Canção
de Rancor
Capítulo Um
A noite começou com três amigas de Lilian espalhando maquiagem
pela mesa de centro da sala de estar, uma chapinha e um secador para
todas elas. Um dos sofás cinzas já estava manchado de sombra dourada,
e eu me perguntava como minha irmã limparia aquilo sem que minha
mãe visse. Ou se ela me pagaria para isso.
De braços cruzados na entrada da sala, eu observava Samantha
deitada como um gato preguiçoso no sofá. Ela tinha pintado o cabelo de
vermelho sangue havia pouco tempo — enquanto eu tinha meus fios
vermelhos vibrantes —, e agora os tinha cacheados por conta do
babyliss. Ela tinha grandes e redondos olhos negros, concentrados em
seu telefone. Seus lábios carnudos e avermelhados estavam fazendo um
bico; ela era um tipo de mulher que valia a pena admirar.
— Bela! — Lilian gritou, do banheiro. Samantha não me olhou
quando eu saí.
Assim que cheguei na porta do banheiro, observei minha irmã mais
velha. O cabelo platinado estava liso demais, e os olhos castanhos com
sombra dourada e delineado e cílios postiços. Ela abriu um sorriso com os
dentes esbranquiçados.
— O que acha?
Descruzei os braços e entrei para dentro. Fiquei ao lado dela,
servindo de contraste. Enquanto eu era alta, magricela e pálida, com o
cabelo bem curto e bagunçado, ela era baixa, o corpo forte. Exalava
confiança, e eu a amava por isso. Não me olhei muito tempo. Encarei a
roupa dela.
— Você é linda, Lili — falei. Então, apontei para seus sapatos. —
Acho que o salto com amarras combina mais.
— Ele é mais baixo — ela protestou.
— É menos fino. Mais difícil de você cair.
— Eu sou a mais velha — ela respondeu. Ergui os braços em
rendição e me virei para sair do banheiro.
— Se beber e cair, não me ligue — soltei sobre o ombro. Ela me
esticou o dedo do meio, e fiz o mesmo, gargalhando.
Suspirei, indo atrás da chave do meu carro. Quando a achei, estava
em cima do balcão de granito branco e preto, que dividia a sala e a
cozinha. Samantha se sentou, os cachos oscilando. Ela me olhou e sorriu
abertamente, bonita e dócil.
— Já estamos indo? — perguntou, ainda com o sorriso nos lábios.
Assenti.
— Vá chamar as outras no quarto da Lilian, por favor — pedi.
Enquanto ela ia, aproveitei para puxar minha jaqueta de couro preto
que estava no braço do sofá onde havia escorado a cabeça. Samantha
era a amiga mais antiga da minha irmã, e com certeza a favorita da
minha mãe, com o rosto redondo e seu queixo pequeno.
Cortando meus pensamentos, vesti a jaqueta sobre minha blusa
básica branca; ela combinou com minha calça preta nova: cheia de bolsos
e com fitas de tecido que eu estava deixando em formas de laços.
Então, de volta ao balcão, estiquei a mão. Arrepios subiram pelo
meu corpo antes que eu tocasse no ferro. Fiquei confusa e hesitei. Só
quando escutei os barulhos de saltos contra o chão segurei a chave, com
um chaveiro antigo com uma foto da nossa família; meus pais e minha
irmã e eu. A imagem já tinha ficado vermelha e roxa havia tempo, mas
não troquei. Era só uma foto de lembrança da família que um dia fomos,
e eu gostaria de sempre lembrar do sorriso no rosto do meu pai.
Ainda ignorando a sensação que a chave no bolso da jaqueta havia
me dado, encarei as quatro mulheres. Samantha estava com um vestido
justo e vermelho, curto, mas com mangas compridas, gola alta, mas que
mostrava o início dos seios. Lilian usava um macacão de alças finas que
mal chegava à metade da coxa e era preenchido por lantejoulas
prateadas e escandalosas.
Olhei entre Samantha e Lilian. Sara era mais nova que todas elas,
com olhos castanhos e cabelo encaracolado, mas estava ousando mais,
com um top de renda cor de algodão doce e uma minissaia branca de
látex. Então, por último, havia Tiana, a amiga rica da minha irmã, com
cabelos loiros naturalmente lisos, presos a uma trança delicada, lábios
esculpidos e firmes, olhos avelã e vestida com um vestido preto cheio de
flores que eu não sabia o nome bordadas em azul claro e verde pastel.
Duvidava que não fosse de uma marca famosa, e provavelmente deveria
ser uma que participava de manifestações ativistas como Tiana.
— Vou pagar a gasolina — a dita cuja disse, me esticando duas
notas de cinquenta reais. Quase revirei os olhos, quase. Tinha falado
milhares de vezes que não precisavam me pagar, mas levar seu próprio
dinheiro para comprar as pulseiras da balada; vendo aquilo, já sabia que
Tiana iria pagar para todas.
— Não vai não — respondi.
— Aceita logo, criancinha — ela brincou, com um sorriso. Dei de
ombros e puxei uma das notas dela.
— Vou aceitar isso pela primeira de vocês que vomitar no carro.
Quem quer que seja, a lavagem já tá paga.
— Pegue mais pelos danos morais — ela brincou outra vez. Neguei e
me mantive nisso.
— Eu ofereci o carro, então, senão quiserem bater as pernas —
semicerrei os lábios — é melhor irmos agora.
— Não perca a paciência, Bel — Samantha cantarolou, a única que
me chamava assim. Eu achava que meu nome já era curto o suficiente
para um apelido, enquanto o dela tinha duas possibilidades: Sam ou Anta.
Claro, eu só usava o segundo para encher o saco dela.
— Antas andam 9 quilômetros por dia, não confio em você,
Samantha — respondi. Mesmo ela deu algumas risadas.
Acabamos saindo sem enrolação. Pedi que todas checassem se o
telefone tinha crédito para me ligarem se qualquer coisa acontecesse.
Logo, entramos no carro, Samanta atrás de mim, Lilian no passageiro,
Sara no meio e Tiana na janela.
Quando dei partida, o carro falhou. Murmurei um palavrão e tentei
mais duas vezes até que ele ligasse, como se desistindo de ser um
empecilho. Esfreguei meu cabelo vermelho, deixando bagunçado, e
coloquei os óculos de grau que deixava no porta-luvas — tinham a
armação fina, dourada, e lentes arredondadas. Lilian me dera de presente
de aniversário, em julho. Refleti por um segundo que já estávamos em
abril do ano seguinte.
Lilian estourou o som do carro, ouvindo Barões da Pisadinha. Mesmo
eu cantei com elas, comemorando o que era mais uma das noites em que
agia como se fosse a irmã mais velha. Gargalhei com o quão desafinada
Sara era.
A de cabelo encaracolado era a mais nova e a mais recente amizade
de Lilian. E, se ela tinha me pedido para dá-la carona, imaginava que
fossem ficar juntas por um longo tempo, já que Lilian não gostava de
apresentar qualquer pessoa para nossa família — e a nossa mãe. Não era
porque ela tinha vergonha, eu sabia disso. Na verdade, Lilian
simplesmente odiava os olhares de pena dos desconhecidos quando
falavam da morte de nosso pai. Eu tinha aprendido a tolerar, embora não
me irritasse menos.
Lembrei que, anos antes, Lilian estava chorando porque uma menina
do ensino médio tinha tratado ela como uma coitada órfã. E eu podia ser
um ano mais nova que ela, estar no oitavo ano da escola e a menina no
segundo ano do ensino médio, mas botei os ombros de Lilian retos e saí.
Saí para deixar a garota com metade da cara roxa depois de tomar uma
bolada durante o interclasse de queimada — eu tinha habilidosamente
me enfiado em segredo no time do primeiro ano.
Lilian ainda achava que eu só tinha feito isso por ser apaixonada por
um garoto do primeiro ano. O que era mentira, mas eu preferia que ela
pensasse nisso e que pudesse soltar um risinho bem baixo dizendo que
Deus tinha cobrado da cobra. Uma frase comum dela.
— Vocês já sabem, venho assim que ouvir o primeiro toque. — Abri o
porta-luvas outra vez, puxando um punhado de elásticos de cabelo, que
elas mesmas deixavam no meu carro, e estiquei dois para cada. Um da
cor natural do cabelo e outro que Tiana tinha comprado, que brilhava sob
luz neon e no escuro. — O normal é... bem, normal. O esverdeado que
brilha é pro caso de alguma de vocês precisar da ajuda da outra.
Entendeu, Sara?
— Sim, obrigada — ela disse, segurando as ligas entre seus dedos
gorduchos.
O último semáforo ficou verde, e parei na rua da boate. Era via
dupla, então me permiti um minuto parada ali, enquanto elas desciam.
Quando Lili saiu, ela escorou a mão acima da porta do carro e olhou
receosa para dentro.
— Estou com um frio na barriga — ela disse, abrindo um sorriso
inseguro.
— Lili, você sabe que festa é festa, tem que se soltar.
— Pare de me dizer o que fazer, sua antissocial.
— Então não me peça conselhos — respondi, com um sorriso
debochado.
— Eu não pedi — ela retrucou. Balancei os ombros, sem soltar o
volante do meu Onix. — Mas o que estou dizendo é que Sara tá conosco
pela primeira vez, e se eu fizer alguma coisa estranha enquanto estiver
bêbada?
Ri, bem alto.
— Você sempre faz, e Samantha e Tiana ainda estão aqui. Você
conquistou de uma princesa da favela a uma burguesa safada —
respondi. — Sara é simples, e, pelo modo como gargalhou do quarto
falando com Tiana sobre os últimos namorados, tão alto que eu a ouvi
gritar claramente algo sobre o tamanho da peça de um deles, ela com
certeza faz seu tipo de amiga. Se você quiser... — algo mudou na minha
garganta — voltar pra casa, eu mando mensagem dizendo que você
vomitou primeiro e busco elas depois. Samantha e Tiana com certeza vão
descobrir o humor dela e contar a você.
Vi minha irmã refletir.
— Obrigada, Bela — ela disse. — Vou entrar mesmo assim. — Lilian
desencostou do carro e fechou a porta, virando-se para a entrada lotada.
— Espere um segundo — chamei, ela se virou. — Vou te dizer o
preço dessa noite.
Ela fingiu indignação depois sorriu.
— Vamos assistir um seriado de comédia norte-americana.
Ela assentiu e me deixou no carro, enquanto outro buzinou atrás de
mim. Não tirei o pé do freio até ver Lilian reunida com as outras três na
fila de entrada. Quando finalmente comecei a soltar o freio, notei pelo
retrovisor que o maldito tinha estacionado e só estava zoando com a
minha cara. Puxei o freio de mão. Joguei minha cintura para fora da
janela e fiquei de pé no banco, olhando sobre o carro para o homem
saindo de um veículo esportivo absolutamente preto.
— Aí! — gritei. — Carinha do carro esportivo! — Ele olhou para trás,
finalmente. Arqueou as sobrancelhas para meu cabelo vermelho,
imaginei. Abri um grande sorriso e levantei um dos braços, acenando. Ele
fez uma expressão convencida. — Vai se foder! — gritei de novo,
mostrando o dedo do meio, e, antes que ele respondesse, já tinha
entrado e saído em disparada com o carro.
Não demorou nem um minuto. Meu telefone vibrou no bolso.
Arranquei ele, aproveitando um sinal vermelho. Lilian tinha escrito em
caps lock.
SUA BURRA! O CARA É GATO!
Olha a irmã que você tem, ele não pode competir
Só por conta do DNA que a gente divide
Já entendi que você me ama
Você é uma vagabunda
Já entendi que você me ama
Mas é mais ou menos verdade
KKKKKJ, tá bom então
Vai curtir vai
Lilian mandou um áudio gargalhando, e, quando olhei para frente,
não vi que o sinal estava aberto. Acelerei, olhando para o ponteiro da
gasolina. Seria bom aproveitar o dinheiro de Tiana para não deixar o
carro parar no caminho de volta.
Precisei de alguns minutos para achar um posto por perto, e,
enquanto isso, pensava em pedir que olhassem o óleo ou a bateria.
Quase cinco minutos depois, atravessei meu Onix branco para
dentro do posto, enxergando somente um funcionário para abastecer,
enquanto o resto deveria estar dentro da loja de luz acesa, e, virado para
a saída, o lugar onde deveria estar o mecânico; uma Land Rover preta
estava a alguns metros dali, e um homem esguio fumava encostado na
porta; desviei o olhar antes que ele percebesse que eu o encarava.
O abastecedor chegou em minha janela aberta com um sorriso
simpático. Tinha a pele cor de caramelo, e com certeza era décadas mais
velho que eu.
— Boa noite senhor — falei, esticando o dinheiro.
— Gasolina, moça? — Assenti. Ele observou meu cabelo apenas mais
alguns segundos. — Torce pro flamengo? — Assenti, considerando isso
mais fácil do que dizer eu tinha feito simplesmente porque sentia
vontade.
— E você? — perguntei, aumentando o tom para que ouvisse
enquanto esticava a bomba e abastecia meu carro.
— Não gosto muito, sendo honesto — ele disse, ainda simpático.
Enrolei um fio no indicador.
— Sendo honesta, ultimamente a violência na arquibancada tem me
desanimado bastante — comentei, abrindo e fechando a mão no volante.
Ele limpou a garganta, mas a voz estava suavemente diferente
quando voltou a falar.
— Perdi um irmão assim, há seis anos — disse. Mal consegui
responder. — Acabei, moça.
Suspirei, sentindo um calafrio. Perder um irmão... lembrei de Lilian,
do sorriso dela. Depois, lembrei do meu pai.
— Obrigada — falei. — Eu também perdi alguém. Meu pai era
policial.
— Olha, parece que nós dois conseguimos passar isso — ele disse.
Dei um sorriso triste, e meus olhos encheram d’água. Não pela
perda do meu pai, que eu tinha aceitado havia tempo, mas o fato de
encontrar pessoas que tinham perdido pessoas próximas, como eu.
Quando não aguentava mais sentir minha garganta queimar, pisquei forte
e o perguntei sobre alguém que poderia verificar minha bateria e óleo.
— Eu faria, moça, mas tem um carro atrás de você — ele disse,
apontando ligeiramente com o polegar. — Pode estacionar ao lado da
Land Rover, o mecânico vai atender vocês em alguns minutos.
— Posso perguntar o que ele tá fazendo?
— Deve estar tomando banho. O mecânico mora numa casa bem
pequena aqui do lado.
— Entendo. Obrigada — disse.
Não demorei a afastar o carro das bombas, mas hesitei em para logo
ao lado do fumante, pensei em colocar do outro lado, onde não me
encontraria com ele, mas precisaria fazer uma manobra e a outra vaga
era logo de frente. Respirei fundo com receio, batendo os polegares no
volante e estacionei. Minha porta ficou ao lado de uma das portas
traseiras dele.
Com a janela fechada, fiquei no carro por muitos minutos. Cheguei
ao ponto de me questionar onde diabos estava o mecânico e se ele
planejava extinguir os 7% de água do mundo que o Brasil possuía.
O homem ao lado acabou seu segundo cigarro, depois de
incontáveis olhadinhas para mim e meu carro. Talvez estivesse
comparando meu Onix com a Lange Rover preta dele e talvez fosse a cor
do carro que fez meu sangue esquentar lembrando da piadinha anterior
do homem no carro esportivo. Então, cansada, saí do carro e bati a porta,
não me importando se parecia emburrada.
— Olá — ele disse, meio surpreso, a cabeça torta para um lado. — Tá
tudo bem?
— Estou esperando o mecânico faz uns vinte minutos. — Acenei para
ele com o queixo. — E você?
— Ele estava saindo quando cheguei. Faz uma meia hora. Disse que
iria tomar banho e ver suas gatas.
Oh, gatos.
— Que bom pra ele — murmurei, desviando do par de olhos azuis
escuros e cinzentos. — Teria sido bom se ele tivesse apagado a luz como
sinal de que iria demorar — resmunguei, soltando um xingamento
baixinho.
— O que há com o seu carro? Parece grave.
Dispensei ele com uma mão.
— Preciso que veja se coloca mais óleo ou se a bateria tá
acabando... ou se tem alguma porcaria quebrada aqui dentro — falei,
batendo a mão abaixo da janela. — Não é grave, na verdade. Mas vou
precisar buscar minha irmã daqui algumas horas. No meio da noite, o
carro não pode parar comigo, ela e mais três amigas. — Limpei a
garganta. — Desculpe. Eu falo demais pra pessoas que não precisam
ouvir.
— Não tem nada demais — ele respondeu. — Por acaso... foi na tal
Rancor?
Fiz uma careta.
— Não vi o nome. Mas Rancor não parece um lugar muito normal de
festas. Rancor... — eu murmurei, mais lentamente, olhando o chão. — Ah,
é um lugar feito com paredes de containers. A maior parte tons escuros,
com luzes azuis e fúcsias na entrada.
— Deixei alguns amigos meus lá. Vão fazer um show ao vivo. Você
não quis assistir?
— Não curto festas lotadas — acabei soltando um riso misturado
com um suspiro. — Perdão, eu sou feliz com o guaraná empedrado das
festas de família.
— Guaraná empedrado — ele repetiu, abrindo um sorriso. — Não
bebe álcool?
— Só uma vez — admiti. — Foi depois do... enterro do meu pai. Mas
eu não tinha idade, nem estômago. Uns 13 anos — admiti, sem orgulho
nenhum. Mas o que ele poderia fazer? Me condenar por isso?
— Meu avô era russo — ele disse. — Eu tinha menos de dez anos
quando ele me deu um shot de vodka. Era ajudante de bar quando fiz
quinze.
— E hoje? Abriu uma empresa de drinks?
Ele gargalhou.
— Não, não... — Ele secou os olhos. — Sou empresário dos meus
amigos.
— Ah, entendi.
— E você? Faz o quê?
— Me mantenho ocupada estudando. Quero seguir uma carreira de
direito. Ou ser detetive, mas falar assim parece infantil demais, como ser
astronauta.
— É um grande objetivo — ele murmurou. — Muito interessante.
Seguiram-se alguns minutos de silêncio, e eu já não me incomodava
absurdamente com ele. Passei a encarar seus sapados lustrosos, vez ou
outra virando a cabeça e esbarrando com os olhos azuis-esverdeados me
encarando com curiosidade. Conforme o mecânico se demorava mais, eu
perguntava mentalmente se ele estava lidando com algum problema com
os gatos. Era fácil acreditar nisso, já que eu tinha tido um gato, certa vez;
ele já estava morto haviam anos.
— Meu nome é Philip — ele disse, balançando os ombros
deliberadamente.
— Pode só me chamar de Bela — respondi. Ele me olhou como se
quisesse perguntar. — Bela, tipo a princesa.
Ele soltou um riso, como se eu tivesse contado uma piada. Já tinha
me acostumado com essa reação e parado de encará-la como desaforo:
eu era Bela, tipo a princesa, mas mais alta, com o cabelo curto e
vermelho e um par de óculos, e eu odiava ler. Mesmo assim, dizer que eu
era diferente das outras parecia tão real quanto nota de três; haviam
centenas somente na cidade que eram como eu, ou até mais fora dos
padrões.
— Então? — Dei de ombros para a pergunta dele, meus braços ainda
cruzados. Philip girou o pescoço, procurando, sem encontrar, quem eu
imaginava que era. — Já estamos aqui há uma hora, não é?
Sim, deveria ser. Assenti e olhei ao redor. O mecânico não tinha
deixado nem seu cheiro. Mas a luz acesa... despertou alguma coisa em
mim, uma curiosidade, uma sede por investigar. Uma hora fora. Meu
corpo se arrepiou.
Soltei os braços, tensa, e apontei para dentro da oficina. Meus olhos
deveriam ter perdido o brilho, e minha expressão ficado séria, porque
Philip se endireitou também.
— Vamos entrar e ver se ele deixou algo pra terminar. Se não,
vamos apagar a luz e ir embora.
Duvidei que ele fosse concordar, o burguesinho, mas ele o fez logo
depois. Passou a mão pela borda do paletó preto e desviou entre os
carros. Segui atrás dele até a entrada do gabinete.
Entrei primeiro, empurrando meus óculos mais para trás. A primeira
coisa que pensei foi em olhar por coisas fora do lugar, apenas para
começar a ter certeza, já que muitas oficinas deixavam porcas deficientes
pelo chão.
Meus passos eram mais leves, mais cuidadosos. Encarei as listras de
metal pintadas com faixas amarelas e o buraco entre elas. Vazio, com
apenas alguns parafusos e porcas empurrados em um canto. Muito bem,
para usar depois, talvez no dia seguinte, quando ele esperava que
houvesse movimento. Não indicava muito.
Enfiei a mão nos bolsos da calça, sentindo elas esfriarem. Minhas
pernas esquentavam. O instinto humano de se preparar para ir embora.
Ou correr.
Virei para a geladeira. O eletromóvel branco estava ligado na
tomada, então abri a porta inferior. Duas garrafas de água, algumas
frutas e uma marmita.
— Philip — chamei. — Tem relógio?
— É meia noite e meia.
— Estamos aqui faz uma hora. Significa que isso deveria ser a janta
dele — falei, puxando uma vasilha com arroz e carne. — Provavelmente.
Não havia mais nada ali, ou no congelador. Da geladeira, dei menos
de cinco passos até uma caixa de ferramentas azulada no chão; estava
entreaberta, tinha sido empurrada e parado torta ao lado de uma das
listras de metal. Era um sinal.
Me ergui, Philip em silêncio mortal apenas me seguindo. Encarei a
cadeira arredada da mesa: ele se afastou, empurrou a caixa com o pé e
foi embora. Olhei para a mesa, o que parecia o principal indicador: uma
ferramenta de apertar porcas, parafusos variados, rolhas e... porcas. Mas
o que me chamou a atenção foi a caixa de cigarro aberta, três ainda
dentro e um estava pouco para fora, como se pronta para ser puxada
quando ele voltasse. Olhei uma última coisa antes de decidir: o rádio no
canto da mesa; ainda ligado na tomada, a antena ainda esticada bem
para o alto, a frequência que eu sabia que tocava melhor durante a noite
e as primeiras horas da madrugada. Por fim, aumentei o volume. Ligado,
apenas mudo.
Eu nem tinha me dado ao trabalho de contar quantos arrepios e
calafrios tinha tido durante a noite.
E, enquanto eu pensava sobre um possível acidente ou
desaparecimento, minha irmã já estava bêbada a essa altura, com só
Deus sabia quantas doses de tequila, gin, rum e o que mais ela bebesse.
Saí à passos largos. Em questão de minutos, eu estava
interrompendo o trabalho do abastecedor.
— Onde o mecânico mora? — questionei. Ele me olhou com
surpresa.
— Por quê? Você não quer... ir brigar com ele pela demora, certo?
— Acredite, senhor, não é. Estou preocupada, ele deixou a oficina
faz mais de uma hora. Não mandou mensagem, alguma coisa, pra você?
— Não...
— Então?
— Pela rota de saída, você segue reto até a casa 93. Tem um portão
azul celeste com as estrelas do cruzeiro pintadas.
Mal agradeci, puxei Philip pelo pulso. Era tão perto que comecei a
correr ao invés de ligar o carro. Não precisei de cinco minutos com o loiro
no meu encalço, perguntando o que eu estava fazendo e por que eu
achava que uma coisa muito ruim poderia acontecer. Nem cheguei a
responder.
— Tudo indica que ele voltaria sem demora — respondi. — e ainda
não voltou. Se não encontrarmos ele saindo de casa, então vamos pular o
muro e descobrir o que é que tá acontecendo, e, se ele estiver bem,
vamos apenas dizer que ele demorou tanto que achamos que pudesse
estar em perigo. É a verdade. Céus, como eu não pensei nisso antes?
— Calma — ele pediu, segurando meu pulso de volta. E eu me
perguntei porque estava metendo um desconhecido nisso.
— Então fique pra trás. Mal o conheço, nem sei por que te trouxe.
— Tenho que falar uma coisa — ele disse. — Mas, primeiro, acha que
a alguma coisa pode ter acontecido?
— Muitas. Ele pode estar bem, é claro, mas pode ter infartado,
desmaiado, ter sido atacado. E só não palpitei sobre incêndio porque
creio que veríamos a fumaça. Então, o que é? — perguntei,
desacelerando só um pouco. Já conseguia ver o número 93 pregado numa
parede, mas a porta era oculta.
Philip levantou parte do paletó, e só vi mais coisas pretas. No
entanto, desta vez, quando ele esticou a mão para puxar... um revólver.
Não. Uma pistola. E, se meu pai não fosse policial, eu não teria
reconhecido. Arregalei os olhos, tropeçando. Não queria tomar um tiro,
mas... se ele quisesse isso, já teria feito, concluí. Então, movi a cabeça e
continuamos até que parei sob os números prateados. Faltavam passos
para ver a porta.
Encarei a pistola na mão dele, apontada para baixo, o dedo longe do
gatilho. Se ele a tinha, sabia atirar, portanto, fiquei calada.
Contei os passos até a porta. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. E
ela estava aberta. Um vento fantasma empurrou a entrada, que fez um
ruído agudo. Achei que meus olhos fossem saltar da órbita, porque a
porta não estava arrombada, mas... aberta. Se, por um acaso, ela
estivesse com problemas, aberta por acidente...
— Philip — sussurrei, movendo as sobrancelhas e os olhos. — Se
souber atirar, é bom carregar essa arma e pensar com clareza antes de
fazê-lo.
— Anotado, agente Bela — ele disse, e alguma tensão saiu de mim.
— Agente Rollis — corrigi.
— Belo sobrenome — murmurou.
Dei o primeiro passo para dentro, tão silenciosa quanto alerta.
Talvez já tivesse se passado aproximadamente uma hora e meia que ele
tinha saído.
Uma porta aberta, com gatos em casa e coisas deixadas para serem
feitas. Outro calafrio subiu minha espinha. Meus dedos das mãos estavam
fingindo que eram de gelo e minhas palmas achavam que eram um lago
de água salgada — suor.
Demoramos uns cinco minutos para atravessar o quintal da frente e
chegar à verdadeira entrada da casa. Parei em baixo de uma janela,
penteando o cabelo para trás como num gesto nervoso, e dei três passos
para a segunda porta.
Primeiro, pensei que tivesse ouvido uma lufada de ar, depois,
percebi que a noite não tinha brisa. Aquilo era um suspiro humano, uma
pessoa.
Cheiro metálico me atingiu, e meus olhos encheram de água. A
primeira coisa que pensei antes de saltar para dentro era em como
contar o que estava acontecendo para minha mãe. Para Lilian.
Mas nem eu e nem Philip precisamos nos preparar para tomar
alguns tiros. Os gatos estavam mortos, estirados na sala, murchos, como
se tivessem pisado em suas entranhas. E, mais adiante, jazia uma mulher
rechonchuda de cabelos pretos curtos e presos segurando um homem
cheio de minúsculas perfurações sanguentas, sangue espirrado na prede,
nela. O chão manchado. Achei que fosse vomitar quando ela me olhou,
toda a cara suja de vermelho, a blusa branca ensopada.
Achei que fosse travar. Que fosse cair de joelhos o ver aquilo. Mas
não me dei esse direito. Lentamente, arrastando minhas pernas, acabei
com a distância entre mim e os dois. Ela ainda chorava, sem parecer que
sabia que eu estava ali, que eu estava vendo um espeto de carne ao lado
dela.
— Não, não, não... — ela dizia, sem parar, balançando o corpo do
mecânico de um lado para o outro.
Cai para trás, batendo a bunda no chão quando ele começou a
cuspir, se afogando no próprio sangue. O ruído aquoso fez Philip vomitar.
Mas perdi minha linha de pensamento, o homem esticou uma mão
para mim, ou tentou, porque ela caiu ao lado do corpo conforme ele
parecia um peixe fora da água, a boca abrindo e fechando. Rasguei a
blusa por baixo da jaqueta, e, mesmo que alguma parte de mim soubesse
que era inútil, comecei a enfaixá-lo. A mulher nem me via, mas eu
enleava o tecido pelos braços dele. Devo ter ficado fazendo isso mais
tempo do que deveria.
— Por favor — a mulher gritou. — Por favor, me ajude!
Eu simplesmente não respondi.
— Aguente firme, eu vou chamar a ambulância...
A mulher segurou meu braço antes que eu sequer o movesse. Seus
olhos estavam tomados por medo e desespero e culpa, e entendi, com
clareza total, que ela tinha feito aquilo.
— Philip, chame a ambulância — pedi, soltando meu braço da mão
da mulher.
— Eu não queria, eu não queria... eu simplesmente... estava falando
com ele. Alguma coisa me segurou. O diabo segurou minha mão e me
empurrou até ele, eu juro!
Ela se encolheu perante a minha expressão de total desprezo.
— Eu não tive culpa, foi o diabo... isso, o diabo! Não deixe que me
levem, eu não posso ser presa, não fui eu!
Olhei ela no fundo dos olhos escuros. Tanto que ela se arrepiou,
percebi.
— Não se preocupe. Se não foi você, espere até seu Deus te tirar da
cadeia.
— Há um homem que foi... perfurado — ouvi Philip. — Por um espeto
de churrasco. Parece que discutiu com a ex-mulher... ele tá sangrando
muito, e tem sangue por todo o chão, mas ele ainda tá respirando. Ah,
sim, sim, o endereço, ele...
Quando a garganta de Philip oscilou, parecendo que iria vomitar
outra vez, mandei que fosse para fora, a pistola ainda em sua mão.
Com um tecido, afastei o espeto da mulher.
— Ele vai morrer — falei, num tom fantasma. Aquilo era tão...
marcante. E era em parte porque eu tinha decidido esperar mais um
pouco, alguns minutos. Se eu tivesse me apressado... — Ele vai morrer e
é culpa sua — falei.
Um minuto depois, quando Philip terminou a ligação, ele voltou para
dentro. Ficou um certo tempo encarando os gatos mortos na sala.
— Não vão demorar.
— Ele já vai estar morto — falei. Acho que o mecânico ouviu, porque
lágrimas escorreram pelos olhos que se reviraram até ele me ver.
Minha mãe era enfermeira. Eu não sabia tanto sobre o corpo
humano como ela, mas já tinha acompanhado alguns pacientes na
emergência vez ou outra. Coisas surpreendentes ou leves, estilhaços de
chumbo, chaves engolidas, um tiro de raspão no crânio que não tinha
matado a vítima, até que começaram a cirurgia.
Quando voltávamos para casa, minha mãe sempre dizia a mesma
coisa que muitas pessoas: quando é a hora, simplesmente... é. Hoje, eu
entendia isso da forma mais prática possível. Não importava se
transformassem a casa num hospital, se a ambulância chegasse em trinta
segundos. O homem, ainda respirando, já estava morto e talvez ele
mesmo soubesse disso, porque enquanto as lágrimas caíam, fechou os
olhos.
Então, ainda ajoelhada, segurei a mão dele. Havia um aperto frágil,
um resto de força. Morrer não era fácil para quem estava morrendo, mas,
para quem assistia, mal passou de uma respiração decrescente.
Lentamente, eu sabia, o pulso dele acabava.
Demorariam alguns minutos, os quais eu planejava ficar e nem sabia
o motivo. Enquanto ele mal respirava, eu me concentrava em pensar no
cenário em vez de chorar junto com o homem ou começar a agarrar a
mulher que o havia ferido; eu sabia que isso apenas dificultaria a captura
dela. Me manter em silêncio, observando-a e afastar a arma do crime
dela era a melhor opção.
Engoli em seco.
O cenário.
Ela usava um anel na mão sobre o peito ensanguentado dele, mas o
mecânico não. Um cenário de briga após a separação. Se ela tinha
matado os gatos, deveria ser porque sabia que ele gostava deles. No
entanto, todos os animais estavam murchos e sem sangramento, o que
implicava veneno.
Era possível que os gatos tivessem sido mortos havia pouco tempo,
e, quando percebeu os animais passando mal, começaram a brigar. Ele
poderia ter tentado agredi-la, ou, ao perceber que ele jamais a perdoaria,
ela entrou em choque. A primeira coisa que viu foi o kit churrasco que
estava na mesa, segurou o espeto por impulso; ou se defendeu e depois
escolheu tentar matá-lo ou ela partiu direto para matá-lo por não aceitar
a separação.
Era plausível, eu poderia contar isso para a polícia. Com sorte, eles
lidariam com isso melhor que eu.
Assim que terminei de imaginar as circunstâncias, o telefone que eu
tinha esquecido que estava comigo começou a tocar. Minha mão estava
cheia de sangue; segurei ele mesmo assim e atendi.
— Bel? — eu reconheci Samantha com o... celular de Lilian. Sua voz
tremeu já na primeira palavra. Quanta bebida em... duas horas? — Bel,
chama a polícia... tem fogo em tudo!
Meu sangue gelou.
— O quê?
— Bel! A polícia! — gritou. Meu sangue parou de fluir. — SARA, NÃO!
LILIAN!...
Então, meu mundo ficou em silêncio. O celular caiu no chão.
— A boate... pegou fogo — soltei.
Eu já estava correndo.
— Não me deixe aqui! — a mulher gritou, mas eu ignorei.
Lilian. Lilian. Lilian… por favor, não…
— Bela — Philip gritou, minutos depois, eu percebi que ele deveria
ter o mesmo olhar que eu. — Meu carro é mais rápido!
No segundo em que ele levantou a chave... não era para mim, era
para mostrar, mas não me segurei. Puxei da mão dele e corri como uma
bala. Como a bala que eu esperava que não atingisse Lilian, como o teto
que eu esperava que não caísse nela, ou pior, ou qualquer coisa de ruim.
Philip praguejou irritantemente alto, mas demorei metade do tempo
dele para chegar ao seu carro. Já estava ligado antes que eu fechasse a
porta. Acelerei, e não me importaria de atropelá-lo pela minha irmã.
Menos de cinco minutos.
Menos de três, porque eu fui pela contramão, e fui a mais de 80
quilômetros por hora. Sabia que se demorasse, se eu fosse seguir as
regras... não, não pensaria naquilo. Primeiro o mecânico que eu tinha
deixado para morrer, depois...
A via de mão dupla da boate embrulhou meu estômago. Não
desliguei o carro ou tirei a chave de ignição quando me joguei para fora
aos tropeços. A porta fechada fazia a boate parecer uma caixa de
alumínio e ferro de container, era alta, entre dois prédios.
Corri para a beirada da calçada, virei um ombro, e me preparei para
arrombá-la. Quando meu braço se chocou com a porta, ele doeu, depois,
queimou, queimou de verdade, e a porta se manteve intacta. Era de
ferro.
A porta era inquebrável e as coisas lá dentro deveriam estar
pegando fogo.
Voltei ao carro, e rezei, eu rezei, ao lembrar que Philip e os amigos
tinham uma banda. Eu precisava de uma caixa de som, só uma. Soquei a
porta para cima. Cabos, apenas cabos. Mas eles não eram úteis... ainda
não.
Quando minha mente clareou, olhei uma segunda vez o tamanho do
prédio. Arremessei todos os cabos para cima do carro, e, sendo assim, dei
a volta, entrei e liguei ele. Cuidadosamente, eu dei uma ré, porque não
sabia quantas pessoas poderia atropelar se entrasse lá dentro, se eu
atropelasse Lilian... calei a mente agitada.
Saí do veículo, subi numa das rodas frontais, e, do capô, subi para
cima do carro. Eu praticamente alcançava o teto da Rancor. Com um
trabalho rápido, dei nós em todas as extensões, amarrei na borda da
janela do carro, enrolei em um dos meus braços, e me impulsionei para
cima. Meus dedos queimaram no alumínio escaldante, mas me segurei
com força de vontade; bati os pés no metal e escalei.
Verifiquei a força da corda, sempre a puxando conforme andei pelo
teto da boate. Quatro passos, e cheguei a uma escotilha de vidro negro.
Um pouco de luz irradiava dela, o que eu já sabia que se tratava de fogo.
Ao tentar abrir a escotilha, ela emperrou. Não pensei duas vezes.
Sentei no chão, chutei uma vez, sete vezes, ela rachou. Na oitava, os
cacos de vidro caíram lá dentro. Não me importei com a dor, apenas em
fazer uma abertura maior, o bastante para que eu passasse.
Segurei os cabos com firmeza e não olhei para baixo, não permiti
que o medo me corroesse. Minha irmã precisava de mim.
Como meus dedos estavam queimados, me soltei dos cabos logo
que pude. Já estava suando assim que toquei o chão. Achei que fosse
derreter. Firmei a corda, e ouvi os gritos. Minha cabeça virou tão rápido
para a esquerda que estralei o pescoço.
— Moça? — disse uma entre dezenas, quase uma centena, que se
empurravam para a parede escaldante, pois, metros à minha direita, uma
parede de fogo se erguia, apenas alguns pequenos espaços queimavam
mais embaixo, deixando que eu vislumbrasse o outro lado.
— O que aconteceu? — eu perguntei, sem soltar a corda, mas
apertando mais, meus dedos protestando.
— As caixas de som da boate tiveram um curto circuito. — Não
precisei ouvir mais nada.
Estiquei o braço para eles, chamando para a corda. Quando os
primeiros vieram, gritei os avisos acima de seus gritos.
— Sobe um por vez, os que estão embaixo tem que empurrar o
outro para cima, se não fizerem, a corda rompe com vocês, entenderam?
— Ouvi berros, agradecimentos e choros em resposta, e, mesmo que
preocupada com as dezenas de pessoas, não me esqueci de meu motivo
de estar ali.
Me afastei para um canto. Observei apenas alguns segundos
enquanto eles fugiam e eu retirava minha jaqueta de couro.
— Deixem a corda esticada quando todos tiverem fugido e não se
esqueçam de chamar os bombeiros. Quantos tiverem telefone! — gritei.
— Vai atravessar? — uma mulher perguntou.
Olhei para o paredão flamejante, desesperado para me engolir.
— Minha família tá lá — respondi. Ela não tentou protestar.
Eu girei os ombros, me abaixei, as labaredas furiosas rugindo, e corri
para saltar; o fogo não me tocou por tempo suficiente para queimar, mas,
quando pisei do chão, tropecei e bati a cara; de primeira, pensei ter
quebrado meu nariz, mas ele somente doía. Rolei pelo chão e me
ajoelhei, minha cabeça tão tonta que por alguns momentos esqueci onde
eu estava. Ao recobrar meu objetivo, levantei rápido até demais.
Estava cercada por fogo; à direita, o papel de parede queimava e
derretia, à minha frente, havia uma passagem estreita e uma porta
praticamente oculta no fogo. Então, me sobrou atravessar o fogo mais
fraco da esquerda.
Juntei os braços, rentes ao corpo, e comecei a correr. Meu cabelo
derreteu parcialmente antes que eu chegasse a um meio não tão
devorado pelas chamas. Tropecei em algo, mas me mantive em pé; no
momento que vislumbrei o que tinha me feito tropeçar, tranquei a
mandíbula, fechei o punho e travei o pescoço para frente. Não deveria
olhar os corpos queimados. Os emaranhados, o cheiro de cadáveres
sendo carbonizados, fiz o que pude para ignorar tudo.
Meus passos estavam cuidadosos e lentos; eu olhava mais para o
teto, me concentrando nele durante aqueles momentos: alumínio,
embora o lado de cima fosse claramente de cimento.
Ouvi gritos, e olhei para frente. Num lugar um pouco mais amplo e
sem fogo, as pessoas empurravam umas nas outras, o que pareciam mais
dezenas, fazendo uma montanha de corpos chamuscados, mas gritando
por ajuda.
— Lilian! — gritei. — Lilian!
Nenhum deles respondeu, nenhum disse “Bela”. Meu choro
escorreu, embora mal umedecesse meu corpo queimando. Comecei a
cavar entre eles, puxando as pessoas machucadas ou não. Lilian
realmente não estava ali.
Comecei a gritar com um dos sobreviventes.
— Atravessem correndo até a entrada! Há uma corda lá, mas, para
que não rompa, os que estão em baixo precisam empurrar quem estiver
subindo! A corda despenca e todos morrem se não fizerem isso!
— Como vamos conseguir chegar até lá? — ele gritou de volta.
— Têm que tentar! Alguns que fugiram já estão chamando as
ambulâncias! — Antes que ele saísse, segurei seu braço. — Onde mais
podem ter sobreviventes?
— Alguns de nós fugiram do banheiro, mas outros podem estar lá,
com medo de sair.
Ele se soltou e começou a correr.
Não olhei para trás enquanto eles tentavam se salvar. Outra vez, me
preparei para correr, para derreter no fogo, se assim eu salvasse Lilian.
Quando comecei meus primeiros passos, meu pulso foi puxado para trás.
Me virei somente para encontrar a face do homem vestido de preto que
tinha buzinado para mim. No entanto, eu estava sem tempo para reagir a
ele ou aos que estavam em seu encalço, todos de preto, como se fosse
seu uniforme.
— É melhor começar a correr — avisei. — Vai derreter se ficar aqui
dentro.
— Você também.
— Ótimo, eu salvei você, cão leal. Vá embora. Eu ainda preciso
encontrar alguém.
Os olhos dele se fecharam sutilmente.
— Você salvou a gente — ele disse, relutante. — Se quiser ajuda pra
encontrar alguém mais rápido, nós nos oferecemos.
