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Morgana e o Jantar dos Vampiros

No Capítulo 3, Morgana reflete sobre suas ações e a dor da perda de sua mãe enquanto se prepara para um jantar com seu pai, Gustave. A narrativa alterna para Henry, que recorda a tragédia de sua infância e a morte de sua mãe, Elizabeth, em um ataque que deixou marcas profundas em sua vida. Ambos os personagens lidam com a dor e a saudade, enquanto se preparam para enfrentar novos desafios em suas vidas imortais.

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Morgana e o Jantar dos Vampiros

No Capítulo 3, Morgana reflete sobre suas ações e a dor da perda de sua mãe enquanto se prepara para um jantar com seu pai, Gustave. A narrativa alterna para Henry, que recorda a tragédia de sua infância e a morte de sua mãe, Elizabeth, em um ataque que deixou marcas profundas em sua vida. Ambos os personagens lidam com a dor e a saudade, enquanto se preparam para enfrentar novos desafios em suas vidas imortais.

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Capítulo 3: O outro lado do rio

Algumas horas antes...

Morgana POVS

Uma badalada.
Me revirei entre os lençois.
Duas badaladas.
Revirei os olhos e rolei para o outro lado.
Três badaladas.
— Porra! — Exclamei.
Quatro badaladas.
— Caralho mesmo, não se pode nem dormir.
Cinco badaladas.
Minha cabeça latejava e o gosto amargo da cerveja barata ainda estava em
minha boca, da mesma forma que o gosto doce e maravilhoso de Jona.
Um sentimento estranho brotou em meu peito. Arrependimento? Talvez.
Não gostava de atacar humanos, mas em noites de lua cheia parece que a sede
aumentava muito mais que o normal; nem o sangue de animais me saciava, me fazendo
ser obrigada a recorrer a isso.
Talvez devesse ter deixado aquele garoto viver. Mas, pensando bem, com o
tipo de companhia e relacionamentos que tinha, ia acabar se matando mais cedo ou
mais tarde.
Seis badaladas.
Desistindo de tentar voltar a dormir, abri a tampa do caixão com colchão
macio e levantei-me bocejando alto. Agarrando um vestido simples de alças que
estava jogado em qualquer lugar, me dirigi ao banheiro para fazer minha higiene.
Depois de sair do banheiro, rumei para o grande closet. Encarando as
prateleiras, finalmente decidi colocar apenas uma rasteirinha branca. Pegando uma
generosa quantia de creme nas mãos, comecei a modelar as mechas do meu cabelo
formando pequenas ondas vermelhas e vistosas. Dando-me por satisfeita, coloquei
grandes brincos de argola prateada, abri a porta e rumei para a sala de refeições.
O grande corredor estava vazio e escuro como sempre, com as longas cortinas
de blackout que filtravam a luz do sol; grandes sombras se formavam nas paredes e
as aranhas saltitavam felizes nos cantos escuros e nos marcos empoeirados.
— Até que enfim, pensei que tivessem cravado uma estaca em seu peito, minha
filha. Já passa das 19:00h.
Encarei a fonte da voz zombeteira. Descendo lentamente o lance de escadas,
meu pai me cumprimentava com um sorriso divertido. O terno preto modelava-se
perfeitamente em seu corpo, assim como a barba bem feita lhe dava um ar bem mais
jovem do que realmente era. Os cabelos avermelhados caíam em seus ombros em forma
de grandes ondas, realçando seu rosto pálido e seus dentes retos e brancos.
— Estava tão adormecida que só acordou com as badaladas, estou certo?
— Sim, está. Por mim teria quebrado esta merda a muito tempo.
— Não seja tola. — Sorriu, me abraçando levemente. — Isso é uma relíquia de
nosso povo, minha querida. E cuide essa boca, ou terei que costurá-la com agulhas
quentes.
— Não vai começar outra vez, eu espero.
Apenas sorrimos e rumamos juntos em busca de refeição.

