Sonhos
"Era apenas mais uma manhã comum, de um dia comum, de uma semana
comum, de um mês comum, de um ano comum, de uma vida comum. "
Mesmo com os olhos fechados eu podia perceber que os raios de sol
passavam pela janela, iluminando todo o meu quarto. O clima estava abafado e
pequenas gotas de suor se formavam em meu rosto. Ouvi o som do despertador
do meu celular que tocava "amianto" a música triste de uma banda que eu
gostava. Eram exatamente 06:00 da manhã e assim como qualquer jovem da
minha idade eu deveria estar me preparando para mais um dia de aula, porém,
assim como todas as manhãs eu simplesmente fiz a mesma coisa: desliguei o
despertador, fechei as cortinas e voltei a me enrolar. Não queria ver a luz do dia,
não queria ver nada, não queria ver ninguém, eu só queria ficar deitado.
- Rafa?! Rafael? Você não vai para escola de novo?
Aquela voz me irritava.
- Não queremos sair. Não percebe que se saímos de casa coisas ruins vão
acontecer Esperança? Até mesmo o Vazio prefere ficar aqui não é Vazio?!
- ...
Ali estavam "eles" mais uma vez. Tentando me dizer o que fazer. Tentando me
controlar. Tentando me fazer sentir. Como sempre eu os ignorei e voltei a fechar
meus olhos.
- Rafa?! Levante-se, desse jeito você vai reprovar por falta. Sei que você já
perdeu grande parte do ano letivo, mas você deveria ir para a escola.
- ...
- Vazio quer ficar aqui. Ele diz que não quer fazer nada.
Não iria conseguir ficar ali por muito tempo, "eles" não iriam ficar quietos e eu
não suportava ouvi-los... Mesmo sabendo que aquela era a minha voz. Levantei-
me rapidamente e fui até o banheiro tomar um banho. Eu não iria para a aula,
mas mesmo assim não queria ficar em casa com "eles". Após tomar banho
enxuguei meus cabelos cacheados e vesti minha roupa de costume: Uma calça
preta, uma par de botas de couro sintético e uma blusa xadrez verde.
desci as escadas e fui até a cozinha preparar meu café da manhã.
- O que você vai querer Rafa?! Suco, leite ou quem sabe café?
Lá estavam "eles", sentados na mesa tomando café como se fosse apenas um dia
comum, como se tudo aquilo fosse completamente normal. "Eles" eram eu e eu
era "eles". Sim, eu estava vendo 3 versões de mim mesmo.
- Você sabe que nós não gostamos de café esperança!
- Foi só uma brincadeira, até o vazio riu, não é vazio?!
- ...
- Acho que perdi a fome.
Sem nem ao menos triscar na refeição coloquei a minha mochila apoiada em
apenas um dos meus ombros e sai de casa. Ao abrir a porta vi aquele céu límpido
e azul, haviam poucas nuvens. Não muito longe algumas árvores enchiam de
verde a paisagem, deixando o dia mais agradável para qualquer pessoa normal,
mas não para mim. Contrastando com essa agradável paisagem, nas ruas eu
podia ver as pessoas e elas não representavam nada...ou melhor agora elas não
representavam nada.
Esse mundo já não tinha o mesmo brilho, não era mais o mesmo de antes, nem
as pessoas. Eu tenho um dom, ou melhor, eu tinha um dom. Eu podia enxergar
nas pessoas uma espécie de aura de diferentes cores, com o tempo eu descobri
que essas cores estavam diretamente relacionadas aos sentimentos delas. Mas,
em algum momento eu perdi isso e todas as pessoas que tinham cores passaram
a ser incolor, assim como eu. Havia uma época em que eu também tinha minha
própria cor, agora não tenho mais. Em contrapartida com a perda do meu dom
"eles" apareceram: três versões de mim mesmo.