Analisei os rostos deles, sem resposta, apenas pressa. Me virei. Não
cabia a mim envolver mais estranhos nisso.
— As caixas deram curto-circuito enquanto nós cantávamos —
confessou, a causa de tudo aquilo.
Travei outra vez. A causa de minha irmã estar aqui... Não, não
realmente. Poderia ter sido qualquer um. Eles apenas estavam sem sorte.
Mas saber daquilo me fez lembrar de alguém.
— Conheci Philip — revelei.
O homem não me respondeu, o que mostrava que eu estava certa. A
expressão dele mudou.
— Temos menos de cinco minutos, ou morremos aqui dentro, pela
fumaça ou pelo calor — avisei.
Nenhum deles hesitou. Eu também não, então, comecei a correr.
Segui o caminho de chamas, meus olhos ligeiramente virando conforme
avançava, procurando um caminho. Algo de madeira baixa apareceu,
queimando logo à frente. Deveria ser o palco. O caminho de fogo se
estreitou quando viramos à direita dele, e, não muitos passos depois, se
fechou.
Pisei com força no chão, xingando.
— Pra onde? — perguntei ao homem, o cabelo preto dele oscilando
enquanto virava sua cabeça de um lado ao outro.
— Ao lado do palco fica o camarim, mas não tem porta deste lado.
Precisamos correr e atravessar o fogo, pra chegar ao banheiro. — Ele
penteou o cabelo para rás, engolindo em seco. — Passar pelo fogo.
— Minha irmã pode estar lá dentro — falei. — Mas seu amigo
restante tá do lado de fora. Volte.
— Meu nome é Kieran — ele disse. — E não sou um cão leal. Muitas
dessas pessoas estão presas porque atenderam à proposta do nosso
show.
— A culpa não é sua de ser... famosinho — respondi, encarando
friamente o segundo paredão de fogo. — Mas minha irmã não queria vir e
eu a encorajei.
Lilian só podia estar do outro lado, então, eu precisava ir para lá. O
grupinho de quatro pessoas não.
Invadi o fogo, correndo tão rápido que meu cabelo mal queimou.
Continuei reto, imparável, até que apenas chamas me cercassem,
queimando meus braços e pegando e minha calça. Ainda não tinha
parado quando alguém trombou em meu ombro e me arremessou para o
lado; baqueei, batendo em uma parede flamejante e depois tropeçando
para frente, entrando em uma porta. O chão era quente, mas, enquanto
me arrastava, alguém me puxou pelos ombros e me arrastou mais para
dentro do banheiro; depois, um segundo homem bateu em minhas
pernas, apagando o fogo com o paletó.
— Malditos, falei pra saírem daqui!
— Não podíamos deixar quem nos salvou pra morrer.
Tossi, me colocando lentamente de pé. Quando olhei para trás, mais
gente se empurrava para a parede mais distante do fogo; a entrada do
banheiro e uma das divisórias ardia derretida, e o fogo aumentava —
queimaria tudo tão logo. Eu queria avisar para fugirem, eu queria gritar
Lilian, mas seria fácil ver suas lantejoulas ali, o cabelo platinado. Não
havia ninguém sequer parecido com ela.
— Bela? — alguém chamou. Quase não reconheci a voz embargada.
Quase não reconheci Sara, com o que parecia um tecido de uma
camiseta perdida na cintura. Ela tossiu e mais pessoas estavam fazendo
o mesmo. Eu estava. A fumaça era mais intensa ali. — Você...
Agarrei os braços dela, os meus próprios protestando.
— Lilian — falei. — Onde a Lilian tá?
Ela hesitou em responder.
— A primeira caixa a estourar foi na sala de jogos. — Minha garganta
estremeceu. — Começamos a correr pra saída, mas as duas mais perto
estouraram em seguida. Eu corri pra cá, mas as do restaurante
estouraram bem quando entrei no banheiro... só consegui ver que o fogo
perto do camarim já estava alto.
— Jogamos água numa parte do banheiro e encharcamos parte do
chão, mas não vai durar muito tempo. A água da caixa... acabou. Os
canos podem ter derretido ou travado... eu não sei. Não há mais nada —
disse um outro entre eles.
— Sara — chamei. — Onde a Lilian tá?
Minha pergunta a atingiu como um raio.
— Na sala... na sala de jogos — ela choramingou.
Olhei para Kieran.
— Quer me ajudar? — ele não se moveu. — Os menores e mais
magros tem que molhar a camiseta e calça nas águas dos vasos, e correr
pelo caminho que viemos, até a saída. Sabe o que falei sobre a corda.
— Pra onde vai?
Ele fez uma expressão de arrependimento em seguida.
— À sala de jogos — respondi.
— Foi uma das primeiras a queimar.
— Não deixo a família pra trás — falei.
De repente, a tensão dos meus ombros sumiu. Morte. Era a morte
que me aguardava: salvaria Lilian, deixaria que usasse meu corpo como
barreira contra o fogo. Na saída, a porta de plástico derretido pareceu
dizer adeus. A umidade no chão secou sob meus pés, somente para que
eu pudesse correr mais rápido.
Apenas virei o rosto quando alguém tocou meu ombro.
— Tome — disse Sara, me dando uma camiseta encharcada. Um
gesto de boa sorte. Um adeus poético com fogo, água do vaso, e pessoas
chamuscadas. Segurei a blusa delicadamente, amarrando ao redor dos
meus ombros feridos. — Diga a ela que não queria tê-la deixado pra trás.
Assenti.
Me aproximei da porta do banheiro.
— A fumaça vai engolir tudo em minutos.
— Seremos rápidos — Kieran respondeu, seus amigos ainda em
silêncio, seguindo-o como se fosse... um irmão mais velho. Pela pele
queimada e a garganta cheia de tatuagens, deveria mesmo ser. Bati a
mão no ombro dele.
Eu sabia que não ia voltar. Acho que sabia desde o início. Por isso
não olhei para trás em nenhuma das minhas partidas.
Meu joelho estalou. Enquanto corria, chutava o que pareciam
banquetas incendiadas para o lado. O calor beijava minhas laterais,
queimava minha cintura, minhas mãos conforme abanava o fogo e
saltava em qualquer espaço livre. Em questão de segundos, vi o fogo
afastado de uma parede de alumínio. Grudei as costas nela, gritando de
dor.
Minha cintura e minhas mãos estavam queimadas. E minhas costas
também, desde que eu tinha encostado no alumínio escaldante, mas não
havia nada que pudesse ser feito; virei de bruços para a parede, minha
barriga ardendo, e comecei a me arrastar lentamente por ela; foram
apenas alguns passos quando o fogo lambeu minha mão. Eu gritei, mas
algo em mim brilhou, porque significava uma abertura.
Me joguei para dentro da sala de jogos; outra vez, eu caí no chão, e
doeu dez vezes mais, mas lembrei de rolar e apagar o fogo em minha
calça, que despencava em frangalhos, o tecido se unindo às pequenas
queimaduras.
— Lilian! — comecei a gritar, zonza. Eu via apenas o dourado.
Dourado com dourado em dourado queimando dourado. Quando bati o
joelho no chão e me joguei para o lado, escapei de uma língua fogosa.
No entanto, quando meus olhos se firmaram, eu permaneci no chão.
Sala de jogos. Quantos deles... quantos jogos eram de madeira?
E o cheiro...
O primeiro lugar a queimar.
Eu podia ver o carpete queimado, barras que deveriam sustentar
enormes cortinas e corpos. Pilhas de corpos. Tudo estava pegando fogo,
carbonizando.
Se o inferno não fosse daquele jeito... então o diabo não sabia
cumprir sua função.
Gritei, berrei, e bati o punho no chão.
Alguns dos corpos tinham rolado para fora do fogo, mas estavam tão
torrados que se respirassem seriam zumbis. Continuei gritando até a
fumaça destruir meus pulmões — e sentia estar no olho do furacão.
Não por mim.
Mas por Lilian.
Um crack soou, e outra coisa saiu rolando do fundo da sala. O corpo
derretido de Samantha me fez urrar uma última vez. Tiana e Lilian não
estariam longe, não deixariam umas às outras. O segundo estalo me fez
chorar ainda mais. Um corpo destruído tombou, plástico derretido tinha
fundido com suas peles, e nada, nunca, descreveria o sentimento de ver
que Samantha, a primeira amiga de Lilian, tinha morrido com ela. Seus
cabelos já não estavam em seus corpos.
Lilian tinha o rosto contorcido.
Uma ferida na forma de marcas de mãos indicava que Samantha a
tinha abraçado até a morte.
E era culpa minha.
Se eu não tivesse trago ela, se tivesse forçado ela a entrar no
carro... E, por não o ter feito, eu tinha condenado a vida de Lilian, da
nossa mãe e a minha, das amigas dela, de suas famílias.
Senti como se eu fosse uma criminosa. Suja. A voz na minha cabeça
não parava de gritar. Lilian estava morta na minha frente, e eu tinha
achado que morreria primeiro. Por quanto tempo ela deveria ter ficado
queimando viva antes da morte? O que ela tinha pensado da irmã que
não chegava nunca para salvá-la?
Outro tipo de calor surgiu, me preenchendo de fúria.
O que ela pensou de mim...
Eu não conseguia mentir para mim mesma. Eu conhecia minha irmã
tão bem que simplesmente sabia que ela me amava, que estava feliz
desde que eu ficasse segura. Ela me xingaria tanto se me visse aqui,
ferida e com fumaça defumando meus pulmões.
Lilian era boa. Era minha irmã. Ela e minha mãe eram a única coisa
que eu tinha do meu pai.
Lilian era tão boa, tão feliz, tão marcante... marcante o suficiente
para me lembrar de anos antes, quando cães de rua estressados nos
perseguiram durante a noite; seus olhos obscuros pela raiva; ela
empurrava minhas costas e me mandava continuar, mas, em certo ponto,
um deles mordeu seu tornozelo. Ela choramingou para que eu fugisse, ela
realmente achou — aos treze anos — que morreria sendo devorada por
cães, e, ainda assim, me mandou correr. Eu não tinha obedecido; chutei o
maldito cão até quebrar sua mandíbula e depois chutei o outro que
avançou, nas costelas. Corremos juntas, ela mancando, eu de apoio, mas
não a deixei para trás.
Agora, não havia uma Lilian para ser deixada.
Só eu. Eu e a lembrança dela pensando que ia morrer e me
mandando fugir.
Eu não tinha obedeci na primeira vez, e...
Mas, agora, não havia uma Lilian para ser protegida. Apenas o corpo
quente pelas queimaduras.
A ira me corroía tanto quanto a culpa, entretanto, me coloquei muito
devagar sobre meus dois pés. Encarei os corpos em despedida. Tiana
deveria estar logo atrás delas, o corpo pregado à parede pela pele
derretida.
Me prometi que faria questão de verificar se ainda tinha alguém no
banheiro, se eu chegasse, se o fogo não me matasse, se eu não
desistisse no caminho.
Atravessei a cortina de chamas, segurando no alumínio; queimei um
lado de minha mandíbula esfregando a cara no metal. E, então, comecei
a correr. Não sabia se estava mais rápida ou lenta, mas porta do banheiro
surgiu, e eu percebia que o fogo começava a entrar mais, conforme a
água deveria estar secando; o espaço se reduzindo ao plástico fedido.
Quase abri um sorriso quando me joguei lá dentro em lágrimas, meu
corpo praticamente intacto. Minha vista escureceu por poucos instantes
antes de ouvir alguém falar comigo.
— Você voltou.
De primeira, não reconheci, mas, quando firmei os olhos, enxerguei
Kieran.
— Ela morreu no fogo — falei. Um braço dele segurava minha nuca,
o outro, tentava levantar minha cintura, evitando que as queimaduras
tocassem o chão. Impedi ele de me levantar, segurando seu pulso. — Eu
poderia tê-la salvado se tivesse chegado antes — disse, me agarrando às
lapelas do paletó e chorando. — Se eu tivesse seguido o lado oposto
quando entrei, eu poderia tê-la salvado.
A expressão confusa dele se tornou algo diferente, mais
decepcionado, mais triste, por mim.
Um de seus amigos colocou um joelho no cão logo ao meu lado.
— O banheiro vai secar — começou, me olhando com cautela —
precisamos de outro lugar. O plástico daqui pode ser do tipo que libera
cheiros ou compostos tóxicos. É melhor não arriscar.
Olhei Kieran nos olhos; ele sabia o que eu queria dizer, mas, tão
logo, seu rosto ficou destruído.
— Guiamos eles pelo fogo — falou. — Mas os fios romperam. — Eu
suguei o ar com o susto. — Alguns se perderam no fogo, outros
desmaiaram. Poucos preferiram ficar perto do palco. A menina com quem
estava conversando... a corda rompeu com ela, e bateu a cabeça. Ela
bateu a têmpora num caco de vidro e morreu na mesma hora,
praticamente.
Os amigos dele continuaram em silêncio, mas o que estava ao lado
de Kieran, sendo aparentemente o mais jovem, olhou para o chão, a
roupa parcialmente queimada
— Obrigado por tentar nos salvar.
— A corda... caiu — respondi, minha garganta dolorida depois de
tanto chorar e gritar.
— Você tentou de verdade, você ofereceu a corda. Nós escolhemos
te ajudar antes de fugir, e, mesmo que não haja mais outro jeito... — Ele
piscou os olhos escuros e finos, cheios de lágrimas comoventes. — Todos
ainda somos gratos.
O menino parecia mais jovem que eu. Dezesseis a dezessete anos,
em torno disso. Eu tinha sido jovem assim não fazia muito tempo; para
um jovem assim, que deveria ter a vida pela frente, era um sacrifício
doloroso aceitar a morte iminente. Ele era corajoso.
Olhando nos olhos dele, nos amigos a poucos passos de distância,
senti um resto de força subir minha espinha. E, quando olhei o mais
jovem outra vez, refleti que minha irmã seria altruísta o suficiente para
fazer isso, para se levantar, mesmo que precisasse apoiar o corpo em
outra pessoa, e tentar ajudá-los a viver mais um pouco.
O fogo se moveu mais além, de um jeito praticamente sobrenatural.
— Posso tentar correr mais um pouco.
Lentamente, Kieran me soltou. Ficar de pé era doloroso, e meus
joelhos fraquejaram prante o latejar de dezenas de queimaduras. Mas
não caí, graças a adrenalina.
— Podemos ficar onde estávamos no início — disse o mais jovem. —
O fogo não chega ao centro, mesmo que seja quente e o espaço muito
pequeno. É possível que sejamos capazes de aguentar por lá até que
cheguem os bombeiros. — A leveza com que ele falou, o cuidado nas
palavras, a falta de emoção. Uma mentira, uma doce mentira.
Uma que eu escolhi acreditar porque nada mais me restava. Eu iria
morrer, e, sendo assim, as últimas pessoas que eu veria seriam eles. Com
o calor derretendo ameaçando entrar, tentei manter os ombros retos por
alguns segundos.
— Quero saber o nome de vocês — falei. — Não se marcaram o meu,
mas eu sou Bela.
— Andreas — disse o mais novo.
— Sou Nicolas — disse um entre eles, o cabelo levemente comprido,
uma camada descolorida e os olhos repuxados.
— Silas — disse o restante; havia uma semelhança suave entre ele e
Kieran; tanto no nome exótico como na pele de porcelana e o maxilar
com o queixo puxado para frente.
— O banheiro tá fedendo a plástico derretido. Vamos logo — eu
resmunguei. Manquei com uma das coxas, apenas uma vez, apenas para
saber até que ponto a firmar no chão.
As queimaduras estavam doendo cada vez mais, já que a
conformidade com a morte não fabricava adrenalina. Olhei para trás.
Devo ter feito cara de dor; Kieran se aproximou, cuidadosamente
passando a mão pelo fim de minha coluna e outra na nuca, me puxando
para cima; era desconfortável, mas... aceitei.
— Tudo isso — ele disse, estupefato olhando as chamas — em
poucos minutos.
Não mais que dez desde que eu tinha chegado. Parecia ter se
passado uma eternidade.
Abri a boca sem vontade, e não fui eu que manei meu corpo
perguntar:
— Como? Quero dizer, como chegou a esse ponto?
— Uma parte do piso era acarpetado, e todas essas cortinas...
alavancaram isso, além do bar ser de madeira. — E havia o papel de
parede que ele não falou. — Mas foi tudo tão rápido...
— Eu acho que... — Andreas disse, chegando perto — que o fogo
pode ter aquecido sob o chão, derretido os circuitos da porta, por isso ela
não abriu.
— É... pode ter sido.
Kieran me puxou um pouco mais.
— Posso correr mais um pouco — falei, porque ele ainda era um
estranho para mim.
— Vai tropeçar no meio do caminho com o corpo nesse estado. Não
sou um tarado, Bela. Confie em mim, vou te pôr de pé assim que
alcançarmos a parte sem fogo.
Um estranho, a minha mente falou, mas, pouco depois, ela mesma
se assentou naquela realidade flamejante: um estranho que iria morrer
comigo, como eu. De um jeito macabro, realizei que o fogo nos faria
gritar e arder como o inferno juntos.
Talvez não tão estranho assim.
— Não tropece também — falei. — Não posso arrastar dois pra fora
do fogo.
Realmente não, mas... ele sorriu, pequeno, inseguro, triste.
Correspondi da mesma forma, pousando minhas mãos na barriga em
carne viva.
Andreas se colocou na frente, e soube que ele seria a cobaia, o
primeiro a gritar se o fervor nos alcançasse. Um maldito herói, não por
opção, mas um senso de obrigação que eu podia entender — eu senti isso
com Lilian, ele sentiu com os amigos.
A perdição dourada e laranja nos esperava. E eu sabia que iria
machucar mais do que nunca, porque minha adrenalina estava
abaixando, mas... não ficaríamos para trás: não me custava muito dar
uma esperança àqueles garotos, mesmo que já soubéssemos que todos
iríamos morrer.
Mais uma lágrima escorreu, descendo pelo meu olho esquerdo.
Estremeci no colo de Kieran, uma parte de mim desejando não fazer
aquilo. Fiquei em silêncio quando vi Andreas atravessar primeiro, o corpo
desaparecendo milésimos de segundos depois. O medo me consumiu;
não queria encontrá-lo morto no caminho. Nem ele, ou Nicolas que foi
logo em seguida. Quando sobrou apenas Silas, os olhos azulados
assombrados e tremendo diante do fogo, abri a boca para me desculpar,
mas acho que ele percebeu isso quando nos olhou de soslaio, porque saiu
em seguida.
— Kieran — falei. Ele travou no passo que tinha dado em direção à
porta. — Centenas, foram centenas.
— Eu realmente não sei como acabou assim. O fogo foi tão rápido
e... todas as caixas estouraram no mesmo momento, praticamente.
— Parece que você tá se culpando por não fazer parte da
manutenção — falei, forçando um estranho desinteresse. — Não o faça.
Isso não importa mais. Nós vamos morrer de qualquer jeito.
Ele observava o inferno com intensidade, como se comtemplando a
morte que nos consumiria logo.
— Pelo menos... pelo menos vou poder me unir com Lilian e meu pai
— desabafei. Ele me olhou como se aquilo fosse a coisa mais cruel que
alguém pudesse dizer; e aquilo foi estranho, porque ele era estranho e eu
era estranha e estava falando coisas íntimas para ele.
Kieran olhou para frente. Segundos depois, nós deixamos o fogo
comer nosso couro. Tudo estalava ao meu redor, o cheiro desagradável
tornava minha cabeça uma desgraça dolorosa, e, tão horrível aquilo era,
que tinha certeza de que estava gritando, fincando as unhas, ou o que
sobrava delas, no peito de Kieran, que logo começou a gritar também. O
fogo tinha aumentado ainda mais, e o espaço estava anormalmente
menor.
Ele tropeçou comigo no colo, mas, mesmo fraquejando, não caiu.
O primeiro a nos puxar, a se assegurar que Kieran não iria
despencar junto com sua pressão, foi Silas. Os olhos cintilando e
fervendo. Quando olhei para os outros dois, percebi que eu não era a
única gravemente ferida. Nicolas tinha os dois ombros derretendo, e
estava mancando quando veio até nós, Andreas logo atrás segurando
lágrimas pelos antebraços no mesmo estado que estaria plástico num
forno.
— Desculpem — eu repeti. — De verdade, desculpem.
— Nós não te culpamos — disse Andreas. E era visivelmente
verdade. Mas ainda doía, de um jeito que eu comecei a pensar se eu
estava me desculpando a eles ou à... Lilian. Ao meu pai. À minha mãe.
— Consegue ficar de pé? — Kieran cortou, com empatia.
Sinceramente, era difícil acreditar que ele e o cara que buzinou para o
meu carro eram a mesma pessoa. Assenti. — Bom.
Lentamente, ele se abaixou, deslizando minhas pernas para o chão.
Tremi ao ter que me posicionar e não consegui soltar o ombro dele. Me
apoiei e Kieran não deu sinal de protesto.
Estávamos praticamente formando uma fila. Nicolas e eu, cada um
em um extremo.
— O que... — hesitei, dolorosamente me firmando. — O que fazemos
agora?
Kieran repetiu o olhar observador.
— Damos as mãos — ele disse, e me olhou de soslaio — e
esperamos.
Pela morte ou pelo resgate, eu não soube nos primeiros segundos.
Mas entreguei minha mão a ele, a palma e os dedos queimados. Ele o fez
para Silas, que fez para Andreas e, finalmente, acabou em Nicolas.
Minha cabeça repetiu a mesma sentença mais um punhado de
vezes.
Não é possível morrer com um completo estranho, pois todos
compartilham o mesmo olhar na hora da morte.
Olhei no fundo dos olhos negros de Kieran.
— Foi bom ter passado quinze minutos da minha vida com vocês —
falei.
— Igualmente — a resposta dele praticamente me tirou um sorriso.
— E foi maravilhoso ter conhecido vocês por anos da minha vida —
disse Nicolas. — Não tive arrependimentos de nada do que vivi.
— Não tivemos — disse Andreas, por todos eles. Mas aqueles olhos
acabaram recaindo sobre mim.
— Não posso dizer o mesmo, mas... quem eu amo tá do outro lado. E
espero encontrá-los.
Ninguém mais falou nada.
Pelo resto do tempo, só fizemos uma coisa: esperamos.
Todos nós esperamos num silêncio que parecia mais do que uma
despedida, mas era uma aceitação, também. Talvez nada daquilo
pudesse ter acontecido de um jeito diferente.
Eu me peguei desejando que pudesse ter morrido no lugar de
Samantha; que fosse eu a estar abraçada com Lilian. Mas não foi, e me
restou apenas isso.
Restou apenas a escuridão quando finalmente abdiquei de tudo e
fechei os olhos.
Soltei um último suspiro de tranquilidade, perfeitamente
conformada.
Deixei que a escuridão total se apossasse de mim, e, quando tudo
acabou, quando só restou uma absurda falta de qualquer coisa... sabia
que devia estar morta.
E não houve luz no fim do túnel. Não para mim.
Capítulo Dois
A maior parte de mim permanecia dormente, loucamente intocável.
Em alguns momentos, eu ardia, e era tão intenso que sentia que estava
chorando.
Aquilo permaneceu por um tempo absurdamente longo.
Devia ser o inferno.
Devia mesmo ser, porque eu estava começando a lembrar de quem
eu era, do que eu tinha sido incapaz de fazer.
Minha cabeça latejou, e eu só conseguia gritar dentro dela,
incansavelmente perturbada pela imagem carbonizada da minha irmã.
O silêncio aterrador era pior que qualquer destino depois da morte.
Minha única esperança era que quando perdesse a consciência de tempo
eu pararia de lamentar.
Deveria chegar um momento, naquele vazio infinito, que só restaria
o próprio e não mais o rancor de ter perdido Lilian e... Rancor. Rancor. A
palavra, o maldito nome, me fez morrer outra vez. Me fez querer isso.
Nesse instante, quando a exaustão se tornou praticamente uma
âncora, eu me toquei que mortos não deveriam sentir. Que eu não
deveria ter a capacidade de perceber a latejante dor que cercava a maior
parte do meu corpo.
Deviam ter passado horas, de incontáveis dias. Anos. Eu não
conseguia contar o tempo, só sabia que tinha despertado algo em mim.
Em algum ponto daquilo, um prolongado e fino ruído preencheu
minha consciência, como se meus ouvidos estivessem zumbindo.
Demorou para que diminuísse, levou tanto tempo, que, quando ele se
reduziu a uma coisa distante, alguma coisa molhada percorreu meu rosto,
com uma sensação tão vaga que dizer que eram lágrimas parecia uma
ameaça.
Mais tarde, ouvi algo como um borbulhar com ritmo; ele pausava
algumas vezes, e, a cada instante, ficava um pouco mais firme. Forcei
meus sentidos ao limite somente para saber o que era aquilo, que tipo de
coisa poderia descobrir para me distrair da dor lancinante.
Dara foi a primeira coisa que eu entendi, e imaginei que fosse por
conta da familiaridade com o nome. Não entendia o porquê, mas o nome
me fez sentir um calor confortável subir pelo peito. Ela devia estar me
esperando acordar; minha mãe devia estar de coração partido, a cara
inchada, ferida por dentro por conta da morte de Lilian, mas me abraçaria
assim que me visse.
Esperaremos ressoou logo em seguida, seguido por algumas coisas
e, por fim, contaremos.
Sim, doutor foi a resposta, e comecei a identificar uma voz feminina,
mas não era da minha mãe, era muito mais fina, suave e triste.
Estalos simples soaram, e eu sabia que eram passos.
— Por favor... — disse ela, e parecia muito mais perto e mais
cuidadosa. O tom no pedido que estava para fazer me arrancou algo
como um... suspiro. — Por favor, você tem que acordar logo. — Como se
seguindo o desespero dela, estremeci, sem poder responder, ou
corresponder. — Meu nome é Luciana, trabalhei com sua mãe —
continuou. — Não sei se pode me ouvir, menina. Eu sinceramente acho
que não, mas não demore a acordar.
Não conseguia nem tentar perguntar o motivo. Eu simplesmente
esperei que ela o revelasse, por acaso.
— Precisa saber sobre o que aconteceu com Dara. — De repente,
todo o silêncio voltou. — Alguém tem que te contar sobre a morte dela.
E eu caí no que tanto queria que fosse o mais puro dos
esquecimentos. A mais profunda das mortes.
Mas não era.
Tudo aquilo era impossível.
Era como se eu estivesse de volta ao útero, em posição fetal e em
silêncio, sem qualquer sentimento ou pensamento que não fosse o quão
decepcionante eu era para minha mãe.
Seu coração deveria ter partido e parado de tanta dor. Como eu
cometi a atrocidade de pensar, o achismo de acreditar que ela esperaria
por mim quando eu não tinha salvado Lilian?
Eu nem tinha conseguido me manter viva o suficiente para que ela
pudesse se abraçar a mim, para dizer que tudo ficaria bem. Eu não tinha
salvo ela, ou Lilian, ou o meu pai.
Eu não tinha feito nada por nenhum deles.
Meu pai era um policial e eu não tinha corrido atrás de justiça por
ele. Lilian seria... a mesma coisa? Me perguntei se em algum ponto eu a
colocaria em um canto da cabeça, lamentando sua morte sem qualquer
decisão de buscar um julgamento. Minha mente queimou de dentro para
fora com o pensamento de que ela receberia o mesmo nada de justiça
que meu pai.
Eu gritei dentro da minha cabeça.
Desisti do meu pai porque era nova, e, conforme envelheci, coloquei
na cabeça que não fazia sentido buscar justiça depois de tanto tempo;
esclarecer isso para mim causou uma dor inevitável. Deixar minhas irmã
e mãe se reunirem a ele no esquecimento foi a pior coisa que eu imaginei
durante a vida, e, de repente, aquele lugar mental se tornou pequeno
demais para mim.
Para tudo que eu queria fazer.
Meu pai era simplesmente tão maravilhoso, tão cheio de vida e tão
acolhedor.
Minha mãe era tão silenciosa e confortável, como se a presença dela
fosse um cobertor morno.
Minha irmã era um pouco de cada, tinha a compaixão do meu pai,
mas a quietude e timidez da minha irmã. Ainda que ela se tornasse
extremamente aberta com as amigas mais íntimas.
E eu não era parecida com eles, ou, pelo menos, não tão
descaradamente. Certamente, eu e minha mãe éramos opostas. Mas eu
me identificava com o meu pai, no jeito de pensar e amar.
Eu os amava. Eu os amava, e eu repeti isso diversas vezes.
E todo aquele fogo na boate não se comparava com o que brotava
em mim.
Podia ser que a justiça tivesse ficado velha.
Mas não a vingança.
A vingança era incorreta e ruim, e tantas vezes Lilian me consolou
sobre ela, sobre como papai iria preferir que continuássemos juntas a
partir para uma batalha sem ganhos; eu não sabia se ela tinha sido forte
ou se tinha desistido. Então, quando finalmente dei ouvidos a ela e desisti
por completo...
Talvez tudo aquilo não passasse de uma lição.
E se o destino queria se vingar de mim por não ter feito nada, eu me
vingaria dele fazendo mais que o necessário para defender o que tinha
sobrado da minha família.
Eu me deixaria quebrar, mas quebraria quem eu precisasse junto.
Tudo ardeu de novo com a cólera da batalha interna.
A justiça tinha falhado com o meu pai, as pessoas tinham falhado
com ele, e a mídia também. Até eu. Até minha mãe. E até Lilian.
Mas eu não permaneceria na ignorância.
A linha confusa de pensamentos, as ondas indo e voltando com
força, a dor... elas me fizera arder, e, de repente, senti que estava sendo
consumida de novo, e deixei que acontecesse; era melhor que fosse
assim, que eu queimasse mais um pouco, somente para me lembrar do
que eu mesma estava prometendo ao destino.
Tamanha foi a marca na minha alma, a eclosão de sensações, que
um clarão tomou meus olhos de um jeito inexplicável. Pelo que
pareceram dias, horas, minutos, mas, quando percebi, a luz que tinha me
consumido não era nada mais além de raios de sol pálidos, lâmpadas e
cortinas azuladas ao meu redor.
Expirei tão alto e forte, como se fosse a primeira vez, que comecei a
tossir e percebi que ainda havia gosto de fumaça na minha boca e minha
pele repuxava.
Tossi, e tossi, e tossi...
E gritei em fúria, até que alguém passasse pelas cortinas; uma
mulher vestida de branco, que segurou meus ombros com todo o cuidado
e se forçou sobre mim — tão suave que foi como se estivesse pedindo
minha calma em silêncio — até que eu deitasse, arfando.
E eu comecei a diminuir a frequência da minha respiração conforme
ela encarava o fundo dos meus olhos, tão cheia de pena e dó que
lágrimas ameaçaram pender.
— Desculpe — ela disse. — Desculpe...
Um som violento cortou sua voz.
Mais gritos, mais gritos. Como se fosse uma melodia violenta, como
se todos que estavam gritando estivessem despertando como eu. E dois
daqueles gritos estavam tão perto, me cercando naquela ala, que eu
empurrei a mulher com todos os meus ferimentos e me lancei para a
esquerda, me segurando na parede até puxar uma das cortinas com
brutalidade para que ela rasgasse e fosse ao chão.
Ao olhar o outro lado, eu gritei e cambaleei para trás, porque
simplesmente... não podia ser...
— Ti... Tiana? — O olho escuro não tinha brilho e sua cara estava
parcialmente enfaixada, mas eu podia facilmente reconhecê-la.
— Você... não, não... — ela respondeu, enfiando a cara entre as
mãos e se sacudindo.
A cortina oposta foi furiosamente mandada para o lado e olhei para
trás, com o rosto de Kieran marcado por uma cicatriz derretida na orelha
e em parte do pescoço.
— Bela — ele disse. — Bela...
Senti que ia vomitar.
A enfermeira apertou o botão de emergência da minha cama. Eles
iriam... iriam me sedar? Me amarrar? Me questionar? Fazer a mesma
coisa com todos nós?
Olhei Tiana, as lágrimas imparáveis que escorriam do único olho
desenfaixado. A única melhor amiga da minha irmã que estava viva
depois de tudo. Tinha tanto que eu queria perguntar, até arrancar, mas
não fiz. Hesitando, eu dei passos lentos e distorcidos até ela, com minhas
pernas extremamente fracas. Tiana não se virou, como se não ousasse.
Pousei os dedos nas barras de plástico ao redor da cama dela, e,
devagar, eu me abaixei, a pele queimada repuxando absurdamente.
Quando ergui as mãos outra vez, lentamente coloquei as dela para baixo.
Se ela e Lilian eram como irmãs, não sabia afirmar, mas ela tinha um
olhar tão perdido e desesperado, como eu imaginava que eu tinha, que
passei meus braços ao seu redor.
— Tiana — falei, com voz de choro. — Tiana, sou eu.
Ela travou nos meus braços, e suas mãos agarraram uma ferida
enfaixada com força; deixei que ela o fizesse, deixei que Tiana berrasse.
— Sinto muito, Bela, sinto tanto pela Lilian e pela Samantha... eu vi
tudo e eu não consegui fazer nada... a fumaça ficou tão intensa onde
estávamos que eu desmaiei e...
Segurei ela com mais firmeza. Tinha perdido a consciência e
sobrevivido. Era um milagre.
— Me disseram que... foi o primeiro lugar a queimar, não tinha
como, mas você tá aqui, você sobreviveu... Lilian estaria feliz por isso —
disse. Ela fungou e seu choro diminuiu.
— Você... Bela, como você entrou? Por que entrou?
— Samantha ligou e eu ouvi gritos, eu precisava vir e chegar rápido,
mas não fui rápida o bastante. Poderia ter salvo todas vocês.
— Senhorita — a enfermeira chamou. Não a olhei enquanto sua mão
não segurou meu ombro. — Precisa se deitar. Você tá extremamente
machucada.
— Foi você, não foi? — eu cortei. — Você disse que a minha mãe...
disse que ela se matou.
Tiana ergueu seu pescoço quando me afastei suavemente dela.
— Como? — Virei na direção dela uma segunda vez, sem saber o
que falar.
— Minha mãe suicidou. Eu a ouvi falar. — Apontei o dedo, bem
esticado.
— Sinto muito — a enfermeira disse.
Minha pressão desceu, e, com ela, uma onda de sangue frio irradiou
pelo corpo. Por alguns momentos, meu mundo desceu e eu fui com ele.
Só percebi que estava realmente caindo quando mãos pesadas me
puxaram para cima.
— Cuidado — disse, e eu só reconheci quem era pela voz; Kieran
grunhiu quando me ergueu e colocou de volta na cama; as queimaduras
dele deviam doer tanto quanto as minhas.
— É verdade? — eu perguntei, sentindo-o ainda do meu lado.
— Sim.
Minha garganta fechou perante a realização da verdade. Eu tinha
ouvido quando estava no útero da minha consciência, mas... ouvir agora,
tão real e fora da inercia... me feriu. Abaixei a cabeça com o peito
pesado, e meus olhos se encheram de água.
— Ela... deixou alguma coisa? — Eu não falava de herança. Todos
eles sabiam.
— Não. Acredito que não.
O silêncio que reinou dentro de mim sobrepunha o barulho de fora,
das pessoas chegando para... fazer alguma coisa com as vítimas que
ainda berravam.
Naquele tumulto, notei por pouco que Kieran estava sendo obrigado
a se deitar na maca. Ele relutava, mas haviam dois homens com quase
seu tamanho tentado convencê-lo. Os olhos se fecharam muito
suavemente, o cenho se franziu, e ele parecia pedir desculpas. Eu não
fazia questão de entender.
A empatia dele mal tocou meu peito. Eu não o conhecia bem o
suficiente para me importar com suas condolências silenciosas.
— Por favor — sussurrei. — Deixem-no em paz e saiam daqui. Eu só
peço que...
— São as normas, moça — disse um dos auxiliares que barrava
Kieran. — Vocês ainda estão...
— Tem outras pessoas aqui que estão em estado pior e causando
mais tumulto — a enfermeira sussurrou. — A menina perdeu uma mãe.
Vamos sair.
Houve uma troca de olhares entre os auxiliares e a enfermeira, mas,
por fim, quando a obedeceram, a mulher saiu, fechando uma das
cortinas; apenas as de Tiana e Kieran estavam abertas. Ou, pelo menos,
uma estava, já que eu tinha arrancado a outra.
— Essa sinfonia de gritos parece o inferno — soltei, escorando a
cabeça numa mão, com dor de cabeça.
— Vocês notaram? — Tiana perguntou, mas ninguém respondeu. —
Todos os gritos soaram ao mesmo tempo. Todos acordaram gritando ao
mesmo tempo.
Olhei no olho dela, brilhando com pânico, e, depois, olhei para
Kieran, que ainda estava de pé, a expressão sinalizando que estava
raciocinando isso.
A queimadura em meu pescoço ardeu.
Engoli em seco.
Eu não queria saber o motivo do coro de berros.
Capítulo Três
Ninguém tinha consertado a cortina arrancada, então, presumi que
seria melhor me virar para a de Kieran na hora de dormir.
O dia tinha sido calmo, ou, pelo menos, tanto quanto poderia ser.
Haviam as pessoas que choravam gritando pela dor ou pela perda,
haviam aquelas que apenas soluçavam e haviam umas poucas que já
estavam sendo examinadas para receber uma possível alta em cerca de
três dias. E havia eu.
Ninguém se preocupou em falar comigo, além de Luciana, que me
entregara um pequeno espelho de bolsa: eu tinha curativos no pescoço,
mandíbula e bochecha, fora os braços, em volta do tronco, pernas... E
meu cabelo, que tinha derretido durante o incêndio, estava rapado em
ambas as laterais.
Embora eu tivesse comido o suficiente, ainda sentia o gosto da
fumaça na boca; o que me fez vomitar de tarde, duas vezes; eu tentava
puxar mais da garganta para abafar o choro que vinha junto, pela perda.
Uma luz prateada refletia-se no teto, e eu percebi que nem tinha
perguntado em qual hospital estava, o preço do tratamento, os pertences
da minha mãe — chaves, acessórios... — e meu carro. E havia até mesmo
o carro de Philip e o próprio, que eu tinha deixado para trás.
Quando eu chegasse em casa... — arfei em lágrimas silenciosas —
eu encontraria a mancha de sombra no sofá. Os perfumes espalhados. As
roupas jogadas. Eu veria a foto de Lilian sob a televisão, sua formatura do
ensino médio. Os sapatos da minha mãe estariam do lado da porta.
Tigelas de sopa de letrinhas na pia, as coisas para cabelo, maquiagem, as
comidas toscas que Lilian amava. Quando eu abrisse a geladeira, eu
encontraria as marmitas da minha mãe, para nós, porque ela estaria de
plantão, a carne guardada para um churrasco no fim de semana. As
camas ainda estariam desarrumadas, ainda haveria o cheiro da minha
mãe, de Lilian, Samantha, Tiana, talvez Sara, em algumas roupas sujas.
O quadro de alumínio cheio de ímãs... as fotos e as lembranças.
Recadinhos, o violão de Lilian, e a gaita que ela queria aprender a tocar.
Eu teria que devolver algumas joias e colares emprestados de Tiana.
As roupas também.
Mas as roupas das meninas mortas...
Eu as entregaria como estavam para os pais e familiares. Eu daria
de volta aquele pedaço das filhas para eles, porque eu não poderia dar
mais nada.
Ouvi um suspirar e um murmúrio, logo antes de Kieran abrir sua
cortina. Fechei os olhos no mesmo instante, mas...
— Sei que não dormiu, e sei que sou praticamente um desconhecido
— resmungou —, mas, por favor, Bela, podemos conversar?
Relutante e lentamente, abri os olhos.
— E os seus meninos?
Ele deixou que eu visse a sombra em seus olhos. Não sabíamos.
Podiam muito bem ter morrido. Mas se Tiana tinha conseguido... o
pensamento se desfez sozinho; ela sim, Lilian... não.
— Philip vai vir cobrar o carro de mim — falei. — Eu roubei dele,
sinceramente.
— Roubou o carro dele?
— Há tanto pra falar... — murmurei. — Quer que eu conte? Vai além
do carro.
Ele me olhou, se escorando na cama.
— Eu o encontrei em um posto, e começamos a conversar enquanto
esperávamos o mecânico. Mas, como ele demorou demais, eu entrei na
oficina e haviam sinais de que... ele não deveria ter demorado tanto.
Como morava perto, achamos a casa dele fácil. O portão estava aberto,
os gatos murchos e mortos na sala. E o mecânico... praticamente morto.
A criminosa ainda estava lá, pedindo desculpas. Philip chamou a
ambulância e eu fiquei com ele, até que a melhor amiga da minha irmã
me ligou. E quando ouvi seus gritos... eu simplesmente disparei. Ele
esticou a chave do carro e disse que era mais veloz, então arranquei da
mão dele e corri mais rápido. Ele ficou para trás.
— Seguro, então.
Não o respondi sobre isso.
— Eu espero que não tenha perdido ninguém, Kieran — sussurrei. —
Não sei se sabe como dói.
Ele suspirou.
— É, eu espero não saber. Sinto muito, de verdade.
— Sabe, quando tentei segurar a chave do carro pra deixar minha
irmã e as amigas na festa, tive um calafrio. — Ele estreitou os olhos. —
Depois, quando tentei ligá-lo, ele não queria funcionar. Foi por isso que
fui ao mecânico.
