21-33.36-38 provocação! Judas nega-se a corresponder a esse
gesto, mostrando que a sorte de Jesus estava tra-
PRIMEIRA LEITURA: çada. Recebendo o bocado, mas recusando o
Amigo que lho oferecia, Judas saiu. «Fazia-se
o Servo de Javé pede a todos atenção por-
noite. (v. 30b), anota o evangelista. Judas já não
que tem uma declaração a fazer: a sua missão de-
podia ficar no grupo dos amigos de Jesus. Deixara-
verá alargar-se até aos confins do mundo (v. 6b).
se envolver pela noite da mentira, do ódio, pelo
E narra a sua história, resumindo-a em alguns mo-
reino de Satanás.
mentos particularmente significativos: a sua vo-
cação, momento em que também recebeu os dons «Nenhum dos que estavam com Ele à mesa
para realizar com eficácia a missão de proclamar entendeu» (v. 28). Mas, no exato momento em
a palavra de modo eficaz (v. Is.): o oráculo com que Judas saía para atraiçoar o Mestre, era glorifi-
que Deus o confirma na sua identidade e na mis- cado o Filho do homem. Com Ele, era glorificado o
são (v. 3). Pai que, ao entregar o Filho, revela o seu imenso
amor. A hora da morte e a hora da ressurreição
A missão começa por ser um fracasso, o
são, juntas, a hora da glorificação, da manifesta-
que leva o Servo a exclamar: «Em vão me cansei,
ção de Deus-Amor.
em vento e em nada gastei as minhas forças». Mas
reconhece que a sua causa não está perdida: «o Depois, Jesus inicia o discurso de adeus (v.
meu direito está nas mãos do Senhor, e no meu 33). O vazio que deixa, e que nada nem ninguém
Deus a minha recompense». Animado pela confi- pode preencher, não é definitivo. Pedro, sempre
ança no Senhor, o Servo, acolhe e transmite um impetuoso, não quer nem tem paciência para es-
novo oráculo de Deus: «Não basta que sejas meu perar e quer partir imediatamente com o Mestre:
servo, só para restaurares as tribos de Jacob, e re- «Senhor, por que não posso seguir-te agora? Eu
unires os sobreviventes de Israel. Vou fazer de ti daria a vida por ti! (v. 36)>>. Mas, nem Pedro
luz das nações, para que a minha salvação chegue nem mais ninguém pode seguir Jesus só com a sua
até aos confins da terre». boa vontade, ou com as suas forças. É preciso Es-
pírito Santo, o grande dom pascal, que é preciso
A missão do Servo é universal. Por meio
aguardar.
dele, Deus quer fazer chegar o dom da salvação
aos mais remotos confins da terra. A missão do Meditatio
Servo entre os seus compatriotas é insignificante,
Num mundo que nos enche de angústias e
se comparada com a sua vocação missionária.
nos pode tornar pessimistas, porque nos parece
EVANGELHO: que "tudo … jaz sob o poder do maligno’ (1 Jo 5,
19), Cristo, "Homem novo’ (Ef 4, 24) dá-nos cora-
Terminado o lava-pés, Jesus alude à traição
gem, ilumina-nos, pacifica-nos e dá-nos alegria
de que está para ser vítima: «um de vós me há-de
(Cf. Jo 20, 20-21), porque nos mostra o poder do
entregar!» (v. 21). Estas palavras de Jesus, com a
Pai em transformar, para sua glória e nosso bem,
perturbação que Lhe veem estampada no rosto,
todas as situações, mesmo as mais difíceis. Con-
deixam os apóstolos espantados. Tentam identifi-
templando a Cristo, e unidos a Ele, verificamos
car o traidor. Pedro reage por primeiro, manifes-
que "apesar do pecado, dos fracassos e da injus-
tando a autoridade que lhe era reconhecida e o
tiça, a redenção é possível, oferecida e já está pre-
sente (Cst. 12). As leituras de hoje mostram-nos da nossa generosidade. É o que Jesus declara a Pe-
esta verdade. dro: «tu não me podes seguir por eçore» (v. 36). É
preciso ser chamado por Ele, e receber a força do
O Servo de Javé, de que nos fala Isaías, vive
seu Espírito. Pela vocação e pelo carisma, somos
um momento dramático. Está profundamente de-
unidos a Cristo e tornados capazes de participar
sanimado. A sua missão tornara-se um retundo
na sua missão, mesmo no meio das maiores hosti-
fracasso. Por isso, exclama: «Em vão me
lidades e sofrimentos. Unidos a Cristo, podemos
cansei, em vento e em nada gastei as minhas for-
participar no seu mistério pascal, para nos trans-
ças». Mas não se deixa cair no desespero. Conti-
formarmos a nós mesmos e transformarmos o
nua a confiar no Senhor, que o escolheu desde o
mundo.