A mesa revestida com a toalha bordada estava repleta de alimentos diversos,
desde pães com ervas cuidadosamente escolhidas a dedo, até frutas e laticínios da
melhor qualidade. Mas o que me chamou a atenção foi o grande bolo coberto com uma
cauda avermelhada e expeça.
— Boa noite, Senhores. — Disse uma das serventes com uma simpatia
exagerada. — Quer que eu lhe sirva, senhorita?
Apenas acenei com a cabeça, enquanto um enorme pedaço de bolo era colocado
em meu prato. Servindo-me de suco de morango, abocanhei aquela coisa extremamente
macia e esfarelenta.
— Delicioso — Exclamei.
A cauda é espessa, com muito caramelo e também um gosto forte e metálico.
— Gatos? — Perguntei. — Espero que não, pois estimo muito essas criaturas
peludas.
— Não, não, senhorita. Lebres, fizemos uma ótima caça esta manhã.
— Sendo assim, também vou experimentar esta maravilha. — Disse meu
pai. — Por favor, deixe-nos a sós, Mônica.
— Sim, com sua licença.
Assim que a empregada saiu, observei meu pai enfiar um grande pedaço do
bolo em sua bocarra.
— Hummm!!! Esplêndido, perfeito, magnífico, maravilhoso...
— Ela está afim de você.
Confuso, ele me encarou com um olhar interrogativo.
— A Mônica. — Disse o provocando. — Não vê que cada vez que você está perto
ela sorri feito uma hiena desdentada?
Ele se engasgou e tossiu alto. Tomando um enorme gole de suco, tentava
fazer o rubor das bochechas desaparecer, enquanto eu gargalhava de sua situação
caótica.
— E pela sua reação, vejo que não é só ela.
— Não sei de onde tira estas coisas, acaso quer me matar de vergonha?
— Disse olhando para todos os lados. — E se ela escutou?
— Claro que não.
Sorvendo de mais suco, abocanhou uma maçã vistosa, grande e vermelha.
— Não sei o que fazer com você, Morgana. Imagine quando fizer o primeiro
século, provavelmente me deixará louco.
— Ok, ok… Desculpe, garanhão milenar.
— Deveria estar preocupada com você.
— O que?
— Não me diga que se esqueceu que seu décimo pretendente vem jantar conosco
hoje?
Agora era ele quem gargalhava, enquanto eu cuspia o suco todo de volta no
copo.
— Você tinha que me lembrar disso.
— Eu acho que deste você vai gostar.
— Assim como os nove anteriores.
— De qualquer forma, lembre-se de fazer bonito hoje a noite.
— Certo.
Apenas permanecemos em completo silêncio, apenas os barulhos de nossas
mastigações eram audíveis.
— Pai?
— Sim, querida.
— Falo sério.
— A que se refere agora?
— Você deveria se casar, ainda é novo.
Com um sorriso triste, o grande Gustave me encarou. Deixando seu prato com
grandes morangos de lado, apenas respirou profundamente e escolheu suas próximas
palavras com esforço.
— Não há um minuto que não sinta a falta de sua Mãe. Desde que ela partiu,
sinto como se cada batida lenta do meu coração fosse uma estacada que o divide ao
meio. Desde que ela se foi, nunca mais consegui sentir o calor da vida novamente,
apenas o frio do vazio e da tristeza. Sinceramente não sei onde errei com ela, não
sei o por que de ela ter tomado esta atitude.
Bufei, sentindo o rubor tomar conta do meu rosto.
— Ela não merece isso. Não passa de uma vadia suja, que fugiu na primeira
oportunidade com outro e nos deixou aqui.
Ele apenas respirou profundamente e deu uma generosa colherada na tigela de
cereal colorido.
— Acaso pensa em passar toda a eternidade sofrendo por ela?
Apenas silêncio.
Depois do que pareceram horas, meu pai se levantou da mesa e rumou em
direção da porta de saída.
— Encare isso, Pai! Ela nunca mereceu você, nem mesmo nos merecia. Você
não errou em nada.
Pude jurar que grandes gotas rolaram de seus olhos esmeraldas.
Levantando-me da minha cadeira, teletransportei-me para frente dele e o
abracei apertado. Um arrepio envolveu nossos corpos gelados, assim como o barulho
de sua respiração contra meu pescoço.
— Amo você. — Declarei.
— Eu também, minha princesa.
(...)