— Bela — ele disse, a voz um timbre mais agudo. — Meu carro
também.
Engoli em seco.
— E algumas... — ele limpou a garganta. — Algumas garotas que
conversei no bar, disseram que os delas também. Todos os carros
falharam. Algumas contaram que pediram carona pra chegar.
Eu não sabia pensar se ele estava bêbado quando falou com elas, se
era um galanteador de mulheres bêbadas, ou... se aquilo significava
alguma coisa.
— Não faz sentido — murmurei, me sentando e tirando as cobertas
dos pés. Andei até parar ao lado dele. — Os carros...
— Isso não é normal.
Olhei no fundo dos olhos dele. Não com dúvida, mas deviam estar
brilhando de choque. Porque...
— Alguma coisa tentou nos avisar.
— É impossível. Alguém passou danificando todos os veículos?
— Kieran — sussurrei, porque tinha calafrios só de pensar que outra
pessoa poderia ouvir, e, pior, acreditar no que eu estava prestes a falar,
porque aquilo tudo... fazia meu peito pesar, minha boca amargar, meu
estômago dava voltas. — Kieran, ninguém seria capaz disso. Sozinho ou
não, danificar esses carros sem deixar rastros, sem ninguém ver.
— Merda — ele grunhiu, ficando desajeitado como se estivesse
prestes a vomitar; eu sentia o mesmo, e deixei meus braços caírem
inertes ao lado do corpo.
— Alguma coisa — eu repeti — quis impedir que fôssemos lá.
Kieran não precisou falar mais nada. Nenhum de nós, na verdade.
Era fácil entender: fosse o destino ou a calamidade, tentou nos impedir
de entrar na boate. Mas se... se aquilo realmente fosse um sinal, uma
dessas premonições cruéis...
Minha irmã, minha mãe e uma parte de mim tinham morrido por
conta daquilo — não eram só as ataduras que mostravam —, mas, fosse o
que fosse, qualquer coisa não natural ou pior... eu não podia resolver
aquilo. Não podia lidar com aquilo.
Meus olhos deslizaram do chão que eu não percebia estar encarando
e subiram para Tiana, adormecida, virada para o lado oposto. Logo, ergui
a cabeça e encarei os olhos negros dele, o mais fundo que pude.
— Nunca mais — soltei, como um chute —, nunca mais vamos falar
disso de novo. Não vamos procurar, não vamos tentar compreender,
justificar, a bosta de palavra que você preferir. A coisa que tentou...
impedir a gente de entrar, ela não existiu. Estamos ficando loucos.
Ele engoliu em seco e disfarçou, muito mal, um arrepio.
— A fumaça nos afetou — ele complementou. — Estamos ficando
loucos.
Porque nenhum de nós podia lidar com aquilo, ousar saber a
resposta.
— E aquilo nunca aconteceu. — Fosse o que aquilo fosse.
— Nunca — ele repetiu, e pude ver o brilho sombrio nos olhos, o leve
cheiro de suor que saia de nós dois.
Era um entendimento.
Se não havia explicação e não cabia a nós buscá-la, nada daquilo
significava alguma coisa.
Nada tinha acontecido antes do incidente.
Capítulo Quatro
A luz do dia entrou, e meus olhos abriram lentamente. Com um
pouco de disposição, levantei a coluna da cama. Minha cabeça parecia
um pouco mais leve, embora, durante o sono, eu ainda pudesse sentir o
fogo pregado no corpo e a fumaça na boca.
Me perguntei se o gosto de cinzas iria sair da minha língua, algum
dia.
Sentada, eu sentia as queimaduras profundamente enterradas na
pele, e imaginava as cicatrizes que ficariam. Demoraria para que se
curassem, todas elas. Externas e internas.
O rosto da minha irmã parecia estar estampado nos contrastes de
luz, sombra e textura da coberta amassada nas minhas pernas. Por
alguns segundos, admirei a alucinação, até cansar, me entristecer e
distorcer a coberta, com algumas lágrimas no rosto.
A única coisa que fez eu me desviar daquilo foi um barulho agudo e
baixo. Levantei o rosto; Luciana, com o cabelo castanho escuro preso
num coque, me olhava seriamente. Dava para apalpar a dó que estava
emanando dela. Segurava uma bandeja com comida na mão, uma série
de outras enfermeiras trabalhando como ela: entregando café da manhã
aos pacientes.
— Desculpe — falei, desajeitadamente secando as lágrimas. Ela se
sentou no banquinho ao lado da cama.
— Tá tudo bem. Eu que... sinto muito. — Ela puxou a cadeira um
pouco mais para perto. O rosto relativamente jovem se contorceu muito
sutilmente, de modo que eu soube o motivo: a ala claramente
improvisada estava cheia de carne queimada. — Seu nome é Isabela, não
é?
Suspirei.
— Sim — respondi, olhando para o cartão no braço. — Pode me
chamar só de Bela. Eu prefiro assim.
Ela assentiu, e começou a desembrulhar a comida.
— Ainda tem... um espelho?
Ela não me pareceu surpresa, mas conformada. Talvez já esperasse.
Tirou o espelho do bolso da blusa azulada, e suas mãos o esticaram
devagar.
Eu já havia me observado uma vez, mas não pude notar nada com
muitos detalhes. Nenhum espelho tinha sido deixado comigo ou com
qualquer um dos pacientes, já que era complicado confiar um objeto
quebrável como vidro a pessoas que tinham sofrido um choque tão
grande.
Dessa vez, eu me olhei mais atentamente: Meu cabelo estava curto
mais acima, raspado nas laterais, um curativo cobria a grande
queimadura no lado esquerdo da minha mandíbula, além da minha
orelha, e faixas ocultavam meu pescoço.
Havia, ainda, dezenas de outras faixas com curativos grossos em
minhas pernas, meus braços e ombros; minhas mãos estavam apenas
levemente marcadas nas palmas, com curativos nas costas e laterais dos
mindinhos, mas quando soltei o espelho sobre os lençóis e olhei minhas
digitais de perto... estavam levemente desmanchadas.
— Suas queimaduras foram de segundo grau — explicou. — Mais um
pouco de fogo, e seriam de terceiro. Mas algumas partes do seu corpo
ficaram... intactas, pelo que se pode dizer. Queimaduras leves de
primeiro grau ou faltando pouco pra isso.
Eu não podia dizer que estava aliviada. Nem triste. Eu apenas
respirei fundo e olhei sutilmente para o lado assim que Luciana desviou
de mim — Tiana ainda estava dormindo.
— Foi um milagre, sabe? — ela disse, com uma maçã nas mãos e
uma faca que mantinha bem presa nos dedos, pela branquidão deles. —
O corpo de bombeiros e a polícia demoraram quase quinze minutos pra
achar vocês. A boate era do outro lado da cidade.
Suspirei.
— Porque suas queimaduras estão onde estão? Braços, ombros,
pernas, pés. Uma no pescoço e mandíbula.
O interesse dela me incomodou. Não cabia a Luciana saber. Isso não
mudaria nada, mas... eu contaria isso para alguém uma hora ou outra.
Ou, pelo modo como me olhava, ela já deveria saber. Ela sabia e eu
sabia.
— Minha irmã estava lá. — Nada sobre sua morte, apenas... uma
ponta que doía menos que o resto. — Eu recebi uma ligação de uma
amiga dela, ouvi gritos. Peguei um carro e atravessei o mais rápido que
pude. Não chegaram a ser cinco minutos. Pelo lado de fora, o calor do
fogo emanava com força.
— Você não chegou no início — disse. Assenti.
— Eu abri o porta-malas e encontrei fios de som, daqueles grossos.
Amarrei numa das portas do carro, subi em cima dele e me impulsionei
pra cima. Foi aí que meus dedos queimaram, quando agarrei a parede e
escalei pra cima. Não muito longe, achei a escotilha de vidro perto da
entrada e quebrei com chutes. Entrei, com os cabos servindo de corda
pra sair. Foi quando vi dezenas de pessoas se empurrando, os corpos de
uma centena já deveriam estar no chão naquele ponto, mas não havia
tempo pra reparar e checar se algum estava vivo.
— Foi você — ela disse, com o rosto em alerta. — Os primeiros
sobreviventes, que escaparam pelo teto, disseram que foi tudo por conta
de alguns fios, então, foi você.
— Deve ter sido mesmo.
— Você foi uma heroína, Bela... — Ela se calou logo que fiz uma
careta; ter sido uma heroína não mudava nada para mim. Mais pessoas
tinham sobrevivido, e elas poderiam ser gratas a mim, mas... aquilo não
mudava nada dentro de mim. Eu fiz o que qualquer um no meu lugar
faria, ninguém puxaria a corda que usaria para subir e se salvar. Tudo
que eu tinha feito se tratava apenas de deixá-los subirem também. —
Desculpe. Imagino que isso não torne as coisas menos complicadas.
Resolvi só cortar a maior parte da história. Simplificar ao limite era
melhor que explicar aquilo tudo dentro da Rancor.
— As queimaduras vieram porque eu corri no meio do fogo alguma
vezes, por tempo o suficiente. — Ela apenas olhou a queimadura mais
irregular do queixo, embora houvessem outra atípicas como ela. — Tinha
um caminho estreito em que precisei passar me apoiando nas paredes
escaldantes. Minha pele grudou em alguns pontos e derreteu. No meio
disso, bati o rosto.
Ela puxou o espelho, trocando por um prato com maçã picada de um
jeito extremamente fino, para que eu pudesse comer sem forçar a
mandíbula. Não agradeci, mas suspirei satisfeita quando comi a primeira
fatia.
— É um milagre, sinceramente — Luciana disse, esticando uma
garrafa pequena de leite. — Você conseguir se mexer sozinha —
esclareceu. — Não sei de onde tirou essa força, a capacidade. Vi vítimas
de queimaduras menores fazerem menos coisas e com mais dor.
Eu não tinha a resposta também. E não queria tentar tê-la.
— Minha irmã estava lá dentro — sussurrei novamente. Eu não
precisava falar mais nada. Eu nem mesmo queria, mas algumas palavras
surgiram como demônios de dentro de mim. Tentei suprimi-las, mas não
foi possível. Eram inevitáveis. — Preciso fazer o reconhecimento do corpo
dela. E quanto a minha mãe?
Luciana engasgou com as palavras. Seus olhos arregalados se
fixaram nos meus, como se sentisse que eu estava atropelando longos
espaços de tempo que precisariam de mais cautela.
Mas minha dor física não se comparava a perda de quem eu amava.
— Ainda... ainda não — Luciana disse.
— Resgataram os cadáveres queimados, não?
Ela ficou em silêncio.
— Fizemos listas de pessoas inidentificáveis. Estão separadas pra
serem enterradas em uma área do cemitério específica pra eles. Como
poderia identificar sua irmã em meio aos cadáveres carbonizados?
Me concentrei mais na maçã, evitando lágrimas
— Eu já vi seu corpo.
Luciana não me deu resposta alguma, exceto a coisa sombria em
seus olhos.
De noite, Tiana estava acordada, zonza por conta dos sedativos para
dor. Kieran não estava diferente. Somente eu estava normal, sem tomar
nenhum anestésico ou sedativo. A dor aumentou, e muito, por causa
disso estava insuportável, mas eu tinha fingido bem para a enfermeira —
que os anestésicos ainda funcionavam —, porque eu sentia que... de
alguma forma, eu merecia.
Meus olhos se mantinham em Tiana na maior parte do tempo.
— Lilian e Samantha ficaram abraçadas até o final — soltei. — Eu as
vi. Nenhuma das duas teriam a capacidade de te culpar por algo. Acho
que até estariam felizes. — Era tão estranho falar assim da minha irmã.
Tiana virou o rosto devagar. As queimaduras estavam lhe ferindo
muito mais que a mim. Seu cabelo estava quase completamente rapado,
e tinha gazes, faixas e curativos em todo o corpo. Tinha ficado mais
tempo no fogo que eu ou Kieran, e realmente era profundamente
milagroso que estivesse viva. Eu só conseguia pensar em Lilian e
Samantha... protegendo-a, de alguma forma.
— Elas amavam você. E eu não te culpo por nada também —
continuei. — Fico feliz que esteja viva.
Ela não respondeu.
— Você é o que sobrou dela, sabe? Então estou torcendo por você —
conclui.
Entrei sob as cobertas, virada para Kieran, que tinha a cortina aberta
e estava dormindo. Tínhamos trocado algumas palavras e frases durante
o dia; qualquer simpatia compartilhada pela morte já estava se
dissipando, assim como o fato de eu mal conhecê-lo também, mas eu
manteria nosso acordo em mente.
— Queimaduras de terceiro grau deixam cicatrizes, sabia? Elas
danificam os poros, o tecido nervoso, essas coisas. — A voz de Tiana me
fez virar imediatamente. A tristeza que vi fluir pelos seus olhos também
me entristeceu. — Metade da minha cabeça foi queimada. Foi pro saco —
soltou.
Talvez, se alguém nos escutasse, pensaria que Tiana era egoísta. No
entanto, eu conhecia aquela mulher haviam anos, e era perfeitamente
legível o que ela queria dizer.
— Vou parecer um monstro pra sempre.
Não era o medo de ser feia que a aterrorizava, era a realidade de
que as pessoas passariam a ter pena e repulsa pela aparência dela: o fato
de que ela perderia a capacidade de se aproximar dos outros
normalmente, e, maldição, o medo de que jamais seria amada de novo.
— Não pra mim, Tiana — tentei consolar. — Tenho certeza que
muitos ainda vão te amar, independentemente de como fique. Seus pais,
por exemplo.
— Você não me entende.
— Entendo, entendo que quer ser amada por outras pessoas, que
quer conhecer pessoas novas, mas não sabe se vai conseguir — disse. —
Pois eu digo que vai. E se não consegui aceitar as mudanças... tudo bem,
não precisa, há tantos meios de camuflar as aparências hoje em dia. Mas
não vai direto neles, tente se descobrir primeiro.
— O ser humano foi criado pra sentir repulsa do que não acha
bonito.
Para aquilo, eu não tive resposta.
Eu mal sabia o que fazer sobre mim, então, muito menos, o que
fazer sobre ela. Consolar e encorajar era fácil, mas agir...
Me ergui devagar, sentando na cama, mas colocando as pernas para
fora da beirada. Virei o rosto e apontei minha orelha, depois pescoço,
pulsos e pernas.
— Saiba que você não tá sozinha. Não se depender de mim. — Eu
desci da cama, cambaleando com a dor infernal que me fazia querer
vomitar, e, talvez, só não doesse ainda mais por que o tecido nervoso
tinha se queimado, como ela tinha dito. Desliguei as máquinas da tomada
para que não chiassem.
Meu peito bateu na cama dela, e chiei de dor. Tiana reagiu, se
sentando na mesma hora, segurando meu ombro. Devia doer até mais
nela do que em mim. Pedi que chegasse um pouco para o lado, e ela
assentiu com relutância. Lentamente, praticamente chorando de dor, subi
em sua cama, a abracei, e deitei.
— Tá ardendo pra caralho — soltei. Ela acabou me dando uma
pequena risada. Seus olhos se iluminaram por um segundo.
— Sinceramente, você nem deveria ter a capacidade de se mexer.
— Talvez eu tenha driblado a enfermeira e ficado sem sedativos.
— Ah — murmurou. — Acho que sei o motivo.
— Não se preocupe com isso. — Evitei puxá-la para mais perto.
— Como não? Você é a pessoa mais doce que já conheci. Lilian tinha
um tremendo orgulho de você; ela falava muito sobre você como
advogada, quando cursasse direito na faculdade. Eu dizia que seria
melhor como juíza, mas Samantha sempre bateu na tecla de policial
investigativa.
Abri um sorriso.
— Lilian dizia que assim que você se formasse, ela cometeria um
crime, pra que você começasse sua carreira. — Acabei soltando um riso
forçadamente baixo, para não acordar outros.
— Imagino que ela roubaria pelúcias de uma loja.
— Sim, tipo a professora da internet.
— Que bom que nunca fez — respondi. — Eu não advogaria ela se
cometesse um crime.
De fato, meus interesses em cursar direito puxavam muito mais
para a opinião de Samantha: policial investigativa. Mas a alternativa
ousada de Tiana me encantava; tanta coisa poderia feita com apenas um
julgamento meu. Tanta justiça. Haviam coisas, sobre meu pai e sobre
minha irmã, que eu poderia mudar com a batida de um martelo...
— Quem sabe, quando tudo melhorar, você possa fazer faculdade?
— sugeriu. Eu apenas assenti em resposta.
— E você, o que fará?
De repente, vi ela murchar.
— Que futuro eu vou ter?
Beijei o topo de sua cabeça com carinho. Tiana jamais mereceria
isso. Em todos os anos que eu a conheci, a vi ajudar minha irmã, me
ajudar. Ela aprenderia a limpar uma casa — mesmo que sua riqueza
possibilitasse que não fosse necessário —, apenas para ajudar Lilian;
minha mãe só a deixava sair depois que tudo estivesse arrumado.
Também vi ela chorar na sala de casa depois de ser traída em um
relacionamento, e vi tanta coisa de seu íntimo, partes boas e ruins, que
ela era praticamente uma irmã postiça — assim como Samantha.
— Posso garantir que um muito lindo, com alguém que vai amar
você do jeito que é de verdade, se for o que ainda deseja. — Ela sempre
tinha sido simples por dentro: queria se apaixonar intensamente, amar e
até casar.
— As pessoas não são como você. Você nem parece humana, sabia?
Parece com aquelas heroínas estoicas de distopia.
— Nem vem — respondi. — Sei bem que tipo de livro você lê.
Se seu rosto não estivesse queimado e enfaixado, eu afirmaria com
certeza que ela estava corando.
— Sabe que Lilian e eu nos conhecemos assim né? — Fiz uma
careta.
Eu conhecia essa história bem, estava lá quando aconteceu: por
milagre, havia um livro desses na biblioteca municipal, e as duas
brigaram na recepção por ele como se fossem pais discutindo a guarda
de uma criança; assisti da entrada da biblioteca. Dias depois, quando
Lilian acabou a leitura, ligou para Tiana. Ela entrou na nossa casa,
conheceu nossa mãe, e se tornou amiga dela primeiro, antes de começar
a conversar com Lilian e compartilhar histórias absurdas que me davam
dor de estômago.
— As leituras de vocês... — travei alguns segundos, e só continuei
quando vi a tranquilidade que tinha retornado para os olhos de Tiana. —
As leituras de vocês me deixaram traumas.
— Talvez eu devesse voltar pra a minha fase de leitora de dark
romance. E subir alguns degraus...
— Descer, você quer dizer.
— Claro. Vou direto pra a categoria fetiche em monstros.
— Com isso sim você deveria se preocupar. Porra, vou ficar verde.
— De inveja? — sorriu. — Posso te comprar uns livros, não se
preocupe.
— De vômito — retruquei. — Pelo amor de Deus, vai ler uma bíblia e
parar de ser uma ordinária imunda.
— Espero que se lembre que é você que tá me fazendo sentir
saudade de quando as coisas eram assim. — Ela suspirou, aliviada e
calma, e enfiou a cabeça sob meu pescoço. Às vezes, eu esquecia que a
altura de Tiana vinha dos saltos enormes.
— Vai dormir — mandei, em tom de brincadeira.
E meu coração se suavizou quando a respiração dela ficou ritmada.
Tiana era tudo que tinha restado do que havia antes do fogo
queimar. E aquilo... ela era muito melhor do que nada, muito mais do que
pouco. Todo o tempo do mundo poderia passar, mas eu estava grata de
ter pelo menos ela como amiga, minha única amiga.
Onze meses depois
Capítulo Cinco
Minhas entranhas estavam remexidas na entrada.
Tinha tido notícias de que a prefeitura e o Estado tinham negociado
a limpeza e auxílio das casas das vítimas, mas o que quer que tivessem
tentado fazer, parecia ter sido apenas e totalmente o básico. Da porta de
entrada, eu podia encarar a poeira do balcão, e a sala, do mesmo jeito,
depois de um ano. Só haviam cuidado da cozinha: tirado a comida e a
louça.
Não tinha tapete do lado de fora mais. A garagem cheia de entulhos
quando entrei com o meu carro recém recuperado — minha jaqueta,
inclusive, ainda estava dentro dele —, e, agora, passando pela soleira,
indo para o lado da cozinha, eu abri os armários no chão e na parede:
limpos, apesar de empoeirados.
Levei a mão até a geladeira branca, desligada da tomada. Uma
única garrafa d’água cheia. Eu a peguei, coloquei na boca e tentei engolir
o líquido transparente com gosto de velho.
Minha mãe brigaria comigo por beber do bico. Lilian ficaria rindo da
sala.
Mas não estavam aqui. Nada restava delas.
Atirei a garrafa no balcão; ela quebrou e molhou o chão e as
banquetas, mas tudo o que eu tinha eram lágrimas para me molhar.
Mais de um ano que eu não podia voltar para casa e quando voltei,
não havia comida, o chão estava sujo, o balcão marrom, e se a sala
estava sem mudanças, então os quartos... o governo não tinha feito
merda nenhuma.
Limpar um cômodo e sair sem deixar nada, nem uma comida,
nada... a minha mãe teria deixado, teria feito muito melhor. Até Lilian
poderia fazer melhor. Elas teriam deixado alguma coisa preparada para
minha volta, elas cuidariam de mim. Mas não podiam.
Não me deixaram sair por tanto tempo e agora havia apenas rancor
dentro de mim. Rancor. Rancor. Rancor. Ran... cor...
— Porra! — gritei, batendo o pé.
A luz praticamente zumbia. Eu nem sabia direito. Parecia zumbir. Os
objetos pareciam estar gritando, como se eu estivesse drogada.
— Por que não morre? — choraminguei, me agachando no chão. —
Por que... por que não morre?
Tão confuso... tudo era uma confusão dentro de mim. Como no dia
que entrei dentro da boate pela claraboia, como quando acordei no
hospital, como quando...
Exatamente como quando me colocaram numa cadeira de rodas —
mesmo que eu quisesse andar e sentir toda aquela dor escaldante —, e
me levaram ao necrotério. Me fizeram reconhecer minha mãe primeiro.
Ela estava tão machucada, cheia de cortes, de pontos, e seu cabelo
rapado quase inteiro para que pudessem enfiar de volta na cabeça o que
deveria ter saído quando despencou de dezenas de andares do hospital
que trabalhava. Eu berrei em desespero, e me joguei sobre ela, sabendo
que nos separariam logo.
Logo depois, quando achei que estava pronta, me conduziram para
outro lugar, muito mais extenso, com os corpos mais queimados, e
percebi que não estava nem um pouco preparada.
Me levaram pelas linhas de corpos mortos e reconheci Lilian e
Samantha, que, mesmo depois de mortas, tinham sido deixadas uma do
lado da outra. Seus corpos e rostos derretidos estavam ainda piores —
tanto pela decomposição quanto pelo fogo que as tinha queimado mais
um pouco. Lilian fedia mais do que qualquer coisa podre que eu já tivesse
cheirado. Eu chorei em silêncio, porque a morte dela...
A morte de Lilian me doía mais.
Minha linda, doce e maravilhosa irmã mais velha, que tinha passado
desde jovem por coisas absurdas de horríveis, que tinha visto e encarado
a morte como a ponta de uma arma... e tinha sido levada pelo fogo.
Ainda chorando, coloquei as mãos nos bolsos da jaqueta. A nota de
50 reais de Tiana ainda estava em um deles, como se o tempo nunca
tivesse passado; tudo poderia ter sido ontem. Talvez nem tivessem
lavado minha jaqueta — realmente não tinham.
Incomodada, deixei a garrafa quebrada e dei alguns passos até a
sala.
Tirei os sapatos e esfreguei os pés no tapete, verificando se estava
tão sujo quanto eu imaginava; ao olhar o solado de um dos pés, confirmei
que sim.
Por alguns segundos, virei o rosto para o lado; a suíte no final do
pequeno corredor era da minha mãe, mas os dois quartos menores eram
um de Lilian e o outro meu e havia o banheiro adjacente. Um suspiro e
mais lágrimas vazaram para fora de mim; as coisas de todas elas... de
Lilian, de Samantha, de Tiana e até de Sarah ainda deveriam estar em
nossos quartos. Além do que deveria estar jogado no quarto da minha
mãe.
Sangue frio me dominou, e tudo o que consegui foi me voltar para o
rack de madeira da televisão. Me ajoelhei perto da maior porta, abrindo o
armário, e verifiquei: ainda tinham duas caixas de cervejas engarrafadas,
praticamente intocadas; puxei uma da caixa mais em cima, que já estava
rasgada — muito tempo antes, minha mãe deveria tê-la aberto.
Havia um abridor de tampinhas escondido por perto, então abri a
garrafa, bebendo gole quente atrás de gole quente antes que derramasse
no tapete já imundo.
Conectei a televisão na tomada e me joguei no sofá, ligando-a.
Não demorou para que as notícias insuportáveis começassem; nós
éramos o assunto do momento, as vítimas sobreviventes de um incidente
mortal.
— Temos aqui uma das vítimas, Raphael de Andrade — disse a
repórter. O homem ao lado parecia aflito e ansioso, até mesmo
assustado. Ela colocou o microfone em sua frente, mas não esperou que
ele se apresentasse para voltar a falar; estava atrapalhada diante dele. —
Se importa de dizer como sobreviveu?
— Saí junto com mais um grupo de gente. Alguém tinha conseguido
pendurar uma corda improvisada numa das claraboias — eu — e ajudou
muitas pessoas com isso.
— Sabe quem era?
— Não, não tenho certeza. Sei que era uma mulher bem magricela.
Por causa do fogo, era muito difícil focar em traços. Todo mundo só tinha
medo de morrer, então quando ela nos mandou subir, ninguém protestou.
— Muito bem — ela disse. — Nos conte sobre como as coisas
estavam lá dentro.
Eu comecei a respirar pesadamente. A cerveja parecia puxar meu
braço para baixo, assim como as coisas pareciam derreter. Uma aflição
absurda me tomou. Lilian, Lilian, Lilian, Lilian...
— Ah... é... — A repórter esperou. Ele esfregou as mãos nos flancos,
desviando o olhar. — Eu falei. Estava quente. Era um incêndio.
— E o que mais?
Ele hesitou.
— Quando tentamos correr e fugir... a porta já estava fechada. — Ele
mordeu o lábio com tanta força que o corte fez uma gota de sangue
escorrer, mas a repórter não desistiu. — Ela não voltou a abrir.
Apesar da fala dele, de como simplesmente a dispensou com a mão
e entrou em casa, trancando a porta, a mulher não pareceu menos
animada. A realização no olhar dela por ter pego uma entrevista
importante me doeu e me fez pensar em quanto tempo estariam na
minha porta.
Eu deveria ter salvo um punhado, e alguém com certeza lembraria
de mim. Não sabia o que faria quando tocassem a campainha; confrontá-
los, falar ou fingir que não tem ninguém em casa.
— Como podem ver, o incidente afetou a vida de Raphael e deixou
traumas terríveis. Muitos outros estão em estado semelhantes, talvez
pior. — Revirei os olhos, terminando a primeira cerveja. Enquanto ela
bancava a comovida cheia de pena, alcancei mais uma garrafa. —
Torcemos pela recuperação das vítimas do incêndio da boate Rancor.
Depois, comecei a mudar os canais, mas o número de vítimas
entrevistadas apenas começava a aumentar. Abominei as perseguições
em nome do jornalismo: entrevistadores e repórteres e gente comum
com câmera correndo atrás das vítimas como se fossem animais raros.
Eles gritavam e chamavam, sem cogitar uma aproximação sutil ou sem
cogitar não se aproximar.
Meu sangue já estava fervendo quando acabei a quarta garrafa.
Além de tudo, sempre que um jornal acabava... uma série de fotos
era reproduzida; eu assistia centenas de nomes de pessoas mortas
passarem, e, claro, nos que assisti porque o álcool me deixava
preguiçosa, reconheci três nomes: Lilian, Samantha e Sarah.
Quem tinha permitido mostrar minha irmã...?
Uma onda de ódio me transpassou e quis atingir a televisão com a
garrafa de vidro, mas me segurei com força.
Pelo menos Tiana não aparecia nas fotos ridículas e nenhum dos
amigos de Kieran também, ainda que eu não conversasse com eles havia
um ano. A simpatia da hora da morte tinha ido pelo ralo e lembrar do dia,
deles, faziam minha boca azedar — e não era por conta da cerveja.
— Olhe como nos importamos! Vejam como incomodamos os
sobreviventes por entretenimento! — Adicionei uma gargalhada forçada
ao teatro. — Baboseira! — resmunguei para a televisão, enchendo a boca
de cerveja. — Se vocês se importassem, deixariam eles em paz.
No entanto, claro que não fariam, até que se tornasse notícia velha.
Sempre acontecia assim: comentavam por uns meses no máximo, depois,
esqueciam e só voltavam a falar sobre uma vez por ano, para dizer
quanto tempo fazia de tal coisa. Por coisas como essa, ninguém assistia
jornal aqui em casa.
Quando a tarde que eu tinha chegado acabou, tinha tanto álcool no
corpo que desmaiei no sofá e a última coisa que enxerguei foi a mancha
de sombra dourada no braço do sofá.
Percebi que talvez nunca a limpasse. Tinha sido deixada pela minha
irmã.
Capítulo Seis
Acordei com o canto de um galo saindo da televisão. Seis cervejas
terminadas estavam ao pé do sofá e eu precisava de um banho; estava
fedendo a cerveja e hospital. Além de tudo, eu tinha fome; e sempre que
ficava faminta, minha boca voltava a ter gosto de cinzas.
Abracei as garrafas e me levantei do sofá, saindo descalça da sala.
Depositei os cascos ao lado da pia, me apoiando sobre as mãos e
encarando a parede.
Ainda não me caia bem, depois de quase um ano, a falta daquelas
duas vozes. Não queria chorar uma segunda vez, mas sentia que era
impossível. Uma parte de mim queria se perguntar quando isso passaria
e a outra parte não queria responder.
Com a garganta queimando, me abaixei e abri os armários
inferiores; as panelas estavam como o resto da casa. Lavei uma na
torneira e coloquei no fogão, tendo esperança de que pelo menos o gás
funcionaria.
Logo, nos armários de cima, eu puxei uma lata de milho fechada, um
pacote de macarrão, molho de tomate e creme de leite. Antes de checar
a validade, coloquei água na panela — e o fogo acendeu.
Também, a ideia de fogo me incomodava. Eu não tinha tido contato
com ele havia tempo. Por um lado, eu sentia uma constante agonia em
minhas queimaduras, bem como um alívio mental — o incêndio tinha
acabado, aquele fogo não podia me ferir, nem a ninguém que eu amasse.
Por alguns instantes, pensei que ninguém que eu amasse estivesse
vivo, mas minha mente me lançou imagens de Tiana.
Havia, na verdade, ainda, alguém que eu amava, que eu
compreendia. Que talvez também gostasse de mim.
Durante nosso período internadas, os pais de Tiana pediram pela
sua mudança de quarto, para um mais reservado e confortável —
sinônimo de caro. Quando os Duarte vieram vê-la, ela imediatamente
pediu um quarto para duas, me levando junto. Eles tinham tanto dinheiro
e apreço pela filha que não protestaram, mas conversaram comigo sobre;
me agradeceram, porque, de algum modo, eu tinha feito Tiana se sentir
especial, apesar de não saber direito quando ou como.
Dividindo o recinto, ela começou a se tornar mais... maleável perto
de mim; conversávamos, compartilhando pequenas e grandes angustias.
Acima de tudo, havia uma coisa naquilo — com ela — que eu jamais me
esqueceria; o jeito que me pedia ajuda para se esconder no banheiro
quando enfermeiros vinham deixar nossa comida, ou quando se cobria
por inteiro e fingia estar dormindo nos cafés da manhã e algumas jantas.
Alguma coisa em mim parecia prezar para que ela estivesse melhor,
mais à vontade, em seu lar. Não conversávamos haviam 2 semanas — ela
voltara mais cedo para casa, por ter condição de bancar um tratamento
em domicílio, considerando que seu caso era pior que o meu; eu não
tinha buscado contado algum, porque ela merecia esse tempo só dela, e,
se não tinha me chamado de volta, ela devia entender isso.
Enquanto tentava não escorar o pensamento em Tiana, comecei a
preparar o macarrão, deixando o creme de leite e o milho de lado — um
vencido e o outro que apenas não quis misturar.
No entanto, ela continuava voltando para minha cabeça. O sorriso
com um dos cantos dos lábios derretido — ela tinha mais da metade da
cabeça atingida, mas o rosto estava parcialmente ileso. Para mim, sua
beleza não chegava a ser exótica; era apenas... Tiana. Tiana que ainda
não comia carne, não usava certos produtos e certas roupas e que amava
animais.
A melhor parte dela, seu jeito de pensar, tinha certeza que manteria
intacta.
E intacta deveria estar a bagunça nos quartos. Coisas dela, que
deveriam ser devolvidas, mas também coisas de Lilian, Samantha e
Sarah.
Me apoiei nos armários superiores ao fogão, encarando a panela
fervendo. As bolhas subiam e estouravam, demasiado líquidas se
comparado ao que calor fazia com pele humana.
Meus dedos se encaixaram no meu pescoço e subiram a lateral da
mandíbula, seguindo até minha orelha. Por fim, puxei uma mecha de
cabelo para frente; já tinha crescido, até mais do que antes do...
incidente, mas agora era castanha escura. Não sabia se pintaria de novo.
Não muito depois, o macarrão estava mole. Despejei a água e
coloquei o molho, mexendo para que não queimasse.
O vermelho mexeu comigo. A textura. Não pela data de validade.
Achava que molho de tomate nem deveria me lembrar sangue, mas ali
estava eu, observando isso. Então, desta vez, eu me lembrei do
mecânico. Meus olhos se arregalaram — mediante ao que aconteceu em
seguida, eu não tinha parado para me perguntar profundamente sobre
ele. Vez ou outra, no hospital, eu me lembrava vagamente sobre seu
assassinato.
Encarei o macarrão, apenas por alguns segundos, antes de sair
correndo até o carro para buscar o telefone. Não me fixei no cheiro
dentro dele — na memória olfativa. Em menos de meio minuto, eu já
tinha uma aba de pesquisa aberta.
Mexia minha janta com uma mão e pesquisava com a outra.
De primeira, digitei a data, a cidade e os pequenos jornais locais.
Quando achei um que parecia confiável, comecei a conferir os arquivos,
pulando quase uma dezena sobre a boate, sem demora, começaram a
aparecer coisas sobre uma série de pequenos furtos, na qual não me
concentrei — estavam em maior número, mas com pouquíssimos dados e
praticamente nenhuma especulação.
Antes que chegasse a checar metade dos relatos de furto, a sopa
ficou pronta. Meu peito se suavizou de repente, com a quebra de clima.
Mais tarde eu resolveria isso. Ele já devia... estar morto. Encontrar algo
sobre não importava tanto assim.
De uma das gavetas dos armários, puxei uma colher e um prato.
Coloquei as três coisas que tinha no balcão, me sentei em uma banqueta
e comecei a comer.
Se fosse um dia... se fosse um dia em que Lilian estivesse aqui, ela
comeria no sofá, assistindo televisão — e seus programas estariam entre
desenhos animados e 50 tons de cinza ou pior. Minha mãe, se não
estivesse no turno da noite, assistira desenhos com ela ou resmungaria
sobre os programas mais... picantes.
Eu riria das duas, depois, me juntaria a Lilian — para fofocar.
Outro surto de tristeza me tomou.
Ainda nem tinha limpado os cacos da jarra no chão, o que fazia eu
me perguntar em quanto tempo superaria — se eu superasse.
Já podia ver o fundo do prato quando me perguntei uma segunda
vez: eu desistiria de Lilian como do meu pai? Eu pararia de buscar a
justiça que eles mereciam, de me importar com eles? Ela estava morta
assim como ele; se eu fizesse algo a respeito deles, não voltariam à vida
por causa disso.
Meu peito inflou, uma chama crescendo.
Não.
Não uma segunda vez.
Para isso, não haveria uma segunda chance. E se eu fosse pensar
mais a fundo sobre, não era possível fazer justiça, não, não, não. Eu só
poderia vingar a morte do meu pai — de certa forma, a de Lilian também
— se eu agisse sozinha. Simplesmente, porque anos antes, acontecera
algo do qual eu jamais esqueceria e nem se tratava apenas de perder
meu pai.
Anos antes, meu pai fora morto, Lilian, ferida na alma, e quem tinha
feito isso ainda deveria estar no alto escalão. A justiça quase nunca
chegava aos ricos.
Respirei fundo, largando o garfo no prato.
Repeti outra vez o que tinha feito quase um ano antes: deixei uma
força explodir de dentro do peito e motivar minha própria justiça. Uma
pedra bateu em outra dentro da minha cabeça, e as faíscas... acenderam
algo em mim.
Eu tinha abandonado meu pai. Eu não faria isso com Lilian, nem
depois de morta.
Rezei em silêncio, depois de muito tempo, pedindo desculpas por ter
me escondido atrás de uma máscara de incapacidade.
Enfrentaria quem tinha matado meu pai e ferido minha irmã.
Se eles quisessem tirar algo de mim... só era possível arrancar meus
órgãos. Praticamente todos que eu amava já estavam mortos.
Mas antes de começar a pensar no que fazer, exatamente, para
vingar minha família, eu deveria começar de um degrau muito mais em
baixo.
A primeira coisa que fiz foi limpar os cacos de vidro no chão.
A segunda, foi encarar os quartos no fim do corredor.
Lilian, Tiana, Samantha e Sarah.
Haviam coisas que precisavam ser devolvidas.
Capítulo Sete
Eu fraquejei. Muito. Achei que fosse ser fácil passar pelo corredor,
entrar nos simples quartos, e, no entanto, eu cheguei aos tropeços até o
banheiro, e a primeira coisa que fiz foi entrar e vomitar no vaso. Meu
corpo tremia sem parar.
Chacoalhando, eu olhei os saltos das meninas, espalhados pelo
banheiro. Minha mão deslizou para o lado, enquanto eu chorava e tossia,
e segurei um salto dourado. Lilian o amava. Nossa mãe o tinha dado a ela
de presente. Abracei o sapato com força, lamentavelmente.
Eu pedia pelo amor de Deus, que aquilo parasse. Mas não parava. Os
objetos das meninas que deixei morrer continuavam ali.
Vomitei de novo, até que todo o macarrão tivesse saído do dentro de
mim. O gosto ruim na boca, a ânsia que não parava... machucavam. Doía.
Doía. Doía. E doía. Não parava nem quando eu gritava por perdão dentro
do banheiro.
— Me desculpe Lilian! — eu implorava. — Mãe! Ah, Mãe!
Chorei por horas, sem parar. Eu respirava fundo, só que ainda
voltava a entrar em pânico. Mas não importava o quanto eu fizesse isso,
eu não morria. Eu não via elas me chamarem do além. Meu coração
parecia estar se liquefazendo e eu ainda estava viva.
Eu precisava me resolver antes de tentar resolver algo pelas
meninas, por Lilian. Eu sabia que, assim como minha mãe dizia, precisava
deixar passar. Precisava chorar e me debater e entrar em crise.
Acho que foi só esse pensamento que me impediu de não entrar em
pânico mais ainda por me achar fraca.
Minha mãe sabia que chorar e tremer e ter medo era necessário, e
eu e Lilian sabíamos porque víamos ela fraquejar.
Me lembrava de uma das vezes que minha mãe chegou em casa
depois do trabalho, em silêncio, sem cumprimentar nós ou nosso pai. Ela
largava a bolsa no chão e saia correndo até o banheiro, e ficava lá, sem
sair. Eu abraçava Lilian com força, tentando fazer ela se sentir segura
enquanto ficávamos na porta do quarto, esperando a mamãe melhorar.
Era nosso pai que ia ajudar a mãe, tranquilizá-la. A voz dele também me
acalmava.
A voz dele... ela era como um mar calmo. Era como chuva e bebidas
quentes. Forte, mas puxada mais para o grave do que o agudo.
Então, meu corpo começou a tremer um pouco menos. O suficiente
para que eu repousasse o sapato e tentasse me erguer como um animal
tonto do chão. Dei descarga no vômito umas três vezes, e lágrimas
também desceram.
Com cuidado, eu me apoiei na pia, encarando o reflexo. Ainda usava
curativos sob a roupa, e as cicatrizes eram protuberantes. Estava muito
diferente desde o último dia em que vi Lilian, encostei meus dedos nela,
olhei seu reflexo, nós duas, lado a lado. Por alguma razão, virei o
pescoço, como se fosse vê-la na porta.
Não vi.
Abaixei a cabeça com melancolia.
Buscando, de alguma forma, me distanciar daquilo, abri a gaveta do
armário do banheiro e puxei uma bucha. Furiosamente, fiquei tentando
esfregar a pia para tirar a crosta de poeira.
Eu tinha uma casa suja toda para mim agora, mas não uma irmã.
Olhei de volta para o reflexo, com os ombros tensionados.
Havia a cicatriz na lateral da mandíbula, que ia ao pescoço e se
dividia, subindo e consumindo minha orelha esquerda e parte da lateral
do cabelo. O Estado não cobriu nenhuma cirurgia de restauração para
mim, mas eu não me importei. Aquilo não era um problema até então.
