Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar (1975)
O livro "Lavoura Arcaica", produzido por Raduan Nassar e publicado em 1975,
narra a história de uma relação incestuosa entre os irmãos André e Ana, membros
de uma família rural patriarcal e fortemente influenciada pela herança colonial. O
enredo é apresentado e narrado do ponto de vista de André, que oscila entre o
presente e o passado. Ele expressa seus desejos e narra as consequências de suas
ações de maneira fragmentada, com evidente sentimento de raiva, revelando-se
como alguém que desafia a ordem conservadora imposta por figuras de autoridade -
como o pai e a religião, que exercem influência em sua vida.
Essa é uma obra que explora questões profundas e complexas, como a
relação incestuosa entre os irmãos, a influência da herança colonial e o peso do
conservadorismo na vida dos personagens. A narrativa que ocorre em primeira
pessoa, permite ao leitor entrar profundamente na mente do personagem e
compreender suas motivações, desejos e as emoções que o atormentam. A
alternância entre o presente e o passado contribui para criar uma sensação de
confusão e reflexão, dada a complexidade dos sentimentos e experiências de André,
o personagem-narrador.
A crítica à autoridade paterna e religiosa desempenha um papel fundamental
em “Lavoura Arcaica” e é um elemento central na evolução do personagem André. A
figura do pai, que é descrita como uma autoridade opressora e inabalável, impõe
regras estritas e tradicionais à família. Esse ambiente patriarcal cria um conflito
interno na figura do personagem-narrador, levando André a questionar e desafiar as
normas, buscando sua própria identidade e liberdade emocional em meio a pressão
da realidade vivenciada por ele.
A análise do foco narrativo nesta obra pode ser enriquecida à luz das ideias
de Walter Benjamin, Theodor Adorno e Jaime Ginzburg, que discutiram as
mudanças na narrativa ao longo do tempo.
Uma breve análise literária sobre o foco narrativo na obra de Nassar
Assim como Benjamin e Adorno observaram mudanças na narrativa
contemporânea, Raduan Nassar desafia a estrutura narrativa linear e tradicional em
"Lavoura Arcaica". A história não segue uma progressão cronológica típica. Em vez
disso, a narrativa é mais fragmentada e não linear. Essa abordagem é um exemplo
de como os escritores contemporâneos têm experimentado novas formas de contar
histórias a fim melhor capturar a complexidade da experiência humana, refletindo na
complexidade das emoções e relações dos personagens.
Theodor Adorno (2003) apresenta uma reflexão interessante sobre a evolução
da narrativa e sua relação com a experiência contemporânea. O autor sugere que a
forma tradicional de contar histórias, em especial no contexto do romance, vem
passando por mudanças significativas devido às transformações sociais, culturais e
tecnológicas:
[...] Basta perceber o quanto é impossível, para alguém que tenha
participado da guerra, narrar essa experiência como antes uma
pessoa costumava contar suas aventuras. A narrativa que se
apresentasse como se o narrador fosse capaz de dominar esse tipo
de experiência seria recebida, justamente, com impaciência e
ceticismo. Noções como a de "sentar-se e ler um bom livro" são
arcaicas. Isso não se deve meramente à falta de concentração dos
leitores, mas sim à matéria comunicada e à sua forma. (p. 56)
Ele observou que os narradores de romances estavam se abrindo para
eventos plurais e que a focalização tradicional estava mudando, sugerindo uma
evolução na forma como as histórias eram contadas, com uma abordagem mais
diversificada e menos linear.
Segundo Walter Benjamin (1987), após a Segunda Guerra Mundial, os
combatentes não tinham mais feitos heroicos e dignos de serem narrados. Isso
refletiu uma mudança no mundo, onde a natureza das experiências humanas e dos
eventos importantes estava se transformando. As histórias tradicionais de heroísmo
deram lugar a uma narrativa mais complexa e menos centrada em feitos grandiosos.
Sendo assim, uma narrativa moderna não deve mais se apresentar como se o
narrador tivesse domínio total sobre a experiência narrada, pois “não se pode mais
narrar, embora a forma do romance exija a narração” (Adorno, 2003, p. 55). Desse
modo, reflete em uma mudança nas expectativas dos leitores, que agora estão mais
inclinadas para narrativas com base na complexidade da vida - evitando
simplificações excessivas. Podendo, também, ser interpretado como uma crítica à
idealização do herói individual que “pode mudar o mundo”, uma ideia que parece
cada vez mais distante em um mundo marcado por processos globalizados e
interconectados.