Henry POVS

O segui em total silêncio. Honestamente, não gostava nada daquele tom,


alguma coisa ruim podia esperar.
Parando em frente a porta marrom, girei a maçaneta e adentrei o grande
cômodo.
Tudo estava da mesma forma de sempre; a poltrona mais alta que pertencia ao
Alfa, era a primeira à esquerda. À direita da mesa redonda de mármore, estava a
cadeira que correspondia a mim como seu braço direito e sucessor.
Os grandes lustres reluziam nas outras cadeiras, juntamente com retratos de
nossas guerras vencidas, assim como a empoeirada estátua de um vampiro com uma
estaca cravada no peito.
— Sente-se. — Pediu, ativando o isolamento acústico da sala.
— Nem vou perguntar onde estava, pelo cheiro de sexo e perfume barato entranhado em
você, certamente em algum motel com alguma vadiazinha suja; e sinceramente, não é
nada relevante saber.
— Você tem razão. Onde eu estava, não é de extrema relevância.
Não queria começar uma briga, mas sinceramente acho que nunca vamos
conseguir levar uma conversa sem acabar de outro jeito.
Apenas queria saber o que estava acontecendo. A sala oval somente era usada
quando se tratava de assuntos muito sérios, como reuniões da alcateia ou sentenças
de morte por votação. A última vez que pisei neste lugar, foi para decidir quem
ocuparia o lugar de minha mãe e para orientar Marion em seus deveres.
Honestamente, lembrar daquilo era triste e revoltante.
Apanhando o isqueiro prateado de meu bolso, acendi um dos últimos cigarros
que tinha. Torcendo o nariz, o velho Lyan fungou e deu de ombros.
— Sem mais enrolações, o chamei para informar que teremos uma reunião.
Bufei descontente. Não acreditava que tudo aquilo era só para dar um
comunicado de algo tão casual.
— Tudo isso só por causa de uma reunião?
— Sim. Mas a reunião foi solicitada pelo Imperador.
Imperador.
Esta palavra ecoou em minha mente.
Imperador.
Impera…
Não.