Eu só precisava de alguma coisa que me ajudasse... a me
reconhecer, de algum jeito.
Então, me abaixei e escancarei as portas do armário de novo. Havia
uma teia de aranha dentro, e evitei tocá-la mesmo quando enfiei a mão
mais para o fundo, puxando uma caixinha lacrada.
Eu tinha um pequeno estoque de descolorante para cabelo, e a tinta
deveria estar em algum lugar ali também, mas ainda não queria pintar.
Fiquei observando a caixa e meu reflexo, debatendo
silenciosamente.
Minha mão travou quando abri uma das gavetas e meu pincel
manchado se encontrava lá, como sempre.
Quando o segurei, uma coisa aguda pareceu perfurar minha mão, e
ela fraquejou.
Os médicos tinham avisado sobre isso. Alguns nervos meus
poderiam ter sido atingidos pelas queimaduras, e, vez ou outra, eu
sentiria essas pontadas. Elas seriam um lembrete constante do que eu
tinha sobrevivido e perdido.
Segurei o pincel com força, prestes a quebrá-lo.
— Saco — murmurei, rasgando a caixa, os saquinhos caindo dentro
do lavatório junto com um pequeno recipiente.
Meus dedos formigaram conforme comecei a abrir as coisas e
despejá-las, misturá-las. O cheiro forte subiu até mim como uma nuvem,
e me perguntei se meu cabelo acabaria de cair quando eu descolorisse.
Embora tivesse usado o pincel para misturar, eu não o usei para
colocar no cabelo. As luvas descartáveis fizeram o trabalho e espalhei o
descolorante azulado pelo cabelo.
Logo, quando acabei e me observei com o cabelo melado, alguns
pedaços já de um marrom mais claro, lembrei da minha irmã de novo.
Lilian riria de mim e me chamaria de cabeça de cotonete se
estivesse aqui.
Não estava.
Minha mãe ficaria rindo da sala.
Mas nenhuma delas estava aqui, e nunca mais estariam.
Segurei as lágrimas e fui correndo até a cozinha, em busca de papel
de alumínio.
Enxaguar meu cabelo trouxe uma sensação de alívio, tirando toda a
substância que pinicava sem parar, e sentir aquilo me fez... bem. Voltar
pelo menos um pouco à uma parte de mim que eu já mal me lembrava de
amar.
Meus dedos escorregaram pelos fios, e estranhei a maciez, como
sempre. Achei que fosse ficar queimado para sempre, e, no entanto, tinha
crescido muito bem. É claro que ainda haviam fios com um crescimento
péssimo, e uma parte nem crescia mais, cobertos pela cicatriz lateral.
No meio disso, eu voltei a pensar em Tiana.
Sua face parcialmente desfigurada que a assustava de qualquer
forma. Ela não apenas se escondia, mas... algumas vezes, em seus dias
mais tensos, ela ia ao banheiro e eu acordava com coisas caindo e um
barulho de choro.
Dali em diante, eu mantinha meu sono leve o bastante para que
acordasse com o barulho dela saindo da cama. Eu me erguia com rapidez
e oferecia a ela que a acompanhasse até o banheiro. Cautelosamente, eu
me mantinha na frente de seu reflexo, evitando que ela se visse, e
reforçava sua beleza tanto quanto pudesse, de modo mais sutil, menos
forçado. Eu dava a ela a privacidade de fazer suas necessidades, mas
fazia de tudo para que ela não temesse seu próprio reflexo.
Permaneci me lembrando dela por um tempo, o que, de certa forma,
fez meu coração pesar, mas senti saudades.
Me perguntei como ela reagiria quando eu a visse, se apontaria meu
cabelo branco, se relembraria meu clássico vermelho.
Portanto, encarando meu reflexo, deixei o secador de lado,
ignorando a marca de esmalte de Lilian que ela usava para marcar seu
nome. Tentando, pelo menos.
Então, guardei o secador com cuidado na gaveta, e comecei pelo
banheiro.
Primeiro, tentei organizar os vidros de xampu e condicionador,
eliminando aqueles que — claramente — não deveriam mais ser usados.
Buchas, sabão. Ao menos suas toalhas tinham sido retiradas, mas não me
surpreenderia em vê-las mofando no lado de fora.
Em seguida, me veio a pior parte. Sapatos. Eu precisaria, mais cedo
ou tarde, leva-los para seus lugares, no quarto.
Separei um par de chinelos e sandálias que deveriam ser de Sarah,
colocando-os ao lado da porta, de fora do corredor. Logo, parti para os
saltos impecáveis de Tiana, haviam três pares, cujos só mudavam a cor e
deveriam ter 20 centímetros de altura. Então, com toda delicadeza,
comecei a recolher sandálias, saltos, sapatilhas e rasteirinhas de
Samantha — ela passava muito de seu tempo aqui.
As coisas de Lilian, no entanto... eu empurrei elas juntas para um
canto do banheiro e deixei lá. Não era como se ela fosse os sapatos,
mas... eram dela. Eu poderia cuidar deles depois. Não precisava devolvê-
los.
De novo, movi os sapatos, colocando-os em grupos aos pés do sofá.
Olhei para trás com ombros tensos. Os quartos. Todos tão cheios de
coisas. Tantas memórias. Eu não estava... eu não estava pronta.
Mas aquilo tudo era só a manhã. Eu teria o dia todo para cuidar das
dezenas de pertences.
Meus passos eram fracos e tontos. Meu estômago estava implorando
para que eu parasse, mas não parei.
Com os olhos queimando, eu fui direto ao quarto de Lilian. Porque eu
tinha medo, eu tinha culpa e dor e ânsia, mas, acima de tudo isso, eu
tinha saudade. Eu tinha amor. E eu precisava ter coragem. Por elas — por
todas.
Meus dedos queimaram no batente da porta e minha visão embaçou
terrivelmente. Me escorei na madeira e deixei meu ombro escorrer um
pouco para baixo. Já fazia quase um ano, mas minhas narinas sentiam um
perfume distante, familiar; só restava a parte doce de seu cheiro, mas foi
o suficiente para me preencher de nostalgia.
— Ah, Lilian... — Eu murmurei, cruzando os braços.
A janela estava fechada, como tinha deixado quando saiu. A luz
entrava mesmo assim, e mostrava as roubas espalhadas pelo chão. Eu
poderia separar as de Lilian só de olhar, as de Tiana pelo estilo fino e as
de Samantha simplesmente porque não eram da minha irmã.
Não acendi a luz. Dei o primeiro passo cambaleante e fechei os
olhos, me sentindo vulnerável por estar ali dentro. Me perguntei porque
não tinha começado pelo meu quarto. A resposta veio em minha própria
voz mental, manchada com deboche: Lilian era mais importante.
Mais alguns passos e meus pés pisaram sob alguma roupa de
alguma das meninas. Me desequilibrei por alguns instantes e saltei dela
para frente. Mais um pouco e... quando abri os olhos, estava de frente
para a janela. Meus dedos lentamente tocaram a trava e giraram, abrindo
a janela.
Encarei o céu, a luz me fazendo mais leve, até um pouco menos
tensa. Céu... bem, se era isso, se havia esse tipo de paraíso, Lilian e
minha mãe tinham um lugar nele. Samantha e Sarah a mesma coisa. E
todos que tinham morrido queimados... eu esperava o mesmo para eles.
Respirei fundo, me virando.
O babyliss estava na cama, do lado da caixa, pronto para ser
guardado e levado para a casa de Samantha. Respirei fundo, descendo e
sentando na cama. O edredom ainda possuía as marcas das amigas de
Lilian deitadas, o que me causou dor ao desmanchar. Espalmei a mão
delicadamente pela estampa de flores azuis, indo até a caixa, guardando
o babyliss com cuidado.
Só com um olhar, eu já sabia quais roupas eram de quem. A
camiseta azul no chão era a última que minha irmã tinha usado. Meus
dedos trêmulos a alcançaram e trouxeram até mim. Cheirei, o perfume
ainda dando sinal. A camiseta ficou dobrada sobre a cama e eu tomei um
longo tempo me preparando para todas as coisas — para abrir o guarda
roupa e reconhecer tudo que fora de Lilian, de minha mãe, Samantha e
até Tiana.
Quando puxei as portas de correr, tudo estava numa completa
bagunça. Eu podia ver as roupas todas torcidas, sujas e limpas — se era
que eu podia chamá-las assim — acumuladas. Minhas mãos puxaram
uma montanha, cuja joguei na cama.
Suspirando, eu mordi meu lábio inferior e comecei a dobrar,
separando as roupas. Nunca tinha reparado em quantas roupas
Samantha deixava aqui. Ela vinha quase todo fim de semana; mesmo que
Tiana viesse menos, suas roupas ainda estavam quase empatando com o
número de Samantha. Não tinha mais do que um par de roupas de Sara.
Quando deixei o quarto, ar frio encheu meus pulmões por completo,
com algum alívio. Num dos armários do rack da sala eu achei sacolas de
papel marrom, e peguei um punhado, voltando para o quarto de Lilian.
Guardei as coisas nas sacolas, deixando um sorriso triste escapar quando
acabei.
Eu ao menos devolveria aos pais os pertences de suas filhas.
Deixando todas as sacolas prontas no sofá, fechei os punhos e andei
até a entrada do quarto da minha mãe. Enfiei a cabeça para dentro,
sendo capaz de ver sua cama desarrumada, sapatos no chão junto com
seu pijama, a cortina longa do quarto ainda fechada.
Meu coração ficou apertado de novo, mas consegui entrar. Tristeza
me assombrou quando fui até a cortina e a abri, iluminando os pequenos
traços da mulher que tinha me criado. Algo em mim questionou como ela
tinha se sentido quando... morreu.
Juntei seus sapatos, colocando dentro do guarda-roupa branco.
Arrumei a cama, um resquício do cheiro dela veio até mim e achei um par
de óculos — ela tinha esquecido eles quando saiu para trabalhar. Minha
mãe não os usaria de novo. Eu me sentei na cama já arrumada, os óculos
na mão. Joguei o pijama no chão para cima do colchão.
Meus dedos abriram os óculos. Voltei a tremer, mas puxei os óculos
dela para minha cabeça. Seu grau ainda era muito maior que o meu, o
que me fez tirá-lo e abandoná-lo ao lado de um dos travesseiros.
Levantei da cama da minha mãe e visitei seu banheiro, para
encontrar mais coisas para arrumar — um punhado de produtos e
grampos de cabelo derramados pelo chão. Pelo menos a limpeza do
governo tinha tirado o lixo dos banheiros.
No fim, eu decidi esperar mais um pouco para devolver as coisas da
meninas. Eu gastaria pelo menos o resto do dia me familiarizando com
minha casa enquanto limpava ela.
Por horas, eu fui capaz de gerar um pouco de conforto enquanto
reconhecia os cantos familiares e lembrava do que tinha vivido, mas nada
me impediu de chorar mais um pouco, então foi o que fiz.
O dia já tinha escurecido quando acabei. Meu corpo estava dolorido,
mas a casa estava perfumada, pelo menos. O quarto de Lilian e de minha
mãe estavam especialmente limpos, com o máximo de carinho e atenção
que pude dar a eles — lençóis limpos, roupas e pertences em seus
devidos lugares também.
Eu espalmei a mão na parede do canto da cama, onde jaziam
dezenas de desenhos e assinaturas, talvez minha parte favorita da casa,
com recadinhos de Lilian e suas amigas, além de vários rabiscos. Só
Tiana desenhava bem, deixando diferentes flores na minha parede.
Tracei uma delas, lembrando de seu rosto involuntariamente.
Tiana tinha sobrevivido e Lilian não, mas eu jamais tive coragem de
perguntar como. Onde ela estava para que o fogo não a matasse na sala
de jogos. Sinceramente, eu não iria perguntar de qualquer forma. Não
enquanto ainda era realmente recente; um ano sequer tinha passado.
Procurei meu segundo carregador numa das gavetas da cama e
liguei a tomada, em seguida, saí para pegar meu telefone no balcão.
Assim que consegui ligar o celular, voltei a procurar qualquer coisa
sobre um mecânico assassinado por uma mulher, mas, para meu choque,
eu não encontrei nada. Talvez as notícias sobre a boate estivessem
acabando com a visibilidade do caso, mas... eu queria saber como tudo
tinha acabado, se sua mulher não tinha fugido — porque eu tinha deixado
ela lá e ido atrás da minha irmã.
O sono veio mais rápido do que eu pensei que viria.
De novo, meu sonho se fundamentou em escuridão e depois uma
grande luz calorosa brilhou nele, como se eu não pudesse esquecer nada
do que tinha prometido a mim mesma.
Capítulo Oito
Acordei como a maioria dos outros dias: meu corpo suado como se
eu estivesse derretendo. Não era muito agradável, então eu tomei banho.
Eu quis, mas não tive coragem de entrar no quarto de Lilian. Apenas
fiquei na porta, observando. Me contentei em saber que ela me amava e
eu a amava e nossa mãe amava nós duas. E eu amava todas elas,
mesmo as amigas de Lilian, embora eu não conhecesse Sarah o
suficiente, eu pelo menos me compadecia por ela.
Eu não tinha muito mais que fazer ou comer.
Preparei as coisas das meninas, dando um cuidado extra para as
coisas caras de Tiana. As sacolas de papel ficaram quase todas nos
bancos de trás, junto com algumas cobertas que as meninas levavam
para dormir de vez em quando, até travesseiros elas tinham.
Meu carro funcionou perfeitamente, depois de um ano parado. O
governo tinha cuidado de revisões, mas... no dia em que perdi Lilian, ele,
bem, não importava mais. Aquilo não mudava nada, não era necessário
especular sobre o motor do meu carro, não agora.
No banco do carona, três sacolas cheias de coisas de Tiana
emanavam a energia rica dela. Lembrando que meu telefone estava no
bolso, eu puxei e disquei seu número. Por mais que eu a tivesse como
uma grande melhor amiga, eu hesitei se deveria perturbá-la agora. Ainda
deveria estar se tratando, e, porra, como era horrível não ver nela a
mesma alegria de antigamente; acho que não podia ver em mim
também, mas eu sentia falta.
Sentia muita saudade dos risos, dos escândalos, de Samantha se
dizendo filha preferida e de Tiana minando minha mãe ao extremo.
Sentia falta de mim mesma rindo disso.
Acho que, se fosse realmente assim, Bela tinha morrido no incêndio.
Eu ainda precisava descobrir o que eu era. Quem eu era, ou, pelo menos,
quem deveria me tornar para vingar minha família.
Então, ouvi uma voz familiar, muito baixinha, me tirando do
pensamento. Quando percebi, tinha ligado para Tiana sem ver.
Imediatamente coloquei o celular na orelha, sua voz dizendo “Alô?” me
tirou um suspiro calmo.
— Oi — eu respondi, sentindo meu peito esquentar. — Eu queria
saber como as coisas estão, se não for...
— Ah, você sabe — ela começou, parecendo meio nervosa e triste.
— Metade do meu rosto derreteu. Mas eu estou melhor.
Eu suspirei.
— Eu amo seu rosto — falei, o máximo que sabia dizer para
encorajá-la. — Posso me encontrar com você? Tenho algumas coisas suas
e... eu queria te ver de novo. Sinto falta da minha companheira de
quarto, Tiana.
— Eu? Sente falta de mim? — Para mim, foi o choque na voz dela
que me fez contorcer os lábios de desgosto. Eu entendia que tudo era
diferente, mas... ela não era, não desse jeito e com certeza não para
mim.
— Bastante.
— Não pode ser sério. Ninguém...
— Pare — eu pedi, trancando a mandíbula e agarrando o volante
com uma mão. — Por favor, Tiana, se for o que eu acho que vai dizer, não
ouse continuar. Eu senti sua falta, de verdade. Ficamos muito mais do
que um ano juntas, te conheci praticamente ao mesmo tempo que minha
irmã. Eu não fiquei todo esse tempo com você só pra abandoná-la quando
se sente insegura.
Eu poderia dizer que não a abandonaria por simplesmente não ter
mais o mesmo rosto de antes, mas eu me recusava a insinuar qualquer
coisa do tipo. Nunca foi sobre o rosto dela, nunca acolhi as amigas de
Lilian por serem bonitas. Acolhi por serem legais e fortes e confiantes.
Nem mesmo por dinheiro. Nada disso. Nunca.
E eu gostava de verdade de Tiana, eu me importava com ela.
— Acha que eu fiquei monstruosa? — questionei. — Meu rosto
também queimou, Tiana. Eu admito, menos que o seu. Mas, porra, se eu
tivesse derretido por completo, você me chamaria de feia?
— Não, de jeito nenhum, eu nunca diria isso de você, Bela!
— Como eu poderia fazer isso com você, Tiana? — resmunguei. —
Porra, eu te acho linda! Foda-se o externo e interno, você toda.
Ela ficou em silêncio por algum tempo, mas a linha não caiu.
Depois de alguns minutos, comigo esperando quieta por alguma
palavra dela, Tiana finalmente falou:
— Venha me ver.
Eu abri um sorriso genuíno.
— Eu já estava no carro — brinquei. Ela não respondeu, mas
suspirou calmamente do outro lado e eu ouvi. — Vou chegar em 10
minutos. Espere por mim, Ti.
— Eu vou.
E não precisei de mais que isso para sair da garagem, o carro a todo
vapor.
Estava tão bom, tão veloz, que eu não consegui evitar pensar na
conversa do ano passado, com Kieran.
Nunca conheci ele mais do que isso.
Ficamos no mesmo hospital por um tempo, e, depois, ele saiu com a
grana que tinha; era rico como Tiana. Por mais que, quando nós duas
fomos para um lugar mais caro no hospital, tenha pego ele me encarando
mais que algumas vezes.
Eu precisava admitir, o evitava simplesmente para não ficar me
lembrando daquele dia. Vez ou outra, também evitava os amigos dele.
Saia do refeitório, entrava no banheiro feminino com Tiana, ficava dias no
quarto cuidando dela e evitando eles. Aprendi a trocar seus curativos
nesse tempo.
Quase não vi o sinal vermelho.
Quando freei o carro, outro apareceu do meu lado, de um laranja
metálico acobreado. Uma BMW parecendo nova em folha, o vidro
levemente transparente. Eu encarei disfarçadamente, mas, quando o
vidro abaixou, eu virei a cabeça para a frente rápido. No entanto, eu
podia sentir que estava me encarando também. Depois de alguns
momentos, eu olhei de volta.
Eu tinha visto aquele rosto mais de uma vez.
Ele ergueu a mão e bateu na bochecha, os olhos perfurantes indo ao
fundo da minha alma, claros e indiferentes.
A bochecha em que bateu era no mesmo lugar que a minha
queimada, mas a sua não tinha marcas desse tipo, no entanto, sua mão
direita era queimada, deixando o mesmo aspecto.
Não respondi, mas engoli em seco, incapaz de parar de encará-lo.
Então, Silas voltou a olhar para frente e disparou com o sinal
fechado. Dava para saber que tinha dinheiro o suficiente para pagar dez
mil dessas multas se quisesse. Meu peito, contudo, permaneceu
disparado até que voltei a dirigir.
Que caralho era aquilo?
Minutos depois, eu já estava estacionando na frente da mansão dos
Duarte.
A casa deles era do tipo que tinha um painel de vidro gigante,
mostrando a sala social inteira quando as cortinas estavam abertas, uma
garagem externa e um interna subterrânea onde o pai dela guardava os
carros de luxo colecionáveis. Ainda lembrava da primeira vez que ela
convidou a gente para beber em casa, cerveja de rico, e quando ficaram
bêbadas começaram a implorar para andar numa Mercedez AMG prata do
pai dela. Tiana deixou facilmente, mas, com todas bêbadas, eu tive que
dirigir para elas — tinha 16, quase 17, na época.
Sinceramente, um milagre que o pai dela não me odiasse, mas pelo
menos me chamasse de responsável. Eu, uma menor de idade dirigindo
um carro com um monte de mulheres bêbadas. Um sorriso me escapou, e
parei quase com o nariz na porta de madeira de três metros de altura,
formada por triângulos em alto relevo.
Um grande painel, talvez quatro vezes maior que porta, se erguia
sobre ela, fazendo parecer que era maior do que realmente era. Os
triângulos desvaneciam, aprofundando a ilusão.
Toquei a campainha, ouvindo notas de piano de dentro da casa,
provavelmente uma das coisas mais finas dela. Invés do tique alto e
estridente comum de campainhas, o da casa Tiana era essas notas; pela
história que tinham me contado, isso vinha do avô dela, um pianista
famoso no país e fora dele.
A porta estralou duas vezes e se abriu. Claudia, a governanta,
apesar de ainda ser relativamente jovem — talvez com uns quarenta,
quase cinquenta — abriu um sorriso largo para mim, abaixando sua
cabeça num sinal de respeito que eu pouco entendia e muito discordava.
Acenei em cumprimento e ela me deixou entrar.
Quando passei, esticou as mãos e pôs algo nas minhas. Quando
olhei, era um gloss labial avermelhado com brilhinhos. Havia mais alguma
coisa escrita, mas mandarim não era minha segunda língua como era a
de Claudia.
— É para lábios ressecados, mas... — ela pareceu que quis desviar o
olhar, e entendi o porquê — também é bom com queimaduras. Dei um de
presente para Tiana, mas não sei se ela gostou.
Claudia era tão pequena, mesmo sendo mais velha, que podia
facilmente bater no topo de sua cabeça. Então, desci a mão para seu
ombro, batendo o polegar com cuidado.
Ela estava nessa casa praticamente desde que Tiana nasceu. Eu
entendia que ela gostava bastante dela, e, num assunto tão delicado, não
soube o que fazer para alegrá-la além de abraçar. Tinha ido visitar nós
duas no hospital alguma vezes e sempre levava alguma coisa, às vezes
até escondida dos médicos; alguns doces caros, inclusive. Ela era
adorável.
— Tiana está no quarto. Sinto muito, ela não quis vir até aqui. Acho
que ela está... te dando tempo de desistir.
— Desistir? — questionei. — Desistir?
Claudia não precisou e dizer o caminho, eu fui à passos furiosos e
pesados. Estalos no piso branco brilhante ressoando, e, sinceramente, se
a senhora Duarte aparecesse e me pedisse para parar, eu não o faria.
Desistir?
Ora, sua pequena burguesinha, desistir o caralho!
Eu bati só uma vez e entrei. Tiana estava se levantando da cama,
quase no banheiro. Eu acenei irritadiça, mandando-a voltar. Se me
dissesse que queria ir ao banheiro, eu saberia que estava mentido.
Mas meu rosto se desmanchou em raiva. Se escondendo de mim?
Porra.
As feridas dela estavam boas o suficiente para que eu fechasse a
porta subitamente, avançando em Tiana logo em seguida. Ela soltou um
gritinho quando passei o braço através de sua clavícula e empurrei para
trás. Suas costas bateram em outro braço meu e passei o primeiro atrás
de seus joelhos. Tiana abraçou meu pescoço, meio assustada quando a
carreguei no colo durante um acesso de fúria.
— Desistir de você? — questionei, me aproximando da cama dela. —
Eu já te falei, Tiana Duarte, eu nunca vou desistir de você, então me faz
um favor, lembra que eu sou sua melhor amiga e estou aqui para ficar
com você. E não desistir — eu rosnei, pondo-a de volta na cama com todo
o cuidado possível.
Seus olhos se encheram de lágrimas e ela deixou um sorriso
escapar. Quando soltou meu pescoço, sua mão roçou a queimadura na
bochecha e senti um arrepio caloroso. Suas mãos começaram a se virar
para o criado, em busca do que notei seu uma máscara branca que
tapava mais da metade do rosto; uma máscara prostética salpicada de
pedrinhas brilhantes, eu nem precisava perguntar se eram diamantes.
Afastei a máscara das mãos dela, arrastando uma poltrona até que,
quando sentei, meus joelhos encostavam na cama alta.
— Quero ver você.
— Ninguém quer.
— Bom, eu vejo quem você é, e não como está — retruquei,
estalando a língua. — Depois de passar praticamente um ano dividindo
quarto com você, ainda acha que sua aparência me assusta?
— Quando fui pegar comida da madrugada, Claudia achou que
estivesse vendo uma assombração. — Apertei os lábios numa linha. Erro
dela. — Eu a assustei por conta do meu rosto. Fiz ela gritar.
Um terrível erro da governanta. Mas, para quem tinha se
acostumado com Tiana desde criança, a mudança repentina assustaria
qualquer um que não fosse eu — que estivesse passando pela mesma
coisa, sinceramente. Eu também tinha queimado uma parte do rosto,
embora menos que Tiana, mas entendia o quanto o processo de
adaptação seria difícil para ela. Pelo ano que ficamos juntas, também.
Acho que eu a conhecia como ninguém, já que... Lilian e Samantha
tinham partido. Talvez elas soubessem lidar com isso bem mais do que
eu.
— Tiana, acho que, no meio da madrugada, poderia ser Jesus
aparecendo e Claudia desmaiaria de susto. Não vou negar, nossos rostos
mudaram, mas... feios não é uma palavra para descrevê-los. Eu acho
você linda, e sabe disso, eu já te falei.
— É o rosto que atrai as pessoas como como a luz atrai os insetos.
Muita gente me segue porque eu me pareço... parecia, bonita. As pessoas
me ouviam, Bela, me ouviam discursar pelas causas sociais porque eu
era bonita, porque eu chamava a atenção e dava a sensação de poder.
Que poder tem um rosto destruído?
Eu suspirei pesadamente, então falei:
— Diga isso, diga que não é bonita mais uma vez — sibilei — e vou
sentar a minha mão na sua cara. Você linda, garota. Linda, entendeu?
Porra, eu não queria que se sentisse assim, de verdade. Sou eu que não
basto? É por que eu não sou bonita o suficiente para você, então não
acha que minha opinião vale? Se é isso, porra, eu vou encontrar a mulher
mais bonita do mundo, e ela mesma vai te dizer que é bonita. — Então,
puxei o celular, ligando a câmera em modo de selfie. Talvez fosse um
pouco drástico, porque ela se odiava tanto, que ver a si mesma poderia
não ser minha decisão mais sábia. Apontei a tela para ela, meus olhos
fervendo de raiva. — Vê? Agora, converse com ela. Diga à mulher mais
bonita do mundo que você é bonita também. Ela vai concordar.
Tiana estava chorando.
Tudo isso era mesmo porque não deixei ela por uma máscara? Não,
longe disso. Não a máscara branca e chique, mas porque eu me recusava
a deixar ela usar a máscara de monstro que tanto proclamava ser sua.
Tiana era maravilhosa, seria mesmo se não tivesse rosto.
— Me desculpe — eu murmurei, me levantando da poltrona. Passei
um braço por suas costas, beijando o topo de sua cabeça. Um pouco mais
para o lado e eu encontraria nada além de pele nua. Ela tinha os piores
danos dentre os que estavam vivos.
— Não entende? — disse, a voz partindo meu coração. — Vivi dez
anos envolvida com causas sociais. Fui rosto de campanha de inúmeras
manifestações. Não quero deixar de ser importante.
E ali estava ela, a frágil e envolvida Tiana.
— Temos outra causa para ajudar — falei, tentando consolá-la. —
Uma que não vai deixar de te acolher. — Seus olhos brilharam, sua
cabeça se virando para cima. Quis beijar seu nariz, meio queimado, uma
parte faltando. Queria dar a ela tudo o que merecia, a única coisa de
Lilian que estava viva. — Centenas de pessoas como nós em breve vão
para às ruas. Irão querer justiça, auxílio.
Segurei a cabeça dela entre as mãos. Nos olhávamos intensamente.
— Você será a mais importante entre eles, a voz guia de todos, se
quiser — falei. Ela piscou, uma pergunta se formando; se aquilo era pelos
danos que tinha sofrido, e, sim, era mesmo, mas não sobre seu rosto, seu
corpo. — E será a líder deles porque é uma sobrevivente. Uma esplêndida
e perfeita sobrevivente.
Ela soltou um suspiro contra meu rosto. O ar quente me fez piscar,
mas, quando abri os olhos, eu a tinha nos braços, ela me apertava com
todo o amor e gratidão que tinha, mas eu não era menos grata: a abracei
de volta.
— E, se quiser começar... — murmurei — tenho coisas de Sara e de
Samantha no carro. E algumas suas.
Ela se afastou lentamente, com um pequeno sorriso de
agradecimento. Ainda segurava a minha mão.
— Vou entender se você não quiser ir comigo. Ainda deve estar
cansada. Achei que, pelo menos, deveria ser avisada. Samantha também
era sua melhor amiga e Sara estava com vocês durante tudo aquilo.
Ela pensou por um momento. Sua mão apertou a minha por alguns
segundos.
— Eu estou cansada de ficar em casa. Mas tenho medo, Bela, de que
os pais delas irão ter... nojo de mim.
— A máscara te faz... sentir melhor?
Ela negou.
— Bom, se está cansada, pode vir. Eu juro, Tiana, os pais delas
trocariam suas vidas para ter a filha como você. Estar viva, depois disso,
é um milagre. — Tiana deslizou a mão para meu braço. Estava quente,
mesmo no clima frio causado pelo ar condicionado do quarto. Enfiei os
dedos da mão livre entre seus cabelos. Apesar de terem sido
completamente queimados no incêndio, ela tinha investido em tratar do
que sobrara e estavam crescendo fortes e sedosos, quase tanto quanto
antes. — Você vai ver, eles ficarão felizes que estamos bem e ficarão
gratos que estamos nos lembrando das outras. Humanos são assim,
sofrimento é o que os une, infelizmente.
— E se eu não for bem-vinda como diz?
Eu pensei por um momento na resposta.
— Deixamos as coisas delas e voltamos. Nunca mais deixarei que
falem com você, que os escute, Tiana. — Diante de seu olhar, como se
fosse um cão sem dono, segurei sua nuca com firmeza, dando apoio. —
Quero proteger você.
Mas não a sufocar, nunca. Protegê-la, deixá-la segura. Jamais
incapacitada de tomar as próprias decisões.
— Eu vou com você — disse, finalmente. A abracei de novo. — Vou
pedir que juntem algumas coisas de Lilian e Samantha que tenho aqui.
Vou entregar a você as de Lilian.
Eu assenti.
Não foi um processo demorado, embora tivessem o dobro de roupas
das meninas aqui, comparado com a minha casa. Não podia nem as
culpar, essa casa era conforto puro e opulência absoluta; o quarto de
Tiana não tinha só uma janela, mas um painel de vidro com uma
miniatura artificial de uma cachoeira, e tinham peixes. E sinceramente,
tinha até uma sacola de roupas minhas.
Logo, nós duas estávamos na porta, Claudia parada na nossa frente
com olhos apreensivos, uma mão recolhida perto do peito. Parecia ainda
menor encolhida como estava. Eu deixei as sacolas no chão um momento
para abraçá-la e me despedir; Claudia beijou minha bochecha, mas o
clima estranho não acabou quando Tiana ficou com a cara virada,
ofuscando o lado mais queimado do rosto.
— Me perdoe, senhorita Tiana — Claudia disse, abaixando a cabeça.
Tiana avançou, erguendo a coluna dela, pondo-a reta.
— Qualquer um se assustaria com um rosto feio de madrugada.
Claudia parou por um minuto, os olhos comtemplando a face de
Tiana. Então, mudaram para algo mais brilhante e ela abriu um sorriso, se
jogando em Tiana e agarrando seu pescoço; era menor que nós duas,
principalmente porque Tiana era uns dez centímetros maior que eu.
— Você é linda, minha menina — Claudia disse, beijando-lhe as
queimaduras. — Se fiz pensar o contrário, não foi minha intenção.
Quando elas se afastaram e Tiana olhou para trás, para mim, eu dei
de ombros.
— Viu? Não tinha nada a ver com aquilo. — Ela assentiu,
carinhosamente se afastando da governanta, cuja nos acompanhou até
meu carro.
Assim eu guardei mais das coisas e entrei no veículo, Tiana se virou
para trás e disse antes de entrar também:
— Eu gostei do gloss, Claudia. — A governanta sorriu, orgulhosa. —
Tem cheirinho de morango, eu amei.
Em seguida, acenei com a cabeça e dei partida no carro.
Foi estranho ainda lembrar do caminho para a casa de Samantha tão
facilmente. Foi estranho lembrar dela, de como, de repente, ela e Lilian já
não estavam tão presentes. Já não se ouvia seus comentários e piadas e
fofocas. Eu já não tinha que lidar com o trio bêbado e agir feito a adulta
responsável mais velha: não precisava mais dar banho numa Samantha
derretendo de cachaça ou arrastar Lilian por sob seus ombros até seu
quarto e jogá-las na cama.
Agora, meus últimos vislumbres de Samantha seriam da noite do
incêndio, a última chamada, seu corpo carbonizado e, por fim, suas
roupas e objetos pessoais, que já não deveriam mais ficar comigo, mas
com seus pais. Depois de um ano, eu veria os senhores que eram seus
pais.
Tiana não parecia mais preparada que eu para isso.
Capítulo Nove
— O que você planeja fazer a partir daqui? — Tiana perguntou, no
meio do caminho. Por algum tempo, eu não tive a resposta.
— Acho que vivi e perdi o suficiente — resmunguei. — Há certas
coisas que Lilian nunca quis confidenciar a vocês, por preocupação e
aversão à pena. Vou lidar com isso.
— Você pode contar?
— Acho melhor não. Pelo menos não por enquanto. Mais cedo ou
mais tarde, se eu conseguir o que eu preciso — comecei —, as coisas vão
escalar ao nível da mídia local.
— Planeja causar um escândalo? — ela questionou me olhando com
olhos arregalados. Durante poucos segundos, encarei a boca rosada e
brilhante por causa do gloss. Ela ficava muito melhor daquele jeito, com
um pouquinho de vaidade. Se sentindo um pouco mais bonita, embora
aquilo não fosse nada se comparado à confiança dela anteriormente.
— Pode ser que eu precise. — Suspirei, passando pelo sinal verde. —
Lilian é grata a vocês por não a tratarem como uma órfã pobre coitada.
Mas há mais sobre a morte do meu pai do que fizeram parecer. Por ele e
Lilian, há muito com que eu preciso trabalhar.
— É o tipo de coisa que pode te colocar na cadeia? — Seu tom era
de grande preocupação. Eu suspirei.
— Pode ser que sim, não vou negar.
Ela começou a falar alguma outra coisa, mas não ouvi depois da
primeira letra. Tudo que eu vi foi a BMW laranja acobreada de Silas.
Muitos metros atrás de mim, mas tentando chegar mais perto. Meu
coração disparou.
Agarrei a marcha e o volante, pisando fundo no acelerador. Ouvi
Tiana gritar, mas não pude olhá-la.
— O que diabos tá fazendo?
— Um dos caras da Boate, da banda, para ser exata, me achou hoje
— respondi, olhando pelo espelhinho. — Não conversamos, mas ele ficou
apontando para a própria bochecha e me olhando. Não gostei disso, dele.
— Você conhece o pessoal da banda? — ela questionou, apertando o
cinto com uma mão e o apoio acima da janela com outra.
— Eu achei que tivéssemos encerrado as coisas um ano atrás —
resmunguei, revezando os olhos entre o retrovisor central e a rua. —
Conheci eles naquela noite. Achei que fossemos morrer todos juntos, e,
depois, quando não morremos, encontrei o vocalista no hospital; você o
viu, acho.
— Sim, mas... não sabia que se conheciam de verdade.
— Não foi bem assim, mas não quero me envolver com eles mais.
O grande alívio veio quando escutei uma sirene policial. Esperei os
últimos segundos de um semáforo verde, o carro alaranjado já muito
perto, e, quando avancei e o sinal avermelhou, a polícia passou bem na
nossa frente. Silas podia ser rico, mas não arriscou nos seguir com a
possibilidade de ser apreendido pela polícia.
Eu respirei fundo, me sentindo tranquila.
Tiana segurou minha mão sobre a marcha, e só então percebi que
estava tremendo. Porra, eu tinha me livrado dele. Já estávamos perto o
suficiente da casa de Samantha para que eu me tranquilizasse — não ia
precisar correr muito mais.
Olhei Tiana, agradecendo e assentindo, então, puxei a mão com
cuidado e apontei a sacola de Samantha. Íamos descer logo.
Por fim, quando chegamos à rua, eu perguntei se Tiana se
importaria no caso de eu estacionar duas ruas para cima, deixando o
carro mais escondido. A ideia de Silas encontrando meu carro aqui foi
perturbadora e acho que Tiana percebeu, porque concordou. Não impedi
quando ela alcançou um moletom com capuz de Samantha e o vestiu;
tinha sido um sacrifício trazê-la até aqui, então, desta vez, deixaria ela se
esconder, mas isso não importou muito, desde que eu cheguei minha
mão ao lado queimado de seu rosto, acariciando.
— Sei o que quer dizer — Tiana respondeu, segurando meu pulso,
sem afastá-lo. Tinha dor no olhar, medo, receio, mas, mesmo com tudo
isso, ela inclinou a cabeça sobre minha mão. Um agradecimento
silencioso, constatei.
Alguns minutos depois, quando saímos do carro, Tiana foi mais
rápida que eu e segurou a sacola, colocando na frente do rosto. Eu guiei,
avisando sobre rachaduras e degraus.
Finalmente, a faixada de tijolos nus e cimento e portões enferrujados
surgiu. Logo que toquei a campainha, Tiana me entregou a sacola
enquanto retirava o moletom, respirando pesadamente e com um olhar
sério e ainda preocupado. Assim que ela soltou o moletom dobrado na
sacola, o portão se abriu; vi seu corpo retesar de susto, sua mão agarrou
a minha, enquanto a outra estava nas alças da sacola.
— Isabela? Tiana? — disse a mãe de Samantha. Seus olhos
arregalados se encheram de lágrimas, mas ela não as deixou cair, abriu
mais o portão, pedindo que entrássemos.
Como o esperado, eu passei primeiro. Beta me abraçou forte, então
passou para Tiana; foi a mais alta que hesitou, parada, imóvel e
assustada. Eu dei de ombros e, no segundo seguinte, ela foi agarrada,
quisesse Tiana ou não. Beta tinha um dos abraços mais fortes que eu
conhecia.
— Ah, meninas — Beta disse, dado tapinhas num dos ombros de
Tiana. Eu sorri para as duas. — É muito bom ver vocês, saber que estão
bem... eu não tive muitas notícias, mas... tive esperanças. Soube que
Tiana estava bem, pelo menos. Mas a sua...
— Lilian morreu — eu respondi, minha voz saindo mais fria do que
eu gostaria. A breve alegria de Beta diminuiu drasticamente.
— Sinto muito, Bela. Por favor, entrem, vamos conversar um pouco.
— Claro — eu falei. Tiana me seguiu, sua mão agora no meu braço,
como um filhote com medo de se perder. Eu tinha dito a ela, e ela não
tinha acreditado muito, mas eu estava certa. Beta era o tipo de senhora
doce demais para esse tipo de coisa.
Não muito depois, eu e Tiana estávamos sentadas uma do lado da
outra e do outro lado da mesa estavam os pais de Samantha. Ficamos em
silêncio por quase um minuto, até que eu finalmente tomei coragem de
pôr a sacola de papel sobre a mesa.
— Desculpe por trazer isso à tona — pedi, empurrado a sacola para
Beta, cuja pegou. Seus olhos ficaram arregalados de novo quando ela viu
o que tinha dentro, compartilhando isso com Adilson, o pai de Samantha.
As mãos idosas da mãe seguraram uma camiseta vermelha de Samantha.
Eu me lembrava de vê-la usando alguns dias antes de tudo aquilo. —
Achei que vocês merecessem ter isso de volta. Tudo pertence à
Samantha.
— Você se lembrou de todas as roupas dela?
— Sim — respondi, com o olhar baixo. Sob a mesa, Tiana segurava
minha mão. — Queria ter trago bem antes, mas... não pude. Permaneci
no hospital por bastante tempo.
— Sim, imagino que deve ter sido grave.
— Foi um longo ano — concordei.
Beta arqueou uma sobrancelha, abraçando a camiseta ao corpo.
— Um ano? Foi tão grave assim?
— Tivemos uma série de queimaduras de terceiro grau. Demoram
muito para cicatrizar. — Também haviam exames para verificar órgãos
mais danificados e todo o resto, mas, no geral, era isso. Tiana, pela
quantidade e gravidade, tinha se recuperado relativamente rápido, e eu
agradecia o destino por isso.
De novo, ficamos quietos. Os dedos nervosos de Beta davam ideia
de que ela queria falar alguma coisa importante, mas não perguntei o
que era. Depois de um minuto, a mãe finalmente conseguiu falar alguma
coisa, embora gaguejasse:
— Acha... acha que minha Samantha poderia ter...
— Sofrido? Sobrevivido? — ela assentiu para os dois. Precisei pensar
numa resposta cuidadosa. — Ela me ligou. Quando o incêndio começou,
Samantha me ligou pelo telefone de Lilian.
Beta ficou mais quieta que o normal. Assustadoramente quieta.
Adilson repousou uma mão em seu ombro.
— Eu estava com alguém então... quando contei, ele disse que tinha
o carro mais rápido. Roubei a chave e saí correndo. Não demorei cinco
minutos para chegar — revelei. — Peguei o que tinha, fiz uma corda e
subi na construção.
