A ideia de raça fez com que existisse uma hierarquia na classificação de seres
humanos atribuindo valores superiores e inferiores. As atribuições físicas, morais e
intelectuais da humanidade seriam avaliadas a partir da raça a qual se pertencia. Nesse
sentido, isso significa que naturalmente dentro da evolução umas se desenvolviam e
outras não evoluíam. Então havia a ideia de que raça estava relacionada a uma
subdivisão humana, esse pensamento foi criado e pensada na Europa durante a
modernidade.
Conforme destaca Bárbara Carine, intelectual que discute sobre o assunto, o
conceito de raça surgiu na modernidade europeia como um importante marcador de
hierarquização humana que possibilitou distinções entre pessoas a fim de categorizá-las
e classificá-las do ponto de vista estético (fenótipo). O branco criou e sustentou por
séculos a raça como mecanismo de hierarquização e do domínio de seres humanos, com
legitimação da filosofia, da ciência e da igreja (Carine, 2023). Aqui descobrimos a
origem da raça, debate que também conta com a contribuição de Guimarães:
No século passado, não havia dúvidas de que as “raças” eram
subdivisões da espécie humana, grosseiramente identificadas com as
populações nativas dos diferentes continentes e caracterizadas por
particularidades morfológicas tais como cor da pele, forma do nariz,
textura do cabelo e forma craniana. Juntavam-se a tais particularidades
físicas características morais, psicológicas e intelectuais que,
supostamente, definiam o potencial das raças para a civilização. Essas
doutrinas, consideradas científicas, que Appiah chama de racialismo,
serviram para justificar diferenças de tratamento e de estatuto social
entre os diversos grupos étnicos presentes nas sociedades ocidentais e
americanas, conduzindo, quase sempre, a um racismo perverso e
desumano, genocida (Guimarães, 1999, p. 1).
Essa ideia de raça e os estudos científicos foram determinantes para que se
construa essa imagem que pessoas negras não eram pessoas civilizadas, justificando um
tratamento desumano e cruel. Tudo aquilo que estava relacionada a raça negra foi
considerado inferior, suas características, traços e fenótipos seja eles: cor de pele, nariz,
bocas entre outros, já o branco era dentro da escala a raça superior a qual podia
inclusive domina as demais, pois nele estava toda capacidade intelectual, moral e todas
as qualidades, acreditavam na hierarquia da raça humana, isto que logo depois foi
contestado por volta do século xx.
Estudiosos e cientistas comprovaram que “não existem subdivisões da espécie
humana que possam ser, de modo inequívoco, identificadas pela genética e às quais
correspondam qualidades físicas, psicológicas, morais e intelectuais distintas”
(Guimarães, 1999, p. 2). Pesquisas genéticas realizadas, conforme destaca Carine (2023,
p. 22), “reconhecem que apenas 0, 025% dos genes humanos mantém correspondência
com características estéticas, ou seja, há uma irrisória carga genética que estabelece o
fenótipo, apontando a inexistência de raças distintas entre pessoas humanas”.
Desse sentido, esse conceito foi abandonado pela ciência a partir da identificação
de que não havia diferenças humanas conforme a raça das pessoas, ou seja, a raça não
fazia sentido e não atribuía status de inferioridade a ninguém. Havendo, assim, consenso
entre os estudiosos sobre esse tema, foi descartada a possibilidade de diferenciações
raciais biológicas e naturais. Mesmo diante disso Munanga apresenta uma grande
questão.
A questão é que se os naturalistas dos séculos XVIII-XIX tivessem
limitado seus trabalhos somente à classificação dos grupos humanos
em função das características físicas, eles não teriam certamente
causado nenhum problema à humanidade. Suas classificações teriam
sido mantidas ou rejeitadas como sempre aconteceu na história do
conhecimento científico. Infelizmente, desde o início, eles se deram o
direito de hierarquizar, isto é, de estabelecer uma escala de valores
entre as chamadas raças. O fizeram erigindo uma relação intrínseca
entre o biológico (cor da pele, traços morfológicos) e as qualidades
psicológicas, morais, intelectuais e culturais. Assim, os indivíduos da
raça “branca”, foram decretados coletivamente superiores aos da raça
“negra” e “amarela”, em função de suas características físicas
hereditárias, tais como a cor clara da pele, o formato do crânio
(dolicocefalia), a forma dos lábios, do nariz, do queixo, etc
( Munanga, 2004, pg 5).
Ainda uma segunda questão que autor aponta é que brancos se tornaram a partir
dessas ideias, os mais bonitos, mais inteligentes, mais honestos, mais inventivos, etc. e
conseqüentemente mais aptos para dirigir e dominar as outras raças, principalmente a
negra mais escura de todas e conseqüentemente considerada como a mais estúpida, mais
emocional, menos honesta, menos inteligente e portanto a mais sujeita à escravidão e a
todas as formas de dominação (Munanga, 2004).