Extremamente parecidos, mudando apenas em algumas particularidades
próprias. O mais irônico é que eu consigo ver a auras deles. O primeiro se
autodenomina "Esperança", tem uma aura verde linda, está sempre tentando
me motivar e dizendo que eu não devia desistir das coisas. Sua persistência é
irritante. O segundo é conhecido como "Tristeza" ele sempre parece está a ponto
de chorar e sua aura é azul. Ele sempre quer ficar dentro de casa e diz que se
sairmos coisas ruins podem acontecer. Por fim temos o "Vazio". Sua aura é
preta. Bem como posso dizer.... Quando estou perto dele me sinto estranho,
como se nada importasse mais. Ele é mudo.
Eles passaram a conviver comigo desde o dia que perdi meu dom e agora me
atormentam.
- Para onde vamos Rafa?!
- Podemos voltar pra casa? Quero ficar deitado. Não me sinto bem.
- ...
-Calem a boca, deixem de me atormentar suas malditas alucinações!
Saí correndo, sem destino nenhum, só queria ficar longe deles.
- Rafa! Espere.
- Rafael..
- ...
Corri o mais rápido que pude, o que na verdade não era muito pois eu não tinha
fôlego algum, resultado dos meses dentro de casa sem fazer nada. Após dobrar
diversas ruas eu estava sem folego e exausto. Curvei-me apoiando minhas mãos
nos joelhos e tentei buscar um pouco de ar.
- Onde eu estou?
Percebi que tinha ido parar em uma rua que eu não conhecia bem. Era uma rua
pequena. O fluxo de trânsito estava bem calmo. O cenário tranquilo era apenas
quebrado pelo som dos aviões decolando: Aquela rua ficava atrás do aeroporto.
Não havia ninguém na rua exceto por uma garotinha que estava sentada em um
banco.
Ela tinha olhos bonitos, porém parecia um pouco triste e preocupada. Estava
segurando um pequeno caderno e um estojo. Tinha cabelos negros e usava um
rabo de cavalo. Usava uma blusa amarela e uma bermuda jeans que ia até o seu
joelho. Calçava um par de chinelos comuns e carregava uma bolsa simples. Ela
devia ter mais ou menos 8 ou 10 anos, era estranho uma criança daquela idade
estar sozinha num local como aquele. Olhou para mim e seu olhos me diziam
que ela iria chorar a qualquer momento.
Eu queria ir embora, na verdade fazia meses que eu não conversava com
ninguém além “deles”, mas sabia que não podia deixá-la ali sozinha. Andei em
direção a ela, agachei-me e perguntei:
- Q...Qu...Qual o s-seu nome garotinha?
Ela olhou para mim e começou a chorar.
-Calma, não p-precisa chorar. Onde estão seus pais?
-Estou esperando eles chegarem. Estão vindo de avião.
Depois que ela falou ganhei um pouco mais de confiança e tentei conversar um
pouco mais.
- Então você veio esperar eles chegarem de viajem?! Quem está com você?
- Eu vim sozinha. Queria fazer uma surpresa a eles.
- Espera você veio sozinha até aqui?! Meu Deus! Qual seu nome?!
- Melinda. Eles devem chegar em mais ou menos uma ou duas horas.
- Você não deveria ter vindo só, mas acho que posso lhe fazer companhia até
eles chegarem.
- Verdade? você faria isso por mim?
- Não é por você. Apenas não quero me sentir mal se algo te acontecer.
- Você é gentil.
Fomos até uma mesa que ficava a vista da zona de embarque e voo, assim
poderíamos ver quando eles chegassem.
- Finalmente achamos você Rafa!
"Eles" finalmente haviam me encontrado. Tive que fazer um esforço gigantesco
para não sair dali e voltar para minha casa.
-...
- O vazio está perguntando quem é ela.
- Não é da sua conta!
- O que não é?!
- Nada. Eu estava pensando em voz alta.
Lembrei que ninguém além de mim pode ver "eles", nem ouvi-los. Passei a
simplesmente ignorá-los e voltar a conversar com a menina.
- Vamos fazer algo para passar o tempo?
- Sim. Vamos desenhar!