ventre materno e o chamou: «Porém, o meu di-
reito está nas mãos do Senhor, e no meu Deus a Oratio
minha recompensa». Mantendo-se fielmente
Senhor Jesus, Tu conheces todas as possi-
atento à Palavra do Senhor, acaba por verificar
bilidades das nossas traições, das nossas repenti-
que as presentes dificuldades, no meio do seu
nas reviravoltas, das dissimuladas e insinuantes
povo, são caminho para um horizonte de missão
afirmações, que ferem o coração da comunidade e
muito mais alargado e radioso: «Vou fazer de ti luz
ferem o teu coração, sempre em agonia, até ao fim
das nações, para que a minha salvação chegue até
do mundo. Judas, traidor, continuou a ser, para Ti,
aos confins da terra» (v. 6).
um amigo, a quem ofereceste um último gesto de
Esta profecia realiza-se plenamente em Je- delicada predileção. O Amor, que és Tu, não retira
sus. Também Ele passa por um momento dramá- o que ofereceu, não renega o que é. Prefere consu-
tico e é atraiçoado por um dos seus. Está profun- mir-se no sofrimento e na morte! Todos levamos
damente perturbado e declara: «um de vós me há- em nós as trevas de Judas, a impulsividade de Pe-
de entregar.!» (v. 21). A sua missão parece redun- dro, o amor de João. E por todos Te ofereces, por-
dar num completo fracasso, numa tremenda der- que nos amaste até à morte. É a tua glória. É a gló-
rota. Mas Jesus também se deixa iluminar pela Pa- ria do Pai! O seu amor eternamente fiel, revela-se
lavra do Pai e exclama: «Agora é que se revela a no teu rosto desfigurado pelo sofrimento. A Ele a
glória do Filho do Homem e assim se revela nele a vitória! A Ele a glória para sempre! Amen.
glória de DeU9> (v. 31).
Contemplatio
Tanto o Servo de que fala Isaías, como Je-
Satanás tinha tomado posse de Judas, um
sus, o verdadeiro Servo, conseguem ver para além
apóstolo! E foi-se encontrar com os príncipes dos
das aparências. Mesmo nas situações mais dramá-
sacerdotes para conspirar a sua traição com eles.
ticas, descobrem a poderosa ação de Deus que
Disse-lhes: «Que quereis dar-me, se vo-to entre-
tudo transforma. Os maiores sofrimentos, aceites
çer?».
na fidelidade a Deus, para realizar os seus proje-
tos, transformam-se em glória. Ao aceitar a Pai- É introduzido no Sinédrio, escutam-no
xão, para redenção do mundo, Jesus realiza a pro- com alegria, uma alegria digna do inferno. Discu-
fecia de Isaías, para glória do Pai. tem o preço. Oferecem-lhe trinta moedas de prata.
Aceita, o pacto é concluído. A moeda de prata valia
Situações semelhantes podem surgir na
quatro dracmas antigas, cerca de cinco francos.
nossa vida de cristãos, de consagrados, de sacer-
Trinta moedas, era o preço habitual de um es-
dotes. A Paixão de Jesus irradia uma luz poderosa
cravo.
para lermos essas situações e reagirmos à ma-
neira do Senhor, acolhendo-as como ocasiões Eis até onde Jesus quis descer para nos res-
para glorificar a Deus. Este acolhimento confiante gatar.
não depende unicamente da nossa boa vontade,
Judas empenhou a sua palavra, e desde
aquele momento procurava a ocasião para lhes
entregar Jesus fazendo com que Ele ficasse fora
dos encontros populares: spopondit et quaerebat
opportunitatem ut traderet eum sine turbis (Lc
22,6).
Como é que Judas chegou àquele ponto? Ti-
nha sido pouco a pouco e cedendo, primeiro, a al-
guns movimentos de avareza.
Oh! Como a inclinação para o pecado é es-
corregadia! Não estou eu em perigo, pela minha
tibieza atual, de cair bem baixo?
Depois do seu pacto criminoso, Judas e os
Fariseus tiveram ainda vários dias para se arre-
penderem, mas em vão. O endurecimento é o cas-
tigo do sacrilégio. Como devo temer chegar até lá!
Trato muitas vezes Nosso Senhor com tão pouco
respeito nas minhas comunhões impregnadas de
tibieza e de rotina! – Nosso Senhor dizia ao bispo
de Éfeso: «Decaíste do teu fervor, toma cuidado!
Se não fizeres penitência, voltarei, derrubarei o
teu candelabro e darei a outro o teu lugar» (Ap
2,5) (leão DEhon, OSP 3, p. 257s.).