Flashback on
A selva estava nublada. Correndo em quatro patas, puxei o ar à minha volta,
a fim de ver se algo estranho era captado, mas nada foi sentido.
Bebericando um pouco de água no rio cristalino, olhei para o céu e
contemplei o sol poente.
Já me preparava para retornar para casa. Havia cumprido minha ronda e
estava tudo certo. Apanhando minha calça de moletom com a boca, parei imediatamente
ao ouvir um uivo grave e intenso.
Com os ouvidos atentos, constatei que era realmente o uivo do Alfa.
— O que está acontecendo?
O uivo se intensificou mais. Sem pensar em mais nada, afundei as patas na
terra molhada e corri como um doido sem rumo.
Assim que me aproximei o suficiente, fui atingido por um forte cheiro
metálico que se espalhava pelo ar. Sem que pudesse ter tempo de entender, Marion
gritava em desespero. Seus gritos agudos preenchiam a floresta; ela se debatia,
enquanto era levada para dentro de casa à força por nossa Madrinha.
Assim que pude chegar mais perto, notei que meu pai rosnava em fúria, dando
ordens e mais ordens. Quando parou de esbravejar, finalmente dirigiu seus olhos
para mim. Em um salto, seu corpo agora tomava a forma de um homem maduro, cobrindo
qualquer resquício do enorme lobo de pelagem marrom.
— Pai, o que está acontecendo.
Engasgando-se em suas próprias palavras, pediu a mim que o seguisse. Assim
fiz, sem saber que veria a pior cena de minha vida.
Conforme andava já em duas pernas usando apenas a calça de moletom preta,
observei a terra sob meus pés ficando cada vez mais avermelhada. A essa altura, já
podia entender que um de nós tinha morrido.
— Quem foi?
Ele nada disse. Pela primeira vez desde que cheguei, meu pai parou em minha
frente e segurou em meus ombros.
— Seja forte, meu filho.
Sem entender o que estava acontecendo, rumei para frente e foi quando
percebi.
Deitada no chão, sobre uma enorme poça de sangue e lama, estava a mulher
que mais amei nesta vida. Pálida e com grandes ferimentos pelo corpo, minha doce
mãe agonizava em dor e sofrimento.
Não, não… Aquilo não podia ser real.
Perdendo as forças em meus joelhos, me permiti cair ao chão ao seu lado. Em
busca de uma informação encarei os olhos marejados de meu pai.
— Não, não, não, não!!! — Gritei em meio a lágrimas. — Não!
Mãe, aguenta por favor; vamos levar você para casa, vai ficar tudo bem.
Meu Pai chorava em silêncio ao meu lado. Estendendo a mão com dificuldade,
minha mãe tocou meu rosto. Suas mãos estavam geladas e seu corpo tremia. De seus
lábios, murmúrios inaudíveis e palavras distorcidas escapavam, em meio a suspiros e
tosses roucas.
— Meu filho… Meu Filho.
Mais do que depressa, repousei a mão gentilmente em seus lábios sem cor.
— Não, não fale. Tudo vai ficar bem. Não fale Mãe, vai ficar tudo bem.
— Filho. — Disse meu pai, colocando sua firme mão em meus ombros.
— Deixe com que ela fale. — Ele respirou profundamente. — Sua mãe
está partindo, só o que podemos fazer é escutar e zelar por ela agora. Seja forte,
estou aqui com você.
Fungando em desespero, apenas repousei sua cabeça em meu colo e acariciando
seus cabelos bagunçados, ouvi atentamente.
— Meu amor, eu amo você. Seja forte e cuide de sua Irmã, ela precisará de
você.
Apenas assenti com lágrimas salgadas caindo de meus olhos.
— Sei que um dia será um Alfa maravilhoso, assim como seu Pai. Mas siga seu
coração e sua felicidade, estarei com você para sempre; serei aquela estrela mais
brilhante a iluminar seu caminho em dias escuros.
— Mãe!
— Eu amo você, meu lindo.
Fechando os olhos, ela se despediu com um último suspiro. Apenas deitei
sobre seu peito e segurei sua mão, enquanto ouvia as batidas de seu coração
diminuírem lentamente.
Mas então seu corpo estremeceu e um som estranho saiu de suas cordas
vocais… Depois um tipo de tosse e entre espasmos ela fechou os olhos para sempre.
Dor!
— Haaaaaaaaa!!! — Gritei enquanto sentia como se uma lâmina prateada
perfurasse meu peito. — Haaaaaaaaa!!!
Em silêncio eu e meu Pai nos abraçamos. Chorando pela mesma dor, apenas
ficamos ali parados e sem chão.
Foi quando a dor se transformou em ódio.
— Haaaaaaaaaa!!!
Dois furos.
Era a única coisa que conseguia distinguir naquele corpo ensanguentado.
Duas perfurações em seu pescoço.
— Desgraçados! — Gritei com todo o ódio do meu ser. —
Desgraçados, desgraçados. Seus filhos da puta amaldiçoados, malditos!!!