Aquela história não precisava de detalhes. Do fogo, de como ele
aconteceu, quem eu vi, o que pensei. Eu só precisava que soubessem um
pouco que sanasse suas dúvidas.
— Procurei por Lilian e descobri que ela e as meninas estavam no
primeiro lugar a pegar fogo. — Tiana apertou minha mão. — Não sei se
sofreu, mas... morreu abraçada com Lilian. Achei que Tiana também
tivesse.. tivesse... — não conclui. Não precisavam daquilo. — Sinto muito.
Sinto muito mesmo. Eu faria qualquer coisa para ter chegado mais cedo.
Para não ter sequer ido à festa. — E, bem ali, me lembrei da realização
fria que tive com Kieran no hospital.
Mas não consegui chorar, ainda que meus olhos queimassem. Nem
eu, nem Tiana. Mesmo que isso doesse pra caralho.
— Não posso afirmar nada, tia Roberta. Mas serei eternamente grata
a filha de vocês por não deixar minha irmã sozinha. Isso significa muito
para mim.
Eu me levantei, puxando Tiana comigo. No fim, eu, ela e Adilson
estávamos abraçando Roberta.
Não conseguia pensar em mais nada que não fosse na cena mais
aterrorizante da minha vida: minha irmã e Samantha carbonizadas,
juntas. Só que, quando olhei para Tiana, senti mais culpa ainda; ela
estava lá, estava na sala de jogos, e, por ter visto Lilian e Samantha
mortas, eu nem tinha tentado procurá-la. Era minha culpa que ela tinha
se queimado tanto, e, por consequência, que se odiasse tanto. Por isso
me sentia tão responsável. Eu jamais tinha revelado para ela que tinha
estado lá.
No entanto, quando olhei para Tiana enquanto nos abraçávamos, ela
não parecia que me odiava. Mais tarde, quando pudesse gritar comigo, eu
tinha certeza que o faria.
— Muito obrigada, meninas — Beta disse quando nos afastamos.
Seu marido permaneceu ao seu lado.
Eu assenti.
— Acho que este é um bom momento para dar tempo e espaço a
você — falei. Ela não me contradisse, mas concordou com a cabeça. Beta
levantou em seguida, os olhos ainda avermelhados. Nos guiou até a
porta.
— De verdade, meninas, eu agradeço por terem trago as coisas
delas de volta. Diga para Dara que eu...
— Ela morreu também. — De novo, minha voz saiu um pouco
indelicada. — Minha mãe se matou, Beta.
Sua mão tapou a boca, a expressão se enchendo de tristeza. Ela me
abraçou de novo, murmurando condolências, que, embora eu gostasse
dela, não diria o mesmo de sua pena. Eu era exatamente como Lilian
nesse quesito: a pena de qualquer pessoa me irritava, mas pela mãe de
Samantha, não deixei nada transparecer.
— Lilian era a luz das nossas vidas. Entendo porque ela não
conseguiria viver sem ela e... o pensamento angustiante de que eu
poderia morrer também... Acabou que foi assim.
— Mas você está bem? — Não. Não estava, nem um pouco. Mas
segurei o ombro dela com cautela e respondi, forçado uma voz calma,
que saiu vazia.
— Não sei, tia Beta. Eu vou ficar. Acho que o tempo vai ajudar a
sarar isso.
— Espero que sim — ela respondeu, olhando entre mim e Tiana.
Dei um passo para o lado, deixando que Beta abrisse o portão. Não
precisei de muito para me despedir, apenas outro abraço. Então, quando
saí, Tiana poucos passos de mim, escutei o portão travar. Andamos as
duas ruas para cima, comigo sem desviar o olhar dela, mas, quando
chegamos à metros perto do meu carro...
Nesse momento, meu pescoço se moveu com o lampejo laranja.
Ergui a cabeça, instintivamente pondo Tiana atrás de mim.
Silas estava ao lado do carro, braços cruzados e pernas sobrepostas.
Quando me viu, deixou os braços caírem e se virou na minha direção,
metros de distância. Não consegui reagir, não quando Tiana estava tão
perto e eu assustada.
Ele ergueu seu queixo, olhando como se fosse superior.
Capítulo Dez
— Isabela Rollis — ele disse em tom de cumprimento. Quando deu o
primeiro passo, coloquei meu braço entre nós, num sinal de aviso, por
mais que não fosse funcionar muito. — Uou, isso não é muito parecido
com o que aconteceu ano passado. Da última vez, estendeu a mão para
segurar a de alguém.
— Eu me lembro bem disso — retruquei. — Se quer confusão, pode
se preparar.
— Confusão? É, talvez eu queira — disse. A frase bastou para que eu
tensionasse os músculos. — Mas não desta forma. Quem quer isso
mesmo é meu primo, Kieran.
O nome me deu arrepios.
— Ele quer falar com você.
— Bom, eu não faço ideia do que ele quer, mas se for alguma coisa
digna de ter você me perseguindo, faça-me o favor. Desapareça.
O rosto dele ficou mais sério. Silas chegou próximo de mim, mas não
recuei; não iria parecer frágil na frente dele e de Tiana. Se necessário, eu
ficaria e ela correria com a chave do meu carro.
— Não vou bater em você — ele disse. Tinha pelo menos quinze
centímetros a mais que eu. Talvez uns cinco a mais que Tiana, sem falar
nos braços. Posicionei a mão para frente, como em ordem de parada,
mas ele chegou mais perto, desafiando a mim o bastante para encostar o
tórax na minha mão. Engoli em seco. — Não precisa ter medo de mim
ou... medo por ela. — Ele apontou Tiana.
— Eu não...
— Você esteve conosco e salvou a gente.
— A corda rompeu — eu cortei.
— Mas você a tinha pronta, mesmo que fosse óbvio que não sabia se
ia usar ela você mesma. Eu e os outros somos gratos, estou sendo
sincero. Não queria ter que ficar seguindo você, mas era isso ou receber
uma ligação suspeita de Kieran do absoluto nada. Por isso avisei.
— Receber uma ligação? Eu não...
— Dinheiro consegue muitas coisas. Ele rastreou você, por isso é
fácil te achar.
De repente, fiquei muito consciente do celular no bolso da calça.
— Isso é suspeito o suficiente.
Silas ficou em silêncio, me encarando como se esperasse que eu
reorganizasse os pensamentos.
Sim, eu tinha deixado a corda para eles, embora depois fosse
rompida. E também, nós tínhamos segurado as mãos uns dos outros
esperando juntos pela morte. Tinha tentado salvá-los e fracassado,
embora não fosse culpa minha. Talvez eles realmente não precisassem
me odiar, mas.. eu ainda não estava completamente segura.
Abaixei a mão.
Silas deu alguns cliques no celular.
Meu telefone chamou em seguida. Assisti em choque o repentino
número desconhecido, tocando incessantemente até que eu tomei
coragem para atender.
— Alô? — Estava na minha orelha.
— Isabela — disse. Reconheci a voz, ouvi seu suspiro. Me arrepiei. —
Faz um ano, praticamente. Você se recusou a olhar na minha cara depois
da descoberta que fizemos.
— Você sabe o motivo.
— Sim. Mas é por essa mesma razão que estou ligando. — Meu dedo
se preparou para desligar. — Não aperte o botão sem me ouvir. Tenho
coisas pra você que quero que saiba.
— Tipo o quê?
— Primeiro, quero propor um acordo. — Fiquei em silêncio. Continue
falando. — Você vai ficar conosco. Meus amigos. Isso inclui Silas e Philip e
os outros.
— Tudo isso para me manter perto?
— Porque acho que você tem potencial. E, se quer saber o que
ganha em troca — me perguntei qual era sua definição de potencial e
para quê, mas deixei os ouvidos atentos para a segunda parte do
“acordo” —, só direi uma frase. Você é inteligente, não duvido que vai
entender.
— Fale.
— O aniversário de 15 anos de Lilian.
Meus olhos se arregalaram; segurei o telefone com tanta força que
achei que fosse quebrar. Se ele sabia de alguma coisa, se podia fazer
algo sobre isso...
— Vou financiar você, tudo o que precisar, tudo o que quiser. Vou
oferecer ajuda, já que imagino que queira vingança. Em troca, vou
monitorar seu desenvolvimento.
— Porra, não brinca comigo, desgraçado.
— Não falei nada sobre brincar.
— Me vigiar? Me monitorar?
— Quer dizer que vou te ensinar a tocar um instrumento.
Tranquei a mandíbula, mesmo que não tivesse tom de brincadeira
na voz dele. Porra, tudo aquilo para me ter perto e me ensinar a tocar?
— Quero você na nossa banda.
— Sua banda?
— Nós não vamos parar de cantar por mais tempo do que isso. Não
vou negar, o incêndio deixou a gente mais famosos do que nunca e o
primeiro show no mês que vem teve os ingressos lotados. Não vou te
colocar no palco direto, mas vou ensinar, e, quando souber o que fazer,
vai tocar com a gente. Depois, vai receber seu próprio dinheiro.
— É tudo sobre isso? Me pagar para cantar no seu grupinho?
Kieran pigarreou.
— É uma banda e você só tem a ganhar. Sei que seu dinheiro vai
acabar inevitavelmente agora que sua mãe se foi. — Ele suspirou de
novo. — Eu não quero que encontre um emprego qualquer que vai te
esgotar e provavelmente pagar mal. Salvou a gente. Eu quero
demonstrar gratidão. Quero ser seu amigo.
— Você é estranho.
— Contanto que não afaste você, posso ser mais do que estranho.
Senti outro arrepio.
— Então, você me ajuda, me ensina, e, por tudo o que gastar
comigo, só vai pedir que eu seja parte do seu grupinho?
— Quase isso. Mas é o suficiente.
Eu respirei fundo, desviando o olhar de Silas para Tiana, quieta atrás
de mim. Ela o reconhecia, percebi. Acho que todos os rostos daquela
noite ficaram marcados na mente de quem viu acontecer.
— Você começou a conversa falando sobre aquilo.
— Sim, a coisa que tentou nos avisar. É mais uma coisa que vai
descobrir se você se mantiver conosco.
— Não sei se quero.
— Tudo bem, você vai querer em algum momento. E vou contar
nesse dia.
— Você sabe o que foi. — Uma certeza minha, não uma pergunta,
principalmente porque eu não queria saber mesmo.
— Pode-se dizer que sim.
Fiquei em silêncio, pensando.
— Então?
— Tenho coisas para fazer. — Independentemente de ele estar do
outro lado da linha, talvez à quilômetros de distância, eu senti que ficou
na expectativa. — Mas minha resposta... é um sim.
Era fato.
Eu não tinha nem pensado em arrumar um emprego. Eu ia fazer
faculdade de direito, mas, sem dinheiro para pagar qualquer despesa, era
impossível. Sem amparo algum, talvez eu nem conseguisse manter a
casa, e, com a promessa que fiz para meu pai e Lilian, as coisas ficavam
mais escassas ainda. Eu jamais pediria isso a Tiana, então, se Kieran
estava oferecendo e falando a verdade, eu só tinha a ganhar.
Se, então, ele decidisse mudar o acordo, eu ia pular fora. Não tinha
muito o que perder mesmo.
— Ótimo. Por agora, não tenho nada que pedir de você. Mas
amanhã, Silas vai te buscar em casa e trazer até mim.
Claro. Ele sabia onde eu morava.
Pelo menos não tinha sido estranho o bastante para aparecer lá do
nada.
Desliguei o telefone sem me despedir.
— Falei com o seu mestre — sibilei. — Tenho mais coisas a fazer.
— Vai entregar outra dessas sacolas? — perguntou, parecendo
curioso. — São roupas, para quem?
— De quem — respondi. Não era um grande segredo, mas me
incomodou um pouco revelar. Acho que ele percebeu e entendeu, porque
assentiu e entrou no próprio carro, disparando em seguida, até que só
restaram eu e Tiana, na rua, do lado do Onix prata.
— Ele é da banda e... querem você na banda?
— Sim. Não se preocupe, vou ter cuidado.
— Não deixe de ter, nem por um segundo, Bela — ela disse.
Apenas concordei, e, logo, nós partimos para a casa de Sara, e,
graças à Tiana que lembrou do endereço anotado no telefone, eu não
fiquei completamente perdida.
Foi diferente com a mãe solteira de Sara. Ela recolheu a sacola sem
nos convidar para entrar, o olhar acabado e sem brilho ou vida. Não se
despediu, mal falou, e dizer que me encarou nos olhos ou mesmo Tiana
seria mentira. Pedi ao destino que desse a ela algo melhor do que o que
estava recebendo.
Mais tarde, depois de devolver Tiana para sua casa e receber um heroico
beijo na bochecha e um agradecimento, eu voltei para casa.
Liguei a televisão e me ocupei em assistir alguma coisa.
Depois de duas horas, um dos jornais principais apareceu de
plantão, a foto da mãe de Sara na tela e a manchete me fizeram ter
vontade de vomitar, minha pressão caiu.
Ela tinha se matado e deixado uma carta sobre a filha, mas que não
foi revelado o que estava escrito.
Quando a vizinha começou a falar, percebi que ela tinha me visto
mais cedo, deixando a sacola em suas mãos.
Os repórteres famintos chegariam até mim logo.
Senti muito pela mãe, porque a minha também tinha decidido que a
própria vida não valia a pena.
Mas, quando aceitei o inevitável: iam vir à minha casa, eu resolvi dar
mais do que uma reportagem sobre o que vi naquele dia. Não, eu pedi
uma entrega de tinta de cabelo com um resto de dinheiro deixado
guardado no meu quarto, e, na manhã do dia seguinte, eu raspei a lateral
do meu cabelo e pintei de vermelho.
— De volta às origens — murmurei para mim mesma.
Então, eu ouvi a porra da buzina na minha porta, perto da hora do
almoço. Fiquei quieta, prestando atenção, até ouvir a voz conhecida
gritar meu nome através da porta.
— Você pode se sentar no chão e esperar. Tenho que tomar banho e
arrumar o cabelo.
— Me deixa sentar no seu sofá — ele pediu aos gritos atrás da porta.
Não respondi, de jeito nenhum.
Foi até um pouco divertido ser má com ele.
Capítulo Onze
Coloquei brincos de tira de ferro, amarrei parte do cabelo num rabo
minúsculo e vesti uma calça preta rasgada e um par de botas de 15
centímetros de altura — só para não me sentir muito menor que Silas — e
coloquei um blusa curta com uma estampa de fogo no rumo do coração.
Quando me olhei no espelho, percebi que, algumas vezes, eu podia
me sentir bonita também. Sinceramente, a bota era presente de Lilian,
então ela aumentava meu tamanho, autoestima e apego.
Murmurei um agradecimento silencioso para minha irmã, evitando
chorar porque tinha tido força de vontade de passar rímel.
Agarrei a chave de casa e abri a porta para encontrar Silas sentado
de verdade, costas contra minha porta. Ele as bateu em meus joelhos, e,
quando levantou e viu que eu estava mais alta, arregalou os olhos paras
as botas pretas com correias e plaquinhas.
— Consegue andar com isso?
Dei de ombros.
Embora fosse plataforma e não um salto, eu não fazia ideia.
Eu sabia andar com aquilo?
Silas pigarreou e apontou seu carro. Eu saí de vez e tranquei a porta,
seguindo atrás dele. Quando abriu a porta do carro, eu murmurei um
xingamento: ainda cheirava à carro novo. Com cautela, ele encostou nas
minhas costas, dizendo que eu deveria entrar, mas não consegui e... nem
queria.
— O que foi? Não gostou do carro?
Eu não neguei nem assenti. Só engoli em seco.
— Tá com medo de entrar?
Assenti quase imperceptivelmente.
— É um carro... chique demais para alguém como eu. Qual o
endereço? Vou com o meu.
— Se está preocupada com o carro, espere até ver onde vão
almoçar.
Tentei virar de costas, mas foi um erro; Silas me empurrou e eu caí
direto no banco, quase batendo a cabeça. Ele chiou e eu xinguei. A porta
do carro já tinha fechado e ele já estava do outro lado, entrando.
Foi um dos percursos mais silenciosos que já fiz, até ele ligar o rádio
e eu escutar um coro de vozes masculinas numa melodia... radical. Então,
uma da vozes mais finas que eu sabia que conhecia, mas não lembrava
de onde. Depois a bateria ficou mais alta e uma segunda voz surgiu, a
terceira logo veio também e reconheci essas duas muito bem: a principal,
aveludada, perfurante, era de Kieran; a outra voz de fundo, mais calma e
sinceramente bem mais aveludada e suave, era de Silas.
— É da sua banda, né?
— É sim — ele disse, sorrindo com orgulho. Não pude zombar, eram
realmente bons nisso. Deixei aumentar o volume. — É a de abertura do
álbum novo. Mês que vem, vamos apresentar ao vivo.
— Qual o nome? — perguntei, não que eu fosse escutar ela mais
tarde.
— Coração de fogo — disse, e foi o bastante para me deixar quieta.
De novo, de volta ao fogo. Que bom que eles tinham lidado com isso
assim, mas... a melodia de repente começou a parecer mais
desesperada. Eu comecei a suar frio, ao ponto que, quando o carro parou
de se mover e Silas saiu, arquejei e uma gota de suor escorreu por quase
toda a extensão das minhas costas.
Saí de dentro do carro sem aceitar a educada mão de Silas, cujo me
deixou na porta do grande restaurante; de fora, eu podia ver uma parede
de pelo menos sete metros de altura toda preenchida por vinhos.
— Ele quer você sozinha, tudo bem? — Não.
— Tá, eu posso... posso entrar? Tô sentindo que vão me colocar para
fora. A atendente parece que vai me matar. — E, de fato, ela me
encarava com o rosto mais julgador que eu já tivesse visto, o olhar
subindo dos meus pés. Mas, porra, eu amava muito a bota de Lilian para
tentar esconder meus pés. Arqueei o peito.
Silas murmurou uma despedida que não retribui.
A atendente parou de me encarar e julgar quando os olhos recaíram
nas cicatrizes. Ah, sim, eu tinha um quarto do corpo queimado: cicatrizes
nas pernas e nos braços, que eram menos visíveis que as no rosto e
pescoço.
Dei meus primeiros passos para dentro, um guarda me barrando.
— Apenas com o número de reserva. — Largo e forte pra cacete. Eu
suspirei, tentando achar Kieran, até meu celular vibrar na minha mão.
Atendi, já imaginando quem seria.
— É na mesa um, o número de reserva é 3432.
Finalmente, fui liberta e pude entrar, mas a atendente, que agora
encarava minha cicatriz, mostrou o caminho. Seu olhar se tornou um
tijolo no meio da minha cara, e não melhorou quando nos aproximamos
da mesa e vi Kieran, sentado, de terno preto com um broche cor de rubi e
abotoadeiras fazendo um conjunto. Seus olhos cinzentos me fizeram
engolir.
— Sente-se — pediu. Obedeci.
— Pronto.
— Como você ficou? Parece que sua amiga, Tiana Duarte, tem sido
sua companhia faz muito tempo.
Semicerrei os olhos.
— Era melhor amiga de Lilian e... é minha melhor amiga. Por favor,
não... não envolva ela em nada disso.
— Não planejo. Eu só quero manter você segura conosco. Queria
perguntar se quer evitar os repórteres? Sabe que vão chegar até você em
breve.
— Embora pareça tentador, eu... quero que venham. Quero que me
conheçam. Você deve saber do motivo.
— Quer que achem sua história triste e que o público seja devoto a
você, por salvar a vida de muitos, salvar os filhos e irmãos e parentes de
muitos mais. Quer que fiquem do seu lado porque quer vingar sua família
e, se não for mais do que uma garota sobrevivente ao incêndio, sabe que
só vai falar e ser revidada.
— Dinheiro faz muitas coisas. Calar a mídia é uma delas.
— Eu estava me perguntando — começou — qual sua motivação.
— Você leu as notícias. O aniversário de 15 anos de Lilian e a morte
de Saulo Rollis. Meu pai, um policial que fazia justiça e foi destruído por
ela.
— Sim, mas... tenho hipóteses, algumas muito piores do que as
notícias dizem.
— Pode apostar, Kieran. É muito diferente do que as notícias fizeram
parecer. E, porra, se Lilian pudesse falar sem ser massacrada... ela
detonaria a carreira daquele irmãozinho de promotor; do resto inteiro da
família dele.
— Acho que você tem grande ambição e potencial pra isso. — Ele
suspirou, tomando um gole do champanhe frio na mesa; Kieran estendeu
a garrafa e serviu a segunda taça, mas não bebi. — Posso financiar a
investigação por completo. Pagar pelo acesso a certas coisas —
sussurrou. — Então?
— Eu aceitei — disse. — Mas não pense que, se começar com
gracinhas, não vou pular fora do seu barco.
— Nunca tive essa intenção.
— Ótimo. Uma experiência de quase morte me ensinou a não aturar
mais nenhuma tentativa de me deixar em silêncio.
Kieran pigarreou, chamando um garçom. Sua voz saiu o mais
educada possível quando ele pediu alguma coisa cara que eu nem sequer
ousaria pronunciar o nome. Eu pedi um bife bem passado do jeito mais
simples que pudessem fazer e um copo de água com gelo.
O cantor pareceu entretido com isso, porque estava sorrindo quando
me virei de volta. De repente, quis me encolher; eu tinha rapado as
laterais quase no zero e... minhas roupas...
— O que foi? — perguntei.
— Te achei bonita — respondeu, me fazendo soltar uma risada
nervosa. — É sério. Pensei que, talvez, não fosse ficar tão confiante
depois do incêndio, mas aí está você. Vai se encaixar muito bem na
banda, um dia. Com certeza os meninos vão gostar de você.
Por alguns segundos, eu não sabia se ele estava se referindo à cães,
crianças ou os próprios amigos.
— Sinceramente, eu gostaria que sim. Acho que uma banda não
funciona quando as pessoas se odeiam.
O silencio ficou até a comida chegar. Kieran tinha um jeito de comer
tão específico que eu não poderia descrever de outra forma que não
fosse um jeito rico. Eu me deixei aproveitar a comida porque ele tinha me
chamado até um lugar extravagante, o que, é claro, significava que ele ia
pagar sozinho. Os preços nem sequer ficavam no cardápio. Por isso, não
comi muito além do bife.
Quando acabamos, qualquer conversa interessante foi junto. Kieran
perguntou se eu desejava algo a mais, fosse de comida ou dele, e neguei.
Quando ele pediu a conta, foi cuidadoso em falar baixo e não abaixou o
papel para que eu visse o valor. Um cavalheiro, em termos mais arcaicos.
Eu me levantei sozinha.
Até achei um pouco irônico. Um restaurante tão fino recebendo
alguém da ralé como eu.
— Posso presumir que verei você amanhã?
— Sim, acho que pode. Vou adicionar seu número e aviso se alguma
coisa mudar meus planos — ele murmurou. — Aceita que eu te deixe em
casa? — Assenti. Eu não pretendia mesmo ir com meus próprios pés
calçando aquele par de botas.
Quando Kieran me guiou até a garagem do restaurante, o carro dele
me deu enjoo. Caro, como tudo que rodeava ele. A Ferrari vermelha típica
que todo mundo tinha visto pelo menos uma vez na vida; pintura
impecável e design suave, faróis arredondados. Eu estava prestes a
cuspir tudo o que eu tinha comido quando Kieran abriu a porta para mim.
Não que precisasse; eu poderia simplesmente ter pulado a porta, já que
não tinha teto.
Achei que fosse realmente cuspir no carro dele. Dinheiro em excesso
me dava ânsia e ansiedade.
Eu respirei fundo, tentando me colocar imóvel uma posição
confortável.
— Parece que tem alguma coisa te incomodando.
Eu me assustei um pouco com a voz dele.
— É só... bem, é falta de costume. — Ele ligou o carro. Embora o
barulho do motor funcionando fosse estranhamente satisfatório, não
mudou muito meu desconforto com a bufunfa em forma de carro. —
Inclusive, como sabe meu endereço?
— Eu sei até do seu passado.
— Sabe que parece um lunático?
Ele deu uma risada divertida, até amigável. A luz tocou toda a
superfície do carro quando saímos da garagem chique.
— Eu precisava saber a melhor forma te de abordar. E, embora eu
saiba o endereço da sua casa, nunca tive o interesse de aparecer lá do
nada e fazer o convite. — Ele aproveitou o sinal fechado para virar para
mim. — Silas ter te visto naquele dia foi realmente uma coincidência, e,
quando você reagiu, quando ele me disse que você estava entregando
sacolas de roupas para pessoas, eu pedi que falasse com você.
Ele suspirou.
— Admito, erro meu ter te assustado.
Soquei o ombro dele sem força, com uma expressão indignada.
— Eu nunca me assusto — respondi, mostrando meu bíceps. — Mas
sim, foi um pouco rude. Pelo menos... pelo menos alguma coisa boa veio.
Vou receber ajuda e lidar com todos os problemas que deixei sob o
tapete. Se estiver fazendo isso sinceramente, Kieran, eu o agradeço. Não
falo sobre, então... é um pouco estranho, mas é melhor do que nada.
Naquele instante, achei que uma amizade estivesse começando.
Teríamos morrido juntos e ali estávamos nós: num carro chique na
cidade, ele me oferecendo ajuda em troca de eu tocar um instrumento,
em acordo mais do que estranho.
Eu me virei para ele, soltando o mais próximo de um suspiro calmo
que poderia.
— Sei tocar violão — admiti. Kieran me olhou com surpresa. Enfiei os
dedos pelo cabelo e voltei a olhar para frente. — Meu pai e minha irmã
me ensinaram.
Senti a sombra de um sorriso surgir no meu rosto, vi um pequeno
pelo canto do olho no rosto dele, mas então, sua mão foi à marcha,
colocando ela no mais forte que poderia.
— Danem-se as multas — resmungou. — Tem uma avenida aqui
perto com pouco movimento. São dois quilômetros de comprimento. Em
quantos segundos acha que eu vou do início ao fim?
Eu parei, contemplando o que ele estava propondo. Velocidade,
vento até que eu não conseguisse manter os olhos abertos. Liberdade, de
alguma forma. Abri um sorriso.
— Dez segundos — apostei. Se ele estava disposto a pagar algumas
multas caso fosse visto, então por mim tudo bem. Kieran riu, luz
transpassando os olhos pretos, e balançou a cabeça.
Segundos depois, eu não podia despregar a coluna do banco por
conta do impulso. Soltei um grito de animação e segurei a lateral do
banco dele.
Foram sete segundos.
Minutos após, ainda tinha o coração disparado e um sorriso na cara,
mas estava na porta de casa. Eu saí, batendo a porta com todo o cuidado
possível. Tinha sido legal, ele tinha sido legal; eu tinha curtido e
esquecido meu desconforto por alguns minutos.
— Obrigada — falei, meio baixo. Tive certeza que ele fingiu não ter
escutado, e, honestamente, agradeci por isso também. — Até amanhã.
— Até.
Kieran me esperou entrar para sair da minha porta.
E naquele dia, tratei de conseguir uma comida decente por meio de
delivery. Pela noite, quando eu dormi, chorei um pouco. Senti falta das
meninas. Mas... Tiana diminuiu, mesmo que só um pouquinho, essa dor.
Capítulo Doze
O dia começou bem. Saí, comprei alguns pães, até mesmo ingredientes
para minha gororoba de janta favorita — uma mistura de extrato de
tomate, miojo, temperos e outras coisas mais. A moça do mercadinho
olhou minha cicatriz mais vezes do que deveria.
— Se você quiser perguntar — eu respirei fundo —, tudo bem.
— É de queimadura, né? Do incêndio da Rancor?
— É, sim. — Não precisei falar mais do que isso, embora tenha
sentido o olhar dela nas minhas costas.
Eu tinha saído de moletom e calça, evitando uma curiosidade mais
assídua, mas meu rosto não poderia ser escondido facilmente, nem com
uma máscara, a não ser que eu quisesse parecer o fantasma da ópera. E
eu não queria.
Quando voltei para casa, devorei os pães frescos com manteiga,
fazendo uma bagunça com os farelos, que limpei assim que acabei.
Sobrou uma xícara de achocolatado que eu tomei e um pão, cujo enchi de
mortadela e guardei em uma vasilha.
Meu telefone tocou, típico de Kieran; então ele avisou que chegaria
em meia hora. Fiz algumas coisas nesse tempo: tomei banho, arrumei o
cabelo, cuidei de escovar bem meus dentes e esvaziar a bexiga. Quando
acabei, tinha vestido uma calça de malha larga e uma camiseta branca.
Coloquei nas orelhas os brincos spike que Lilian me dera; ficaram lindos,
formando espinhos atrás das minhas orelhas.
Assim que fechei os brincos, ouvi minha campainha.
Me apressei para pegar um bolsa média e enfiar cabos de
carregador e os chaveiros de autodefesa de Lilian. Eu comprara tantos
desses para ela que minha irmã fizera uma coleção; ter uma coisa dela
na bolça me deixou estranha, mas reconfortada. Nem tudo tinha
acabado. Mas muita coisa estava para começar.
Peguei as chaves, o meu amado pão com mortadela e uma outra
jaqueta de couro — dessa vez marrom. As chaves do carro presas às de
casa não me deram arrepio, mas não... não quis pensar muito sobre. Eu
abri a primeira porta e fui ao portão. Kieran estava usando uma mão para
se escorar nele; com uma camiseta cinza e calças jeans.
As queimaduras dele estavam visíveis sob a roupa — nos braços
quase todos, nas mãos, na cintura, e, com certeza, tinham mais sob a
calça. Aquilo... me deixou tranquila. Nem mesmo o dinheiro segurava o
fogo; não que Kieran ferido fosse bom, mas, por conta do passado de
Lilian, dos fantasmas dela que eu ia enfrentar...
As pessoas que machucaram Lilian eram ricas também. Mas o
dinheiro delas não era capaz de aplacar o fogo, como o de Kieran não
também não era, e meu fogo queimaria como vingança.
Abri o portão, guardando a chave na bolsa.
— Quanto tempo acha que leva para acostumar seus dedos de volta
às cordas?
— Fiquei mais de um ano sem tocar violão. Acho que no mínimo uns
meses para esquentar os dedos. Depois, mais alguns para aprender a
tocar outra coisa; não perfeitamente, é claro.
— Tudo bem. Não vou apressar você.
Como se em resposta, senti um calafrio nos dedos.
Desta vez, entrar na Ferrari dele foi menos desconfortável. Não
fizemos uma corrida para receber multas, já que ontem tinha sido
adrenalina o suficiente. A presença dele não me incomodou.
Em breve, um prédio largo e alto surgiu. Vidro temperado mostrava
o jardim da frente e uma parte da garagem; vi uma ponta alaranjada e
imaginei que poderia ser o carro de Silas.
Céus, eu estava diante de um quase arranha-céu. Ia ver todos
aqueles rostos de novo. Me surpreendi, porque ainda lembrava do nome
de todos.
Kieran deu dois toques na campainha do 601. Contei os andares,
mas a varanda parecia neutra. Não ouvia música alguma, nenhum treino.
Engoli em seco. Se todos eles estavam ali, então...
— Philip está lá também. — Eu tinha roubado o carro dele. Alguns
cabos de som também. — Ele estava mais ansioso que eu para ver você,
mas, acredite, não quer brigar. Ele...
— Sabe que eu roubei o carro dele, né?
— Sim, mas ele comprou um novo. Não se preocupe com isso. Se ele
quisesse alguma coisa ruim para você, teria feito uma ocorrência.
Era verdade, mesmo. Eu jamais recebi nenhuma notificação sobre,
mas... se ele quisesse o valor do conserto e dos cabos, eu duvidava que
conseguiria pagar facilmente; eu iria arrumar um jeito eventualmente, é
claro, mas...
O ruído do portão abrindo me despertou do receio. Kieran entrou
distraidamente, acenando para mim. Eu segui ele o mais quieta que pude
pelo hall de entrada, o corredor com quatro elevadores; não havia
porteiro em lugar algum, mas não perguntei sobre isso.
— Você ainda se lembra deles?
Hesitei por um momento.
— Sim; você, Silas, Andreas, Nicolas e Philip. Lembro de todos. —
Soltei um suspiro e abaixei a cabeça. — Depois daquilo, era difícil
esquecer quem vocês eram — sussurrei.
Kieran não respondeu.
O elevador se abriu em um corredor amplo. Duas portas, uma em
cada extremidade, me davam a pista sobre o tamanho dos apartamentos.
O cantor foi na frente, a porta reconheceu a digital dele e escutei a trava
se abrindo. No momento que uma fresta escapou, uma música baixa,
contida, escapou. Parecia um baixo sendo tocado.
Ouvi outros homens o cumprimentando e então um deles surgiu na
porta. Silas me olhou cima a baixo e abriu um pequeno sorriso.
— Aí está você! — ele olhou para trás um momento e balançou a
mão. Alguém chiou. — É... cheiro de cigarro te incomoda muito?
Eu neguei.
— Entrem — ele disse, abrindo caminho. — Fica à vontade, Isabela.
Ouvir meu nome todo era estranho. Eu neguei com a cabeça,
abrindo um pequeno sorriso simpático, porque estava disposta a não
tornar nossa convivência uma inconveniência.
— Pode ser só Bela — respondi, dando meu primeiro passo para a
porta. — Lembro que me apresentei assim na primeira vez.
— Foi — ele concordou. — Entra, então, Bela.
Eu passei mais devagar do que gostaria. Por dentro, o apartamento
era bem mais escuro. A sala tinha sido pintada de preto e apenas a
parede onde ficava uma televisão era cinza clara, uma mesa quadrada
encostada no canto e um sofá largo e cinza perto da janela gigante. Duas
pessoas estavam no sofá, latas de refri do lado e no chão. Um lugar
amassado indicava que Silas deveria estar sentado ali.
Nicolas estava mais perto da janela, agora com mechas platinadas
no cabelo, a parte de trás da nuca com uma marca de queimadura que
descia pela blusa. Ele testava as cordas de um baixo tocando uma
musiquinha que eu não conhecia, mas era interessante.
Todos nós tínhamos cicatrizes nos braços à mostra por corrermos no
fogo, mas Andreas tinha os braços mais queimados do que eu. Sentava
na ponta mais longe da janela, um braço disposto no sofá — tinha
músculos, mas em algumas partes eles afundavam por terem sido
carbonizados
E Silas... agora eu podia ver a marca por conta da camiseta. O pulso
direito era bem mais fino do que deveria. O anelar da mão esquerda era
pela metade e ele não tinha as unhas naquela mão, e certamente
faltavam algumas na outra — a do mindinho e do anelar estavam
intactas. Eu sabia que tinha visto as unhas ali antes; provavelmente ele
colara elas. Não me foi estranho. Tiana também vinha tratando das mãos
em busca de recuperar o que elas eram antes, e colava postiças desde o
primeiro dia que foi autorizada pelo médico. Eu quase me esqueci de que
ela fazia isso.
Numa cadeira ao lado do sofá, Philip me olhava. A camisa dele era
de botão, o paletó estava pendurado atrás da cadeira. O único intacto
entre nós. O rosto dele tinha caído um pouco, parecia mais triste do que
eu me lembrava. Sabia a razão.
— Oi — eu falei, meio nervosa.
Nicolas parou de tocar. Tinha um pirulito na boca, mas falou mesmo
assim:
— E aí, Bela? — Encarei o baixo mais um pouco. Ele o colocou de
lado com um sorriso simpático. — É lindo, né?
— Sim, é sim — admiti. Era azul claro e creme, cordas prateadas e
envernizado.
Kieran ficou um passo atrás de mim, então ouvi quando ele soltou
um risinho.
— Esse apartamento é nosso estúdio — Kieran disse. — Temos um
quarto de instrumentos, que eu queria mostrar pra você. Vamos escolher
um que te deixe segura e começar com o básico; reconhecer acordes,
sons, associar letras e símbolos aos lugares certos que deve tocar.
Uma pergunta se formou dentro de mim e eu teria feito diretamente
para Kieran se estivéssemos sozinhos, mas, com todos da banda ali, seria
bem rude. Então eu fechei e abri minha mão algumas vezes, tentando
aliviar a vergonha. Todos ainda estavam me olhando.
— O que vocês... o que tocam?
Nicolas balançou a cabeça e foi o primeiro a responder.
— Oficialmente, fico na bateria.
— Eu toco guitarra e baixo — Silas afirmou, distraidamente fechando
a mão e erguendo o mindinho, o indicador e o polegar. Dei um pequeno
sorriso a ele.
— Eu toco teclado — Andreas disse, mexendo os dedos no ar e
mordendo o lábio inferior como se estivesse se concentrando. Soltei um
risinho.
Kieran, eu já sabia, tocava a própria voz. Talvez algum outro
instrumento, mas o principal ficava nas cordas vocais mesmo.
— Também toco guitarra, às vezes. Mas é isso, fico quase sempre só
com a voz. — Ele tocou no meu ombro por um momento e apontou
Andreas. — É ele que gerencia as coreografias do palco.
Eu olhei para Philip, ainda quieto, esperando alguma coisa.
— Sei tocar um pouco de piano, se quer saber, mas não, não toco no
palco. Eu prefiro muito mais a parte criativa e os contratos. — Ele pegou
uma lata e tomou um gole de guaraná. Isso meio que me despertou
lembranças. — Onde tocam, quando, figurino, essas coisas.
— Ah, bom — eu respondi, achando um tanto estranho falar com ele.
Não sei de onde eu tirei coragem, mas falei: — Me desculpe por ter
roubado seu carro e deixado você para trás.
Todos ficaram um pouquinho desconsertados.
— Nah, tudo bem. Sabe, você... fez muito bem em tentar salvar
meus amigos. Salvou muita gente, muita mesmo, ainda que no fim os
cabos tenham rompido.
Eu ainda queria falar mais. Perguntar mais e sobre o mecânico que
eu deixara de lado para salvar minha irmã. Eu sabia que ele estava
morto, mas... eu não sabia se tinham prendido a mulher que o matou.
Talvez Philip soubesse.
Kieran foi para frente, me chamando com a mão. Eu segui ele
segurando minhas próprias mãos. O corredor tinha uns três metros de
largura e portas a uma distância considerável uma da outra. Na segunda,
Kieran abriu um sorriso largo e segurou a maçaneta. Quando ele girou,
cheiro de coisa nova e lustrosa veio contra mim. Foi como abrir um portal
para um novo mundo.
Entrei devagar, pronta para recuar.
Numa parede, um conjunto de baixos ao lado de guitarras e violões.
Mais no alto, alguns instrumentos mais simples, como pratos, uns dois
triângulos e flautas cuidadosamente expostas, pelo menos três de cada
tipo; meus dedos coçaram para tocar a transversal. Na outra parede, dois
teclados, um branco e um preto, um instrumento curioso que eu não
sabia o nome estava na parede, forma semelhante à guitarra, mas com
teclas ao invés de cordas.
Na outra parede jaziam três baterias; uma mais comum, uma preta
elétrica e então a terceira, mais parecida com a primeira, mas bem mais
complexa; haviam tambores acima, pandeiros, e, inclusive, uma sanfona.
Alguns outros por ali que eu nem sabia nomear.
Mas foi o grande piano de cauda ébano brilhando que dominou o
lugar, posto bem no centro. Estava bem fechado, lustrosos como um
globo ocular ou até mesmo a boca de Tiana depois de passar gloss. Uma
expiração escapou de mim diante do sentimento de reverência. Uma
pequena placa dourada na lateral dele dizia algo em russo, eu sabia;
então aquele ali era de Philip.
— Meu Deus — eu soltei. — Aí meu Deus.
Kieran riu e fechou a porta.
— Só um desses instrumentos aqui custa meu coração, pulmões e
rins no mercado negro. — Ele continuou soltando risinhos.
Quando Kieran estendeu a mão, demorei um pouco para pegar, mas
aceitei. Ele me puxou primeiro para a parede mais perto, das baterias.
Olhei para a sanfona acima mais uma vez; ela parecia mais antiga.
— Era do tio que criou Nicolas — revelou, em tom baixo. — Um dia
ele vai te contar a história de vida dele, eu espero. Se contar, acho que
você vai gostar.
Mordi o lábio inferior de ansiedade. Eu gostaria sim de saber. Era
curiosa, até mesmo fofoqueira; compartilhava isso com Lilian e as amigas
dela. Se havia uma fofoca legal, eu automaticamente investigava junto
com ela. Até descobrimos alguns casos de traição; talvez isso fosse um
dos fatores que me inclinou a querer ser investigadora ou detetive.
— O que acha da bateria?
— É incrível — eu respondi.
— Mas?
— Não é meu tipo de instrumento. Não gosto de bater. Meus braços
cansam demais para isso também.
Kieran deu de ombros, esperando que eu apontasse caso algum
instrumento a mais ali me chamasse a atenção. Nada veio, embora o
pandeiro me parecesse realmente simpático, e eu provavelmente
arrumaria coragem de pedir para aprender a tocar ele algum dia, não me
trouxe aquela vontade ardente.
A parede seguinte certamente era uma referência a Andreas como a
anterior era uma a Nicolas. Os teclados me pareceram bem
interessantes, o preto tinha teclas levemente amareladas, marcadas com
letras do alfabeto e canetinha. Ele provavelmente costumava treinar com
ele.