Minha mão tremeu. Eu comecei a suar frio. Ser desenhista sempre foi meu
sonho, desde pequeno eu sempre desenhava em qualquer coisa que eu
encontrasse. Eu amava desenhar, mas há muito tempo eu não desenhava. Em
algum momento da minha vida eu simplesmente desisti. Talvez foram as coisas
ruins que me aconteceram. De qualquer forma depois que desisti dos meus
sonhos eu simplesmente passei a viver uma vida entediante e meus dias
começaram a passar bem diante dos meus olhos sem nenhuma perspectiva.
- Podemos fazer outra coisa? Não gosto de desenhar.
- O que está dizendo Rafa. Você ama desenhar! Diga pra ele vazio!
- ...
- Queria desenhar pois gosto muito.
- Tudo bem podemos desenhar.
Ela pegou seu estojo e puxou alguns lápis e derrubou sobre a mesa.
- Pode escolher o seu.
Peguei um lápis simples, igual aos que eu tinha antigamente. Tive uma leve
sensação nostálgica.
- O que vamos desenhar?!
- Vamos criar uma história você começa.
- Eu?! Tudo bem.
Desenhei um personagem parecido comigo.
- Era uma vez um garoto que tinha o dom de ver cores nas pessoas.
- Uau isso é incrível!
- Tem mais! Essas cores representavam os sentimentos das pessoas. Por
exemplo: uma pessoa com uma aura vermelha e preta está com raiva.
- E qual era a cor dele? o que representava?
- Ele tinha uma cor verde, ela representava a esperança.
- Eles estão falando de mim tristeza! Isso não é incrível?!
- Será que vão falar de mim e do vazio também?!
- ...
- Sua vez de desenhar.
- Ainda não... quero saber um pouco mais do que acontece com ele.
- Tudo bem. Aos olhos do garoto o mundo era simplesmente incrível e poder
sentir e ver as cores era algo indescritível. Porém sentir tinha seus dois lados da
moeda. Ao sentir coisas boas você tem que estar disposto a sentir coisas ruins
também e foi isso que aconteceu.
- Como assim?
- Coisas ruins começaram a acontecer com ele até que ele ganhou mais uma
cor: o azul.
- O que ele representa?
- O azul representa a tristeza, ele começou a ficar triste por tudo que estava
acontecendo. Ele tinha um sonho, ser um desenhista! Amava desenhar mais que
qualquer coisa. Mas eram tantas coisas ruins que ele começou a desacreditar
nele mesmo. Foi aí que ele ganhou uma terceira cor: O preto.
- ...
- Sim isso mesmo vazio. Estão falando da gente. Não entendo por que o Rafa
resolveu contar a história dele mesmo.
Na verdade, nem eu sabia bem porque estava fazendo aquilo.
- Preto? Por que preto?
- O preto representa o vazio, quando ele desistiu de tudo o preto apareceu e ele
perdeu seu dom de ver as cores. Ele também perdeu suas cores.
- Sério?!
- Sim. O garoto não queria sentir mais nada. Ele rejeitou seus próprios
sentimentos.
- Agora sou eu que desenho: Era uma vez uma garota amarela que um dia
encontrou um garoto que não conseguia sentir.
- Porque amarela?
- Uma vez minha mãe me disse que amarelo representava a alegria.
- E o que houve depois que ela achou ele?
- O garoto não sentia alegria nem tristeza, ele não sentia raiva nem amor. Não
sentia nada. Absolutamente nada. A garota perguntou a ele " Por que você está
triste?!" E ele respondeu "o que é tristeza?". " É quando o coração não cabe no
peito e escorre pelos olhos" "já senti isso uma vez, mas hoje não sinto mais" dizia
o Garoto.
- Ele sentia antes?
- Sim ele sentia, continue vendo os desenhos que você entenderá melhor.
- "Onde estão seus sentimentos?" Perguntou a menina. "Eu os enterrei, me livrei
deles. Por isso não posso sentir mais" A menina queria fazer ele sentir
novamente por isso tentou encontrar os sentimentos dele. Ela caminhou muito,
muito, por mais tempo que uma criança conseguiria.