Era por volta de dezoito horas quando a terra cobriu seu corpo. Maquiada
delicadamente, seu corpo repousava envolto por um vestido florido. Em seu pescoço
estava um colar feito às pressas com flores brancas.
— Aqui descansa minha amada Elizabeth. — Dizia meu pai, com uma voz
pesarosa e embargada. — Uma excelente esposa e mãe, assim como uma ótima
mestra para todas as meninas de nossa alcateia.
Todos prestavam a atenção nas falas do Alfa, não se atrevendo nem mesmo a
desviar o olhar.
— Agora é mais uma estrela a brilhar no Céu a nos iluminar.
Não conseguindo mais se conter, lágrimas transparentes rolavam dos olhos de
meu pai.
Enquanto a cantiga de despedida era cantada, nossos Padrinhos jogavam
delicadamente punhados de terra fria em seu corpo gélido.
E foi neste momento que Marion, que estava totalmente catatônica, pulou
dentro da cova rasa desfazendo o bolo de terra e abraçando o corpo de nossa Mãe.
Todos olhavam com espanto, alguns ofegos mudos de quem não tinha coragem de falar
nada.
Meu pai estava parado sem saber o que fazer. Mais do que depressa, minha
Madrinha tentou afastá-la do corpo inerte. Ao perceber que iriam separá-la de
Mamãe, Marion gritou e chorou o mais alto que podia, fazendo com que os mais
próximos retorcessem os rostos com dor em seus tímpanos.
— Querida. — Disse a madrinha acariciando seus cabelos. —
Venha por favor.
— Não, não, não! Ela não pode ter morrido, isso não pode acontecer!
— Marion, se acalme por favor. — Pediu meu Pai. — Não piore
as coisas, solte-a.
— Por favor, alguém me acorde deste pesadelo!!!
Seus gritos cada vez mais partiam meu coração.
— Marion, já chega!
— Não seja tão duro com ela, pai!
Neste momento todos os olhares se voltaram para mim. Assumindo um rubor de
raiva, meu paii apenas lançou-me um olhar gélido.
As pessoas murmuravam baixinho, assim que o encarei de volta.
Marion continuava a choramingar agarrada à nossa mãe.
Mais do que depressa, meu pai se dirigiu a ela e segurou seus ombros com
força. As pessoas olhavam aquela cena assustadas, temendo pelo que o Alfa poderia
fazer.
— Levante-se Marion!
— Não, deixe-me deixe ir com ela.
— Não diga besteiras e se levante agora mesmo!
— Já chega. — Disse, intervindo na situação. — Solte-a.
Várias bocas se abriram em um súbito terror. Para qualquer um seria
suicídio desafiar o Alfa, mas sinceramente estava pouco me lixando para aquela
merda toda de hierarquia.
— Tenha respeito por mim, sou…
— Foda-se o que você é — Gritei em um rompante. — É minha mãe
que está dentro daquela cova rasa, sua esposa! Tenha respeito por você e minha
irmã!
— Ora…
— Esta é sua filha chorando pelo luto de nossa mãe, não a porra de uma
qualquer. Deixe Marion comigo, tenha pelo menos o respeito que nunca teve em vida
por ela e a respeite pelo menos em seu leito de morte.
Um baque.
Sua mão fechada foi de encontro com meu rosto, calando minhas palavras.
— Por favor, acalmem-se! — Suplicou a madrinha.
As pessoas murmuravam baixinho sobre a situação. Afastando-me de meu pai,
fui de encontro a Marion.
— Querida, venha comigo.
— Não, Henry, a mamãe não pode ter morrido!
— Minha pequena, precisamos deixá-la descansar.
— Não, essas pessoas estão erradas! Ela não morreu, ela disse que iria
fazer um bolo de chocolate para mim!
Vendo que não adiantaria fazê-la voltar a razão e querendo acabar com o
show daqueles abutres curiosos, apenas abracei seu pequeno corpo e a levantei da
cova rasa.
— Não, não! — Ela gritou se debatendo. — Me solte, me solte
por favor!!!
— Onde está Sand?! — Gritei, enquanto facilmente continha seu
debater em meus braços.
— Ela está vindo, Henry. Leve-a para longe, será muito forte para ela ver o
enterro. — Pediu a madrinha, acariciando os cabelos de Mari.
— Me solte, me deixe abraçá-la por favor!