— O teclado chamou sua atenção?
— Um pouco, sim — eu admiti. Por causa disso, Kieran levou minha
mão a uma das teclas. Apertei ela por reflexo, mas nenhum som saiu. Se
eu quisesse, poderia fazer sair.
Havia um banquinho por trás, mas não ousei me sentar.
Eu amava o som das teclas quando funcionavam. Podiam mudar,
mais doces, mais agudas, mais graves. Tantos sons, tantas possibilidades
e dificuldades. Minha mãe sabia tocar teclado. Ela queria muito que eu
aprendesse, já que Lilian já sabia tocar violão. Mas eu me neguei a isso.
Foi antes mesmo da morte do meu pai: eu queria tocar violão como ele,
como Lilian.
Achava que minha mãe tinha ficado muito triste na época, porque
ela vendeu o próprio teclado depois que fiz minha escolha. Mas aí, um
mês depois, ela me deu um violão novo em folha de presente de
aniversário. Lilian ficou com o do papai, mas eu fiquei com o produto do
teclado da minha mãe. Eu ainda o tinha, guardado na capa, no canto do
quarto. Eu voltaria a tocar ele e tocaria até mesmo o violão guardado do
meu pai, cujo Lilian acabara por abandonar depois da perda dele.
Virei o rosto para encará-lo, meus dedos ainda sendo levados pela
mão de Kieran e tocando as teclas insonoras.
— Minha mãe tocava. Eu aprenderei, um dia — respondi. — Mas se
você me deu a escolha... gosto das cordas, de puxá-las e entrelaçar meus
dedos nelas. Gosto de quando chicoteiam os dedos e vibram e perfuram a
audição.
Ele assentiu, cuidadosamente me puxando para a parede seguinte.
Haviam violinos também, inclusive um violoncelo intocado e impecável.
Eu mesma fiz questão de me aproximar com toda a cautela do mundo e
deslizar os dedos pelas cordas, sem forçá-las, claro.
Então, meus olhos foram puxados pela flauta transversal. Céus, eu
queria tocá-la. queria soprar e mover meus dedos e ver que tipo de
música eu poderia fazer sem nunca ter encostado em uma dessas; eu a
ouvira algumas vezes. Mas aquilo era sopro. Eu queria toque, queria
cordas.
O baixo estava logo do meu lado. Deslizei os dedos pela cabeça e
então entre as tarraxas, descendo uma unha pelas cordas e sentindo a
vibração. Aquilo produziu um som distante na minha cabeça, tão perto e
tão longe. Eu puxei as cordas apena um pouco, para ouvir a vibração
grave; ela tocou meu corpo como se tivesse mãos. Profundo, tocante,
difícil de manipular. O baixo era o tipo de instrumento que eu gostaria de
dormir ouvindo, acordar ouvindo. Tocá-lo... tocá-lo seria maravilhoso,
mas, então, minha mão foi sozinha para o lado.
Sem que eu percebesse, tinha avançado até as guitarras. Kieran
estava ao meu lado com uma mão na cintura.
Toquei a cabeça, as tarraxas, as escalas. Então, puxei a cordas. O
som reverberou por mim, atrás de mim. Ouvi uma música arder no
sangue de um jeito que tinha esquecido que era possível. O som agudo
foi mais alto do que um trovão dentro de mim, e deixei que se alojasse,
que me tomasse. Minha mão envolveu o braço da guitarra sozinha,
comigo ainda sentindo o som nos ossos. Se eu gostaria de dormir e
acordar com o baixo, eu amaria viver com a guitarra. Era o instrumento
que tocaria no meu velório, tão alto que me faria levantar do caixão para
dançar e tocar também.
Eu amava aquele som como nenhum outro, amava porque os
acordes mais agudos lembravam os gritos contentes de Lilian, porque os
mais graves eram como a voz dela quando cantava. Minha mão não
tocou no braço da guitarra, o possuiu. E deixei o instrumento me possuir
de volta.
Ali estava.
Um escolhido.
O escolhido.
Meu instrumento.
Quando me virei para Kieran, ele estava sério. Não de um jeito ruim,
mas... ele sabia como eu me sentia, como isso importava. Olhei a guitarra
preta e branca como se fosse uma velha companheira e depois me voltei
para o vocalista. Minha voz saiu nova, quase em submissão ao ritmo da
guitarra que ainda ecoava em mim:
— É isso que eu quero tocar. Que quero aprender. — Ele esperou
alguns segundos. Eu completei: — Quero tocar guitarra.
Não me importava se já tinham Silas. Eu gostava dele, mas seria
egoísta por essa guitarra. Eu jogaria o homem da janela se fosse o preço
de ser guitarrista.
Capítulo Treze
Kieran me colocou para sentar no sofá como seu fosse uma criança e me
deixei sentir assim. A guitarra que eu tocara com tanta familiaridade
estava nas mãos dele, e confesso, senti um pouco de ciúmes por ter ele
tocando no instrumento que havia escolhido; me contive, no entanto,
porque eu sabia que embora a guitarra fosse meu instrumento, aquela ali
já tinha um dono. A assinatura de Silas na lateral era a prova necessária.
Sentada entre Nicolas e Andreas, um calor de vergonha ficou no
centro do meu peito. Me foram entregues os acordes de algumas músicas
no papel; eram apenas trechos, refrões das músicas mais conhecidas,
num ritmo mais calmo.
A guitarra tinha seis cordas como o violão, mas antes de tocá-las, eu
precisava decorar um pouco dos acordes.
Percebi Silas me olhando pelo canto do olho com curiosidade. Eu não
consegui evitar, olhei de volta, mas ele não reagiu da forma que achei
que pudesse: abriu um sorriso e fez um joinha, me encorajando.
Encarei as músicas nas mãos, as folhas com letas diversas. Foi fácil
memorizar elas, recitar baixinhos os toques por segundo e murmurar
dentro da cabeça.
— Quer ajuda?
— Eu sei tocar violão, então até que consigo entender os números.
— O vacilo veio mesmo na quarta folha que bisbilhotei, porque os acordes
não tinham números e sim posições, de primeira, foi um pouco estranho.
Depois de meia hora, eu já tinha conseguido decifrar e entender
onde ficava o quê. Como a quarta música não tinha o nome escrito, eu só
consegui decifrá-lo quando cantarolei os acordes na mente. Perfect, do Ed
Sheeran.
Uma lata de refri foi balançada na minha frente, me tirando da
concentração. Eu olhei para cima e encontrei Philip me oferecendo ela.
Aceitei com um sorriso, coloquei os papeis em ordem e abri.
— Sua coluna não dói? — Nicolas perguntou, arqueando uma
sobrancelha. — Você tá na mesma posição curvada olhando essa notas
faz uma meia hora.
Eu abri um sorriso. Sim, eu sentia a dor e também medo de parecer
muito folgada. Andreas do meu lado pegou um prato no chão e me
ofereceu batata frita, cuja ainda estava morna.
— Pode relaxar aí — ele disse, me assistindo mastigar, beber e
engolir. Lentamente, eu escorei as costas no sofá. Soltei um grunhido de
satisfação. — Kieran, o que você falou pra ela? A menina parece que vai
entrar num buraco a qualquer momento.
— Eu não falei nada! — ele disse, sentado ao lado do encosto de
braço do sofá.
— Tá tudo tranquilo — eu respondi. — É só que, bem, não me levem
a mal... passei o último ano no hospital com minha amiga e agora eu
estou numa sala e... bem — gaguejei —, são todos homens. Vocês são
meio intimidadores, não vou negar.
— Nah, a gente entende — Philip disse, dando goladas no refri.
— Você é a primeira moça com que eu converso depois do ano
também — Andreas admitiu.
— O mesmo pra mim — Nicolas disse. Olhei entre os dois.
É, as coisas tinham mudado, e muito.
O resto todo da minha família morava em outro estado. Recebi umas
poucas mensagens de alguns tios e primos, mas não mais do que isso.
Não tinha mais minha mãe ou Lilian para conversar. Tiana tinha secado
todo o poço de autoconfiança dela e ido parar no fundo dele. Samantha e
Sarah tinham morrido também. Eu finalmente tinha me decidido, mas...
ainda não tinha buscado muito sobre como me vingar exatamente por
Lilian.
— Tudo ficou tão diferente, né? — perguntei, meio sem esperar
resposta. — As pessoas, os olhares...
— Sim — Kieran concordou, mas... pareceu diferente quando ficou
encarando o vazio profundamente, sequer piscava. Ele só... não reagia
mais.
— Perdão, foi culpa minha ter trago esse clima ruim.
— É mentira — Andreas respondeu. — As coisas ficaram assim
mesmo. Tudo aquilo foi... uma sombra que ficou com a gente. Faz
literalmente parte de quem somos agora, e não há volta — disse,
apontando os braços com o queixo. — Mas estamos melhorando e, sabe,
é seu primeiro dia aqui no estúdio, mas... é bom ter alguém como você
por aqui. Que salvou as pessoas. Passa uma sensação de segurança.
Balancei a cabeça.
— Obrigada.
Ele me estendeu mais batatinhas com um sorriso simples. Eu peguei
e fiquei comendo.
Alguns minutos depois, Silas, que tinha ficado em silêncio até então,
olhou entre nós e perguntou:
— Onde vamos almoçar?
Eles se entreolharam. Eu tinha achado que fosse aqui, tinha até
trago meu pãozinho com mortadela guardado na bolsa que ficou sobra a
mesa. Aí Kieran levantou e acabou com meus planos de comê-lo quando
falou:
— Bom, eu acho justo você escolher um lugar. Já avaliamos seu
gosto para instrumentos, agora quero saber do seu gosto para comida.
Céus. Eles ficaram me olhando e esperando tal como cães.
— Eu não sou muito de sair de casa. — E além disso, eu não tinha
nenhum dinheiro para pagar o almoço dos cinco ali.
— Pode escolher onde quiser — ele piscou para mim — que eu pago.
Aquilo foi até desconfortável, sinceramente, mas depois que aceitei
o que ele estava oferecendo, comecei a pensar.
Eu realmente não saía muito de casa, mas Lilian sim, e quase
sempre era eu quem ia buscá-la. Teve uma vez que ela foi almoçar com
as meninas em um restaurante que Tiana tinha escolhido; me esforcei
para lembrar o nome.
Eles ficaram conversando entre si, Kieran e Nicolas se levantaram
para guardar os instrumentos. Quando os dois voltaram, eu tinha
acabado de me lembrar do restaurante na esquina com um estilo mais
anos 80; discos de vinil na parede de tijolos, luzes penduradas e um
jardim pequeno na frente com uma placa.
Dona Canário, eu me lembrei. Era modesto, mas muito bonito.
— Até conheço um, mas... não é lá muito luxuoso.
— Fala aí — Andreas pediu, os olhos castanhos brilhando.
— Dona Canário — falei.
— Perfeito, eu já fui lá — Andreas disse, como uma criança feliz,
como se não tivesse pelo menos 19 anos. — Bora gente, eu tô com fome.
Então, nos levantamos.
Nicolas tinha uma motocicleta Yamaha alta e preta, cilindros de
corrida de segunda mão, mas disparou num piscar de olhos à só Deus
sabia quantas multas por hora.
Em seguida, nós disparamos pelas ruas com a Ferrari de Kieran.
Dentro do carro, eu fiquei no banco atrás do passageiro. Philip ficou à
minha frente e Silas e Andreas se sentaram atrás comigo. Às vezes, eu
podia ver Nicolas à frente de todos os carros; ele disparava e nos largava
atrás e provavelmente irritava muitos motoristas de carro no processo.
Quando chegamos ao restaurante, a placa no jardim da frente
desejava boas-vindas ao restaurante da Dona Canário. Nicolas já estava
do lado de dentro, tinha escolhido a mesa e feito o próprio prato.
A parte interna era exatamente como Lilian me contara e tinha um
cheiro de almoço irresistível e pouquíssimo gorduroso. Deixei a bolsa
sobre a mesa e me juntei aos outros para escolher a comida; enchi o
prato com o que eu conseguiria comer.
Ao nos sentarmos, Nicolas disse que já tinha pedido uma jarra de
suco de laranja. Eu comi tranquilamente enquanto escutava eles
conversando sobre um ritmo novo para alguma música e os próximos
palcos que queria frequentar, mas nada muito específico. Parei de ouvir
quando o assunto sobre jogos começou.
Andreas, do meu lado, me cutucou.
— Como se sentiu quando tocou a guitarra?
— Bem, eu... senti que fosse uma parte minha.
Segui a conversa perguntando sobre o instrumento estranho meio
teclado meio guitarra; Andreas me explicou orgulhosamente sobre o
keytar e eu devorei um prato de 40 reais enquanto isso.
— Ei — Kieran chamou, me fazendo virar o rosto. — Você tá livre
amanhã?
Demorei algum tempo para pensar.
— Não sei. Talvez eu tire o dia para ficar com Tiana.
— Hm. Tudo bem. Me avisa se puder te buscar.
Eu só assenti, voltando a devorar meu prato.
Os assuntos em comum só continuaram, mas não consegui me
segurar em pensar em Tiana. Em como ela estaria em casa, o que
planejava fazer. Se estava bem.
Eu visitaria ela pela manhã, mesmo que me tornasse uma amiga
grudenta.
Kieran me deixou em casa depois do almoço, embora tivesse
perguntado se eu não desejava ficar mais um pouco no estúdio. Eu disse
que não; falei que precisava da minha casa, de... estudar.
Se eu quisesse vingar Lilian, vingar meu pai... eu ia precisar de mais
do que financiamento. Conhecer a lei seria fundamental.
Eu precisava das brechas, das penalidades, e, só então, eu poderia
partir para cima daqueles que feriram minha família.
Capítulo Catorze
Minha casa tinha aquele ar cinza desde que eu havia voltado do hospital.
Era Lilian e minha mãe que traziam as cores e isso... elas não voltariam
para mim. Me permitir afundar no sofá, no lugar que Lilian sempre
sentava e assistir televisão; um de seus filmes favoritos horríveis.
No entanto, o filme fora bom.
Eu terminei com lágrimas nos olhos. Não por ser um filme romântico
nem assustador; mas porque eu ainda escutava Lilian gargalhando no
fundo. Sendo feliz.
Aquilo me fez feliz também. Aquela pequena luz se alojou dentro de
mim e eu permiti que esquentasse. Eu adormeci por quase meia hora
quando esse calor me tranquilizou.
Quando acordei, estava suando de novo.
Minhas pálpebras pregavam e eu arfava, sem entender o motivo.
Me abracei, olhando para a televisão — onde o filme já havia
acabado — e em seguida percebendo que meus braços ardiam. As
queimaduras nas laterais ferviam como no dia em que a boate pegou
fogo, e, quando deslizei os dedos ela pele queimada, a vontade de
vomitar veio.
Eu estava em casa.
Eu tinha sobrevivido.
Me ergui do sofá e corri até o banheiro, até cair de joelhos perto do
vaso e me arrastar enquanto mantinha tudo na garganta. Deixei aquilo
sair de mim, deixei o calor se afastar e isolei as lembranças do fogo, da
pele derretendo, do fedor de corpos carbonizados.
Com o estômago vazio, eu dei descarga, finalmente, e entrei para
tomar banho. O chuveiro frio me deu espasmos, mas me acostumei a ele.
Nada sobrou da temperatura febril e agradeci imensamente por isso.
Uma batida rápida soou pela casa, menos que um estampido
enquanto o chuveiro ainda estava ligado e eu terminava de enxaguar o
cabelo. Fechei a torneira e puxei a toalha, tapando meu corpo. Esperei
mais um pouco, para escutar as batidas pela segunda vez.
Eram rápidas, apressadas. Um murmúrio de voz afeminada do outro
lado me fez notar que eu não conhecia quem quer que fosse. No entanto,
eu saí rapidamente do banheiro e fui para o quarto; os estampidos
soando sem para e cada vez mais alto e fortes.
Tive dois minutos para pôr uma camiseta branca e um short jeans e
ir em direção à entrada. A voz passara de um murmúrio para um grito por
atenção. Eu abri a porta de uma vez, o que talvez fosse um erro.
Meus olhos foram dirigidos à van estacionada na frente de casa, a
marca da emissora ocupava parcialmente as janelas e isso me fez erguer
as sobrancelhas. Com a chave na mão, eu me aproximei pela grade, a
mulher enfiando o microfone e o braço todo pelo meio das hastes.
— Você é uma sobrevivente do incêndio da boate Rancor?
Eu assenti, hesitando.
— Pode se apresentar? Como foi lá? Como o governo tratou de
vocês?
— Meu nome é Isabela Rollis — eu falei, recuando do microfone.
Eu disse a Kieran que gostaria de deixar os repórteres virem até
mim, mas não sabia que eles seriam tão rápidos e furiosos sobre isso.
— Rollis, conte sobre a noite do incêndio, como eram as condições
do local?
— Eu... eu não entrei, quero dizer, eu não participei da festa.
— Então como se tornou uma vítima?
— Fui levar minha irmã e as amigas dela, então no meio da noite,
uma das amigas me ligou e disse que a boate estava pegando fogo. Eu
escutei elas gritando pelo telefone e não parecia uma brincadeira, então
peguei o carro de um amigo e fui em direção à boate — falei, com
esperança de que Philip não se importasse com minha afirmação. —
Outros amigos dele estavam tocando lá nesse dia, então ele tinha uns
cabos de som no porta-malas.
— Continue — ela mandou.
— Improvisei uma corda — sussurrei. De repente, ficou vívido
demais dentro da minha cabeça.
— Continue, Rollis.
— Subi a construção e quebrei uma claraboia. Deixei a corda lá,
mandei umas pessoas subirem.
— Como era o lado de dentro?
Hesitei, me afastando alguns passos. A mulher avançou em mim,
puxando meu pulso para a grade. Quase bati o rosto contra o dela. Minha
pressão oscilou.
— Por favor, pare...
— É ao vivo, Rollis, por favor, conte para a gente como foi lá.
— Era quente, era um incêndio, tinham pessoas mortas e pessoas
morrendo e eu podia ouvir elas gritando. Minha irmã não estava na
entrada, então eu... eu avancei e entrei no fogo.
— Como é sua irmã, Rollis?
— Ela se chamava Lilian.
Chamava.
Os olhos da repórter brilhavam como se tivesse encontrado ouro. A
odiei por isso.
— Passei pela área de show, encontrei a banda lá e eles me
ajudaram a mandar mais gente sair. Depois atravessei um corredor em
chamas, e achei que fosse morrer queimando nele, mas o vocalista da
banta trombou em mim e me mandou pra a porta do banheiro que eu não
tinha visto. Teria morrido sem isso, então eu... agradeço a ele.
— E aí?
— Encontrei uma das amigas da minha irmã, um pessoal que tinha
molhado as roupas nos vasos e nas torneiras para se esquivar do fogo,
mas a água tinha acabado, então eles... ficaram presos. — Eu respirei
fundo, sentindo a garganta queimar, os olhos também. — Minha irmã
tava na sala de jogos. Foi onde as caixas de som estouraram primeiro.
A câmera do lado da minha cabeça, gravando meu rosto retorcido
de cicatrizes e chamas, me fez virar a cara para limpar as lágrimas
acumuladas. Não consegui encarar a repórter de novo.
Em algum momento, achei que seria preciso atuar para ganhar a
fama de menina sofrida e um certo apoio quando fosse o dia de vingar
meu pai e Lilian. Mas eu não estava fazendo isso e certamente não
conseguiria.
— Ela era menor que eu, mais robusta, mais morena. Cabelo loiro,
longo, um sorriso tão aberto que as pessoas ao redor dela sorriam junto,
sempre. Ela era a alegria daqui de casa, mesmo depois de todas as coisas
horríveis que ela passou, Lilian olhava para frente. Nosso pai morreu e
ficamos sozinhas com nossa mãe. Ela via o futuro com bons olhos mesmo
quando eu não conseguia. — Minhas pernas fraquejaram e caí de joelhos
diante das grades, lamentando silenciosamente. A repórter se abaixou
junto, e claro, o microfone gravava meus ruídos enquanto eu chorava.
— Sinto muito, mas pode falar mais.
Falar mais. Sempre, falar mais.
Eu precisava, por Lilian.
— Naquele dia, quando eu cheguei à sala de jogos, encontrei o corpo
carbonizado dela abraçado ao de sua melhor amiga. Lilian morreu sem
poder receber aquilo que mais merecia.
— Conte mais sobre o incidente.
— Lilian morreu e eu achei que fosse morrer também, então... eu
voltei para o banheiro. Caí dentro dele e nem sequer conseguia me
mover mais, por conta da dor e do choque. Minha irmã... morreu
queimando naquela noite — eu murmurei, fungando. — Morreu porque eu
não cheguei alguns minutos mais cedo.
A repórter balançou o microfone em minha direção.
— A banda tinha decidido ficar e quiseram me ajudar. Nunca vou
esquecer disso, deles correndo pelo fogo comigo no colo porque eu
estava imobilizada. Ficamos na área de shows onde o fogo era mais leve
e... tudo apagou.
— Como está sendo, depois disso?
— Quando acordei, descobri que minha mãe tinha se matado porque
achou que eu ia morrer no hospital também. Agora eu estou sozinha e
não há ninguém em casa esperando por mim... eu só... sobrei.
— Entendi, mas como está sendo a adaptação?
— Eu, bem...
Adaptação.
Hm.
— Nós vamos ter as marcas para sempre, as pessoas nos olham,
julgam as marcas e é tudo o que restou para pessoas como eu.
— Então as vítimas estão sofrendo preconceito? Você sofre?
— A mídia tem assediado os sobreviventes desde que o primeiro
saiu do hospital.
A repórter hesitou um segundo, a mão com o microfone oscilou, até
que ela avançou mais, e achei que fosse quebrar minha grade usando o
ombro.
— Fale mais sobre o incêndio e as consequências.
De repente, meu sangue ferveu.
— Eu já falei tudo que você queria, tudo que poderia saber! — Ela
arqueou as sobrancelhas. — Vá embora, eu não quero mais responder
suas perguntas.
— Rollis, por favor, é importante...
— Você quer que eu repita? — questionei, sem esperar resposta. As
lágrimas de repente se acumularam de novo. — Minha irmã queimou viva
por minha culpa, porque eu não salvei ela! Eu queimei viva! Pessoas,
seres humanos, queimaram comigo!
— Entendemos sua dor...
— Você não entende essa dor — eu rebati, mostrando os dentes.
Meu coração batia rápido demais e minha respiração ficou
incontrolável. Eu já havia dito a eles o suficiente, mais do que isso. Nada
impedia a repórter de balançar microfone e implorar por mais respostas.
Um som conhecido soou, mas não consegui olhar para outra coisa
que não o chão, enquanto eu chorava sem parar, com a mão sobre o
peito, minhas unhas roídas cortando sobre o meu coração, como se eu
pudesse tirá-lo e apagar aquele fogo que ainda me machucava, depois de
praticamente um ano.
— Ei, senhor! — a repórter disse, se afastando de mim. — Você
também é uma vítima do incêndio?
Aquilo foi capaz de me fazer erguer o rosto. E, quando consegui
enxergar através das lágrimas, percebi a silhueta malhada e alta, com
marcas de queimadura. Como a minha. Tentei falar algo para ele, mas só
saíram soluços e um gaguejar engasgado pateticamente.
Kieran empurrou a repórter para o lado com a mão, afastando ela e
o microfone de mim. A mulher soltou protestos e ameaças de denúncia,
mas o homem com a câmera fez questão de gravar isso.
Eles ainda estavam filmando com fome nos olhos quando Kieran se
ajoelhou em minha frente, as mãos segurando as grades, sem ousarem
me tocar.
— Bela — ele chamou, calmo. Olhei nos olhos dele só por alguns
segundos, a negritude ameaçando me engolir. — Respira fundo.
— Você está atrapalhando o trabalho da repórter, amigo — o
cameraman falou.
— Kieran, por favor — eu pedi.
Os ombros dele estremeceram. Sua cabeça lentamente se virou
para o lado, para a mulher, cujo semblante mudou com a oportunidade
que ela viu. Outro sobrevivente, alguém como eu, como Raphael de
Andrade.
— Você pode confirmar a história dela, senhor... Kieran? — ela
murmurou, provavelmente tinha me ouvido falar.
— Posso confirmar que serão processados por assédio moral se
continuarem aqui — ele disse. Eu funguei. — Não estão vendo que ela
precisa de ajuda?
— Nós só... viemos fazer nosso trabalho como jornalistas e
repórteres.
— Pois fique sabendo que você é péssima no que faz — ele retrucou.
— Só vou falar mais uma vez, vou processar vocês se não forem embora
daqui, agora.
Ela se afastou um pouco, mas continuou ali, com o microfone.
Porque, com os pés na rua pública, poderia irritar Kieran à vontade. E eu
tinha aceitado a entrevista no momento que saí de casa.
— O que, caralhos, é isso? — outra voz soou. Tão firme e familiar
que meu pescoço se virou para a direita sem comando algum. Ali estava
ela, com um moletom e capuz e calças largas. Tiana tinha indignação
clara no rosto.
— Temos aqui nesta rua três sobreviventes do incêndio — a repórter
se virou para a câmera.
Tiana não perdeu tempo. Ela puxou chaves do bolso do moletom,
cujas reconheci. Tinha a chave da minha casa, Lilian lhe dera anos antes
— eu tinha devolvido ela junto com a roupas. Ela se aproximou de mim
com cautela, acenando para que eu respirasse. Deveria ter visto na
televisão e vindo imediatamente até mim. No entanto, quando começou a
enfiar a chave no portão, olhando para Kieran com indignação, ela
respirou fundo e jogou a chave para ele.
Quando Tiana se virou no rumo da repórter e vi seus ombros se
arretarem e o queixo subir, percebi que ela faria um dos maiores
sacrifícios que poderia, por mim.
Kieran se levantou em segundos e destrancou minha porta,
fechando em seguida e me puxando pelos ombros com cuidado.
— Vai ficar tudo bem — ele murmurou. Neguei freneticamente com a
cabeça.
— Tiana! — eu gritei. — Tiana, não precisa!
Ela olhou para trás e sorriu. Sorriu como se nunca tivesse temido o
próprio rosto cheio de cicatrizes.
Me esperneei contra Kieran, tentando alcançá-la quando aquela
mulher brilhante tirou o moletom e puxou os zíperes nas coxas da calça
— transformando tudo em um short — e largou aquilo no chão,
mostrando as pernas, os braços e o rosto, todos inundados de marcas.
— Meu nome é Tiana Duarte, e fui a vítima que sobreviveu na sala
de jogos. A única. Tive 70% do corpo queimado e... — não escutei ela
terminar de falar. Só consegui ver o sorriso inevitável no rosto da repórter
quando Tiana deixou ela se aproximar. Então, Kieran abriu a porta da
minha casa e me enfiou para dentro.
Caí de joelhos diante dele enquanto suas costas pressionavam a
porta com tudo, fazendo um estrondo absurdamente alto. A maçaneta se
soltou e caiu com um estampido. Ele se abaixou para pegar com cuidado,
mas com ela em mãos, apenas se sentou no chão diante de mim, em
silêncio.
— Ela não pode ficar lá — eu falei, tentando puxar a maçaneta. —
Tiana não pode...
— Ela quis assim.
— Ela não...
Ele colou as mãos em meu rosto, segurando minha cabeça com uma
firmeza impressionante.
— Presta atenção, Bela, ela fez isso por você, então nem pense em
voltar lá e colocar tudo que ela mostrou de lado.
Engoli em seco, me afastando dele e balançando a cabeça. Era
minha culpa, tudo isso. Eu escolhi deixar os repórteres virem, escolhi
respondê-los, e, depois, não consegui me segurar. Também, era minha
culpa Tiana estar daquele jeito, machucada por dentro e por fora; se eu
tivesse procurado por ela, talvez a tivesse salvado naquele dia, evitado
que ela tivesse medo de si mesma, agora, ali estava ela, do outro lado da
porta fechada, na calçada, aparecendo diante das câmeras por mim.
Ela deveria me odiar, mas... não parecia que sim.
— Se ofenderem ela, Kieran... — Ele pressionou os lábios em uma
linha. Aquele calor ardente que me fazia suar subiu de novo. — Vou
matar eles.
— Precisa se segurar, Bela — ele disse, deixando a maçaneta de
lado. Foi um teste pesado ter que me segurar para não a pegar, encaixar
no lugar e sair correndo. — Depois do incêndio, as coisas ficaram
diferentes, com quase todos. Com Tiana... não deve ser diferente. Mas ela
é forte e precisa aprender a lidar com isso. Assim como você.
— Prometi que protegeria ela — murmurei, lágrimas pendendo dos
meus olhos. — É ela que está fazendo isso. Não quero continuar sendo a
decepção quieta da família, a decepção do meu pai, da minha irmã,
minha mãe...
Ele colocou as mãos ao redor dos meus ombros. Os dedos hesitaram
um momento quando sentiram meu calor.
— Você nunca foi decepção, aposto nisso — ele respondeu. — Sei
que levou tempo pra decidir, Isabela, mas você fez a escolha certa sobre
sua irmã, sobre o que fizeram com ela. Estou aqui pra te ajudar e isso
inclui dizer que... seu pai, Lilian e nem sua mãe se decepcionaram com
você.
— Você não entende, não tem como entender — eu respondi,
negando com a cabeça. — Eu mal conheço você.
— No entanto, segurei sua mão quando pensamos que fossemos
morrer — ele falou. — Prometi te ajudar, prometi te ensinar a tocar o
instrumento que quisesse, e eu espero conhecer você durante isso,
Isabela.
— Não vai ser simples. Nem pra você, não importa o poder
econômico que tenha, as pessoas que vou enfrentar são perigosas.
— Eu posso garantir, Bela, que qualquer um entre você e meus
amigos são mais perigosos do que as pessoas que quer enfrentar.
— Eu? — Soltei um riso amargo. — Sou de uma camada social muito
baixa se comparada à sua, Kieran. Eu não sou nada.
— Juro que é alguma coisa, Isabela. — Ele respirou fundo, as olhos
negros fixos em mim, o cabelo bagunçado como uma pista de que tinha
saído com pressa de onde estava. A camisa social estava amassada. —
Por isso quero te ajudar, te manter perto é crucial, pra que eu descubra o
que você é.
— Você fala como se soubesse de coisas que eu não sei. Como se
depois do incêndio tivéssemos nos tornado criaturas.
— No dia que te liguei pela primeira vez...
— Não. Nós combinamos, não foi nada. Nada aconteceu. Estávamos
loucos. A fumaça desorganizou nossas memórias...
— Houve alguma coisa, sim, Isabela — ele afirmou, as mãos firmes
ao redor dos meus ombros.
— Por favor, não começa com isso. São coisas demais e eu não
quero saber. Eu tô tão cheia de tudo...
— Não vou te forçar a saber de nada, Bela. Vai se tudo no seu
tempo. Quando quiser saber aquilo que eu sei, quando sentir que está
pronta, eu vou contar. — Cautelosamente, ele soltou meus ombros e
segurou a maçaneta, se erguendo e pondo ela de volta no lugar. — Por
agora, vamos apenas aprender a tocar sua guitarra. Treinar uma pouco
da sua voz e... quem abe ajudar sua saúde mental no processo.
Eu ia falar mais alguma coisa, até que ele abriu a porta. Tiana estava
a cinco passos da entrada, e, quando ela entrou, olhou Kieran pelo canto
do olho antes de se abaixar e ficar de frente para mim.
Tiana parecia destemida agora, com a regata e o short, sem
moletom e calças. Uma sombra de sorriso percorreu seu rosto quando ela
limpou as lágrimas no meu rosto com delicadeza impressionante, seus
dedos marcados roçando minha bochecha com carinho. Ela puxou minha
testa, deixando minha cabeça em seu peito.
— Me desculpe — eu pedi.
— Eu tinha tomado essa decisão faz um tempinho — ela disse,
acariciando meu cabelo. — Ainda posso ser rosto de campanha, como
você disse. Pelas pessoas como nós.
— Fui eu que deixei você lá, naquele dia. Eu não te procurei, isso
tudo é culpa minha.
— Nunca foi, Bela. Eu nunca culpei você por isso. — Ela me afastou
ligeiramente, olhando nos meus olhos como se Kieran não existisse. —
Você viu elas mortas e pensou que eu também estivesse, e... eu teria
pensado a mesma coisa. Nós vivíamos grudadas, então... a única coisa
que tem me machucado, Bela, é ver você ser corroída pela perda de
Lilian e não me contar sobre, nem quando eu despejo meu medo sobre
você.
— Porque eu sinto que foi culpa minha.
Porque o carro tinha travado. Porque ela estava lá, e eu não vi.
— É como quando você diz que eu sou bonita. Eu acho que não,
então você faz de tudo para me mostrar que sou. Como eu posso mostrar
a você que não a culpo?
Eu solucei, abraçando ela ainda mais forte.
E todo aquele calor que me feria de dentro para fora... saiu.
Adormeceu nos braços de Tiana. A única pessoa que eu realmente tinha
comigo depois do incidente.
— E agora... que se expôs, você...
— Tudo bem. — Ela beijou minha bochecha queimada e sorriu para
mim. — Eu disse a repórter que nós estamos desenvolvendo um projeto
de acolhimento para as pessoas vítimas do incêndio e que em breve esse
projeto vai entrar em vigor e nós vamos abrir uma instituição
oficialmente.
Eu me afastei dela subitamente.
Kieran ainda estava no canto do sofá, em silêncio. Os olhos
observavam com surpresa e atenção.
— Nós?
— Eu e você — ela respondeu, sorrindo mais timidamente. — Nós
somos só o começo. E, também, eu... falei que você era líder do projeto.
— O quê?
— Você disse que ia vingar Lilian, mas que não ia me contar, e que
talvez fosse causar um escândalo. Precisa de visibilidade pra isso, não é?
Kieran limpou a garganta.
— É uma boa jogada. Melhor do que ficar dando reportagens, você
vai fazer algo ainda maior do que isso. As pessoas vão te reconhecer e
você não vai precisar expor tanto de si mesma.
— Mas nós... — eu olhei entre ela e Kieran, me perguntando se
incluiria ele. Talvez sim. — Como nós vamos fazer isso? A ideia é sua e eu
nunca me envolvi com nada assim antes.
— Posso conversar com os meninos — Kieran disse. — Podemos
organizar um evento adjacente ao show do mês que vem. Algo de
arrecadação e propaganda do projeto. Preciso falar com eles antes, mas
se aceitarem, podemos entrar como sócios e rosto de campanha
também.
— Eu... não sei se posso fazer isso. Não posso aceitar a posição de
líder e deixar tudo sobre vocês, e nunca liderei projeto nenhum, nem na
escola e olha... era bem diferente na época.
Tiana me estendeu as mãos e me ajudou a, finalmente, ficar de pé.
— Você vai tratar da representação e da parte mais técnica comigo.
Discursos, a escolha de uma sede, os slogans se for uma campanha
realmente séria. Vai aparecer em público bem mais do que nós e a mídia
vai ficar louca por reportagens inéditas, que você pode negar sem
preocupação alguma. Posso... acho que consigo fazer isso mais algumas
vezes — ela disse.
— Vocês dois tem absoluta certeza disso? — eu questionei.
— Eu tenho — Tiana respondeu.
— Posso auxiliar na parte financeira e arrumar patrocinadores
independentemente de a banda aceitar fazer propaganda ou não.
Eu engoli em seco.
— Acho que ainda vou precisar de um tempo. Isso é muito novo,
tudo isso.
— Tudo bem, só... me avise quando quiser falar sobre isso.
Tiana deu tapinhas fracos no meu ombro, me chamando a atenção.
Quando a olhei, tinha o cenho franzido e o rosto sério.
— Precisa decidir agora, Bela. Essas campanhas demoram para
serem organizadas, principalmente quando devem ser bem feitas.
Eu travei, ficando tensa. Olhei dela para Kieran e então de volta a
Tiana. Os dois estavam impassíveis, concordando entre si.
Quando a pressão caiu sobre mim, meus ombros se encolheram
como se eu fosse um animal fraco. E, embora conhecesse pouco de
Kieran, eu conhecia Tiana haviam anos. Era meio controverso que Kieran
tivesse noção do que acontecera com Lilian, mas Tiana não. No entanto,
ambos queriam me ajudar.
Eu falei, entredentes:
— Tudo bem, vamos fazer isso.
Outro daqueles sorrisos largos e iluminados se formou nos lábios de
Tiana. Ela segurou minha mão, deixando um beijo carinhoso.
— Quando vai falar com sua banda?
— Posso falar com eles hoje e passar seu número para Philip, se
tudo funcionar, ele marcará um dia para conversarem sobre isso. Você e
Tiana devem ir como as representantes do projeto.
— Eu não tenho uma preferência de horário — ela declarou.
— Eu prefiro que não seja de manhã.
Kieran assentiu.
— Vamos começar a preparar o slogan e as propostas. E abrir uma
eletiva de cargos em breve — ela deu um sorriso político, como a
diplomata que sempre foi. — Você pode se considerar nosso sócio por
unanimidade.
— Entendido — ele acenou, politicamente.
Tiana passou o braço ao redor do meu pescoço. Vê-la parecendo
feliz suavizou meu coração, mesmo no meio daquela bagunça.
— Você tá melhor? — Eu assenti em resposta. Ele limpou a garganta
e se aproximou da porta. Lançou um olhar estranho a Tiana, ao braço
dela ao meu redor, e então me olhou de novo. — Eu vou embora, então;
até mais.
Eu assenti, abrindo um sorriso pequeno e amarelo. Ele saiu
enquanto eu seguia atrás para abrir o portão. Ele já estava na calçada,
perto da Ferrari, quando eu limpei a garganta e chamei sua atenção por
mais um momento.
— Obrigada. Por me ajudar.
— Não tem de quê — ele respondeu. — Fique bem, Bela.
Eu não falei mais nada e ele foi embora, acelerando o carro com
aquele barulho fugaz. Tiana, do meu lado, revirou os olhos.
— Não sei se gosto dele.
— Eu também não — respondi. — Mas... não posso dizer que não
gosto dele, também.
Ela deu um puxão sutil.
— Dorme na minha casa, hoje? — perguntou. — Pra me fazer
companhia e a gente poder organizar esse projeto.
Eu demorei um segundo, mas assenti.
Não demorou para juntar uma sacola de roupas limpas, e, quando
saí do quarto, Tiana tinha ficado no limiar do corredor, olhando para a
entrada do quarto de Lilian. Eu reparei nisso e fiquei em silêncio, mas me
posicionei do lado dela e segurei sua mão direita; ela apertou de volta,
finalmente me olhando nos olhos.
Nós duas sentíamos a falta constante delas; das meninas, da minha
mãe.
Beijei a mão de Tiana como ela fizera com a minha e guiei ela para
fora de casa. Quando entramos em seu carro, o clima não ficou menos
pesado, e fizemos silêncio até chegar na casa dela e nos depararmos com
uma Claudia alegre me chamando para entrar e preparando um café da
tarde abundante.
Capítulo Quinze
Tiana ainda precisava tomar uma série de medicamentos
analgésicos — menos fortes, mas ainda assim — necessários para facilitar
o tratamento intenso de reabilitação dela.
Quanto a campanha, fora incrível da parte dela querer participar
disso e me incluir, embora eu ainda precisasse aprender a gerenciar as
coisas. Ela também tinha um novo assunto sobre o qual aprender, já que
um incêndio era diferente das pautas sociais as quais era envolvida antes
de... tudo.
Naquele instante, Tiana colocava o último medicamento na boca, me
olhando de canto. Ela se aproximou, se escorando na cama alta e ficando
de frente para mim — na poltrona rosa nude.
Ela lentamente ergueu a mão, meio hesitante, estendendo uma
pomada para mim. Eu já sabia o que ela precisava, mas deixei que
falasse, sem avançar antes de receber um pedido claro.
— Preciso passar nas costas. — Eu assenti lentamente, puxando a
pomada de seus dedos.
Me levantei da poltrona enquanto ela se virou, retirando a regata
branca. Tinhas as costas completamente nuas, expondo a mim todo tipo
de cicatriz. De alguma forma, eu sabia que elas estariam ali, mas ainda
me surpreendeu. Era a primeira vez que ela me deixava ver a maior parte
de seu corpo.
Suas costas eram cheias dos sinais de queimadura, partes
afundadas e elevadas, e outras retas, por conta dos enxertos de pele.
Ainda haviam as marcas dos pontos, e a pele era áspera ao toque, mas
não hesitei, embora ela tenha se movido por um instante, meio
desconfortável. Entendi o que ela sentia, e, enquanto passava a pomada,
ela resolveu quebrar o silêncio.
— Depois do incêndio, não sou mais tão flexível. Não consigo
alcançar minhas costas — disse.
Tristeza manchou minha expressão.
Tiana amava dançar, e fazia isso muito bem, mas depois do
incêndio... nervos chegaram a ser queimados. Eu ainda sentia pontadas
de dor, que talvez nunca cessassem, e com ela, era pior.
— Você pode voltar a treinar?
Ela suspirou, girando um dos ombros quando terminei de passar
pomada por ele.
— Claro, mas... não sei se conseguiria dançar de novo, me
apresentar, quero dizer.