Isso significa dizer que o que foi construído por meio do conceito de raça foi
para além de uma questão biológica, é muito mais que isso. “A raça branca” foi
considerada o modelo de pessoa humana em todas aspectos, lhes garantindo um status
de poder e domínio sobre a humanidade, considerados mais aptas e inteligentes para
dominar as demais. Ou seja, não foi algo que apenas biologicamente inferiorizava uma
raça, estava relacionado aos aspectos sociais, intelectuais e morais. Então não era
simplesmente algo que se desaparecia de uma hora para a outra, pois se construiu uma
ideologia de superioridade branca.
Desta maneira, o ponto que gostaria de chegar é justamente esse, mesmo com a
comprovação de que raças não existem, há uma necessidade de teorizar as “raças” como
construtos sociais, formas de identidade baseadas numa ideia biológica errônea, ou seja,
sem validade concreta, mas eficaz, socialmente, para construir, manter, reproduzir e
legitimar diferenças e privilégios entre branco e negros. Assim, as raças não existem em
termos científicos, não são um fato do mundo físico, entretanto, são plenamente
“existentes no mundo social, produtos de formas de classificar e de identificar que
orientam as ações dos seres humanos” (Guimarães, 1999, p. 7).
o conceito de raça tal como o empregamos hoje , nada tem de
biológico. É um conceito carregado de ideologia, pois como todas as
ideologias, ele esconde uma coisa não proclamada: a relação de poder
e de dominação. A raça, sempre apresentada como categoria
biológica, isto é natural, é de fato uma categoria etnosemântica. De
outro modo, o campo semântico do conceito de raça é determinado
pela estrutura global da sociedade e pelas relações de poder que a
governam. Os conceitos de negro, branco e mestiço não significam a
mesma coisa nos Estados Unidos, no Brasil, na África do Sul, na
Inglaterra, etc. Por isso que o conteúdo dessas palavras é etno-
semântico, político-ideológico e não biológico ( Munanga, 2004, p. 6).
Dessa maneira, no imaginário e na representação coletivos de diversas
populações contemporâneas existem ainda raças fictícias e outras construídas a partir
das diferenças fenotípicas como a cor da pele e outros critérios morfológicos. É a partir
dessas raças fictícias ou “raças sociais” que se reproduzem e se mantêm os racismos
populares (Munanga, 2004, Pg . 6). Isso significa que a não existência de uma raça
biológica inferior não impede dela exercer um papel ideológico e social “Assim,
devemos entender a raça como uma construção social que procura validar projetos de
dominação baseados na hierarquização entre grupos com características físicas
distintas”. Moreira, 2019, p. 41).
Nesse sentido, o racismo cumpre então um papel central nesse processo, pois
cria e propaga imagens culturais destinadas a justificar hierarquias sociais entre negros
e brancos. Assim, essas duas identidades são construídas a partir de uma lógica
oposicional na qual grupos de pessoas são racializadas de formas diferenciadas em
função das relações de poder que possuem dimensões culturais, políticas, históricas e
econômicas. (Moreira, 2019).
Assim, o racismo não precisa de nada biológico para o justificar, socialmente,
culturalmente, ideologicamente pessoas negras são vistas como inferiores, são grupos
que constantemente sofrem preconceito e discriminação, que são apontadas com menos
qualidades humanas. O racismo propaga uma imagem da pessoa negra como tendo uma
identidade desprovida de valor, e qualquer aspecto positivo. O racismo é uma pratica
cotidiana de opressão e violência.
“O racismo no seu aspecto dinâmico permite que seus meios de operação sejam
encobertos, de modo que relações hierárquicas possam ser explicadas a partir das
características dos membros de minorias raciais e não a partir de estratégias de
dominação”(Moreira, 2019, p.20). o racista usa da estratégia de menosprezar todos os
elementos que caracterizam as pessoas negras e ao mesmo tempo reforça que suas são
superiores.
O racismo produz a ideia que existe um grupo subalterno. Assim, acabam
achando natural que pessoas negras sejam vítimas de violência, sofram as piores
agressões e atrocidades, pessoas que merece o desprezo, que não merecem ser tratados
como as demais pessoas comungando com percepção de Sodré (2022) quando fala que
o racismo forma a subjetividade da população brasileira.