— Querida, olhe para mim.
Afastando-a do meio daqueles urubus curiosos, virei seu rosto lentamente
com as mãos em minha direção. Ela chorava desesperadamente suando por todos os
poros.
— A mamãe não está mais aqui princesa. Temos que ser fortes para que ela
possa descansar.
— Não, não! — Ela gritou voltando a se debater.
Avistando a jovem Sand com seu rotineiro jaleco branco, acenei para que
viesse ao meu encontro. Provavelmente a única mulher daquela Alcateia que realmente
me trazia orgulho, havia se formado médico e tinha um olhar doce e suave em seu
rosto.
— O que aconteceu?!
— Ela está descontrolada. Por favor, aplique um calmante.
— Claro. — Ela assentiu, abrindo a maleta sob a grama molhada.
— Vou aplicar uma pequena dose, só para que ela possa descansar por alguns minutos,
o suficiente para que a cerimônia já tenha acabado.
— Sim. — Apenas concordei.
Marion continuava a se debater. Cravando suas unhas em minhas costas,
sentia que ela se machucaria ainda mais se continuasse a tentar se soltar.
— Me solta, Irmão! Eu quero a mamãe!!!
— Calma querida, calma por favor! — Pedia, impedindo que
seus braços ficassem ainda mais machucados.
— Não, não! Mamãe, por favor me deixe ir com ela!
— Tente ficar calma pequena. — Sugeriu Sand com um sorriso fraco.
Enquanto terminava de despejar o medicamento em uma seringa, fitava-me com olhos
marejados.
— Quero estar com ela, Henry!
— Eu sei, Mari. — Foi apenas o que consegui dizer, enquanto tentava
conter o nó em minha garganta.
— Posso? — Questionou atenciosamente Sand, enquanto mostrava uma
seringa preparada.
— Por favor.
— Por favor, me solte, solte!!!
— Calma, amor. Eu estou aqui, vai ficar tudo bem.
Posicionando seus braços em volta de meu torso, segurei-a firme enquanto o
líquido da seringa era injetado.
— Não! — Ela gritou pela última vez.
— Shhh. Vai ficar tudo bem minha pequena, estou aqui.
— H Henr… A, m, mamãe. — Ela murmurou confusa enquanto cerrava os
olhos e entrava em um sono tranquilo.
Enquanto acariciava seus cabelos finalmente parei de segurar as lágrimas e
desabafei toda a dor que estava sentindo.
— Sinto muito, Sr. Henry.
Respeitosamente, Sand se retirou, deixando-me apenas com minha pequena Irmã
adormecida.
SEIS MESES DEPOIS…
— O que está me dizendo?! — Meu pai dizia aos gritos. — Eu
exijo um esclarecimento de seu Imperador!!
— Sinto muito, mas o grande Gustave tem coisas muito mais importantes para
resolver, do que a morte de uma simples cadela. — Disse Vitor, um soldado
que veio a mando do tal Imperador.
Sem que pudesse prever, meu pai se transformou em um salto, partindo para
cima daquele homem.
Minha madrinha estava parada em desespero. Os anciões que faziam parte do
conselho apenas murmuravam sem saber o que fazer.
Ninguém se atreveria a tentar conter o Alfa e haviam simplesmente aceitado
calados o rompante do enorme lobo marrom.
E então, um banho de sangue, pele e ossos inundaram aquela sala. Em um
furioso rosnado, meu pai jurou vingança sobre o corpo destruído daquele homem,
enquanto mastigava seu coração e rasgava sua carne lentamente.
Enquanto isso, no andar de baixo, Marion vegetava em uma cadeira de
descanso. Seus olhos vazios e sua respiração lenta, assim como sua palidez e
magreza eram preocupantes. Com apenas nove anos, não compreendia muito bem tudo
aquilo.
Respirando fundo e engolindo o enorme nó em minha garganta, aproximei-me
dela com cautela. Retirando seu corpo inerte da cadeira, a abracei com força e sob
suas lágrimas reforcei o juramento de meu paii.
Mesmo que não tivessem nada a ver com sua morte, iriam pagar pelo descaso
com minha Mãe. A maior prova disso era que nem mesmo aquele sanguessuga repugnante
disporia de um pouco de seu tempo para atender nossa causa.
Eles iriam pagar por cada lágrima derramada.