Foi minha vez de suspirar. Então, eu dei a ela o que achei que
poderia encorajá-la um pouco.
— Sei o quanto gosta disso — falei. — Mas, sabe, você poderia se
apresentar para mim.
Ela me olhou sobre o ombro, surpresa.
— Eu danço — ela disse. — Se você tocar.
Arqueei as sobrancelhas. O outro ombro dela girou e suas costas
voltaram a ficar eretas. Ela puxou um sutiã do criado ao lado da cama,
semelhante ao tom de sua pele — branco, meio bronzeado — e o colocou
com cuidado, pedindo que eu fechasse a parte de trás para ela. Eu o fiz.
Ela ficou sem a regata, para evitar a viscosidade da pomada.
— Prefere violão ou guitarra? — sugeri, com um sorriso.
— Guitarra? — ela ergueu as sobrancelhas. — Você sabe tocar
guitarra?
— Kieran quer que eu me envolva com a banda dele e... por isso
quer que eu aprenda um instrumento. Eu escolhi a guitarra.
— Quero que toque pra mim, por favor — Ela pediu, com um sorriso.
Eu assenti, mas o silêncio quieto que ficou foi... leve. Diferente do
carro, agora nós tínhamos falado como nos velhos tempos.
Tiana desencostou da cama e apontou a porta com o polegar.
— Vamos? Precisamos resolver essa coisa do projeto.
— Você nomeou? — eu perguntei, enquanto a seguia para fora do
quarto.
— Me diz você, líder.
Um riso seco escapou de mim. Líder. Eu não liderava nada e essa
era a primeira vez que assumia a frente de algo. E era uma coisa grande
e importante, que Tiana estava confiando a mim.
Descemos as escadas, os degraus de vidro me arrancando um frio
na barriga, apesar de que haviam anos que eu subia e descia essa
escada.
— Eu apreciaria algumas sugestões, Ti. — Mas ela deu de ombros.
Porque eu era a líder, então precisava ser a primeira e única a nomear o
projeto.
Respirei fundo, pensando em nomes. Pensando sobre o que nós
queríamos com isso, porque a visibilidade não era a única coisa
importante no projeto. Pessoas se envolveriam nisso e, como líder eu
precisava assumir a responsabilidade de tratar bem essas pessoas.
Tiana me guiava pelo corredor sob a escada até que abriu uma das
portas mais ao fundo; eu ainda tinha o cenho franzido de concentração. O
cômodo tinha cheiro de coisas limpas, mas guardadas.
Estava exatamente como da última vez que nos reunimos aqui.
Bandeiras de causas presas ao teto; um quadro de fotos dela, de
nós, todas nós e um quadro com planejamentos para o ano passado.
Assisti conforme Tiana suspirou e caminhou para o lado direito da sala,
onde ficava uma mesa redonda, com uma camada de vidro sobre fotos,
sobre leis, sobre as coisas conquistadas ao longo de séculos de lutas
ativistas.
— Tem que ser um nome que remeta acolhimento, mas nada muito
explícito — eu falei, me sentando de frente para ela, embora meu rosto
mirasse uma foto de nós quatro; ela, Lilian, Samantha e eu, abraçadas
durante uma parada. Eram bons tempos. Um suspiro melancólico saiu de
mim e finalmente voltei a encarar Tiana.
— O que mais?
— Não quero nada que remeta diretamente ao incêndio. Nada de
Família, Sobreviventes da Rancor e nem... Projeto Fênix.
— Só pensou nesses três?
— Bom, agora sim. Mas pensei muito mais no que eu não quero do
que no que se encaixa com as pessoas como nós. Queria um nome que
mostrasse união, mas não algo que não tivéssemos escolha; não
escolhemos família, nem ser sobreviventes.
— Acho que você está bem decidida — ela disse, forçando um
pequeno sorriso, que me pareceu doloroso.
Entendi como ela se sentia. Como eu, olhando o quadro de
memórias, olhando as almofadas no lado esquerdo do quarto, onde eu
deitava com as meninas a passávamos horas comentando sobre fofocas e
injustiças. Meio que foi aquilo que me motivou a querer fazer faculdade
de direito — e houvera uma época em que eu abominara ele.
Aquelas meninas eram parte da minha família também, e apenas
uma havia sobrado. Ela estava na minha frente, ferida por dentro e por
fora, acuada como um pássaro ferido. Tiana era... mais do que apenas
família. Talvez fosse um traço negativo, mas eu não via ela como uma
irmã, como Lilian. Tiana era um legado. Uma lembrança viva. Por isso eu
queria tanto protegê-la.
— Acho que posso ter pensado em algo — falei. — Mas pode ser um
pouquinho antiquado.
— Fala aí — ela pediu, acenando com o queixo.
— Eu... pensei em chamar de Clã.
Ela piscou, ficando em silêncio por um momento. Minhas bochechas
arderam de vergonha.
— Um clã não precisa sempre ser família, mas as pessoas são
parecidas, normalmente com algum objetivo em comum, e... nosso
projeto é focado em ajudar os outros a se recuperarem. Por isso pensei
em chamar de Clã.
— Tem certeza absoluta de que esse vai ser o nome?
Eu assenti.
— Então eu vou começar a panfletar o projeto. O Clã — ela disse,
testando o som — vai acolher pessoas que foram deixadas em situações
desvantajosas após o incidente da Rancor.
— Acha que consegue a lista com as pessoas no hospital? Nomes já
são o suficiente. Eu gostaria de manter uma marcação sobre aqueles que
se juntarem a nós e os que não.
— Posso fazer isso, sim. Por enquanto, preciso que pense no que vai
falar quando representar o projeto na reunião com Philip. Não sei se ele é
uma pessoa fácil de lidar. — Ela olhou para mim, para meu copo, minha
roupa. — Você tem roupa social, uma coisa mais séria, meio refinada?
— Pode ter alguma coisa assim em casa.
— Deixa quieto, minha mãe tem mais ou menos seu tamanho, você
pode pegar uma dela.
Engoli em seco
— Não quero incomodar vocês...
— Estou te ajudando, Bela, não me incomodo com isso.
Aquilo arrancou o ar dos meus pulmões. Ela falava com uma voz
séria, focada, que eu não via havia um ano. Queria que eu liderasse o
projeto, queria que fosse sério e respeitado e que desse certo.
Pisquei devagar, respirando profundamente e olhando do quadro de
memórias para ela.
Tudo isso em nome de um causa que não era dela. Uma causa
minha, por Lilian e meu pai.
— Tiana — eu chamei, meio acuada. Ela me olhou com atenção, as
mãos pousadas sobre a mesa, juntas. Eu reparei nelas um pouco mais
antes de continuar; nos pulsos afinados, nas unhas cuidadosamente
recuperadas com cirurgia após cirurgia. — Eu sinto que devo a você uma
explicação sobre Lilian. Você tem me ajudado, mesmo.
— Não precisa me contar se for porque sente que deve algo a mim,
Bela.
— Na verdade, eu... acho que Lilian sempre quis contar para vocês
sobre isso, mas... não tinha coragem e nem iria querer que se
envolvessem. Mas agora, que sou eu quem vai fazê-los pagar, e talvez
quebre algumas leis com isso, se... se eu sofrer as consequências, não
vou me importar, mas eu quero que saiba a razão se algo acontecer.
Ela me observou com olhos castanhos escuros bem abertos e fixos.
— Ficou confuso?
— Você quer dizer que se algo acontecer, é pra eu saber o motivo.
— Sim, mas não quero que se envolva, nem mesmo se eu perder.
— Me conte.
— Prometa, Tiana. Prometa que não vai se envolver mais do que
esse projeto.
Ela pressionou os lábios numa linha. Não queria falar, jamais
aceitaria que eu ficasse sozinha, porque nossos laços e nossas dores
eram semelhantes. Então, quando ela fechou os punhos e olhou no fundo
dos meus olhos, eu meio que sabia que estava mentindo assim que abriu
a boca.
— Eu prometo.
— Você sabe sobre o aniversário de 15 anos de Lilian.
— Sim.
— Mas nunca soube a verdadeira história por trás da morte do meu
pai e o garoto que ele matou.
E, naquele instante, o mundo ficou em silêncio.
Capítulo Dezesseis
Eu me espremi em um vestidinho preto de babados, muito pouco
rodado e botas pretas; deixei me maquiarem, deixei prenderem meu
cabelo, que ainda era longo na época, em um coque.
Meus pais e meus avós, juntos, alugaram uma mansão de festas e
tamparam a piscina, transformando-a em uma pista de dança. Havia um
bar e um palco, e os dançarinos estavam nos fundos da área de festas,
treinando alguns passos.
Lilian ficava rodando com eles e sendo erguida pelos braços, com
bastante cuidado porque ainda usava o vestido rodado e cintilante prata
em cima e dourado na bainha, uma coroa na cabeça, os cabelos
castanhos escuros como os meus num coque também, mas bem mais
cheio que o meu. Ela estava tão linda que me tirava o fôlego quando
sorria.
Nossa mãe tinha escolhido usar um vestido preto justo no corpo, os
cabelos pretos num coque também.
Meu pai... usava um terno preto, herdado mas muito bem
conservado, que havia sido do nosso tataravô. A camiseta branca por
baixo, um gravata enfiada no bolso enquanto ele corria atrás de nossa
mãe, perguntando ser precisava pôr a maldita gravata ou não, enquanto
ela ficava evitando ele com uns sorrisos de deboche.
Ele se aproximou de mim, alto, forte, bem moreno com os cabelos
rente a cabeça. Tinha um sorriso grande, igualzinho o de Lilian, o tipo de
pessoa praticamente incapaz de ser hostil, mesmo que fosse policial.
Tinha mãos ásperas, cujas escorreram pelos meus braços descobertos e
seguraram minha mão, olhando para a lona no fundo do quiosque que
separava os dançarinos treinando com Lilian de nós.
— Vocês cresceram tão rápido, olha só — ele pontou, me abraçando.
— Catorze anos, quinze anos. Minhas duas filhas já se tornaram moças,
logo, logo vão começar a frequentar festas e deixar o pai pra trás.
Eu sorri de volta, balançando a cabeça com o drama dele.
— Nunca vou deixar o senhor.
— Ah, é? — ele questionou, com um par de olhos castanhos escuros
brilhando. — Aliás, eu coloco a gravata ou não, minha ilustre filha?
— Sei não, em. Eu ficaria sem.
— Ótimo, porque incomoda bastante e sua mãe se juntou com suas
tias e não me quer mais. — O aperto do abraço aumentou, e aproveitei
aquilo. — Ano que vem vai ser o seu, minha nossa, você vai fazer 15
também.
Ele me afastou, me encarando incrédulo.
— Daqui a pouco eu me aposento e fico velhinho e vocês se casam e
eu vou ser vovô e...
— Calma aí pai, não exagera. — Ela soltou um riso.
— Não pode me culpar!
— Vamos passar pelos 15 anos de Lilian primeiro, depois pensamos
no futuro. Sem exageros. — Segurei as mãos dele, com carinho, com
amor. Ele abriu um sorriso largo e puxou minha mão, me levando pelos
convidados que eu tinha levado horas para cumprimentar.
Nós paramos na cozinha, nos esquivando dos cozinheiros enquanto
ele dava risadinhas perversas e me levava na direção da fonte de
chocolate, sendo testada; a cascata era do tamanho de uma criança de
cinco anos e uma vasilha de frutas ao lado poderia alimentar a mesa
inteira da nossa família.
Ele enfiou os dedos entre os morangos, puxando dois gigantes e me
dando um. Eu neguei com a cabeça. Incrédula, conforme ele mergulhou o
morango dele e enfiou tudo na boca, lambendo os dedos como uma
criança levada. Então, ele puxou da minha mão e enfiou no chocolate, em
seguida, fez um aviãozinho comigo.
Quase me engasguei enquanto gargalhava e comia o morango,
depois umas uvas, uma banana e até mesmo laranja. Ele ficava me
entupindo de doces e se entupindo, até que sujou a ponta do paletó e
começou a resmungar.
— Droga, droga, droga — murmurou. — Sua mãe vai me pendurar
no varal.
— Pera aí, vamos resolver — falei. Limpei as mão numa toalha
milagrosa e empurrei as costas do meu pai até a pia.
Pinguei umas gotas de sabão na bucha amarela e esfreguei o paletó
cuidadosamente enquanto ele ficava me agradecendo e dizendo o quão
maravilhosa filha eu era e que tinha puxado só as coisas boas dele.
Quando acabei, sequei com outro pano por perto. Ia secar rápido, mas se
vissem uma mancha de água era melhor que uma de chocolate.
— Agora vamos voltar. Antes que a mamãe perceba o que viemos
fazer e...
— Vocês dois são um dupla apocalíptica — esbravejou a forte voz
feminina da dita cuja. Os saltos estalaram conforme ela veio até nós dois;
tive alguns segundos para esfregar a boca do meu pai e me virar,
encarando ela, mas com a cabeça baixa. — Sério, quero bater nos dois e
pendurá-los.
Ela grunhiu com ódio materno puro.
— A Isabela disse que tinha vontade e eu incentivei, só isso — me
pai respondeu, me traindo cruelmente. Fiz uma careta de indignação para
ele. — Não tenho culpa se sua filha é viciada em chocolate.
— Saulo, pelo amor de Deus, ela só anda atrás de você. A culpa aqui
é do adulto irresponsável.
Quando ela ficou de frente para ele e me deixou de lado, eu olhei
para ele sobre o ombro dela e mostrei a língua. Saí de fininho e meu pai
não falou nada para minha mãe, assumindo a posição de sentindo com as
mãos atrás das costas, ouvindo ela gritar como se fosse uma capitã.
Saí sorrindo, irritada e feliz ao mesmo tempo.
Lilian estava no meio do salão, observando o painel passar fotos
dela.
— Eu era um bebê horroroso — ela comentou, me arrancando uma
risada.
— A mamãe tá discutindo com nosso pai de novo, ele me obrigou a
roubar frutas e chocolate da fonte.
— Sim, eu percebi a mancha de chocolate no seu queixo.
— O quê? — questionei, esfregando os dedos até perceber a mentira
dela. Dei um tapa fraco em seu ombro. — Sua mentirosa!
— Foi obrigada, né, sei.
— E isso importa? Mamãe disse que ele que foi o adulto
irresponsável — retruquei.
— Céus, vocês são farinha do mesmo saco.
— Posso dizer o mesmo sobre você e a mamãe.
Os olhos dela se fecharam enquanto gargalhava. Vê-la feliz me
deixava feliz, não importava se brigássemos ou não. Então, quando Lilian
me encarou em silêncio, mas de um jeito confortável segurei sua mão ao
som de uma música ritmada sem letra e a levei para o centro da pista de
dança.
Com catorze anos, eu já era maior que ela, portanto coloquei uma
mão em sua cintura e ela colocou uma em meu ombro.
Minha irmã tinha olhos castanhos que se iluminavam com qualquer
gotícula de felicidade; ficaram úmidos quando eu guiei os passos dela,
um para trás, um para frente, então girei ela, e fizemos dois passos para
cada lado e ela girou de novo. Deixei Lilian se distanciar para a direita e
puxei ela de novo, cruzando nossos braços sobre a barriga dela.
Erguemos nossos braços para cima, e, ao abaixar ela se afastou de mim
uma segunda vez e voltou, por fim passando os braços sob os meus e
pousando as mãos nos meus ombros, enquanto deixei os meus em suas
costas.
Ficamos dando pequenos passos para direções aleatórias e ela
pousou a cabeça no meu ombro direito, deixando os músculos ficarem
menos tensos — centenas de parentes estariam ali em breve, se
preparando para qualquer fofoca das nossas vidas que pudessem obter.
— Acho que se fosse apenas entre nós e nossos pais, eu ficaria mais
tranquila.
— Sabemos que seu sonho sempre foi ter uma festa de quinze anos
que fosse ser lembrada, Lili. — Ela me apertou mais forte. — Não deixe de
querer isso só porque nossa família pode ser... inconveniente, na maior
parte do tempo.
— Vou tentar.
— Vai conseguir¸ Lilian. E eu vou estar aqui por você, sempre.
— Sei que vai — ela respondeu, me apertando mais um pouco e
soltando em seguida. Lilian se afastou, segurando apenas uma de minhas
mão conforme sorriu em despedida.
Ela, claro, foi à cozinha. Eram tão fã de furtar chocolate quanto eu.
Mamãe não pegou Lilian fazendo o mesmo que eu porque me
coloquei no caminho dela. Enrolei nossos braços e ouvi ela tagarelar
sobre o hospital e sobre os sobrinhos — e como estavam as vidas deles,
bem sucedidos, casados e gays. Às vezes ela contava piadas e, mesmo
sem graça, eu ria.
— Seu pai provavelmente já te disse isso, sentimental do jeito que é,
mas... não acredito que Lilian já tá fazendo 15 anos... e depois tem você.
— Ah, Jesus, vocês dois sentimentais assim... isso tá ficando bem
estranho.
— E como não seria? Vai entender quando tiver seus filhos.
— Se você quiser ser vovó, é melhor se escorar em Lilian. — Ela
soltou um risinho relaxado, quando fomos ao jardim da mansão. Estava
tudo ficando mais tranquilo entre nós.
Desde que eu entrei na adolescência, minha mãe e eu não
estávamos mais nos dando muito bem. O conservadorismo dela e minha
vontade de pintar o cabelo estavam sempre se atracando, mas graças ao
meu pai, eu tinha as minhas primeiras mechas vermelhas no cabelo
castanho.
— E por falar nela — minha mãe apontou, olhando sobre o ombro.
Lilian subiu correndo no palco, limpando a boca suja de chocolate.
Não consegui me impedir de rir dela. Minha mãe finalmente soltou
meu braço.
— Entediei você o suficiente. Vá ver Lilian, e diga que se eu vir uma
gota de chocolate no vestido dela, ela vai apanhar.
Soltei um riso nervoso me afastando dos olhos negros de minha mãe
e indo correndo até minha irmã. Por mais rápido que eu tenha chegado,
ela já estava sentada no palco, balançando seus pés e suspirando. A
música e a família não importavam muito para ela.
— Encheu a barriga?
— Bastante — ela respondeu, com um sorriso.
— Quer dançar de novo?
— Se me fizer rodar vou vomitar em você.
Quando eu ri da cara dela, Lilian segurou meu braço para levantar.
De volta num abraço, ficamos em passinhos lentos de dois em dois,
a cabeça dela escorada em meu ombro enquanto eu consolava suas
preocupações, a maioria ligada a reação da família quanto a festa, uma
vez que podiam ser bem duros quando algo não os agradava.
— A tia Nice já perguntou se você começou a namorar?
— Não, mas o pai dela perguntou se eu vou casar ano que vem.
— Acho que o Arthur encontrou ela e a família no lixo — respondi. —
Assim que chegaram me disseram que um primo da Nice da minha idade
estava disponível pra casamento. Eu preferiria fumar maconha.
Lilian riu.
— Me ofereceram um cara seis anos mais velho que eu. Tipo, 21
anos? Se o papai ouvisse...
— Por isso só falam quando a mamãe tá perto. Ela ignora na maioria
das vezes.
— Ela não devia.
— Não mesmo, mas Arthur é irmão dela. Nice é cunhada e... o que
ela faria? Parar de convidar eles só ia criar um atrito familiar, por mais
que todo mundo esteja de saco cheio da Nice e do pai dela. — eu falei. —
Inclusive nosso tio. Ouvi que ela acha que ele vai arrumar uma segunda
esposa. Muito confuso — resmunguei.
— Eles podiam maneirar no drama. — Lilian sorriu contra o meu
ombro.
— Sim. Pelo menos sempre tem umas fofocas legais. Puxei a mamãe
pelo braço quando você foi assaltar a cozinha, ela sabia, é claro, mas
como é seu dia especial e a filha favorita, ela ignorou; enfim, ela me
contou dos nossos primos — comecei, arqueando as sobrancelhas,
mesmo que Lilian não visse. — O mais velho vai casar, o do meio vai pra
fora do país com as noivas e o mais novo finalmente foi pra São Paulo
viver com o namorado.
— É... uau, lindinho — Lilian murmurou, me deixando sem entender
do que ela estava falando.
— De qual você quer saber primeiro?
Ela ficou ereta, negando com a cabeça, então forçou meus ombros,
fazendo com que eu virasse de costas a tempo de ver um garoto quase
da nossa idade entrando pelo portão principal; eu certamente não o
reconhecia, e o terno dele era brocado e preto, caro demais para não ser
um dos primos ricos que eu era capaz de reconhecer de longe.
Um penetra. Bonitinho, por sinal, cabelo escuro encaracolado e olhos
azuis celestiais que eu via de longe. Ele virou para nós duas e abriu um
sorriso que deixou Lilian piscando.
— Calma lá, irmãzinha. Você sabe o que a mamãe vai falar se ver
você com um penetra e, acima de tudo, um desconhecido.
— Vai, eu vou ficar com ele só aqui...
— Lilian, por favor. Precisamos colocar ele pra fora — eu respondi,
vendo conforme o garoto alto caminhou para dentro
despretensiosamente.
Ela estava passando os dedos pelo coque, certificando de que tudo
estava no lugar.
— É um garoto bonitinho e hoje é minha noite, me libera, vai...
— Não posso, mamãe acaba com a gente ser te ver com um
desconhecido e se o papai te ver com um garoto, sabe que ele vai acabar
com o menino.
— Mas aí não é problema nosso — ela respondeu, com um sorriso
malicioso. — Só quero alguém pra me divertir que não seja da família.
Sabe que eu amo você, Bela, mas se eu tiver que interagir só com nossos
primos e a família da Nice...
— Tem garotos na nossa escola, sabia?
Lilian revirou os olhos.
Eu suspirei.
O penetra era bonitinho mesmo, e ela provavelmente fugiria de mim
para se encontrar com ele quando ficasse sozinho no canto. Era melhor
saber onde estariam.
— Lilian, eu vou te dar vinte minutos pra conversar com ele no
jardim, onde vão ter privacidade, exceto pelos peixes... então vai lá e
arranja seu paquera — eu resmunguei, empurrando os ombros dela de
leve.
— Eu amo você, Bela — ela sussurrou, beijando minha bochecha.
Eu achava que Lilian sempre seria a garota de espírito livre e pouco
desconfiado. No entanto, ao mesmo tempo, eu sabia que qualquer coisa
poderia quebrá-la, porque era tão fácil conseguir sua confiança... por isso
eu e o papai a mantínhamos sempre solta, mas em lugares em que
pudéssemos vê-la.
— Se eu for ao jardim em vinte minutos e não te achar, vou contar
pra mamãe e pro papai que você se escondeu com um paquera, e vou
dizer que me ameaçou pra não contar, então fica esperta.
— Nojenta — ela retrucou, mostrando a língua pouco antes de dar as
costas.
Vi quando ela alcançou o garoto e ele cantou ela, com olhos azuis
afiados que me deram calafrios:
— O que uma coisinha linda como você faz por aqui? — ele
perguntou, olhando-a de cima a baixo como se não percebesse que ela
era a aniversariante da noite. Lilian soltou um risinho e encolheu.
— Poderia dizer o mesmo de você, garoto — ela respondeu, linda e
adorável e perfeita. — Me chamo Lilian, e você?
— Pode me chamar de Henri até o fim da noite.
— E depois dela, Henri?
Ele abriu um sorriso largo, branco demais, e deu o braço a ela,
puxando-a para trás do forro do palco. Dei as costas aos dois assim que
eles se esconderam e fui na direção da mesa, onde meu pai estava
sentado de costas para nós, por sorte.
Por sorte.
Eu não sabia que em minutos, se tornaria meu maior azar. Nossa
maldição. Meu pecado. Minha culpa.
Me sentei ao lado dele, na cadeira vazia da minha mãe e me escorei
no ombro dele.
— A Lilian tá pronta? — ele perguntou, traçando ao redor dos dedos
que coloquei sobre sua coxa. — Ele dança em dez minutos.
E eu tinha dado a ela vinte.
— Acho que ela vai se atrasar — resmunguei. — Comeu muito
chocolate, foi correndo pro banheiro nos fundos do jardim. Ou então ela
vai desistir do vaso por conta do vestido e adubar as plantas mesmo.
— Que nojo, Isabela — ele respondeu. — Se ela sujar o vestido, eu
não vou dançar.
Ri junto com ele.
— Porque acha que eu já dancei duas vezes? — continuei. — Só pro
caso.
Então, depois de alguns minutos, cada um deles extremamente
preciosos, a família se enrolou ao nosso redor, cada um com um
agradecimento, preocupação ou reclamação sobre a festa a serem feitos.
A maior parte dos meus tios maternos perguntavam se eu e Lilian
nos casaríamos logo, porque a maioria das mulheres da família materna
eram de uma cidade pequena em que algumas meninas de 14 já eram
casadas ou até tinham filhos. Meu pai, é claro, calou a boca deles com
canecas cheias de cerveja barata.
Depois, vieram as perguntas sobre faculdade. Eu ia fazer medicina?
Direito? Administração? Arquitetura? Agronomia? E sobre Lilian, era a
mesma coisa, ainda que ela nem sequer estivesse ali. Embora
esperassem que ela fosse enfermeira como a mamãe. Ninguém tocou na
possibilidade de uma de nós duas querermos ser policiais — o que Lilian
queria, e muito mais que eu, até.
Como se numa enchorrada, assim que o Dj disse que o som estava
pronto, começaram a questionar o atraso de Lilian, mas eu tinha dado a
ela 20 minutos.
— Isabela, se eu achar sua irmã... — 2 minutos de atraso. Minha
mãe já estava surtando.
— Calma, mãe, ela deve estar nervosa. Mesmo quando não
estávamos nem perto da dança, ela já tinha ficado assim. Dê mais dez
minutos e ela vem.
— Dez? Dez minutos?
— Não sei se sua mãe consegue segurar seus tios nem por mais
cinco...
— Nem por mais um! Encontre aquela garota, agora!
Me levantei da cadeira, suspirando. Olhei rumo ao jardim.
— Eu vou lá.
— Vou com você.
— Pai, é melhor se você ajudar a mamãe...
— Nem morto — ele retrucou, baixinho. — Seus tios vão me fazer
usar minha arma nesse rumo.
— Calminha, Saulo, ninguém vai atirar em ninguém aqui — eu
reclamei, já nos primeiros passos para o jardim. Os anos como policial
tinha dado a ele um porte de armas legalizado e uma mira muito boa.
— Eu juro, se seus tios não pararem de falar do seu casamento... —
Quando olhei, os olhos dele pareciam que iam saltar para fora e o rosto
estava ficando vermelho. Um tiro talvez não, mas socos... um pio dos
meus tios e ele acertaria com tudo o primeiro na frente.
Andamos até o jardim.
Foi silencioso demais.
Quando chegamos, quando vi... quando não vi ninguém, meu
coração saltou.
— Você tá pálida.
— Ela disse que ia estar aqui. Lilian me jurou que estaria aqui.
— Bela...
— Ela tava com um penetra, pai.
Eu nem sabia ainda, mas um pouquinho de mim já tinha ruído.
— Um garoto bonitinho chamou a atenção dela. Ela disse que ia ficar
aqui por 20 minutos e voltaria.
— Merda, Isabela, onde ela tá?
— Eu não sei.
Meu pai era Saulo Rollis, um policial. Ele viu mais casos criminais do
que eu, claro. Viu mais assassinatos, mais sequestros. Viu mais
predadores e estupradores também.
Eu queria tê-lo escutado quando disse “Nada de garotos” pela
primeira vez.
Tinha ouvido por mim.
Mas não por Lilian.
Meu coração acelerou.
Dentro da casa. Só podiam estar dentro da casa.
Talvez meu coração e meus pulmões estivessem lá dentro também.
Ergui a mão trêmula, apontando.
Não na noite dela, ah Deus, não na noite dela. Não nunca. Nunca,
nunca, nunca.
Meu pai puxava meu pulso correndo para dentro, furioso, o que já
era uma coisa ruim, mas me assustou ainda mais quando passamos pelos
três primeiros quartos e entramos no sexto, com a chave do closet no
bolso, meu pai abriu e ganhou acesso a dezenas de tipos diferentes de
armas. Ele segurou a primeira pistola que viu.
Eu quase estiquei minha mão para uma, mas quando o primeiro
dedo se moveu, ele já tinha fechado e trancado tudo.
A mansão era de um homem muito rico que caçava por esporte em
reservas feitas para isso; com licença, claro. Cada arma era legalizada.
Ele mostrara o quarto ao meu pai quando soube que ele era policial.
Meu pai abriu a quinta porta empurrando com o ombro. Ninguém.
Ele xingou alto. Tão alto, que ouvi um chorinho baixo vir da porta ao lado
e ser calado com um murmúrio baixo.
Meu pai andou destemido, mas eu fraquejei absurdamente. Cada
passo abaixava meus joelhos ainda mais.
De repente, eu era só a menininha do papai vestida de preto que
achava que era rebelde.
Ele chutou a quarta porta com tanta força que arrancou ela das
dobradiças.
Vômito subiu minha garganta quando os vi.
Quando vi Lilian.
A saia tinha sido desencaixada e largada no chão.
A cama estava bagunçada.
Ela estava sob o penetra, parecendo tão maior e mais forte agora
que a prendia sob ele usando uma mão para segurar seus pulsos e a
outra... a outra estava numa arma. O cano encostado na testa da minha
irmã.
O olhar de Lilian foi algo que nunca esqueci, como ela negou com a
cabeça, não para o garoto, o monstro que a prendia, mas para nós, para
que ficássemos longe. Para que ele não nos machucasse.
— Seu filho da puta — meu pai xingou. — Se não se afastar dela
agora...
— O quê? Vai me matar? — Ele olhou sobre o ombro. — Advinha,
mato a garota antes disso.
— Quer dinheiro?
Eu não desviei o olhar do rosto de Lilian nem por um segundo.
— Só meu terno pode pagar toda essa festinha medíocre de vocês.
Não sei como, mas rosnei para ele.
— Sua cadela de irmã te pôs nessa situação, gracinha — ele
murmurou. Pude sentir o sorriso.
Lilian estava seminua. A calça dele estava meio abaixada.
— Se tiver tocado nela — eu falei, com uma voz que lembrou tanto
meu pai que achei que fosse ele por alguns segundos —, vou colocar sua
garganta sob o meu pé. Vou afundar sua traqueia, garoto, e arrancar
seus olhos. Vou fazer com você algo que vai transformar em piada o que
gangues fazem com traíras.
— Eu toquei você, bonitinha? — ele perguntou, perigosamente
batendo o cano contra a testa de Lilian. — Responde, porra!
— Sim.
Meu coração se partiu mais rápido do que uma escultura de cristal
poderia.
— Vou matar você! — eu gritei. — Tá me ouvindo? Eu vou matar
você!
Ele riu.
Me escorei no batente, perigosamente desafiando os limites dele.
— Mais um passo, e ela morre.
— Vou chegar em você mesmo se fizer isso, seu puto — respondi,
chorando.
— Vou dar a vocês duas opções. Ou ficam aí enquanto eu termino,
ou esperam sem precisar ver como vou terminar de acabar com a boceta
da sua preciosa Lilian.
— Henri — eu falei, finalmente me lembrando de seu maldito nome.
— Por favor... é minha irmã, eu farei qualquer coisa, eu... por favor, me
coloque no lugar dela...
— Isabela — meu pai chamou.
— É? Então venha pra dentro, calmamente.
— Filha, por favor...
Hesitei, apesar de tudo.
Mas lembrei que era Lilian ali.
Dei meu primeiro passo.
No entanto, eu não tinha percebido que meu pai se moveu junto, um
passo para o lado.
O barulho do tiro veio em seguida.
Tinha a mira treinada por anos.
Mas Henri tombara para o lado assim que percebeu a movimentação
e o tiro não o atingiu. Ele ficou de costas na cama e Lilian se lançou para
o lado, caindo da cama e batendo a cabeça na quina do criado. Ela caiu
desmaiada.
O segundo tiro foi um alívio e um pesadelo.
Henri tombou de vez quando sangue encharcou os lençóis e ele
engasgava no próprio sangue, a arma meio longe da mão. Fui até Lilian e
comecei a sacudi-la com o som de Henri morrendo. Ela demorou alguns
segundos para acordar, por milagre ou maldição. Porque...
Porque outro tiro soou em seguida. E vi a arma pender da mão de
Henri de vez.
Estava engatinhando até meu pai com puro terror nos olhos, Lilian
atrás, mancando.
Ela caiu de joelhos quando viu meu pai sobrepor o tiro perto da
lateral com as mãos, como se pudesse escondê-lo de alguma forma.
— Me desculpa — ela implorou. — Me desculpa, desculpa... eu que
deixei acontecer, me perdoa, pai, por favor...
— Tá... tudo bem — ele resmungou, engasgando e enrugando o
rosto em expressões de dor.
Lilian ainda implorava por ele enquanto eu rasguei meu vestido e
abri o terno do meu pai, rios de sangue saindo.
— É culpa minha, a culpa... é toda minha...
Enfiei o dedo na ferida dele e ouvi meu pai gritar quando arranquei a
bala, sentindo meu corpo esquentar com adrenalina. Ele não ia morrer ali.
Eu não ia deixar. Eu nunca mais ia deixar nada, eu ia dizer não para
tudo...
— Desculpa, desculpa, desculpa, desculpa...
— Lilian — meu pai chamou. A mão dele se afastou da ferida e
pressionei usando a força do meu corpo e o tecido do vestido.
Um segundo depois, senti a mão ensanguentada dele na minha
bochecha. Olhei em seus olhos enquanto pressionava mais a ferida, mas
o sangue não parava de sair. Eu não sabia se estava fazendo errado e
não me lembrava se tinham artérias ali. Eu só conseguia sentir o sangue,
agora que estava olhando nos olhos de um homem morrendo. Meu pai.
Meu pai.
Meu pai.
Ele era meu pai.
Amado, amigo, pai.
Mas o tiro pegara numas das ilíacas, agora eu tinha certeza.
Ele teria minutos e o hospital mais próximo ficava a meia hora de
carro.
Mamãe. Eu tinha a minha mãe.
— Lilian, vai chamar nossa mãe, agora!
— Filhote, ela não vai fazer uma reparação de artéria em mim.
— Não vou assistir você morrer.
— Então feche os olhos — ele disse, com a voz triste e dura.
— Não sou covarde. Preciso que fique acordado, que fique comigo,
que...
— Isabela Couto Rollins, está me ouvindo? — Minha cabeça não
balançou, mas tremeu em resposta. — Ótimo. Eu tenho minhas palavras
finais; para você e Lilian.
— E a mamãe?
— Ela vai entender — ele reclamou.
— Então diga — resmunguei, pressionando a ferida ainda mais.
— Primeiro, Bela, quero que saiba que amo você e Lilian, mais do
que achei que fosse possível amar alguém, mais do que posso amar a
mulher com quem decidi casar. Vocês são sangue do meu sangue, mas
muito além disso, são meu coração. Eu amo vocês com tudo o que tenho
e morro sem arrependimentos.
— Pai — Lilian choramingou.
Escutei os passos correndo para dentro da casa, passos da minha
mãe e só ela.
Escutei ela desabar no chão antes mesmo de vê-la e esticar uma
mão para meu pai enquanto me via estancar a ferida. Vi seus olhos
negros lindos e iluminados perderam a luz e se encherem de lágrimas.
— Eu não podia deixar ele machucar nossas garotinhas — meu pai
murmurou. Minha mãe finalmente olhou ao redor e encontrou o garoto
inerte na cama.
— Eu sei — ela chorou. — Eu sei.
A mão dele deixou marcas de sangue em mim e Lilian quando ele
segurou as mãos da minha mãe. Quase puxei de volta, mas eles
precisavam disso.
— Quando chegarem — meu pai falou, tão sério quanto um homem
morrendo poderia estar —, deixe pensarem que matei o garoto por
ciúmes, entendeu?
— Não pode se tornar um criminoso morto, meu amor... deixe
lembrarem de você como um salvador...
— Sinto muito, Dara, sinto tanto... mas é por Lilian, que vai enfrentar
coisas piores ainda se souberem porque tudo acabou assim, que eu estou
pedindo isso. Proteja nossa menininha. Vocês duas, entenderam? — ele
questionou. Tremi a cabeça de novo. — Protejam nosso raio de luz, nossa
flor, a garota que mudou tudo.
Porque Lilian foi um milagre para uma mulher que achou que não
poderia ter filhos.
— Mesmo se... mesmo se der minha vida, pai, vou protegê-la —
falei, parecendo grande demais para uma menina de 14 anos assistindo o
pai sangrar até a morte sob seus dedos.
— Por favor, não faz isso — eles disseram em coro, meu pai e Lilian.
Uma sombra de sorrisos percorreu os rosto de ambos.
— Pare de estancar, Bela.
Não sabia o que estava fazendo quando parei.
— Amo vocês.
— Saulo, meu amor — minha mãe disse, beijando o rosto dele, cada
pequena ruga que mal começava a se formar, o canto dos lábios, o nariz,
os olhos, as bochechas. No fim, eles deram o beijo mais apaixonado que
já vi. Tanto que achei que nunca encontraria algo igual.
— Te amo — ela disse. — Te amo tanto. Tanto, tanto...
— Eu também.
— Queria que ficasse.
Ele não respondeu dessa vez, como se também quisesse, mas
soubesse que não poderia.
— Se houver um outro lado, um lado bom e eu estiver nele, vou
olhar por vocês, sempre — ele disse, a voz ficando cada vez mais baixa.
— E se houver reencarnação, eu volto mesmo que seja como um
cachorro, prometo.
Me forcei a sorrir para ele, ignorando o quanto tudo aquilo
machucava minha alma.
— Vocês duas ainda podem salvar o mundo — ele disse. — Vocês só
não verão que eu estarei do seu lado, mas prometo que estarei.
— Te amo — eu falei, olhando dos meus dedos sujos para o rosto
dele, para o último sorriso que ele daria.
— Desculpa — Lilian disse.
— Diga que me ama, não que quer perdão, porque não a culpo por
nada.
Ela soluçou com o choro.
— Eu amo você, pai.
Ele abriu um sorriso maior.
Meu pai não estava morto quando fechou os olhos.
Mas minutos depois, o sangue parou de vazar e o coração, de bater.
Ele nunca mais abriu os olhos de novo.
Capítulo dezessete
Tiana estava chorando quando avançou sobra mesa de vidro e me
envolveu num abraço sufocante, um que eu precisava. Deixei ela
murmurar coisas inaudíveis para mim, mas apreciei mais que tudo
quando ela não demonstrou pura pena, mas... amor.
— Isabela, eu estou tão feliz de já ter tido vocês todas comigo — ela
resmungou, comigo nos braços. — Quero que saiba que te amo, que sei
que tudo aquilo foi horrível e que vocês, Lilian e Dara foram pessoas
maravilhosas e seu pai foi muito mais do que um herói, ele foi um pai de
verdade.
— Obrigada — eu respondi, apertando ela de volta.
— Você pode contar comigo para tudo, principalmente para se
vingar pela sua família — ela respondeu, se afastando e me encarando
nos olhos para ter certeza de que eu soubesse que ela estava falando
seriamente. — Se me disser que tem medo, vou proteger você, se me
disser que tem raiva, vou oferecer o primeiro soco. Nunca vou deixar de
te amar como a mulher incrível que é, e, sinceramente, a mulher incrível
que Lilian foi, para nós duas.
— Ti, eu...
— Você me ouviu. Nós vamos fazer isso — Tiana murmurou no meu
ouvido, se sentando de volta, finalmente. — Por enquanto, só me dê
nomes.
— O garoto que meu pai matou vem de uma família da área de
direito. Promotores, juízes e advogados da alta sociedade. Cada um deles
tem conexões mais perigosas do que eu sei.
Ela se levantou da cadeira e deu a volta na mesa, me estendendo a
mão.
— Mas você tem a mim — ela respondeu. — E gostando ou não,
Kieran e a banda também devem ter um punhado de conexões.
Era verdade. Eu quase tinha a banda, mas acima disso, eu tinha
Tiana.
Segurei sua mão e ela me ajudou a levantar, mas não me soltou.
Puxou meus dedos com cuidado até as almofadas e se sentou, me
posicionando como uma boneca quando me abraçou e nos deitou ambas
de lado, com a minha nuca escorada no peito dela. Uma de suas mãos
subiu um pouco mais e começou acariciar meu cabelo.
— Esse projeto é para proteger você de uma opinião pública própria.
— Mas não vou deixar ser só isso.
Ela sorriu com o queixo sobre minha cabeça, pude sentir.
— Estou contando com isso — ela respondeu. Os dedos pararam um
segundo e ela perguntou novamente: — Preciso dos nomes.
— Ti, ainda não.
— Posso achar olhando o nome do estuprador, Bela. Estou pedindo
que me conte porque quero ouvir de você, com sua certeza.
— Tiana, eu...
— Machucaram você, machucaram Lilian, machucaram Dara e
mataram seu pai — ela disse, as palavras me atingindo tanto que me
encolhi contra ela. Suas mãos acariciaram minha cabeça, tentando
suavizar um pouco daquilo. — E porque feririam você, a única pessoa que
me sobrou, vou usar o poder que eu tenho para caçá-los.
— Quero que confie em mim, tenho que te proteger.