Além disso, Adorno (2003) destaca a influência do mundo administrado, da
estandardização e da mesmice na dificuldade de encontrar algo especial para contar
em uma narrativa; pois, para se contar uma história implica em ter algo de especial
para narrar, algo que é dificultado pelo mundo moderno dominado pela uniformidade
e monotonia. Isso pode ser visto como uma crítica à homogeneização da cultura e à
perda de singularidade nas histórias contemporâneas.
[...] na contemporaneidade, haveria uma presença recorrente de narradores
descentrados. O centro, nesse caso, é entendido como um conjunto de
campos dominantes na história social – a política conservadora, a cultura
patriarcal, o autoritarismo de Estado, a repressão continuada, a defesa de
ideologias voltadas para o machismo, o racismo, a pureza étnica, a
heteronormatividade, a desigualdade econômica, entre outros. O
descentramento seria compreendido como um conjunto de forças voltadas
contra a exclusão social, política e econômica. (Ginzburg, 2012, p. 201)
Com isso, Jaime Ginzburg (2012) sugere que nas narrativas contemporâneas,
os narradores não estariam mais tão centrados em perspectivas ou ideologias
dominantes, mas se afastando do que é tradicionalmente considerado o "centro" da
história social – o que pode ser composto por ideias conservadoras, patriarcais,
autoritárias, repressivas e discriminatórias.
Para contar histórias que desafiam as narrativas tradicionais, é importante
reexaminar o papel dos narradores, realizando uma revisão abrangente, dando mais
importância às teorias relacionadas ao ponto de vista narrativo e explorando o
conceito de narrador em uma abordagem interdisciplinar mais ampla. Com isso, na
contemporaneidade, observamos situações que demandaram o desenvolvimento de
novas teorias sobre o papel do narrador, que se renova em termos de vocabulário,
perspectiva e metodologia. Assim, identificando como a construção dos narradores
evoluiu ao longo do tempo e em que aspectos as formas de narrativa
contemporâneas se diferem das configurações tradicionais (Ginzburg, 2012),
evidenciando a necessidade de adaptar teorias e perspectivas para pontuar as
mudanças na prática narrativa ao longo do tempo.
A ideia de que a própria pretensão do narrador é ideológica, levantada por
Adorno (2003), sugere que a maneira como as histórias são contadas reflete
perspectivas culturais e ideológicas mais amplas. Isso levanta questões sobre como
uma narrativa pode ser usada para promover ou questionar certas ideologias e
valores, como ocorre em “Lavoura Arcaica”, obra que explora profundamente a
complexidade das relações familiares, o conflito entre tradição e modernidade, além
da atenção psicológica dos personagens.
Segundo Ginzburg (2012)
A partir da psicanálise, podem ser elaboradas reflexões sobre constituição
do sujeito. Integrando algumas ideias de Freud e Lacan, o estudo do
narrador pode privilegiar elementos dissociativos, construções fragmentárias
e perspectivas traumáticas em narrativas. Além disso, pode compreender a
produção literária dentro do horizonte de tensão entre cultura e barbárie,
seguindo o livro O mal-estar na cultura, de modo a interpretar imagens de
negatividade à luz das forças destrutivas que emergem da própria
civilização. (p. 204)
[...] o romance de Raduan Nassar, Lavoura arcaica, de 1975. Trata-se de
um livro que representa um desafio importante para a crítica e a
historiografia literária. Ele foi estudado por perspectivas que levaram em
conta categorias da psicanálise lacaniana e a presença de rituais religiosos
orientais na obra. O enredo é centrado em André, que retorna à casa de sua
família, reencontra pai, mãe e irmãos, após um período de afastamento. Um
dos principais pontos de tensão do livro consiste no envolvimento
incestuoso entre André e a irmã Ana, evocado delicadamente pelas palavras
afetuosas e metafóricas do protagonista. Ao final, o leitor acompanha o
gesto brutal do pai, que mata Ana em frente aos familiares. (p. 207)
Essa complexidade reflete a ideia de que uma narrativa contemporânea deve
abraçar a complexidade da vida. A história da família de André é rica em nuances e
ambiguidades, tornando-a uma narrativa que não simplifica as experiências
humanas, mas destaca a importância de abordagens interdisciplinares, como a
psicanálise e a análise cultural, na interpretação de narrativas contemporâneas
complexas.