FLASHBACK OFF

Me engasguei com a fumaça. Não acreditava que aquilo estava acontecendo!


Como era possível que aquela raça desgraçada ainda se atrevesse a nos convocar,
depois de tudo o que tinham feito a nós?
— Espero que tenha me chamado aqui para dizer que recusou trocar palavras
com aqueles desgraçados, sujos.
— Acredite, eu gostaria. Entretanto, insistem em nos acusar por todas as
mortes que estão acontecendo e precisamos esclarecer de uma vez por todas toda essa
merda.
Assumindo o controle parcial, senti os ossos de meu tórax se expandindo,
assim como minhas mãos e meu rosto. De minha garganta, não pude evitar o rosnado de
fúria que se evadiu de minhas cordas vocais.
— Acalme-se Henry! — Gritou meu pai exasperado.
Por mais que tentasse, não conseguia recuperar o domínio.
Não era possível!
Não podia ser!
Ele queria se reunir com os responsáveis pela morte de minha mãe, sua
própria esposa!
— Henry! Eu ordeno que pare agora!!!
Um rugido animalesco retumbou pelas paredes, ao que seu grito foi dirigido
a mim.
Como isso era possível!
— Não ouse!!!
Um grito.
Foi apenas o que consegui, mesmo que envolto com uma rouquidão e um rosnado
alto. — Eles a mataram. Eles a mataram e despedaçaram seu corpo como se ela
fosse uma simples cadela!!!
— Acalme-se agora, eu o ordeno como seu Alfa!
Mas nem mesmo isso foi o suficiente.
— Eles beberam de seu sangue, eles profanaram seu corpo!!!
E então sem pensar, joguei meu corpo contra a porta que se desfez em
pedaços.
— Pai, o que está acontecendo!!!
— Marion, volte agora para seu quarto. Seu Irmão se descontrolou, não
consigo fazê-lo retroceder e não sei o que vai acontecer.
Tudo que conseguia ver era os olhos assustados de Marion.
Então lembrei de seus gritos de criança, ao se deparar com que um dia foi
nossa mãe. Lembrei de suas lágrimas, lembrei de seus lamentos que a tiravam de seus
pesadelos.
Eu queria sair, precisava sair.
Correndo em direção à porta da frente, chutei-a com o que ainda era minhas
pernas e corri na noite. Já na mata, rasguei o resto de minhas roupas e me libertei
em um salto, deixando com que o rosnado de fúria finalmente se libertasse de minha
garganta.
— Pare, pare! — O Alfa tentava, mas sua voz era como um sopro no
meio de um tornado.
Cinco ou seis Lupinos emergiram da mata. Temendo se aproximar, ficaram lá
parados quando encararam meus olhos faiscantes.
A noite antes fria, agora queimava meu corpo. Mas eu conhecia aquele calor.
Era fúria, ódio, raiva!
Afundando minhas patas na terra úmida, corri para longe, para onde fosse
bem difícil de me encontrar, para longe de toda aquela hipocrisia, de toda aquela
merda que me cercava.
Conseguia ouvir ordens de meu Pai ao longe, ordenando que um grupo de caça
me seguisse e detivesse meu descontrole.
— Saia! — Rosnei alto para Yan que se aproximava. — Não quero
matar você, Yan.
Resmungando em temor, recuou para trás e se manteve petrificado.