— Eu confio, mas e quanto a você sobre mim? Confia? Não vou
deixar você fazer tudo sozinha e ir parar na cadeia, Isabela.
Suspirei.
— O estuprador era Henrique Albuquerque de Moraes. Tinha 19 anos
quando morreu — eu falei. — Filho de Jeremias Mendes de Moraes e
Marina Almeida Albuquerque de Moraes, ambos juízes. O filho mais velho
é Jonatan e o do meio é Damião.
— Só esses?
— São os que acho que apagaram a verdadeira história. Apagaram
até mesmo Lilian, mas não acho que foi bondade, apenas deixaram ela
em paz porque ela ia abrir o bico sob pressão.
— Então quer afundar o barco deles?
— Jonatan é promotor de justiça, Damião é... pouco conhecido. Pelo
que eu sei, saiu do país para fazer a segunda faculdade depois de direito.
— E o que planeja fazer, exatamente?
Eu nunca cheguei nesse ponto, sinceramente. Nunca pensei
claramente sobre como eu queria fazê-los cair. Eu li jornais o suficiente
dos dois juízes e inclusive de Jonatan defendendo... o irmão, mas
Damião... eu não sabia o suficiente dele; nenhuma notícia ligava ele ao
que tinha acontecido com Lilian.
E não traria gente desnecessária para a queda dos Moraes, mais
para evitar problemas para Tiana do que qualquer outra coisa.
— Acha que consegue achar alguma coisa sobre o filho do meio?
Damião?
— Sim — respondeu.
— Ótimo. Sem pressa, eu ainda preciso... pensar nos outros.
— Apenas alguns dias, Bela, e vou trazer um banquete de
informações a você.
— Isso quase soa romântico.
Ela soltou um risinho e beijou o topo da minha cabeça.
— E daí se soar? Olha o grude que somos — ela retrucou.
Abri um sorriso, aceitando.
— Obrigada, de verdade, Tiana.
— Não me agradeça agora, mas se você ficar famosa por expor um
sistema de corrupção familiar, não esqueça de sua amiga Tiana Duarte —
ela brincou, me fazendo cócegas tal como se fossemos duas crianças.
— Não tem como esquecer você — eu falei, sorrindo. — Juro.
Ela sorriu e beijou o topo da minha cabeça de novo.
Começamos a cochilar no meio dos travesseiros.
Capítulo Dezoito
Tiana me forçou num dos ternos de sua mãe, perfumado com um
amaciante caro; paletó preto de veludo, calça do mesmo material e a
camisa social por dentro era creme, com uma cobra desenhada usando
organza negro.
Depois de tudo, ela não perdera o gosto pela moda; se vestiu com
um terno branco, uma mariposa azul cinzenta desenhada nas costas do
paletó e a camisa social interna tinha gola alta com lenço de babados,
tudo de um tecido mais fino e suavemente transparente.
Ela me emprestou uma de suas botas de tamanho 37 e calçou um
salto branco fino com faixas para amarrar.
Entramos num dos carros do pai dela, me deixando dirigir o Tucson
bege, o que tirou um suspiro de mim. Ainda cheirava a veículo novo e o
ar condicionado ficou no mínimo, mas foi o suficiente.
Eu tinha recebido uma mensagem mais cedo para um encontro
numa advocacia ao lado de um café pequeno, mas bem arrumadinho.
— Como você tá?
— Nervosa — respondi, abrindo um sorriso fraco para Tiana. Eu
jamais poderia negar o quanto ela ficara estonteantemente linda com a
roupa. — Mas feliz que estamos nisso juntas. E surpresa que aceitaram
tudo tão cedo. Só levou dois dias...
— Tem razão. A banda certamente gosta muito de você.
— Não sei. Passei pouco tempo com eles, mas são simpáticos.
— E o Kieran, ele...
— Nada, também.
— Tem esperança de ver ele hoje?
— Só Philip mandou mensagem. Acho que ele teria avisado se fosse,
então não.
Já conseguia ver uma vaga quase à frente do café, então preparei o
carro para estacionar. Tiana soltou o cinto e segurou uma pasta de
documentos que ela imprimira no dia anterior, alguns com nossas
assinaturas já.
Nós estávamos a um passo de iniciar um projeto para centenas de
pessoas além de mim.
Eu desci primeiro, correndo ao redor do carro, e, ao parar, abri a
porta do passageiro e estendi a mão para ajudar Tiana a sair.
— Que cavalheirismo — ela disse, segurando minha mão com
delicadeza. Usava luvas sob o paletó, que faziam sua mão parecer de
seda. Segurei a lateral do seu rosto assim que ficou de pé, avaliando os
olhos levemente sombreados, as bochechas levemente rosadas; apreciei
a vaidade dela e a nostalgia misturada com orgulho que isso me causava,
céus... poderia beijá-la por isso, mas não fiz. — O quê? — ela perguntou,
com um pequeno sorriso.
— No caso de estar duvidando, preciso reafirmar que está linda.
— Com essas roupas, qualquer pessoa fica — ela retrucou, ainda
sorrindo.
— Garanto que ficam melhores em você.
— Você é uma falsa, mas obrigada — ela respondeu, enrolando uma
mecha do cabelo nos dedos. Uma de suas sobrancelhas se contraiu
levemente, mas percebi isso. Segurei a mão dela com cuidado e a guiei
até a calçada.
— O que foi?
— Um pouco de dor de cabeça.
— Precisa de remédio? Posso ir na farmácia buscar...
— Quando isso acabar, eu quero um chá gelado. Vai sarar qualquer
problema meu, eu juro... — ela murmurou, desviando o olhar lentamente
e levando ele até a entrada do prédio de advocacia; tinha as paredes
como ônix, com linhas brancas de led nas paredes, levando por algum
caminho. — Vamos — ela disse, e obedeci.
Tiana parecia ainda maior do que era, não apenas por conta dos
saltos. Eu não conseguia parar de admirar quando ela se tornava essa
mulher... grande e firme; seu trabalho como ativista sempre foi incrível.
Ainda me lembrava da primeira vez que vi ela discursar; 20 mil
pessoas erguendo as mãos em protesto a violência doméstica, gritando e
chorando quando ela falava, cada palavra soando como um desafio
proposto há eras de uma sociedade patriarcal. Ela fez meu coração
disparar naquele dia, e senti que faria diferente. Lilian estava chorando
nos meus braços nesse dia, e eu sabia que ela se lembrava da morte do
nosso pai e da violência contra ela e da impunidade dos que contribuíram
para isso.
A mulher que fizera aquele discurso lindo agora estava diante de
mim, me puxando pela mão até o elevador e me ajudando a realizar uma
coisa que mudaria minha vida; e que, se desse certo, ia ajudar os outros
também. Seria mais do que uma encenação para ganhar fama que
auxiliasse no processo, seria... uma revolução.
Quando nós duas entramos no elevador e subimos até o segundo
andar, não consegui parar de olhar para Tiana.
— Mantenha postura firme — ela falou, se virando para mim e
ajeitando meus ombros. — Olhos atentos, preste atenção. Sei que está
com a banda, de alguma forma, mas não acredite nem por um segundo
que as pessoas são sempre honestas.
E não eram mesmo. Mas eu confiava nela.
— A postura dele não pode refletir em você, então fique sempre
firme — ela segurou meu pescoço com as mãos e olhou no fundo dos
meus olhos. — Juntas, tudo bem?
— Juntas — eu repeti.
Saindo do elevador, haviam duas portas no corredor; a 202 era a
nossa. Com uma campainha na entrada, eu apenas a toquei; Tiana
ajeitou meu paletó um segundo antes de a porta ser aberta e Philip
aparecer, num terno preto com camisa branca, um mão no bolso.
— Tiana, Isabela — ele cumprimentou. Assenti de volta. — Fiquem à
vontade.
Philip se afastou ligeiramente, nos permitindo entrar; o lugar tinha
uma antecâmara toda pintada de preto, com dois sofás negros de cada
lado. Eu passei por ela atrás dos dois, até a luz no fim do pequeno
corredor; um espaço quadrado e iluminado se abriu.
A sala branca era ampla, com janelas do teto ao chão, uma mesa
retangular com duas cadeiras e uma redonda com lugar para seis. Philip
apontou a mesa maior, uma pasta preta fechada já esperando a
conversa, então nos sentamos.
— Podemos começar — ele disse, abrindo sua pasta e ajeitando os
papeis. Tiana ficou entre nós dois. — Falem um pouco do seu projeto.
Um toque no meu joelho me fez limpar a garganta e abrir a boca.
— Nomeamos de Clã — falei. — É um projeto de acolhimento e
auxílio para as vítimas do incêndio da boate Rancor; estamos priorizando
a parte financeira, mas também preparando um local de acolhimento.
— E como vai funcionar, Rollis? — ele perguntou, pronunciando meu
nome com calmaria fria, diferente da primeira vez, quando estávamos
prestes a achar o mecânico praticamente morto.
— Vamos providenciar uma rede de saúde especializada em feridas
por queimadura primeiro, oferecendo isso de graça desde que assinem
um termo de confiança e propagem a mensagem. A busca por
patrocinadores da parte dos membros é completamente opcional. Além
disso, vamos oferecer tratamento psicológico, incluindo remédios
psiquiátricos se necessário e comprovada a vulnerabilidade monetária.
— Sobre a sede de vocês, já foi oficialmente fundada?
Tiana tocou meu joelho de novo.
— O contrato de oficialização do projeto, com apoio do governo, vai
voltar assinado em apenas alguns dias. E sobre o lugar de
estabelecimento da sede... — ela abriu nossa pasta, puxando um
punhado de papeis envelopados e expondo-os sobre a mesa; uma casa
branca, desmobiliada, com uma piscina vazia; fora abandonada haviam
décadas. — Escolhemos este. Vai precisar de reparos e reforma,
inevitavelmente. Vamos lidar com isso usando o dinheiro de alguns
patrocinadores que conseguimos.
— Será grande o suficiente para todos?
— Todos não — ela disse. — Mas para aqueles que comprovarem
dependência, vulnerabilidade monetária e disposição, é claro, serão
movidos para um dos quartos. — Ela bateu o dedo contra a fotografia de
um quarto vazio, assinalada com a medidas dele. — O quartos são
espaçosos, e com a reforma, ficarão adequados para receber camas de
hospital e equipamentos básicos, inclusive.
— Qual o valor do imóvel e o estipulado pelo total de mudanças?
— Bem — Ela puxou um contrato. Os dedos enluvados delicados mas
transmitindo confiança. — Quitei o valor de dois milhões à vista, pelo
imóvel, Philip.
Ele parou por alguns segundos e piscou.
Quando eu falava que Tiana era abastada, eu me referia a nível
burguês, com gerações de capital acumuladas. Ela se esforçava para não
usar o dinheiro de forma incorreta; por mais que amasse os pais, a
exploração da mão de obra era um fato, contra o qual ela lutava.
Uma vez ela me disse que era traidora de classe. Se tornou uma
figura de respeito para mim desde então.
— Cuidei de armazenar metade do valor estipulado para todo o
resto, que são em torno de cento e cinquenta mil. Os patrocinadores
assumiram mais dois terços, então falta uma verba de aproximadamente
cinquenta mil.
— Você é excelente no que faz, Tiana Duarte — ele disse.
— Sim, ela é — eu comentei. Seus olhos se viraram para mim por
um segundo, ardendo com um fogo inspiracional.
— Eu ia delegar essa parte para você e sua banda, caso assinem um
termo de comprometimento com a causa. É um termo discutível, mas
permanente. — Ela puxou outro envelope, deixando sobre a mesa as
folhas grampeadas do nosso contrato. — Você, como representante de
sua banda, vai comunicar a eles que carregarão o nome do projeto em
cada propaganda da própria banda.
— Nós já somos o Reinado, então, se quiser propor uma alteração de
nome, não poderei concordar.
— Não tenho essa intenção — ela foleou o contrato, mostrando
nossa logo, em tons de bege e azul claro, uma linha formando um laço
em formato de borboleta. — Vão colocar isso no local que quiserem, mas
em todas as suas propagandas. Tudo bem?
— Acho que sim, podemos fazer isso. Arcar com os custos da
reforma também não será um problema — ele disse. — Podemos
começar com um show beneficente, onde o dinheiro dos ingressos vá
para o projeto. Daqui a dois meses, que tal?
— Seria ótimo.
— Então, algo a mais?
— Não, senhor — ela disse, em um tom cordial de brincadeira. — Eu
espero uma cooperação tranquila daqui em diante, com a banda como
rosto de propaganda. — Ela estendeu a mão com cuidado.
— Sim, claro — ele disse, então segurou sua mão.
Tiana tinha vocação para aquilo, muito mais do que eu.
— Neste caso, o contrato será mandado para vocês em um dia,
basta assinar e tudo estará firmado. Será um honra ter uma parceria com
uma instituição como o Clã — ele respondeu.
Fiquei de pé primeiro, Tiana em seguida. Philip nos levou até a porta
e educadamente a abriu, mas puxou meu pulso assim que dei o primeiro
passo para fora. Quando olhei, ele estava sorrindo de um jeito caloroso.
— Eu gostaria que fossem aos ensaios.
— Claro — Tiana respondeu, olhando dele para meu pulso e de volta
para Philip.
— Amanhã, então — eu conclui, puxando meu braço de volta.
Philip acenou pouco antes de fechar a porta. Quando olhei para
Tiana, ela semicerrou os olhos. Andei para longe da porta, até o final do
corredor, com ela do lado; quando começamos a descer os andares pela
escada no lugar do elevador, ela olhou para mim e disse:
— Ele parece um pouco... desesperado.
Respirei fundo.
— Talvez esteja — sussurrei. — O trauma do incêndio não ficou só
com quem tava dentro.
Tiana assentiu, concordando. Ela ficou um pouco mais séria quando
começamos a descer as escadas, e pude perceber quando a respiração
dela falhava.
Sua perna direita começou a tremer subitamente, me fazendo parar
de prestar atenção nos degraus e olhar para ela. Tiana parou no terceiro,
a perna estremecendo enquanto ela engolia em seco e o olho começava
a lacrimejar.
Subi os degraus novamente, passando um dos braços dela sobre
meu ombro e servindo de apoio. Era comum que os espasmos de dor
viessem aleatoriamente, mas no geral, quando movíamos as partes mais
danificadas de nossos corpos. Eu não conseguia imaginar a dor que ela
estava sentindo.
— Vai ficar tudo bem — eu falei, ajudando ela a descer os degraus.
— Não consigo mover a perna, tá doendo pra caralho — ela disse,
com uma expressão terrivelmente dolorida. Mordi o lábio inferior,
puxando o corpo dela para cima mais um pouco.
A perna continuou tendo espasmos enquanto descíamos as escadas;
levou um bom tempo para finalmente chegar no térreo. Ela soltava
alguns grunhidos quando os estalos de câimbra vinham e eu fazia o
possível para erguê-la um pouco mais.
Ficou pior quando começamos a andar para fora.
— Desculpe — ela disse, entredentes.
Parei um momento, dando tempo a ela.
— Posso te colocar no colo, se não se importar.
Ela hesitou por um momento, e vi quando uma pequena parte
exposta de um dos braços se eriçou, provavelmente por causa da dor.
Com cuidado, deslizei um dos braços por uma de suas pernas e envolvi a
outra com cautela, antes de erguê-la nos braços. Tiana fechou a
expressão por um momento, por causa do movimento, mas suavizou logo
em seguida
— Tudo bem?
— Tá melhor — ela disse.
Logo que chegamos ao carro, ela estava encolhida no meu peito. Foi
um pouco difícil soltá-la no banco, mas o fiz, tendo certeza de passar o
cinto ao redor do peito dela para mantê-la segura.
— Está aumentando — ela disse, com um fio de voz.
Dei a volta no carro o mais rápido que pude e entrei. Não cheguei a
fechar a porta quando avancei na direção da perna dela, subindo a calça
até o joelho para verificar. Estava avermelhada, como se a pele estivesse
sendo queimada mais uma vez. Aquilo me fez engolir em seco.
— Quer ir ao hospital? — questionei.
— Porra, não para! — Tiana gritou, me fazendo arquear o corpo. Ela
bateu as mãos contra o porta-luvas e rosnou, se abraçando e puxando o
cinto.
Liguei o carro, mantendo um olho no para-brisa e outro na perna
dela, praticamente. Já estava acelerando um segundo depois, retirando o
carro em segundos; atravessei a rua, antes que o sinal fechasse, e
automaticamente nos guiei pela rota mais rápida que eu conhecia.
Os gritos de dor dela aumentaram e mordi a língua instintivamente.
Gosto de sangue preencheu minha boca.
— Dois minutos — eu falei. — Só mais dois minutos — resmunguei,
dobrando a velocidade.
Subitamente, um sinal vermelho surgiu e um carro passou diante de
nós. Um caminhão em seguida. Teriam nos esmagado se eu não tivesse
pisado no freio. Com o coração disparado, eu olhei os carros que
começavam a passar sem espaço para que eu atravessasse o nosso,
então me virei para Tiana.
Ela apertava os olhos e se encolhia. Suas mãos foram até a própria
perna, a barra da calça ainda puxada para cima; os dedos se enterraram
na pele dela e eu soltei o volante para poder puxar seus braços.
As unhas deixaram sulcos na carne.
— Respira, Tiana, não pode se cortar ou vai ficar pior...
— Que porra tá acontecendo com essa droga de perna? — ela
questionou, trincando os dentes.
Poderíamos chegar ao hospital em dois minutos, mas vê-la se
contorcer como um rato preso em uma ratoeira não fez só meu coração
saltar. Movi o carro para a lateral da rua, deixando o espaço livre. Fiz isso
com uma mãos ainda em Tiana.
— Ah, Deus! — ela gritou, os olhos arregalados para a própria perna.
Respirei fundo e me abaixei para ver a perna dela uma segunda vez.
Meus dedos deslizaram lentamente pela pele, e senti o quanto ela
estava ardendo em temperatura; Tiana recuou do toque por instinto,
soluçando e pedindo desculpas logo em seguida. Quando olhei de volta
para ela, uma gota de sangue escorria de seus lábios, pela força que ela
os mordera. O sangue manchou a roupa branca, mas eu só conseguia
pensar na perna dela.
Tomei cuidado ao soltar sinto e ela girou no banco, sentando virada
para mim. Movi a perna delicadamente, deixando ela esticada, a
panturrilha cobre minha coxa. Os cortes que ela causara com as unhas
estavam sangrando.
— Ah... Deus! — ela soltou pela segunda vez.
Inspirei, passando a mão pelo sangue que escorria.
Ela soltou um grito tão alto que meu ouvidos começaram a zumbir;
não haviam pessoas andando na rua para que escutassem.
Fixei os olhos na ferida.
Então, meu coração falhou, algo horrível subiu pela minha garganta,
e quis sacudir ela, me sacudir.
Assisti, como se alucinasse, conforme o sangue dos cortes parou de
aparecer e as feridas desapareceram em segundos, como se nunca
estivessem ali.
— Ah, merda — eu grunhi. Soltei a perna dela por impulso,
assustada com a visão da pele se mexendo. — Merda!
— Diz que é a dor, diz que eu tô alucinando — ela implorou, se
empurrando contra a porta com tudo que tinha.
Engoli em seco, sentindo arrepios subirem e descerem pelo meu
corpo.
— Porra — eu xinguei, abraçando a perna dela outra vez, com
cuidado, pavor e preocupação.
Se os cortes retrocedendo não haviam me bastado, a coisa que vi
em seguida com certeza foi um estouro de sensações, para nós duas.
Tiana continuou gritando de dor, mas meus olhos só conseguiam
olhar para uma coisa: a pele queimada, se movendo. Não como se fosse
arder no fogo outra vez, mas... retrocedendo.
Curando.
Estava curando.
Devagar, lentamente, a pele ficava vermelha e abaixava, nos pés,
em metade da canela; ela voltava pausadamente a um estado quase...
perfeito. Algumas poucas marcas esbranquiçadas ainda ficavam ao redor
daquela perna, mas estava se curando e isso era inegável.
De repente, como se em um pulsar, a vermelhidão começou a
passar. Os gritos de Tiana diminuíram, pararam. Ela arfou uma série de
vezes, com suor escorrendo pela testa.
— O que diabos acabou de acontecer?
— Eu não sei — ela disse, arfando. — Não sei, não sei...
Coloquei minha mão em sua bochecha, segurando-a com uma calma
que eu não sabia que poderia ser demonstrada numa situação dessas.
— Respira, Tiana. Vamos entender isso logo — eu falei. Meus olhos
desceram para a boca, agora sem uma gota sequer de sangue. — Vamos
entender.. essa cura.
Ela piscou os olhos e as lágrimas caíram pela roupa. Seus braços
tremeram quando ela estendeu eles em minha direção, tal qual uma
criança com medo do monstro no armário.
Ao puxar o corpo dela contra o meu, sentindo o quanto Tiana tremia,
passei os dedos pelos cabelos sedosos dela, respirando fundo, incitando
para que me acompanhasse e ficasse calma.
— Muito bem, Ti — eu murmurei, afagando as costas dela. — Nós
vamos entender porque isso está acontecendo, tudo bem?
— Eu tô com medo — ela resmungou, contra meu ombro. — E se
continuar assim? Se doer tanto que eu fique louca?
Não consegui evitar afastá-la de mim para olhar em seu rosto. As
lágrimas eram uma mácula, mas ela ficava linda mesmo quando chorava
e o rímel escorria pelos olhos. Encarei-a seriamente e falei, com um tom
de voz firme e tranquilo:
— Não vou deixar você enlouquecer se estiver por perto. Nem longe,
Ti. Não vou deixar você.
— Eu tô com tanto medo — ela choramingou, enfiando as unhas nos
meus braços. — Não quero ficar sozinha — ela admitiu, com uma enorme
fragilidade na voz.
Os pais dela não eram presentes, não tanto quanto poderiam, mas
ainda havia Claudia. No entanto, mesmo que eu confiasse na governanta,
quando Tiana me olhava com aqueles olhos tristes e desesperados,
mergulhados no mais puro pânico de se perder dentro de si...
— Tudo bem — eu sussurrei. — Tudo bem, Ti. Não vai ficar sozinha.
Que tal irmos para casa? Minha casa. Você pode dormir lá se quiser,
tenho algumas roupas que vão te servir.
Os olhos castanhos e cheios de lágrimas reluziram para mim.
— Podemos ir?
Eu assenti para ela.
— Podemos — respondi. — Sabe que se precisar de mim, sempre
vou estar à disposição, né?
— Sei — ela murmurou, soltando meu braço esquerdo com cautela.
Precisei de bons minutos para finalmente me acostumar com a ideia
de me afastar dela. Com o braço solto, girei a chave e liguei o carro.
Lancei um olhar demorado para Tiana, verificando se ela estava mesmo
bem.
Meus dedos tremiam enquanto dirigia e pensava no que acabara de
acontecer.
As cicatrizes dela, retrocedendo... curando, a preço de uma dor
abominável.
Me perguntei se passaria pela mesma dor, o mesmo milagre e
maldição. Foi a resposta que me fez dar um soluço alto, quando pensei
que preferia que não me curasse. Quando percebi que preferia ficar com
as cicatrizes que me lembrariam, que lembrariam os outros, do que eu
tinha passado.
E tinha sobrevivido.
Eu escolheria a dor, trocaria essa parte com Tiana sem pensar duas
vezes.
Mas dor não traria minha irmã de volta. Nem minha mãe, nem meu
pai.
Virei para observar Tiana, cuja encarava a canela que se curara pela
metade. Ela passava os dedos pelas cicatrizes e por onde deveriam estar,
suspirando, meio perturbada com aquilo.
Ela olhou de volta quando percebeu que eu encarava.
— Bela — sussurrou. — E se meu rosto voltar ao normal?
Um calafrio me percorreu. Não por ciúmes ou inveja, mas... medo.
Pavor de que doesse mais do que valia a pena.
— Ele nunca esteve fora do normal para mim — eu respondi. Tiana
ficou parada por um minuto, me observando.
Talvez ela visse por baixo daquilo.
Ela temia ficar louca de dor.
Eu temia ficar louca assistindo ela com aquele tipo de dor.
— Mas... eu... — comecei, engolindo em seco ao imaginar ela se
contorcendo mais uma vez. — Eu quero que você seja feliz. Se mudar
fizer isso, então tudo bem. Não é escolha minha e eu não gostaria que
fosse, então, sabe, se você se sentir melhor assim, vá em frente.
Ela colocou a mão no meu ombro, apertando levemente, como se
fosse eu que precisasse de conforto.
— Bela, você é a melhor amiga que alguém poderia ter — Tiana
disse, com um sorriso.
Abri um sorriso, mas não consegui responder.
Para a janta, pedi uma entrega de pizza, com um lado de bacon e queijo e
o outro de calabresa. O cheiro já estava perfumando a casa e eu levei a
comida para a sala, deixando sobre a mesa de centro, junto com
refrigerante.
— Escolheu alguma coisa? — perguntei, olhando para a televisão.
Tiana resmungou do lugar que estava sentada, passando as séries e
os filmes preguiçosamente. Ela parecia uma madame e não estava longe
de ser; fazia um bico de tédio conforme escolhia. Estava vestindo um
pijama de manga comprida meu: camisa azul escura, calça azul clara
com estrelas. Parecia tão calma e alheia ao acontecimento de mais cedo
que não ousei perturbá-la
— Não consigo achar nada — ela resmungou. — Juro que tentei.
— Podíamos assistir algo de comédia — eu sugeri, servindo o
refrigerante para ela.
— É que eu não queria... tava preferindo uma coisa mais calma.
— Que tal um romance? Se quiser, pode ser um daqueles
adolescentes bobinhos. Não me importo se for com você.
Tiana hesitou, piscando os olhos e me encarando. Suas bochechas
enrubesceram e ela abaixou a cabeça em direção ao controle.
— Lembrei de antigamente — ela disse, com a voz meio embargada.
Eu tinha lembrado também, de como eu, Lilian e suas amigas,
sentávamos no sofá juntas, assistindo algo típico; eu só chorava nos
filmes de animação, mas as outras... elas se derramavam em lágrimas
em cada cena romântica e triste; me pegava rindo delas.
Hoje, eu queria poder rir delas.
Livrei minhas mãos de qualquer coisa, pondo tudo na mesa de
centro.
Ela ainda estava cabisbaixa quando eu coloquei minha mão em seu
queixo e ergui sua cabeça; os olhos de Tiana estavam tão marejados
quanto os meus.
Eu poderia pensar em todas as coisas, mas preferi dizer em voz alta.
Eu quis dar a ela aquela parte de mim, assim como ela tinha me dado
tantas partes dela depois do acidente.
— Mesmo que elas tenham... ido — comecei —, eu fico feliz de ter
você.
Haviam tantas coisas resumidas em uma únicas frase, que uma
lágrima escorreu para fora de mim.
— Eu achei que tivesse perdido tudo naquele dia, Tiana, mas quando
vi você deitada na cama daquele hospital... percebi que não. E se eu tiver
que ficar do seu lado cada dia que vier, para te mostrar o quão boa você
é, por dentro e por fora, então nunca vai me perder de vista.
Ela arquejou.
— Você era amiga de Lilian e é minha amiga e isso... você não sabe
o quão feliz eu sou por ter você na minha vida.
Tiana não tinha nenhuma resposta, observação ou alguma
brincadeira na ponta da língua naquele momento. Achei que a tivesse
assustado nos primeiros momentos, principalmente quando ela segurou
minha mão e a afastou.
Mas então, ela avançou para frente e me abraçou apertado, como se
tivesse medo que eu fosse fugir ou dizer que estava brincando.
— Eu só aceitei que não tinha perdido tudo quando você foi a única
que, em momento nenhum, se assustou com o meu rosto. Com quem eu
me tornei — ela admitiu. — Não apenas pela aparência, mas pelo modo
que agi.
— Nunca — eu afirmei, apertando ela de volta. — Nunca farei isso.
Ela fungou, esfregando o rosto molhado em mim; soltei um riso
baixo.
Depois de alguns minutos, quando conseguimos nos sentar e
escolher um filme de romance, foi nostálgico.
Eu não gostei do filme, mas Tiana estava chorando a maior parte do
tempo, então forcei os sorrisos e fungares mais sinceros que consegui;
que ela pensasse que eu estava gostando, ou faria questão de mudar
para um que me agradasse.
Finalmente, perto do final do filme, os protagonistas estavam se
casando; Tiana teria que trocar de roupa, pois chorava tanto que havia
molhado a camiseta e enchido ela de catarro.
Ela se acalmou durante os pós-créditos e tombou a cabeça,
escorando em meu ombro.
E, a cada filme romântico tosco ou não que ela escolhia, eu soltava
risos junto com ela, alguns até mesmo conseguiram me arrancar umas
poucas lágrimas. Fingindo reações ou não, quando ela adormeceu, a
carreguei nos braços até meu quarto, deixando-a descansar na cama de
cima.
Voltei a sala para desligar a televisão e pegar o celular dela, além de
organizar o resto da pizza e do refrigerante.
Quando retornei ao quarto, pronta para dormir, observei Tiana sob a
luz noturna que vinha da janela. Naquele instante, quando o peito dela
subiu e desceu com calma, abri um sorriso.
E quando me deitei no colchão no chão e senti minhas costas
aliviando a própria pressão por meio de uma onda aguda de dor, percebi
que tinha apreciado aquela noite mais do que qualquer outra desde o
incêndio.
Minhas queimaduras formigaram quando olhei para Tiana e o modo
como seu cabelo caia sobre um dos olhos.
Quando fechei os olhos, o sono não demorou a vir, e foi tão...
tranquilo. Foi a melhor noite de sono tinha tido desde que Tiana saíra do
hospital e eu tinha ficado à sós comigo mesma.
Capítulo Dezenove
Luz atravessava minhas pálpebras enquanto eu recobrava
consciência e acordava, sentindo um peso contra meu peito; estava difícil
respirar e minhas pernas inteiras formigavam.
Abri os olhos devagar, tentando movimentar minhas mãos, mas
apenas a esquerda conseguiu se mover, então a arrastei pela figura em
meu peito.
Quando percebi que era Tiana, ela já estava murmurando e
começando a acordar, mesmo que eu parasse imediatamente. Ela
suspirou contra meu peito, e senti sua mão aberta em minha barriga, os
dedos tocando uma marca de queimadura que estava exposta pela blusa
que tinha subido.
Ela bocejou, virando a cabeça para cima, para me encarar, e piscou
antes de arregalar os olhos e rolar para o chão, soltando pedidos de
desculpa intermináveis.
— Eu devo ter te sufocado, desculpe, céus, de verdade...
— Tudo bem, Ti. — Eu falei, ignorando o formigamento nas pernas.
— Precisamos tomar café e ir encontrar a banda. Você vem comigo?
Ela se levantou do chão, estendendo a mão para mim; quase soltei
um rugido ao mexer as pernas, sentido que estavam dentro de um
formigueiro, então fiquei de pé.
Tiana me ajudou a arrumar o quarto e fomos para a cozinha, onde
eu procurei por um pacote de bolachas antigas, achando um que deveria
ter comprado na última vez que tinha ido na padaria; entreguei a ela,
envergonhada.
— Eu preciso muito ir ao mercado.
— Podemos ir juntas; e precisamos de concentração nos próximos
dias, para cuidar da reforma da sede do Clã.
Eu suspirei.
— Não acredito que nós duas vamos fazer isso mesmo — falei,
deixando um sorriso escapar. — Nunca participei de algo tão grande e
importante. Não sei se vou conseguir lidar com tudo...
— A parte complicada exige pessoal qualificado — Tiana respondeu,
diplomática, enquanto devorava as bolachas com gosto. — Finanças,
engenharia civil, até mesmo a decoração e a propaganda. Nós só vamos
fiscalizar a qualidade do projeto final e daí em diante mantê-lo
funcionando.
— Vai ser mais tranquilo do que pensei, então.
— Sim. Imagino que a publicidade vai ser monitorada, na maior
parte, por Philip, já que a banda é o carro-chefe da nossa propaganda.
Além disso, eu tenho alguns primos que me devem favores e são
excelentes profissionais, aliás.
— Parece que você já cuidou de tudo. Eu não sei como é que eu que
assino como líder do projeto.
— Bela, você é o símbolo — Tiana respondeu; coloquei um copo de
água no balcão e ela bebeu toda a água antes de responder. — Os jornais
ainda comentam sobre a garota de cabelo vermelho que entrou por uma
corda no teto; e depois da entrevista que deu...
— Aquilo foi um vexame — eu interrompi, fazendo careta.
— De modo algum. Bela, as pessoas ficaram do seu lado, a repórter
foi massacrada pela falta de profissionalismo, e se não sabe da
enchorrada de comentários sobre, é porque não tem usado a internet
frequentemente.
Eu não reparei que tinha a boca aberta em choque até falar.
— É sério?
— Sim — Tiana respondeu. — E ainda hoje, eu preciso falar com um
certo investigador e pegar a lista de nomes de vítimas e seus estados
atuais para enviar a proposta do Clã.
— Tiana, você... você é incrível — eu murmurei, avançando sobre o
balcão beijando a bochecha dela. — Caramba, eu não sei o que faria sem
você.
Ela soltou um riso, limpando os farelos de bolacha da boca e dando
outro beijo na minha bochecha em resposta.
— Bem, é o que amigos fazem, certo? Lavam as mãos uns pelos
outros. — Tiana me esticou um terço das bolachas, sem ter noção de
como sua frase mexera comigo, com todas as coisas que ainda
precisávamos falar sobre, incluindo sua cura milagrosa. — Ou dividem um
pacote. Ia te dar metade, mas estou estupidamente faminta hoje.
Apenas assenti, comendo as bolachas em silêncio e escutando
conforme ela me dava uma pequena aula de como administrar um
projeto beneficente. Qualquer um que olhasse aquela mulher brilhando
ao explicar aquilo brilharia igualmente.
Depois que ambas havíamos comido, dei a ela uma toalha e um
sabonete novo para que tomasse banho enquanto eu terminava de limpar
a sala — a mesa de centro pregava graças a gordura e refrigerantes de
ontem.
Ela saiu do banheiro com os cabelos molhados e me encarou por um
ou dois instantes antes de abaixar a cabeça e entrar no quarto para
trocar as roupas; Tiana ressurgiu de novo usando um vestido branco com
pequenas mangas e um sorriso pequeno e tímido.
Ela estava expondo as cicatrizes que cobriam as pernas, agora...
apenas quase completamente, depois do inferno que acontecera no dia
anterior.
Eu não sabia se ela pensava menos do que eu, ou mais... sobre a
cura que lhe custara dor intangível.
— Nós duas vamos nos encontrar com a banda hoje — eu falei. —
Tem certeza de que está segura com essa roupa?
— Não gostou?
— Sabe que amei, mas quero ter certeza de que se sente bem.
Podemos ir embora no momento que quiser.
Ela assentiu, e, depois, disso, fui até o quarto vestir alguma coisa
que não fosse um pijama; me enfiei por dentro de um short jeans preto e
uma camiseta branca, sem muita vaidade; talvez aquilo fizesse Tiana
mais confortável: ser a mais arrumada entre nós. A mais bonita.
A loira abriu um sorriso ao me ver, revirou os olhos e abriu a porta
de minha casa, saindo comigo logo atrás; na garagem, não era meu carro
que nos esperava, cujo havia deixado entre os carros no estacionamento
subterrâneo chique do pai dela, mas sim o mesmo Tucson bege.
Precisei sair de casa com o carro para que a garagem pequena de
minha casa não atrapalhasse Tiana a entrar, e, depois que o portão
estava trancado, partimos com a rádio ligada, uma música sertaneja
conhecida tocando. O silêncio permaneceu até que a olhei de soslaio e
comecei:
— Sobre o que aconteceu ontem...
Assisti conforme o pescoço de Tiana tremeu com um calafrio.
— Nós sabemos que aquilo não é normal, Ti — sussurrei, em
resposta, ela se abraçou e eu engoli em seco. — Algo está acontecendo,
algo ruim. Deveríamos ter ido ao hospital.
— Não quero ir ao hospital — ela retrucou. — Não conseguiram me
ajudar no hospital, não me ajudarão agora, Bela.
— Mas ontem, aquilo... — Tiana desviou o olhar, apreensiva. Eu tinha
ignorado algo daquela magnitude até o momento, mas não conseguia
mais fingir que tudo estava como de costume. — Dei a noite para você,
para que pudesse pensar. Precisamos entender aquilo de alguma forma.
Se voltar a acontecer, se acontecer frequentemente... não entendo nada
disso, Ti, e não consigo lidar com isso sozinha.
— Não quero que o faça, Bela — ela disse. Quando o semáforo
vermelho me fez parar, Tiana usou as mãos para segurar meu rosto e me
obrigar a encará-la. Seus olhos cor de avelã estavam alertas, arregalados
e perfurando minha alma. — Só diga que vai ficar comigo. Diga que vai
continuar do meu lado, não importa o que isso signifique.
Minha respiração falhou.
— Não posso assistir você enlouquecer, Tiana — sussurrei, sentindo
a respiração dela em meu rosto. — Não posso perder a única coisa de
Lilian que me restou.
Decepção manchou a expressão de Tiana, e afastei meu rosto para
voltar a dirigir. Ela preferiu ficar em silêncio a tentar me persuadir, mas
vê-la recolhida em direção à janela ainda mexia com algo em meu peito.
— Não temos ideia do que aconteceu com você — recomecei. — Se
é genético, se tem ligação com o incêndio... ainda acho que um hospital
poderia fazer algo por nós. — A loira suspirou. — Tudo bem, Tiana, isso é
escolha sua. Mas não vou, mesmo, assistir essa coisa te destruir. Se
acontecer de novo, se te machucar, você vai para o hospital.
— Bela...
— Não vou ficar presente sem fazer nada enquanto algo inexplicável
acontece — soltei. — Não vou. Não consigo passar por isso outra vez,
Tiana. Se for para ser assim, me afastarei de você, ficarei longe, deixarei
que lide com isso da forma que quer, mas não estarei presente para mais
nada.
Os olhos de Tiana se abriram mais, e tentei ignorar quando piscou,
virou o rosto e esfregou os olhos. Odiava vê-la de tal forma, mas não a
veria pior.
O incêndio tinha queimado coisas muito além da pele. Tinha me
destruído assim como a morte de meu pai; no fundo, minha alma era um
retalho gasto prestes a se rasgar, e tudo que eu poderia fazer par evitar
isso... era ficar longe. Me manter preocupada, paranoica até... acabaria
com o resto de mim.
Ainda não queria me perder.
Ainda era a mesma covarde.
— Falei que estaria aqui por você sempre que precisasse de ajuda.
Mas o que você quer é que eu veja você ser torturada por essa... coisa e
fique inerte. Não posso, por favor, Tiana, não posso.
Ela ficou calada, olhando a janela do carro. Estava decepcionada, e
parecia que queria mais de mim. Esperava mais de mim. Tiana não viu
quando um par de lágrimas escorreu por minhas bochechas, ou não se
importou o bastante para falar mais nada.
— Realmente quer ir ver banda? — foi tudo que ela perguntou.
Pensei em responder que não, virar o carro, dizer que tinha passado
mal. No entanto, quando fui assediada pela repórter, Tiana e Kieran
tinham me ajudado, embora ele tivesse me segurado no lugar e impedido
que eu fosse proteger Tiana; aquilo tinha sido bom de alguma forma, e
agora, só conseguia pensar nisso.
Devia algo a Kieran.
— Você quer? — questionei, engolindo em seco.
Tiana deu de ombros.
Suspirei.
Então iriamos mesmo — aceitei, quando chegamos na rua do prédio
e Tiana não protestou.
Seria complicado, sair do carro, fingir que nada tinha acontecido.
Poderia assentar um pouco as coisas entre eu e ela, ou simplesmente
iniciar uma bola e neve para esmagar alguém mais tarde. Contudo,
respirei fundo, estacionei na entrada e suspirei, ao soltar o cinto e sair do
carro.
Quando me aproximei pelo lado da fora e abri a porta de Tiana, ela
saiu sem me olhar nos olhos, então abaixou a cabeça, parecendo se
lembrar do estado que seu rosto estava — e que mais pessoas novas o
veriam e reagiriam a ele.
A diferença era que todos, exceto por Philip que já a tinha visto,
estavam no incêndio. Também tinham cicatrizes e deformações como eu,
como ela, e talvez fossem entendê-la melhor que qualquer um. Pelo
menos, eu confiava que o fariam.
— Por favor, Tiana — comecei —, não se esconda dessa forma.
Estiquei a mão para erguer o queixo dela, mas não fui permitida a
tocar em seu rosto quando ela segurou minha mão com firmeza e a
abaixou. Não precisava de mim, não me queria. Não quando eu
discordava dela — e não queria ver ela se destruir com algo que não
poderia controlar.
Precisei empurrar garganta a baixo tudo que queria dizer a ela. Cada
pequena sensação e insegurança, sentimento e elogio. E, quando sabia
que não tinha mais o que fazer por ela, chamei a campainha.
— É a Isabela — eu avisei, quando uma voz perguntou quem era.
Não sabia dizer com certeza se era Philip ou Kieran, mas todos me
conheciam, então a porta estalou alto e abriu.
Deixei Tiana passar primeiro; não fiz mais que guiá-la e segurar a
porta do elevador, evitando encarar demais quando