Ao longo da narrativa, fica claro que André não tem domínio completo sobre
sua própria trajetória, especialmente no que diz respeito às forças familiares e
culturais que o cercam. Isso fica muito evidente no encontro de André com Pedro,
seu irmão, logo no início do livro:
[...] e foi então que ele me abraçou, e eu senti nos seus braços o peso dos
braços encharcados da família inteira; voltamos a nos olhar e eu disse “não
te esperava” foi o que eu disse confuso com o desajeito do que dizia e cheio
de receio de me deixar escapar não importava com o que eu fosse lá dizer,
mesmo assim eu repeti “não te esperava” foi isso o que eu disse mais uma
vez e eu senti a força poderosa da família desabando sobre mim como um
aguaceiro pesado enquanto ele dizia “nós te amamos muito, nós te amamos
muito” e era tudo o que ele dizia enquanto me abraçava mais uma vez;
ainda confuso, aturdido, mostrei-lhe a cadeira do canto, mas ele nem se
mexeu e tirando o lenço do bolso ele disse “abotoe a camisa, André”. (p.10)
A cena, que é rica em simbolismo, revela muito sobre a dinâmica familiar e a
relação de André consigo mesmo, sugerindo que ele não tem domínio completo
sobre sua própria vida. Nota-se, também, a sensação de que ele não estava
esperando a visita de Pedro e quando a "família inteira" é mencionada, soa como
uma força que o cerca, indicando uma influência significativa em sua vida.
Essa falta de controle demonstrada por André sobre sua própria vida pode ser
vista como uma manifestação da ideia de que os narradores contemporâneos não
podem mais ser percebidos como dominadores da experiência narrada. Assim, a
obra de Nassar pode servir como um exemplo de como a literatura contemporânea
pode abordar temas complexos e desafiar as convenções narrativas tradicionais.
Adorno (2003) também destacou a diversificação na focalização narrativa na
literatura contemporânea, abordando a complexa relação entre o sujeito literário, a
linguagem e o mundo das coisas.
O sujeito literário, quando se declara livre das convenções da representação
do objeto, reconhece ao mesmo tempo a própria impotência, a supremacia
do mundo das coisas, que reaparece em meio ao monólogo. É assim que se
prepara uma segunda linguagem, destilada de várias maneiras do refugo da
primeira, uma linguagem de coisa, deterioradamente associativa, como a
que entremeia o monólogo não apenas do romancista, mas também dos
inúmeros alienados da linguagem primeira, que constituem a massa. (p. 62)
Ele sugere que a literatura muitas vezes busca transcender as convenções
linguísticas no intuito de expressar de forma mais autêntica a realidade, confirmando
ao mesmo tempo a limitação intrínseca da linguagem, que captura plenamente essa
realidade. Essa busca por uma segunda linguagem pode ser uma característica
tanto de escritores quanto de pessoas que se sentem alienadas da linguagem
convencional.
Em “Lavoura Arcaica”, vemos uma multiplicidade de vozes narrativas. O
narrador não é estático; ele muda de perspectiva ao longo do romance, permitindo
que diferentes personagens expressem seus pontos de vista e experiências. Isso
cria uma riqueza na representação das relações familiares e dos conflitos
interpessoais, refletindo em mudanças profundas no mundo retratado.
Apesar de a história se desenrolar em um cenário rural, a narrativa
transcende o contexto geográfico para explorar questões universais sobre família,
tradição, rebelião e alienação. Em suma, “Lavoura Arcaica” de Raduan Nassar é
uma obra que dialoga de maneira fascinante com as ideias de Benjamin, Adorno e
Ginzburg sobre a evolução da narrativa, desafiando as convenções narrativas
tradicionais, adotando uma estrutura não linear e uma multiplicidade de vozes
narrativas para explorar a complexidade das relações familiares e as mudanças no
mundo rural. Além disso, a individualidade do narrador contribui para a profundidade
psicológica e emocional da história, tornando-a uma peça importante na literatura
brasileira contemporânea.
REEFERÊNCIAS
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