- Uau ela era incrível.
- Sim, a menina amarela era incrível, mas mesmo sendo incrível ela não
conseguiu encontrar os sentimentos do garoto que não conseguia sentir. Mas
ela teve uma ideia! Quando voltou encontrou o garoto e dividiu com ele seus
próprios sentimentos.
- Por que ela iria tão longe por alguém que ela acabou de conhecer.
-Foi exatamente o que ele perguntou, mas ela disse "As vezes é muito doloroso
sentir, estamos constantemente lidando com sentimentos de medo, tristeza,
raiva, culpa, desânimo. Todos os dias temos que conviver com esses e outros
sentimentos ruins, mas são esses mesmos sentimentos que intensificam os
nossos sentimentos bons. Tome como exemplo o verde: ele é composto de
amarelo e azul. Alegria e tristeza. Aprendemos a valorizar de forma única as
coisas quando entendemos o outro extremo delas. Para aqueles que já sentiram
a dor da tristeza e permaneceram firmes podem entender o que é alegria. Saber
que a chuva é agouro de um céu límpido é privilégio dos esperançosos. "
As palavras daquela garota me deixaram totalmente perplexo. Uma criança
daquela idade não devia pensar de forma tão complexa. Mas tudo o que ela disse
realmente fazia sentido.
- Quem é você?!
- Sou Melinda já disse. Olha são os meus pais!
Depois de uma breve apresentação despedi-me da intrigante garota. Ela me
olhou enquanto o carro de seus pais afastava-se do aeroporto. Seu sorriso me
lembrava a própria felicidade, o próprio amarelo. Voltei a mesa e pus-me a
observar a pista de voo.
- Ela realmente sabe o que fala não é Rafa?!
- Sim ela sabe Esperança.
- Vamos voltar pra casa agora?
- Ainda não Tristeza, quero ficar um pouco mais aqui
-...
- Não vazio, não vou ficar sem fazer nada. Quero observar um pouco
- Espere um pouco... O Rafa não está ignorando a gente!!!
- Não, não estou nem vou mais ignorá-los.
- Foi por causa da menina?
- Sim. Mas principalmente ignorar a vocês significa ignorar a mim mesmo.
Continuo não gostando de vocês e não queria voltar a sentir mais nada. Não me
importo se a minha vida vai ser entediante ou se vou ficar sozinho, mas ainda
tenho meu sonho de ser um desenhista ainda quero um dia voltar a ver as cores,
ainda quero desenhá-las. Não quero me perder em mim mesmo.
Nesse momento eu olhei para o céu ele estava límpido e belo. Um avião estava
a decolando. De repente reparei em belas cores no ar. Tinham tons como o do
arco-íris e ligavam o avião até uma menina que estava na pista de embarque e o
observava o avião. Ao chegar na menina as cores variadas se tornavam um tom
de azul puro incrível rodeado por cinza. Era a aura mais linda que eu já tinha
visto. Sim, meu dom havia voltado. Quando olhei para trás já não via mais
Esperança, Tristeza e Vazio. Eles haviam sumido.
-Você fez uma boa escolha Rafa.
-Esperança!
- Não significa que as coisas ficarão mais fáceis a partir de agora Rafael, muito
pelo contrário.
- Tristeza!
- ...
- Vazio.
Eu não podia mais vê-los, mas ainda podia senti-los. Eles eram meus
sentimentos. Eu podia sentir novamente. As pessoas ainda não tinham as cores
como antes, mas também não pareciam ser só um punhado de nadas. Olhei para
a pista de embarque e já não podia mais ver a garota.
-Aquela garota...quem era ela? Quero encontrá-la novamente.
Minha própria cor retornou para mim, embora não como antes: Ela tremulava
entre o verde, o azul e o preto. Esperança, tristeza e vazio. Tendo uma aura tão
inconstante não sabia definir o que eu era. Mas tudo bem! Não preciso ser nada
por agora.
Certa vez ouvi a seguinte frase:
"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."