Deste modo, Almeida (2019) explica como o racismo consegue se manifestar. O
racismo consegue perpetuar, pois consegue: produzir um sistema de ideias que forneça
uma explicação racional para a desigualdade racial; construir sujeitos cujos sentimentos
não sejam abalados diante da discriminação e da violência racial e que considere normal
e natural que no mundo haja brancos e não brancos (Almeida, 2019, p.63
O racismo é uma ideologia algumas autores explicam sobre esse conceito
contribuindo para explicar como o racismo foi construído e se mantém. Esse discussão
tem contribuições das concepções de Clóvis Moura, Suely Carneiro e Kabengele
Munanga que trazem elementos para pensar como o poder dominante sempre utilizou de
suas ideias para justificar o racismo.
De acordo com a percepção de Moura (1944) houve uma ideologia
deliberadamente montada para justificar a expansão dos grupos de nações dominadoras
sobre aquelas áreas por eles dominadas ou a dominar. Expressa portanto uma ideologia
de dominação, e somente assim pode-se explicar a sua permanência como tendência de
pensamento. Para ele seria ingenuidade pensar que o racismo não iria existir por conta
da palavra dada pela ciência, embora as conclusões da mesma o condenam nem por isso
ele deixa de desempenhar um papel agressivo no contexto das relações locais, seja
nacionais ou internacionais.
O racismo é um multiplicador ideológico que se nutre das
ambições políticas e expansionistas das nações dominadoras e
serve-lhe como arma de combate e de justificativa para os
crimes cometidos em nome do direito biológico, psicológico e
cultural de "raças eleitas". Há também o racismo interno em
várias nações, especialmente nas que fizeram parte do sistema
colonial, através do qual suas classes dominantes mantêm o
sistema de exploração das camadas trabalhadoras negras e
mestiças ( Moura, 1994, p. 2).
MAIS ADIANTE DO TEXTO
O autor em seu livro Fascismo da cor fala de algumas particularidades do
racismo no Brasil acredita na percepção do racismo sendo uma questão de aparência.
Essa aparência é percebida desde a cor da pele até a roupa, é uma categoria que se
constrói socialmente e que lhe atribui poder social. Desde modo, no cotidiano nacional,
a atenção ao aspecto físico automatiza-se sistematicamente (Sodré, 2023).
Esse definição do autor resume como a questão fenotípica é uma característica
do racismo no Brasil, um exemplo disso é que quando a polícia para uma pessoa negra
na rua lhe atribui características que lhes assemelha há um ladrão, “marginal”, pois para
ele a aparência dessa pessoa lhe deixa como suspeito. Quando alguém lhe discrimina
por seu cabelo ser crespo, por sua pele ser negra, por seu nariz ser achatado também
está lhe atribuindo características inferiores que não se adéquam há uma normalidade.
Isso também tem relação com a ideologia racista.
PARA OUTRA PARTE DO TEXTO
Sodré também destaca que o racismo após abolição é uma forma sistemática
afigura-se como um processo indicativo de uma dinâmica interativa de elementos
discriminatórios que designamos como forma social escravista ( Sodré, 2022, p.32).
O racismo ronda sua existência na condição de um fantasma desde seu nascimento,
ninguém o vê, mas ele existe, embora presente na memória social e atualizado por ação do
preconceito e da discriminação racial, ele é sistematicamente negado constituindo um
problema social com efeitos drásticos sobre os indivíduos.
SOBRE CRISE DE IDENTIDADE
O que chamaremos de branquitude e de negritude são duas formas de identidade
historicamente produzidas a partir de alguns fatores importantes. A primeira tem origem na
hegemonia que a cultura europeia passou a ter ao longo dos últimos séculos em função da
escala mundial do projeto colonial. Esse processo permitiu que o sistema econômico, os
valores religiosos, a estrutura política e a tradição cultural dos países europeus se tornassem
parâmetros universais. Temos aqui algo muito importante para entender o processo de
racialização: todos esses aspectos são aparentemente impessoais, mas estão associados a um
grupo racial específico. Ao serem alçados a perspectivas universais, eles tornaram pessoas
brancas parâmetros implícitos da representação do que seja o humano, embora isso
permaneça encoberto. Ser branco situa as pessoas em um lugar específico dentro das
hierarquias sociais em função da significação que o pertencimento ao grupo racial dominante
possui no mundo contemporâneo. À identidade racial branca estão associados diversos
predicados positivos, como superioridade cultural, beleza estética, integridade moral.
O racismo cumpre então um papel central nesse processo, pois cria e propaga imagens
culturais destinadas a justificar hierarquias sociais entre negros e brancos. Assim, essas duas
identidades são construídas a partir de uma lógica oposicional na qual grupos de pessoas são
racializadas de formas distintas em função das relações de poder que possuem dimensões
culturais, políticas, históricas e econômicas.