Após sentir a terra perfurar minhas patas, parei.
Não sabia a quanto tempo estava correndo, muito menos sabia onde estava.
Minutos, horas? Honestamente nem eu tinha a resposta, mas a julgar pelos
calos em minhas patas e meu coração descompassado, podia afirmar que por um longo
tempo.
Controlando minha respiração, me permiti ir de encontro com a terra úmida;
finalmente sentia o reflexo de toda aquela agitação.
Minha garganta doía, mas sabia que era graças aos rosnados de fúria.
Lembro-me que assim que saí, meu pai havia mandado alguns homens da alcateia atrás
de mim; mas a julgar que estava sozinho agora, acredito que nem um deles tenha tido
coragem de cumprir a ordem do grande Alfa.
Focando meu olhar em todas as direções, pude avistar grandes pedras que
adornavam o grande rio. Olhando melhor entre o arvoredo, percebi que não conhecia
aquele lugar.
— Porra! — Esbravejei. Isso só podia significar uma coisa.
Eu havia cruzado a linha do rio, ou seja, estava no lado que correspondia
ao Imperador.
Antes que pudesse dar o fora dali, um flash prateado cortou a escuridão. E
então novos feixes prateados.
— O que temos aqui?
Olhei para todos os lados a fim de buscar o dono da voz, mas nada
encontrei.
Ficando em guarda, inspirei profundamente para tentar capturar algum
cheiro.
Para minha infelicidade, um forte cheiro de podre invadiu minhas narinas.
Avistando um movimento em cima das árvores, identifiquei uma capa esvoaçante
pendendo para os lados com a força do vento.
Como em segundos, cinco homens portando armas de prata me cercaram por
todos os lados.
— O que um sarnento faz em nossas terras?
Encarei o homem ferozmente.
— Deixe ele aí. — Disse outro homem, sorrindo para mim em desdém.
— Este fedorento aí não deve ter importância nem uma para nós.
Senti meu estômago revirar a ira. Aqueles seres repugnantes eram os mesmos
que zombaram de nós.
Queria os despedaçar, mas meus músculos reclamavam a cada mínimo esforço.
— Vão para o inferno! — Esbravejei. — Seres sujos e mortos,
não possuem mais nada a não ser suas almas mortas e corpos podres, escondido
debaixo destas capas horríveis e fedorentas.
— Já chega! Acabe logo com este idiota metido e vamos levar seu corpo ao
imperador.
— Espere. — Interrompeu o homem que me abordara. — Eu estou
reconhecendo este cara.
O homem pensou um pouco. Estrategicamente me movia devagar, assumindo
posição de batalha. Nem que morresse, mas levaria pelo menos uns três para o
inferno.
— Sim! É ele.
— De que diabos está falando Elias?
— É o filho de Lyan Wolfer, o Alfa do outro lado do rio.
Os homens olharam para o tal Elias com desdém.
— Sei o que digo. Vamos matá-lo, a cabeça dele vale uns cinquenta milhões
no mercado negro e tenho certeza que o grande Imperador adoraria beber de seu
sangue.
Mais do que depressa, avancei em direção de Elias.
— Atirem! — Gritou ele.
Balas prateadas voaram por todos os lados passando por mim de raspão.
Sentia meus músculos como se estivessem se rasgando; não conseguia assumir minha
forma Lupina completa e sentia meu corpo retroceder a forma humana, além de que
cada disparo perfurava meus tímpanos e me desorientam de qualquer senso de direção.
— Vamos seus molengas, matem-no agora!
Foi então que tudo mudou.
Senti um baque em minha cabeça e fui jogado ao chão. Sentindo meu ombro
latejar, conseguia escutar o riso daqueles homens, mesmo com os gritos de Elias que
a esta altura, tinha seu braço e mãos dilacerados.
Sorrindo com escárnio, cuspi os pedaços arrancados e tornei a levantar.
— Matem-no! Agora mesmo!!!
E então me preparei outra vez. Minhas pernas vacilaram em me sustentar, mas
consegui ficar de pé.
Com destreza, peguei um dos homens e arremessei com toda a força para
longe; pude ouvir o baque quando uma gigante árvore tombou e caiu em cima de si,
partindo-o ao meio.
Com um salto, torci o braço de outro homem que deixou sua arma cair.
Jogando-me por cima dele, apertei sua cabeça entre minhas mãos. Os olhos dos homens
se retorciam sem direção, enquanto sentia os estalos dos ossos de seu crânio.
— P por f… — Tentou dizer. — Não!
— Cale essa boca.
Em um último estalo, apertei com mais força sorrindo satisfeito quando sua
massa cerebral saiu para fora.
— Como um carrapato. — Gargalhei ofegante.
Os outros homens se agitaram e sacando suas armas, dispararam em minha
direção.
Em estratégia girei meu corpo desviando das balas. De meu ombro direito
sangue escorria, além de uma dor latejante e infernal. Eu havia sido acertado e
tinha certeza que fora com uma bala de prata.
— Parem!!!
Um grito cortou os disparos. Os homens olharam assustados ao balançar das
árvores. Tentei inspirar, mas o cheiro metálico de sangue inebriava meus sentidos.
Minha visão começou a ficar turva, enquanto tentava conter os gemidos de
dor que saía de meus lábios.
Meu corpo entrou em um tipo de levitação; conhecia aquela sensação, estava
desmaiando.
Ouvia sem entender um conjunto de vozes, mas não conseguia entender o que
diziam, embora parecessem tentar explicar algo a alguém.
Senti algo frio tocar meu peito nu. Tentei me mexer, mas a dor estava cada
vez mais forte e torturante.
— Está tudo bem, vai ficar tudo bem.
E então tudo ficou preto; mas sem antes me impedir de ver uma bagunça de
fios vermelhos, nem mesmo sentir aquele cheiro maravilhoso que me inebriava.

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